O Fetiche tecnológico e as relações entre o ciberespaço e a

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O Fetiche tecnológico e as relações entre o ciberespaço e a
O FETICHE TECNOLÓGICO E AS RELAÇÕES ENTRE O CIBERESPAÇO E A
GLOBALIZAÇÃO
George de Souza Alves
Resumo
Convivemos com avanço tecnológico e destruição da natureza, fome e miséria em
diversas regiões do planeta; portanto, a simples universalização de determinada
tecnologia não cria uma ordem social democrática ou harmoniosa. Ciência e
Tecnologia (C&T) são uma construção histórica e social e não um avanço contínuo
e inexorável que segue seu próprio caminho. Neste artigo, discutimos a
importância dos conceitos de alienação e fetiche da mercadoria na obra de Karl
Marx, através da metáfora possibilitada por Matrix, o filme, e refletimos sobre as
relações entre C&T e sociedade e seus desdobramentos para a produção do
fetiche tecnológico. Finalizamos entendendo que mesmo que a globalização nos
mostre que as regras vigentes são as regras básicas de funcionamento do modo
de produção capitalista e da acumulação flexível, a sociedade deve exigir
alterações nas políticas da produção científico-tecnológica a fim de contemplar a
reconstrução de tecnologias segundo os interesses contra-hegemônicos.
PalavrasPalavras-chave:
chave: Fetiche tecnológico, ciberespaço, globalização
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1. Introdução
Numa das talvez mais poéticas passagens da obra marxiana, é dito que o
trabalho humano é a atividade criadora do homem. É, inclusive, a atividade que
distingue o homem de todos os outros animais, produzindo os seus meios de
vida e se criando a si mesmo. Para Karl Marx o trabalho é a essência do homem.
Ainda que o animal também produza, ele produz apenas para suprir suas
necessidades e a dos seus, enquanto o homem produz universalmente, mesmo
quando se acha livre da necessidade física. Quando se encontra livre desta
necessidade, ele não produz verdadeiramente como homem.
Porém, ao comparar o trabalho das abelhas com o trabalho humano, dizendo que
estas ultrapassam em habilidade muitos arquitetos ao construírem as estruturas
das células de cera, Marx percebe que mesmo o mais bisonho dos arquitetos é
capaz antecipar a construção de um projeto em sua cabeça. Segundo ele, “o
resultado a que chega o trabalho preexiste idealmente na imaginação do
trabalhador” (MARX, 1978, p. 181).
Deste modo, podemos perceber que outro aspecto essencial que caracteriza o
homem é sua capacidade de raciocinar. A capacidade humana para o raciocínio
acaba por proporcionar a oportunidade de se construir historicamente um
conjunto de conhecimentos, técnicas, processos, métodos, meios e instrumentos
colocados à disposição da sociedade a fim de se produzir bens e serviços. É
assim que neste trabalho será compreendido o termo tecnologia. Em muitos
momentos ele estará acompanhado de um outro muito próximo e com o qual faz
uma verdadeira parceria, que é a ciência.
Ambas estão nos medicamentos que tomamos, nos supermercados e locais que
freqüentamos, em nosso trabalho, nos exames médicos que fazemos, quando
nos comunicamos por telefone ou computador, ou mesmo em livros ou textos
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que lemos. Enfim, onde quer que possamos olhar ou em tudo que desejarmos
que tenha passado pela intervenção humana, lá estarão presentes a Ciência e a
Tecnologia (C&T).
Em resumo, somos uma sociedade tecnológica, cada vez mais rodeada de
artefatos, objetos, bens e símbolos que remetem à tecnologia, especialmente a
digital, nas duas últimas décadas. Estamos obrigados todos os dias a transpor os
limites da C&T, buscar o espaço comum, onde as ciências exatas, biológicas,
humanas e sociais possam estabelecer um diálogo e criar estruturas capazes de
contribuir para soluções dos chamados problemas socialmente complexos.
De acordo com Konder (2009) a compreensão do conceito de alienação parece
bastante apropriada ao entendimento do mundo atual. A primeira edição da
publicação de Konder é, na verdade, de 1964 e, mesmo passados 45 anos dessa
afirmação, parece-nos ainda apropriada uma visão geral mais clara sobre este
conceito, assim como o do seu aprofundamento posterior no campo econômico,
o de fetiche da mercadoria.
Estes
conceitos
seminais
permitem-nos
compreender
o
próprio
fetiche
tecnológico que tanto nos habilita a permanecer politicamente passivos diante
das contradições que se apresentam na atualidade, especialmente no campo
científico-tecnológico. É na crença de que a universalização de determinada
tecnologia
nos
dará
uma
ordem
social
democrática
ou
harmoniosa
e,
consequentemente, na suposta neutralidade da Ciência e Tecnologia (C&T), é que
reside o impasse em que o avanço tecnológico convive com destruição da
natureza, fome e miséria em tantas regiões do planeta.
Este artigo compreende que a tecnologia só continuará sendo útil, enquanto a
sua aplicação trouxer significado produtivo para a vida do homem. Aqui
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procuramos refletir sobre o papel da C&T como construção histórica e social e
não como um avanço contínuo e inexorável que segue seu próprio caminho.
Iniciamos com a tentativa de compreender os conceitos de alienação e fetiche da
mercadoria na obra marxiana através da metáfora possibilitada pela obra
cinematográfica Matrix, dirigida e roteirizada pelos irmãos Andy e Lana
Wachowski. Para, em seguida, discutirmos a questão da neutralidade e da nãoneutralidade da relação entre C&T e sociedade e refletir sobre o fetiche
tecnológico em diferentes momentos da história moderna e contemporânea.
Finalmente consideramos que mesmo que o atual contexto de globalização nos
mostre que as regras vigentes são as regras básicas de funcionamento do modo
de produção capitalista e sobretudo da acumulação flexível, a sociedade e seus
cientistas devem exigir alterações nas políticas da produção científicotecnológica a fim de contemplar a reconstrução de tecnologias segundo os
interesses dos outros atores sociais envolvidos que não os proprietários dos
meios de produção.
2. Fetichismo e reificação da máquina levados ao paroxismo – uma metáfora
metáfora
Mergulhando no contexto do filme...
Século XXII, o ano é 2199. O que se vê é um cenário de desolação, degradação e
destruição provocado por uma catástrofe nuclear causada pela guerra entre os
seres humanos e as máquinas. Aqueles tentam se livrarem do domínio destas,
mas não conseguem, uma vez que as máquinas vencem a guerra e acabam
subjugando os humanos.
Após a catástrofe climática não é mais possível a obtenção de energia solar, as
máquinas, então, utilizam a energia bioelétrica humana, através de tubos ligados
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aos corpos dos homens aprisionados em casulos. Eles ficam adormecidos do
nascimento até à morte e sempre que é preciso novos homens são gerados
artificialmente; quando morrem, seus corpos são reprocessados para se tornarem
alimento intravenal dos ainda vivos.
Deste modo, os seres humanos vivem adormecidos, enquanto suas mentes
sonham que vivem, nascem, morrem, convivem em família, comem, dançam,
trabalham, estudam etc. Sensações e impressões de uma realidade simulada
através de um programa de computador. O simulacro é a Matrix e o “sonho” se
desenrola no final do século XX em alguma grande metrópole do planeta. O
mundo virtual da Matrix em quase tudo se assemelha ao mundo em que vivemos
na atualidade.
A história ainda não acabou e como em qualquer totalidade, ela apresenta suas
contradições e fissuras. Na ficção de Matrix, o filme, há um grupo de homens
livres que conhecem e sabem lidar com a tecnologia da máquina, conhecem toda
a verdade e se rebelam contra ela.
Num dado momento do filme o líder dos rebeldes, Morpheus, fala ao hacker Neo:
“A Matrix é um mundo de sonho cujo propósito é nos controlar (...) Cada visão e
cada cheiro na Matrix são produto do trabalho humano”.
Para Karl Marx a alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas
que
seu
trabalho
se
converte
em
objeto,
assumindo
também
uma
existência externa, e a ele estranho, e que com ele se defronta como uma força
autônoma. A vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força
estranha e hostil.
Os Manuscritos de 1844 destacam as seguintes rubricas em relação ao fenômeno
da alienação, mencionadas tanto por Konder (2009) quanto por Mészáros (2006):
(a) a alienação do trabalhador reduzido à condição de objeto pela força estranha
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que se ergue diante dele no seu trabalho; (b) a alienação do trabalho, que sofre
uma cisão interna e se subdivide; (c) a alienação do homem em relação à espécie
humana, a redução do humano à satisfação das necessidades animais, com o
sacrifício das necessidades especificamente humanas; (d) a alienação do homem
em relação à natureza.
Para Konder (2009), o conceito de alienação elaborado nos Manuscritos de 1844
persiste no desenvolvimento posterior de todo o pensamento de Marx e está
subjacente em diversas das suas categorias. Ele não acredita ser difícil
demonstrar que o “fetichismo da mercadoria” estudado em O Capital representa o
aprofundamento do exame de um aspecto da alienação, isto é, da alienação
econômica sob a sociedade capitalista.
Em O Fetichismo da Mercadoria e o Seu Segredo (seção 4 do capítulo I e parte I de
O Capital), Karl Marx compreende que o fetiche da mercadoria resultava do
entendimento das leis econômicas com sendo naturais e independentes da
história. O que na realidade é uma construção histórica socialmente determinada,
no fetichismo da mercadoria, sua produção era natural não dependendo do
capitalismo e sim de uma forma de produção eterna, perpassando toda a história
da humanidade.
Além disso, ele observa que a mercadoria adquire todos os aspectos que
atribuímos aos homens e aos vivos, ganhando deliberação própria, vontade,
capacidade de mando, capacidade de organizar o mundo, capacidade que
normalmente atribuímos à razão, seja humana ou divina, conforme a crença de
cada um. O objeto vira sujeito e vice-versa. Agora o homem é manipulado pela
mercadoria.
Como uma obra de arte nos permite a liberdade de ver, proporcionando um vasto
campo de interpretações e leituras, em Matrix podemos compreender que a
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humanização da máquina leva à desumanização do homem, à sua coisificação e
reificação levados ao paroxismo.
No “mundo de sonho” dos humanos da Matrix, assim como no mundo real em
que vivemos, muitas vezes acabamos obscurecendo o relacionamento que a força
de trabalho global partilha como classe.
Momentos antes de delatar seus companheiros de resistência, Cypher fala ao
agente Smith: “Eu sei que este bife não existe. Eu sei que, quando coloco a boca,
a Matrix diz ao meu cérebro que o bife é suculento e delicioso. Depois de nove
anos, sabe o que percebi? A ignorância é a felicidade”.
Muitos de nós ignoramos que as mercadorias que compramos são produzidas
por pessoas como nós. Os sapatos que usamos, as roupas que vestimos ou a
comida que nos alimenta foram comprados com o dinheiro que ganhamos e
feitos
para
trabalhadores
por
trabalhadores.
Ouvimos
histórias
sobre
trabalhadores sofrendo nas linhas de produção asiáticas, mas mesmo assim
compramos nossas marcas favoritas de tênis. Dirigimos automóveis, a caminho
de nosso trabalho, que foram produzidos por trabalhadores, e não reconhecemos
o sistema operante no qual estamos envolvidos. Quer ignoremos essas relações
propositalmente quer não, muitos de nós praticam variados graus de “fetichismo
da mercadoria” (DANAHAY & RIEDER, 2003).
Mesmo que Matrix, o filme, nos sirva de metáfora, ele não pretende convencer os
espectadores a despertar e lutar contra os poderes exploradores, uma vez que
não nos mostra o que a raça humana está perdendo enquanto fica ligada na
Matrix. Os humanos e máquinas vivem uma simbiose, e o mundo de sonho para
onde Cypher quer voltar não parece tão ruim ao espectador. O mundo de sonhos
mostrado no filme, a Matrix, é totalmente em cores. Para Danahay & Rieder
(2003) se Matrix realmente tinha o objetivo de fazer uma declaração “marxista”
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de algo do qual devemos despertar, o mundo de sonho da Matrix teria sido
filmado em preto e branco, simbolizando a extensão a que as máquinas
exploravam o valor da mão de obra no trabalho alienado.
3. O Fetiche
Fetiche tecnológico
Deixando a ficção de Matrix de lado e olhando um pouco para o passado, para a
história da humanidade a partir da Revolução Industrial, encontramos Karl Marx
escrevendo sobre a relação entre capital e tecnologia nos Manuscritos de 18611863.
Marx compreende que as forças da natureza, enquanto tais, não custam nada, já
que não são fruto do trabalho humano. Elas entram no processo de trabalho sem
entrar no processo de aumento de valor, tornam produtivo o trabalho sem
aumentar o custo do produto, sem acrescentar o valor da mercadoria.
Contrariamente elas diminuem o seu valor individual, aumentando a massa das
mercadorias produzidas no mesmo tempo de trabalho e, ao diminuir o valor de
cada uma das partes, diminui também o valor da força de trabalho, pois o tempo
de trabalho necessário para a produção do salário é reduzido, enquanto a maisvalia aumenta.
O uso das forças da natureza em larga escala só é possível em lugares em que se
podem empregar as máquinas em ampla escala também, assim como naqueles
lugares onde é possível usar uma massa de operários correspondentes às
mesmas e contar com a cooperação desses trabalhadores submetidos ao capital.
A incorporação dos agentes naturais ao capital coincide com o desenvolvimento
da ciência como fator autônomo do processo produtivo, cada descoberta se
converte na base de novas invenções ou de um novo aperfeiçoamento dos modos
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de produção. O capital não cria a ciência e sim a explora, apropriando-se dela no
processo produtivo.
Marx identifica nesses manuscritos uma nova divisão do trabalho, já que nos
sistemas domésticos de manufatura, era comum o trabalhador conhecer todas as
etapas da produção, desde o projeto até a execução. A partir da implantação do
sistema fabril, no entanto, isso não é mais possível, devido à crescente
complexidade. Ao trabalhador da fábrica é dado, quando muito, o direito ao
conhecimento de procedimentos de operação de alguma máquina. Ele identifica
um pequeno grupo de operários altamente qualificados sem, entretanto,
considerar que o número destes guarde qualquer relação com as massas de
operários “privados de conhecimento”.
Dagnino (2002) afirma que a compreensão da Ciência e Tecnologia (C&T)
desenvolvida por Marx é contraditória em relação a sua construção social, pois é
possível encontrar momentos em que a tecnologia é apresentada como um
elemento neutro, apenas instrumental, e que o decisivo ou importante é a sua
apropriação pela classe operária. Em outros, o autor encontra afirmações em que
ela é vista como trazendo em si, intrinsecamente, um elemento de subordinação
e maior exploração do trabalhador (como nos Manuscritos de 1861-1863).
Finalmente, ele cita um outro texto de Marx (A miséria da filosofia, 1989), em
que C&T aparecem como determinantes das mudanças que, ao longo da história,
seriam responsáveis pela sucessão dos modos de produção e pelo progresso
social rumo ao comunismo.
A crítica a essa visão determinista permite melhor compreender a extensão da
noção do fetiche da mercadoria para o campo da C&T ou fetiche tecnológico. Para
tanto, faz-se necessário compreender, resumidamente, alguns enfoques sobre a
relação entre C&T e Sociedade com o auxílio de Dagnino (2002).
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Para fins didáticos, o autor caracteriza esta relação em duas abordagens: uma
abordagem “com foco na C&T” e a outra “com foco na sociedade”. A primeira
forma de abordagem caracteriza-se pela suposição de que a C&T avança contínua
e inexoravelmente, seguindo um caminho próprio, podendo ou não influenciar a
sociedade de alguma maneira. Para a segunda, o caráter da C&T, e não apenas o
uso que se faz dela, é socialmente determinado e, devido a essa funcionalidade
entre a C&T e a sociedade na qual foi gerada, ela tende a reproduzir as relações
sociais prevalecentes e, até mesmo a inibir a mudança social (o quadro I mostra
um resumo esquemático desses enfoques).
Quadro I: Enfoques sobre a relação entre C&T
C&T e Sociedade
Enfoques sobre a relação entre C&T e Sociedade
Com foco na C&T
Neutralidade
Com foco na Sociedade
Determinismo
Tese Fraca da Não-
Tese Forte da Não-
Tecnológico
neutralidade
neutralidade
Associadas à primeira abordagem (“com foco na C&T”) é possível identificar a
visão de neutralidade da C&T e a do determinismo tecnológico: (a) a visão de
neutralidade compreende que C&T seriam um assunto técnico e não político, uma
barreira imaginária seria interposta entre o ambiente de produção científicotecnológica e o contexto social, político e econômico. Esta barreira impedindo
que os interesses dos atores sociais envolvidos no desenvolvimento da C&T
possam determinar a trajetória de inovação; (b) A segunda, do determinismo
tecnológico, postula que aquela barreira é uma espécie de membrana
impermeável no sentido da sociedade para a C&T, mas não no sentido contrário.
O desenvolvimento da C&T é compreendido como uma variável independente e
universal que determinaria o comportamento de todas as outras variáveis do
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sistema produtivo e social, como se ela dependesse inteiramente das mudanças e
da organização tecnológicas. Deste modo, o desenvolvimento econômico é
determinado pelo avanço da C&T e a tecnologia é a força condutora da sociedade
e um determinante da estrutura social.
Já em relação à segunda abordagem (“com foco na Sociedade”), encontramos a
tese fraca da não-neutralidade e a tese forte da não-neutralidade: (a) a tese fraca
da não-neutralidade entende que o contexto das relações sociais, políticas e
econômicas conforma o ambiente em que é gerado o conhecimento científico e
tecnológico. Como conseqüência a C&T acaba internalizando as características
fundamentais deste contexto e se constituindo em algo funcional para o seu
desenvolvimento e permanência; (b) a tese forte da não-neutralidade incorpora a
proposta da tese fraca e vai além, pois postula que como C&T são geradas sob a
égide de determinada sociedade e, portanto, construídas de modo a ela
funcional, estão de tal forma comprometidas com a manutenção desta sociedade
que não são passíveis de serem utilizadas em outro contexto social, político,
econômico e cultural que dela difere de modo significativo. Assim, a apropriação
do conhecimento científico-tecnológico por uma outra sociedade orientada por
objetivos socialmente distintos ou, mais importante, sua utilização para a
construção de uma nova sociedade ou para alavancar o processo de mudança de
um contexto pré-existente numa outra direção que não aquela que presidiu seu
desenvolvimento não é adequada, tal como a história mostrou na passagem do
capitalismo para a construção do socialismo real no leste europeu.
A partir da diferenciação destas abordagens fica mais claro perceber o que
Feenberg (1999) considera com sendo o fetiche tecnológico: “O que se mascara
na percepção fetichista da tecnologia é (...) seu caráter relacional: ele aprece
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como uma instância não-social de pura racionalidade técnica mais do que o nexo
social que realmente é.” (FEENBERG, 1999, p.25).
Novaes & Dagnino (2004), referindo-se a Andrew Feenberg, autor de filiação
marxista, assinalam que da mesma forma que o fetiche da mercadoria encobre
uma relação de classes de uma época histórica determinada, quando a tecnologia
é entendida como um meio para se atingir fins, como “ciência aplicada” em
equipamentos para aumentar a eficácia na produção de bens e serviços, podemos
utilizar o conceito de fetiche tecnológico para mostrar que a tecnologia assim
apresentada como politicamente neutra, eterna, a-histórica, sujeita a valores
estritamente técnicos e, portanto, não permeada pela luta de classes, é uma
construção histórico-social e uma força produtiva como qualquer outra. E, assim
como a mercadoria, tende a obscurecer as relações de classe diluindo-as no
conteúdo aparentemente não específico da técnica.
De acordo com Dagnino (2002), na combinação entre as forças produtivas e as
relações de produção, estas últimas possuem o papel dominante em última
instância impondo às forças produtivas – e aí se inclui a C&T – as condições de
sua reprodução. Contrariamente, o desenvolvimento das forças produtivas nunca
determina diretamente a transformação das relações de produção, pois esta
transformação passa sempre pela intervenção das classes, ou seja, pela luta de
classes.
A crise econômica européia do final do século XIX e início do XX foi seguida por
uma nova onda de transformações e o surgimento de um novo paradigma
tecnológico, ocorrendo inovações importantes na base técnica do processo
produtivo e um novo padrão de desenvolvimento. Este momento, identificado
como Segunda Revolução Industrial, assiste à invenção da administração
científica do trabalho, que vem responder às dificuldades ainda existentes,
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naquele momento, em relação à normalização das relações de trabalho, pois
havia alto índice de rotatividade e absenteísmo da mão-de-obra, contestação
coletiva da disciplina etc. (LOPES, 2009).
Deste modo, a divisão do trabalho foi intensificada no início do século XX, com a
introdução do fordismo e seu sistema de linha de montagem na indústria
automobilística e o taylorismo como método científico de racionalização da
produção visando, sobretudo, o aumento da produtividade com a economia de
tempo, a criação de um novo tipo de trabalhador mais disciplinado e separando
cada vez mais a concepção da execução no ato de trabalho.
Este se tornou ainda mais alienado, já que o homem era obrigado a realizar
gestos mecânicos através do parcelamento das tarefas. O operário foi submetido
a um trabalho rotineiro, irreflexivo e repetitivo e não compreendia o sentido de
sua ação. A arte cinematográfica mais uma vez cria, através de Charles Chaplin,
uma clássica metáfora deste momento em Tempos modernos.
Lopes (2009) assinala que o fordismo e taylorismo promeveram a desqualificação
das atividades laborais e elevaram o trabalhador à condição de consumidor,
fatores fundamentais para sobrepujar a crise econômica daquele momento e
realizar o capitalismo ocidental, alavancando o crescimento e a difusão do Estado
de Bem-Estar Social, numa sociedade de crescente produção e consumo em
massa.
O fordismo trouxe profundos problemas sociais, psicológicos e políticos, mas era
difícil recusar as racionalizações que melhorassem a eficiência numa época de
total esforço de guerra. O determinismo tecnológico acabou por consolidar a
percepção da inovação como um processo incontrolável, irreversível, autônomo.
Suas conseqüências, positivas ou negativas, estariam dadas.
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Para o capital, com a compreensão de que o conhecimento científico-tecnológico
era neutro, o avanço do fordismo/taylorismo era visto como uma finalidade, uma
solução para a superação das contradições da sociedade. Sua consolidação após
as guerras mundiais e o fortalecimento do Estado de Bem-Estar Social no
primeiro mundo (oeste europeu e EUA, principalmente) teve repercussões nos
países periféricos do ocidente, inclusive no Brasil que já apresentava um
incipiente processo de industrialização desde o final do século XIX (LOPES, 2009).
No mundo socialista, até mesmo Lênin louvou a tecnologia de produção fordista
e taylorista enquanto vários sindicatos da Europa Ocidental a recusavam
(HARVEY, 2009). Possivelmente esta visão de Lênin foi reforçada pela abordagem
neutra/instrumental de que bastaria a tomada de poder para colocar a C&T a
serviço dos trabalhadores. A perspectiva de que a tecnologia é uma construção
social e que, sob o marco do capitalismo, está condicionada à reprodução da
mais-valia, da subordinação, da alienação, do consumismo e da guerra, dada a
supremacia do capital não foi explorada.
Após a Revolução Russa de 1917, colocou-se grande ênfase na apropriação pura
e
simples
da
tecnologia.
Embora
as
principais
lideranças
bolcheviques
possuíssem uma percepção negativa em relação à utilização da organização
científica do trabalho de Taylor, ela foi adotada como a "mais moderna"
tecnologia de gestão, que deveria ser adaptada ao poder e às formas soviéticas.
Mas a conjuntura pós-revolucionária, por exigir métodos que aumentassem a
produtividade e a eficiência em um país com a indústria destruída, fome, carência
de mão-de-obra especializada e ausência de um "proletariado" bem constituído,
ou seja, segundo alguns, semi-feudal, fortaleceu uma postura marcada pelo
pragmatismo, aproximando essas lideranças bolcheviques de uma compreensão
instrumental da C&T (DAGNINO, 2002).
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A abordagem de não-neutralidade das relações entre C&T e a sociedade
perceberia que toda tentativa para revolucionar as relações de produção exigiria
uma mudança radical e simultânea das forças produtivas (e não apenas da
finalidade de sua utilização), uma vez que a conservação destas faria ressurgir
aquelas através da divisão capitalista do trabalho.
4. O fetiche digital num mundo globalizado
A economia política que sustentava o Estado de Bem-Estar Social tinha três
características principais: (a) fordismo na produção; (b) inclusão crescente dos
indivíduos no mercado de trabalho, orientando-se pela ideia de pleno emprego;
(c) monopólios e oligopólios que, embora transnacionais ou multinacionais,
tinham como referência reguladora o Estado Nacional (CHAUÍ, 2005).
Para que essa economia procurasse o bem-estar, o Estado precisou realizar
intervenções como regulador e como parceiro, através da criação do fundo
público, que se caracterizava pelo financiamento simultâneo da acumulação do
capital e da reprodução da força de trabalho. O primeiro se fazia por meio de
gastos públicos com a produção, através de subsídios para a agricultura, a
indústria e o comércio, assim como para a C&T, desaguando no complexo
militar-industrial e promovendo a valorização financeira do capital por meio da
dívida pública; já em relação à força de trabalho, os gastos do fundo público
foram com a educação gratuita, a medicina socializada, a previdência social, o
seguro-desemprego, os subsídios para o transporte, alimentação, habitação,
cultura e lazer, o salário-família, o salário-desemprego etc. Os custos da
produção foram socializados pelo Estado, enquanto manteve-se a apropriação
privada dos lucros e da renda, ou seja, a riqueza das corporações continuou não
sendo socializada pelo capital (CHAUÍ, 2005).
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A queda da taxa de lucro, as resistências das forças populares organizadas, os
partidos de esquerda, a Guerra Fria e o trabalho, através do salário direto,
limitando a expansão tecnológica do capital foram algumas das contradições e
dos obstáculos que surgiram na economia do bem-estar social, dando início à
reestruturação produtiva do capital datado de 1973 (ANTUNES, 2009; CHAUÍ,
2005).
Segundo Chauí (2005), a crise deste sistema leva à diminuição da esfera pública e
à ampliação da esfera privada. O novo Estado neoliberal possui, então, como
principais
características: (a) o
desemprego
estrutural
(a mão de obra
rapidamente se torna obsoleta e ainda convive com o drama da automação); (b) o
monetarismo e o capital financeiro tornam-se o coração e o centro nervoso do
capitalismo (fetiche crescente do dinheiro); (c) a terceirização deixa de ser um
suplemento da produção e passa operar por fragmentação e dispersão de todas
as esferas e etapas da produção através de compra de serviços espalhados pelo
mundo todo; (d) A C&T passam a ser assumidas como forças produtivas,
convertendo-se claramente como agentes de acumulação do capital, cunha-se,
inclusive, a expressão “sociedade do conhecimento” para indicar que a economia
contemporânea não se baseia mais no trabalho produtivo, mas sobre o trabalho
intelectual.
Além das transformações econômicas, os anos 1970 também ficaram marcados
por fortes transformações culturais e pelo questionamento da sociedade da
abundância através de forças populares organizadas que tentavam impor uma
regulação ao capital e da chamada contra-cultura que levava a um repensar do
papel da C&T e à busca por estilos alternativos de vida ligados às tecnologias
alternativas. Houve um questionamento ético e cultural global da sociedade
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existente e de sua relação com a natureza, buscando uma sociedade alternativa,
mais justa, mais harmônica e sustentável no longo prazo.
Porém, “desde a década de 1960, o avanço acelerado da globalização – ou seja, o
mundo visto como um conjunto único de atividades interconectadas que não são
estorvadas pelas fronteiras locais – provocou um profundo impacto político e
cultural. Sobretudo na sua forma atualmente dominante de um mercado global
livre e sem controles” (HOBSBAWN, 2007, p.10).
Harvey (2009) defende que a fragmentação e a globalização da produção
econômica engendram dois fenômenos contrários e simultâneos: a fragmentação
e dispersão espacial e temporal de um lado, que pode ser exemplificada pela
produção de um carro esporte Mazda que é desenhado na Califórnia, financiado
por Tóquio, seu protótipo é criado em Worthing (Inglaterra) e a montagem é feita
nos Estados Unidos ou no México, usando componentes eletrônicos inventados
em Nova Jersey e fabricados no Japão. Por outro lado, sob os efeitos das
tecnologias eletrônicas e de informação, tudo se passa como se fosse sem
fronteiras, sem distâncias, sem passado e sem futuro, como se fosse sempre aqui
e agora, resultando no que este autor denominou como sendo a compressão
espaço-temporal.
Este mercado global foi decisivamente impulsionado pela C&T, especialmente
pelas tecnologias digitais e pelo ciberespaço. De acordo com Harvey (2004, p.90),
“muitos nesse momento julgam que a inovação e a transferência tecnológica
galopantes constituem a força mais singular, e ao que parece inexorável, de
promoção da globalização”.
Com o que parece concordar Alves (2002) que afirma que o ciberespaço não
representa apenas a virtualização informacional, que surge com as máquinas
computadorizadas, mas sim a virtualização informacional em rede. Com o
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ciberespaço, os computadores passam a se “relacionar” uns com os outros.
Através da rede, homens e mulheres mediados por computadores, passam a criar
efetivas conexões simbólico-linguísticos capazes de constituir novos espaços de
sociabilidade virtual, não-presencial. Entretanto, por ocorrer sob o sistema do
capital, as redes digitais e o ciberespaço tendem a explicitar a virtualização em
rede não como um novo espaço de invenção e de heterogênese humana, mas
sim, como um novo lócus de fetichismo como ciberhominização. “É devido ao
surgimento e desenvolvimento do ciberespaço que podemos salientar que
vivemos numa sociedade em rede, que apesar disso, continua sendo, mais que
nunca, a sociedade do capital”. (ALVES, 2002, p. 91).
Com a revolução digital, a reificação do trabalhador deixa de ser expressa pela
intenção de convertê-lo em “homem-máquina” tal como ocorria no período
fordista-taylorista para se configurar como uma tentativa de se humanizar a
máquina através de projetos de inteligência artificial, homem-ciborgue e outros
signos da ciberhominização que proliferam no imaginário ocidental (WOLFF,
2009; ALVES, 2002). Basta lembrarmo-nos da metáfora ficcional da Matrix no
início deste texto.
As sementes da ciberhominização já estavam espalhadas no processo que
subsumia cada vez mais a produção material à produção do conhecimento, ou o
trabalho material ao trabalho intelectual/imaterial. No toyotismo, com sua base
na mecanização flexível e na produção para mercados mais segmentados e mãode-obra não-especializada em funções únicas e restritas como era a fordista, o
operário já podia ser visto como um prenúncio do ciborgue, já que ele precisava
colocar à disposição da produção sua inteligência total e não apenas seu corpo
físico. Uma vez mais as esferas da produção e consumo eram permeadas sob o
sistema sócio-metabólico do capital.
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Além disso, mais recentemente, a revolução da informação e o sistema de mídia e
comunicações também produziram algumas transformações na organização do
consumo e da produção. O comércio eletrônico é exemplar do caso do consumo,
já que possibilita às empresas trabalharem diretamente com seus fornecedores e
reduzirem seus estoques. Enquanto isso, a produção fica fortemente impactada e
afetada pelo crescimento de transações importantes de cunho financeiro
exclusivamente especulativo, impulsionado pelo ciberespaço desmaterializado.
Atualmente muitas instituições financeiras operam 24 horas por dia, abrindo seu
expediente na Ásia, passando a operar logo em seguida na Europa quando os
asiáticos vão jantar e depois no mercado americano quando os europeus estão
encerrando seu expediente. Os trilhões de dólares que giram pelo mundo ficam
em busca de países onde possam ter altos lucros; parte considerável deste capital
tem caráter especulativo e não se destina à produção, visando apenas sua
aplicação nas bolsas, através da compra de ações de empresas valorizadas e de
títulos de governos de países que pagam juros elevados. Caso um número de
investidores resolva tirar os seus dólares de um país são geradas crises de
características globais.
Voltando ao mundo do trabalho, de acordo com Wolff (2009), a chamada
automação flexível admite que as informações sobre o processo produtivo sejam
modificadas sem que se altere sua base material, enquanto na chamada
automação rígida a introdução da máquina no processo produtivo transforma o
trabalhador em mero instrumento deste processo. A primeira é mais apropriada
para o contexto de mercado mundializado e diversificado que marca o
capitalismo contemporâneo.
Friedman (2009), entusiasta do neoliberalismo e da globalização, afirma que a
plataforma do mundo que ele chama de plano é produto de uma convergência
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entre o computador pessoal, o cabo de fibra ótica (que barateou e permitiu o
acesso dos indivíduos ao conteúdo digital) e o aumento da quantidade dos
softwares de fluxo de trabalho (que permitiu colaboração dos indivíduos com
aquele mesmo conteúdo digital).
Este autor relata em seu livro “O Mundo é Plano” diversas experiências da
terceirização de serviços que atravessa as fronteiras de países com o auxílio da
tecnologia digital e do ciberespaço. Cita os casos da declaração de imposto de
renda de americanos feitas em Bangalore na Índia, a preparação de laudos de
exames radiológicos de alguns hospitais americanos de médio ou de pequeno
porte na Índia ou na Austrália (com a vantagem de aproveitar as diferenças de
fuso horário, já que enquanto os laudos são preparados nestes países pela
manhã, os EUA vivem a sua noite e quando os médicos americanos chegam a seu
escritório, já encontram os laudos prontos que foram enviados na noite de seus
países de origem, fora do horário comercial e num período de melhor
transmissão de dados); a confecção e preparação de plantas e projeto de casas
japonesas na cidade de Dalian, distante uma hora de voo de Pequim na China e
no jornalismo a confecção de notas rápidas e de tabelas do desempenho do
mercado financeiro das agências de notícias tais como a Reuters, Dow Jones ou
Bloomberg que são muitas vezes preparadas em call centers de Bangalore.
Todas as experiências são relatadas com grande entusiasmo pelo autor, apesar
dos baixos salários recebidos pelos funcionários destes call centers e de muitos
deles
exercerem
apenas
atividades
alienadoras
e
repetitivas
diante
do
computador: “são empregos mal remunerados e de baixo prestígio nos EUA, mas
na Índia são associados a uma boa remuneração e um status elevado” (p.37), “se
uma ligeira modificação no seu sotaque é o preço que têm de pagar para subirem
um degrau da escada, tudo bem, dizem” (p.41), “o que impera nesse ambiente de
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trabalho não é a tensão da alienação, mas a tensão do sucesso” (p.41), “os
chineses podem até jamais perdoar seus vizinhos japoneses pelo que fizeram ao
seu país no último século, mas estão tão determinados a liderar o mundo nos
próximos cem anos que estão dispostos a desenferrujar seu japonês e apoderarse de todo o trabalho que o Japão puder terceirizar” (p.47).
São enunciados que estão no imaginário de muita gente e que influenciam e são
influenciados por outros bastante parecidos que encontramos na grande
imprensa globalizada, ecos de uma visão neutra e determinista sobre a
compreensão das relações entre C&T, no caso aqui o mundo digital e o
ciberespaço, e sociedade.
Fazendo uma analogia com o fetiche da mercadoria formulado na obra marxiana
e levando em consideração que a tecnologia digital está dentro de um conjunto
maior compreendido pela C&T, podemos recorrer à concepção de Feenberg sobre
o fetiche tecnológico para então utilizarmos a expressão fetiche digital no
sentido da percepção de que consequências, positivas ou negativas já estariam
dadas pela inovação digital como um processo incontrolável, irreversível e
autônomo.
5. Considerações
Considerações Finais
As sociedades tecnologicamente avançadas, através da globalização e da
acumulação flexível do capital, parecem ter relegado uma vez mais a um segundo
plano a crítica marxiana à industrialização e à alienação imposta pela sociedade
industrial capitalista, como um processo onde o indivíduo perde a capacidade de
expressar-se a si mesmo no trabalho. Para além do lado econômico da
propriedade dos meios de produção e da exploração, há o lado humanístico do
trabalho e da alienação que precisa ser considerado.
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Segundo Bauman (2008), o paradoxo do fetiche tecnológico é que a tecnologia
que age em nosso favor realmente nos habilita a permanecer politicamente
passivos. Não temos de assumir a responsabilidade política porque a tecnologia
faz isso por nós. Desse modo, uma vez mais, tudo que precisamos é universalizar
determinada tecnologia e assim teremos uma ordem social democrática ou
harmoniosa. Novamente a visão da neutralidade científica e do determinismo
tecnológico nos coloca num impasse.
A Ciência e a Tecnologia (também em seu estágio de tecnologias de informação e
comunicação) são construções sociais historicamente determinadas através de
processos onde intervêm múltiplos atores com distintos interesses. A sua
trajetória de desenvolvimento pode ser redirecionada, dependendo da capacidade
dos atores sociais em interferir no processo decisório da política da C&T com a
introdução na agenda de interesses relativos a outros segmentos da sociedade. A
partir da formulação de conhecimentos com outros fins, atendendo àqueles
interesses inicialmente não contemplados, seria possível chegar a alterar
significativamente a dinâmica de exploração da fronteira do conhecimento
científico e tecnológico (DAGNINO, 2002).
Feenberg (2001) afirma que temos um caminho difícil entre a utopia e a
resignação. Este autor compreende que a ambivalência parte do pressuposto de
que as trajetórias tecnológicas, sobretudo num contexto em que todas as regras
básicas de funcionamento do modo de produção capitalista estejam vigentes,
dificilmente podem ser alteradas. Mas apenas as pressões de natureza política,
econômica e sócio-cultural poderão alterar a correlação de forças no contexto
daquelas regras e colocar na agenda de decisão, a exemplo do que já ocorre com
as questões ambientais, a reconstrução de tecnologias segundo os interesses dos
outros atores sociais envolvidos que não os proprietários dos meios de produção.
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Afinal, a tecnologia só deveria fazer sentido enquanto a sua aplicação traz um
significado produtivo para a vida do homem, e esse é um desafio a que não
podemos nos furtar...
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