Texto - NUPEA - Núcleo de Pesquisa em Ensino de Arte

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Texto - NUPEA - Núcleo de Pesquisa em Ensino de Arte
A CANÇÃO BRASILEIRA ATRAVÉS DOS TEMPOS.
Cristina Matos Silva.
[email protected] Centro Universitário de Patos de Minas.
Comunicação: Relato de Experiência
Acreditar na arte como impulsora dos conhecimentos históricos e formação crítica do
ser humano é, para mim, uma diretriz que alicerça minha conduta no processo
ensino/aprendizagem e, apesar de, este ano, não estar trabalhando com o conteúdo Artes tenho
a preocupação de conjugar estes princípios para enriquecimento das propostas pedagógicas.
O projeto “A canção brasileira através dos tempos” foi desenvolvido na disciplina de
Língua Portuguesa – 2° trimestre de 2008 - com 69 alunos da 6ª série compreendendo a faixaetária de 12-13 anos de ambos os sexos pertencentes à classe baixa/média do Colégio
Tiradentes da Polícia Militar situado na cidade de Patos de Minas. O mesmo se destaca por
impulsionar seu corpo docente no âmbito artístico e cultural e, por isso, conta com um salão
nobre com capacidade para 100 pessoas onde, no palco, os alunos apresentam grêmiosliterários, trabalhos de diversas disciplinas tendo peças teatrais e demais números artísticos
desenvolvidos no decorrer do ano letivo. Além disso, a estrutura oferece suporte para aulas de
reforço (tendo sala própria), ginásio poliesportivo coberto e um quiosque destinado a aulas e
ensaios ao ar livre.
A prática pedagógica foi inspirada num estudo pertencente ao livro de Língua
Portuguesa “Aprendendo a ler e escrever textos – 6ª série” e adaptado à realidade e
capacidade dos alunos. A escola tradicionalmente realiza a cada trimestre o Projeto “Grêmio
Literário” que busca desenvolver números artísticos baseados nas datas cívicas que abrange
este período, além de estudar a biografia de algum artista/escritor que contribuiu/ contribui
para a solidificação da cultura brasileira. Pensando nisso, quis inovar e propus o projeto “A
canção brasileira através dos tempos” que faria um estudo de estilos musicais substanciais no
panorama da cultura do nosso Brasil.
Os estilos seguiriam uma linha cronológica começando pelo Choro, Samba, Bossa
Nova, Tropicália e Rock dos anos 70-90. Os grupos foram sorteados em sala de aula e cada
um teria o máximo de 7 (sete) alunos. De início, alguns nomes como Choro, Tropicália
causaram estranhamento, mas não deixaram de aguçar a curiosidade dos mesmos que
receberam bem a proposta. Afinal, falar, entender, ouvir música agrada quase universalmente.
Levei um explicativo acerca do desenvolvimento do trabalho, além de fazer uma
introdução sobre a origem da música universal e também brasileira (primeiros instrumentos,
influências, etc.). Deixei claro que o mesmo se constituía de duas partes: teórico e prático e
que objetivava trazer ricas informações acerca da história da música, com ênfase na música
brasileira, abordando seus principais estilos a fim de multiplicar tais conhecimentos e
entender o processo musical de nosso país, bem como desenvolver habilidades artísticas dos
alunos e disseminar princípios para valorização da nossa cultura engajados no que propõe a
disciplina de Língua Portuguesa.
Os alunos então, tiveram 40 dias para organizarem a parte teórica que era o preparo de
um resumo sobre o estilo sorteado, enfocando origem, influências, principais representantes,
curiosidades, contexto histórico, escolha de uma música significante do estilo (esta teria que
estar no resumo e ser tocada em sala de aula), além de 2 (duas) questões formuladas sobre o
que foi aprendido do estudo em questão. Para as referências sugeri que procurassem sites
relacionados à história da música brasileira, livros da área (disse que poderiam visitar a
biblioteca do UNIPAM – Centro Universitário de Patos de Minas - e também a Rede Arte),
além de conversar com os avós, pais, tios, irmãos, etc. para coleta de informações.
Os resumos deveriam ser reproduzidos para todos os alunos, além de apresentados em
sala de aula para avaliação de minha pessoa. Durante esse processo, fiz reuniões semanais
para tirar dúvidas que surgiam, para ajudar nas referências e acabei opinando sobre as músicas
dos estilos. Alertava que de preferência estudassem e apresentassem músicas mais conhecidas
como Carinhoso, Garota de Ipanema, Alegria, Alegria.
A parte teórica foi atendida. É certo que tiveram equipes mais engajadas que seguiram
a risca o que tanto frisava: resumos bem coordenados, com informações substancias que
ligava um estilo ao outro. De toda forma, os grupos cumpriram o que foi pedido nesta
primeira parte. Eles tiveram 20 minutos para na frente expor as informações do resumo,
passar a música, além de comentar e coordenar as questões propostas. Seguiu-se a linha
cronológica exposta e, antes da equipe do Choro iniciar com suas explanações, voltei
novamente com os conceitos sobre a origem da música universal e brasileira usando recursos
tecnológicos como o data-show. Depois em sala de aula, os outros estilos foram apresentados
e apreciados por todos os alunos.
O projeto também compreendia uma parte prática. No dia da apresentação do mesmo,
os alunos já tomaram ciência de que escolheriam uma música do estilo abordado e deveriam
fazer um número artístico. Eles ficaram à vontade para escolher se dublariam, cantariam solo,
fariam uma paródia, montariam uma coreografia, etc. De início, tiveram dúvidas, alguns
alunos ficaram com receio de quem os assistiriam (talvez estivessem pagando o tão famoso
“mico”), mas depois eu intervi com alguns palpites, sempre respeitando o nível e capacidade
deles, dizendo: “ Se a equipe é muito tímida, faça um estudo da música e monte um jogral, ou
declame. Agora, se sentirem mais maduros, à vontade, pense numa coreografia”. Esta parte
teve contribuições da sociedade, como mães que acompanharam os ensaios, coreógrafos,
professores de violão que tocaram no dia da apresentação, além da professora de Artes do
Colégio, Janaína Perez, que contribui com ricas informações e/ou idéias do desenvolvimento
prático.
A apresentação lítero-musical foi apresentada um dia após a teórica e acompanhada
pela supervisora, outros professores e alunos convidados de outra classe. Eu presidi a
apresentação e, antes de cada número artístico foi lida as informações mais importantes acerca
do estilo apresentado baseado nos estudos dos alunos.
O projeto foi digno de elogios daqueles que acompanharam. No dia seguinte, a aula foi
reservada para correção das questões propostas em cada resumo e comentários acerca do
desenvolvimento do mesmo. Confesso que os alunos da 601 explanaram
comentários
discretos, foi frisado mais sobre o aprendizado teórico acerca dos movimentos, disseram que é
bom compreender estilos musicais genuinamente brasileiro e saber da contribuição de cada
um para o panorama do país. A outra turma (602) conta com meninos mais desinibidos o que
proporcionou comentários entusiasmastes: além do enfoque teórico e de compreender agora
de estilos como Chorinho, Tropicália, a importância da Bossa Nova e outros, os alunos se
deleitaram ao falar da parte prática, uma vez que mostraram interesse em pesquisas sobre
figurinos da época, comportamentos, etc.
Fica aqui a certeza de duas coisas: este projeto tem potencial para ser desenvolvido em
outros anos com turmas de nível fundamental e também médio e diante seu ideal ele precisa
ser expandido para se tornar um projeto interdisciplinar (Português, Artes, História, etc.),
além de contar com importante parceria da comunidade: cantores da cidade, pais, coreógrafos,
dançarinos, etc.
Foi um pontapé cauteloso, porém já confiante em um bom retorno e assim aconteceu.
Percebo o crescimento dos meus alunos quanto busca de informações, capacidade de
pesquisa, habilidades artísticas sendo desenvolvidas, além de uma solidificação na relação
professor/ aluno. Sempre chegam admirados relatando que viram alguma reportagem sobre os
50 anos da Bossa Nova e/ ou 40 anos da Tropicália comemorados este ano, que agora ouvem
o rock nacional e entende seu caráter crítico, que sabem diferenciar o samba raiz do samba
atual, além de citarem o projeto “Minas ao luar” que toca músicas de seresta da época do
Chorinho. Os alunos acreditam nas minhas propostas e esperam por elas porque sabem o meu
interesse
de
sempre
evidenciar
a
Arte
como
eixo
norteador
do
processo
ensino/aprendizagem/formação de caráter.
Referências
•
AMERICO, Luiz. A história da música da MPB. São Paulo. 2005. Disponível em:
<http://www.luizamerico.com.br/historia-mpb.php> Acesso em: 5 de mai. 2008.
•
FEIST, Hildegard. Pequena viagem ao mundo da arte. 2.ed. São Paulo: Moderna,
2003. 112 p.
•
MARINHO, Sônia. A história da música brasileira no ar. São Paulo, 2004. Disponível
em:
<http://www.samba-choro.com.br/s-c/tribuna/samba-choro.0406/0658.html>
Acesso em: 02 de jun. 2008.
•
SANCHES, Kátia; ANDREU, Sebastião. Aprendendo e Ler e Escrever Textos- 6ª
série. São Paulo: Ed. Positivo, 2005. 292 p.
•
SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira. São Paulo: Editora
34, 2008.
•
VARGAS, Herom. Trabalho tenta dar conta das tendências da canção brasileira e
midiatizada.
São
Paulo,
2008.
Disponível
<http://www.blog.musimid.mus.br/?p=40> Acesso em: 29 mai. 2008.
Fotos
Alunos da turma 602 apresentando parte teórica – Tropicália
em:
Alunos da turma 601 dançando a música “Carinhoso” de Pixinguinha
Alunos da turma 601 declamando a música “Alegria!Alegria!” de Caetano Veloso
Alunas da turma 602 dançando a música “Garota de Ipanema” de Tom Jobim
Alunos da turma 601 dançando “Era um garoto que como eu amava os Beatles e Rolling
Stones” dos Engenheiros do Havaí.