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Em nome da lei
Fernando Francischini
Delegado Federal
Preparação de texto e organização
Miriam Karam
Capa
CCZ Comunicação
Imagem da capa
Agência Estado
Projeto gráfico e diagramação
Clarissa M. Menini
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira
Francischini, Fernando.
Em nome da lei - a história da prisão do maior traficante do
mundo, Juan Carlos Ramírez Abadia / Fernando Francischini;
organizadora: Miriam Karam. - Curitiba, PR : Editora Fator,
2010.
144 p.: il. ; 21 cm.
ISBN 978-85-63776-00-6
1. Abadia, Juan Carlos Ramírez, 1963- . 2. Narcotraficantes
– Colômbia. 3. Investigação criminal – Brasil. I.Karam, Miriam.
II. Título.
364.17709861
CDD ( 22ª ed.)
Rua Joaquim Amaral, 852 A Jardim das Américas
Curitiba – PR | CEP 81530-430
Tel.: 41 3024 0103
2a. edição
Impresso no Brasil
Agradecimentos
Aos policiais federais e agentes da Drug Enforcement Administration (DEA)
que participaram ativamente das investigações que culminaram na prisão do traficante Juan Carlos Ramírez Abadia. Sem sua dedicação e eficiência essa operação
não teria sido realizada com tamanho êxito.
À minha família, que soube suportar as ausências e me deu o apoio necessário
para que minha dedicação pudesse ser efetiva, obtendo o resultado almejado.
O Senhor é o meu pastor
Salmo de Davi
1. O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.
2. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.
3. Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do seu
nome.
4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum,
porque Tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.
Sl. 23, 1-4
Índice
Apresentação por Beto Richa
9
Prefácio por René Dotti
11
Introdução
17
A identificação
21
A prisão
31
A chegada
41
A operação
51
A história
61
A investigação
69
O homem de US$ 1,8 bilhão
77
Agosto, o mês do cachorro louco
85
Os depoimentos
91
As ruas e as rotas
95
A entrevista
101
A palestra
117
Apresentação
A situação caótica da criminalidade no Paraná tem origem nas drogas,
o grande mal deste século. Por isso, o trabalho de combate ao tráfico
precisa ser sistêmico e integrado entre as três esferas de poder: federal, estadual e municipal. Mas é preciso também a participação da sociedade, que tem função estratégica; associações, igrejas, escolas, todos
temos responsabilidades no enfrentamento ao problema e no trabalho
para recuperar o futuro de tantos jovens e crianças que sucumbiram no
submundo das drogas.
Como prefeito de Curitiba no período de 2005 a 2010, senti na pele o
problema se alastrando no seio das famílias em Curitiba e na Região
Metropolitana. Pais e mães desesperados me pediam ajuda. Decidi,
então, convidar o delegado da Polícia Federal Fernando Francischini,
que passava por um momento de grande reconhecimento na instituição,
para me ajudar na dura tarefa de lutar contra as drogas.
9
Fui direto à fonte – e a Polícia Federal tem um histórico de combate implacável ao tráfico -, fui em busca do homem que havia prendido um dos
maiores traficantes de drogas do mundo, Juan Carlos Ramírez Abadia.
Para minha satisfação, Francischini aceitou o convite e juntos criamos a
primeira Secretaria Antidrogas em uma capital brasileira.
E aí vem a grande diferença do nosso trabalho: o foco principal da secretaria não é a tarefa policial (prisões e apreensões de drogas) e sim a
educação, a conscientização e capacitação dos jovens para defenderem-se das drogas. Francischini dedicou-se por dois anos a esta luta, que
também envolveu toda a sociedade paranaense; conseguiu unir igrejas,
conscientizar pais, mães e professores; formar uma rede de informações
estratégicas para repassá-las à polícia, sem comprometer o informante.
E, finalmente, preparar terreno para um projeto piloto de recuperação
da dependência química do crack para crianças e adolescentes carentes
de Curitiba.
Este livro traz a experiência de um policial extremamente competente e
dedicado ao trabalho de prevenção às drogas junto à sociedade. Além de
amigo pessoal, Francischini tornou-se um importante representante e
interlocutor dos profissionais de segurança pública do Paraná.
Beto Richa
Prefeito de Curitiba (gestão 2005-2010)
10
Prefácio
O registro das experiências humanas, nos mais distintos campos de atividade, constitui uma valiosa contribuição para a sociedade do presente
e do futuro. Entre as diversas modalidades de gravação estão as mais
antigas: a impressão de sinais e imagens sobre material mineral sólido e
sobre um suporte de papel, em forma de livro. A Cultura e a Civilização
dos povos acolheram o significado da sentença latina: verba volant; scripta manent (as palavras voam; o escrito permanece).
Fernando Francischini certamente compreendeu o valor dessa antiga
máxima e decidiu divulgar em livro algumas passagens fundamentais de
suas experiências funcionais, como delegado de Polícia Federal e titular
da Secretaria Antidrogas do município de Curitiba. Esse importante
órgão de Política Criminal foi concebido por ele na gestão do prefeito
Beto Richa, que o nomeou para dirigi-lo a partir de sua criação, em abril
de 2008. Com um expressivo detalhe: foi a primeira, no gênero, em todo
o país. Lembro que a minha atenção para com o seu fecundo trabalho
11
foi despertada pelo artigo “Tráfico de drogas x homicídios. A prisão de
quantos Abadias são necessárias?”, publicado com destaque na Gazeta do
Povo, em 29 de janeiro de 2008. No referido texto, o delegado Francischini decifrou o enigma da esfinge acerca do imenso número de chacinas
e outras formas bárbaras de homicídios praticados nas últimas décadas
em nosso país, especialmente nos grandes centros urbanos e periféricos.
E não foi devorado pelo fabuloso monstro da Grécia mitológica, como
tem ocorrido frequentemente com inúmeros responsáveis pela planificação e execução de (más) políticas de segurança pública. Pretende-se,
equivocadamente, combater o aumento da violência e da criminalidade
com o endurecimento da lei penal e a restrição das garantias processuais, como se a epidemia pudesse ser debelada com a homeopatia. Ao
contrário, Fernando Francischini resolveu o enigma com duas lúcidas
conclusões no mencionado texto: “A relação entre o tráfico de drogas e o
aumento das taxas de crimes violentos, como homicídios, está cada vez mais
nítida. A atuação repressiva do Estado sem a contrapartida preventiva não
obtém resultados palpáveis”.
Esta mensagem tem um caráter evidentemente preventivo e um objeto
muito claro quanto ao combate inteligente da violência, que é um dos
afluentes que deságuam no caudaloso rio do tráfico de entorpecentes
e drogas afins. Seu depoimento é ilustrativo quando se refere à organização da criminalidade que dirige esse mercado negro. Vale repetir: “O
organograma é piramidal e seus integrantes são ‘descartáveis e substituíveis’,
com maior ou menor grau conforme o posicionamento na estrutura. Funcionam como uma empresa: graus de chefia, divisão de funções, planejamento
estratégico, logística apurada, departamento financeiro, assessoria jurídica e
tecnológica, corrupção estatal, bem como, pasmem, uma política bem definida de recursos humanos” (“Tráfico de drogas x homicídios”, cit.).
Um detalhe impressionante: estudos realizados no Rio de Janeiro demonstram que cerca de 70% dos homicídios resultam de disputa pelos
pontos de venda de drogas; da cobrança de dívidas dos dependentes e
dos traficantes intermediários; do desespero dos consumidores na busca
12
de dinheiro para manter o vício, além dos confrontos de quadrilhas. O
delegado Francischini informa que o Estado do Paraná é rota do tráfico
internacional de drogas e de armas porque está em região fronteiriça
com o Paraguai, com destaque para as cidades de Foz do Iguaçu e Guaíra e dos 173 quilômetros do lago de Itaipu, onde diuturnamente grandes apreensões são feitas. As principais organizações criminosas estão
em São Paulo e Rio de Janeiro, atuando na receptação de drogas e armas
de fogo.
O gravíssimo problema já chegou a Curitiba e região metropolitana.
Tratando-se de áreas de desenvolvimento econômico, são alvos de quadrilhas do tráfico ilícito, que geram o aumento da violência. Esta é a
constatação de uma autoridade experiente e corajosa. Começa, a partir
daí, a relação entre drogas e mortes; entre criminosos e vítimas; entre
Polícia e Justiça Criminal.
A Política Criminal, como já foi dito por alguém, “é a sabedoria legislativa do Estado na luta contra a violência e a criminalidade”. Surge, então, a
pergunta: é possível reduzir o grande número de homicídios dolosos em
nossa cidade e nas regiões vizinhas, em estatística que ganhou lamentável repercussão nacional?
Conforme o diagnóstico feito por Francischini, a maior causa da violência
em nosso país está ligada ao tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins.
Ele enumera como ocorrências frequentes: homicídios (na modalidade de
chacina), latrocínios, roubos, sequestros relâmpagos e extorsões que compõem o sinistro repertório alimentado pelas drogas. Sugerindo medidas
alternativas, de caráter social, para a prevenção de muitos desses atentados, ele observa que os municípios podem desenvolver projetos de extraordinária eficácia. Mesmo não exercendo o poder constitucional inerente
às polícias civis, de apuração das infrações penais, os municípios podem
participar do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas, criado
pela Lei nº 11.343, de 23.8.2006. O SISNAD visa prevenir o uso indevido de drogas e promover a reinserção social de usuários e dependentes.
13
A coordenação municipal de projetos de lazer, esporte e cultura nas regiões pobres das cidades e direcionados para crianças, adolescentes e
jovens de até 25 anos, é um dos caminhos eficientes de Política Criminal
para retirar da marginalidade seres humanos utilizados pelas organizações criminosas pela falta de oportunidade em empregos lícitos.
O crime e a violência de um modo geral são fenômenos complexos, produzidos por variadas causas e circunstâncias. Não é possível enfrentá-los somente com a ameaça da pena, por mais grave que possa ser. A
perda da liberdade do infrator não constitui um meio suficiente para
prevenir a reincidência ou neutralizar a vontade ilícita se o Estado não
conceber e executar uma eficiente Política Criminal. A luta contra a delinquência deve ser orientada pela conjugação das instâncias formais e
materiais de reação. Constituem exemplos da primeira, a lei, a polícia, o
Ministério Público, os juízes e tribunais, os órgãos de execução da pena
e os estabelecimentos penais. E são exemplos da segunda a família, a
escola, a religião, a universidade e as organizações não governamentais.
A “contrapartida preventiva” a que alude Francischini em seu artigo, para
complementar a “atuação repressiva do Estado”, tem o seu foco na educação das crianças e dos adolescentes. Partindo da teoria para a prática, ele
concebeu e executou projetos destinados a promover a autoestima das
vítimas das drogas, mostrando-lhes caminhos saudáveis como antídotos
eficientes para prevenir os malefícios do simples uso ou da dependência.
Alguns programas executados pela Secretaria Antidrogas, sob a liderança de Fernando Francischini, obtiveram excelentes resultados porque
partem do princípio da não violência para combater a violência. A lição
da experiência prosperou e os meios e métodos contra a proliferação
das drogas ilícitas virou modelo em muitos municípios paranaenses que
também criaram secretarias com essa finalidade específica.
O livro Em nome da lei mostra a outra face da criminalidade violenta,
quando os poderes públicos e qualificados gestores de programas preventivos investem na educação, no lazer, no esporte e na cultura como
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terapias para salvar a infância e a juventude da tentação das drogas ou do
tratamento para deixá-las. Revela, também, que a prisão do traficante e
a perda de bens materiais obtidos com o hediondo comércio é a resposta
necessária para desmistificar esse agente de viagens alucinantes que, aparentemente destinadas ao paraíso, fazem uma escala no purgatório até
chegar ao inferno. E, na maioria das vezes, sem o bilhete de volta.
René Ariel Dotti
Advogado — Professor Titular de Direito Penal — Medalha Mérito
Legislativo da Câmara dos Deputados — Presidente da Comissão
Nacional da OAB para Defesa da República e da Cidadania.
15
Introdução
Quando aquele homem baixo, mas forte, desceu de um veleiro numa
praia do Ceará, ninguém da Polícia Federal que o vigiava poderia imaginar sua identidade; nem o que ele representaria nos próximos três anos
ou o desfecho que o caso teria e a repercussão no país, no mundo e na
própria instituição.
O fato de estar sempre de óculos escuros e nunca tirar o boné não chamava a atenção. Afinal, o dia ensolarado e a areia branca justificavam a
proteção de um suposto turista rico que aproveitava aquela maravilha da
natureza para descansar.
Era agosto de 2004. A prisão do perigoso traficante de drogas Juan Carlos Ramírez Abadia só aconteceria em outro mês de agosto, em 2007.
Nesse período, Chupeta, como era conhecido o bandido (em português
o apelido soa ainda mais ridículo que em espanhol, língua em que significa pirulito), montaria uma organização ramificada por seis Estados
brasileiros, com 17 empresas de fachada que movimentariam cerca de
17
US$ 70 milhões mensais com o tráfico de cocaína.
O valor impressiona mas não chega perto dos US$ 7 bilhões que lucrava o Cartel de Cali, organização criminosa onde Chupeta deu seus
primeiros passos e aprendeu tudo o que deveria saber para se tornar o
traficante mais procurado no mundo na época de sua prisão, com a cabeça a prêmio. O governo norte-americano garantia o pagamento de US$
5 milhões a quem desse informações que levassem à captura de Abadia.
Mas sua identificação apresentava um componente que dificultava em
muito a missão. Além de toda uma estrutura montada com alta tecnologia de comunicação e despiste, Abadia se submetera a uma série de
cirurgias plásticas, modificando o corpo e o rosto de forma espantosa.
Era o homem das mil faces. Literalmente.
Mas nada diminuiria o ânimo da Polícia Federal para tirá-lo de circulação. Quem de nós trabalha com a repressão a entorpecentes carrega
marcas profundas de dor e revolta pelo que vê diariamente nas ruas e
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Em nome da lei
nos noticiários. As drogas, principalmente o crack, estão matando nossos jovens e até crianças, destruindo vidas e famílias inteiras, corrompendo futuros promissores e jogando no lixo os esforços de tantos quantos dedicam a vida ao combate ao tráfico e à recuperação de dependentes
químicos.
Os entorpecentes representam um mal em praticamente todo o mundo.
A cada dia aumenta o número de países nos quais atuam quadrilhas
transnacionais. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime
(Unodc) avalia que o combate ao tráfico só consegue retirar das ruas
cerca de 40% da produção mundial de cocaína, estimada em 850 toneladas ao ano. Os 60% restantes alimentam um mercado formado por
25 milhões de usuários que colocam nas mãos dos traficantes um valor
próximo aos US$ 50 bilhões por ano.
Isso dá um imenso poder de fogo aos barões do pó, como são chamados os temíveis chefões das grandes organizações criminosas que atuam
principalmente em alguns países da América do Sul, especialmente a
Colômbia. O desmantelamento dessas quadrilhas é um trabalho que
não pode ter descanso.
Mas esta é uma missão que só alcançará sucesso verdadeiro quando diminuirem as terríveis consequências registradas na outra ponta: quando
conseguirmos diminuir o número de usuários e obtivermos a recuperação de tantos que sofrem – e às vezes nem sabem disso – com o vício, a
drogadição.
Tal certeza e preocupação levaram, em 2008, o então prefeito Beto Richa a me convidar para juntos encontrarmos uma forma de envolver o
município de Curitiba no combate a esse mal do século. E foi a mesma
certeza que me levou a propor a criação da primeira Secretaria Municipal Antidrogas de uma capital brasileira, que começa a apresentar resultados animadores.
Mas esta é uma tarefa de todos. Sem exceção.
Fernando Francischini
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A identificação
A identificação de Juan Carlos Ramírez Abadia ocorreu apenas um mês
antes da prisão do traficante no condomínio Aldeia da Serra, em São Paulo.
Durante quase três anos, a Polícia Federal empregou boa parte de seu tempo vigiando, muito de perto, um homem de quem se conhecia praticamente
tudo, até os hábitos mais corriqueiros. Mas ninguém sabia quem era.
As várias residências do traficante eram observadas cuidadosa e ininterruptamente em seis Estados das regiões Sul e Sudeste: São Paulo (capital, Campinas e Barueri), Santa Catarina (Florianópolis), Rio Grande
do Sul (Guaíba), Minas Gerais (Pouso Alegre), Rio de Janeiro (Angra
dos Reis) e Paraná (Curitiba).
E simplesmente não era possível identificá-lo. Dezenas de identidades,
todas falsas é claro, foram checadas nesse período e centenas de fotografias analisadas. As inúmeras cirurgias plásticas estavam cumprindo o
propósito de esconder os traços verdadeiros de Abadia.
21
Abadia: pego pela câmera de um shopping de Curitiba
Sabia-se, pela movimentação e pela riqueza demonstrada e, de certa
forma ostentada, que se tratava de alguém muitíssimo importante no
tráfico internacional de drogas. Mas quem? Era apenas o “Big Fish” nos
relatórios e nas conversas entre as equipes da Polícia Federal que trabalhavam no caso.
Se o traficante tivesse sido preso naquele período, era quase certo que
sua verdadeira identidade jamais fosse conhecida e ele não pudesse ser
julgado pelas 300 mortes de que era acusado na Colômbia e outras 15
nos Estados Unidos. Com muito dinheiro e acusações menores, era
provável que estivesse livre novamente em pouco tempo para continuar
aterrorizando o mundo e até mesmo comparsas acostumados a ver os
atos mais cruéis de que já se ouviu falar.
Aliás, isso ficou demonstrado no episódio de sua identificação. A Polícia
Federal dispunha de autorização judicial para grampear telefones e abrir
o sigilo de Abadia na internet. Acontece que as equipes do traficante
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Em nome da lei
espalhadas pelo Brasil e no exterior trocavam chips e aparelhos celulares
a cada três meses no máximo. Cerca de 70 chips de celular eram usados
ao mesmo tempo, o que dificultava a obtenção dos números para poder
grampeá-los.
Na casa em que o traficante estava no momento de sua prisão, foram
encontrados 150 aparelhos de telefonia celular. Diz a lenda que Abadia
usava um telefone apenas uma vez. Em seguida, descartava-o para dificultar as investigações. Dinheiro para isso não faltava.
Todo o grupo que o cercava, e ele mesmo, tinham as identidades mudadas de tempos em tempos. A cada período era necessário praticamente
recomeçar quase do zero.
Também as reuniões dos asseclas de Abadia eram feitas de uma forma
inusitada para despistar a vigilância. Certa vez, seguindo o grupo de traficantes colombianos que atuava em Curitiba, os agentes federais esperaram o piloto André Luiz Telles Barcellos, que desceu no Aeroporto
Afonso Pena em vôo comercial.
O piloto encontrou algumas pessoas e todos entraram num Fiat Doblò,
que estava no estacionamento do aeroporto. Mas não foram a lugar nenhum. Simplesmente ficaram rodando durante uma hora na região de
São José dos Pinhais, na Grande Curitiba.
Depois de deixarem André Barcellos novamente no aeroporto, um deles
levou o carro até um estacionamento da Rua Vicente Machado, centro
de Curitiba. Descobrimos então que a quadrilha mantinha um veículo em cada um dos aeroportos de São Paulo e Porto Alegre, além de
Curitiba, para usar nas reuniões. Cada veículo estava em nome de um
laranja, depois investigados e presos.
E aí entra uma regra apontada pela sabedoria popular que já se tornou
lugar comum em histórias e filmes policiais: em algum momento o vigiado há de cometer um erro. Até o mais treinado e poderoso chefão do
tráfico internacional de drogas sucumbiu.
Fernando Francischini
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Certo dia, num momento de descuido, Abadia usou o telefone “errado”:
um celular grampeado com autorização da Justiça Federal de São Paulo
que não havia sido protegido pelos equipamentos de despiste da quadrilha. A ligação foi feita para um dos comparsas e falava sobre o Uruguai.
Abadia cobrava resultados de suas aplicações e a montagem de uma empresa de investimentos naquele país.
E a voz de um dos homens mais procurados por praticamente todas
as polícias e serviços de inteligência do mundo ficou gravada. Era um
trunfo apenas sonhado até então. A voz de Abadia foi enviada à Drug
Enforcement Administration (DEA), agência de combate ao tráfico de
drogas dos Estados Unidos.
A gravação percorreu inúmeros presídios federais norte-americanos
sendo apresentada a dezenas de traficantes colombianos extraditados e
em processo de negociação, ou seja, delação premiada. Aqueles bandidos estavam entregando comparsas para diminuir suas próprias penas
ou para serem colocados em prisão domiciliar.
O silêncio e as negativas chegaram a impressionar os agentes da DEA,
que, em alguns casos, percebiam que o terror se estampava no rosto dos
presidiários. O medo os impedia de falar.
Até que, em Miami, um homem chorou. Tremeu ao ouvir a voz e, chorando muito, desesperadamente, repetiu várias vezes: “É o Chupeta, é o
Chupeta”. O apelido de Chupeta fora dado por um tio porque o perigoso
traficante comia muitos doces quando criança. Um apelido tão ridículo
não comprometeu o crescimento desse capo, nem tanto doce diminuiu
sua crueldade. A partir daí, vários colombianos encorajaram-se e foram
unânimes em reconhecer a voz de Abadia.
O primeiro a falar foi um colombiano também preso e extraditado para
os Estados Unidos chamado Victor Patiño Fómeque, apelidado Químico,
que tinha motivos de sobra para temer Chupeta. Juan Carlos Abadia fora
responsável pela morte de 35 pessoas de sua família. Só restavam ele e a
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Em nome da lei
mãe, que está sob proteção da polícia norte-americana, incluída no programa de proteção a testemunhas.
O homem contou que toda a família estava envolvida no tráfico e um de seus
irmãos era o braço direito e laranja de
Abadia na Colômbia. Acontece que o tal
Procurado: cabeça a
homem de confiança se recusara a devolprêmio por US$ 5 milhões
ver uma enorme fazenda com milhares de
de dólares
cabeças de gado e cavalos de raça que havia
sido colocada em seu nome para encobrir a identidade do verdadeiro
proprietário.
Os capangas do chefão foram eliminando a família do tal traidor um a
um, sem poupar velhos e crianças. Amigos e advogados também fazem
parte da lista dos mortos. Era preciso ser exemplar para evitar novas e
futuras traições. O traidor sofreu crueldade ainda maior. Foi morto, esquartejado e suas partes espalhadas pela região. Então, o próprio Abadia
telefonou para a mãe do morto e indicou cada um dos locais em que ela
poderia recolher braços, pernas, corpo e cabeça do filho. “O tráfico não
perdoa. Ele matou toda minha família”, relatou o preso colombiano.
O traficante de Miami também confirmou à DEA detalhes dos atos e
crueldades cometidos pelo impiedoso chefão. Naquele momento, Abadia era um dos dez criminosos mais procurados pelo Federal Bureau of
Investigations (FBI) em todo o mundo, e tinha a cabeça a prêmio no
valor de US$ 5 milhões. Era julgado quase tão perigoso quanto o megaterrorista Osama Bin Laden – cuja captura estava pagando recompensa
de U$ 25 milhões por ter planejado os atentados terroristas conhecidos
como “11 de Setembro”, que derrubaram as torres gêmeas de Nova York
e levaram à morte mais de 3 mil pessoas de diversas nacionalidades.
Fernando Francischini
25
26
Em nome da lei
Caça ao tesouro
Quando a correspondência da DEA chegou à Polícia Federal em São
Paulo, instalou-se um misto de júbilo e preocupação. Finalmente “Big
Fish” fora identificado. O texto do documento dizia em suma: “Quem
está com você é o maior traficante do mundo....”
Tanto trabalho, afinal, não fora em vão. Sabíamos que era um peixe
grande, mas ninguém imaginava que podia se tratar da figura mais importante, naquele momento, do maior cartel de drogas da Colômbia, o
Cartel del Norte del Valle, produtor e distribuidor de mais da metade
de toda cocaína consumida no mundo.
Alguns meses antes chegamos a desconfiar da identidade do nosso “Big
Fish”, mas avaliamos, por uma série de dados, que era praticamente impossível que fosse Abadia. Seria o contador do chefão? Alguma pessoa
muito próxima a ele? Não havia dados seguros para avaliar. No entanto,
em janeiro de 2007, as casas que a polícia colombiana invadiu, a partir
de informações que repassamos a ela, através da DEA, pertenciam ao
traficante.
Nas três casas, a polícia colombiana encontrou US$ 81 milhões em dinheiro vivo, no piso e nas paredes das construções. Havia pequenos contêineres lotados até a boca de dólares. Da parede de um lavabo, saltaram
1.309 lingotes de ouro.
Mas agora, identificado Abadia, era preciso agir rápido e com segurança.
E era preciso lidar com duas novidades que mexem com os nervos de
todos que se vêem em semelhante posição. De um dia para o outro, nosso
grupo se tornara a sensação e os heróis da Polícia Federal. Todos os olhos
se voltaram para nós. Estávamos com o maior peixe do tráfico nas mãos.
Atraímos ainda o olhar e a atenção dos serviços de inteligência de cinco
países que também queriam colocar Abadia atrás das grades: Estados
Unidos, Colômbia, Espanha, Uruguai e Argentina. Os países haviam
sido alertados pela inteligência norte-americana, que se lançou na busca
Fernando Francischini
27
Em vários endereços de Abadia,
no Brasil e na Colômbia, a
polícia encontrou pilhas de
dinheiro; na foto ao lado, a pilha
alcança a altura de um homem
de dados sobre Abadia em todo o mundo quando soube que ele estava
no Brasil e poderia ser preso a qualquer momento.
Todos queriam colaborar conosco e enviaram ao Brasil equipes e equipamentos de alta tecnologia para ajudar na captura do temido chefão do
narcotráfico internacional. E também para identificação e rastreamento
de contas. A DEA trouxe, por exemplo, um aparelho para escanear paredes, porque já sabia que Abadia escondia dinheiro e lingotes de ouro
dentro de paredes. A Operação Farrapos se tornou então uma operação
de alta tecnologia e de cooperação internacional. Foi iniciada uma verdadeira caça ao tesouro.
Praticamente não dormimos naquele mês. A ansiedade era muito grande porque sempre havia a possibilidade de uma fuga. As equipes passaram a dormir na porta do Abadia, onde quer que ele se encontrasse. Havia muita coisa por fazer para que a prisão fosse capaz de tirar Abadia
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Em nome da lei
de circulação da forma mais efetiva em todos os sentidos. Um traficante
preso que ainda pode dispor de seus bens continua sendo um homem
poderoso. E perigoso.
Esta é a visão capitalista da repressão ao tráfico, criada com base na observação de muitos casos em muito tempo de trabalho no combate às
drogas. No momento da prisão, todos os bens de um traficante já devem
estar bloqueados pela justiça.
Ele não pode dispor de nada, caso contrário continuará podendo lançar
mão de recursos a fim de livrar-se das acusações, recursos e capangas
para ajudá-lo a fugir da cadeia e até sequazes dispostos a cumprir ordens
de matar pessoas, inclusive seus captores. Rico, Abadia era uma ameaça;
pobre, não passava de mais um traficante preso.
Naquele último mês terminamos de mapear todas as posses de Abadia
e identificar seus comparsas espalhados pelo território brasileiro, nos
Estados em que a organização atuava com presença física, e nos cinco
países que fizeram parte da operação.
Em cada uma dessas bases Abadia dispunha de uma equipe ligada ao
tráfico diretamente além de outras pessoas, brasileiras para melhor despistar, que serviam de laranjas e testas de ferro para os negócios de fachada e para a lavagem de dinheiro.
Naquele momento, a operação bloqueou 351 imóveis em cinco países,
aviões, submarinos, helicópteros, uma ilha no Caribe com um hotel cinco estrelas, fazendas com búfalos, enfim, uma gama sensacional de valores. E ainda viria mais, muito mais.
No dia da prisão saímos a campo com 17 mandados de prisão temporária e 30 mandados de busca e apreensão a serem cumpridos em São
Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Guaíba, Florianópolis, Campinas, Angra
dos Reis, Jundiaí, Santana do Parnaíba, Uberaba e Pouso Alegre.
Os mandados foram assinados pelo juiz Fausto de Sanctis, da Justiça
Fernando Francischini
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Federal de São Paulo. Era o mesmo juiz da Operação Satiagraha, da
Operação do Corinthians e de outras entre as operações mais complicadas. De Sanctis banca ações que poucos juízes enfrentam. Grampear
uma pessoa de quem ninguém sabe o nome, só mesmo um juiz que realmente combate o crime organizado.
A prisão
Cumpridos tantos detalhes, organizados tantos procedimentos, tantas
noites insones, chegamos à véspera do dia marcado para o cumprimento
do mandado de prisão e de alcançar um objetivo tão arduamente batalhado. Então, um pequeno detalhe, fora da alçada da Polícia Federal,
quase pôs tudo a perder.
O site do Supremo Tribunal Federal (STF) publicou o pedido de prisão
para extradição de Juan Carlos Abadia feito pelo governo norte-americano. Parece que nossos irmãos do Norte não suportaram a ansiedade e
queriam ser os primeiros a pedir o “passe” do traficante. Era já tarde da
noite e uma onda de preocupação percorreu tantos quantos trabalhavam nos últimos preparativos na Superintendência da Polícia Federal
em São Paulo, de onde coordenávamos a operação.
Naquele momento equipes de outros Estados viajavam às cegas para
cumprir mandados de prisão e busca em locais fora de suas bases. Numa
31
operação de tal envergadura, todo o cuidado é pouco. Mesmo internamente. Os policiais são convocados sem serem informados sobre a operação da qual vão participar e têm seus telefones celulares desligados.
Daquele momento em diante, eles só sabem que participarão de movimentações importantes, mas não sabem sequer para onde serão embarcados. Nada pode vazar.
Estavam envolvidos 180 policiais somente na capital de São Paulo e
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Em nome da lei
Residência em
condomínio fechado
na Aldeia da Serra
(SP) nesta casa Abadia e
a mulher, Yessica, foram
presos
mais de 200 nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A estratégia comumente
usada pela PF é fazer as buscas e prisões logo no final da madrugada, ao
mesmo tempo em todos os Estados onde se encontram ramificações da
operação em questão.
Tínhamos muita coisa para nos preocupar. O ambiente estava agitado. E
nervoso. Era preciso deixar tudo pronto, tudo bem planejado e ensaiado,
Fernando Francischini
33
sem nenhuma brecha para o acaso. Eram dezenas de alvarás assinados
pelo juiz que precisavam chegar às cidades corretas para que as prisões
fossem feitas e os locais vasculhados pelos policiais. E decididamente
não precisávamos de mais uma questão para resolver naquela noite.
Mas o susto veio à queima-roupa: o pedido de prisão de Abadia estava
lá, para qualquer um ver. Um advogado – e eram muitos os que trabalhavam para Abadia – que estivesse navegando naquele momento poderia dar o alerta e tudo iria por água abaixo. Para contornar o problema,
deslocamos várias equipes para um condomínio em Aldeia da Serra, em
São Paulo, onde fica uma das mansões usadas pelo traficante, e onde ele
estava naquela noite.
As equipes que já se revezavam há um mês na vigilância tiveram que intensificar o trabalho e passaram a noite vigiando entradas e saídas do
condomínio; elas estavam estratégicamente espalhadas em vários pontos
do local. Naquele mês, Abadia havia feito duas viagens a Foz do Iguaçu,
o que nos deixou de cabelo em pé. A fuga não estava descartada, apesar
dos grandes cuidados que tomamos. Era uma possibilidade a ser considerada. E se o traficante cruzasse a fronteira e entrasse na Argentina, onde a
polícia sabia de sua identificação? Ele poderia ser preso lá e perderíamos
o crédito depois de tanto trabalho e dinheiro público envolvidos.
Residência em condomínio
fechado em Angra dos Reis (RJ)
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Em nome da lei
Às 4 horas da madrugada do dia
7 de agosto de 2007 começaram a
chegar as equipes de várias cidades
do interior de São Paulo e de outros
Estados escaladas para participar da
Operação Farrapos. Às 5h30, com
o apoio total e irrestrito do então
Superintendente Regional em São
Paulo, delegado Jaber Saadi, fizemos
uma reunião no auditório da Polícia
Federal na Lapa, contando a que se
prestava a operação e orientando os participantes sobre a importância
da coleta de material que resultasse em provas do tráfico internacional e
lavagem de dinheiro em vários países.
Às 6 horas da manhã já estávamos, todos, em frente aos locais em que
deveríamos entrar, em oito Estados brasileiros. Nossa equipe estava em
frente ao número 71 da Alameda Dourada, no Condomínio Moradas
do Lago, região de Aldeia de Serra, município de Barueri, na Grande
São Paulo. Dado o sinal combinado, liberamos a entrada da casa de
Abadia usando um aríete, uma peça de ferro bastante pesada. Bate-se
com ela na altura da maçaneta e as travas da fechadura estouram.
Dois agentes quebraram a porta e eu subi rapidamente, baseado na planta da casa que já estudara bem, e cheguei ao quarto do casal. Acendi a luz
e ali estavam Abadia e sua terceira mulher, Yessica Paola Roja Morales,
inteiramente nus, dormindo tranquilamente na cama do casal.
Abadia foi rendido e Yessica, sua mulher, se enrolou num edredom.
Duas policiais federais femininas ficaram sozinhas com ela para que pudesse se vestir longe dos olhares masculinos. Abadia também se vestiu e
perguntou qual era a polícia que estava fazendo sua prisão. Ao ouvir que
éramos da Polícia Federal, o traficante se deixou cair sentado na cama
e colocou as duas mãos na cabeça num gesto de desconsolo, como se
tivesse percebido então que tinha finalmente perdido o jogo.
O homem mau tremeu. A música tema do filme “O Fugitivo” até que
podia servir de trilha sonora para aquele primeiro interrogatório de
Abadia. Com 315 homicídios nas costas e a acusação de tentar corromper grande quantidade de autoridades e parlamentares colombianos
para impedir a votação da lei que permite a extradição. Apesar de ter
esquartejado pessoas e ser conhecido como homem de poucas palavras
e muitos tiros, Abadia tremeu. Tremeu muito na frente do delegado no
momento do interrogatório.
Durante a revista na casa, confirmou todos os crimes – de tráfico de
Fernando Francischini
35
Em todas as casas, Abadia tinha TVs de plasma espalhadas por
todos os cômodos, até nas dependências da empregada
drogas, lavagem de dinheiro, homicídios –, e confessou estar cansado
de uma fuga que já durava muitos anos. Pedimos que colaborasse e foi
o que ele fez. Indicou, tanto naquela casa como em casas de outros Estados, os locais onde havia grandes quantidades de dólares, euro e reais
para serem apreendidos. O total, naquele dia, girou em torno de R$ 4,5
milhões, além de jóias, veículos e outros bens, como relógios e roupas
de alto valor, várias TVs de plasma e LCD, equipamentos de ginástica.
Naquele dia, Abadia foi interrogado no escritório da casa do condomínio de Aldeia da Serra, onde encontramos o computador usado para
mandar mensagens internacionais em código. O traficante dispunha de
uma ferramenta de alta tecnologia, uma técnica conhecida como esteganografia, que faz a criptografia de arquivos de áudio e texto e os esconde
em fotografias ou outras imagens. Ele usava fotos de crianças e adolescentes, seus sobrinhos, e imagens da boneca Hello Kitty, que pareciam
ser uma mania de Yessica.
36
Em nome da lei
A mesma tecnologia já serviu a outras operações criminosas. Foi usada no planejamento dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando
aviões foram lançados sobre as torres gêmeas do World Trade Center,
em Nova York, e sobre o Pentágono, em Washington. Por trás dos atos
terroristas, responsáveis pela morte de mais de 3 mil pessoas, estava a Al
Qaeda, de Osama Bin Laden.
O escritório da mansão de Abadia era decorado com centenas de quinquilharias da Hello Kitty, o que nos chamou a atenção. Ou era uma forma calculada para que a presença da bonequinha em e-mails e em torpedos pelo celular parecesse natural. Só que neste caso, a inocente boneca
cor-de-rosa escondia mensagens criptografadas com ordens para matar.
Extraímos das imagens gravações de áudio e texto, com a voz do próprio
Abadia, dando ordens de lavagem de dinheiro, entrega de valores, tráfico
internacional, informando datas de embarque e desembarque de drogas
e recomendações gerais. E até ordens para queima de arquivo. Na outra
ponta, as pessoas que recebiam os e-mails tinham de decodificar os arquivos das fotos. Mas dinheiro nunca faltou.
A quem ainda pode pensar que a vida de um traficante é cheia de aventuras, como em filmes mocinho-bandido açucarados por Hollywood,
Abadia é um dos melhores exemplos para provar o contrário. A fuga
constante acaba por tornar-se uma prisão das mais monótonas. Em cada
uma das residências de alto luxo que montou no Brasil, encontramos
inúmeros aparelhos de televisão de alta definição, outros de LCD, e caixas e mais caixas de filmes em DVD.
Abadia comprava diretamente de produtoras e estúdios de cinema todos os filmes que estavam sendo lançados. Encontramos em todos os lugares muitos DVDs de vários tipos, espécies e gêneros. Estavam lá, por
exemplo, a trilogia de O Poderoso Chefão e os filmes de Indiana Jones.
A maioria, no entanto, era de séries da TV norte-americana, como CSI
e Without a Trace. Lazer e utilidade? Ao desvendar crimes, as séries
sempre podem servir de inspiração ou revelar cuidados a tomar. O trafi-
Fernando Francischini
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O novo e o antigo: transformação impressionante
cante passava grande parte do dia assistindo filmes em casa e praticando
fisiculturismo, aliás, outra mania que tinha. Em pelo menos cinco casas
preparadas para ele encontramos academias profissionais de ginástica e
musculação.
Em vários locais também encontramos equipamento de alta geração de
criptografia de telefone celular, coisa que só existia no exterior em 2007.
Abadia havia trazido de Buenos Aires, conforme investigações que fizemos, chips de criptografia militar, o que lhe possibilitou manter o anonimato por tanto tempo e só ser identificado um mês antes da operação.
Por ter de permanecer recluso, e com dinheiro à disposição, Abadia
montou em cada Estado em que atuava um espaço para si e a mulher
com tudo o que pudesse precisar em qualquer tipo de emergência: sempre uma casa em condomínio fechado, com uma célula de pessoas ligadas a ele que não conheciam os comparsas de outros Estados. Assim,
se o grupo fosse pego e ele escapasse, poderia recomeçar vida nova em
outro lugar, já que ninguém poderia delatar as pessoas com quem ele
estava depois da fuga. A estratégia é a mesma usada pelo terrorismo
38
Em nome da lei
internacional. Em cada residência, Abadia dispunha de dinheiro, identidades novas e estrutura para começar uma vida nova.
Ao ser preso, Chupeta se dizia cidadão italiano e usava passaporte argentino (No. 16036657) com o nome de Marcelo Javier Unzue. O documento data de 23 de novembro de 2005, emitido pelo Ministério de
Governo de Buenos Aires. Naquele momento, Chupeta guardava pouquíssimas semelhanças com as fotos de alguns anos antes que constam
da lista dos traficantes mais procurados do mundo.
A mudança foi operada por um alto número de cirurgias plásticas realizadas em clínicas de São Paulo, Porto Alegre e Curitiba. Foram seis
apenas no rosto. Descobrimos que algumas foram estéticas, para esconder os traços originais da face, mas outras cirurgias foram feitas para satisfazer o ego, dele e de sua mulher. Abadia chegou a fazer implantes de
silicone nos bíceps, na batata das pernas e outros lugares do corpo para
parecer mais forte. Yessica aproveitou para passar por uma lipoaspiração, uma abdominoplastia, uma cirurgia no nariz e outra para colocação
de silicone nos seios.
A febre por operações plásticas alcançou também a família de Yessica.
Alçada a uma nova condição financeira, a mãe, Marta Morales, e algumas de suas irmãs fizeram várias cirurgias cosméticas. Yessica tinha 24
anos ao ser presa. Sempre cuidou da família em termos financeiros e o
marido foi bastante generoso com ela. Uma fonte judiciária confirmou
que desde a prisão de Yessica Roja, sua família veio diversas vezes ao
Brasil, incluindo o Natal e o Ano Novo, para ver a filha. Dizem que
a cada mês, a mãe ou uma das irmãs visitam Yessica na prisão. Ao ser
preso, o marido apaixonado tentou várias vezes salvar a pele da mulher,
repetindo aos policiais que a deixassem ir, porque nada sabia de suas
atividades.
Fernando Francischini
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A chegada
Na Polícia Federal de São Paulo há um setor, modelo para todo o país,
chamado GISE, mas conhecido internacionalmente como SIU (Unidade de Investigações Especiais), um serviço de inteligência que tem
convênio com os Estados Unidos. Os dois países têm acordos de cooperação técnica para treinamento de pessoal, intercâmbio de informações
criminais e desenvolvimento de ações integradas de investigação.
Lá estão lotados policiais federais que trabalham apenas no combate ao
tráfico internacional. Eles são muito especializados, têm treinamento no
exterior e dedicação exclusiva. Quando transferido para São Paulo para
coordenar melhor a Operação Farrapos, passei a cooperar com esse setor.
Antes, porém, em 2004, o SIU recebeu uma série de informações que
intrigaram os policiais: agentes federais de boa parte dos Estados brasileiros avisavam que o colombiano que estava sob sua vigilância estava
se deslocando para o Ceará. Uma coincidência enorme que chamou a
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Abadia trocava de refúgio constantemente e se encontrava
com capangas em estacionamentos e dentro de carros
atenção de todos. Os suspeitos eram de alto nível no tráfico internacional, mas não dispúnhamos de provas concretas contra eles. Ou a reunião
se tratava de uma conferência de luxo ou algo muito especial aconteceria
em Fortaleza.
Os colombianos que operavam no Brasil não ficaram em Fortaleza. Seguiram para Camocim, um agradável balneário de frente para o Oceano Atlântico, na costa Norte do Brasil, distante 365 quilômetros de
Fortaleza. Um verdadeiro paraíso: 62 quilômetros de litoral, a maior
costa litorânea do Estado, um espaço de dunas, praias e lagoas. Uma
curiosidade: a cidade recebeu o nome da baía onde se encontra, que em
tupi significa “buraco para enterrar defunto”.
Mas não foi exatamente para enterrar algo que os colombianos se reuniram em Camocim. Seria mais correto dizer que eles foram desenterrar,
ou saudar a chegada de um homem misterioso, mas certamente muito
importante no esquema do tráfico, o que justificaria tal movimentação.
Conta a história do município que Camocim fazia parte de uma Capitania Hereditária, mas permaneceu abandonada por muito tempo, à
mercê de corsários estrangeiros. Pois foi nesse local, com um passado de
exploração, que Juan Carlos Abadia chegou ao Brasil em agosto de 2004,
vindo da Colômbia em um veleiro de luxo.
42
Em nome da lei
A DEA tinha informações que naquela região costumava chegar muita
droga para abastecer o Nordeste brasileiro. Mas num pedaço paradisíaco de praias do Ceará, e dali até o Caribe, um veleiro não despertaria
suspeitas, a princípio, de quem quer que fosse. Depois se soube que Juan
Carlos Ramírez Abadia havia embarcado em Porto La Cruz, na Venezuela, e viajado 15 dias para chegar ao litoral brasileiro.
Os policiais enviados para vigiar a reunião de colombianos em Camocim viram desembarcar um homem baixo, forte, musculoso, sempre
protegido por um boné e óculos escuros. Abadia estava muito diferente das fotos existentes de quando era mais jovem; usava cavanhaque e
os cabelos tinham modificado de cor, estavam aloirados. Na ocasião ele
portava três passaportes com os nomes de Miguel Ângelo Cano Ramos,
Carlos Arturo Mora Calderón e José Martin Colque Cruz.
Com aquele homem desceram quatro malas enormes e, à primeira vista,
até foi levantada a hipótese de estarem cheias de drogas. Impossível. A
“expertise” da Polícia Federal registra que um chefão nunca viaja com a
droga. Raramente chega perto dela. Para isso existe todo um batalhão
a seu serviço. Além do mais, um carregamento jamais seria presenciado
por vários membros da cúpula dos cartéis colombianos em todo o Brasil. Só poderia tratar-se de alguém muito importante chegando ao país.
Mas quem?
Fernando Francischini
43
Também mais tarde soube-se que US$ 4 milhões estavam acondicionados na bagagem desembarcada em Camocim. Depois viria mais, muito
mais. Mas, ao menos por enquanto, aquilo deveria ser suficiente para
iniciar uma nova vida e implantar a estrutura necessária para que o traficante mais procurado do mundo continuasse a trabalhar a partir do
Brasil. Era o início de um novo império das drogas, que havia escolhido
o Brasil para espalhar seus tentáculos sobre o mundo.
Naquele momento uma dúvida se instalou na coordenação: o que fazer?
Abordar todo mundo, sem mandado de prisão... e se não houver droga
nas malas? Não poderíamos prendê-los, a não ser que os pegássemos em
flagrante, com muita droga. Mas os chefões do Brasil inteiro estariam se
expondo dessa forma ingênua? Estranho, muito estranho.
Depois de passar a noite na pousada mais cara de Camocim, Abadia
rumou para Sobral, uma cidade a cerca de 150 quilômetros de distância,
embarcou num bimotor e desapareceu. Naquele momento, desistimos
de abordá-lo e ali o perdemos. Ficamos um ano sem contato. Depois
soubemos que ele foi para São Paulo, montou uma super estrutura, células em várias cidades, instalou 17 empresas para lavar dinheiro... enfim,
se estabeleceu em um ano.
Mas, ainda em Sobral, descobrimos que o aviãozinho fora pilotado por
André Luiz Telles Barcellos, contratado por US$ 30 mil para levar a
figura para onde quer que fosse. Soubemos mais tarde que a aeronave
partiu de Sobral e fez o primeiro pouso na Bahia, em Bom Jesus da
Lapa, de onde seguiu para Araxá, em Minas Gerais. Ali, aquele desconhecido se hospedou por uma noite para viajar, no dia seguinte, de carro
até São Paulo.
Abadia passou a noite num hotelzinho modesto de Araxá, cidade turística procurada pelas águas medicinais e por ser o lar da mítica Dona
Beja, cortesã do Século XIX transformada em novela muito tempo
depois pela TV Manchete. Na manhã seguinte, o traficante seguiu de
carro para São Paulo, seu destino final naquele momento. São Paulo
44
Em nome da lei
era um bom lugar para passar algum tempo despercebido, em meio a 19
milhões de anônimos e desconhecidos.
Nas duas primeiras semanas na capital paulista, Abadia trocou de refúgio inúmeras vezes, sempre na região dos Jardins. Seguia à risca a lição
aprendida no Cartel do Valle del Cauca de manter o anonimato. Só abriu
exceção para mais uma manobra de despistamento: uma nova cirurgia
plástica, que deixou seu queixo quadrado e os olhos afilados como os de
um oriental. Ele havia tirado o cavanhaque para cultivar um bigode fino.
Gente em volta do traficante achou que ele ficara parecido com o roqueiro Fred Mercury, do grupo inglês Queen. Mas ninguém teve coragem
de fazer qualquer comentário. Até porque Abadia levava muito a sério
a própria masculinidade. E estava fazendo os últimos preparativos para
trazer ao Brasil a jovem e bela Yessica Paola Roja Morales, a Gegê, terceira de suas mulheres, que desembarcaria no país cinco meses depois
sob a identidade de Millareth Torres Lozano.
Mas tudo isso ainda não sabíamos. Só quase um ano depois, em 5 de
março de 2005, um acidente sem importância alguma, no Aeroporto do
Bacacheri, em Curitiba, chamou a atenção da Polícia Federal. Com três
pessoas a bordo, a pequena aeronave particular Beechcraft A-36, prefixo PR-AAJ, caíra dentro de um buraco no final da pista de decolagem.
Junto com o piloto e outra pessoa, havia um colombiano a bordo, o que
chamou a atenção. Investigações revelaram que os três haviam se hospedado num hotel três estrelas, no centro de Curitiba.
Na lista de hóspedes estavam os nomes de um passageiro da aeronave, do colombiano Efren Rodriguez e do piloto André Luiz Telles Barcellos. Eureca!! Tratava-se do mesmo piloto que transportara o misterioso personagem que entrou no Brasil pela costa do Ceará. Tínhamos
reencontrado nosso “Big Fish”.
Na conta dos hóspedes do acidente curitibano, entre muitos telefonemas,
havia ligações para a Colômbia. Indício de tráfico? De qualquer forma,
Fernando Francischini
45
não o soltamos mais. Começamos a segui-lo pelo Brasil todo – Curitiba,
Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina. Formamos um
grande mosaico com sua movimentação, porque a cada deslocamento
do traficante encontrávamos um novo endereço, uma nova empresa; na
região sempre havia um colombiano, um esquema de documentos falsos
e dinheiro escondido. Em todos esses locais Abadia encontrou um brasileiro para lhe dar sustentação e assumir os investimentos.
Os US$ 4 milhões trazidos por Abadia na bagagem deveriam servir,
pelos cálculos do traficante, para manter nos primeiros meses de Brasil
o estilo de vida que levava na Colômbia. Em suas próprias palavras, para
“viver como um rei”. O novo lar poderia representar um porto seguro
naquele momento, quando vislumbrava muito trabalho a ser levado a
cabo nos próximos meses para manter a organização funcionando.
Entre outras tarefas, seria necessário estabelecer novos canais para dar
vazão à cocaína que passaria a chegar da Colômbia. Também era preciso
montar uma fachada respeitável para legalizar a enorme quantidade de
dinheiro movimentada pelos negócios e estabelecer com pessoal brasileiro a vasta rede de operadores, tenentes, contadores, mulas e agregados
que formam a base da pirâmide do narcotráfico.
Gegê
Assim como o marido, Yessica nunca havia sido reconhecida, por amigos e parentes, pelos dotes como estudante. Em compensação, era a terceira e mais bonita das quatro exuberantes filhas de Rafael e Martha
Roja Morales, um casal colombiano de classe média que deixou a região
de Sucre para fixar moradia em Cartagena, onde imaginavam encontrar
melhores condições para criar as meninas. Aos 18 anos, Gegê havia sido
atraída para o mundo das passarelas.
Um ano depois, em 2001, ela despertou a atenção de Abadia durante
um desfile, e o julgou “muito agradável”. Do namoro ao casamento, foi
46
Em nome da lei
um pulo. E a vida dos Roja Morales mudou da água para o vinho. Logo
a família estaria morando em uma enorme mansão de Pie de la Popa,
região nobre de Cartagena. E Yessica passou a conviver com carrões importados, roupas finas e jóias, presentes do marido apaixonado.
Como Abadia, a mulher também se habituou ao luxo. E logo depois
da chegada ao Brasil passou a comprar mansões em vários Estados. O
primeiro investimento no país foi uma mansão com cinco suítes orçada
em R$ 1,5 milhão, no exclusivíssimo condomínio Moradas do Lago, em
Aldeia da Serra, área residencial nobre do município de Barueri, a 32
quilômetros de São Paulo, onde ele viria a ser preso três anos depois.
Fiel ao princípio de não guardar todos os ovos no mesmo cesto, Abadia
logo começou a estender ramificações, implantando células pelo país, espalhando casas, empresas de fachada e sócios no negócio do narcotráfico
por seis Estados do Sudeste e do Sul.
Na praia de Jurerê Internacional, em Florianópolis, Abadia comprou
uma mansão avaliada em R$ 2,5 milhões. Na mineira Pouso Alegre,
comprou o Rancho Santa Bárbara; em Angra dos Reis, uma casa de R$
700 mil no Condomínio Porto do Frade, equipada com uma reluzente lancha Azimuth 520 Full, avaliada em US$ 1 milhão. Em Curitiba,
onde instalaria por alguns meses a sede da quadrilha, outro casarão em
um condomínio de luxo no bairro Campo Comprido foi arrematado
por R$ 2 milhões. No Rio Grande do Sul, comprou uma fazenda em
Guaíba.
A compra e manutenção dessa vasta rede imobiliária exigiam, além de
dinheiro, um bando de laranjas e gente com “expertise” em corrupção de
agentes legais, falsificação de documentos e lavagem do dinheiro obtido
com o tráfico de drogas. Na condição de turista, Juan Carlos Abadia
precisava renovar o visto a cada 90 dias. Para agilizar o processo e garantir o anonimato, o colombiano contratou os serviços de uma dupla
de colaboradores em Foz do Iguaçu indicados pelo piloto André Luiz
Telles Barcellos.
Fernando Francischini
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Ângelo Reinaldo Fernandes Cassol, ex-chefe da Agência Nacional de
Aviação Civil (Anac), ligado a uma agência de turismo na cidade de fronteira, e o ex-policial federal Adilson Soares da Silva, que trabalhava no setor de Imigração, eram os responsáveis pela “cobertura” na documentação
falsa de Abadia. O traficante aproveitou-se de passaportes falsos de nacionalidade argentina e venezuelana, de vistos e prorrogação de permanência
no Brasil, com aposição de carimbos, ao preço de US$ 200 por operação.
Laranjas
O gaúcho André Barcelos, que pilotara para Abadia o primeiro vôo sobre território brasileiro, também iria ganhar papel importante na organização criminosa. Contas de sua empresa seriam utilizadas para lavar
o dinheiro da droga. A ele caberia ainda a compra de carros, imóveis e
telefones, que lhe rendiam uma recompensa mensal que variava de US$
5 mil a US$ 8 mil. Mas as compras não eram exclusividade de Barcelos.
Muitos dos negócios imobiliários, por exemplo, eram feitos pelo casal
Daniel Brás Maróstica e Ana Maria Stein, que em troca de US$ 3 mil
mensais tornaram-se os felizes proprietários – fictícios, claro – de casas, mansões e chácaras em Aldeia da Serra, Pouso Alegre e Angra dos
Reis. Com o passar dos meses, a quadrilha aumentava na medida em
que Abadia estendia suas operações.
A negociação de compra da mansão no sofisticado Jurerê Internacional,
foi fechada por Victor Garcia Verano (Peter) e sua mulher, Aline Nunes Prado. Os dois também locavam os muitos imóveis alugados pelo
colombiano em viagens pelo país, além de arregimentar laranjas para
assumir a propriedade de casas, carros e empresas de fachada.
Um deles foi o irmão do próprio Peter, Jaime Hernando Martinez Verano, responsável pelo aluguel da casa de Campinas, um endereço tranquilo no Condomínio Vila Verbenas, onde tempos depois o traficante
esconderia uma bolada de US$ 1,4 milhão.
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Em nome da lei
Teia humana
Por mais cuidadoso que fosse o “modus operandi” da quadrilha de Abadia, a movimentação de tanto dinheiro com a compra de imóveis, carros, lanchas e outros bens, e o envolvimento de táxis-aéreos, agências
de turismo e empresas de fachada e, claro, as próprias características do
narcotráfico, com a imensa teia humana formada das regiões produtoras
até o consumidor final, não conseguiriam passar incólumes para sempre.
Não demorou muito tempo para que a Polícia Federal começasse a se
debruçar sobre os rastros deixados pela quadrilha. No mundo do crime,
dizem que bandido sente de longe o cheiro da polícia. Abadia pareceu
confirmar a regra. Para Gegê – que admitia ser a única pessoa em quem
realmente confiava – ele revelou que já sentia a presença de policiais na
vigilância de membros da quadrilha e em suas pegadas.
A partir de então, já no final de 2005, a desenvoltura com que o traficante se movia pelo país, e por meio das células de sua rede de negócios, começaria a se tornar coisa do passado. De Curitiba, onde se sentia seguro
a ponto de marcar reuniões com os comparsas em movimentadas praças
de alimentação de shopping-centers, Abadia decidiu por uma apressada
mudança para Florianópolis.
As saídas do casal rarearam. Gegê já não tinha mais por onde desfilar
sua coleção de 260 pares de sapatos e 60 óculos de sol. Nem Chupeta
podia exibir os 170 pares de sapatos masculinos ou os mais de 100 relógios – de marcas como Bulgari, Rolex, Breitling e Tag Heuer – avaliados
em US$ 2 milhões. As raras escapadas tinham como destino, invariavelmente, clínicas de cirurgia plástica.
Reclusão
De volta à mansão de Aldeia da Serra, em São Paulo, o casal de colombianos passou a viver um cotidiano de reclusão. No caso de Abadia, isso significava tempo de sobra para dedicar-se a duas de suas paixões: musculação
Fernando Francischini
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Em cada casa, Abadia mantinha uma academia de
ginástica com equipamentos profissionais
e filmes, muitos filmes. Na nova casa, só a academia da marca Reebok era
avaliada em US$ 100 mil, com toda sorte de equipamentos de ginástica.
Pela mansão também foram espalhados mais de vinte aparelhos de TV,
plasma e LCD, de todas as marcas e tamanhos. Havia um, moderníssimo, até no quarto da empregada.
Apesar da vida reclusa e da apreensão com a movimentação policial, os
negócios de Abadia continuavam de vento em popa. Estimativas sobre
os valores movimentados pelo tráfico de drogas são sempre aproximadas, porque seguir o dinheiro pelos intrincados meandros do submundo
do crime e da sua legalização, da lavagem por empresas de fachada ou
em contas em paraísos fiscais, é tarefa que envolve muitos especialistas
em governos e instituições. Muitas vezes sem sucesso.
De qualquer forma, calcula-se que, no seu melhor período, a quadrilha
de Juan Carlos Abadia chegou a movimentar, na América do Sul, perto
de US$ 70 milhões mensais com o tráfico de cocaína. A manutenção
da quadrilha também custava caro. Abadia queixou-se, certa vez, a um
de seus contadores que os custos operacionais nos vários países em que
operava, por volta de 2005, estavam na casa dos US$ 5 milhões por mês.
Afinal, trata-se de um negócio altamente organizado e com ramificações
por diversos países. Sem contar que o silêncio custa caro. Muito caro.
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Em nome da lei
A operação
O nome da operação que prendeu o traficante colombiano nasceu de
uma brincadeira interna do grupo que começou as investigações. Éramos mesmo esfarrapados. O chute inicial na operação foi dado na sede
antiga da Polícia Federal em Curitiba, na Rua Ubaldino do Amaral.
Num porão de seis metros quadrados trabalhavam cinco pessoas que
disputavam dois computadores: três agentes e um escrivão, além do delegado.
A partir dessa piada caseira, adotamos o nome da Guerra dos Farrapos – 1835-1845 (também chamada Revolução Farroupilha, a rebelião
gaúcha foi comandada por Bento Gonçalves e chegou a declarar independência em relação ao governo imperial. Os revoltosos se inspiraram
na então recente independência conquistada pelo Uruguai e tiveram o
apoio do italiano Giuseppe Garibaldi, que declarou a República Juliana,
em Laguna, Santa Catarina, e junto com Anita Garibaldi lutaria em seguida pela unificação da Itália).
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Mas a relação com a Guerra dos Farrapos só apareceu quando fomos
apresentar a operação para o então diretor da Polícia Federal, Paulo
Lacerda, e para o superintendente em São Paulo, Jaber Saadi. Éramos
esfarrapados, mas não podíamos dizer que o nome era uma alusão a
nossas condições de trabalho. Aí dissemos que a escolha se deu porque
Abadia ia muito para o Rio Grande do Sul e nos sentíamos revolucionários, empenhados em mudar o combate ao tráfico. O diretor e o superintendente acharam ótima a história.
A importância da operação cresceu à medida em que se foi revelando a
atuação de Abadia no Brasil e a transformação do traficante em nosso
“Big Fish”, ainda sem nome porém. Passamos a receber apoio de toda
a estrutura da Polícia Federal. Operações deste tipo obtêm prioridade
sobre outras investigações. Abrem as portas de todos os departamentos
da polícia em todo o país.
Fui transferido para São Paulo para estar mais perto do olho do furacão,
uma vez que era lá a base do nosso peixão. Assumi a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal de São Paulo, coordenando
as delegacias que cuidam de drogas no Estado, para poder montar uma
base e levar adiante a operação. Até então, em Curitiba, eu era coordenador de operações especiais de fronteira da Região Sul. Passamos por
uma mudança fantástica: num dia estávamos em cinco num porão e no
outro éramos prioridade para a Polícia Federal.
A transferência para São Paulo aconteceu por tratar-se de uma situação
que exigia controle rígido, pois havia corrupção na polícia local. A partir
do que apuramos, o Ministério Público de São Paulo processou dois delegados da Polícia Civil paulista, um deles o próprio diretor do Denarc
(Departamento de Investigações sobre Narcóticos); e seis investigadores
da Polícia Civil. Também foram presos e condenados um agente da Polícia
Federal em Foz do Iguaçu, que ganhava dinheiro de Abadia para carimbar
os passaportes falsos, e um suboficial da Força Aérea Brasileira que comandava o aeroporto de Foz e dava cobertura aos vôos de André Barcellos.
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Em nome da lei
Em troca, Abadia comprava as passagens aéreas que precisava na agência de viagens da mulher desse suboficial. Foi uma verdadeira limpeza
em São Paulo. Alguns já foram demitidos e os condenados pegaram, em
média, 10 anos de reclusão. Os delegados respondem ao processo afastados do cargo. E os dois baseados em Foz do Iguaçu foram condenados
junto com Abadia, por corrupção.
Ao fim de investigações paralelas, a Corregedoria da Polícia Civil de São
Paulo indiciou outras 20 pessoas, sendo 17 policiais e três informantes
da polícia, os chamados gansos. Um dos policiais foi acusado de sequestrar o piloto André Barcellos e exigir veículos importados como resgate.
Com os alvos da Operação Farrapos identificados, as diligências se intensificaram e obtivemos autorização judicial para quebrar os sigilos dos
investigados. Agora já contávamos com várias equipes. Todos os nomes
que apareciam nas investigações eram vigiados 24 horas por dia. Ficamos sabendo de tudo sobre Abadia e seus asseclas, menos os nomes
reais.
O esquema de Abadia era bastante complexo e muito organizado. O
grupo usava tecnologia de comunicação internacional de difícil interceptação, programas de conversa instantânea via computador tipo MSN
e Skype. Tinha conhecimentos para burlar técnicas de investigação
policial, como o uso de celulares em circuito fechado de pessoas com
constante mudança de números e aparelhos, e comunicação via telefones
públicos.
A quadrilha tinha grande facilidade para obter documentos falsos, adquirir bens em nome de terceiros e sempre demonstrou ter muitos recursos financeiros. Nunca economizou na montagem da estratégia de
vida e de fuga de Abadia, comprando veículos caros e motos de grande
cilindrada, alugando mansões e apartamentos de alto luxo, e até adquirindo fazendas.
Fernando Francischini
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Outros frutos
A Operação Farrapos deu ainda muitos frutos depois da prisão de Chupeta. Mesmo antes havia permitido a localização das três casas na Colômbia. E logo depois, também na Colômbia, foi preso outro chefão do
Cartel del Norte del Valle, Diego Montoya, conhecido como Don Diego, o senhor da guerra. A polícia o prendeu numa casa abandonada, com
base em informações fornecidas por Abadia. A cúpula do cartel estava
sendo desmantelada. Luis Hernando Gómez Bustamante, o Rasguño
(“Arranhão”), havia sido capturado em Cuba em julho de 2004.
A prisão de Abadia desencadeou prisões também em outros lugares do
mundo. A DEA, até hoje, cita a Operação Farrapos nos relatórios internacionais como referência, porque não se tratou apenas da prisão de
alguém que passava na rua, com um mandado de prisão. Teve a inteligência de identificar os membros da quadrilha, mapear os bens e reunir
informações de muitos países.
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Em nome da lei
Fernando Francischini
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56
Em nome da lei
Às vésperas do Ano Novo de 2007, Abadia tentou fazer um acordo de
delação premiada, porque tinha medo de morrer nos presídios brasileiros. Em troca da rápida extradição, propôs entregar US$ 35 milhões
em notas de dólares e euros ainda escondidos no Brasil, revelar o nome
de mais três comparsas com mandado de prisão expedido pelos Estados Unidos; portanto, seriam peixes grandes. E daria o nome de um
brasileiro que não fora preso, que era o encarregado pelos aviões. Seria
um ótimo acordo para nós em troca da extradição, que seria concedida
de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde. O traficante reivindicou
também o abrandamento da pena da mulher, Yessica.
O juiz de primeira instância não levou em conta o pedido, mas juntou
o documento ao processo de extradição. O Supremo Tribunal Federal
(STF) e a Secretaria Nacional de Justiça ainda poderiam ter concordado
com a negociação no momento em que autorizaram a extradição. Mas
ignoraram totalmente os termos. Por conta da lei brasileira, os ministros da Corte concederam a extradição com a condição de que o governo
norte-americano assumisse o compromisso de converter uma eventual
pena perpétua ou mesmo de morte em uma pena máxima de 30 anos.
Outra condição era o desconto, na pena, do tempo já cumprido no Brasil.
Isso é o que prevê a legislação brasileira e também jurisprudência formada no STF. Assim, o governo brasileiro está impedido juridicamente de
extraditar qualquer criminoso para um país em que ele seja condenado à
pena de morte ou à prisão perpétua. O STF autorizou a extradição do
traficante em 13 de março de 2008. Mas só soubemos do final do processo
pela imprensa. Numa sexta-feira à tarde, um repórter telefonou contando
que Abadia seria embarcado para os Estados Unidos no dia seguinte.
O secretário nacional de Justiça deu parecer favorável à extradição sem
levar em consideração o que podia ser obtido com o acordo negociado. Perdemos o dinheiro, três traficantes internacionais e um brasileiro.
Que pena! Espero que o “esquecimento” brasileiro seja corrigido com
informações obtidas nos Estados Unidos.
Fernando Francischini
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Nós abrimos mão dos US$ 5 milhões oferecidos como recompensa,
porque a PF é um órgão constitucional do governo brasileiro e tem por
obrigação prender traficantes e criminosos internacionais. Pedimos então que os Estados Unidos incluíssem esse valor no acordo que existe
entre os dois países, que prevê o repasse de recursos para a PF.
No começo de 2009 soubemos de outro fato também muito mal explicado. Um homem preso pela posse de 60 comprimidos de ecstasy estava
encarcerado já há quase um ano no Centro de Detenção Provisória Pinheiros 2, em São Paulo, e só então foi levado diante de um juiz. Não
havia relação com a nossa operação, mas soubemos que o preso esteve
sob os cuidados do Denarc em São Paulo.
O tal homem que se dizia mineiro foi levado à presença do juiz possivelmente por uma equipe policial que não tinha conhecimento de algum
acordo. Quando o juiz lhe perguntou o nome, a resposta soou num forte
sotaque espanhol: “Mi nombre es Manoel de Oliveira Ortiz, soy mineiro de Borda da Mata”. O juiz, é claro, desconfiou e pediu que a Interpol
investigasse o caso. Soube-se então que se tratava de Ramon Manuel Yepes Penagos, conhecido como El Negro, que também usava a identidade
de Carlos Ruiz Santamaría.
El Negro revelou ao juiz ter pago R$ 1 milhão em propinas a policiais para
manter em segredo a identidade colombiana. Ele era o contador de Juan
Carlos Abadia que estava cuidando dos US$ 35 milhões oferecidos pelo
traficante na proposta de delação premiada e era acusado pelo envio de 13
toneladas de cocaína para a Espanha. Ele contou que depois da extradição
de Abadia, um grupo de colombianos foi contratado para levar o dinheiro,
em notas de euros, de volta à Colômbia, para entregar de volta ao cartel.
Cada pessoa, chamada de mula, levava E$ 1,5 milhão em pacotes de E$
50 mil grudados ao corpo. Apenas duas mulas foram presas ao chegarem ao aeroporto de Bogotá.
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Em nome da lei
A condenação
Por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e uso
de documentos falsos, Juan Carlos Ramírez Abadia foi condenado a 30
anos de reclusão e ao pagamento de R$ 4,3 milhões. Sua mulher, Yessica
Paola Roja Morales, que está presa em São Paulo, recebeu a condenação
de 11 anos de reclusão e multa de R$ 1,37 milhão por falsificação, uso
de documentos falsos, lavagem de dinheiro e associação ao tráfico.
Outras dez pessoas também foram condenadas pelo juiz Fausto Martin
de Sanctis, da 6ª Vara Federal Criminal de São Paulo, que era contrário
à extradição do traficante. O piloto André Luiz Telles Barcellos recebeu
a pena de 23,6 anos de reclusão e pagamento de R$ 2,4 milhões; Daniel Brás Maróstica e Ana Maria Stein foram condenados a 6,3 anos de
reclusão, mais o pagamento de R$ 535,8 mil. Victor Garcia Verano e
Aline Nunes Prado receberam a pena de 7,6 anos de reclusão, mais o pagamento de R$ 644,1 mil; Jaime Hernando Martinez Verano também
foi condenado a reclusão por 7,6 anos e R$ 42,94 mil de multa.
A condenação atingiu ainda Ângelo Reinaldo Fernandes Cassol com a
pena de 9,2 anos de reclusão e pagamento de R$ 19 mil; Adilson Soares da Silva à pena de 9,4 anos de reclusão e pagamento de R$19,38
mil; Eliseo Almeida Machado a três anos de reclusão; e Antonio Marcos
Ayres Fonseca a quatro anos de reclusão.
Meio ano depois, caía na Colômbia o quarto e último chefão do Cartel
del Valle del Norte. Em fevereiro de 2008, Wilber Varela, o Jabón, por
quem o governo dos Estados Unidos também oferecia US$ 5 milhões,
foi assassinado na Venezuela. O corpo foi encontrado crivado de balas
num hotel próximo à cidade de Mérida. O capo era procurado por seis
acusações de narcotráfico e teria sido executado por alguns de seus próprios homens, a mando de Carlos Mario Jimenez, o Macaco, um dos
líderes das forças paramilitares colombianas.
A partir do desmantelamento do Cartel del Valle del Norte, pequenos
Fernando Francischini
59
traficantes tomaram conta do narcotráfico na Colômbia. Não se formou
outro grande cartel, mas no fundo a situação ainda é a mesma. Entre os
“pequenos” chefes que, segundo a polícia colombiana, antes pertenciam
ao segundo escalão do Norte del Valle, estão Daniel Barrera (El Loco);
Carlos Alberto Rentería (Beto Rentería); Néstor Ramón Caro Chaparro (Felipe); Daniel Rendón Herrera (Don Mario), Fredy Rendón Herrera (El Alemán), Pedro Guerrero Castillo, o Cuchillo; Luis Henrique
Calle Serna (Comba); e Diego Pérez Henao (Diego Rastrojo).
Hoje, os grandes cartéis são mexicanos, com base principalmente em
Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos, na região de El
Paso (Texas). Autoridades mexicanas consideram Ciudad Juárez uma
das mais violentas cidades do mundo, com 2,7 mil assassinatos ligados
ao tráfico de drogas na cidade apenas em 2009.
Bastante reduzido, o grupo de Abadia encontrou um novo chefe apenas
uma semana depois da prisão do capo.
Os grupos daquela região têm fortes ligações com os cartéis mexicanos,
que assumiram o papel antes desempenhado pelos colombianos. São os
novos “barões” do narcotráfico, com tudo que isso implica em venda de
drogas em praticamente todo o mundo; e em barbárie e crueldade. E a
Colômbia segue sendo o maior produtor de cocaína do planeta.
60
Em nome da lei
A história
Juan Carlos Ramírez Abadia tinha 44 anos quando foi preso em São
Paulo na Operação Farrapos. Sua vida de crimes havia começado aos
19 anos, quando a paixão por cavalos o levou a trabalhar no haras de
Ivan Urdinola Grajales, empresário colombiano instalado em Cali criador puros-sangues árabes e ingleses. (Mais tarde, Urdinola seria
assassinado com veneno na prisão).
A localização do haras não era por acaso. A verdadeira fonte de renda do
patrão de Abadia era o tráfico de drogas. Nessa época, Abadia conheceu
também os irmãos Miguel e Gilberto Rodríguez Orejuela, de quem se
tornou discípulo aplicado. Os irmãos eram os barões das drogas do Cartel
de Cali ao lado de José Santacruz Lodoño. O cartel controlava as plantações na região do Vale do Rio Cauca, produzia, distribuía e vendia a droga.
Depois da queda do Cartel de Medellín, com a morte de Pablo Escobar, o
Cartel de Cali aumentara seu poder e chegou a controlar 80% da produ-
61
ção e exportação de cocaína da Colômbia, faturando US$ 7 bilhões por
ano. O cartel, porém, não demorou a ruir por conta da nova política de
enfrentamento do governo colombiano com apoio dos Estados Unidos.
Abadia tinha posição de pouca importância no Cartel de Cali e conseguiu sobreviver à débâcle. Transferiu-se então para o Cartel del Norte
del Valle, que florescia mais ao Norte do Vale do Rio Cauca. Ali, Abadia
cresceu rapidamente e granjeou fama internacional pela grande capacidade de organização da estrutura do tráfico e pelos métodos violentos
que usava, servindo-se de crueldade jamais imaginada antes.
Ele foi responsável por um verdadeiro banho de sangue. Ao contrário
dos antigos cartéis, no Norte del Valle ocorreram massacres internos e
mortes isoladas atribuídas a disputas no seio da organização. Questões
internas eram resolvidas à bala e eram frequentes os assassinatos entre
parceiros. Apesar da prática local da violência ser comum, Abadia conseguiu levá-la a extremos. A polícia da Colômbia contabiliza em milhares as mortes daquele período – os anos 90/2000. Foi o perigo interno
crescente que teria levado Abadia a procurar um novo endereço para
reerguer seu império de drogas e outros crimes.
O traficante havia sido preso antes, na Colômbia, quando cumpriu parte
da pena de 24 anos de prisão. Naquela ocasião, Abadia se entregara à
polícia junto com o amigo Juan Carlos Ortiz Escobar, conhecido por
Cuchilla, para beneficiar-se de leis que ofereciam redução de pena a
quem se entregasse e se declarasse culpado.
Naquela época, Abadia confessou à polícia colombiana ter enviado 30
toneladas de cocaína aos Estados Unidos. O relatório da Interpol falava
em 500 mil quilos que teriam entrado nos país passando pelo México.
Mais tarde, o montante do contrabando de droga feito por Juan Carlos
Abadia foi calculado em mil toneladas.
Os dois parceiros no crime cumpriram quatro anos da pena e foram
libertados em 2000. Poucos dias depois Cuchilla foi assassinado. O
62
Em nome da lei
crime foi atribuído a Wilber Varela, o novo parceiro de Chupeta.
Outro assassinato interno com muitas sombras em sua explicação.
Já no Cartel del Norte del Valle, Abadia fez carreira rápida, voltado para
o mercado norte-americano, estabelecendo as bases para distribuição de
cocaína e heroína em Nova York. Outros dois chefões, Luis Hernando
Gómez Bustamante, o Rasguño (Arranhão), e Wilber Varela, o Jabón,
se dedicavam ao mercado europeu. A divisão de negócios e do poder
Abadia: rotina de cirurgias plásticas e tatuagens
Fernando Francischini
63
Marcelo Javier Unzue A última identificação falsa
seguia um modelo diferente de cartéis tradicionais onde um único e poderoso capo reinava sobre toda a organização. Autoridades avaliam, no
entanto, que a divisão de poder muito contribuiu para minar o novo
cartel.
Chupeta ficou apenas seis meses em liberdade. Teve que voltar à clandestinidade quando uma corte de Washington emitiu ordem de captura
contra ele. E ofereceu US$ 5 milhões em recompensa a quem desse informações que levassem à sua prisão. A acusação citava narcotráfico no
Colorado, em 1994; e no Distrito Leste de Nova York em 1995 e em
2004.
Na divulgação do rosto e de informações sobre o traficante procurado, a
DEA listou uma série de apelidos usados por Abadia, além de Chupeta,
como era mais conhecido na Colômbia: Cien, Don Augusto, El Patron,
Gustavo Ortiz e Charlie Pareja.
64
Em nome da lei
Na época, ao se sentir cercado, Chupeta usou de um estratagema sórdido: espalhou o boato da própria morte. Com isso imaginava tirar a polícia de seu encalço, talvez por um bom tempo. Abadia chegou a usar um
oficial do exército colombiano recrutado pelo chefão Diego Montoya,
Don Diego, que passou informações de onde poderia ser encontrado o
suposto cadáver.
Abadia também esteve perto de ser capturado em 2006, mas escapou
por pouco em função de um deslize da polícia argentina. Depois, foi
muito procurado no Paraguai, no Uruguai e, por fim, informes davam
conta que Abadia poderia estar em Tijuana (México). Chupeta tinha
bons contatos com bandidos mexicanos desde os tempos do Cartel Cali.
Por indicação de um dos chefões, Hélmer Herrera, o Pacho, Abadia havia feito os primeiros contatos com os traficantes mexicanos. Pacho foi
assassinado em outubro de 1998 em meio a uma sangrenta guerra entre
máfias.
Oportunidades para seguir outra vida, no entanto, não faltaram ao jovem Abadia, nascido em 16 de fevereiro de 1963, em Palmira, na Colômbia. Foi um jovem de classe média, sem problemas financeiros, formado em engenharia numa universidade de Bogotá, mas conhecido por
ser um mau estudante. Ou um estudante pouco dedicado.
O problema é que o exemplo estava em casa. O que talvez explique como
um homem apelidado Chupeta tenha conseguido alcançar posição de
comando no tráfico internacional num mercado disputado não apenas
pelos demais cartéis colombianos, mas também pela Cosa Nostra italiana, os chineses e as máfias russas.
Juan Carlos Ramírez Abadia é o único filho de Osmar Ramírez e Carmen Alicia Abadia, de classe média, que também faziam parte da organização criminosa. Eles atuavam como testas de ferro do narcotráfico,
escondendo-se sob a fachada de um negócio de medicamentos, a DisDrogas. O casal pretendia que o filho assumisse os negócios da família,
mas aquilo era muito modesto para o ambicioso Abadia.
Fernando Francischini
65
Abadia é mesmo engenhoso e uma inteligência usada para o mal. Chegou
a idealizar pequenos submarinos para fazer a travessia entre a Colômbia e o México. Apesar de rudimentares, os submarinos transportavam
quatro toneladas de drogas. Navegando a cinco metros da superfície, os
submarinos chegavam à costa mexicana sem serem descobertos pelas
patrulhas marítimas. A primeira viagem do submarino teve no comando
o próprio Abadia, que acabou por desenvolver uma pequena frota.
Cauca
A ocupação habitacional do Vale do Cauca é bastante recente – data do
final do século 19. Interessado em tomar posse efetiva e marcar presença
naquela parte do território da Colômbia, o governo incentivou a migração. E para lá foram presidiários beneficiados por redução de pena para
trabalhar a terra; outros presidiários foram levados para fazer trabalhos
forçados e acabaram ficando por lá como agricultores.
O tráfico de drogas começou cedo e a região ficou marcada pela violência
registrada desde o início do século 20. A lei do silêncio, os sequestros e
mortes de jornalistas passaram a fazer parte da rotina local. Os chefões
Diego Leon Montoya, Luís Hernando Gómez e Wilber Varela já haviam se deslocado mais para o Norte daquela região quando Juan Carlos
Ramírez Abadia se juntou a eles, formando a cúpula do Cartel del Norte
del Valle.
O cartel se movimentava depois da queda do Cartel de Cali. Mas encontrou já instalados pequenos cartéis regionais que disputavam entre si
o controle do comércio e das rotas de envio de droga desprezadas pelos
chefões do narcotráfico. Assim, a violência se intensificou ainda mais.
O novo cartel chegava com vantagens, pois já contava com a facilidade do domínio de rotas e contatos internacionais de há muito usados
por antigos barões da droga. E os novos chefões buscaram arduamente
permanecer no anonimato. Perceberam que publicidade era contrapro-
66
Em nome da lei
ducente. Não queriam repetir os erros de Pablo Escobar, por exemplo,
o primeiro chefão a obter fama internacional. Escobar fazia o tipo do
bandido romântico, gostava de ter Medellín a seus pés, o que conseguia
por meio da distribuição de dinheiro e da assistência à comunidade de
uma forma que ela nunca fora assistida pelo governo. Ele foi quase um
herói em Medellín. Mas os quatro chefões do Norte del Valle lutavam
pela tranquilidade do anonimato. Quanto menos aparecessem, melhor.
Mas a ambição é mais forte. De acordo com as autoridades colombianas,
as disputas entre os chefões do Cartel del Norte del Valle começaram
com os planos de Varela para afastar Don Diego e Rasguño. Um detalhe: Varela já era acusado de assassinar Cuchilla, o amigo de Abadia,
provavelmente com a anuência deste. A guerra entre as quadrilhas aumentou e, a partir de 2000, envolveria também grupos paramilitares em
uma onda de violência inédita no Norte do Valle del Cauca. O banho
de sangue assumiu proporções épicas com a contribuição de Chupeta.
Abadia trouxe ao Brasil sua terceira mulher, Yessica Paola Roja Morales,
que ele conheceu em 2001 em Cartagena, quando ela tinha 19 anos e
trabalhava como modelo. Os dois passaram muito tempo na Venezuela
antes de virem para o Brasil. O casal jamais viajava junto; seguiam sempre rotas diferentes. Apesar disso, Abadia disse em seu depoimento que
Yessica não sabia do pedido de extradição que pesava sobre ele, pois, “na
Colômbia, não explicamos esses problemas para mulheres porque elas
ficam nervosas!”
Fernando Francischini
67
A investigação
O trabalho de um delegado da Polícia Federal está longe de se assemelhar aos famosos personagens da literatura policial. O charme do
elegante Arsène Lupin certamente foi desenhado para o encanto dos
leitores; um Sherlock Holmes, altamente racional e dedutivo, porém, se
aproxima mais da realidade.
Mas um Sherlock acrescido de um James Bond tecnológico, capaz de
usar uma imensa gama de parafernálias eletrônicas hoje à disposição das
investigações. Um caso como o que resultou na prisão de Juan Carlos
Ramírez Abadia só foi possível com o uso de meios como a vigilância
eletrônica, equipamentos para comparação antropométrica e para desvendar mensagens criptografadas ou em sistema de Camouflage; interceptação telefônica e na internet; e análise de Extratos e ERBs – Estações Radio Base (antenas de telefonia celular).
Na recuperação de altas somas em dinheiro e dos muitos bens do tra-
69
ficante foi usado equipamento para escanear paredes, por exemplo, trazido pela equipe norte-americana que se juntou à Polícia Federal brasileira, num esquema de cooperação internacional que incluiu também a
Espanha, Argentina, Uruguai e Colômbia.
Mas que ninguém se iluda sobre aspecto aventuresco de uma investigação. Esses casos costumam levar anos para serem deslindados e, mais
que tudo, exigem paciência de Jó aos policiais. É preciso ter controle
absoluto da ansiedade e da tentação do impulso irracional.
“Qual cão de caçador, sagaz e ardido”, descreveu Luiz de Camões na obra
“Os Lusíadas”. Pois é como um cão farejador, arguto e capaz de perceber
com rapidez as coisas mais sutis, que a Polícia Federal chega a bandidos
internacionais da estatura de Abadia. No final, porém, também resumem análises interessantes, acontecimentos curiosos e, principalmente,
raciocínio frio com deduções precisas, decorrentes da experiência e da
mais aguda observação do gênero humano.
Antes de tudo, é preciso ter método. Os crimes não mudam desde que
o mundo é mundo; o que muda é a forma de cometê-los. A tecnologia
apenas criou novas armas para que fossem cometidos velhos crimes. Os
crimes, muitas vezes perpetrados “de longe”, pela internet ou por outra
via oferecida pela parafernália eletrônica disponível nos dias de hoje, exigem um tipo de detetive melhor preparado tecnicamente.
A solução, no entanto, ainda depende do raciocínio lógico, dedutivo, cheio
de argúcia e todos os demais adjetivos que se apliquem a quem é capaz de
desatar nós de crimes cibernéticos complicados ou intrigas das mais sofisticadas. E da interpretação de pequenos sinais. Como antes. E como antes
ainda é verdadeiro o conselho de Sherlock Holmes ao amigo Watson:
“Não despreze absolutamente nada, por mais insignificante que pareça”.
O lado pesado de uma investigação, como a do tráfico internacional de
drogas, é a necessidade de sangue frio para entrar em contato com um
mundo de barbárie. Um espaço cheio de ramificações com linguagem e
70
Em nome da lei
códigos de conduta próprios, onde a simplificação maniqueísta do bem
e do mal, que grassa na sociedade de hoje, encontra sua maior expressão.
A opção de Juan Carlos Abadia pelo Brasil para implantar um novo centro de operações não se deu por acaso. Foi feita após consultas a diversos
amigos do submundo do crime, dos quais muitos já operavam no país.
As vantagens, segundo eles, eram muitas: as dimensões do território
permitiam a montagem de um sistema de células de negócios – modelo
adotado pelo capo colombiano – em cidades bem distantes entre si, mas
dotadas de eficiente estrutura de comunicações.
A geografia também ajudava. Com 17 mil quilômetros de fronteira seca,
o Brasil faz vizinhança com todos os países produtores de drogas da
América Latina – Paraguai, Bolívia, Peru e a própria Colômbia. Melhor
ainda para o negócio dos narcotraficantes, essas fronteiras são esparsamente povoadas e, por isso mesmo, pouco policiadas. Além disso, como
a maior economia do continente, o Brasil mantém intenso intercâmbio
de carga e pessoas com os Estados Unidos e a Europa – os principais
centros consumidores de drogas do planeta.
As informações recebidas por Abadia batiam com os dados da Drug
Enforcement Administration (DEA), a agência de combate às drogas
do governo dos Estados Unidos, sobre o mercado brasileiro para drogas
ilícitas. Nas estatísticas dos norte-americanos, o país é um importante
corredor do narcotráfico para o abastecimento do continente europeu e,
em menor escala, da América do Norte. O volume de drogas que transita pelo território brasileiro, aliado ao tamanho do seu mercado consumidor, transformou o Brasil no segundo maior usuário mundial de
cocaína, só atrás dos Estados Unidos.
No último relatório sobre o Brasil, divulgado em 2009, a DEA reconhece que o país reforçou a cooperação com os Estados Unidos e seus
vizinhos no combate ao tráfico de drogas. Apesar disso, alerta que os
esforços para controlar o tráfico vindo da Bolívia, a principal fonte de
cocaína para o Brasil, ainda eram limitados:
Fernando Francischini
71
O Brasil é um importante país de trânsito para o hidrocloreto de cocaína
(HCl) e um destino significativo para base de cocaína e outros derivados de cocaína, por exemplo drogas assemelhadas ao crack consumidas
localmente.(...) O HCl que entra no Brasil muitas vezes é reembarcado
para a Europa via África. Ainda que o Brasil cultive pequenas quantidades de maconha de baixa qualidade, a maior parte da maconha de
potência mais alta consumida no país vem do Paraguai.
Para maior preocupação da sociedade, o relatório aponta a participação
de quadrilhas brasileiras no negócio do tráfico:
As autoridades brasileiras constataram envolvimento crescente do PCC,
em São Paulo, e do CV, no Rio de Janeiro, em tráfico de armas e narcóticos. Essas gangues criminosas têm uma presença internacional cada
vez maior em lugares como Bolívia, Paraguai e possivelmente Portugal,
bem como elos internacionais crescentes com traficantes colombianos e
mexicanos.
Na avaliação dos norte-americanos, as dimensões do território brasileiro tornam o país dependente de operações conjuntas, unindo os serviços
de informações de diferentes países, para controlar o tráfico internacional de drogas e outras mercadorias ilícitas.
Carências que levaram o Brasil a aderir à Convenção da ONU sobre as
Drogas em 1991. O país já era signatário da Convenção contra o Crime
Organizado Internacional da ONU, de 1971, bem como de seus três
protocolos, e da Convenção da ONU Contra a Corrupção e da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas. O Brasil é signatário, ainda, da
Convenção Interamericana Contra a Corrupção, da Convenção Interamericana de Assistência Mútua em Assuntos Criminais, da Convenção
Interamericana Contra o Terrorismo e da Convenção Interamericana
Contra o Tráfico de Armas de Fogo Ilegais.
Acordos bilaterais baseados na Constituição de 1988 formam a base
para a cooperação no combate a narcóticos entre o Brasil e os Estados
72
Em nome da lei
Unidos, e uma nova carta de acordo (LOA) foi assinada em agosto de
2008. Estados Unidos e Brasil assinaram também um tratado bilateral
de assistência legal mútua (MLAT), em 2001, e um acordo de assistência mútua em questões alfandegárias, em 2002. Por meio dele, essencialmente, os dois governos se comprometem a trocar informações
para ajudar a prevenir, investigar e reprimir quaisquer violações das leis
aplicáveis no Brasil e nos Estados Unidos:
Os programas bilaterais entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos
em 2008 incluíram treinamento básico e avançado de combate a narcóticos a agentes do Departamento de Polícia Federal (DPF) e outras
forças policiais brasileiras; apoio a programas expandidos de detecção e
interdição de narcóticos nos portos e aeroportos brasileiros; elevação do
número e reforço da capacidade das Unidades Especiais de Investigação
do DPF e garantir um papel crescente em suas operações para a polícia
dos países colaboradores na região; auxiliar autoridades estaduais e locais no combate às gangues criminosas que controlam os narcóticos e o
tráfico de armas em suas jurisdições; ajudar as autoridades brasileiras
a combater a lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros; e elevar o
apoio do governo norte-americano ao governo e ONGs brasileiros para
programas de prevenção e tratamento.
O Brasil também tem diversos acordos de controle de narcóticos ou arranjos semelhantes com os vizinhos sul-americanos, com países europeus (especialmente Portugal, Espanha e Reino Unido) e com a África
do Sul. E coopera, rotineiramente, com outros países quanto a crimes
relacionados a narcóticos, além de participar do Programa de Controle
de Drogas da ONU (UNDCP) e da Comissão de Controle de Abusos
e Combate às Drogas da Organização dos Estados Americanos (OEA).
Apesar de elogiar os esforços em cooperar com seus vizinhos, o relatório
da DEA também reserva críticas, ainda que injustas, ao papel do Judiciário brasileiro, por considerá-lo excessivamente brando com os consumidores de entorpecentes:
Fernando Francischini
73
O sistema judicial (brasileiro) tem autoridade para tomar posse de ativos (apreendidos) e a lei brasileira permite que esses ativos sejam compartilhados com outros países. Mas a lei brasileira de combate às drogas,
de 2006, que proíbe e penaliza o cultivo e o tráfico de drogas ilícitas,
também oferece considerável latitude de interpretação ao Judiciário, que
virtualmente descriminalizou a simples posse e consumo de pequenas
quantidades de drogas.
O relatório dos norte-americanos cita também dados do Departamento
da Polícia Federal, situando na região Nordeste boa parte da produção
brasileira de maconha, e que quantidades limitadas de base de cocaína,
de Ecstasy e de produtos semelhantes ao crack processados no país se
destinam primordialmente ao consumo interno.
Mas lembra, ainda com dados da Polícia Federal, que o Brasil é o maior
fabricante de produtos químicos da América do Sul. A existência de
mais de 25 mil companhias registradas para trabalhar com materiais
químicos facilita o desvio de precursores químicos e/ou narcóticos.
O DPF executou diversas operações de repressão ao uso ilegal de produtos químicos em 2008, incluindo a apreensão de 20 toneladas em diversas empresas de Pernambuco, em setembro de 2008. O DPF também
desmantelou uma organização criminosa em Minas Gerais responsável
pelo desvio de toneladas de produtos químicos. Oito suspeitos foram
detidos, com base em 13 mandados de busca. Adicionalmente, o DPF
apreendeu e desmantelou o primeiro laboratório de ecstasy que viria a
ser fechado no Brasil, infelizmente localizado na cidade de Pinhais, no
Paraná.
A Polícia Federal mapeou o fluxo de drogas pelo território brasileiro.
A cocaína que chega da Bolívia e a maconha vinda do Paraguai servem
basicamente para consumo interno, enquanto que a cocaína de mais alta
qualidade, da Colômbia e do Peru, passa pelo Brasil para ser exportada
à Europa, via África. A droga parte de navios pelos portos de Suape
(perto de Recife), Salvador e outros terminais do Nordeste, mas tam74
Em nome da lei
bém pelo Porto de Santos, o maior do país, pelos portos do Paraná e de
Santa Catarina. Volumes significativos são contrabandeados por meio
de transporte pessoal (mulas), em vôos internacionais originários principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Devido à Lei do Abate, que a partir de outubro de 2004, permite o uso
de força letal contra aviões não identificados, os narcotraficantes passaram a confiar menos em vôos clandestinos de longa distância sobre
o Brasil. Apesar disso, a despeito do avanço na cooperação brasileira
com países vizinhos e no aumento do número de centros conjuntos de
informações ( JICs) operando em pontos estratégicos ao longo da fronteira brasileira, os traficantes de narcóticos continuam a explorar essas
regiões, vastas, pouco habitadas e difíceis de controlar, especialmente no
Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, que fazem fronteira com a Bolívia,
e no Paraná, separado do Paraguai pelo Rio Paraná e pelo lago da Hidrelétrica de Itaipu. O mesmo relatório ainda aponta:
As drogas vêm fluindo em quantidades crescentes da Bolívia para o
Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul e para a cidade de Guaíra, no
Paraná, se tornou um dos principais pontos de entrada de armas, munições e drogas no Brasil. Gangues organizadas como o PCC e o CV
operam abertamente na cidade e um comitê de investigação estabelecido
pelo Congresso brasileiro reportou que o PCC está conduzindo vendas
de armas abertamente na área. O DPF não dispõe de recursos para
controlar com eficiência as vastas regiões fronteiriças brasileiras, e outras
agências policiais não trataram devidamente desse problema. As Unidades de Investigações Especiais (SIUs) do governo brasileiro e outras
operações de inteligência semelhantes ajudaram a melhorar um pouco a
situação na região Noroeste e propiciaram grandes melhoras aos esforços
nacionais de interdição. As SIUs agora são formadas rotineiramente
por agentes do DPF e da polícia de combate a narcóticos (CN) dos aliados que cooperam com esses esforços, o que dá às unidades a capacidade
de antecipar e interditar embarques significativos.
Fernando Francischini
75
Mas o número de SIUs e sua capacidade operacional vem sendo insuficientes para acompanhar o ritmo de avanço do tráfico de drogas.
Embora as atividades de combate às drogas no Brasil sejam executadas
por todos os níveis de governo, os sistemas confiáveis de coleta de dados
e as melhores estatísticas sobre apreensões são as mantidas pela Polícia
Federal.
Em resumo, na visão de Juan Carlos Abadia, o território brasileiro era
gigantesco, com fronteiras imensas e mal vigiadas, um grande mercado
consumidor de drogas e portos e aeroportos com tráfego intenso para os
Estados Unidos, a África e o continente europeu. Tudo o que o narcotraficante poderia desejar para estabelecer a nova sede de seus negócios
ilegais.
76
Em nome da lei
O homem de US$ 1,8 bilhão
Alguém ainda se lembra do “Homem de 6 milhões de dólares”? Era uma
quantia fantástica na década de 1970, aplicada em tecnologia para dar
nova vida a um ex-astronauta gravemente ferido e mutilado. Pois o nosso homem, Juan Carlos Martínez Abadia, “valia” um tanto mais que isso:
US$ 1,8 bilhão. O valor corresponde apenas aos bens conhecidos e ao
dinheiro apreendido do traficante, num levantamento feito pelo governo
dos Estados Unidos.
Tal é o poder do tráfico de drogas. Numa vida praticamente curta –
Abadia estava com 44 anos quando foi preso e teve seus bens bloqueados – ele havia conseguido amealhar tal fortuna, descontando os altíssimos custos da manutenção da estrutura, que chegou, segundo ele
mesmo, a US$ 5 milhões por mês.
Um homem com US$ 1,8 bilhão em patrimônio está entre os 500 mais
ricos em todo o mundo. Em todo o planeta. Seguindo a lista da revista
77
norte-americana Forbes dos homens mais ricos do mundo, Abadia seria
o número 556, num ranking que começa com o mexicano Carlos Slims,
o rei da comunicação em boa parte do mundo, e Bill Gates, o criador da
Microsoft.
O primeiro brasileiro a aparecer na lista da Forbes é o empresário Eike
Batista, com US$ 27 bilhões em patrimônio. Só dois colombianos frequentam o ranking mundial, Julio Mario Santo Domingo, controlador
de mais de 100 empresas espalhadas pelo mundo, na posição 123 (a
filha de Santo Domingo, Tatiana, é noiva do príncipe Andrea Casiraghi, filho de Caroline de Mônaco). O outro colombiano é o banqueiro e
construtor Luis Carlos Sarmiento, na posição 135. Os dois colombianos
têm bem mais que 70 anos. E provavelmente trabalharam a vida toda.
Há que se levar em conta, também, que Abadia não economizava. E
tinha métodos estranhos. Comprava jatos por quantias entre R$ 10 e 15
milhões e os usava uma única vez. Depois da primeira viagem, os aviões
que iam para o México ou para a África eram incendiados. A aeronave
saía vazia do Brasil e rumava para a Venezuela, porque o presidente daquele país, Hugo Chávez, acabou com o controle aéreo e com a cooperação internacional de combate às drogas na região.
Os aviões desciam na floresta amazônica venezuelana sem controle algum, protegidos pelas Farc, que atravessaram a fronteira da Colômbia
para a Venezuela e colocaram o país de Hugo Chávez numa situação
ainda pior que a do vizinho. Em apenas uma das viagens, o avião de
Abadia carregou três toneladas de cocaína na Venezuela. São dados
como este que confirmam que 90% da coca consumida no mundo sai
da Colômbia, Peru e Bolívia, embora a Venezuela venha aumentando
vertiginosamente sua participação.
O dinheiro que Abadia angariava com o tráfico de cocaína era retirado
dos EUA pelo México e da Europa pela Espanha, e desses dois países
era remetido a bancos sulamericanos. Aqui havia ramificações das empresas laranjas mantidas pelo traficante no Brasil para tornar legal o lu78
Em nome da lei
cro obtido com a droga. Assim era lavado o dinheiro que manteve o luxo
do traficante e seus asseclas no Brasil. Além das 17 empresas de fachada
em território brasileiro, o tesouro norte-americano apontou outras 23
na Colômbia.
Os números do tráfico são fantásticos, geram enriquecimento rápido
para pessoas sem escrúpulos. Mas na outra ponta, observa-se a mais
triste exploração. A folha da coca sempre é cultivada nas regiões mais
pobres desses países andinos, pelos chamados cocaleiros. O problema
é que, ao mesmo tempo em que a cocaína é extraída da folha da coca,
a mesma folha faz parte dos hábitos tradicionais desses povos. É quase
sagrada, com vários usos medicinais. É usada para fazer chá e mascada depois de seca, especialmente para facilitar a respiração nas grandes
altitudes que existem nesses países. Mas também serve para enganar o
estômago dos que pouco têm para comer. São muitos milhares os camponeses que dependem do cultivo da coca para sobreviver.
O movimento dos cocaleiros é muito forte e organizado na Bolívia, a
ponto de um dos seus líderes, Evo Morales, ter chegado à Presidência do
país em 2002. Morales defende com unhas e dentes a chamada folha sagrada e quer sua industrialização. Para isso ele negocia com os governos
venezuelano e cubano. Mas, na prática, até agora Evo Morales nada fez
para mudar a vida dessa gente que acaba servindo ao tráfico de drogas
por completa falta de opção.
Teoricamente, a Bolívia permite o plantio e a distribuição da folha dentro de margens estabelecidas em lei e até permitiu o aumento das terras
destinadas ao plantio, exigência do movimento dos cocaleiros. Mas o
fato é que tanto o governo da Bolívia, como os do Peru e do Equador,
não se empenham em tirar os camponeses das mãos do tráfico.
Os únicos países que trabalham seriamente, onde existe enfrentamento
com o tráfico, são a Colômbia e o Brasil. A Colômbia, pela presença dos
norte-americanos, que têm lá bases militares e uma forte estrutura; e
no Brasil porque hoje a Polícia Federal tem credibilidade. O salto de
Fernando Francischini
79
80
Em nome da lei
qualidade ocorreu nos últimos 15 anos, com investimentos em pessoal, treinamento e tecnologia. Antigamente havia pouca estrutura para o
combate às drogas, o tráfico dominava. Os colombianos consideravam o
Brasil uma terra de ninguém. Aliás, foi por isso que Juan Carlos Abadia
mudou-se para nosso país.
Por muito tempo bases do tráfico colombiano funcionaram no Brasil.
Além de menos problemas com a polícia, é mais conveniente exportar a
droga para todo o mundo tendo o Brasil como origem e não a Colômbia,
país muito visado. Os traficantes ainda usam muito Santos, Paranaguá
e Buenos Aires como portos de origem, porque são cidades de países
pacíficos, com credibilidade.
Recursos
O símbolo mais forte da Operação Farrapos foi o leilão dos bens do
maior traficante de drogas do mundo. Foi importantíssimo para mostrar que esses bens poderiam ser revertidos para o trabalho de prevenção ao uso de drogas e também para ações da própria Polícia Federal no
combate ao tráfico.
A apreensão das propriedades e outros bens levantou recursos em leilões efetuados com autorização da Justiça. Recursos revertidos na prevenção ao uso de drogas, para o tratamento de dependentes químicos,
em treinamento e equipamento para aperfeiçoar a Polícia Federal e aumentar o número de operações contra o tráfico internacional.
O primeiro leilão vendeu os imóveis comprados por Juan Carlos Abadia. Foram arrematados imóveis em Aldeia da Serra, na Grande São
Paulo, Angra dos Reis (RJ), Jurerê Internacional (SC), Guaíba (RS) e
Pouso Alegre (MG). Apenas essas vendas renderam R$ 5,44 milhões.
Dezoito veículos foram doados a instituições assistenciais.
Abadia tinha dinheiro escondido também em locais supostamente mais
seguros, ou menos suspeitos. Em notas de dólares e euros, R$ 3 miFernando Francischini
81
lhões estavam enterrados na casa do pai do motorista Eliseo Almeida
Machado, que trabalhava para um dos colombianos que serviam como
testas de ferro a Abadia: Jaime Hernando Verano Garcia. O colombiano
morava em Campinas (SP) e, tanto ele como o motorista, foram presos
na mesma operação. Verano disse à polícia que pagava R$ 7 mil por mês
para o motorista esconder o dinheiro.
Os leilões das peças menores despertaram enorme curiosidade do público. As pessoas fizeram longas filas para arrematar relógios, celulares,
televisores, aparelhos de som, trajes de grife, objetos de decoração e até
roupas íntimas do traficante e de sua mulher.
Entre eles havia móveis de design nada baratos. A cadeira Garden Egg,
uma cadeira à prova d’água do designer húngaro Peter Ghyczy, por
exemplo, estava em todos os cantos; o preço de mercado: cerca de R$
1,3 mil. Obras de artistas plásticos nacionais ajudavam na decoração da
casa de Abadia em São Paulo, entre elas, uma do modernista Antônio
Gomide. As obras foram encaminhadas a um museu. Na cozinha, ricamente equipada, outras peças de design, como copos da marca alemã
Ritzenhoff (uma simples caneca para café pode custar US$ 40), que
foram vendidos a apenas R$ 15 cada.
Camisas e calças, de tamanho 40 ou 42, em quantidade capaz de lotar
uma sala do Jockey Club, revelaram um guarda-roupa sofisticado. As
peças eram praticamente todas importadas, de marcas como Hugo Boss
e Lacoste. Havia cerca de 170 pares de sapatos masculinos no tamanho
40 de Abadia, e outros 260 de sua mulher, que no bazar foram vendidos
a preços que variaram entre R$ 40 e R$ 70.
Os bens mais caros foram leiloados no dia seguinte, num evento fechado
por motivos de segurança. Da relação fizeram parte dois carros e duas
TVs de 61 polegadas e outros objetos de valor. Só com a venda dos cerca
de 100 relógios de Abadia foi arrecadado R$ 1 milhão. Por um deles
Abadia havia pago mais de R$ 200 mil.
82
Em nome da lei
Em outra etapa, a Justiça Federal leiloou 71 itens, entre os quais se destacava uma lancha Modelo Intermarine Azimut M520, de 2005, que
valia mais de R$ 2 milhões. Também estavam disponíveis outros relógios de luxo, uma mania do traficante, de marcas como Cartier, Rolex,
Bulgari, Chopard, Mont Blanc, TAG Heuer, entre outras, com preços
que chegavam a quase R$ 110 mil. Os lances foram feitos virtualmente,
através do portal Leilão Eletrônico Judicial (LEJ), operado pelo Instituto Nacional de Qualidade Judiciária (INQJ).
Abadia vinha sofrendo perdas em suas propriedades já há algum tempo.
De uma só vez o governo colombiano havia bloqueado 40 propriedades
em Cali avaliadas em US$ 3,5 milhões. Em 2005, outras 91 propriedades do traficante foram confiscadas em Cali e Armênia. Em janeiro
de 2007, já com informações levantadas pela Polícia Federal brasileira,
as autoridades colombianas apreenderam US$ 90 milhões que estavam
em pequenos contêineres escondidos, enterrados em casas de Ramírez
Abadia. Das paredes de uma humilde casa no bairro Prados del Norte
saltaram 1.309 lingotes de ouro.
No auge das apreensões na Colômbia, um ministro daquele país declarou com muita propriedade: “Com este dinheiro os traficantes compram
fuzis, munição, sequestram, recrutam crianças, compram minas, prejudicam muito o povo colombiano, por isso temos que continuar esta luta
contra o narcotráfico”.
Com a prisão do chefão, e de muitos asseclas, outros elos da corrente começaram a aparecer. Os primeiros bens apreendidos pareciam ser apenas alguns trocados. Basta lembrar do megaconfisco feito pelo governo
colombiano 20 dias após a prisão de Abadia. Nunca é demais repetir:
foram 321 propriedades – prédios inteiros, fazendas, mansões e até uma
ilha no litoral de Cartagena, no Caribe, com um hotel 5 estrelas –, avaliadas em mais de US$ 400 milhões.
Fernando Francischini
83
Uma curiosidade: em uma das mansões leiloadas as paredes foram destruídas pelo comprador que ingenuamente sonhava encontrar pilhas de
lingotes de ouro ou montanhas de dinheiro vivo escondidas pelo traficante. Mal sabia ele que a Polícia Federal já tinha efetuado busca semelhante, mas com um moderno scanner de paredes fornecido pela DEA.
84
Em nome da lei
Agosto, o mês do cachorro louco
Para não comprometer as investigações, costumam ser criadas histórias
de cobertura quando uma ação precisa ser feita antes da prisão do investigado. Alertado o bandido, há o risco de fuga e comprometimento de
todo o trabalho já realizado. No caso de Abadia, a polícia colombiana
estourou três esconderijos e apreendeu uma bolada de dinheiro em janeiro de 2007 a partir de informações repassadas do Brasil pela Operação Farrapos. A Polícia Federal havia rastreado ligações do traficante
para a Colômbia e chegado a endereços que pertenciam a Abadia.
A imprensa, no entanto, foi informada que as casas haviam sido localizadas por meio de carta de um informante para o presidente colombiano, Álvaro Uribe. A carta realmente existiu, e embora não tenha sido a
partir dela que os esconderijos foram localizados, serviu para que Abadia não percebesse que estava grampeado.
A carta foi enviada a Uribe em dezembro de 2006 por um homem
85
que se identificou como Raúl Mangosta. Ele se disse uma das pessoas
mais próximas de Abadia e explicava, com detalhes, o funcionamento
da complexa estrutura montada pelo traficante. Em oito páginas, muitas vezes fantasiosas, o informante dizia que Chupeta tinha comparsas
infiltrados no exército colombiano, no departamento de segurança do
país, na polícia, na Fiscalía (Ministério Público da Colômbia) e até na
norte-americana DEA.
O informante nomeou algumas dessas pessoas apenas pelo primeiro
nome ou pelo apelido. Um deles exerceria influência em vários serviços
de informações tanto da Colômbia como dos Estados Unidos. Em Bogotá, outra pessoa tinha um parente que era funcionário da DEA. Mangosta entregou ainda três escritórios de cobrança que serviam a Abadia,
um deles chefiado por um ex-membro do Gaula (Grupo de Ação Unificada para a Libertação de Pessoas) da polícia. Outro grupo de doze pessoas, chefiado por um ex-policial, teria a única incumbência de localizar
colaboradores de Víctor Patiño, considerado traidor de Abadia.
Mangosta conta que Abadia estava diminuindo o número de propriedades para deixar mais leve a organização, por isso tanto dinheiro foi
encontrado na Colômbia e no Brasil. Grande parte do dinheiro foi investida na compra de euros; outra parte, em dólares, estava escondida
em buracos e paredes para garantir o futuro da família de Abadia, inclusive suas duas ex-mulheres. Na época da carta, Abadia teria escondida
a quantia de US$ 150 milhões e E$ 50 milhões. Em um desses esconderijos estaria a coleção de relógios e objetos de ourivesaria de Chupeta.
Com a carta, a polícia localizou um escritório de advocacia que cuidava
dos interesses de Chupeta e era a cabeça de lança da penetração do traficante nos círculos judiciais. O escritório era comandado por uma pessoa
que seria o responsável pelas propinas pagas a funcionários da Fiscalía
para mexerem nos processos contra Abadia. Naquele momento, cuidavam especialmente dos processos contra as ex-mulheres de Chupeta,
que deveriam ser retiradas do país porque o cerco estava se fechando.
86
Em nome da lei
Complô
Juan Carlos Ramírez Abadia foi extraditado para os Estados Unidos no
dia 22 de agosto de 2008. Ele saiu de Campo Grande, no Mato Grosso
do Sul, onde havia chegado um ano antes, no final da tarde de 11 de
agosto de 2007. Tanto na chegada como na saída, Chupeta tinha os pés
e mãos algemados e usava colete à prova de bala. Era protegido por escolta de 36 agentes fortemente armados. Todo cuidado era pouco, porque não seria de estranhar se comparsas do traficante tentassem alguma
coisa para libertá-lo.
O traficante passou aquele ano na Penitenciária Federal inaugurada
menos de um ano antes para abrigar até 208 criminosos de alta periculosidade. Na mesma prisão e na mesma época, estava o traficante Luiz
Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. Equipamentos de segurança de última geração, 200 câmeras de vídeo, aparelhos de Raios-X e
de impressão digital, detectores de metais de alta tecnologia estão instalados para impedir fugas. Presos no Regime Disciplinar Diferenciado
(RDD), como Abadia, são isolados totalmente dos demais detentos.
Embora todas as celas sejam individuais e delas os presos não saem nem
para tomar banho de sol – há uma clarabóia para a entrada de luz –,
Chupeta e Beira-Mar conseguiram se comunicar por meio de seus advogados. A Polícia Federal recebeu informes que os dois traficantes teriam
planejado sequestrar um dos filhos do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Ele seria levado para a Colômbia e entregue aos cuidados das Farc. A idéia era pedir a libertação
de Abadia e Beira-Mar em troca de Lulinha. Boatos contavam com a
participação de outros bandidos nesta ação, do porte de José Reinaldo
Girotti (Alemão), autor intelectual do assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005, que levou R$ 164,7 milhões; e João Paulo Barbosa, um
dos chefões do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Lulinha trabalhava como preparador físico do Corinthians e viajava
constantemente com as equipes. Em 2008 quando o time brasileiro joFernando Francischini
87
O desembarque nos Estados Unidos
extraditado em agosto de 2008
gou com o Independiente Medellín, pela Copa Libertadores da América.
O governo colombiano montou um esquema especial de segurança para
proteger Lulinha e o jogador Ronaldo Fenômeno. A delegação brasileira
era protegida desde a chegada ao aeroporto por uma escolta de motos,
carros e militares fortemente armados. O percurso só era definido na
última hora, sem divulgação para a imprensa.
Agosto
Se Chupeta acredita em coincidências ou desígnio dos astros, deveria
estudar bem o mês de agosto. O colombiano desembarcou no Brasil
num mês de agosto, foi preso em agosto e extraditado também num mês
de agosto, o mês das superstições que rimam com desgosto. Pelo menos
em relação ao Brasil, o mês não trouxe notícias agradáveis ao traficante.
E como dizem os espanhóis, “Yo no creo en brujarias; pero que las hay,
las hay” (não creio em bruxarias, mas que existem, existem).
Confinado numa prisão de segurança máxima nos Estados Unidos,
88
Em nome da lei
Abadia deve permanecer preso até os 75 anos. Se estiver vivo e ganhar a
liberdade, não deverá enfrentar problemas econômicos. Os cartéis funcionam como as máfias, nunca esquecem os seus. No caso de não encontrar os velhos companheiros, Abadia ainda poderá contar com muito dinheiro que continua escondido na Colômbia. Desde que alguém espere
30 anos para devolvê-lo.
89
Os depoimentos
O juiz Fausto Martin de Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal de São
Paulo, julgando denúncia formulada pela Procuradora da República,
Thaméa Danelon Valiengo, condenou Juan Carlos Ramírez Abadia a
30 anos de prisão por formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem
de dinheiro e uso de documentos falsos. Na sentença, o juiz descreve
como funcionava a organização criminosa e traça o perfil psicológico de
Abadia.
Alguns trechos:
Comprovou-se que Juan Carlos Ramírez Abadia, após julho de 2004,
direcionou seus negócios no Brasil notadamente para aquisição de imóveis, veículos e outros objetos com utilização de valores decorrentes do
narcotráfico perpetrado a partir da Colômbia. Para tanto, e com vistas
a dissimular a propriedade, registrou seus bens em nomes de terceiros.
Trata-se de criminoso profissional, fazendo do delito o seu modo de vida.
91
Todo o seu patrimônio, mesmo aquele trazido ao Brasil e aqui investido
com identidade falsa, somente deve ser considerado produto ou proveito do crime, de tal forma não ser necessário, neste contexto, rastrear a
origem de cada bem de seu patrimônio para vinculá-lo a um específico
crime de tráfico, o que, aliás, seria tarefa extremamente árdua e praticamente impossível.
Não se tem notícia de realização de qualquer atividade lícita que justificasse o patrimônio do indiciado. Ao contrário, toda a prova é no
sentido de que os seus bens, ao menos os que foram investidos no Brasil,
possuíam espúria origem. Tanto que foi necessária sua remessa por meio
de procedimentos não usuais (altas somas em espécie e em moeda não
em curso no país), o cruzamento físico da fronteira também por caminhos não regulares, a utilização de diversos veículos (barco, aeronave e
automóvel) e trajetos (Venezuela, Nordeste, Minas Gerais) para chegar
a São Paulo. Além disso, utilização de falsa documentação, tudo para
que não fosse detectado pelas autoridades brasileiras.
A organização criminosa liderada por Juan Carlos Abadia esteve estruturada em três grupos, que o auxiliaram na prática do delito de “lavagem” de dinheiro, mas devidamente coordenados entre si, fornecendo-lhe
a logística e infra-estrutura necessárias para garantir a sua ocultação no
país. Além de lhe terem prEstado serviços na aquisição de bens, colocando-os em nome de terceiros para assegurar a ocultação e dissimulação da
origem ilícita dos recursos utilizados na compra.
O grupo do Rio Grande do Sul contou com a intensa participação de
André Luiz Telles Barcellos, que atuou em diversas frentes. Contratou
Antônio Marcos Ayres Fonseca para aquisição de diversos veículos em
nome de terceiros. Alguns dos veículos foram registrados em nome de
familiares e empregados do próprio André Luiz Telles Barcellos; outros
foram registrados em nome de pessoas indicadas pelo co-réu Antônio
Marcos Ayres Fonseca.
Por sua vez, o grupo do Paraná/Campinas foi integrado pelos acusa92
Em nome da lei
dos Victor Garcia Verano e sua esposa, Aline Nunes Prado. Além dos
indivíduos residentes em Campinas Jaime Hernando Martinez Verano
e Eliseo Almeida Machado. Este último participou de um único ato de
“lavagem” de valores consistente na ocultação do numerário apreendido
na residência de seu pai em Campinas/SP.
Por fim, o último grupo, de São Paulo, era integrado pelo casal Daniel
Brás Maróstica e Ana Maria Stein. Estes acusados recepcionaram Juan
no país e foram os responsáveis pela aquisição de veículos (automóveis
e motocicletas), imóveis e lancha, sempre em nome de terceiros, além de
serem responsáveis pela conservação destes bens para plena utilização
de Juan Carlos Ramírez Abadia e sua esposa. Davam efetivo apoio logístico em todas as suas atividades no Brasil, inclusive quando das operações plásticas levadas a efeito para alterar a aparência física de Juan.
Ângelo Reinaldo Fernandes Cassol foi o responsável pela obtenção de
carimbos de entrada e saída no território nacional em um dos passaportes falsificados utilizados por Juan Carlos Ramírez Abadia, cuja atividade se processou da seguinte forma: Cassol recebeu o passaporte de André
Luiz Telles Barcellos e o entregou ao Agente da Polícia Federal Adilson
Soares da Silva, oferecendo-lhe vantagem indevida, para determiná-lo a
praticar ato de ofício, cujo procedimento teria ocorrido por 04 (quatro)
vezes.
Adilson Soares da Silva foi o agente da Polícia Federal que carimbou, de
forma irregular, o passaporte utilizado por Juan Carlos Ramírez Abadia, percebendo, para si, diretamente, em razão de sua função, vantagem indevida consistente na quantia de US$ 200,00 (duzentos dólares)
por cada carimbo.
Yessica Paola Roja Morales, apesar de negar qualquer participação nas
atividades empreendidas por seu marido; inclusive afirme que ele tenha
lhe pedido perdão após a prisão; e em suas alegações finais assevere inexistir nexo causal entre as suas condutas e as atividades imputadas a seu
companheiro e; por conseguinte, qualquer ato comissivo que a vincule à
Fernando Francischini
93
prática de “lavagem” de valores, a prova coligida demonstrou validamente ter ciência de todos os fatos. E seu efetivo auxílio na aquisição de
imóveis, móveis e veículos com valores oriundos do tráfico internacional
de entorpecentes, bem ainda sua contribuição para a ocultação e dissimulação da propriedade destes por meio de registro dos bens em nomes
de terceiros.
Em outro trecho, o juiz diz sobre Abadia:
“Mostrou-se de uma individualidade ímpar, egocêntrico desmedido, que
se desvincula facilmente dos parâmetros sociais para satisfação de benefício econômico seu e de sua esposa (conduta social). Suas qualidades ou
habilidades mais marcantes não se lastreiam na preservação de valores
da ética ou correção, apesar de alegar ser originário de família evangélica e, juntamente com Yessica, orar diariamente”.
94
Em nome da lei
As ruas e as rotas
Basta dar uma olhada nos números da fortuna que o traficante Juan
Carlos Ramírez Abadia conseguiu amealhar, apesar dos altos custos de
manutenção da organização criminosa e de sofrer tantas apreensões e
bloqueios de bens, para ter a certeza de que poucos negócios são tão
lucrativos como o tráfico de drogas ilícitas. O Escritório das Nações
Unidas sobre Drogas e Crime (Unodc) revela que o combate ao tráfico
realizado pelos governos e organizações retira das ruas apenas 40% da
produção mundial de cocaína, estimada em 850 toneladas ao ano. Os
60% restantes são consumidos por um mercado de cerca de 25 milhões
de usuários, que movimenta cerca de US$ 50 bilhões por ano.
Os números são grandiosos em todos os sentidos. Inclusive no crime.
O governo federal tem estatísticas que revelam que 70% dos homicídios
têm relação com drogas; no Paraná, o governo do Estado divulga um
percentual ainda superior: os crimes motivados pelas drogas chegariam
a 90%. E não estamos computando o alto número de pessoas e famílias
95
que tem suas vidas devastadas por drogas ilícitas. Das plantações cultivadas pelos cocaleiros até o consumidor final, a cocaína tem seu valor
elevado em até 3.000%. Desde os tempos de Pablo Escobar e seu Cartel
de Medellín, a Colômbia é o principal fornecedor da droga, controlando
80% do mercado mundial. Praticamente todo o restante é produzido no
Peru e na Bolívia. O que preocupa o Brasil é que as plantações de coca
estão se alastrando e já foram encontradas áreas de plantio na fronteira
do Brasil com a Colômbia e com o Peru.
O Relatório Mundial sobre Drogas 2009, divulgado em junho pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), mostra
que o mercado global de cocaína, opiáceos (ópio, morfina e heroína)
e maconha está estável ou em declínio. Parte disso, porém, está sendo
substituída pelo uso de drogas sintéticas, especialmente nos países em
desenvolvimento. Em compensação, lamentavelmente, apreensões crescentes revelam que o tráfico tem se espalhado em termos geográficos,
e já afeta todas as regiões do planeta. Em 2005, 131 dos 165 países do
mundo registraram apreensões de cocaína. Duas décadas antes, havia
registros em apenas 69 países.
O que aumentou de fato no Brasil foram as atividades de grupos de
traficantes de cocaína na região Sudeste e a presença de grupos do crime organizado internacional. O país é utilizado como importante ponto
para o tráfico de droga vinda da Colômbia, Bolívia e Peru. Dentro do
Brasil, o maior consumo é registrado nas regiões Sudeste e Sul. Com
relação à América do Sul, o relatório aponta que a maior parte do cultivo
ilícito ocorre nas regiões sem a presença do Estado – cuja ocorrência a
ONU considera uma tragédia –, e que a maior parte da droga é vendida
em regiões urbanas fragilizadas pela violência.
Relatórios de organizações internacionais de combate ao crime confirmam que a principal rota do tráfico ainda segue dos países andinos para
a América do Norte. Mas nos últimos três anos cresceu muito o trânsito
de drogas da América do Sul para a África, para então ser enviada à
96
Em nome da lei
Europa. O Brasil aparece como escala nessa rota que segue para o Oeste
da África e até diretamente para a Europa. Dizem as autoridades que
países como Guiné-Bissau são usados porque têm governos fracos, fáceis de corromper e onde a população sabe muito pouco sobre drogas. A
ponto de uma aldeia da costa africana ter encontrado um grande número de sacos de pó branco e, sem saber do que se tratava, espalharem nas
plantações imaginando que fosse fertilizante.
Na África, os países mais utilizados pelos cartéis são Ghana, Costa do
Marfim, Togo, Nigéria, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Ilhas Canárias. Autoridades da Guiné calculam que cerca de 60% da cocaína que chega ao
país passaram pelo Brasil e o restante foi enviado diretamente da Colômbia. A entrada da droga na Europa se dá principalmente por Portugal e Espanha, que registraram as maiores apreensões de cocaína nos
últimos 20 anos. No aeroporto de Madri também é grande o número
de prisões das mulas, com o estômago e o intestino cheios de cápsulas
de cocaína. Em espanhol são chamados de “boleros”. Apenas nos cinco
primeiros meses de 2010, os policiais espanhóis interceptaram 160 traficantes, quase a metade deles com a droga dentro do corpo. Eles carregam em média de 80 a 100 cápsulas de uma vez e recebem entre E$ 3
mil e E$ 4 mil como pagamento.
Os traficantes têm lucro bem maior na Europa, onde 450 gramas de
cocaína podem render US$ 21 mil, mais que o dobro que nos Estados Unidos, onde custariam US$ 10 mil (na América do Sul o quilo da
pasta-base de cocaína vale US$ 1,5 mil).
O Brasil não é um importante produtor de drogas, mas é considerado
um grande consumidor. O maior problema, porém, é a enorme quantidade de empresas que vendem produtos químicos que também servem
para a produção de entorpecentes. O Brasil também é uma região de
difícil fiscalização, porque tem mais de 10 mil aviões e mil helicópteros,
e mais de dois mil aeroportos espalhados pelo território. Muitos deles
não são oficiais e, portanto, não têm controle da Agência Nacional de
Fernando Francischini
97
Aviação Civil (Anac) e da Infraero.
O relatório da ONU estima que a produção mundial de maconha tenha diminuído. Em 2005, a maior parte da maconha foi produzida nas
Américas (46%) e na África (26%). Em termos de volume, a maconha é
a substância ilícita mais traficada no mundo – 90% (148) dos 165 países
do mundo registraram apreensões. O tráfico, porém, é intra-regional,
com inclusão de países vizinhos em alguns casos, mas não é de longo
alcance. É assim como se cada país produzisse sua própria maconha. O
mercado brasileiro é abastecido em grande quantidade pelo Paraguai. O
México e os Estados Unidos são os maiores produtores de maconha do
mundo.
O Sudeste da Ásia continua sendo o maior mercado mundial de anfetaminas, seguido da América do Norte e da Europa. Cerca de 14 milhões
de pessoas – 55% dos consumidores mundiais de anfetaminas – vivem
na Ásia. O número total de usuários de anfetaminas na América do
Norte é estimado em 3,8 milhões de pessoas (15% do total mundial).
Na Europa é de 2,8 milhões de pessoas (11% do total mundial). No
âmbito sub-regional, a maior prevalência de uso de anfetaminas está no
Brasil, que também é o maior mercado de opiáceos da região. São 600
mil pessoas, ou 0.5% da população entre 12 e 65 anos. Os dados são da
pesquisa domiciliar realizada em 2005 (Cebrid/Senad).
Os cartéis
Os grandes cartéis hoje estão no México. La Familia Michoacana, por
exemplo, é uma espécie de sindicato de traficantes no Estado de Michoacán. Os métodos são os mais cruéis. É comum corpos desmembrados
serem enviados como mensagens para algumas vilas da região; o bilhete
escrito à mão que acompanha o corpo costuma dizer “ele falou demais”
ou “Teve o que mereceu”. Autoridades mexicanas dizem que o tráfico em
grande escala existe há décadas na região, mas recentemente a violência
parece ter saído de qualquer controle.
98
Em nome da lei
Mais de 23 mil pessoas já foram mortas desde 2006, quando Felipe Calderón assumiu a Presidência do país e declarou guerra contra os barões
do tráfico. Recentemente, estimativa de organizações não governamentais avaliaram que 85% das empresas legalmente instaladas em Michoacán têm alguma ligação com traficantes e são usadas para lavagem de
dinheiro. O cartel La Família também é considerado dos mais violentos.
Em setembro de 2006, cinco cabeças humanas foram jogadas na pista
de dança de um night club na cidade de Uruapan, no Estado de Michoacán. Outros cartéis significativos que atuam no México são o Sinaloa
e o Zetas.
As próprias autoridades admitem que o crescimento do controle de
regiões inteiras pelos traficantes se dá pela falta de confiança, entre a
população, na polícia e na Justiça. E, na contramão das liberdades individuais, muitos políticos creditam o aumento das atividades do crime
organizado à democracia multi-partidária mexicana. Durante 71 anos,
até 2000, o México foi governado por um único partido, o PRI.
Os sanguinolentos cartéis mexicanos transformaram Ciudad Juárez, na
fronteira com os Estados Unidos, na mais violenta cidade do mundo. Só
no ano passado, as autoridades mexicanas contabilizaram 2,7 mil assassinatos ligados ao tráfico de drogas na cidade, vizinha à texana El Paso.
Fernando Francischini
99
A entrevista
Entrevista publicada pelo jornal O Estado do Paraná
em 13 de junho de 2010
A sensação de enxugar gelo, um sentimento muito próximo da revolta
pela impotência, começou a minar a satisfação do delegado da Polícia
Federal Fernando Francischini sempre que obtinha uma vitória contra
o crime organizado, mesmo que fosse um gol de placa como a prisão do
maior traficante do mundo, Juan Carlos Ramírez Abadia. Cai o grande
capo de um grupo, logo outro toma conta da venda e entrega de drogas
num número de locais cada vez maior.
E o que é pior: a entrega de drogas a um número crescente de crianças.
Crianças!!! Crianças caídas na sarjeta porque o crack faz parte do cotidiano das escolas. E então, Curitiba aparece em pesquisas como a sétima
capital brasileira em homicídios dolosos. A cidade ecológica, com aspirações turísticas, é recordista em violência. E, mais uma vez, as drogas
estão na raiz do problema.
101
Já era mais que hora de fazer alguma coisa, além das palestras a que
vinha se dedicando, nos horários de folga, para trabalhar na prevenção e
recuperação de dependentes químicos. O convite do então prefeito Beto
Richa veio bem a calhar, e juntos criaram em 2008 a primeira Secretaria
Municipal Antidrogas do país. O prefeito também estava muito empenhado a contribuir para resolver o problema. Já no primeiro ano, alocou
R$ 1,2 milhão para começar o projeto, valor era maior do que o governo
federal aplica em todo o país na prevenção do uso de drogas. Em 2010
o orçamento já estava em R$ 6 milhões, revelando o comprometimento
da prefeitura de Curitiba.
Atraindo um público curioso dos detalhes da prisão de Abadia, as palestras de Francischini saíram das igrejas e se espalharam por auditórios
de escolas e universidades. E, grata surpresa, o delegado descobriu que
até jovens de classe média se interessam pelo combate ao crime organizado, ainda não estão totalmente descrentes da polícia e consideram a
profissão de delegado da Polícia Federal uma real opção para si próprios.
Até posam para fotos ao lado do delegado que prendeu Abadia. Francischini não deixa escapar a chance de manter contato com uma geração
altamente vulnerável às drogas e agarra mais uma arma para usar contra
bandidos: as mídias sociais, como o Orkut, Twitter e Facebook.
Por que o senhor optou pelo combate às drogas quando entrou para a Polícia Federal?
Fernando Francischini: Foi uma opção. Há muitos assuntos na Polí-
cia Federal, crimes de ordem financeira, fazendária, de ordem política,
eleitoral, e a parte mais dura é a de drogas, porque envolve a rua, sangue,
tiro, risco de vida pesadíssimo. Estamos lidando com gente como Abadia, Beira-Mar, traficantes, policiais presos, políticos que se envolvem
em corrupção e tráfico, como o deputado federal e coronel Hildebrando
Paschoal, aquele da moto-serra. Não são muitos os que se dedicam a
isso, só os abnegados. Tem que ter vocação.
102
Em nome da lei
Delegado Francischini em coletiva
de imprensa em São Paulo
E o motivo dessa escolha?
Francischini: Eu vi a devastação da droga. Ver crianças nas drogas é o que
mais dói, porque elas estão largadas nas calçadas, no meio-fio. E sabemos
que a droga que chegou à criança passou perto da gente, porque cuidamos de fronteiras, perseguimos grandes traficantes. Isso machuca muito
e sempre me preocupou. Com a Secretaria Municipal Antidrogas estou
desenvolvendo mais esse lado de cuidar de crianças. Prevenir e recuperar.
O trabalho de recuperação foi uma decorrência.
Francischini: A primeira opção foi dedicar meu trabalho para tirar de
circulação esses caras que trazem drogas para os meninos que estão nas
ruas. Com o passar do tempo, no final de cada uma dessas grandes operações, ao invés de comemorar, eu começava a ter a sensação de enxugar
gelo. É que muito rapidamente ficávamos sabendo que o traficante já havia sido substituído, que estava chegando outro carregamento de droga.
Aquela sensação de desconsolo: ‘Acabamos de pegar um e já chega outro!!’
Fernando Francischini
103
Qual foi sua reação?
Francischini: Comecei a dar palestras. Fui convidado por um amigo da
igreja que frequento para falar sobre Drogas a outras pessoas e tivemos
tanta repercussão que outras igrejas também pediram a palestra. Quando percebi, estava indo em igrejas em toda a cidade de Brasília e, de
repente, estava em outros Estados. Criamos então um projeto de capacitação de lideranças de escolas, das igrejas, que queriam aprender para
dar palestras. Já que a droga chega até aquele menino da rua, queríamos
evitar que ele pegasse a droga, ensiná-lo a recusar a droga e ensinar o pai,
a mãe, professores para que pudessem orientar essa criança.
O senhor percebeu que é mais efetivo na ponta de cá.
Francischini: Percebi exatamente isso, que o efeito é maior. Cada meni-
no para quem a gente conseguia falar poderia ser um a menos a cair nas
drogas. E comecei a levar uma vida profissional dupla. De um lado era o
delegado que fazia as prisões, linha dura, que prendia, levava tiro, dava
tiro; do outro, aquele que ia a escolas, igrejas, que fazia um trabalho de
capacitação. Por isso a minha ligação tão forte com a igreja.
Pode-se dizer que a crueza das ruas não o endureceu?
Francischini: Muitas vezes parece uma coisa estranha estar em pontas
tão diferentes. Mas é muito compensador. Para o pessoal é um orgulho
ver alguém da igreja deles, gente muito simples, prendendo traficantes,
obtendo esse sucesso. E isso se expandiu bastante.
O Abadia e o delegado da Polícia Federal foram instrumentos para fazer um trabalho de prevenção.
Francischini: Se estivesse ali um psicólogo, um psiquiatra, um profes-
sor, o auditório estaria vazio, infelizmente tenho certeza. Na média reunimos entre 800 e mil pessoas. Uma palestra para alunos de uma Facul104
Em nome da lei
dade de Direito em Curitiba lotou dois auditórios. Tiveram de instalar
um telão num segundo local para receber mais estudantes.
E essa faixa é a menos receptiva a esse tipo de palestra, não é?
Francischini: Exatamente, sobretudo nas faculdades particulares, fre-
qüentada pela classe média, classe média alta. Até o reitor ficou impressionado.
Isso pode se dar pelo lado charmoso, da aventura, que o cinema usa muito?
Francischini: A operação do Abadia é um filme. Acho interessante por-
que o menino vai à palestra porque viu as notícias e quer ver como foi
preso, como é que não houve corrupção na última parte. Tenho percebido que os jovens sentem falta de exemplos. No final, os estudantes
querem tirar foto comigo, coisa que o jovem não faz. Meu filho não faz.
(O delegado Francischini tem quatro filhos, de 19 anos, 16, 6 e um recém
nascido)
É justamente a faixa etária em que os jovens querem distância dos pais, de autoridades.
Francischini: Vejo pelos meus próprios filhos. Nessa idade, eles têm
vergonha de se aproximar. Mas no fim das palestras os meninos querem
conversar comigo, tirar foto, querem meu Orkut.
O senhor usa essas mídias sociais?
Francischini: Criei ferramentas jovens justamente para isso. Estou
montando o terceiro perfil no Orkut, porque é uma coisa de menino.
Meus filhos me ajudam a responder perguntas, eles acabam se envolvendo, perguntando o que responde aqui, outro pede material... O mais
Fernando Francischini
105
velho viajava comigo para ir às palestras. Hoje, deu uma segurada agora
porque a faculdade de Direito exige muito.
O exemplo pode ser usado dentro e fora de casa.
Francischini: Sinto que essa situação se transforma em exemplo para os
jovens. Eles estão acostumados a ver a polícia de forma pejorativa, a ver a
polícia como corrupção, como violência, quase do outro lado (do crime).
E quando ouvem a história das prisões, das apreensões, vêem o lado
humano do delegado e começam a se identificar. Pensam: ‘ainda existe
alguém em quem consigo me espelhar’...
Às vezes até como tábua de salvação...
Francischini: E quando falo sobre a profissão de delegado da Polícia
Federal, com bom salário, credibilidade e estrutura, percebo que várias
cabecinhas que fazem perguntas no final estão sonhando em seguir a
profissão, principalmente os alunos de cursos de Direito. Fazem perguntas muito práticas sobre o salário, o trabalho. Dá para perceber que
eles realmente se interessam. Este aspecto é muito interessante. Às vezes
saímos de alma lavada mais do que quando se prende um traficante.
A sua liberação da Polícia Federal foi obtida com facilidade
junto ao Ministério da Justiça?
Francischini: Num primeiro momento foi. Cheguei a tomar posse, mas
o ministério quis voltar atrás. Aí entrou em campo o ex-governador
Paulo Pimentel. Sem que eu soubesse, ele fez ligações para Brasília e
ameaçou fazer críticas ao governo federal todos os dias, até o final do
ano, na primeira página do jornal O Estado do Paraná, se eu não fosse liberado. Ele estava muito animado com a criação da secretaria, acreditava
que poderíamos fazer a diferença.
Depois ele me telefonou e até foi engraçado. “Alô, Francischini, aqui é o
106
Em nome da lei
Paulo”. Respondi mas nem sabia de quem se tratava. E ele: “Como vai,
menino? Você não está me reconhecendo, é o Paulo Pimentel, do Estado
do Paraná, menino.” Há dez dias eu estava no limbo, nem na Polícia Federal nem na secretaria. No dia seguinte saiu minha liberação.
Como Curitiba entra nessa história?
Francischini: Eu já conhecia o Beto e depois da operação que prendeu
Abadia, ele pediu ao ministro da Justiça para me liberar da Polícia Federal para montar a primeira Secretaria Antidrogas do país. O governo
federal tinha uma estatística em que Curitiba aparece como a sétima
capital brasileira em homicídios dolosos. Então o prefeito queria um
projeto que no fundo era o meu trabalho. Um trabalho dentro das escolas, das igrejas, capacitação de lideranças comunitárias...
Como o senhor mesmo já disse, juntou a fome com a vontade
de comer.
Francischini: O Beto precisava de alguém de peso para dirigir a secre-
taria. Para usar a fama para atrair as pessoas e intensificar o combate às drogas. Sempre pergunto nas palestras se as pessoas estão lá por
causa das drogas ou pela curiosidade em ver o delegado que prendeu o
Abadia. A resposta é a mesma: pelo Abadia. Então mostro tudo sobre
a operação, vídeos, detalhes, prendo a atenção de todos e no final deixo
o meu recado.
As prisões são importantes didaticamente, como exemplo,
mas como o senhor diz, não vão acabar com o tráfico.
Francischini: Quando o Beto me chamou e falou dos dados sobre ho-
micídios em Curitiba, ele estava muito preocupado, mas segurança é
atribuição do governo do Estado e do governo federal. Ele me deu dois
exemplos que mexiam com ele: andando pelos bairros, uma mãe o pega
Fernando Francischini
107
pelo braço, conta que a filha é dependente química e foi na escola que
conheceu o crack. E o prefeito me perguntou: ‘O que respondo para ela?’
O mesmo quando um pai conta ter visto o filho morrer na escada de
casa, executado por traficantes. É fácil dizer que a atribuição não é do
município, mas o que se diz a um pai que o aborda na rua, desesperado porque não quer que isso aconteça com os outros dois filhos? Não
dá para dizer que liguem para o governador, para o presidente. O Beto
queria fazer alguma coisa.
Nasceu então a secretaria antidrogas.
Francischini: Começamos a estudar e mapear os crimes na cidade. Em
março de 2008, descobrimos que, em pelo menos 70% dos crimes, quem
morreu ou quem matou tinha relação com drogas. A droga estava sempre por trás. A secretaria do Estado divulga que o índice é ainda maior,
chega a 90%.
Estava ali o problema a enfrentar.
Francischini: O foco era a droga. E como diminuir a droga? A qua-
tro mãos, Beto e eu escolhemos os projetos. Lembro das palavras dele:
educação, conscientização e prevenção nas escolas. Queríamos chegar a
todos os alunos da rede municipal, que beiram os cem mil, a maioria até
a quarta série. E implantamos projetos de prevenção, alguns em parceria
com a Polícia Federal, como o Bola Cheia, o Papo Legal.
Num segundo momento, vimos que era preciso criar vagas gratuitas
em entidades de recuperação química de drogas. Quando abordamos
crianças de rua dependentes do crack e a levamos ao pai, ele diz que não
tem dinheiro para pagar pela recuperação do filho; a criança foge, pula
a janela; ou a mãe está presa, é prostituta. Para este ano de 2010, temos
R$ 1 milhão no orçamento para enfrentar esse problema.
108
Em nome da lei
Parece que a secretaria tem tudo para consolidar um bom
trabalho.
Francischini: Pois é, tinha gente que pensava que era uma secretaria
de vitrine. Quando viram o orçamento, um dos maiores da prefeitura
proporcionalmente falando, a repercussão na mídia e o respaldo popular nos bairros, perceberam que era sério e a secretaria se transformou
numa força muito grande.
Qual é o orçamento da secretaria?
Francischini: Em dois anos, passou de R$ 1,2 milhão para R$ 6 mi-
lhões. Mesmo no primeiro ano, quando os recursos foram usados para
montar a estrutura e começar pequenos projetos, o valor já era maior do
que o governo federal aplica em prevenção em todo o Brasil.
Em dois anos a secretaria saiu de duas salas para 1,8 mil metros quadrados em quatro andares de um prédio; saiu de nove assessores para 78 funcionários. São dados que mostram a força que criamos. O Beto está estudando a expansão dessas comunidades para todas as regiões do Estado.
Muitos municípios já se interessaram pela secretaria, não
foi?
Francischini: tivemos de criar um projeto para atender a demanda de
municípios que queriam um trabalho igual. Comecei a dar palestras no
interior; foram mais de 50 em dois anos. Nessas andanças, o prefeito
criava uma secretaria ou um departamento antidrogas ou encarregava a
Secretaria de Ação Social pelo projeto. Chamamos isso de Exportando
Idéias. Quase 20 cidades já criaram ou estão criando a secretaria.
Apenas no Paraná?
Francischini: Fora também. Cuiabá, Manaus, São Paulo... é uma febre
Fernando Francischini
109
por intensificar o trabalho de prevenção. Normalmente as ações estão
espalhadas em várias secretarias e a nossa era uma espécie de articuladora. Não pretendia ser a protagonista, por isso funcionou bem. Colocava
na mesma mesa a educação, saúde, ação social e propunha um programa
conjunto.
Quando muitos órgãos se reúnem sempre há problemas de
relacionamento.
Francischini: Sempre tem, mas quem não quer ser protagonista resolve
fácil. Conseguíamos com o argumento de que é em favor dos meninos,
não de alguma autoridade. Funciona bem.
O senhor já sofreu atentados?
Francischini: Muitas represálias e ameaças de morte. Muitas vezes senti
o perigo muito próximo. Fui atropelado uma vez, mas não conseguimos
provar nada, porque era um carro roubado. Fiquei dois dias no Cajuru,
arrebentado. Meu segurança no Espírito Santo foi baleado. O juiz... era
um dos meus melhores amigos e foi morto a duas quadras do meu prédio. São coisas muito pesadas. No Espírito Santo combatemos o crime
organizado face a face, o poder público e autoridades envolvidas, no Maranhão a mesma coisa. As ameaças passaram a fazer parte do cotidiano.
Hoje ameaças graves vêm de presídios onde estão policiais que prendi,
de autoridades acusadas de desvio de dinheiro público e narcotráfico.
Várias vezes a própria Polícia Federal me avisa para ter cuidado. Agora
estou recebendo ligações de um presídio aqui do Paraná avisando que
vão encomendar um pistoleiro para me matar.
O senhor anda com seguranças?
Francischini: Tenho andado com amigos policiais. O delegado às vezes
precisa cuidar de si próprio, e é difícil, sendo policial, andar com outros
110
Em nome da lei
policiais cuidando de você. Não há palestra em que dois ou três policiais
não estão comigo. Eles até fazem uma escala (rs).
Numa palestra em Araucária, uma pessoa que já foi presa por tráfico e
por fraudes em licitações levantou e me ameaçou. Eu o botei para correr
da palestra e ele, de dedo em riste, dizia que a CPI do Narcotráfico não
o tinha pego. O empresário fora preso por fraudar licitações da Funasa,
usando helicópteros, fez delação premiada, portanto entregou outras
pessoas para livrar a sua pele, e quer posar de bacana na cidade. Porém,
ainda existem muitos crimes da esfera estadual que estão no referido
Processo, espero que o Ministério Público Estadual requisite cópias da
Polícia Federal e inicie uma nova ação.
O contato com o tráfico e situações degradantes não o derruba emocionalmente?
Francischini: Derruba. Mas o lado igreja me sustenta. Chego em casa
e tem a oração, tem a esposa, a família é muito forte, a fé te levanta e no
outro dia está novo. Mas é difícil, porque a gente recebe uma carga negativa muito grande. Na CIC, em Curitiba, um policial e dois traficantes
que eu já havia prendido entraram no meio da palestra e ficaram me
encarando, para me intimidar.
O senhor tem medo?
Francischini: Acho que passei da fase. O medo é o limite entre a vida e
a morte. Porque o medo alerta para determinadas situações e você cria
um sistema de defesa. A autoconfiança excessiva pode te expor à morte.
Mas a gente acaba se acostumando a conviver com o medo.
O senhor já obteve resultados concretos com a atuação da
secretaria?
Francischini: Se uma criança recebe bem a informação de que não pode
Fernando Francischini
111
nem experimentar o crack, que esta droga não é como a maconha, porque a maconha ainda tem volta, já valeu a pena. E, na verdade, são milhares. Quando deixei a secretaria, em março de 2010, estávamos atingindo quase sete mil crianças por mês.
Mas a criança não é muito receptiva quando já esteve envolvida com drogas.
Francischini: Aí vem a segunda parte, que é a recuperação. A prevenção
pretende atingir 96% das crianças, porque elas nunca tiveram contato
com drogas; o percentual vem de estatísticas da Senad. E os 4% que já
tiveram o primeiro contato, se foi com crack, precisam de recuperação;
se foi com outra droga mais leve, podem ser acompanhados com orientação. Há dois braços: o braço forte para o crime organizado, traficante
profissional, como o Abadia, o Beira-Mar, lavagem de dinheiro, um político envolvido em corrupção. Do outro lado, o braço que tem uma mão
amiga na ponta, que previne e recupera os jovens.
112
Em nome da lei
Antes de prender o traficante Juan Carlos Ramírez Abadia e mesmo durante os três anos de investigações, o delegado federal Fernando Francischini participou de uma série de outras operações de combate ao crime
organizado, corrupção e drogas. Algumas delas:
Operação Fênix: realizada pelas superintendências da Polícia
Federal do Paraná e do Rio de Janeiro para desbaratar a quadrilha de
Fernandinho Beira-Mar, especializada no tráfico de drogas e armas. Na
operação foram presos também João Marino, em Foz do Iguaçu, com
3,6 toneladas de maconha. Em Passo Fundo (RS), Alcione Norberto
com 100 quilos de cocaína. Marcelinho Niterói foi preso em Pedro Juan,
no Paraguai, e com ele foram apreendidas 270 pistolas, duas metralhadoras e 47.330 cartuchos. Em Goiânia, foram feitas as prisões de Luis
Cláudio Salvador e José Elias Campos, com 36 quilos de cocaína; em
Brasília, presa a Vovó do Pó, com 18,5 quilos de cocaína. Apreensões
também foram feitas no Rio (208 quilos de coca, 50 quilos de crack e 5
de haxixe) e em Curitiba (50 quilos de cocaína, 2 fuzis 7.62, 2 metralhadoras, 2 pistolas Glock e 1,5 mil cartuchos.
O nome da Operação (Fênix) foi escolhido porque o objetivo da investigação era evitar que Fernandinho Beira Mar, mesmo encarcerado no
Presídio Federal de Catanduvas, ressurgisse das cinzas (como a ave mitológica), por meio da lavagem de dinheiro e novos carregamentos de
drogas para o Rio de Janeiro.
Os delegados da Polícia Federal Wagner Mesquita e Gilberto Castro
coordenaram esta e várias outras operações; a sua equipe, policiais federais que trabalharam sob meu comando por muitos anos, herdados com
minha transferência para São Paulo, foram decisivos e fundamentais em
todas as operações relatadas neste livro e que sem os quais seria impossível o sucesso obtido.
Fernando Francischini
113
Operação Ícaro: no dia 5 de julho de 2006, desmantelou a quadrilha de outro integrante de peso do tráfico internacional operando no
Brasil, Floriano Nolasco da Silva Junior. Realizada no Paraná, São Paulo e em Santa Catarina, a Polícia Federal descobriu dois laboratórios de
refino de cocaína que funcionavam em duas fazendas nos municípios de
Pardinho e Gália, no interior de São Paulo, onde foram apreendidos 80
quilos de cocaína refinada e cerca de 700 quilos de produtos químicos
para refino de drogas; e prendeu mais de dez pessoas. O grupo transportava cocaína da Bolívia até São Paulo com a ajuda de helicópteros.
Foram vários anos de investigação até a identificação dos integrantes da
quadrilha.
Operação Zapata: em 20 de julho de 2006, prendeu o perigoso
traficante Lucio Rueda Bustus, que usava o nome falso de Ernesto
Plascência San Vicente, conhecido como Mexicano, e morava no bairro
Hauer, em Curitiba. Mexicano fazia parte do Cartel Juarez, considerada
a maior organização criminosa do México, responsável pela remessa de
dezenas de toneladas de cocaína para os Estados Unidos, arrecadando
US$ 200 milhões por mês. Diversas empresas, imóveis e veículos teriam sido adquiridos com o dinheiro obtido com as drogas. Mexicano
e outros comparsas tinham diversas empresas estabelecidas em Santa
Catarina. A cabeça desse mexicano estava a prêmio por US$ 1 milhão.
Essa operação foi responsável também por revelar corrupção policial
infiltrada na Promotoria de Investigações Policiais (PIC). Foi preso o
investigador da Polícia Civil Ricardo Abilhoa, filho de um procurador
de justiça que exercia a função de coordenador da PIC.. Eles foram acusados pelos crimes de corrupção passiva, de usurpação de função e por
lavagem de dinheiro. Em junho de 2004, Ricardo e outro policial civil,
Carlos Eduardo Carneiro Garcia (Carlinhos), prenderam o traficante e
pediram US$ 1 milhão para não entregá-lo à Polícia Federal. Eles teriam
recebido, de fato, US$ 350 mil. A sentença de condenação do Mexicano
e dos poiliciais envolvidos foi exarada pelo Juiz Federal Sérgio Fernando
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Em nome da lei
Moro, titular da 2 Vara Criminal Federal, especializada em Lavagem
de dinheiro e Crime Organizado. Graças a perseverança, confiança e
coragem de alguns juízes como Sérgio Moro e Pedro Sanson Corat, da
Vara de Inquéritos Policiais de Curitiba, da Justiça Estadual do Paraná,
e da promotora de Justiça Marla Blanchet, diversas ações de combate ao
narcotráfico foram concluídas com êxito para o bem da sociedade.
Operação Tentáculos: a partir da investigação do assassinato do
major Pedro Plocharski, comandante do 13.º Batalhão da Polícia Militar, 2005, foi preso o traficante Éder de Souza Conte, conhecido como
o Beira-Mar do Paraná. O major foi executado numa emboscada, possivelmente porque investigava uma quadrilha formada por traficantes,
advogados e policiais corruptos. Mais de 30 pessoas foram presas, entre elas nove policiais militares. Éder foi solto por falta de provas, mas
voltou para a prisão na Operação Ressaca, em 2010, por acusações de
tráfico de drogas. Nesta época, Francischini já estava na Secretaria Municipal Antidrogas e forneceu informações, por escrito, que ajudaram
na prisão do traficante. O caso também alcançou notoriedade porque
junto com Éder foi presa a segunda colocada no concurso Miss Curitiba/2010.
Máfia chinesa: o chinês Law Kin Chong, apontado como o maior
contrabandista em atividade no Brasil, que movimentava milhões de
dólares em mercadorias ilegais na Avenida 25 de março em São Paulo,
foi preso novamente pela Polícia Federal em 2007. A Polícia Federal e
a prefeitura de São Paulo encontraram grande quantidade de mercadoria contrabandeada num esconderijo no shopping Pari, de propriedade
do empresário. Law também é acusado de escravizar imigrantes ilegais
e brasileiros, normalmente nordestinos desempregados, em trabalhos
com salários irrisórios, horários extenuantes e obrigação de empenho.
Fernando Francischini
115
A palestra
Em 13 anos, o delegado da Polícia Federal Fernando
Francischini trabalhou em mais de onze Estados. Sempre
transferido para alguma cidade que estava pegando fogo
ou havia suspeitas de casos graves de corrupção e atividade do crime organizado. O delegado enfrentou grandes quadrilhas, prendeu policiais e políticos corruptos. E
vive sob constante ameaça de morte. No ano que passou
no Espírito Santo e viu um amigo ser assassinado (o juiz
Alexandre Martins de Castro Filho, assassinado a tiros
aos 32 anos porque lutava contra o crime organizado),
Francischini participou das investigações contra o Crime
Organizado em todo o país. Da prisão de Juan Carlos
Abadia, o megatraficante colombiano ao chinês Law Kim
Shong, um dos controladores da Rua 25 de Março, em
São Paulo. Como ele diz: o “pessoal” não gostava de sua
presença no Estado, mas a população aplaudia, porque a
sociedade está cansada de corrupção e desvios de conduta em todos os níveis de autoridades de todos os Três
Poderes.
Nosso principal objetivo em Curitiba foi criar uma política pública de
prevenção ao uso de drogas, porque tudo que costuma ser feito, nos três
níveis de governo, é pontual: campanhas eventuais em rádio e TV, uma
ou outra palestra em escolas ou uma igreja empenhada na recuperação
de dependentes químicos. Nunca houve uma política bem definida para
a cidade toda, com ações permanentes e pessoal capacitado para lidar
com o problema.
Em muitas situações, as operações que nossa equipe comandou e ob117
teve sucesso desmantelando quadrilhas, prendendo políticos e policiais
corruptos, tirando de circulação perigosos traficantes, percebíamos uma
aprovação enorme por parte da população. Senti que era preciso usar
toda essa notoriedade, principalmente depois da prisão do traficante
Juan Carlos Abadia, para chamar a atenção de lideranças que podem
atuar no combate às drogas e para abrir os olhos de crianças e adolescentes para os riscos trazidos pelos entorpecentes.
Só na Operação Farrapos, que prendeu o Abadia, foram indiciados pelo
Ministério Publico (GAECO SP) por Corrupção: dois delegados e seis
investigadores da Polícia Civil de São Paulo. Também um agente da Polícia Federal e um Suboficial da Força Aérea Brasileira foram presos e
condenados em média de 9 a 10 anos de reclusão cada um, com perda
de função pública. Prender policiais, especialmente, é perigoso e ficou
difícil de andar na rua em São Paulo. Mas cumpri a missão, como cumpri em outros Estados.
As palestras começaram já há alguns anos e até criamos um programa
informal, executado nas horas de folga na Polícia Federal para aumentar
o trabalho de prevenção, porque uma pesquisa mostrou números otimistas, de certa forma: 96% das crianças e jovens em idade escolar ainda
não haviam sido conquistados pelas drogas. Havia muita esperança para
eles, mas é preciso tornar as escolas um espaço saudável; e para os outros
4%, é preciso intensificar os programas de recuperação.
Com a prisão de Abadia, nossa equipe foi promovida a algo parecido com
o estrelato. E não podíamos deixar isso escapar. Por coincidência, o então
prefeito de Curitiba, Beto Richa, de quem já era amigo, mostrou enorme
preocupação com o alto índice de violência na cidade. Embora a segurança não seja atribuição municipal, ele disse que não podia ficar de braços cruzados. Levantamento feito nos crimes registrados pela polícia em
2007 revelou que mais de 70% dos crimes violentos tinham a participação de traficantes ou usuários de drogas. E mais: Curitiba ocupava a sétima posição entre as 27 capitais brasileiras com mais homicídios dolosos.
118
O Paraná tem alguns recordes de que não se orgulha. Foz do Iguaçu
tem o maior índice de homicídios de adolescentes em TODO Brasil.
De cada mil pessoas assassinadas, dez são adolescentes em Foz. A média
nacional é de 2,3. Percebam a enorme diferença!!
O Beto estava vendo isso de perto, porque percorria os bairros da cidade todos os dias. A primeira pessoa a sentir o efeito da violência não
é o governador nem o presidente. É o prefeito e o vereador, as lideranças de bairro, o pastor, o padre. O Beto também estava cansado de ser
procurado por pais que viram o filho morrer na porta de casa, baleado
por traficantes; ou mães que diziam não saber mais o que fazer com os
filhos, viciados em crack dentro das próprias escolas.
Eu ainda chefiava a Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia
Federal em São Paulo e o prefeito me pediu ajuda. Não dava para recusar porque tínhamos as mesmas preocupações. E começamos a fazer um
estudo para ele, e concluímos que o importante não é apreender drogas
ou prender pequenos traficantes. Claro que isso precisa ser feito também. Mas é na outra ponta que vamos ganhar a guerra contra as drogas
e contra os crimes vinculados ao Tráfico Internacional.
O importante é dar o primeiro passo! É preciso ter esperança. E eu
acredito que estas palestras e reuniões são uma forma de chacoalhar a
sociedade, de fazer pensar, chamar a imprensa para multiplicar e vários
segmentos começarem a se mobilizar para enfrentar o problema!
No Paraná estamos sentados sobre a maior rota de tráfico internacional
de drogas que passa pelo Brasil nos dias de hoje. E muitas vezes, acaba
logo ali, no Porto de Paranaguá. Muita droga entra por Foz do Iguaçu,
pelo Lago de Itaipu e por Guaíra. Há poucos meses, foi apreendido um
“container” com quase quatro toneladas de cocaína. Isso é muita droga!! E seguidamente a Polícia Federal apreende 2, 3 quilos de droga com
gente que trabalha nos navios e leva para Europa.
Ainda em São Paulo, começamos a estudar o Paraná, para ver o que
119
poderia ser feito para mudar a história da Segurança Pública no Estado.
Hoje, só se pensa em comprar viaturas, apreender drogas e encher as
cadeias. Fomos em busca de projetos que funcionavam em outros locais
e eram certificados academicamente, que apresentavam resultados.
Durante os dias em que Abadia ficou sob minha custódia na Polícia
Federal em São Paulo, diariamente o tirava da cela, ligava a filmadora
e conversava com ele. Quem era o pai, quem era a mãe, onde estudou,
quando ele entrou na droga. Se era usuário, se era dependente. Por quê?
O sábio chinês Sun Tzu, que escreveu a Arte da Guerra traçando estratégias, dizia: estude “soile” para saber como lidar com ele! Aprenda tudo
o que ele sabe fazer de melhor ou de pior para você saber como agir
contra ele.
Passei vários dias estudando uma das maiores mentes criminosas do
mundo, aquele traficante que tinha nas costas tantos homicídios, tráfico,
violência, mortes em vários países. Chamo de “efeito Abadia” as perguntas que ele me fez durante essas conversas, e que fizeram uma diferença
gritante no meu modo de pensar e de encarar o crime.
A primeira pergunta que ele me fez, era quase uma provocação: “Dr.
Francischini, o senhor acha que a minha prisão afetou o tráfico de drogas?”
O que ele queria dizer com essa pergunta? Queria dizer que a prisão
dele não afeta o tráfico. Porque cada traficante preso é substituído imediatamente.
De fato, já no dia seguinte à prisão de Abadia, a polícia colombiana nos
avisou: “Olha, já tem um novo Abadia na organização.” Um jovem preparado para assumir o lugar do chefão, se este fosse preso ou morto, a quem
o tráfico pagou os estudos durante toda a vida, com pós-graduação nos
Estados Unidos. E o que vale para o Abadia, vale para esse traficante que
vende drogas aqui nas ruas das cidades brasileiras.
Cada vez que a polícia prende um jovem que vende drogas, sem fazer
uma grande investigação sobre o que existe atrás dele, nada acontece de
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fato. Ele é substituído em segundos. O tráfico é uma atividade comercial.
Tráfico visa mudar poder político? Tráfico visa mudar ação religiosa?
Alguma coisa assim? Não! Tráfico é dinheiro. A única coisa que interessa é o bolso. E todos são substituíveis. Todos podem ser descartados
a qualquer momento. Com o crack, a situação é ainda pior.
As pessoas mais velhas costumavam dizer: “Traficante é esperto! Ele não
usa droga!” “Só vende!”
Hoje é diferente. O grande traficante trabalha para viciar os pequenos
que vendem na esquina, nas ruas. Por quê? Porque ele vai ter o melhor
vendedor do mundo, aquele que fica 24 horas sentado na beira de uma
esquina, na porta de um colégio vendendo. Porque a cada 10 pedras que
ele vende, ganha 2 para usar.
E por que tanta violência no tráfico? Sob o efeito da droga, o vendedor
não consegue fazer essa contabilidade. Acaba usando mais do que é autorizado ou até usando tudo. Quando está totalmente endividado, e não
tem mais quem pague a conta, ele é descartado! Ele morre!
Em Curitiba sabemos que os traficantes torturam o jovem ou a jovem
antes de o matar. Em Foz do Iguaçu cortaram a cabeça de um menino
de 12 anos; em Colombo, também cortaram fora a cabeça de uma garota
de 19. Colocaram numa sacola de lixo e mandaram entregar na casa da
família. Por quê? Para servir de exemplo para o bairro inteiro. Para que
toda aquela vila fique sabendo que quem deixa dívidas com o crack não
é só morto; é torturado com crueldade antes de morrer, para servir de
exemplo.
E isto é apenas uma parte da violência. Os índices de homicídio têm
relação direta com o crack: 70% no Rio de Janeiro; 70% em Curitiba.
Estatísticas altíssimas.
A segunda pergunta do Abadia foi a que definiu a política pública de
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Curitiba. “Doutor, o senhor acha que eu não sei que foi sua equipe que
ajudou a derrubar o meu avião? O senhor acha que aquilo me afetou financeiramente?”
Ele se referia a um avião no qual colocamos um GPS no motor, ajudados
por pessoal do governo americano. O avião saiu vazio de Curitiba, reabasteceu em Manaus e desapareceu do radar brasileiro quando passou
para o lado venezuelano da selva amazônica. Então o satélite americano
continuou rastreando o avião, que pousou sem problemas e foi carregado com 3 toneladas e 600 quilos de cocaína. Quando sobrevoava a
península do Yucatán no México, a Força Aérea interceptou o avião e
mandou que ele baixasse. O avião não baixou e caiu. Os jornais cometaram, na época, que a força aérea teria derrubado a aeronave.
Eu realmente cheguei a pensar que aquele golpe o tinha deixado com
dificuldades financeiras.
Pura ingenuidade. Três toneladas e 600 quilos de cocaína significam a
mesma quantia em ouro. A cocaína pura custa R$ 60,00 mais ou menos. Havia cerca de US$ 200 milhões naquele carregamento. É muito
dinheiro. E não abalou o traficante.
A Polícia Federal tinha trabalhado meses para pegar um grande carregamento de Abadia. Ele comprava aviões a jato em Curitiba, São Paulo,
Rio Grande do Sul, Santa Catarina. O avião saía vazio do Brasil, entrava
na selva amazônica, desaparecia e reaparecia queimado na África ou no
México.
Abadia virou para mim e falou: “Olha, aquilo não fez nem cócegas.”
E por que não fez? Porque a cada 20 carregamentos desses, a polícia
só pega um. E isso acontece também com o pequeno traficante da rua.
Quantos caminhões cheios de drogas passaram para a polícia conseguir
pegar um? Muitos passaram!
Por isso é que precisamos de políticas de Estado. A polícia inteligente
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combatendo a corrupção dentro da polícia, combatendo a corrupção na
política. Combatendo o dinheiro da droga que vai bancar campanhas
políticas. Porque depois, o vereador, o deputado, o prefeito, até presidentes ficam amarrados e não podem agir contra o tráfico. A primeira
coisa a fazer é a Repressão Inteligente.
Quando se prende um traficante, é preciso fazer como a Polícia Federal
tem feito nos últimos anos: prende o atravessador. Prende o financiador.
Prende o empresário que dá uma de bacana na cidade, mas está lavando
o dinheiro das drogas. Ele fica distante da droga e não quer nem saber.
Ele dá R$ 10 mil e recebe R$ 20 mil no mês seguinte, e não quer saber
o que está acontecendo.
É preciso prender o intermediário, o policial envolvido com os traficantes para afetar realmente o tráfico. Enquanto prender só o menino da
esquina que vende umas pedrinhas de crack, a gente não vai conseguir
efeito algum. Prender a mula não é política de segurança. Isso é ação
pontual que não resolve o problema do crime.
E, por último, a prevenção! “Repressão Inteligente, Prevenção Existente!”
Mas é difícil convencer um político, para aplicar dinheiro em prevenção.
Por que é difícil? Porque quando o político asfalta uma rua, tem inauguração. Quando constrói um prédio, tem placa com o nome pregado lá. A
placa vai ficar pregada por 20 anos, para ser vista em todas as reeleições.
Agora, gastar dinheiro público de orçamento na prevenção? Em Curitiba, a primeira coisa foi convencer o prefeito. “Beto, você acredita que a
prevenção pode fazer a diferença?” Ele acreditou! Por isso tem funcionado.
É preciso preparar o professor que está na escola orientando o aluno;
preparar o pastor, o padre, o pai, a mãe, para que eles saibam o que é a
droga. Saber que aquela pedrinha não é um chiclete mastigável. É uma
pedra de crack. E isso mata.
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Todos têm que entender que alguma coisa precisa ser feita. Se ficarmos
parados, vamos ser engolidos. E não adianta mais pensar que a droga só
está na casa do vizinho.
Concluimos então que precisamos do braço forte contra os grandes traficantes e o crime organizado e da mão amiga para os jovens nos projetos de prevenção e de recuperação gratuita da dependência química do
Crack.
O Projeto Curitiba
Pesquisas mostraram que os bairros onde o tráfico era mais forte eram
os mesmos onde havia mais homicídios. Então, se não enfrentássemos
o tráfico de drogas trazendo a prevenção para as escolas, igrejas, não
haveria diminuição no número de homicídios.
Enquanto a Política de Segurança Pública for somente colocar viaturas
policiais nas ruas, e a família não estiver preparada para evitar que o
filho se envolva, continua tudo igual. Os adolescentes continuam morrendo, sendo presos, tornando-se criminosos profissionais. E o crime
continua intocado.
O segundo ponto, talvez o mais importantes desse projeto, é a Reincidência Criminal. É uma palavra difícil. Reincidir quer dizer o que? Cometer o crime novamente. O Ministério da Justiça tem uma estatística
analisando os presos que voltaram a cometer crimes depois de terem
sido presos a primeira vez: 83% voltam ao crime.
Quer dizer: se eu soltar 10, mais de 8 vão furtar, roubar, traficar de
novo. Portanto, o sistema está errado e falido. Se a reincidência é tão alta
é porque ninguém está fazendo Reinserção Social. Cuidando para que,
quando sair da cadeia, o jovem tenha uma nova chance. Um exemplo:
um jovem de família que frequenta igreja; o pai, a mãe são pessoas que
deram boa educação. Não tinha nenhum fator que o levasse ao crime,
à droga.
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Nunca cometeu um crime. Não tem exemplos negativos. Podia estar
sentado aqui dentro com sua família, hoje. Mas tem a pressão do grupo
de amigos e uma bela noite, o pai descobre que ele experimentou crack,
sem saber que era uma viagem sem volta. E se torna um dependente
químico. O pai se desespera, leva na igreja, faz oração, tenta fazer alguma coisa. Mas a dependência química vai engolindo aquele menino. E,
aos poucos, começam os furtos dentro de casa. Portas e armários são
trancados.
Certo dia, fica dentro de um bueiro, porque ficou na rua, sem roupa, trocou tudo o que tinha de roupa no corpo pela droga. Tênis já não existe
mais. Só chinelo. Se fosse uma menina, estaria se prostituindo para ter
a pedra do crack. O menino também se prostitui, vai se degradando até
que a família não aguenta mais. Não há família que aguente quando
começa a violência. Pai matando filho. Filho matando pai. Houve dois
casos de pais matando filhos, mês passado na Região Metropolitana de
Curitiba, por causa do crack.
O pai defendendo a família de jovens violentos sob a influência de drogas, querendo espancar a família inteira, e ele teve que atirar e matar o
filho. Isso é o pior que pode existir no mundo. Um pai matar o próprio
filho por causa da droga. E aí, a gente vê que acaba a relação familiar, e
o pai e a mãe acabam botando na rua esse jovem. É esse jovem que vai
para a praça perambular, porque não tem mais para onde voltar. Não
tem local apropriado de tratamento de dependência química. Não tem
uma mão estendida para ele.
Acaba cometendo um crime pela primeira vez. Pega um tijolo no chão,
olha e quebra a vidraça do carro para roubar o DVD. E acaba preso. Se
for um jovem pobre, dependente químico, jogado nas ruas pela família,
vai conseguir negociar com a Polícia Militar? “Olha, sargento, livra a minha aí, poxa! Tava brincando com esse tijolo e acertei o vidro”. Não, ele vai
para o camburão. Algema e camburão. Não tem a mínima chance de
conversa.
125
Na Delegacia da Polícia Civil, o delegado vai estar lá, esperando? Vão
telefonar pro delegado, dizendo que um jovem foi preso porque quebrou
o vidro de um carro. Dependente químico, pobre, expulso de casa. O
delegado vai estar às 3 horas da manhã na delegacia? Não. O jovem vai
ficar preso até o delegado chegar no dia seguinte, 9, 10 da manhã, pra ver
se vai fazer o flagrante, o que vai fazer com esse jovem.
A falta de efetivo da Polícia Militar e da Polícia Civil, os baixos salários
das bases das instituições e as deficiências estruturais colocam aquele
sargento e o delegado em posições difíceis e constrangedoras.
Se o jovem levado à delegacia é pobre, dependente químico, jogado nas
ruas, alguém vai estar pronto no final de semana pra dar um “habeas
corpus” para esse jovem? Vai se preocupar se usaram algemas? Nem o
juiz da cidade viu o caso ainda. Vão dizer que ele foi injustiçado? Estava
brincando com tijolo e foi preso.
Ninguém vai fazer isso. O jovem vai para cadeia, muitas vezes esquecido, abandonado. Aí começa a se fechar o ciclo do crime. Lembrem:
família de bem, não tinha maus exemplos, tinha uma família da igreja. A
dependência química o jogou dentro de uma cadeia.
Se existe inferno, com certeza tem o cheiro da delegacia de polícia, de
uma custódia. De um presídio. É terrível. Um amontoado de pessoas,
sarna, doença venérea. Todas as doenças num cubículo. Um lugar onde
cabem 30 pessoas tem 200. Três andares de redes para dormir. Escala de
serviço pra poder dormir, porque não cabem todos no chão. Esse jovem
é jogado lá dentro. Boa pinta, arrumado. A primeira coisa que vai acontecer é violência sexual. E deve ter alguém com Aids, alguma doença
venérea, e esse jovem vai continuar nesse ciclo do crime.
Ali, ele vai aprender de verdade. Se ele não era bandido, agora vai aprender. Vai passar 5, 6 meses convivendo com assaltante, com traficante,
com homicida, estelionatário. Ele vai fazer uma faculdade. E quando botar o pé pro lado de fora, pelo menos estará recuperado da dependência
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química? Nem isso, porque não há tratamento de dependência química,
psicólogo, assistente social. Mas droga tem. E muita.
Entra droga à vontade e a família é extorquida pelo traficante pra pagar
a droga que o filho usa dentro da prisão. Então aquele menino, que além
de deixar a família destruída, estar preso, faz a família, que recebe salário
mínimo, pagar a droga dele, porque é avisada: ele vai ser morto na próxima rebelião. E a família trabalha pra pagar a droga dele dentro da cadeia.
E quando ele sair? Seis meses depois, dependente químico, pobre, abandonado, o empresário vai dar emprego pra esse jovem ser motorista da
família, cuidar do caixa do comércio? Não vai dar! Uma mulher vai contratar uma menina que passou pela cadeia para ser babá? Não vai, ninguém vai dar uma chance.
Se não fizermos nada, estamos fazendo uma fábrica de criminosos. Cada
vez que a Polícia Militar recolhe um jovem dependente químico da rua,
que não é um traficante profissional, e o joga dentro de uma delegacia,
estamos ajudando a produzir um criminoso profissional. Quem vai dar
emprego a ele é o tráfico, o crime organizado. E é com ele que vamos
cruzar num sinaleiro, que vai nos assaltar com uma arma... Infelizmente
é o que tem acontecido em Curitiba e em praticamente todas as cidades
brasileiras.
A culpa não é do juiz, promotor, do delegado da Polícia Civil ou do
coronel da Polícia Militar, mas sim da Política Pública de Segurança
equivocada que está sendo aplicada em todo o Brasil.
E a terceira constatação: Cidadania e Auto-estima. Faltam ações para os
jovens nos bairros. Nas grandes cidades, todos vão para o shopping no
final de semana, inclusive aqueles meninos que a gente chama de “carçudos”, é aquele menino do boné quadrado, que a bermuda chega ao meio
do joelho, com um pedaço da cueca aparecendo nas costas, mas não é
um bandido. Não é criminoso só pelo jeito de se vestir. É um jovem da
periferia da cidade, que tem poucas atividades de cidadania, de esporte,
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de cultura, de lazer onde ele mora. O esporte, a cultura, o lazer para ele
é ir para o shopping.
Então propusemos ao prefeito criar uma secretaria para formular políticas públicas municipais sobre drogas com prevenção, com reinserção
social para esses jovens, para criar oportunidades de cidadania e auto-estima onde ele mora e no horário em que ele precisa.
Assim nasceu a Secretaria Antidrogas de Curitiba. A primeira do país
a ser criada em uma capital. Um projeto único que já se espalhou para
mais 20 cidades do interior e 3 ou 4 capitais de Estados. Temos uma
rede de colaboração. A própria ONU diz que o principal fator que leva
o jovem à dependência química é a falta de informações. Usa o crack
sem saber que crack é um caminho sem volta. Se ele usar o crack uma
ou duas vezes, já foi. Não volta mais.
A bebida alcoólica usada muito cedo pode aumentar a predisposição de
uma pessoa se tornar dependente químico. Então planejamos: vamos fazer palestras educativas com líderes da sociedade, que agem como multiplicadores. Se eu for num colégio só com os alunos, fica ali. Se eu falar com
as lideranças da nossa cidade, multiplico por cinquenta, por duzentos.
Cada palestra tem um programa sério e, no final, meus bolsos costumam
ficar cheios de papeizinhos: vinha uma professora escondida e colocava
um papelzinho na minha mão, que dizia “o traficante da vila, fulano de
tal, mora na casa tal.” Caramba! Será que alguém viu essa professora me
dando papelzinho? Ele vai ser preso e ela vai correr risco de vida.
Em outra palestra, um guarda municipal me entregava um papel e dizia
que tal policial comanda o tráfico em determinada região. Criamos uma
rede que se chama “Salomão” – aquele que tudo vê. É um site da internet
que temos em Curitiba, onde a pessoa pode dar informações anônimas.
Mas só os multiplicadores, as lideranças é que recebem senhas. Pessoas
que vão dar palestras e podem escutar uma informação, fingir que não
escutou, e repassar pela internet.
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Temos uma central de Inteligência na Secretaria Antidrogas, em parceria com a Guarda Municipal. Alguns guardas, cada um na frente de um
monitor, recebem essas informações on-line. Pesquisamos os antecedentes criminais, quem é o dono de tal placa de carro. Então eu assino uma
informação para a Polícia Civil ou para a Polícia Militar e a liderança
comunitária, evangélica, religiosa, não aparece. Não corre o risco de ser
identificado, não vai precisar depor na Justiça nem vai ficar frente a frente com o traficante denunciado.
É uma forma diferente, um sistema excelente e funciona bem. O número
de trotes é mínimo.
Estamos multiplicando projetos de geração de renda para os jovens. O
primeiro curso que oferecemos é em parceria com uma faculdade - um
curso de Web Designer. Os jovens em tratamento são enviados pelas
Associações de Moradores e Comunidades Terapêuticas. A idéia é dar
uma chance a esse jovem conseguir um emprego.
O último passo é o banco de talentos. Estamos fazendo um estudo jurídico para inserir uma cláusula nos contratos assinados pela prefeitura
que obrigue que uma porcentagem das vagas que a empresa gerar sejam
preenchidas por jovens que têm dificuldade para encontrar emprego.
São as vagas sociais.
Criamos uma Rede de Comunidades Terapêuticas, em todas as nove
regiões de Curitiba, com vagas sociais. Teremos um núcleo de recolhimento, de encaminhamento, de cidadania, que vai receber todas essas
pessoas. A prefeitura vai contratar vagas para tratamento de quase mil
pessoas por ano, dependentes químicas de droga. Vamos pagar um valor
justo por mês para cada jovem ou para cada adulto internado.
O Beto colocou orçamento suficiente para a secretaria funcionar bem.
Quando foi criada, nosso orçamento era de R$ 1,2 milhão. Agora é de
R$ 6 milhões. O novo prefeito de Curitiba, Luciano Ducci, médico conceituado, com certeza continuará o projeto que já tem cerca de R$ 1
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milhão só para usar nas Comunidades Terapêuticas. Estamos ajudando
as comunidades a se adaptarem a todas as exigências do Ministério da
Saúde. Queremos evitar que esses meninos se transformem em bandidos. Eles não são bandidos, mas se deixarmos certamente se tornarão.
E temos o programa BOLA CHEIA. Conheci esse projeto em Nova
York, quando fui colaborar com a polícia norte-americana com informações sobre o Abadia. Pedi à prefeitura de Nova York para conhecer um
projeto de prevenção. Numa noite, fomos com o administrador de um
bairro, que disse ser um local em pé de guerra. Mas quando chegamos,
foi um susto ao contrário: turistas com câmera pendurada no pescoço;
igrejas abertas de madrugada; um bairro muito bonito, iluminado.
O que tinha acontecido ali? O administrador contou que o ex-prefeito
Rudolf Giuliani tinha implantado um projeto planejado por dois sociólogos (Broken Windows): eles diziam que o jovem se comporta de
acordo com o ambiente em que vive. Se o ambiente é fechado, sujo, degradado, ele se comporta da mesma forma. Se ele é desrespeitado todos
os dias, se não tem seus direitos básicos atendidos; se a casa em que
mora é toda pichada, ele vai reagir com desrespeito às autoridades, com
desrespeito ao pai e à mãe. Aos poucos, vai se tornando um bandido.
O que o prefeito fez? Limpou aquele bairro. Trocou os vidros quebrados, rebocou os carros que estavam com os pneus furados, pintou as
paredes. Arrumou todo o bairro. E o jovem começou a se comportar de
uma forma diferente. Começou a sentir orgulho, a respeitar e não querer
mais ir embora dali. E aí vem o BOLA CHEIA, que é o principal.
A prefeitura reformou uma quadra de esportes que ficava entre esses
blocos de apartamentos. E colocou a escolinha de basquete para funcionar durante a madrugada. No horário em que mais havia ocorrências
na sexta, sábado e domingo. Eles chamavam de “Midnight Basketball”.
Copiamos uma parte desse projeto. Abrimos as quadras de esportes de
escolas da prefeitura de Curitiba nos horários de pico de ocorrências de
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tráfico, de homicídio. Contratamos professores de Educação Física, assistentes sociais, psicólogos. Gente que vai ser amiga daqueles jovens. E
no meio das brincadeiras, de lazer, do esporte, vão passando princípios,
valores.
Dois meses depois, exigem que voltem a estudar, caso contrário, não podem mais ficar. Mas o jovem já criou um círculo de amigos, uma rotina,
começou a ser respeitado ali. E não quer sair. Ele volta a estudar. Com
três meses, ele tem que deixar a assistente social visitar sua casa. Vamos
saber se o pai é alcoólatra, se a mãe é prostituta, vamos ver qual é o
problema daquela família. Ver onde a prefeitura, o governo do Estado, o
governo federal podem entrar para ajudar aquela família.
Em Brasília, na Ceilândia, que também copiou as bases do projeto de
Nova York, o índice de homicídios de jovens já baixou em 25%. Lá se
chama “Esporte à Meia-Noite.” Em três meses na região de Vila Formosa, em Curitiba, baixamos de uma média de 15 ocorrências policiais
para cinco. Só tirando os meninos das esquinas em que vendiam drogas,
que ficavam brigando na porta dos botecos com cachaça, com sinuca, e
levando esses jovens para uma nova situação de cidadania, onde é respeitado e tem uma nova chance.
Hoje, temos em média 1,2 mil adolescentes por noite no programa Bola
Cheia em Curitiba. São 1,2 mil jovens que a cada dia renovam a expectativa de vida, jovens que poderiam não amanhecer vivos ou terem
cometido um crime brutal contra a sociedade, e que, por estarem dentro
de um projeto desses, estão ganhando um dia a mais de vida, e, talvez,
nós também!
Todos os projetos são articulados entre si. Para a reinserção social queremos gerar um emprego para ele. Se é dependente químico, vamos levá-lo para as Comunidades Terapêuticas.
Temos tentado todos os dias, em Curitiba e na Região Metropolitana,
levar mais um jovem a esses programas. Estamos dispostos a disputar, a
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levá-lo pelo braço. Encarar cada menino e cada menina de uma maneira
diferente, para tirá-los do tráfico, salvá-los do homicídio. O que pretendemos é plantar a semente de uma política pública linha dura contra
os criminosos profissionais e mais humana e solidária para os nossos
jovens.
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Este livro foi impresso em tipos Rockwell e Adobe Jenson Pro,
11/14.5 no inverno de 2010 sobre papel alta alvura 90g pela
Gráfica Fotolaser

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