ENXOVAL DE CASAMENTO – CULTURA E MERCADO NA (RE

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ENXOVAL DE CASAMENTO – CULTURA E MERCADO NA (RE
ENXOVAL DE CASAMENTO – CULTURA E MERCADO NA
(RE) SIGNIFICAÇÃO DE UMA TRADIÇÃO
Débora Fontes Pinto1
Rita Claudia Aguiar Barbosa2
Maria Dolores de Brito Mota3
RESUMO
O ritual do casamento sempre esteve associado à preparação de um enxoval que a noiva deveria levar para o seu
novo lar. Esse enxoval da mulher para o casamento sofreu modificações que acompanharam as mudanças
históricas no próprio casamento, na condição feminina e na formação de uma sociedade de consumo fortemente
industrializada. A pesquisa realizada envolveu um estudo bibliográfico, uma pesquisa documental na internet em
sites especializados em enxoval e entrevistas com cinco mulheres de gerações diferentes. A forma de preparar o
enxoval da noiva mudou da fabricação artesanal num contexto de transmissão de vivências e valores entre
mulheres, para uma prática de consumo coordenada por empresas especializadas e orientada por valores
estabelecidos pelo mercado. Esse processo alterou os materiais, as peças e a quantidade dos itens que compõem
o enxoval.
PALAVRAS-CHAVE: Mulher. Mercado. Valores
1 INTRODUÇÃO
Este artigo trata das modificações ocorridas na prática de produção do enxoval de
noiva com o objetivo de compreender as transformações de seus significados ocorridas desde
os anos 1950, com o desenvolvimento da sociedade de consumo e os novos papeis assumidos
pelas mulheres. O estudo compreendeu uma pesquisa bibliográfica e entrevista com quatro
mulheres de gerações diferentes. A construção do enxoval reflete a significação do casamento
no universo feminino, sendo um dos principais objetivos de vida de muitas mulheres e alvo de
uma preparação que consumia parte de sua juventude, como também reflete a relação
existente entre as próprias mulheres, com as mais velhas ensinando e preparando as jovens
para o cumprimento de um rito de passagem, o casamento, ao qual estavam destinadas.
O ritual de acasalamento, ao longo da história social humana, foi se desenhando e
sofisticando ao ponto de tornar-se um cerimonial, conhecido como o dia de celebração das
bodas, o que o senso comum chama de dia do “casório” ou “casamento”. O dicionário
Houaiss eletrônico traz como a primeira definição de enxoval “conjunto de roupas e
1
Bacharel em Estilismo e Moda.
Mestre em economia, Professora Assistente do Dep. Economia Doméstica da Universidade Federal do Ceará.
3
Doutora em Sociologia, Professora Adjunta do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará.
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1
acessórios de quem se casa, seja do vestuário, seja para o serviço de casa”. O seu significado
está diretamente ligado à sua história, pois sempre esteve associado á preparação das noivas
para o casamento.
2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Casamento, Mulheres e Enxovais
Na antiguidade romana os núcleos familiares apresentavam-se bastante extensos,
marcados por laços biológicos naturais e convenções artificiais e chefiados pelo paterfamilias,
espécie de soberano doméstico, dotado de grande autoridade diante de seus “familiares”.
Nessa família romana, semelhante a um clã, o casamento ocorria apenas como um ato social,
necessário, porém não exclusivo, para preservação da descendência legítima, não elevando os
casais e filhos oriundos dessas uniões ao caráter de paterfamilias independentes. De acordo
com Murstein (1976), dentre os romanos, as pessoas se casavam para unir famílias, e por
interesses políticos e econômicos, estes últimos alimentados pelo costume do dote, parcela de
herança que a noiva recebia dos pais na ocasião de seu casamento e que era entregue ao
noivo; e também para ter em justas bodas, filhos que, legítimos, seriam herdeiros do
sobrenome do pai e posses de família.
Ainda acompanhando o estudo de Murstein (1976), as etapas de um casamento no
espaço histórico da Idade Média iniciavam-se ainda na infância, quando os pais do noivo
faziam o pedido de casamento aos pais da noiva (petitio), em seguida as famílias entravam em
entendimento (desposatio) e estava corrente o noivado. O dote era acertado entre as famílias
numa etapa denominada dotatio, e as crianças, que na época deviam ter por volta de sete anos
de idade, ao crescerem ficavam cientes de que o não cumprimento do acordo de casamento
feito por seus pais acarretaria multa dispendiosa para família do desistente em questão,
exercendo pressão sobre os jovens nubentes. A entrega da noiva (traditio) acontecia quando a
mesma adentrava a puberdade, entre os doze e catorze anos, era realizada então a cerimônia
de casamento.
Nas sociedades clássicas grega e romana, as mulheres eram educadas em casa pelas
mães, avós, criadas e demais mulheres da família e mantidas reclusas, longe dos olhares
masculinos, num aposento da casa destinado exclusivamente a elas e denominado Gineceu.
Os ensinamentos que recebiam eram, sobretudo, domésticos, como cuidar da casa e de
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crianças, cozinhar e trabalhos manuais de agulha, como tecer e bordar. Em algumas
sociedades eram estimuladas a praticar exercícios físicos com o objetivo de tornarem-se
melhor parturientes, dando origem a bebês mais fortes e saudáveis. Nesse contexto, não
deixavam de ser vistas essencialmente como reprodutoras, geradoras de homens cidadãos de
fato.
Ainda com base em Muristein (op.cit), nesses anos de reclusão, as meninas se
dedicavam à construção do enxoval, parte do dote, materializada em peças, que as noivas
levavam consigo da casa dos pais na ocasião do casamento.
Duby (1989) aponta que com o fortalecimento do cristianismo por volta do século IX,
se reforçou o poder patriarcal sobre a feminilidade, pois para a Igreja cristã a mulher
representava o perigo do pecado carnal, devendo ser contido e de preferência distanciado dos
homens de bem. As mulheres eram então, encerradas no “quarto das damas” – versão cristã
do gineceu – destinando-se a tarefas especificas necessárias para mantê-las ocupadas, sendo o
ócio considerado um grave perigo para os desvios do caráter. Essas mulheres alternavam seus
dias entre rezar e trabalhar, tecendo, fiando e bordando as roupas da época e os artigos do lar,
segundo Duby (1989) “das mãos femininas saíam, de fato, todos os enfeites do corpo e os
tecidos ornamentados que decoravam o próprio quarto, a sala e a capela.”
Essa reclusão feminina, contudo só poderia ocorrer em famílias mais abastadas, visto
que dentre as mais humildes, as mulheres eram consideradas força de trabalho, costumavam
trabalhar, às vezes fora da própria casa dos pais, sendo o trabalho, não uma experiência
emancipadora, mas uma função extensiva à sobrevivência, delegada pelo poder do patriarca
sem recursos.
No decorrer da Idade Média, a instituição do casamento não sofreu evoluções
significativas diferentes do exposto e comentado anteriormente. No século XII, começam a
surgir na Europa os primeiros sinais de idealização do amor e ideais românticos. O amor
cortesão como ficou conhecido, era cantado por trovadores e poetas em homenagem as
esposas dos senhores, damas geralmente casadas, castas e inatingíveis. Nesse contexto o amor
é visto como antagônico ao casamento e impossível de existir entre marido e mulher já que
estes se encontram unidos por obrigação, pura convenção social, e não pela vontade dos
amantes.
O amor romântico se tornou mais presente a partir do século XVIII, introduzindo a
idéia de narrativa de uma história individual, informa Giddens (1993), base da idéia de
romance, “inserindo o eu e o outro em uma narrativa pessoal, sem ligação particular com os
processos sociais mais amplos” (p. 50).
No período de prevalecência do amor cortês,
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retratado em histórias de amor como de Dante (1265-1321) e Beatriz e de Petrarca (13041374) e Laura, na tragédia de Romeu e Julieta de Shakespeare, escrita entre 1591 e 1595,
percebe-se que o casamento não era tão importante. Mesmo com o advento do amor
romântico, o casamento neste século prevalecia acontecendo por dever ou interesse, em
alguns casos as mulheres eram tratadas como amigas eram submetidas a rigorosos controles
sexuais, como acentua Ribeiro (2003), mostrando como em Diderot a retenção do sexo era
vista como relacionada a problemas psíquicos nas mulheres. Nesse período a condição das
mulheres começa a mudar e os costumes se transformam tanto no espaço público como no
privado, com muitas mulheres lutando por mais espaço e direitos na sociedade e buscando
associar o casamento ao amor.
No Brasil colonial, as relações eram marcadas pela tentativa da Igreja em catequizar os
índios nativos e dominar os impulsos sexuais dos portugueses, extasiados pela nudez das
índias, e também pela falta de recursos de toda espécie (SOUZA, 1997). O casamento formal
possuía grande importância, e embora fosse primordialmente um privilégio da elite, também
ocorria com menor freqüência nas classes mais baixas e entre escravos e indígenas. O
casamento sacramentado conferia status e segurança aos colonos e era desejável tanto aos
homens quanto as mulheres, estas últimas quando órfãs, podiam receber um dote a partir de
doações das famílias ricas.
O dote era obrigação dos pais da noiva, que davam ao futuro marido da filha escravos,
animais, lotes de terra, dinheiro, enfim, parte da herança dos pais a qual a filha teria direito na
ocasião da morte destes, além do enxoval, que incluía artigos pessoais de vestuário, inclusive
o vestido e a camisola de núpcias, roupas e artigos do lar como mobiliário e têxteis de cama,
mesa e banho, ricamente bordados pelas mulheres da família e escravas.
Souza (1997) afirma que a Igreja dominou a instituição do casamento no Brasil até
meados de 1860 quando o crescimento da imigração trouxe a necessidade de criação de uma
lei que regulamentasse o casamento de não-católicos. Em 1890, um ano após a Proclamação
da República, a primeira constituição brasileira determinava o casamento civil, daquele
momento em diante, o único reconhecido pelo estado, e foi em 1934, que o casamento
religioso passou a ter também efeitos civis.
O avanço industrial e as grandes guerras no começo do século XX propiciaram à
mulher conquistas econômicas e sociais. Com o surgimento das fábricas modernas as
mulheres começaram a sair de casa para trabalhar. Ganhou espaço o Movimento Feminista a
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partir dos 1960, que tinha como objetivo lutar contra a descriminação e subordinação da
mulher, reivindicando igualdade de direitos políticos e sociais.
As inúmeras mudanças ocorridas no decorrer da história do casamento alteraram
grande parte dos costumes e papéis sociais influenciando hábitos e tradições, dentre eles o
enxoval de casamento.
3 METODOLOGIA – CONHECENDO OS SIGNIFICADOS DO ENXOVAL NA
EXPERIÊNCIA DE MULHERES
Esse estudo se caracteriza por ser qualitativo e se realizou com base numa pesquisa
multidimensional sobre a preparação do enxoval, sua história e sua produção, de modo a
compreender a evolução e as modificações que ocorreram ao longo do tempo, mas que o
conservaram como costume ou fase preparatória para o ritual do casamento, com ou sem a
mudança da moradia em um espaço próprio, fora da casa dos pais. Foi desenvolvida uma
pesquisa bibliográfica sobre a temática em questão, para traçar o percurso histórico do
casamento e do enxoval. Realizou-se uma pesquisa em sites especializados no serviço de
organização de enxovais para conhecer os procedimentos de sua preparação e a listas de itens
que o compõem. Foram entrevistadas quatro mulheres de gerações diferentes, que se casaram
nas décadas de 1960, 1970, 1980, 1990, para conhecer suas experiências na preparação de
seus enxovais de casamento e acompanhar as mudanças acontecidas ao longo desse período
nas formas de produção e nos significados do enxoval.
4 RESULTADOS: RE – SIGNIFICAÇÕES DO ENXOVAL: DO PRIVADO AO
PÚBLICO, DO FAMILIAR AO SOCIAL
O enxoval tradicional de uma noiva, na idade média, segundo Duby (1989), deveria
ser composto por artigos têxteis de cama, mesa e banho e utensílios do lar necessários a vida
numa nova casa. Confeccionados à mão pelas próprias meninas e demais mulheres da família,
essas peças traduziam o rito de passagem que transformava as filhas meninas em mulheres,
donas de suas próprias casas. O tamanho do enxoval estava diretamente relacionado ao status
e a situação financeira da família da noiva. A quantidade de peças de um enxoval médio era
de cerca de quatro dúzias de cada item como lençóis de linho, toalhas de mesa e banho,
guardanapos de pano, tudo em tecido branco e com monogramas bordados contendo as
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iniciais dos noivos ou brasão familiar. Nos enxovais mais portentosos a quantidade subia para
doze dúzias e a maior diferença era na qualidade das rendas, e tecidos assim como na
delicadeza dos bordados.
No século XIX, Perrot (1989) observa que o enxoval se inscreve num mundo em que o
privado é o lugar da felicidade e as mulheres suas testemunhas e cronistas.
A roupa de cama, mesa e banho, o vestuário constituem uma outra forma de
acumulação. O enxoval, cuidadosamente preparado nos meios populares, sobretudo
rurais, é ‘uma longa história entre mãe e filha’. A confecção do enxoval é um legado
de saberes e de segredos, do corpo e do coração, longamente destilados. O armário
de roupa é ao mesmo tempo cofre e relicário. A espessura dos lençóis, a delicadeza
das toalhas de mesa, os monogramas nos guardanapos, a qualidade dos panos de
limpeza ganham sentido numa cadeia de gestos repetidos e engrinaldados (p.14).
A autora apreende o significado econômico e simbólico do enxoval. É valor e signo
cultural; é objeto e é memória (de mulheres e entre mulheres). Antes da industrialização da
cadeia têxtil no século XIX, a confecção do enxoval tinha início com a fabricação dos fios
pelas próprias mulheres nas antigas rocas ou rodas de fiar, depois de prontos os fios eram
tecidos em teares manuais e só então começavam a ser bordados, variando, segundo Várzea
(2001), conforme o grupo social, a época e a região e sofria grande influência dos costumes e
também do nível econômico das famílias. Para as mais abastadas o enxoval incluía além dos
artigos têxteis, móveis para o quarto e a sala e era mantido como patrimônio da mulher em
caso de separação ou viuvez.
Ainda segundo a autora, até 1930 a obrigatoriedade do enxoval como parte do dote era
condição essencial para a realização do casamento. No caso de famílias pobres, se a
humildade da noiva fosse aceita pela família do noivo, os familiares deste, assim como
vizinhos e amigos, se reuniam para prover aos noivos as peças do enxoval. Caso a família do
noivo não perdoasse a noiva pela carência de dote, o casamento não se realizava e a noiva
tinha como opção permanecer solteira ou ascender à vida religiosa. As meninas iniciavam os
trabalhos bordando apenas a primeira letra de seus nomes, a inicial do noivo era acrescentada
apenas quando o casamento estivesse acertado. Esses bordados além de conferirem
sofisticação às peças e eram considerados de bom agouro. Assim como os lençóis brancos, as
roupas íntimas dos noivos deveriam ser novos, trazendo sorte e felicidade para o casamento
(VÁRZEA, 2001).
O surgimento dos fios têxteis industriais tornou os pontos de bordado mais elaborados
e o processo de confecção das peças menos demorado. No início do século XX com o
crescimento da indústria e a entrada da mulher no mercado de trabalho os trabalhos manuais
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começaram a despontar como uma forma de prestação de serviço que complementava o
orçamento doméstico ao mesmo tempo em que mantinha a figura feminina encerrada no lar.
Nesse período, era comum às mulheres, reunirem-se em casa de uma delas, após a realização
dos serviços domésticos, para desenvolverem peças bordadas à mão sob encomenda. As
criadas da casa também eram convidadas a ajudar no serviço a as meninas incentivadas desde
cedo a aprender, se familiarizar com os pontos de costura. Com a industrialização, os tecidos
já podiam ser comprados prontos e os bordados realizados em casa, pelas mulheres da família
ou em oficinas especializadas que cobravam pelo serviço.
Podemos acompanhar as mudanças sociais e na preparação do enxoval de casamento
pelos depoimentos das mulheres entrevistadas. Até meados de 1960 a educação feminina era
restrita às famílias de classe alta e média e concentrava-se, sobretudo, nas capitais aonde
alguns colégios chegavam a receber moças em regime de internato. A educação feminina
incluía prendas de costura e bordado, como nos conta umas das entrevistadas, de 86 anos, que
sonhava em cursar medicina, mas que, impedida de ir estudar na capital pelos pais, contentouse com o casamento dois anos depois. Sobre a educação de uma de suas filhas declara:
Núbia fez o curso de corte e costura com 13 anos. Ela estudou no Colégio Duque de
Caxias, ainda hoje tem, era um colégio muito equipado, era um colégio público e
tinha uma professora de trabalhos manuais, ensinava a bordar, ensinava corte e
costura, tudo ela fazia. Fazia uns jarros tão bonitinhos [...] (dona de casa, 86 anos,
casada em 1938)
O discurso dessa mãe sobre a educação da filha exemplifica o modelo de educação
feminina vigente até meados da década de 1960 que valorizava as aptidões domésticas em
conjunto com uma noção de conhecimentos gerais em detrimento de um profundo
conhecimento científico e de uma preparação efetiva para o mercado de trabalho.
Considerando-se o contexto histórico e sua evolução, percebe-se que a preparação do enxoval
de casamento também sofre mudanças, na medida em que acompanha as evoluções sociais.
Até a década de 1960 as peças que materializam o enxoval de casamento continuam a ser
construídas pelas moças casadoiras e sua família, responsáveis pela confecção dos lençóis,
das colchas e viras, das toalhas de mesa mandadas bordar e algumas vezes até mesmo da
camisola de núpcias e vestido de noiva.
Eu toda vida fui do lar. Quanto ao meu enxoval, meu pai foi quem me ajudou, minha
mãe, meus pais. E quem confeccionou fui eu, até o vestido do casamento fui eu que
fiz. Eu fazia porque eu costurava. Com 13 anos eu já costurava, tinha tendência e
quando a pessoa tem tendência não precisa ninguém ensinar. (Dona de casa, 62
anos, casada em 1967)
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No início da década de 1970, o avanço tecnológico das indústrias têxteis e de
confecções torna mais acessível a compra de artigos de cama, mesa e banho industrializados.
O depoimento da entrevistada abaixo revela mudanças na vida social e no comportamento
feminino que vão impactar na forma de confeccionar o enxoval.
Namoramos pouco tempo, como eu trabalhava em loja de tecido e nessa época já se
encontrava muita coisa pronta para enxoval, eu não tive enxoval com muitos
requintes não. Comprei o básico, lençol já pronto, toalhas. (Tabeliã, 58 anos, casada
em 1973)
Nesse período observamos que a educação e o trabalho feminino se tornam mais
comuns e assumem um lugar de destaque na trajetória de vida das mulheres.
Quando casei eu fiquei cerca de um ano sem trabalhar, só como dona de casa,
cuidando dos meninos. Depois fui trabalhar no cartório do meu esposo, como
substituta. Quando me casei eu fazia o segundo grau, fiz vestibular depois de casada,
tava com 4 meses de gravidez e já trabalhava no cartório. (Tabeliã, 58 anos, casada
em 1973)
As mudanças foram se aprofundando nas gerações mais novas. O discurso sobre a
educação torna-se recorrente nas décadas posteriores e o término do curso superior passa a
funcionar para as moças como um pré-requisito para o casamento cuja preparação ocorre em
conjunto com os últimos anos da faculdade.
A preparação do meu casamento durou uns três anos porque eu só queria casar
quando terminasse a faculdade. Ai passei três anos me organizando. Eu não
pretendia casar fazendo faculdade, então uma das coisas foi essa, o meu propósito
era só casar quando tivesse com tudo organizado e terminada a faculdade. (Coord.
Pedagógica, 34 anos, casada em 1999)
Questões relacionadas à produção doméstica e sua crescente substituição pelos bens de
consumo industrializados podem ser observados no contexto da preparação do enxoval de
casamento já que a substituição mencionada é um fator existente e materializado. Relatos de
mulheres casadas nas últimas décadas nos mostram que comprar o enxoval tornou-se, de fato,
mais comum do que fazê-lo por si mesma. Segundo as mulheres entrevistadas questões como
tempo e praticidade tornaram-se verdadeiros requisitos na montagem do enxoval e escolha
das peças tanto no que diz respeito à manutenção destas no decorrer do casamento quanto às
facilidades de acesso encontradas no momento da compra, conforme observamos no
depoimento abaixo:
Muita coisa, assim, a maior parte eu comprei. Pouquíssima coisa eu mandei fazer.
Até porque eu sou meio apressada, não tenho muita paciência de esperar que seja
feito. Então eu ia, escolhia... Eu mesma providenciei tudo, ia e comprava. Achava
mais prático do que esperar que fosse feito. Apesar de achar muito mais bonito
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personalizado. Mas dificilmente a gente encontra quem faça com o tempo que a
gente quer. (Coord. Pedagógica, 34 anos, casada em 1999)
A participação da família na montagem e aquisição das peças também foi sendo
reduzida. As mães que costumavam construir para as filhas o aglomerado de peças que
compunham o enxoval, hoje se dividem entre os papéis profissionais e algumas obrigações
domésticas remanescentes, dispondo de tempo bastante escasso. E a troca de experiência
restringe-se, no que diz respeito ao enxoval, ao aconselhamento no que se refere à qualidade e
utilidade dos diversos utensílios e artigos têxteis de uso doméstico, como observamos a
seguir:
A participação da minha mãe foi pouca. Eu praticamente organizei tudo sozinha;
mamãe não se envolveu muito não, tudo eu providenciei praticamente só. Eu sou
muito prática, sempre fui de chegar e resolver. Ia comprando, ia guardando. (Coord.
Pedagógica, 34 anos, 1999)
Com relação ao processo de construção do enxoval foi um tanto interessante porque
eu não tinha muita experiência com isso e a minha madrasta me ajudou muito. Eu
trabalhava e no fim do mês, como eu não tinha muita experiência em saber o que
comprar, eu dava o dinheiro e ela comprava, trazia pra eu escolher. Depois eu fui
aprendendo a comprar minhas próprias coisas e confeccionei uma boa parte. (Func.
Pública, 45 anos, casada em 1985)
Essa alteração nas interações sociais entre os diversos membros das famílias
ocorreram concomitante ao fortalecimento de relações sociais externas à família, seja entre
amigos de infância ou colegas de trabalho. Através de relatos das entrevistadas pudemos
observar como essas relações se dão na ocasião da montagem do enxoval e preparação do
casamento e sua importância para os noivos.
Eu sempre fazia os trabalhos manuais com uma amiga, colega de profissão, que
também estava se arrumando pra casar. Tudo que uma fazia a outra imaginava e a
gente criava modelos diferentes dos que a gente via nas revistas, até que
conseguimos fazer todo nosso enxoval. Muita coisa foi confeccionada por nos duas.
O prazer do fazer e ver que foi feito por mim. [...] Essa troca de experiência foi
muito importante pra nós duas, que por sinal, ainda hoje somos muito amigas.
(Func. Pública, 45 anos, casada em 1985)
Pode-se observar que, embora as relações de cooperação e identificação entre colegas
e amigas na preparação do casamento tenham aumentado, a participação do noivo, na maior
parte dos casos, segue ainda um modelo tradicional sem muitas alterações. Ou seja, embora
inúmeras questões de gênero tenham sido derrubadas nas últimas décadas, o enxoval de
casamento continua sendo uma responsabilidade feminina, sendo o noivo incumbido de
questões como a compra de móveis e da futura moradia do casal.
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Naquela época era tradicional o noivo entrar com a parte mais pesada tipo móveis,
utensílios de cozinha, panelas, pratos, tudo isso era o noivo que trazia. A noiva
entrava com a parte da confecção do enxoval propriamente dito, seriam os tecidos,
cama, mesa e banho, decoração. (Func. Pública, 45 anos, casada em 1985)
Algumas coisas, poucas, geralmente eu mostrava quando comprava. Teve uns dois
jogos de cozinha que ele mesmo comprou, mas o restante fui eu mesma e quando
chegava dizia: - olhe, comprei. (Coord. Pedagógica, 34 anos, casada em 1999)
As entrevistadas revelam que as peças de seus enxovais que tinham caráter mais
especial eram, sobretudo aquelas que tinham sido construídas com seus trabalhos manuais ou
ainda, aquelas que possuíam um caráter artesanal e personalizado.
A peça mais importante do meu enxoval que eu posso destacar como uma peça
super especial foi uma colcha de cama que eu crochetei todinha. E foi num período
difícil, passei seis meses pra confeccionar! Eu estava no término do curso superior e
eu enfrentava a faculdade, o estágio, trabalhava e ainda fazia crochê de madrugada.
Às vezes eu ficava com a luz acesa no quarto até de madrugada fazendo crochê ai
meu pai vinha e brigava: “- Vai passar a noite toda acordada!” Mas era a hora que eu
tinha tempo e eu tinha que pegar o pique pra terminar... Ainda hoje eu tenho, já com
23 anos de casada, e é uma peça que eu guardo com todo carinho. Uso, lavo e
guardo pra que ela persista um bom tempo. (Func. Pública, 45 anos, casada em
1985)
Então, para além das facilidades do comércio e da produção industrial, a praticidade
almejada no decorrer da construção do enxoval vem também em forma de Listas de Enxoval,
uma espécie de romaneio das peças de uso padrão com respectivas quantidades, com o
objetivo de orientar as noivas mais inexperientes nas questões domésticas sobre o que
comprar para o enxoval de casamento. Lojas que vendem eletrodomésticas e cama e mesa se
especializam em listas de enxovais. Geralmente a troca de presentes relacionada a artigos de
uso domésticos acontece em festas especificas, realizadas antes da cerimônia, como os Chás
de Casa Nova, Chá de Cozinha, Chá de Bar e até mesmo Chá de Lingerie. Tais
comemorações ajudam a fortalecer vínculos de amizade assim como a estender a participação
dos amigos do casal, de forma prática e efetiva, ao momento que está sendo vivenciado pelos
noivos. Essas chás em geral fazem parte das atividades de empresas especializadas em festas,
como os buffets.
Quanto aos itens de composição tradicional do enxoval, artigos básicos como toalhas e
lençóis continuam a fazer parte das listas desde a antiguidade, variando em características
técnicas tais como: tipo de fibras, armação, acabamento e tamanhos padrões. As
transformações ocorridas ao nível da vida social, com o desenvolvimento industrial,
estabelecimento de um sociedade de consumo e mercantilização geral da vida, associada a
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uma nova condição da mulher, ocupando espaço publico no trabalho, na política e com um
projeto de vida próprio que não se restringe mais ao casamento e à família, modificou
significações do enxoval de casamento, mas o conservou como parte fundamental do ritual de
casamento. As peças são industrializadas em sua maioria, mas a peça confeccionada pela
própria noiva, parentas ou amigas tem um valor simbólico diferenciado pelo que contêm de
afeto e tradição. A montagem do enxoval tornou-se um serviço de lojas e empresas
especializadas, articulando um ambiente social com amigas e familiares que rompeu a
intimidade dos antigos espaços domésticos femininos para se tornar um grande festejo
coletivo. Essas novas práticas de construção do enxoval relacionam-se a mudanças no próprio
significado social e pessoal do casamento, como observa Giddens (1991), nas sociedades
contemporâneas, onde têm ocorrido redefinições e negociações com relação aos valores e
práticas ligados a afetividade e a conjugalidade. Esse autor associa as mudanças no estatuto
social das mulheres à emergência de um amor confluência que tende para relações mais
igualitárias entre homens e mulheres. Assim, as mulheres ampliam suas margens de liberdade
no âmbito da família e da intimidade, e são submetidas a novas formas de articulação com o
mercado.
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