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conteúdos de recuperação
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
6º Ano-EF
Língua Portuguesa


GÊNERO TEXTUAL
LINGUAGEM
Narrativa
Elementos da Narrativa:
Personagem
Tempo
Enredo
Substantivo – flexões
Numeral
Adjetivo
Adjetivo
Interjeição
Espaço
Foco Narrativo
Acentuação Gráfica: Sílaba tônica e átona
Paroxítona
Ditongo
Oxítona
Proparoxítona
Hiato
Classe de Palavras:
Verbo – flexões
Pronome
Preposição
Artigo
Matemática





Adição, subtração, multiplicação, divisão, potenciação e raiz quadrada de números naturais
Mínimo múltiplo comum e máximo divisor comum
Operações com frações
Porcentagem
Adição, subtração, multiplicação e divisão de números decimais
Ciências



A ÁGUA (Capítulos: 10, 11 e12)
Distribuição da água na Terra; composição da água; Estados físicos da água e de outras substâncias;
Mudanças de estado físico: fusão, vaporização, liquefação, solidificação e sublimação; O ciclo da
água na natureza; Água: solvente universal; Soluto, solvente e solução; Poluição da água; Formas
de obtenção e tratamento de água; Os procedimentos em uma estação de tratamento de água –
ETA; A necessidade do uso correto da água; Doenças relacionadas à água.
O SOLO (Capítulos: 5, 7, 8 e 9)
Estrutura da Terra; Características da crosta terrestre, do manto e do núcleo; Constituição da crosta
terrestre; Classificação das rochas -magmáticas ou ígneas, sedimentares e metamórficas-; Principais
doenças transmitidas pela contaminação do solo; O lixo como problema socioambiental; Tipos de
lixo; Alguns destinos que podem ser dados ao lixo - lixões a céu aberto, aterros e incineração-;
Recursos naturais renováveis e não-renováveis; Petróleo.
O AR (Capítulos: 14, 15, 16, 18)
A atmosfera; Camadas da atmosfera e suas características; Composição do ar atmosférico; Efeito
estufa; Camada de ozônio; Aquecimento Global; As propriedades do ar; Poluição do ar.
História
ROMA ANTIGA:
 O Império Romano: Formação, expansão e declínio.
Geografia








Lugar, paisagem e espaço geográfico
Terra e Universo
Movimentos da Terra
Orientação e localização
Relevo e suas formas
Ação das águas
Mudanças do tempo
Tipos de clima
Alemão





CAPÍTULO 24
Vocabulário: Comidas e Bebidas - p.13
Expressões: Ich esse gern __________ / Ich trinke gern ___________
CAPÍTULOS 25 A 28
Vocabulário:
Família - p.21
Números de 0 a 100 - p.23
Verbos e animais - p.24 (com expressões Ich kann __________ wie ein ____________.)
CAPÍTULOS 29 A 32
Vocabulário:
Presentes p.30 + Expressão Ich möchte einen/ein/eine/--- _________ zum Geburtstag
Números ordinais e meses - p.34 + expressão para responder quando tem aniversário
(Ich habe am _______ Geburtstag)
CAPÍTULOS 33 A 36
Vocabulário:
Disciplinas e dias da semana p.46 + Erdkunde, Geschichte, Naturwissenschaft und Portugiesisch
Responder à pergunta: Was hast du am __________ in der _________ Stunde?
Am ________ in der _________ habe ich _____________.
Hora cheia e meia - p.49
CAPÍTULO 37 A 40
Vocabulário: Animais - p.40
Períodos do dia: p.62
Inglês









VERB TO BE
ALPHABET/ SPELLING
DAYS OF THE WEEK
SINGULAR / PLURAL
NUMBERS
FAMILY
MONTHS / SEASONS
VERB HAVE GOT
APPEARANCE
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
7º Ano-EF
Língua Portuguesa
GÊNERO TEXTUAL
Narrativa
Elementos da Narrativa:
Personagem
Foco Narrativo
Espaço
Enredo
Tempo
LINGUAGEM
Sujeito:
Classificação
Núcleo
Predicado: Classificação
Núcleo
Complementos verbais:
OI e OD
Predicativo de Sujeito
Transitividade Verbal:
VL; VT; VI
Verbos regulares e irregulares
Concordância verbal
Classe de palavras
Matemática







Adição, subtração, multiplicação, divisão e potenciação de números inteiros
Adição, subtração, multiplicação, divisão e potenciação de números racionais
Equações do 1º grau com uma incógnita
Sistema de duas equações do 1º grau
Inequação
Operações com medidas de ângulos
Regra de três simples
Ciências
VÍRUS (Capítulo 6)
- Principais características dos vírus; Reprodução dos vírus; Viroses; Vacinas
BACTÉRIAS (Capítulo 7)
- Principais características das bactérias; A nutrição, respiração e reprodução das bactérias; Doenças
ocasionadas por bactérias; Bactérias e o equilíbrio da natureza; Modos de utilização das Bactérias e
algumas de suas funções em prol dos seres humanos e do ambiente
FUNGOS (Capítulo 9)
- Principais características dos fungos; Processos reprodutivos dos fungos; Produtos feitos a partir de
fungos para a alimentação, para as bebidas e para a medicina; Relações de mutualismo e parasitismo que
envolvem os fungos
PLATELMINTOS E NEMATELMINTOS (Capítulos 12 e 13)
- Principais características
- Principais doenças causadas por platelmintos e nematelmintos, identificando agentes transmissores,
causadores e os métodos de prevenção
ARTRÓPODES (Capítulo: 16 e 17)
- Os grupos de artrópodes e suas características
- Reprodução
- Metamorfose dos insetos
- Identificar aspectos relativos à importância econômica e ecológica dos artrópodes
PEIXES (Capítulo: 19)
- Adaptações à vida aquática (formato hidrodinâmico do corpo, muco, nadadeiras, brânquias e escamas)
- Caracterização dos peixes ósseos e cartilaginosos
- Respiração e reprodução
- Importância ecológica e econômica: participação na cadeia alimentar e na alimentação humana
ANFÍBIOS (Capítulo: 20)
- Características; Respiração; Circulação, Reprodução (metamorfose dos girinos); Importância ecológica e
econômica
RÉPTEIS (Capítulo: 21)
- Características; Respiração; Reprodução; Circulação
AVES (Capítulo 22)
- Características; Respiração; Reprodução; Circulação
MAMÍFEROS (Capítulo 23)
- Características gerais; Nutrição; Respiração; Circulação e excreção; Sistema nervoso e órgãos dos
sentidos; Reprodução
História
MUDANÇAS NA EUROPA
 Absolutismo e Mercantilismo;
 As Grandes Navegações.
AMÉRICA E EUROPA
 Colonização portuguesa: administração;
 Economia e Sociedade Colonial.
Geografia







Brasil: território e fronteiras
Organização do espaço geográfico brasileiro
Regiões
População brasileira
Espaço Rural
Espaço Urbano
Regiões: Nordeste, Sudeste, Sul, Norte e Nordeste
Alemão
CAPÍTULO 11:
Vocabulário:
Comidas: p.9 e p.12
Estabelecimentos: p.9 e p.14
Embalagens: p.10
Gramática:
Ich brauche _____. Ich gehe in die/in den/ins (eu vou à, ao) p.11
Estrutura frasal: Am Montag geht Frau Wagner in die Bäckererei p.11
CAPÍTULO 12
Vocabulário:
Cômodos da casa e adjetivos - p.21
Verbos - p.23
Móveis - p.25
Gramática:
O que se pode fazer em cada cômodo: Im/In der/Auf dem _________ kann man ____________
p.23
Descrever cômodos:
Como é o cômodo: Das Bad ist klein - p.21
Posição do móveis: Das Sofa steht im Wohnzimmer - p.26
Informações pessoais (Fit 1):
Dizer Nome; Ich heiβe...
Idade; Ich bin ____ Jahre alt.
Onde mora; Ich komme aus __________ und wohne in ____________.
Família; Ich habe _______________
Escola; Ich gehe in die siebte Klasse.
Inglês








CLOCK TIMES
PRESENT SIMPLE
PRESENT CONTINUOUS
PAST SIMPLE
DAILY ROUTINE
FREQUENCY
IMPERATIVE
THE WEATHER
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
8º Ano-EF
Língua Portuguesa
Aspetos Gramaticais + Aspectos Ortográficos
+ Gênero textual
Conteúdos Programáticos
Trabalho
- diferença entre complemento nominal,
objeto indireto e adjunto adnominal
- Vozes verbais; agente da passiva
- Aposto, vocativo e vírgula entre os
termos da oração
- Conjunção
- Período e período composto
- Orações coordenadas sindéticas e
assindéticas
- Orações coordenadas sindéticas:
aditiva, adversativa, alternativa,
explicativa, conclusiva
Produção de um texto do
gênero “Artigo de Opinião”,
que será corrigido de acordo
com os critérios de avaliação já
utilizados durante o ano.
Essa metodologia contempla
aspectos relativos à
textualidade, correção
ortográfica, desenvolvimento
da ideia e apresentação.
- Artigo de opinião
Matemática [8º Ano A]





Simplificação de frações algébricas
Adição, subtração, multiplicação e divisão de frações algébricas
Porcentagem
Juros
Sistemas de equações do primeiro grau
Matemática [8º Ano B]







Avaliação
Adição, subtração, multiplicação, e divisão de polinômios
Produtos notáveis
Fatoração de polinômios
Adição, subtração, multiplicação e divisão de frações algébricas
Equação fracionária
Sistema de equações do 1º grau com duas incógnitas
Ângulos formados por duas retas paralelas com uma transversal
Ciências
SER HUMANO E A SAÚDE
Sistema digestório
 Órgãos componentes e suas funções.
 Mecanismos da digestão.
 Doenças que afetam este sistema.
Avaliação específica sobre
os conteúdos trabalhados
durante a recuperação.
Sistema respiratório
 Órgãos componentes e funções.
 Mecanismos da respiração.
 Doenças que afetam este sistema.
Sistema cardiovascular
 Órgãos componentes e suas funções.
 Mecanismos da pequena e grande circulação.
 Tipos sanguíneos no sistema ABO.
 Tipos e transfusões sangüíneas.
 Eritroblastose fetal.
 Doenças que afetam este sistema.
Sistema endócrino
 Glândulas e suas principais funções.
 Tipos de glândulas.
 Doenças que afetam este sistema.
Sistema reprodutor masculino e feminino
 Órgãos componentes e funções.
 Fecundação.
 Métodos anticoncepcionais.
 DST e AIDS.
História
O SEGUNDO REINADO




O “parlamentarismo às avessas”.
Modernização e imigração;
Abolição da escravidão;
Queda da Monarquia.
Geografia







Construção do espaço geográfico
Organização espaço geográfico mundial
Globalização
Regionalização do mundo contemporâneo
América Latina
África
Ásia
Alemão










Vocabulário das lições 11 até 15
Interpretação de texto
Wohin? in den, ins, in die (18)
Declinação de adjetivo - Nominativ e Akkusativ (28)
Sich- Verben (28)
Perfekt (36, 37, 42, 142)
Frases com weil (53)
Possessivartikel sein/e, ihr/e (65)
Preposições com Dativ - Wo? in, an, vor, dem: (M-dem) (N-dem) (F-der) (65)
Verbo modal dürfen (66)
Inglês


FUTURE WITH GOING TO
COMPARATIVE AND SUPERLATIVE
- QUESTIONS WORDS
- SIMPLE PAST (REGULAR AND IRREGULAR)
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
Língua Portuguesa






Orações subordinadas (substantivas, adverbiais e adjetivas);
Regência verbal e nominal;
Pronome relativo;
Crase;
Concordância nominal;
Produção de texto.
Matemática







Cálculos com radicais
Equações de 2º grau com uma incógnita
Sistemas de equações de 2º grau
Gráfico da função quadrática no plano cartesiano
Teorema de Pitágoras
Teorema de Tales
Relações trigonométricas no triângulo retângulo
Ciências
ESTUDO DA QUÍMICA
 Estrutura atômica.
 Distribuição eletrônica.
 Íons cátions e ânions.
 Ligações covalente e eletrovalente.
 Características da tabela periódica.
 Tipos e balanceamento de equações químicas.
ESTUDO DA FÍSICA
 Movimento uniforme e variado.
 Força.
 Gravidade.
 Massa e peso.
 Sistemas de força.
9º Ano-EF
História
A BIPOLARIZAÇÃO DO MUNDO
 A Guerra Fria.
A DITADURA NO BRASIL
 Regime Militar: de Castelo Branco a Médici;
 A distensão do Regime Militar: de Geisel a Sarney.
Geografia









Espaços da Globalização
Fluxos Populacionais
Sociedade de consumo
Europa desenvolvida
União Europeia
Rússia
Bacia do Pacífico
Japão
Austrália e Nova Zelândia
Alemão











Vocabulário da lição 14 até 18
Interpretação de texto
Frases com weil (53)
Formar frases interrogativas + tema
Verbos modais: dürfen (66), sollen (95),
Perfekt (77)
Präteritum: sein (77)
Compatarivo e superlativo dos adjetivos (78)
Datas (85)
Verbo: werden (95)
Imperativo (96)
Inglês









PRESENT PERFECT SIMPLE
HOLIDAY ACTIVITIES
PAST SIMPLE AND PRESENT PERFECT SIMPLE
WILL
FIRST CONDITIONAL WITH IF
WH QUESTIONS + PRESENT SIMPLE AND PRESENT CONTINUOUS
GOING TO x WILL
PRESENT CONTINUOUS FOR FUTURE ARRANGEMENTS
ADJECTIVES OF OPINION
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Portão
6º Ano-EF
Língua Portuguesa







Substantivos: definição, classificação e flexões;
Adjetivos: definição, classificação e flexões;
Artigos e numerais;
Acentuação gráfica;
Hiato e ditongo;
Conto popular (estrutura e interpretação);
Romance de aventura (estrutura e interpretação).
Matemática
1. Números naturais:
 Ideias associadas à adição e suas propriedades;
 Ideias associadas à subtração e relação fundamental;
 Ideias associadas à multiplicação, algoritmo e suas propriedades;
 Ideias associadas à divisão, considerações da divisão e relação fundamental;
 Resolução de problemas com números naturais;
 Potenciação com números naturais;
 Raiz quadrada exata de um número natural;
 Expressões numéricas com números naturais.
2. Divisibilidade: Divisores e múltiplos:
 Divisores, fatores e múltiplos de um número natural;
 Números primos;
 Decomposição em fatores primos;
 Máximo divisor comum, mínimo múltiplo comum.
3. A forma fracionária dos números racionais:
 Resolução de problemas que envolvem frações;
 Comparação de frações;
 Obtenção de frações equivalentes;
 Reduzindo duas ou mais frações ao mesmo denominador;
 Adição e subtração de frações;
 A forma mista;
 Multiplicação de frações;
 Divisão de frações.
4. A forma decimal dos números racionais:
 Sistema monetário;
 Representação decimal;
 Propriedade geral dos números na forma decimal;
 Adição e subtração com números na forma decimal;
 Multiplicação com números na forma decimal;
 Divisão com números na forma decimal;
 Porcentagem na forma decimal;
 Potenciação de números na forma decimal.
Ciências



A ÁGUA (Capítulos: 10, 11 e12)
Distribuição da água na Terra; composição da água; Estados físicos da água e de outras substâncias;
Mudanças de estado físico: fusão, vaporização, liquefação, solidificação e sublimação; O ciclo da
água na natureza; Água: solvente universal; Soluto, solvente e solução; Poluição da água; Formas
de obtenção e tratamento de água; Os procedimentos em uma estação de tratamento de água –
ETA; A necessidade do uso correto da água; Doenças relacionadas à água.
O SOLO (Capítulos: 5, 7, 8 e 9)
Estrutura da Terra; Características da crosta terrestre, do manto e do núcleo; Constituição da crosta
terrestre; Classificação das rochas -magmáticas ou ígneas, sedimentares e metamórficas-; Principais
doenças transmitidas pela contaminação do solo; O lixo como problema socioambiental; Tipos de
lixo; Alguns destinos que podem ser dados ao lixo - lixões a céu aberto, aterros e incineração-;
Recursos naturais renováveis e não-renováveis; Petróleo.
O AR (Capítulos: 14, 15, 16, 18)
A atmosfera; Camadas da atmosfera e suas características; Composição do ar atmosférico; Efeito
estufa; Camada de ozônio; Aquecimento Global; As propriedades do ar; Poluição do ar.
História
ROMA ANTIGA
 O Império Romano: Formação, expansão e declínio.
Geografia








Lugar, paisagem e espaço geográfico
Terra e Universo
Movimentos da Terra
Orientação e localização
Relevo e suas formas
Ação das águas
Mudanças do tempo
Tipos de clima
Alemão
Vocabulário:
Essen und trinken (alimentos) – p.13, 37 KB (Kursbuch)
Wochentage (dias da semana) - p.18 KB
Monate (meses) – p.34 KB
Zahlen 1-100 (números - cardinais e ordinais ) KB – p.23 e 34
Unterrichtsfächer (disciplinas escolares) - p.46 KB
Uhrzeiten (horas) – p.49 KB
Fragepronomen (pronomes interrogativos) was, wer, wie, wann, um wie viel Uhr.
Inglês
- TO BE
- FAMILY
- APPEARANCE
- SINGULAR AND PLURAL
- ALPHABET/ SPELLING
- NUMBERS
- MONTHS AND SEASONS
- DAYS OF THE WEEK
- OBJECT PRONOUNS
- HAVE GOT
- PRESENT SIMPLE
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Portão
7º Ano-EF
Língua Portuguesa









Pronome (pessoal, de tratamento, demonstrativo, possessivo, indefinido, interrogativo e relativo);
Preposições;
Verbo: flexões, modo indicativo e subjuntivo;
Sujeito e predicado;
Tipos de sujeito (simples, composto, desinencial, indeterminado e oração sem sujeito);
Transitividade verbal; objeto direto e indireto;
Questões de ortografia (a gente/ agente, mal/ mau, mais/ mas, há/ a, afim/ afim de).
Crônica (estrutura e interpretação).
Reportagem (estrutura e interpretação).
Matemática
1. Conjunto dos números inteiros:
 Adição de números inteiros;
 Subtração de números inteiros;
 Multiplicação de números inteiros;
 Divisão de números inteiros;
 Potenciação de números inteiros;
 Raiz quadrada exata de números inteiros.
2. Conjunto dos números racionais:
 Adição algébrica de números racionais;
 Multiplicação de números racionais;
 Divisão de números racionais;
 Potenciação de números racionais;
 Raiz quadrada exata de números racionais.
3. Estudo de equações:
 Equações;
 Conjunto universo e solução de uma equação;
 Equações do 1º grau com uma incógnita;
 A linguagem das equações na resolução de problemas.
4. Estudo de inequações:
 Inequação do 1º grau com uma incógnita.
5. Razões e proporções:
 Razão;
 Proporção;
 Propriedade fundamental das proporções.
6. Grandezas proporcionais:
 Números e grandezas direta e inversamente proporcionais;
 Regra de três simples.
Ciências
VÍRUS (Capítulo 6)
- Principais características dos vírus; Reprodução dos vírus; Viroses; Vacinas.
BACTÉRIAS (Capítulo 7)
- Principais características das bactérias; A nutrição, respiração e reprodução das bactérias; Doenças
ocasionadas por bactérias; Bactérias e o equilíbrio da natureza; Modos de utilização das Bactérias e
algumas de suas funções em prol dos seres humanos e do ambiente.
FUNGOS (Capítulo 9)
- Principais características dos fungos; Processos reprodutivos dos fungos; Produtos feitos a partir de
fungos para a alimentação, para as bebidas e para a medicina; Relações de mutualismo e parasitismo que
envolvem os fungos.
PLATELMINTOS E NEMATELMINTOS (Capítulos 12 e 13)
- Principais características
- Principais doenças causadas por platelmintos e nematelmintos, identificando agentes transmissores,
causadores e os métodos de prevenção.
ARTRÓPODES (Capítulo: 16 e 17)
- Os grupos de artrópodes e suas características
- Reprodução.
- Metamorfose dos insetos.
- Identificar aspectos relativos à importância econômica e ecológica dos artrópodes.
PEIXES (Capítulo: 19)
- Adaptações à vida aquática (formato hidrodinâmico do corpo, muco, nadadeiras, brânquias e escamas).
- Caracterização dos peixes ósseos e cartilaginosos.
- Respiração e reprodução.
- Importância ecológica e econômica: participação na cadeia alimentar e na alimentação humana.
ANFÍBIOS (Capítulo: 20)
- Características; Respiração; Reprodução (metamorfose dos girinos); Importância ecológica e econômica.
MAMÍFEROS (Capítulo 23)
- Características gerais; Nutrição; Respiração; Circulação e excreção; Sistema nervoso e órgãos dos
sentidos; Reprodução.
História
MUDANÇAS NA EUROPA
 Absolutismo e Mercantilismo;
 As Grandes Navegações.
AMÉRICA E EUROPA
 Colonização portuguesa: administração;
 Economia e Sociedade Colonial.
Geografia







Brasil: território e fronteiras
Organização do espaço geográfico brasileiro
Regiões
População brasileira
Espaço Rural
Espaço Urbano
Regiões: Nordeste, Sudeste, Sul, Norte e Nordeste
Alemão

VOCABULÁRIO
Fragepronomen (pronomes interrogativos): Wer, Wie, Was, Wo, Wohin, Wie alt;
Verben (Verbos): sein, haben, heiβen, wohnen, kommen, lernen, sprechen, hören, machen, gehen,
kaufen; também - p.23 KB
Einkaufen (compras: estabelecimentos comercias e alimentos): p.9, 10, 12 KB (Kursbuch) e
exercícios correspondentes no AB (Arbeitsbuch);
Wohnen (morar): p.20, 21 KB
Zahlen 1-100 (números de 1-100)
Uhrzeiten (horas)

GRAMÁTICA
Estrutura frasal (frases afirmativas e interrogativas)

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
P.15 e 20 KB
Inglês










IMPERATIVE
PRESENT CONTINUOUS
PRESENT SIMPLE x PRESENT CONTINUOUS
CLOCK TIMES
PAST SIMPLE OF VERB TO BE
PAST SIMPLE OF REGULAR VERBS
PAST SIMPLE OF IRREGULAR VERBS
ADVERBS AND EXPRESSIONS OF FREQUENCY
DAILY ROUTINES
THE WEATHER
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Portão
8º Ano-EF
Língua Portuguesa



Transitividade Verbal;
Sujeito e predicado;
Tipos de sujeito e predicado.
Matemática
1. Conjunto dos números reais:
 Raiz quadrada exata de um número racional;
 Raiz quadrada aproximada de um número racional;
 Os números racionais e sua representação decimal;
 Os números irracionais;
 Os números reais;
2. Equações do 1º grau com uma incógnita:
 Equação do 1º grau com uma incógnita;
 Equação fracionária com uma incógnita;
 Equações literais do 1º grau na incógnita x;
3. Sistema de equações do 1º grau:
 Equação do 1º grau com duas incógnitas;
 Sistema de equações do 1º grau com duas incógnitas;
 Resolução de um sistema de duas equações do 1º grau com duas incógnitas;
 Resolução de problemas;
 Sistemas de equações fracionárias.
4. Ângulos formados por duas retas paralelas com uma reta transversal:
 Reta transversal;
 Ângulos correspondentes;
 Ângulos alternos;
 Ângulos colaterais.
Ciências
SER HUMANO E A SAÚDE
 Sistema digestório
- Órgãos componentes e suas funções.
- Mecanismos da digestão.
- Doenças que afetam este sistema.
 Sistema respiratório
- Órgãos componentes e funções.
- Mecanismos da respiração.
- Doenças que afetam este sistema.
 Sistema cardiovascular
- Órgãos componentes e suas funções.
- Mecanismos da pequena e grande circulação.
- Tipos sanguíneos no sistema ABO.
- Tipos e transfusões sangüíneas.
- Eritroblastose fetal.
- Doenças que afetam este sistema.
 Sistema endócrino
- Glândulas e suas principais funções.
- Tipos de glândulas.
- Doenças que afetam este sistema.
 Sistema reprodutor masculino e feminino
- Órgãos componentes e funções.
- Fecundação.
- Métodos anticoncepcionais.
- DST e AIDS.
História
O SEGUNDO REINADO
 O “parlamentarismo às avessas”.
 Modernização e imigração;
 Abolição da escravidão;
 Queda da Monarquia.
Geografia







Construção do espaço geográfico
Organização espaço geográfico mundial
Globalização
Regionalização do mundo contemporâneo
América Latina
África
Ásia
Alemão
VOCABULÁRIO
Fragepronomen (pronomes interrogativos): Wer, Wie, Was, Wo, Wohin, Wie alt;
Verben (Verbos): sein, haben, heiβen, wohnen, kommen, lernen, sprechen, hören, machen, gehen,
kaufen; também - p.23 KB
Einkaufen (compras: estabelecimentos comercias e alimentos): p.9, 10, 12, 60, 61, 62 KB
(Kursbuch) e exercícios correspondentes no AB (Arbeitsbuch);
Zahlen 1-100 (números de 1-100)
Körperteile (partes do corpo) p.45 KB e exercícios correspondentes no AB
GRAMÁTICA
Estrutura frasal (frases afirmativas e interrogativas)
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
P.15 e 20 KB
Inglês
- PRESENT SIMPLE
- PRESENT CONTINUOUS
- QUESTION WORDS
- PAST SIMPLE
- LARGE NUMBERS
- LEISURE ACTIVITIES
- POSSESSIVE ADJECTIVES AND PRONOUNS
- COUNTABLE x UNCOUNTABLE
- DATES
- DAILY ROUTINES
- GOING TO
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Portão
9º Ano-EF
Língua Portuguesa


Regência nominal e verbal,
Concordância nominal e verbal e crase.
Matemática
1. Potências e suas propriedades:
 Potência de um número real com expoente natural;
 Potência de um número real com expoente inteiro negativo.
2. Calculando com radicais:
 Radical aritmético e suas propriedades;
 Simplificação de radicais: extração de fatores do radicando;
 Adição algébrica de dois ou mais radicais;
 Multiplicação de expressões com radicais de mesmo índice;
 Divisão de expressões com radicais de mesmo índice;
 Multiplicação e divisão de expressões com radicais de índices diferentes;
 Racionalização de denominadores de uma expressão fracionária;
 Potências com expoente racional.
3. Equações do 2º grau:
 Equação do 2º grau com uma incógnita;
 Resolução de equações incompletas do 2º grau;
 Resolução de equações completas do 2º grau com uma incógnita;
 Estudo das raízes de uma equação do 2º grau;
 Relação entre as raízes e os coeficientes da equação ax² + bx + c = 0;
 Construção uma equação do 2º grau a partir das duas raízes;
 Equações biquadradas;
 Resolução de sistemas de equações do 2º grau.
4. Segmentos proporcionais:
 Razão e proporção;
 Teorema de Tales.
5. Relações métricas no triângulo retângulo:
 Teorema de Pitágoras.
6. Relações trigonométricas nos triângulos:
 Relações trigonométricas no triângulo retângulo.
Ciências
ESTUDO DA QUÍMICA






ESTUDO DA FÍSICA
 Movimento uniforme e variado.
Estrutura atômica.
Distribuição eletrônica.
Íons cátions e ânions.
Ligações covalente e eletrovalente.
Características da tabela periódica.
Tipos e balanceamento de equações químicas.




Força.
Gravidade.
Massa e peso.
Sistemas de força.
História
A BIPOLARIZAÇÃO DO MUNDO
 A Guerra Fria.
A DITADURA NO BRASIL
 Regime Militar: de Castelo Branco a Médici;
 A distensão do Regime Militar: de Geisel a Sarney.
Geografia









Espaços da Globalização
Fluxos Populacionais
Sociedade de consumo
Europa desenvolvida
União Europeia
Rússia
Bacia do Pacífico
Japão
Austrália e Nova Zelândia
Alemão
FRAGEPRONOMEN (Pronomes interrogativos): Wer, Wie, Was, Wo, Wohin, Wie alt,wann
VERBEN (Verbos):
sein, haben, heiβen, wohnen, kommen, lernen, sprechen, hören, machen, gehen, kaufen, fahren;
também p.23 KB
Körperteile (partes do corpo e vocabulário da lição 14) – p.44, 45, 49, 53, 54 KB
Weh tun / Schmerzen
Die Stadt (cidade ) - p.9, 60, 61 , 62 KB
Zahlen 1-100 (números ordinais e cardinais) (em folha e p.95 KB)
Monate (meses) - p.85 KB
Datum (data) - p.95 KB
Jahreszeiten (estações do ano e adjetivos correspondentes) - p.104 KB
GRAMÁTICA:
Estrutura frasal (frases afirmativas e interrogativas)
INTERPRETAÇÃO DE TEXTO:
P.71, 87, 90, 101, 111 KB
Inglês









PRESENT PERFECT SIMPLE
HOLIDAY ACTIVITIES
PAST SIMPLE AND PRESENT PERFECT SIMPLE
WILL
FIRST CONDITIONAL WITH IF
WH QUESTIONS + PRESENT SIMPLE AND PRESENT CONTINUOUS
GOING TO x WILL
PRESENT CONTINUOUS FOR FUTURE ARRANGEMENTS
ADJECTIVES OF OPINION
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
1º Ano-EM
Física






Movimento retilíneo uniforme;
Movimento retilíneo uniformemente variado;
Movimento vertical;
Trabalho de uma força;
Potência;
Energia.
Química






ESTRUTURA ATÔMICA (Capítulos: 7, 8, 9 e10):
Modelo atômico de Rutherford; Átomos neutros e íons; Modelo atômico de Bohr; Modelo
atômico de subníveis de energia.
TABELA PERIÓDICA (Capítulo: 11):
A estrutura da tabela periódica; Configuração eletrônica e tabela periódica.
PROPRIEDADES PERIÓDICAS DOS ELEMENTOS (Capítulo: 12):
Raio atômico; Energia de ionização; eletronegatividade.
LIGAÇÕES INTERATÔMICAS (Capítulos: 13, 14 e 15):
Ligação iônica; Ligação covalente e Ligação metálica.
SUBSTÂNCIAS INORGÂNICAS (Capítulos: 20, 21, 22, 23 e 24):
Condutividade elétrica de soluções aquosas; Ácidos; Bases; Sais; Força de eletrólitos e Óxidos.
CLASSIFICAÇÃO DAS REAÇÕES INORGÂNICAS (Capítulo 25)
Matemática






LOGARITMOS
EQUAÇÕES EXPONENCIAIS
FUNÇÃO DO SEGUNDO GRAU
PORCENTAGEM
ÁREAS DE FIGURAS PLANAS
ÂNGULOS EM RETAS PARALELAS
Biologia
NUTRIENTES DO CORPO
 Carboidratos
 Proteínas
 Lipídios
 Vitaminas
 Sais Minerais
DIVISÃO CELULAR
 Mitose e Meiose - Fases específicas, características e funções.
RESPIRAÇÃO CELULAR
 Glicólise
 Ciclo de Kreb's
 Cadeia Respiratória
História



Grandes navegações;
Reforma protestante;
Colonização do Brasil.
Filosofia

Estética e Ética
Sociologia

Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire
Língua Portuguesa
Aspetos Gramaticais + Aspectos Ortográficos
+ Gênero textual
Conteúdos Programáticos
- Morfologia: estrutura das palavras: os
elementos mórficos constitutivos das
palavras
- Principais radicais, prefixos e sufixos
de origem grega e latina
- Processos de formação de palavras
- Estrutura do parágrafo: tópico frasal
- As sequências textuais: narrativa,
dissertativa e descritiva
- Era Clássica Portuguesa: Classicismo,
Barroco e Arcadismo em Portugal
- Era Colonial Brasileira: Quinhentismo,
Barroco e Arcadismo
- Textos argumentativo-dissertativos
Trabalho
Produção de um texto do gênero
“Dissertativo-Argumentativo”, que
será corrigido de acordo com os
critérios de avaliação já utilizados
durante o ano.
Essa metodologia contempla
aspectos relativos à textualidade,
correção ortográfica,
desenvolvimento da ideia e
apresentação.
Avaliação
- Avaliação específica
sobre os conteúdos
trabalhados durante a
recuperação.
Língua Inglesa
PRE-INTERMEDIATE (GREEN BOOK)
 ADJECTIVE WORD ORDER
 APPEARANCE
 -ED AND -ING ADJECTIVES
 TYPES OF TV PROGRAMME
INTERMEDIATE (ORANGE BOOK)
 CLOTHES, STYLES, ACCESSORIES AND PATTERNS
 PRESENT SIMPLE AND PRESENT CONTINUOUS
 PRESENT PERFECT SIMPLE
 PAST SIMPLE
 COMPARATIVE ADJECTIVES AND ADVERBS
 PAST CONTINUOUS
 TRANSPORT AND TRAVEL VERBS
 FUTURE TENSES
Geografia









CAPÍTULO 2 – A FORMAÇÃO DA ECONOMIA GLOBAL
CAPÍTULO 3 – A GEOGRAFIA DO PODER MUNDIAL
CAPÍTULO 4 – COMÉRCIO DESIGUAL E REGIONALIZAÇÃO NA ECONOMIA GLOBAL
CAPÍTULO 5 – CARTOGRAFIA E PODER
CAPÍTULO 6 – O TERRITÓRIO BRASILEIRO EM CONSTRUÇÃO
CAPÍTULO 7 – BRASIL: DINÂMICAS TERITORIAIS E ECONÔMICAS
CAPÍTULO 8 – O ESTADO BRASILEIRO E O PLANEJAMENTO REGIONAL
CAPÍTULO 11 – CONFLITOS REGIONAIS NA ORDEM GLOBAL
CAPÍTULO 12 – DINÂMICAS DEMOGRÁFICAS
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
2º Ano-EM
Física




Escalas Termométricas;
Calorimetria;
Lentes;
Refração da Luz.
Química




CONCENTRAÇÃO DAS SOLUÇÕES (Capítulos: 1, 2, 3, 4 e 5)
Concentração comum; Densidade; Porcentagem em massa; ppm; ppb; Concentração em molL;
Relações entre os tipos de concentração; Diluição de soluções; Mistura de soluções.
TERMOQUÍMICA (Capítulo 20, 21 e 22):
Entalpia e variação de entalpia; Lei de Hess; Energia de ligação; Aspectos estequiométricos da
termoquímica.
CINÉTICA QUÍMICA (Capítulos: 23, 24 e 25)
Velocidade média das reações; Energia de ativação; Fatores que influenciam a velocidade de uma
reação; Lei cinética.
PILHAS (Capítulos 15 e 16):
Celas galvânicas (pilhas); Potencial-padrão de semicela e suas aplicações.
Matemática







ANÁLISE COMBINATÓRIA
PROBABILIDADE
MATRIZES
DETERMINANTES
SISTEMAS
TRIGONOMETRIA DO TRIÂNGULO RETÂNGULO
PROGRESSÃO ARITMÉTICA E PROGRESSÃO GEOMÉTRICA
Biologia
REINO PROTOZOA
 Características dos grupos
 Doenças causadas por Protozoários
REINO PLANTAE
 Criptógamas (Briófitas e Pteridófitas)
 Fanerógamas (Gimnospermas e Angiospermas - Mono e Dicotiledôneas)
 Tecidos Vegetais - Revestimento, Preenchimento, Sustentação e Condução
REINO ANIMAL
 Filos Invertebrados - De Poríferos a Equinodermos - Características, Exemplares e doenças
relacionadas (teníase, ascaridíase, cisticercose...)
 Filos Vertebrados - Protocordados (Ascídias e Anfioxos) e Cordados Verdadeiros (Ciclóstomos,
Peixes e Tetrápodes)
História



Imperialismo;
Belle Époque;
I Guerra Mundial.
Filosofia

Lógica e Metafísica
Sociologia

Vigiar e Punir
Língua Portuguesa
TÓPICOS DE GRAMÁTICA
 Leitura e compreensão de textos: interpretação
 Acentuação gráfica e emprego do hífen.
 Flexão de gênero (masculino e feminino) e número (singular e plural) dos substantivos e dos
adjetivos simples e compostos.
 Emprego dos pronomes pessoais, demonstrativos e dos pronomes relativos.
 Emprego dos verbos regulares, irregulares e defectivos.
 Emprego dos numerais e dos advérbios.
 Emprego das conjunções coordenadas e subordinadas.
TÓPICOS DE LITERATURA
 Leitura e compreensão de textos literários: interpretação.
 Romantismo no Brasil: contexto histórico, características principais da Escola.
 A Poesia Romântica: as três gerações românticas no Brasil
 A Prosa Romântica: principais autores, especialmente a obra de José de Alencar.
 Análise das obras “Lucíola”, de José de Alencar e “O Inglês Maquinista”, de Martins Pena.
 O Realismo e o Naturalismo no Brasil: contexto histórico, o projeto literário e a produção literária
de Machado de Assis e de Aluísio Azevedo e, especialmente, a obra “O Bom Crioulo”, de Adolfo
Caminha.
 O Parnasianismo no Brasil (a tríade parnasiana) e o Simbolismo (principais poetas simbolistas):
características do projeto literário destas Escolas Literárias.
REDAÇÃO
 Produção de um texto dissertativo a partir da leitura e análise de um cartum ou de uma
reportagem significativa da atualidade, que possibilite ao aluno um posicionamento crítico sobre
o tema, a partir da exposição de argumentos.
Língua Inglesa
PRE-INTERMEDIATE (GREEN BOOK)
 ADJECTIVE WORD ORDER
 APPEARANCE
 -ED AND –ING ADJECTIVES
 TYPES OF TV PROGRAMME
INTERMEDIATE (ORANGE BOOK)
 CLOTHES, STYLES, ACCESSORIES AND PATTERNS
 PRESENT SIMPLE AND PRESENT CONTINUOUS
 PRESENT PERFECT SIMPLE
 PAST SIMPLE
 COMPARATIVE ADJECTIVES AND ADVERBS
 PAST CONTINUOUS
 TRANSPORT AND TRAVEL VERBS
 FUTURE TENSES
Geografia








CAPÍTULO 18 – ESTRUTURA GEOLÓGICA E FORMAS DE RELEVO
CAPÍTULO 19 – A ENERGIA SOLAR E A DINÂMICA DA ATMOSFERA
CAPÍTULO 20 – OS DOMÍNIOS NATURAIS E OS RECURSOS HÍDRICOS
CAPÍTULO 21 – O MEIO AMBIENTE GLOBAL
CAPÍTULO 22 – AS BASES FÍSICAS DO BRASIL
CAPÍTULO 23 – OS CLIMAS E OS DOMÍNIOS MORFOCLIMÁTICOS BRASILEIROS
CAPÍTULO 25 – A URBANIZAÇÃO E SEUS IMPACTOS AMBIENTAIS
CAPÍTULO 30 – CIDADES E REDES URBANAS NO BRASIL
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
3º Ano-EM
Física






Corrente elétrica e resistência elétrica;
Diferença de potencial ou tensão;
Resistores – 1ª e 2ª Leis de OHM;
Associação de resistores;
Circuitos elétricos;
Medidas elétricas ( amperímetro e voltímetro).
Química
QUÍMICA ORGÂNICA:
 Cadeias carbônicas (Capítulo 2):
Classificação do carbono em uma molécula; Benzeno e compostos aromáticos; Classificação das
cadeias carbônicas.
 Nomenclatura de hidrocarbonetos não ramificados e ramificados (Capítulos: 4 e 5)
 Classes funcionais (Capítulos: 6 e7)
 Isomeria (Capítulo 12; 13 e14):
Isomeria plana; Isomeria geométrica; Isomeria óptica.
 Reações de hidrocarbonetos (Capítulos: 15 e 16):
Reações de substituição em alcanos e reações de substituição em aromáticos; Reações de adição
a alcenos e reações de adição a alcinos.
 Reações de oxidação e redução (Capítulos 19)
 Desidratação de álcoois ; esterificação e hidrólise de ésteres (Capítulo 20)
FÍSICO QUÍMICA:
 Termoquímica (Caderno de revisão):
Entalpia e variação de entalpia; Lei de Hess; Energia de ligação; Aspectos estequiométricos da
termoquímica.
 Cinética Química (Caderno de Revisão):
Velocidade média das reações; Energia de ativação; Fatores que influenciam a velocidade de uma
reação; Lei cinética.
 Pilhas (Caderno de revisão):
Celas galvânicas (pilhas); Potencial-padrão de semicela e suas aplicações.
Matemática








ANÁLISE COMBINATÓRIA
PROBABILIDADE
MATRIZES
DETERMINANTES
TRIGONOMETRIA DO TRIÂNGULO RETÂNGULO
CONJUNTOS
PARALELEPÍPEDO, CUBO E POLIEDROS
ESTATÍSTICA
Biologia
BIOQUÍMICA
 Nutrientes do Corpo
 Mitose e Meiose
 Respiração Celular
 Síntese Protéica
REINO PLANTAE
 Criptógamas (Briófitas e Pteridófitas)
 Fanerógamas (Gimnospermas e Angiospermas - Mono e Dicotiledôneas)
 Tecidos Vegetais - Revestimento, Preenchimento, Sustentação e Condução
REINO ANIMAL
 Filos Invertebrados - De Poríferos a Equinodermos - Características, Exemplares e doenças
relacionadas (teníase, ascaridíase, cisticercose...)
 Filos Vertebrados - Protocordados (Ascídias e Anfioxos) e Cordados Verdadeiros (Ciclóstomos,
Peixes e Tetrápodes)
História



Guerra Fria,
Globalização,
Redemocratização brasileira.
Filosofia

Uso do dogma na investigação científica - Thomas Kuhn
Sociologia

Aplicações da sociologia na sociedade moderna
Língua Portuguesa
TÓPICOS DE GRAMÁTICA:
 Leitura e compreensão de textos: interpretação.
 Sintaxe: análise do período composto por coordenação (identificar os diferentes sentidos das
orações coordenadas sindéticas).
 Período composto por subordinação: orações subordinadas adjetivas (diferenciar as orações
explicativas das restritivas) orações subordinadas adverbiais (identificar os diferentes sentidos
das orações adverbiais).
 Emprego dos sinais de pontuação, especialmente o emprego da vírgula.
 Regência verbal e nominal.
 Emprego da crase.
 Concordância Verbal e Nominal.
TÓPICOS DE LITERATURA:
 Leitura e compreensão de textos literários: interpretação.
 Os Movimentos de Vanguarda Europeus e sua influência no Modernismo Brasileiro: características
e projeto literário do Modernismo Brasileiro.
 O Modernismo no Brasil: 1ª fase: a produção literária de Mário de Andrade, Oswald de Andrade e
de Manuel Bandeira.
 O Modernismo Brasileiro na sua 2ª fase: A poesia moderna de Vinícius de Moraes, de Cecília
Meirelles e de Carlos Drummond de Andrade, “Claro Enigma”.
 A prosa modernista na sua 2ª fase: a obra de Rachel de Queirós, Graciliano Ramos, Jorge Amado,
Érico Veríssimo e, principalmente, análise da obra “Fogo Morto”, de José Lins do Rego.
 A Geração de 45: a poesia moderna de João Cabral de Melo Neto: “Morte e vida Severina”, e
características do projeto literário da Poesia Concreta no Brasil.
 A prosa moderna na 3ª fase do Modernismo Brasileiro: características da narrativa de João
Guimarães Rosa e de Clarice Lispector.
 O Teatro Contemporâneo no Brasil, especialmente análise da obra “Eles não usam Black-tie”, de
Gianfrancesco Guarnieri.
Língua Inglesa
PERSONALITY ADJECTIVES
 PAST AND PERFECT TENSES
 MONEY AND FINANCE
 DETERMINERS
 VERB PATTERNS
 STAGES OF LIFE
 TALKING ABOUT THE FUTURE
 TALKING ABOUT ABILITY
Geografia









CAPÍTULO 33 – A REGIÃO NORDESTE DO BRASIL
CAPÍTULO 34 – A REGIÃO SUDESTE DO BRASIL
CAPÍTULO 35 – A REGIÃO NORTE DO BRASIL
CAPÍTULO 36 – A REGIÃO SUL DO BRASIL
CAPÍTULO 37 – A REGIÃO CENTRO-OESTE DO BRASIL
CAPÍTULO 38 – AMÉRICA LATINA: HERANÇA COLONIAL E DIVERSIDADE CULTURAL
CAPÍTULO 39 – PANORAMA ECONÔMICO DA AMÉRICA LATINA
CAPÍTULO 40 – AMÉRICA DO SUL: INTEGRAÇÃO FÍSICA E ENERGÉTICA
CAPÍTULO 42 – ÁFRICA: UNIDADE E DIVERSIDADE
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Bom Pastor
07:05
07:55
08:45
09:50
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15/12
16/12
PORTUGUÊS
HISTÓRIA
CIÊNCIAS
INGLÊS
ALEMÃO
ARTE
GEOGRAFIA
MATEMÁTICA
Matemática





Operações com números naturais
Operações com frações
Operações com números decimais
Medidas e grandezas
Perímetro, área e volume
História





Cap. 5 - Os Egípcios: pirâmide social pág.77 e atividades pág.87;
Cap. 6 - Hebreus, Persas e Fenícios: atividades da pág.102;
Cap. 7 - Civilização Chinesa: invenções da pág.118 e atividades pág.121;
Cap. 11 - Esparta e Atenas: atividades pág.177;
Cap. 12 - Roma: atividades pág.195.
Geografia







Cap. 3 - Orientação: Rosa dos ventos pág.36 e 37;
Cap. 5 - Mapas: pág. 63 a 67;
Cap. 7 - Formas e movimentos da Terra: pág.93 a 102;
Cap. 8 - A superfície e o interior da Terra: pág.111 e 112;
Cap. 11 - Atmosfera: atividades pág.170, 171 1 181;
Cap. 12 - Hidrosfera: atividades pág.195, 196 e 203;
Cap. 13 - Biosfera: atividades pág. 224 e 225.
6º Ano-EF
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Bom Pastor
07:05
07:55
08:45
09:50
10:40
15/12
16/12
PORTUGUÊS
HISTÓRIA
CIÊNCIAS
INGLÊS
ALEMÃO
ARTE
GEOGRAFIA
MATEMÁTICA
Português






Adjetivo e locução adjetiva – 60 a 64
Verbo – 92 a 95
Locuções verbais – 118 a 123
Frase e oração – 174 a 179
Sujeito e predicado – 210 a 218 e 239 a 247
Produção de texto – um parágrafo argumentativo
Matemática






Operações com números inteiros e racionais
Equações do 1° grau
Razão e proporção
Regra de três simples
Porcentagem
Juros simples
História






Cap. 2 - O mundo feudal: atividades pág.38;
Cap. 4 - Renascimento e Reforma: atividades pág.75;
Cap. 5 - As grandes navegações: atividades pág.93;
Cap. 8 - Os indígenas e a colonização pág.154;
Cap. 9 - Africanos na colônia portuguesa: atividades pág.173;
Cap. 10 - A sociedade do açúcar pág. 191.
7º Ano-EF
Geografia





Cap. 2 - Economia e sociedade: atividades pág.31 e 36;
Cap. 4 – Industrialização: atividades pág.75, 78 e 83;
Cap. 5 - Urbanização: atividades pág. 92, 95, 98 e 106;
Cap. 9 - Problemas ambientais: atividades pág.190, 192, 193, 194 e 196;
Cap. 10 - As regiões brasileiras pág. 212, 215 e mapa do Brasil pág.211.
Ciências












Características dos seres vivos;
Célula; Eucarionte e Procarionte;
Reprodução assexuada e sexuada;
Taxonomia;
Vírus;
Teorias de origem da vida;
Invertebrados;
Características dos grupos de vertebrados;
Doenças causadas por vermes;
Fecundação interna e externa;
Briófitas, Pteridófitas, Gimnospermas e Angiospermas;
Diferenças entre monocotiledôneas e dicotiledônea.
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Bom Pastor
07:05
07:55
08:45
09:50
10:40
15/12
16/12
PORTUGUÊS
HISTÓRIA
CIÊNCIAS
INGLÊS
ALEMÃO
ARTE
GEOGRAFIA
MATEMÁTICA
8º Ano-EF
Matemática





Produtos notáveis
Fatoração
Perímetros, áreas e volumes
Perspectiva
Estatística
História






Cap. 1 - Iluminismo: atividades pág.25;
Cap. 2 - Rev. Industrial pág.41;
Cap. 4 - Revoltas na Colônia portuguesa: atividades pág.82;
Cap. 5 - Brasil: atividades pág.103;
Cap. 8 - Crise do Segundo Reinado: pág. 169;
Cap. 9 - Proclamação da República pág.186.
Geografia







Cap. 3 - As grandes regiões culturais: atividades pág.54, 67 e 69;
Cap. 4 - Regiões geoeconômicas: atividades pág.81 e 85;
Cap. 6 - Mercosul: atividades pág.120 e 121;
Cap. 7 - Mapa político da América do Sul pág.136;
Cap. 8 - México e América Central: atividades da pág.158, 160 e 164;
Cap. 10 - África: atividades pág.210 e
Cap. 11 - Oriente Médio: atividades pág.226 e 231.
Alemão
 Vocabulário sobre comidas e bebidas, declinação de adjetivos, Passado "Perfekt", partes do corpo,
estrutura de frases.
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Bom Pastor
07:05
07:55
08:45
09:50
10:40
15/12
16/12
PORTUGUÊS
HISTÓRIA
CIÊNCIAS
INGLÊS
ALEMÃO
ARTE
GEOGRAFIA
MATEMÁTICA
9º Ano-EF
Matemática






Equações do 2° grau
Gráficos de funções
Teorema de Pitágoras
Razões: seno, cosseno e tangente
Perímetros, áreas e volumes
Estatística
Alemão

Vocabulário sobre comidas e bebidas, declinação de adjetivos, Passado "Perfekt", partes do corpo,
estrutura de frases.
Ciências
















Mudanças de estado físico da matéria;
Fenômeno físico e químico;
Número atômico e massa atômica;
Densidade;
Funções químicas;
Tabela periódica;
Ligações químicas;
Reações químicas;
Máquinas simples;
Calor e escalas termométricas;
Dilatação;
Calor sensível e calor latente;
Energia;
Ondas;
Fenômenos da luz;
Defeitos da visão.
Arte









Arte japonesa - p.15 e 16
Expressionismo Abstrato - p.19 e 20
Leonardo da Vinci: a Mona Lisa - p.31
Ready-Made - Marcel Duchamp - p.38
Arte social: Live Aid - p.45 a 52
Cordel - p.94 e 95
Arte e repressão: música engajada - p.111 a 113
Representação realista com proporção e pontos de fuga (caderno)
Vincent Van Gogh - p.12
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
2º Ano-EM
Língua Portuguesa
Contos para leitura do Trabalho de Recuperação
CONTOS DE MACHADO DE ASSIS DO LIVRO “VÁRIAS ESTÓRIAS”
A CAUSA SECRETA
Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto
da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do
dia, que estivera excelente, - de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se
explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história
sem rebuço.
Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia e grave, que não lhes deixou muito
gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora
mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de
severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é
preciso remontar à origem da situação.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrouse com Fortunato, pela primeira vez, à porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura;
mas, ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D.
Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia
uma ou duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os
passos até aquele recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé
dele.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com
singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a
outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama,
veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo,
rua de S. José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum
cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados
da praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa, quando ouviu rumor de vozes
na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra.
Era este que alguns homens conduziam, escada acima, ensangüentado. O preto que o servia acudiu a abrir a porta;
o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca. Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar
um médico.
- Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou que seria parente ou amigo do ferido;
mas rejeitou a suposição, desde que lhe ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto
que não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se retirassem, pagou aos carregadores,
e deu as primeiras ordens. Sabendo que o Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para
ajudar o médico. Em seguida contou o que se passara.
- Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui visitar um primo, quando ouvi um
barulho muito grande, e logo depois um ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e
que entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua no momento em que um dos
capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei
melhor trazê-lo.
- Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
- Não, nunca o vi. Quem é?
- É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
- Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se as informações. O desconhecido
declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira, ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi
reconhecida grave. Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela,
os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se
particularmente com o médico, acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de
estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dois saíram, ele e o estudante ficaram no quarto.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas
algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham
a expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba, por baixo do queixo, e de uma têmpora
a outra, curta, ruiva e rara. Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava
alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação
que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo
a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano
como um poço de mistérios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a cura fez-se depressa, e, antes de
concluída, desapareceu sem dizer ao obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome,
rua e número.
- Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o convalescente.
Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido, ouviu impaciente as palavras de
agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa,
defronte dele, sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando em quando, sem
achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença para sair, e saiu.
- Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o desdém, forcejando por esquecê-lo,
explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O
ressentimento, hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o desgraçado não teve
mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este
homem o sentimento da ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade de decifrar os homens, de
decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas
camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter com o homem
de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso
um pretexto, e não achou nenhum.
Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto da do Conde, encontrou
Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato
convidou-o a ir visitá-lo ali perto, em Catumbi.
- Sabe que estou casado?
- Não sabia.
- Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco domingo.
- Domingo?
- Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e boa palestra, em companhia da
senhora, que era interessante. A figura dele não mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias;
as outras feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não resgatavam a natureza, davam
alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta,
airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove. Garcia, à segunda vez
que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e
da parte da mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no
temor. Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que
ele conhecera o marido.
- Não, respondeu a moça.
- Vai ouvir uma ação bonita.
- Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
- A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada. Insensivelmente estendeu a mão e apertou o
pulso ao marido, risonha e agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os ombros,
mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o ferido lhe fez, com todos os pormenores da
figura, dos gestos, das palavras atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o riso
da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco.
" Singular homem!" pensou Garcia.
Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico restituiu-lhe a satisfação anterior,
voltando a referir a dedicação deste e as suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele,
que, se algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
- Valeu? perguntou Fortunato.
- Valeu o quê?
- Vamos fundar uma casa de saúde?
- Não valeu nada; estou brincando.
- Podia-se fazer alguma coisa; e para o senhor, que começa a clínica, acho que seria bem bom. Tenho
justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na cabeça ao outro, e não foi possível
recuar mais. Na verdade, era uma boa estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou
finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que
o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça.
O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois.
Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e
caldos, drogas e contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel não era um caso fortuito, mas
assentava na própria natureza deste homem. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada,
não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite.
Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações, e nenhum outro curava os
cáusticos.
- Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia tornou-se familiar na casa; ali jantava quase
todos os dias, ali observava a pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão como que
lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o agitava, quando ela aparecia, quando falava,
quando trabalhava, calada, ao canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso, entrou-lhe
o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre ele e Fortunato não houvesse outro laço que
o da amizade; mas não pôde. Pôde apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o
silêncio, mas não se deu por achada.
No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos olhos do médico a situação da
moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar
gatos e cães. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa, e a mulher,
compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que,
como coisa sua, alcançasse do marido a cessação de tais experiências.
- Mas a senhora mesma...
Maria Luísa acudiu, sorrindo:
- Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o senhor, como médico, lhe dissesse que
isso me faz mal; e creia que faz...
Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os foi fazer em outra parte, ninguém
o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia
ver padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma coisa, ela respondeu que nada.
- Deixe ver o pulso.
- Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao contrário, que ela podia ter alguma coisa,
que era preciso observá-la e avisar o marido em tempo.
Dois dias depois, - exatamente o dia em que os vemos agora, - Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que
Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía
aflita.
- Que é? perguntou-lhe.
- O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunato queixar-se de um rato, que lhe levara um papel
importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete,
e sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão
esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No
momento em que o Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama,
rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou
horrorizado.
- Mate-o logo! disse-lhe.
- Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações
supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O
miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos,
depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo,
porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a
última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou
olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para
salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva,
nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a
vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que
Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia
morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para
cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si
toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se enraivecido contra o animal, que
lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia
lhe pode dar: é o segredo deste homem".
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo
agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e
leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui
generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e
falou-lhe mansamente:
- Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
- Há de crer que quase desmaiou?
Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois foi sentar-se à janela com as suas lãs
e agulhas, e os dedos ainda trêmulos, tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de
terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e olhando para o teto, o médico estalando
as unhas. Pouco depois foram jantar; mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava
de si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível; mas o
amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu por ela e cuidou de os vigiar.
Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama
insaciável, que chupa a vida toda, até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava
deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la. Não poupou esforços, médicos,
remédios, ares, todos os recursos e todos os paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.
Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole do marido subjugou qualquer outra
afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a
uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e minada de morte. Egoísmo
aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima,
pública ou íntima. Só quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava outra vez só.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a morrer, ficaram na sala Fortunato e
Garcia, velando o cadáver, ambos pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que
repousasse um pouco.
- Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu logo. Vinte minutos depois acordou, quis
dormir outra vez, cochilou alguns minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para
não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas.
Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato
chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero.
Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe
vaidade, que não é menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo
rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor
calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral
que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.
Fonte: Várias Histórias - Machado de Assis - W. M. Jackson Inc Editores - 1946.
UNS BRAÇOS
Inácio estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este lhe apresentava e tratou de
comer, debaixo de uma trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
- Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do
corpo com uma boa vara de marmelo, ou um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
- Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se para D. Severina, senhora que vivia
com ele maritalmente, há anos. Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de ir a outro,
troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso
quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de vassoura!
D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou
em paz com Deus e os homens.
Não digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era propriamente menino. Tinha quinze
anos feitos e bem feitos. Cabeça inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga, que quer
saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo não destituído de graça, ainda que mal vestido. O
pai é barbeiro na Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do solicitador Borges, com
esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na
Rua da Lapa, em 1870.
Durante alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da mastigação. Borges abarrotavase de alface e vaca; interrompia-se para virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles
estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele
pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente. Usava mangas curtas em
todos os vestidos de casa, meio palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na verdade,
eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por
viverem ao ar; mas é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque já gastara todos os vestidos
de mangas compridas. De pé, era muito vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que só
a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto. Não se pode dizer que era bonita; mas também
não era feia. Nenhum adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos, apanhou-os, atou-os e
fixou-os no alto da cabeça com o pente de tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas orelhas,
nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
Acabaram de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira, comparou-os, apertou-os entre
os dedos, escolheu um e guardou os restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D. Severina
de trinta mil coisas que não interessavam nada ao nosso Inácio; mas enquanto falava, não o descompunha e ele
podia devanear à larga.
Inácio demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha, arrancava dos dedos
pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e
um S. João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça
alegra as imaginações católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço Inácio é que ele
não via nem um nem outro; passava os olhos por ali como por nada. Via só os braços de D. Severina, - ou porque
sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos na memória.
- Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
Não havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como de costume, para o seu quarto, nos
fundos da casa. Entrando, fez um gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas janelas que
davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o
sentimento confuso, vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a planta, quando abotoa
a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a
mesma, sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo, levando papéis ao selo, ao
distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da ceia;
ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a
via mais de três vezes por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem gosto, longe da mãe
e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais.
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e tão
frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os
olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo,
mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Agüentava
toda a trabalheira de fora toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de
ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
Naquele dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha ali outra cama), D. Severina,
na sala da frente, recapitulava o episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa Rejeitou a idéia
logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas
tornam e pousam. Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio
de rascunho de buço. Que admira que começasse a amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada,
antes afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as distrações, e mais um incidente, e
mais outro, tudo eram sintomas, e concluiu que sim.
- Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
- Não tenho nada.
- Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu sei de um bom remédio para tirar
o sono aos dorminhocos...
E foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente incapaz de as cumprir, pois era antes
grosseiro que mau. D. Severina interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava pensando na
comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que
andava cansado, trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs a comadre, descompôs
o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler,
escrever e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um bonito fim: - vadio, e o côvado e
meio nas costas. A tarimba é que viria ensiná-lo.
D. Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo do compadre, e fazia-lhe
carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua, que
acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente
um trabalhador de primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só na sala, às escuras,
consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a impressão do assombro, trouxe-lhe
uma complicação moral que ela só conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não podia
entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho.
Mas que era tudo? Aqui estacou: realmente, não havia mais que suposição, coincidência e possivelmente ilusão.
Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações,
para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem
fundamento, admitiu que se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a realidade das coisas.
Já nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de Inácio; não chegou a achar nada, porque
o tempo do chá era curto e o rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar melhor, e nos
outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames
sociais e por um sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo. D. Severina compreendeu
que não havia recear nenhum desacato, e concluiu que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um
desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era criança, e assentou de o tratar tão secamente
como até ali, ou ainda mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos, ou falava áspero, quase
tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo;
assim como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que, para descansar, vinha pousar na cabeça
dele; mas tudo isso era curto.
- Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
Chegava a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um parêntesis no meio do longo
e fastidioso período da vida que levava, e essa oração intercalada trazia uma idéia original e profunda, inventada
pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal, porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui
como e porquê.
D. Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz parecia acabada, e havia mais do
que brandura, havia desvelo e carinho. Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água
fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior
inquietação e confusão. Inácio chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, coisa que jamais fizera; e o
solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo
aplauso que recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa estando calada, não o era menos
quando ria.
A agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem entender-se. Não estava bem em
parte nenhuma. Acordava de noite, pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas, muito
mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor
da casa, voltando do trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com ela no topo da
escada, olhando através das grades de pau da cancela, como tendo acudido a ver quem era.
Um domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à janela, virado para o mar, que lhe
falava a mesma linguagem obscura e nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam grandes
giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O dia estava lindíssimo. Não era só um domingo
cristão; era um imenso domingo universal.
Inácio passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três folhetos que trouxera consigo,
contos de outros tempos, comprados a tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde.
Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na véspera; estirou-se na rede, pegou em um
dos folhetos, a Princesa Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as heroínas dessas
velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D. Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora,
deixou cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois, viu sair a dama dos seus cuidados. O
natural era que se espantasse; mas não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de
todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus mesmos braços.
É certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que houvesse ali porta ou rasgão, que
estava justamente na sala da frente ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer; foi à
janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe, no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou
e foi sentar-se no canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se, foi pegar na jarra que
estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que
parece, sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente, lembrou-se que Inácio comera pouco ao
almoço e tinha o ar abatido, e advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.
Saiu da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do mocinho, cuja porta achou
escancarada. D. Severina parou, espiou, deu com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no
chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os olhos fechados, os cabelos revoltos e um
grande ar de riso e de beatitude.
D. Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de noite com ele; pode ser que ele
estivesse sonhando com ela. Desde madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma
tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três, cinco minutos, ou mais. Parece que o sono dava à
adolescência de Inácio uma expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. Uma criança! disse ela a si
mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos conosco. E esta idéia abateu-lhe o alvoroço do sangue e
dissipou-lhe em parte a turvação dos sentidos.
- Uma criança!
E mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço caído; mas, ao mesmo tempo que
o achava criança, achava-o bonito, muito mais bonito que acordado, e uma dessas idéias corrigia ou corrompia a
outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé, na saleta do engomado; foi ver, era um
gato que deitara uma tigela ao chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente. Tinha o sono
duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, dormir e talvez sonhar.
Que não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a si mesma na imaginação do
rapaz; ter-se-ia visto diante da rede, risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao peito,
cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram
lindas cálidas, principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que ele não conhecia, posto que
o entendesse. Duas três e quatro vezes a figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte, entre
gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegavalhe outra vez das mãos e cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito mais, abrochou os
lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na imaginação e fora dela. A diferença
é que a visão não recuou, e a pessoa real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e medrosa.
Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do
corredor, a ver se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois de muito tempo é que o
medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos,
nem os beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e cresceu. D. Severina não acabava de crer
que fizesse aquilo; parece que embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que ali estava
sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga, inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava
confusa, irritada, aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar fingindo que dormia apontoulhe na alma e deu-lhe um calafrio.
Mas a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se à mesa lépido. Conquanto
achasse D. Severina calada e severa e o solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a
severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do
beijo. Não reparou que D. Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na segunda-feira, e na
terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e
não o fez zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:
- Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
- Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
- Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.
Inácio saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa mudança de D. Severina, em
relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto
pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma distração que a ofendera, não era outra
coisa; e daqui a cara fechada e o xale que cobria os braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o sabor do
sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual
à daquele domingo, na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às vezes, sem saber que se
engana:
- E foi um sonho! um simples sonho!
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestígio - Ediouro - s/d
CONTO DE ESCOLA
A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma
segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a
manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant'Ana, que não era então esse parque atual,
construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e
burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei
para a escola. Aqui vai a razão.
Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que
me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho
empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e
tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me
nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou
naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.
Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro
minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim
lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de
cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na
gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele,
tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.
- Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.
Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em
reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer
logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente
estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que
conosco.
- O que é que você quer?
- Logo, respondeu ele com voz trêmula.
Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo
também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas
não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na
lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel
ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma
coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes
diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses
nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os
outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava
o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a
fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro
azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa,
que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.
- Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
- Não diga isso, murmurou ele.
Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma coisa, e pergunteilhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa
particular.
- Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
- Que é?
- Você...
- Você quê?
Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele,
desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que
começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples
curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um
pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.
Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que
me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...
- De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
- Então agora...
- Papai está olhando.
Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para
trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal
cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não
esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha
decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a
palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só
levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que
alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia,
ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou
tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.
No fim de algum tempo - dez ou doze minutos - Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
- Sabe o que tenho aqui?
- Não.
- Uma pratinha que mamãe me deu.
- Hoje?
- Não, no outro dia, quando fiz anos...
- Pratinha de verdade?
- De verdade.
Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou
dois tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração.
Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que
estava caçoando, mas ele jurou que não.
- Mas então você fica sem ela?
- Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro.
Você quer esta?
Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo
recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma
troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter
nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...
Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é
também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao
mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma
lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio
que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo
modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha
vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, - e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe
tivesse ensinado mal, - parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, - mas queria
assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou
brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita,
fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio,
grosso, azinhavrado...
Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que
lhe pingava o rapé do nariz. - Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos,
como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada,
estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...
- Tome, tome...
Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que
o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e - tanto se ilude a
vontade! - não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.
- Dê cá...
Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não
posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me
demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de
papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes
maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.
De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau.
Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar,
acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu
a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.
- Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
- Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o
que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso,
dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula
acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os
jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas
pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado
e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira,
e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa,
dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos
pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
- Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.
Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara
fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.
- Venha cá! bradou o mestre.
Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o
filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse
os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.
- Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.
- Eu...
- Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.
Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse
a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a
de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção
de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e
para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.
- Perdão, seu mestre... solucei eu.
- Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!
- Mas, seu mestre...
- Olhe que é pior!
Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar
doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe
poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas,
desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para
todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao
banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele
dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro
de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.
Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu.
Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa,
coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que
denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma coisa?
- Tu me pagas! tão duro como osso! dizia eu comigo.
Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa,
perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi;
provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei
por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.
Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não
tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da
moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a
apanhara, sem medo nem escrúpulos...
De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia
de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram
amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para
que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças.
Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...
Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto
quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por
mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia
estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também
ao som do rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os
fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças
enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles,
Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo
do tambor...
A CARTOMANTE
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma
explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por
ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da
consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora
gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim
declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria
de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam
de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois,
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e
verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que
mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda
depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos
desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como
tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total.
Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar
tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério,
contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a
estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de
sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de
Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda
velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros
eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade
do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um
emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta;
abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e
foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre
do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher
do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e
interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis.
Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na
vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de
alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o
foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou
especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era
a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele
aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e
passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável,
pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez
os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele
anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a
lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras
vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira
vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as
cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo,
fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame,
sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!
Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando
folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam
ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era
sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este
notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As
ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de
amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira
causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a
por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão
apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de
Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não
gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então
sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for
igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como
desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia
tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular.
Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se,
sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e
separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso
falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo
ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe
trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na
pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha
medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho,
lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém.
Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia
anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma
suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos,
fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já,
já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e
ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto
imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir
armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa,
vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou,
entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o
perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça,
que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à
esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto
crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de
curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das
camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E
inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao
longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a
pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando
a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do
marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A
casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou
rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a
mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a
filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a
escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada.
Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o
sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante.
Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e
mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo.
Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que
a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e
enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era
uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas
sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os
longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois
começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada
aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela;
ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A
cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da
cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e
levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas,
começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma
ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada,
é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo
despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava
acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote
largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais.
Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram
íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera
mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de
aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as
palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um
terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas,
que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes
queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: —
Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos
recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir.
Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um
abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava
silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando,
Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela
pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
VIVER
Fim dos tempos. Ahasverus, sentado em uma rocha, fita longamente o horizonte, onde passam duas águias
cruzando-se. Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.
Ahasverus. — Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem
respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa idéia! Séculos de séculos vivi, cansado,
mortificado, andando sempre, mas ei-los que acabam e vou morrer com eles. Velha natureza, adeus! Céu azul,
imenso céu for aberto para que desçam os espíritos da vida nova, terra inimiga, que me não comeste os ossos, adeus!
O errante não errará mais. Deus me perdoará, se quiser, mas a morte consola-me. Aquela montanha é áspera como
a minha dor; aquelas águias, que ali passam, devem ser famintas como o meu desespero. Morrereis também, águias
divinas? Prometeu. — Certo que os homens acabaram; a terra está nua deles.
Ahasverus. — Ouço ainda uma voz... Voz de homem? Céus implacáveis, não sou então o último? Ei-lo que se
aproxima... Quem és tu? Há em teus grandes olhos alguma cousa parecida com a luz misteriosa dos arcanjos de
Israel; não és homem...
Prometeu. — Não.
Ahasverus. — Raça divina? Prometeu. — Tu o disseste.
Ahasverus. — Não te conheço; mas que importa que te não conheça? Não és homem; posso então morrer; pois sou
o último, e fecho a porta da vida.
Prometeu. — A vida, como a antiga Tebas, tem cem portas. Fechas uma, outras se abrirão. És o último da tua espécie?
Virá outra espécie melhor, não feita do mesmo barro, mas da mesma luz. Sim, homem derradeiro, toda a plebe dos
espíritos perecerá para sempre; a flor deles é que voltará à terra para reger as coisas. Os tempos serão retificados.
O mal acabará; os ventos não espalharão mais nem os germes da morte, nem o clamor dos oprimidos, mas tão
somente a cantiga do amor perene e a bênção da universal justiça...
Ahasverus. — Que importa à espécie que vai morrer comigo toda essa delícia póstuma? Crê-me, tu que és imortal,
para os ossos que apodrecem na terra as púrpuras de Sidônia não valem nada. O que tu me contas é ainda melhor
que o sonho de Campanella. Na cidade deste havia delitos e enfermidades; a tua exclui todas as lesões morais e
físicas. O Senhor te ouça! Mas deixa-me ir morrer.
Prometeu. — Vai, vai. Que pressa tens em acabar os teus dias? Ahasverus. — A pressa de um homem que tem vivido
milheiros de anos. Sim, milheiros de anos. Homens que apenas respiraram por dezenas deles, inventaram um
sentimento de enfado, tedium vitae, que eles nunca puderam conhecer, ao menos em toda a sua implacável e vasta
realidade, porque é preciso haver calcado, como eu, todas as gerações e todas as ruínas, para experimentar esse
profundo fastio da existência.
Prometeu. — Milheiros de anos? Ahasverus. — Meu nome é Ahasverus: vivia em Jerusalém, ao tempo em que iam
crucificar Jesus Cristo. Quando ele passou pela minha porta, afrouxou ao peso do madeiro que levava aos ombros, e
eu empurrei-o, bradando-lhe que não parasse, que não descansasse, que fosse andando até à colina, onde tinha de
ser crucificado... Então uma voz anunciou-me do céu que eu andaria sempre, continuamente, até o fim dos tempos.
Tal é a minha culpa; não tive piedade para com aquele que ia morrer. Não sei mesmo como isto foi. Os fariseus
diziam que o filho de Maria vinha destruir a lei, e que era preciso matá-lo; eu, pobre ignorante, quis realçar o meu
zelo e daí a ação daquele dia. Que de vezes vi isto mesmo, depois, atravessando os tempos e as cidades! Onde quer
que o zelo penetrou numa alma subalterna, fez-se cruel ou ridículo. Foi a minha culpa irremissível.
Prometeu. — Grave culpa, em verdade, mas a pena foi benévola. Os outros homens leram da vida um capítulo, tu
leste o livro inteiro. Que sabe um capítulo de outro capítulo? Nada; mas o que os leu a todos, liga-os e conclui. Há
páginas melancólicas? Há outras joviais e felizes. À convulsão trágica precede a do riso, a vida brota da morte,
cegonhas e andorinhas trocam de clima, sem jamais abandoná-lo inteiramente; é assim que tudo se concerta e
restitui. Tu viste isso, não dez vezes, não mil vezes, mas todas as vezes; viste a magnificência da terra curando a
aflição da alma, e a alegria da alma suprindo à desolação das cousas; dança alternada da natureza, que dá a mão
esquerda a Jó e a direita a Sardanapalo.
Ahasverus. — Que sabes tu da minha vida? Nada; ignoras a vida humana.
Prometeu. — Ignoro a vida humana? Deixa-me rir! Eia, homem perpétuo, explica-te. Conta-me tudo; saíste de
Jerusalém...
Ahasverus. — Saí de Jerusalém. Comecei a peregrinação dos tempos. Ia a toda parte, qualquer que fosse a raça, o
culto ou a língua; sóis e neves, povos bárbaros e cultos, ilhas, continentes, onde quer que respirasse um homem aí
respirei eu. Nunca mais trabalhei. Trabalho é refúgio, e não tive esse refúgio. Cada manhã achava comigo a moeda
do dia... Vede; cá está a última. Ide, que já não sois precisa (atira a moeda ao longe). Não trabalhava, andava apenas,
sempre, sempre, sempre, um dia e outro dia, um ano e outro ano, e todos os anos, e todos os séculos. A eterna
justiça soube o que fez: somou a eternidade com a ociosidade. As gerações legavam-me umas às outras. As línguas
que morriam ficavam com o meu nome embutido na ossada. Com o volver dos tempos, esquecia-se tudo; os heróis
dissipavam-se em mitos, na penumbra, ao longe; e a história ia caindo aos pedaços, não lhe ficando mais que duas
ou três feições vagas e remotas. E eu via-as de um modo e de outro modo. Falaste em capítulo? Os que se foram, à
nascença dos impérios, levaram a impressão da perpetuidade deles; os que expiraram quando eles decaíam,
enterraram-se com a esperança da recomposição; mas sabes tu o que é ver as mesmas cousas, sem parar, a mesma
alternativa de prosperidade e desolação, desolação e prosperidade, eternas exéquias e eternas aleluias, auroras
sobre auroras, ocasos sobre ocasos? Prometeu. — Mas não padeceste, creio; é alguma cousa não padecer nada.
Ahasverus. — Sim, mas vi padecer os outros homens, e para o fim o espetáculo da alegria dava-me a mesma sensação
que os discursos de um doido. Fatalidades do sangue e da carne, conflitos sem fim, tudo vi passar a meus olhos, a
ponto que a noite me fez perder o gosto ao dia, e acabo não distinguindo as flores das urzes. Tudo se me confunde
na retina enfarada.
Prometeu. — Pessoalmente não te doeu nada; e eu que padeci por tempos inúmeros o efeito da cólera divina?
Ahasverus. — Tu? Prometeu. — Prometeu é o meu nome.
Ahasverus. — Tu Prometeu? Prometeu. — E qual foi o meu crime? Fiz de lodo e água os primeiros homens, e depois,
compadecido, roubei para eles o fogo do céu. Tal foi o meu crime. Júpiter, que então regia o Olimpo, condenou-me
ao mais cruel suplício. Anda, sobe comigo a este rochedo.
Ahasverus. — Contas-me uma fábula. Conheço esse sonho helênico.
Prometeu. — Velho incrédulo! Anda ver as próprias correntes que me agrilhoaram; foi uma pena excessiva para
nenhuma culpa; mas a divindade orgulhosa e terrível... Chegamos, olha, aqui estão elas...
Ahasverus. — O tempo que tudo rói não as quis então? Prometeu. — Eram de mão divina; fabricou-as Vulcano. Dois
emissários do céu vieram atar-me ao rochedo, e uma águia, como aquela que lá corta o horizonte, comia-me o fígado,
sem consumi-lo nunca. Durou isto tempos que não contei. Não, não podes imaginar este suplício...
Ahasverus. — Não me iludes? Tu Prometeu? Não foi então um sonho da imaginação antiga? Prometeu. — Olha bem
para mim, palpa estas mãos. Vê se existo.
Ahasverus. — Moisés mentiu-me. Tu Prometeu, criador dos primeiros homens? Prometeu. — Foi o meu crime.
Ahasverus. — Sim, foi o teu crime, artífice do inferno; foi o teu crime inexpiável. Aqui devias ter ficado por todos os
tempos, agrilhoado e devorado, tu, origem dos males que me afligiram. Careci de piedade, é certo; mas tu, que me
trouxeste à existência, divindade perversa, foste a causa original de tudo.
Prometeu. — A morte próxima obscurece-te a razão.
Ahasverus. — Sim, és tu mesmo, tens a fronte olímpica, forte e belo titão: és tu mesmo... São estas as cadeias? Não
vejo o sinal das tuas lágrimas.
Prometeu. — Chorei-as pela tua raça.
Ahasverus. — Ela chorou muito mais por tua culpa.
Prometeu. — Ouve, último homem, último ingrato! Ahasverus. — Para que quero eu palavras tuas? Quero os teus
gemidos, divindade perversa. Aqui estão as cadeias. Vê como as levanto nas mãos; ouve o tinir dos ferros... Quem te
desagrilhoou outrora? Prometeu. — Hércules.
Ahasverus. — Hércules... Vê se ele te presta igual serviço, agora que vais ser novamente agrilhoado.
Prometeu. — Deliras.
Ahasverus. — O céu deu-te o primeiro castigo; agora a terra vai dar-te o segundo e derradeiro. Nem Hércules poderá
mais romper estes ferros. Olha como os agito no ar, à maneira de plumas; é que eu represento a força dos desesperos
milenários. Toda a humanidade está em mim. Antes de cair no abismo, escreverei nesta pedra o epitáfio de um
mundo. Chamarei a águia, e ela virá; dir-lhe-ei que o derradeiro homem, ao partir da vida, deixa-lhe um regalo de
deuses.
Prometeu. — Pobre ignorante, que rejeitas um trono! Não, não podes mesmo rejeitá-lo.
Ahasverus. — És tu agora que deliras. Eia, prostra-te, deixa-me ligar-te os braços. Assim, bem, não resistirás mais;
arqueja para aí. Agora as pernas...
Prometeu. — Acaba, acaba. São as paixões da terra que se voltam contra mim; mas eu, que não sou homem, não
conheço a ingratidão. Não arrancarás uma letra ao teu destino, ele se cumprirá inteiro. Tu mesmo serás o novo
Hércules. Eu, que anunciei a glória do outro, anuncio a tua; e não serás menos generoso que ele.
Ahasverus. — Deliras tu? Prometeu. — A verdade ignota aos homens é o delírio de quem a anuncia. Anda, acaba.
Ahasverus. — A glória não paga nada, e extingue-se.
Prometeu. — Esta não se extinguirá. Acaba, acaba; ensina ao bico adunco da águia como me há de devorar a
entranha; mas escuta... Não, não escutes nada; não podes entender-me.
Ahasverus. — Fala, fala.
Prometeu. — O mundo passageiro não pode entender o mundo eterno; mas tu serás o elo entre ambos.
Ahasverus. — Dize tudo.
Prometeu. — Não digo nada; anda, aperta bem estes pulsos, para que eu não fuja, para que me aches aqui à tua
volta. Que te diga tudo? Já te disse que uma raça nova povoará a terra, feita dos melhores espíritos da raça extinta;
a multidão dos outros perecerá. Nobre família, lúcida e poderosa, será perfeita comunhão do divino com o humano.
Outros serão os tempos, mas entre eles e estes um elo é preciso, e esse elo és tu.
Ahasverus. — Eu? Prometeu. — Tu mesmo, tu eleito, tu, rei. Sim, Ahasverus, tu serás rei. O errante pousará. O
desprezado dos homens governará os homens.
Ahasverus. — Titão artificioso, iludes-me... Rei, eu? Prometeu. — Tu rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de
uma tradição do mundo velho, e ninguém pode falar de um a outro como tu. Assim não haverá interrupção entre as
duas humanidades. O perfeito procederá do imperfeito, e a tua boca dir-lhe-á as suas origens. Contarás aos novos
homens todo o bem e todo o mal antigo. Reviverás assim como a árvore a que cortaram as folhas secas, e conserva
tão-somente as viçosas; mas aqui o viço é eterno.
Ahasverus. — Visão luminosa! Eu mesmo? Prometeu. — Tu mesmo.
Ahasverus. — Estes olhos... estas mãos... vida nova e melhor... Visão excelsa! Titão, é justo. Justa foi a pena; mas
igualmente justa é a remissão gloriosa do meu pecado. Viverei eu? eu mesmo? Vida nova e melhor? Não, tu mofas
de mim.
Prometeu. — Bem, deixa-me, voltarás um dia, quando este imenso céu for aberto para que desçam os espíritos da
vida nova. Aqui me acharás tranqüilo. Vai.
Ahasverus. — Saudarei outra vez o sol? Prometeu. — Esse mesmo que ora vai a cair. Sol amigo, olho dos tempos,
nunca mais se fechará a tua pálpebra. Fita-o, se podes.
Ahasverus. — Não posso.
Prometeu. — Podê-lo-ás depois quando as condições da vida houverem mudado. Então a tua retina fitará o sol sem
perigo, porque no homem futuro ficará concentrado tudo o que há melhor na natureza, enérgico ou sutil, cintilante
ou puro.
Ahasverus. — Jura que me não mentes.
Prometeu. — Verás se minto.
Ahasverus. — Fala, fala mais, conta-me tudo.
Prometeu. — A descrição da vida não vale a sensação da vida; tê-la-ás prodigiosa. O seio de Abraão das tuas velhas
Escrituras não é senão esse mundo ulterior e perfeito. Lá verás David e os profetas. Lá contarás à gente estupefata
não só as grandes ações do mundo extinto, como também os males que ela não há de conhecer, lesão ou velhice,
dolo, egoísmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinável toleima e o resto. A alma terá, como a terra, uma túnica
incorruptível.
Ahasverus. — Verei ainda este imenso céu azul! Prometeu. — Olha como é belo.
Ahasverus. — Belo e sereno como a eterna justiça. Céu magnífico, melhor que as tendas de Cedar, ver-te-ei ainda e
sempre; tu recolherás os meus pensamentos, como outrora; tu me darás os dias claros e as noites amigas...
Prometeu. — Auroras sobre auroras.
Ahasverus. — Eia, fala, fala mais. Conta-me tudo. Deixa-me desatar-te estas cadeias...
Prometeu. — Desata-as, Hércules novo, homem derradeiro de um mundo, que vás ser o primeiro de outro. É o teu
destino; nem tu nem eu, ninguém poderá mudá-lo. És mais ainda que o teu Moisés. Do alto do Nebo, viu ele, prestes
a morrer, toda a terra de Jericó, que ia pertencer à sua posteridade; e o Senhor lhe disse: "Tu a viste com teus olhos,
e não passarás a ela." Tu passarás a ela, Ahasverus; tu habitarás Jericó.
Ahasverus. — Põe a mão sobre a minha cabeça, olha bem para mim; incute-me a tua realidade e a tua predição;
deixa-me sentir um pouco da vida nova e plena... Rei disseste? Prometeu. — Rei eleito de uma raça eleita.
Ahasverus. — Não é demais para resgatar o profundo desprezo em que vivi. Onde uma vida cuspiu lama, outra vida
porá uma auréola. Anda, fala mais... fala mais... (Continua sonhando. As duas águias aproximam-se.) Uma águia. —
Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.
A outra. — Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.
FIM
UM APÓLOGO
Era uma vez um agulha, que disse a um novelo de linha:
-
Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste
mundo?
-
Deixe-me, senhora.
- Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e
falarei sempre que me der na cabeça.
- Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu
ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida, e deixe a dos outros.
-
Mas você é orgulhosa.
-
Decerto que sou.
-
Mas por quê?
-
É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose senão eu?
-
Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
-
Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço no outro, dou feição aos babados...
- Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo
ao que eu faço e mando...
-
Também os batedores vão adiante do imperador.
-
Você imperador?
- Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai mostrando o caminho,
vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisso, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa
de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano,
pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas,
pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para
dar a isto um cor poética.
E dizia a agulha:
- Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se
importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e
ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava
resposta, calou-se também é foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plicplic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse
e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada
no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado
ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntoulhe:
- Ora, agora diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da
elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira,
antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou
à pobre agulha:
- Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela, e ela é que vai gozar a vida, enquanto aí ficas
na caixinha da costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia que me disse, abanando a cabeça: – Também eu tenho
servido de agulha a muita linha ordinária!
O ENFERMEIRO
Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com
a condição única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser
que oito dias, se não for menos; estou desenganado.
Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras cousas interessantes, mas para
isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à
lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida.
Adeus, meu caro senhor, leia isso e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate
muito arruda, se lhe não cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui. Não me peça
também o império de Grão-Mogol, nem a fotografia de Macabeus; peça, porém, os meus sapatos de
defunto e não os dou a ninguém mais.
Já sabe que foi em 1860. No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos fiz-me
teólogo, — quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de
colégio, que assim me dava, delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu
ele uma carta de um vigário de certa vila do interior perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta
e paciente, que quisesse ir servir de enfermeiro ao coronel Felisberto, mediante um bom ordenado. O
padre falou-me, aceitei com ambas as mãos, estava já enfarado de copiar citações latinas e fórmulas
eclesiásticas. Vim à Corte despedir-me de um irmão, e segui para a vila.
Chegando à vila, tive más notícias do coronel. Era homem insuportável, esturdio, exigente, ninguém o
aturava, nem os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dous dele quebrou a cara.
Respondi que não tinha medo de gente sã, menos ainda de doentes; e depois de entender-me com o
vigário, que me confirmou as notícias recebidas, e me recomendou mansidão e caridade, segui para a
residência do coronel.
Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por
não dizer nada; pôs em mim dous olhos de gato que observa; depois, uma espécie de riso maligno
alumiou-lhe as feições, que eram duras. Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera,
prestava para nada, dormiam muito, eram respondões e andavam ao faro das escravas; dous eram até
gatunos!
— Você é gatuno?
— Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor:
Procópio José Gomes Valongo. Valongo? Achou que não era nome de gente, propôs chamar-me tão
somente Procópio, ao que respondi que estaria para o que fosse de seu agrado. Conto-lhe esta
particularidade, não só porque me parece pintá-lo bem, como porque a minha resposta deu de mim a
melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigário, acrescentando que eu era o mais simpático
dos enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de sete dias.
No oitavo dia, entrei na vida dos meus prodecessores, uma vida de cão, não dormir, não pensar em mais
nada, recolher injúrias, e, às vezes, rir delas, com um ar de resignação e conformidade; reparei que era
um modo de lhe fazer corte. Tudo impertinências de moléstia e do temperamento. A moléstia era um
rosário delas, padecia de aneurisma, de reumatismo e de três ou quatro afecções menores. Tinha perto
de sessenta anos, e desde os cinco toda a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas era
também mau, deleitava-se com a dor e a humilhação dos outros. No fim de três meses estava farto de
lhe aturar; determinei vir embora; só esperei ocasião.
Não tardou a ocasião. Um dia, como lhe não desse a tempo uma fomentação, pegou da bengala e atiroume dous ou três golpes. Não era preciso mais; despedi-me imediatamente, e fui aprontar a mala. Ele foi
ter comigo, ao quarto, pediu-me que ficasse, que não valia a pena se zangar por uma rabugice de velho.
Instou tanto que fiquei.
— Estou na pendura, Procópio, dizia-me ele à noute; não posso viver muito tempo. Estou aqui, estou na
cova. Você há de ir ao meu enterro, Procópio; não o dispenso por nada. Há de ir, há de rezar ao pé da
minha sepultura. Se não for, acrescentou rindo, eu voltarei de noite para lhe puxar as pernas. Você crê
em almas de outro mundo, Procópio?
— Qual o quê!
— E por que é que não há de crer, seu burro? redarguiu vivamente, arregalando os olhos.
Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu-se das bengaladas, mas as injúrias ficaram as mesmas, se
não peiores. Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d'asno,
idiota, moleirão, era tudo. Nem, ao menos, havia mais gente que recolhesse uma parte desses nomes.
Não tinha parentes; tinha um sobrinho que morreu tísico, em fins de maio ou princípios de julho, em
Minas. Os amigos iam por lá às vezes aprová-lo, aplaudi-lo, e nada mais; cinco, dez minutos de visita.
Restava eu; era eu sozinho para um dicionário inteiro. Mas de um vez resolvi sair; mas, instado pelo
vigário, ia ficando.
Não só as relações iam ficando melindrosas, mas eu estava ansioso para tornar à Corte. Aos quarenta e
dous anos não é que havia de acostumar-me à reclusão constante, ao pé de um doente bravio, no interior.
Para avaliar o meu isolamento, basta saber que eu nem lia os jornais; salvo alguma notícia mais
importante que levavam ao coronel, eu nada sabia do resto do mundo. Entendi, portanto, voltar para a
Corte, na primeira ocasião, ainda que tivesse que brigar com o vigário. Bom é dizer (visto que faço uma
confissão geral) que, nada gastando e tendo guardado integralmente os ordenados, estava ansioso por
vir dissipá-los aqui.
Era provável que a ocasião aparecesse. O coronel estava peior, fez testamento, descompondo o tabelião,
quase tanto como a mim. O trato era mais duro, os breves lapsos de sossego de brandura faziam-se raros.
Já por esse tempo tinha eu perdido a escassa dose de piedade que me faziam esquecer os excessos do
doente; trazia dentro de mim um fermento de ódio e aversão. No princípio de agosto decidi
definitivamente sair; o vigário e o médico, aceitando as razões, pediram que ficasse algum tempo mais.
Concedi-lhes um mês; no fim de um mês viria embora, qualquer que fosse o estado do doente. O vigário
tratou de procurar-me substituto.
Vai ver o que aconteceu. Na noite de vinte e quatro de Agosto, o coronel teve um excesso de raiva,
atropelou-me, disse-me muito nome cru, ameaçou-me de um tiro, e acabou atirando-me um prato de
mingau, que achou frio, o prato foi cair na parede onde se fez em pedaços.
— Hás de pagá-lo, ladrão! bradou ele.
Resmungou ainda muito tempo. Às onze horas passou pelo sono. Enquanto ele dormia, saquei um livro
do bolso, um velho romance de d'Arlincourt, traduzido, que lá achei, e pus-me a lê-lo, no mesmo quarto,
a pequena distância da cama; tinha de acordá-lo à meia-noite para lhe dar o remédio. Ou fosse de
cansaço, ou do livro, antes de chegar ao final da segunda página adormeci também. Acordei aos gritos do
coronel, e levantei-me estremunhado. Ele, que parecia delirar, continuou nos mesmos gritos, a acabou
por lançar mão da moringa e arremessá-la contra mim. Não tive tempo de desviar-me; a moringa bateume na face esquerda, e tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, pus-lhe as mãos ao
pescoço, lutamos, e esganei-o .
Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à
cama, agitei-o para chamá-lo a vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala
contígua, e durante duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei,
durante esse tempo. Era um atordoamento, um delírio vago e estúpido. Parecia-me que as paredes
tinham vultos; escutava umas vozes surdas. Os gritos da vítima, antes da luta e durante a luta,
continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que me voltasse, aparecia recortado de
convulsões. Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu ouvia distintamente umas
vozes que me bradavam: assassino! assassino!
Tudo o mais estava calado. O mesmo som do relógio, lento, igual e seco, sublinhava o silêncio e a solidão.
Colava a orelha à porta do quarto na esperança de ouvir um gemido, uma palavra, uma injúria, qualquer
cousa que significasse a vida, e me restituísse a paz à consciência. Estaria pronto a apanhar das mãos do
coronel, dez, vinte, cem vezes. Mas nada, nada; tudo calado. Voltava a andar à toa, na sala, sentava-me,
punha as mãos na cabeça; arrependia-me de ter vindo.— "Maldita hora em que aceitei semelhante
cousa!" exclamava. E descompunha o padre de Niterói, o médico, o vigário, os que me arranjaram um
lugar, e os que me pediram para ficar mais algum tempo. Agarrava-me a cumplicidade dos outros homens.
Como o silêncio acabava por aterrar-me, abri uma das janelas, para escutar o som do vento, se ventasse.
Não ventava. A noite ia tranquila, as estrelas fulguravam, com a indiferença de pessoas que tiram o
chapéu a um enterro que passa, e continuam a falar de outra cousa. Encostei-me ali por algum tempo,
fitando a noite, deixando-me ir a uma recapitulação da vida, a ver se descansava da dor presente. Só
então posso dizer que pensei claramente no castigo. Achei-me com um crime às costas e vi a punição
certa. Aqui o temor complicou o remorso. Senti que os cabelos me ficavam de pé. Minutos depois, vi três
ou quatro vultos de pessoas, no terreiro espiando, com um ar de emboscada; recuei, os vultos esvaíramse no ar; era uma alucinação.
Antes do alvorecer curei a contusão da face. Só então ousei voltar ao quarto. Recuei duas vezes, mas era
preciso e entrei; ainda assim, não cheguei logo à cama. Tremiam-me as pernas, o coração batia-me;
cheguei a pensar na fuga; mas era confessar o crime, e, ao contrário, urgia fazer desaparecer os vestígios
dele. Fui até a cama; vi o cadáver, com os olhos arregalados e a boca aberta, como deixando passar a
eterna palavra dos séculos; "Caim, que fizeste de teu irmão?" Vi no pescoço o sinal das minhas unhas,
abotoei alto a camisa e cheguei ao queixo a ponta do lençol. Em seguida, chamei um escravo, disse-lhe
que o coronel amanhecera morto; mandei recado ao vigário e ao médico.
A primeira idéia foi retirar-me logo cedo, a pretexto de ter meu irmão doente, e, na verdade, recebera
carta dele, alguns dias antes, dizendo-me que se sentia mal. Mas adverti que a retirada imediata poderia
fazer despertar suspeitas, e fiquei, eu mesmo amortalhei o cadáver, com o auxílio de um preto velho e
míope. Não saia da sala mortuária; tinha medo de que descobrissem alguma cousa. Queria ver no rosto
dos outros se desconfiavam; mas não ousava fitar ninguém. Tudo me dava impaciências: os passos de
ladrão com que entravam na sala, os cochichos, as ceremônias e as rezas do vigário. Vindo a hora, fechei
o caixão, com as mãos trêmulas, tão trêmulas que uma pessoa, que reparou nelas, disse a outra com
piedade:
— Coitado do Procópio! Apesar do que padeceu, está muito sentido.
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado. Saímos à rua. A passagem da meia escuridão da
casa para a claridade da rua deu-me grande abalo; receei que fosse impossível ocultar o crime. Meti os
olhos no chão, e fui andando. Quando tudo acabou, respirei. Estava em paz com os homens. Não o estava
com a consciência, e as primeiras noites foram naturalmente de desassossego e aflição. Não é preciso
dizer que vim logo para o Rio de Janeiro, e nem que vivi aqui aterrado, embora longe do crime; não ria,
falava pouco, mal comia, tinha alucinações, pesadelos...
— Deixa lá o outro que morreu , diziam-me. Não é caso para tanta melancolia.
E eu aproveitava a ilusão, fazendo muitos elogios ao morto, chamando-lhe boa creatura, impertinente, é
verdade, mas um coração de ouro. E elogiando, convencia-me também, ao menos por alguns instantes.
Outro fenômeno interessante, e que talvez lhe possa aproveitar, é que, não sendo religioso, mandei dizer
uma missa pelo eterno descanso do coronel, na igreja do Sacramento. Não fiz convites, não disse nada a
ninguém; fui ouvi-la, sozinho, e estive de joelhos todo o tempo, persignando-me a miúdo. Dobrei a
espórtula do padre, e distribuí esmolas à porta, tudo por intenção do finado. Não queria embair os
homens; a prova é que fui só. Para completar este ponto, acrescentarei que nunca aludia ao coronel, que
não dissesse: "Deus lhe fale n'alma!" E contava dele algumas anedotas alegres, rompantes engraçados...
Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, recebi a carta do vigário, que lhe mostrei, dizendo-me que
fora achado o testamento do coronel, e que eu era o herdeiro universal. Imagine o meu pasmo. Pareceume que lia mal, fui a meu irmão, fui aos amigos; todos leram a mesma cousa. Estava escrito; eu era o
herdeiro universal do coronel. Cheguei a supor que fosse uma cilada; mas adverti logo que havia outros
meios de capturar-me, se o crime estivesse descoberto. Demais, eu conhecia a probidade do vigário, que
não se prestaria a ser instrumento. Reli a carta, cinco, dez, muitas vezes; lá estava a notícia.
— Quanto tinha ele? perguntava-me meu irmão.
— Não sei, mas era rico.
— Realmente, provou que era teu amigo.
— Era... era...
Assim por um ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a
herança. Parecia-me odioso receber um vintém de tal espólio; era peior do que fazer-me esbirro alugado.
Pensei nisso três dias, e esbarrava sempre na consideração de que a recusa podia fazer desconfiar alguma
cousa. No fim dos três dias, assentei num meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e
às escondidas. Não era só escrúpulo; era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude;
pareceu-me que ficava assim de contas saldas.
Preparei-me e segui para a vila. Em caminho, à proporção que me ia aproximando, recordava o triste
sucesso, as cercanias da vila tinham um aspecto de tragédia, e a sombra do coronel parecia-me surgir de
cada lado. A imaginação ia reproduzindo as palavras, os gestos, toda a noite horrenda do crime...
Crime ou luta? Realmente, foi uma luta em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa... Foi uma luta
desgraçada, uma fatalidade. Fixei-me nessa idéia. E balanceava os agravos, punha no ativo as pancadas,
as injúrias... Não era culpa do coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o tornava assim rabugento e até
mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O peior foi a fatalidade daquela noite... Considerei também que o
coronel não podia viver muito mais; estava por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas
semanas, ou uma; pode ser até que menos. Já não era vida, era um molambo de vida, se isto mesmo se
podia chamar ao padecer contínuo do pobre homem... E quem sabe mesmo se a luta e a morte não foram
apenas coincidentes? Podia ser, era até o mais provável; não foi outra cousa. Fixei-me também nessa
idéia...
Perto da vila apertou-se-me o coração, e quis recuar; mas dominei-me e fui. Receberam-me com
parabéns. O vigário disse-me as disposições do testamento, os legados pios, e de caminho ia louvando a
mansidão cristã e o zelo com que eu servira o coronel, que, apesar de áspero e duro, soube ser grato.
— Sem dúvida, dizia eu olhando para outra parte.
Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicação e a paciência. As primeiras necessidades do
inventário detiveram-me algum tempo na vila. Constituí advogado; as cousas correram placidamente.
Durante esse tempo, falava muita vez do coronel. Vinham contar-me cousas dele, mas sem a moderação
do padre; eu defendia-o, apontava algumas virtudes, era austero...
— Qual austero! Já morreu, acabou; mas era o diabo.
E referiam-me casos duros, ações perversas, algumas extraordinárias. Quer que lhe diga? Eu, a princípio,
ia ouvindo cheio de curiosidade; depois, entrou-me no coração um singular prazer, que eu, sinceramente
buscava expelir. E defendia o coronel, explicava-o, atribuía alguma cousa às rivalidades locais: confessava,
sim, que era um pouco violento... Um pouco? Era uma cobra assanhada, interrompia-me o barbeiro; e
todos, o coletor, o boticário, o escrivão, todos diziam a mesma cousa; e vinham outras anedotas, vinha
toda a vida do defunto. Os velhos lembravam-se das crueldades dele, em menino. E o prazer íntimo,
calado, insidioso, crescia dentro de mim, espécie de tênia moral, que por mais que a arrancasse aos
pedaços, recompunha-se logo e ia ficando.
As obrigações do inventário distraíram-me; e por outro lado a opinião da vila era tão contrária ao coronel,
que a vista dos lugares foi perdendo para mim a feição tenebrosa que a princípio achei neles. Entrando
na posse da herança, convertia-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia de
distribuí-la toda em esmolas e donativos pios não me dominou como da primeira vez; achei mesmo que
era afetação. Restringi o plano primitivo: distribuí alguma cousa aos pobres, dei à matriz da vila uns
parâmetros novos, fiz uma esmola à Santa Casa de Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dous contos. Mandei
também levantar um túmulo ao coronel, todo de mármore, obra de um napolitano, que aqui esteve em
1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai..
Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada. Penso às vezes no coronel, mas sem
os terrores dos primeiros dias. Todos os médicos a quem contei as moléstias dele, foram acordes em que
a morte era certa, e só se admiravam de ter resistido tanto tempo. Pode ser que eu, involuntariamente,
exagerasse a descrição que então lhe fiz; mas a verdade é que ele devia morrer, ainda que não fosse
aquela fatalidade...
Adeus, meu caro senhor. Se achar que estes apontamentos valem alguma cousa, pague-me também com
um túmulo de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da
montanha: "Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados."
CONTEÚDOS DE RECUPERAÇÃO
Unidade Centro
3º Ano-EM
Língua Portuguesa
Contos para leitura do Trabalho de Recuperação
Faculdade Fortium – Professor Fabrício Martins – Ead de Língua Portuguesa
A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA
Guimarães Rosa
Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Estêves. Augusto Estêves, filho do Coronel Afonsão Estêves, das
Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto — o homem — nessa noitinha de novena, num leilão de atrás da
igreja, no arraial da Virgem Nossa Senhora das Dores do Córrego do Murici.
Procissão entrou, reza acabou. E o leilão andou depressa e se extinguiu, sem graça, porque a gente direita foi saindo
embora, quase toda de uma vez.
Mas o leiloeiro ficara na barraca, comendo amêndoas de car tucho e pigarreando de rouco, bloqueado por uma
multidão encachaçada de fim de festa.
E, na primeira fila, apertadas contra o balcãozinho, bem iluminadas pelas candeias de meia-laranja, as duas
mulheres-à-toa estavam achando em tudo um espírito enorme, porque eram só duas e pois muito disputadas, todo
o mundo com elas querendo ficar.
Beleza não tinham: Angélica era preta e mais ou menos capenga, e só a outra servia. Mas, perto, encostado nela
outra, um capiau de cara romântica subia todo no sem-jeito; eles estavam se gostando, e, por isso, aquele povo
encapetado não tinha — pelo menos para o pobre namorado — nenhuma razão de existir. E a cada momento as
coisas para ele pioravam, com o pessoal aos gritos:
— Quem vai arrematar a Sariema? Anda, Tião! Bota a Sariema no leilão!...
— Bota no leilão! Bota no leilão...
A das duas raparigas que era branca e que tinha pescoço fino e pernas finas, e passou a chamar-se, imediatamente,
Sane ma — pareceu se assustar, O capiau apaixonado deixou fuchicar, de cansaço, o meio-riso que trazia pendurado.
E o leiloeiro pe dia que houvesse juízo; mas ninguém queria atender.
— Dou cinco mil-réis!
Sariema! Sariema!
E, aí, de repente, houve um deslocamento de gentes, e Nhô Augusto, alteado, peito largo, vestido de luto, pisando
pé dos outros e com os braços em tenso, angulando os cotovelos, varou a frente da massa, se encarou com a Sariema,
e pôs-lhe o dedo no queixo. Depois, com voz de meio-dia, berrou para o leiloeiro Tião:
— Cinqüenta mil-réis!...
Ficou de mãos na cintura, sem dar rosto ao povo, mas pausando para os aplausos.
Nhô Augusto! Nhô Augusto!
E insistiu fala mais forte:
Cinqüenta mil-réis, já disse! Dou-lhe uma! dou-lhe duas! Dou-lhe duas — dou-lhe três!
Mas, nisso, puxaram para trás a outra — a Angélica preta se rindo, senvergonha e dengosa — que se soverteu na
montoeira, de braço em braço, de rolo em rolo, pegada, manuseada, beliscada e cacarejante:
—Virgem Maria Puríssima! Úi, pessoal!
E só então o Tião leiloeiro achou coragem para se impor:
— Respeito, gente, que o leilão é de santo!...
— Bau-bau!
— Me desprezo! Me desprezo desse herege!... Vão coçar suas costas em parede!... Coisa de igreja tem castigo, não
é brinquedo... Deix’passar! ... Dá enxame, gente! Dá enxame!...
Alguns quiseram continuar vaia, mas o próprio Nhô Augusto abafou a arrelia:
— Sino e santo não é pagode, povo! Vou no certo... Abre, abre, deixa o Tião passar!
Então, surpresos, deram caminho, e o capiau amoroso quis ir também:
—Vamos embora, Tomázia, aproveitando a confusão... E sua voz baixava, humilde, porque para ele ela não era a
Sariema. Pôs três dedos no seu braço, e bem que ela o quis acompanhar. Mas Nhô Augusto separou-os, com uma
pranchada de mão:
—Não vai, não!
E, atrás, deram apoio os quatro guarda-costas:
—Tem areia! Tem areia! Não vai, não!
É do Nhô Augusto... Nhô Augusto leva a rapariga! — gritava o povo, por ser barato. E uma voz bem entoada cantou
de lá, por cantar:
Mariquinha é como a chuva:
boa , p’ra quem quer bem!
Ela vem sempre de graça,
só não sei quando ela vem...
Aí o povaréu aclamou, com disciplina e cadência:
— Nhô Augusto leva a Sariema! Nhô Augusto leva a Sariema!
O capiauzinho ficou mais amarelo. A Sariema começou a querer chorar. Mas Nhô Augusto, rompente, alargou no tal
três pescoções:
— Toma! Toma! E toma!... Está querendo?...
Ferveram faces.
— Que foi? Que foi?...
— Deix’eu ver!...
— Não me esbarra, filho-da-mãe!
E a agitação partiu povos, porque a maioria tinha perdido a cena, apreciando, como estavam, uma falta-delugar, que
se de ra entre um velho — “Cai n’água, barbado!” — e o sacristão, no quadrante noroeste da massa. E também no
setor sul estalara, pouco antes, um mal-entendido, de um sujeito com a correia desafivelada lept!... lept!... —, com
um outro pedindo espaço, para poder fazer sarilho com o pau.
— Que foi, hein?... Que foi?
Foi o capiauzinho apanhando, estapeado pelos quatro cacundeiros de Nhô Augusto, e empurrado para o denso do
povo, que também queria estapear.
— Viva Nhô Augusto!
—Te apessoa para cá, do meu lado! — e Nhô Augusto deu o braço à rapariga, que parou de lacrimejar.
—Vamos andando.
Passaram entre alas e aclamações dos outros, que, aí, como não havia mais mulheres, nem brigas, pegaram a
debandar ou a cantar:
Ei, compadre, chegadinho, chegou...
Ei, compadre, chega mais um bocadinho!...”
Nhô Augusto apertava o braço da Sariema, como quem não tivesse tido prazo para utilizar no capiau todos os seus
ímpetos:
— E é, hein?... A senhora dona queria ficar com aquele, hein?!
— Foi, mas agora eu gosto é de você.., O outro eu mal-e mal conheci...
Caminharam para casa. Mas para a casa do Beco do Sem Ceroula, onde só há três prédios — cada um deles com
gramofone tocando, de cornetão à janela e onde gente séria entra mas não passa.
Nisso, porém, transpunham o adro, e Nhô Augusto parou, tirando o chapéu e fazendo o em-nome-do-padre, para
saudar a porta da igreja. Mas o lugar estava bem alumiado, com lanterninhas e muita luz de azeite, pendentes dos
arcos de bambu. E Nhô Augusto olhou a mulher.
— Que é?!... Você tem perna de manuel-fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem
tempero... Capim p’ra mim, com uma sombração dessas!... Vá-se embora, frango-d’água! Some daqui!
E, empurrando a rapariga, que abriu a chorar o choro mais sentido da sua vida, Nhô Augusto desceu a ladeira sozinho
— uma ladeira que a gente tinha de descer quase correndo, por que era só cristal e pedra solta.
Lá em baixo, esbarrou com o camarada, que trazia recado de Dona Dionóra: que Nhô Augusto voltasse, ou ao menos
desse um pulo até lá— à casa dele, de verdade, na Rua de Cima, — porque ainda havia muito arranjo a ultimar para
a viagem, e ela — a mulher, a esposa — tinha uma ou duas coisas por perguntar...
Mas Nhô Augusto nem deixou o mensageiro acabar de acabar:
— Desvira, Quim, e dá o recado pelo avesso: eu lá não vou! ... Você apronta os animais, para voltar amanhã com Siá
Dionóra mais a menina, para o Morro Azul. Mas, em antes, você sobe por aqui, e vai avisar aos meus homens que
eu hoje não preciso deles, não.
E o Quim Recadeiro correu, com o recado, enquanto Nhô Augusto ia indo em busca de qualquer luz em porta aberta,
aonde houvesse assombros de homens, para entrar no meio ou desapartar.
Era fim de outubro, em ano resseco. Um cachorro soletrava, longe, um mesmo nome, sem sentido. E ia, no alto do
mato, a lentidão da lua.
Dona Dionóra, que tinha belos cabelos e olhos sérios, escutou aquela resposta, e não deu ar de seus pensamentos
ao pobre camarada Quim. Mas muitos que eles eram, a rodar por lados contrários e a atormentar-lhe a cabeça, e ela
estava cansada, pelo que, dali a pouco, teve vontade de chorar. E até a Mimita, que tinha só dez anos e já estava na
cama, sorriu para dizer:
— Eu gosto, minha mãe, de voltar para o Morro Azul...
E então Dona Dionóra enxugou os olhos e também sorriu, sem palavra para dizer. De voltar para o retiro, sem a
companhia do marido, só tinha por que se alegrar. Sentia, pelo desdeixo. Mas até era bom sair do comércio, onde
todo o mundo devia estar falando da desdita sua e do pouco-caso, que não merecia.
E ela conhecia e temia os repentes de Nhô Augusto. Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato. E,
em casa, sempre fechado em si. Nem com a menina se importava. Dela, Dionóra, gostava, às vezes; da sua boca, das
suas carnes. Só. No mais, sempre com os capangas, com mulheres perdidas, com o que houvesse de pior.
Na fazenda — no Saco-da-Embira, nas Pindaíbas, ou no retiro do Morro Azul — ele tinha outros prazeres, outras
mulheres, o jogo do truque e as caçadas. E sem efeito eram sempre as orações e promessas, com que ela o
pretendera trazer, pelo menos, até a meio caminho direito.
Fora assim desde menino, uma meninice à louca e à larga, de filho único de pai pancrácio. E ela, Dionóra, tivera
culpa, por haver contrariado e desafiado a família toda, para se casar.
Agora, com a morte do Coronel Afonsão, tudo piorara, ainda mais. Nem pensar. Mais estúrdio, estouvado e sem
regra, es tava ficando Nhô Augusto. E com dividas enormes, política do lado que perde, falta de crédito, as terras no
desmando, as fazendas escritas por paga, e tudo de fazer ânsia por diante, sem portas, como parede branca.
Dionóra amara-o três anos, dois anos dera-os às dúvidas, e o suportara os demais. Agora, porém, tinha aparecido
outro. Não, só de pôr aquilo na idéia, já sentia medo... Por si e pela filha... Um medo imenso.
Se fosse, se aceitasse de ir com o outro, Nhô Augusto era capaz de matá-la. Para isso, sim, ele prestava muito.
Matava, mesmo, como dera conta do homem da foice, pago por vingança de algum ofendido. Mas, quem sabe se
não era melhor se entregar à sina, com a proteção de Deus, se não fosse pecado... Fechar os olhos.
E o outro era diferente! Gostava dela, muito... Mais do que ele mesmo dizia, mais do que ele mesmo sabia, da
maneira de que a gente deve gostar. E tinha uma força grande, de amor calado, e uma paciência quente, cantada,
para chamar pelo seu nome: .. .Dionóra... “Dionóra, vem comigo, vem comigo e traz a menina, que ninguém não
toma vocês de mim!...” Bom... Como um sonho... Como um sono...
Dormiu.
E, assim, mal madrugadinha escassa, partiram as duas — Dona Dionóra, no cavalo de silhão, e a Mimita, mofina e
franzi na, carregada à frente da sela do camarada Quim.
Pernoitaram no Pau Alto, no sítio de um tio nervoso, que riscava a mesa com as unhas e não se cansava de
resmungar:
— Fosse eu, fosse eu... Uma filha custa sangue, filha é o que tem de mais valia...
— Sorte minha, meu tio...
— Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos... Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio-dia...
— Culpa eu tive, meu tio...
— Quem não tem, quem não teve? Culpa muita, minha filha... Mãe do Nhô Augusto morreu, com ele ainda
pequeno... Teu sogro era um leso, não era p’ra chefe de família... Pai era como que Nhô Augusto não tivesse... Um
tio era criminoso, de mais de uma morte, que vivia escondido, lá no Saco-da-Embira... Quem criou Nhô Augusto foi
a avó... Queria o menino p’ra padre... Rezar, rezar, o tempo todo, santimônia e ladainha...
De manhã, com o sol nascendo, retomaram a andadura. E, quando o sol esteve mais dono de tudo, e a poeira era
mais seca, Mimita começou a gemer, com uma dor de pontada, e pedia água. E, depois, com um sorriso tristinho,
perguntava:
— Por que é que o pai não gosta de nós, mãe?
E o Quim Recadeiro ficava a bater a cabeça, vez e vez, com muita circunspecção tola, em universal assentimento.
Mas, na passagem do brechão do Bugre, lá estava seu Ovídio Moura, que tinha sabido, decerto, dessa viagem de
regresso.
— Dionóra, você vem comigo... Ou eu saio sozinho por es se mundo, e nunca mais você há-de me ver!
Mas Dona Dionóra foi tão pronta, que ele mesmo se espantou.
— Nhô Augusto é capaz de matar a gente, seu Ovídio... Mas eu vou com o senhor, e fico, enquanto Deus nos
proteger...
Seu Ovídio pegou a menina do colo do Quim, que nada escutara ou entendera e passou a cavalgar bem atrás.
E, quando chegaram no pilão-d’água do Mendonça, onde tem uma encruzilhada, e o camarada viu que os outros iam
tomando o caminho da direita, estugou o cavalo e ainda gritou, para corrigir:
—Volta para trás, minha patroa, que o caminho por aí é outro!
Mas seu Ovídio se virou, positivo:
—Volta você, e fala com o seu patrão que Siá Dona Dionóra não quer viver mais com ele, e que ela de agora por
diante vai viver comigo, com o querer dos meus parentes todos e com a bênção de Deus!
Quim Recadeiro, no primeiro passo, ainda levou a mão ao chapéu de palha, cumprimentando:
— Pois sim, seu Ovídio... Eu dou o recado...
Ficou parado, limpando suor dos cabelos, sem se resolver. Mas, fim no fim, num achamento, se retesou nos estribos,
e gritou:
— Homem sujo!... Tomara que uma coruja ache graça na tua porta!...
Jogou fora, e cuspiu em cima. E tocou para trás, em galope doido, dando poeira ao vento. Ia dizer a Nhô Augusto
que a casa estava caindo.
Quando chega o dia da casa cair — que, com ou sem terremotos, é um dia de chegada infalível, — o dono pode estar:
de dentro, ou de fora. É melhor de fora. E é a só coisa que um qualquer-um está no poder de fazer.
Mesmo estando de dentro, mais vale todo vestido e perto da porta da rua. Mas, Nhô Augusto, não: estava deitado
na cama — o pior lugar que há para se receber uma surpresa má.
E o camarada Quim sabia disso, tanto que foi se encostando de medo que ele entrou. Tinha poeira até na boca.
Tossiu.
— Levanta e veste a roupa, meu patrão Nhô Augusto, que eu tenho uma novidade meia ruim, p ‘ra lhe contar.
E tremeu mais, porque Nhô Augusto se erguia de um pulo e num átimo se vestia. Só depois de meter na cintura o
revólver, foi que interpelou, dente em dente:
— Fala tudo!
Quim Recadeiro gaguejou suas palavras poucas, e ainda pôde acrescentar:
—....Eu podia ter arresistido, mas era negócio de honra, com sangue só p’ra o dono, e pensei que o senhor podia não
gostar...
— Fez na regra, e feito! Chama os meus homens!
Dali a pouco, porém, tornava o Quim, com nova desolação:
os bate-paus não vinham... Não queriam ficar mais com Nhô Augusto... O Major Consilva tinha ajustado, um e mais
um, os quatro, para seus capangas, pagando bem. Não vinham, mesmo. O mais merecido, o cabeça, até mandara
dizer, faltando ao respeito: — Fala com Nhô Augusto que sol de cima é dinheiro!... P’ra ele pagar o que está nos
devendo... E é mandar por portador calado, que nós não podemos escutar prosa de outro, que seu Major disse que
não quer.
— Cachorrada!... Só de pique... Onde é que eles estão?
— Indo de mudados, p’ra a chácara do Major...
— Major de borra! Só de pique, porque era inimigo do meu pai!...Vou lá!
— Mal em mim não veja, meu patrão Nhô Augusto, mas to dos no lugar estão falando que o senhor não possui mais
nada, que perdeu suas fazendas e riquezas, e que vai ficar pobre, no já-já... E estão conversando, o Major mais outros
grandes, querendo pegar o senhor à traição. Estão espalhando... — o senhor dê o perdão p’r’a minha boca que eu
só falo o que é perciso — estão dizendo que o senhor nunca respeitou filha dos outros nem mulher casada, e mais
que é que nem cobra má, que quem vê tem de matar por obrigação... Estou lhe contando p’ra mo do de o senhor
não querer facilitar. Carece de achar outros companheiros bons, p’ra o senhor não ir sozinho...
Eu, não, porque sou medroso. Eu cá pouco presto... Mas, se o senhor mandar, também vou junto.
Mas Nhô Augusto se mordia, já no meio da sua missa, vermelho e feroz. Montou e galopou, teso para trás, rei na
sela, enquanto o Quim Recadeiro ia lá dentro, caçar um gole d’água para beber. Assim.
Assim, quase qualquer um capiau outro, sem ser Augusto Estêves, naqueles dois contratempos teria percebido a
chegada do azar, da unhaca, e passaria umas rodadas sem jogar fazendo umas férias na vida: viagem, mudança, ou
qualquer coisa ensossa, para esperar o cumprimento do ditado: “Cada um tem seus seis meses...”
Mas Nhô Augusto era couro ainda por curtir, e para quem não sai, em tempo, de cima da linha, até apito de trem é
mau agouro. Demais, quando um tem que pagar o gasto, desembesta até ao fim. E, desse jeito, achou que não era
hora para ponderados pensamentos.
Nele, mal-e-mal, por debaixo da raiva, uma idéia resolveu por si: que antes de ir à Mombuca, para matar o Ovídio e
a Dionóra, precisava de cair com o Major Consilva e os capangas. Se não, se deixasse rasto por acertar, perdia a força.
E foi.
Cresceu poeira, de peneira. A estrada ficou reta, cheia de gente com cautela. Chegou à chácara do Major.
Mas nem descavalgou, sem tempo. Do tope da escada, o do no da casa foi falando alto, risonho de ruim:
—Tempo do bem-bom se acabou, cachorro de Estêves!...
O cavalo de Nhô Augusto obedeceu para diante; as ferraduras tiniram e deram fogo no lajedo; e o cavaleiro, em pé
nos es tribos, trouxe a taca no ar, querendo a figura do velho. Mas o Major piscou, apenas, e encolheu a cabeça,
porque mais não era preciso, e os capangas pulavam de cada beirada, e eram só pernas e braços.
— Frecha, povo! Desmancha!
Já os porretes caíam em cima do cavaleiro, que nem pinotes de matrinchãs na rede. Pauladas na cabeça, nos ombros,
nas coxas. Nhô Augusto desdeu o corpo e caiu. Ainda se ajoelhou em terra, querendo firmar-se nas mãos, mas isso
só lhe serviu para poder ver as caras horríveis dos seus próprios bate-paus, e, no meio deles, o capiauzinho mongo
que amava a mulher-à toa Sariema.
E Nhô Augusto fechou os olhos, de gastura, porque ele sabia que capiau de testa peluda, com o cabelo quase nos
olhos, é uma raça de homem capaz de guardar o passado em casa, em lugar fresco perto do pote, e ir buscar da rua
outras raivas pequenas, tudo para ajuntar à massa-mãe do ódio grande, até chegar o dia de tirar vingança.
Mas, aí, pachorrenta e cuspida, ressoou a voz do Major:
— Arrastem p’ra longe, para fora das minhas terras... Mar quem a ferro, depois matem.
Nhô Augusto se alteou e estendeu o braço direito, agarrando o ar com os cinco dedos:
— Cá p’ra perto, carrasco!... Só mesmo assim desse jeito, p’ra sojigar Nhô Augusto Estêves!
E, seguro por mãos e pés, torcido aos pulsos dos capangas, urrava e berrava, e estrebuchava tanto, que a roupa se
estraçalhava, e o corpo parecia querer partir-se em dois, pela metade da barriga. Desprendeu-se, por uma vez. Mas
outros dos homens desceram os porretes. Nhô Augusto ficou estendido, de- bruços, com a cara encostada no chão.
-—Traz água fria, companheiro!
O capiauzinho da testa peluda cantou, mal-entoado:
Sou como a ema,
Que tem penas e nao voa...
Os outros começaram a ficar de cócoras.
Mas, quando Nhô Augusto estremeceu e tornou a solevar a cabeça, o Major, lá da varanda, apertando muito os
olhos, para espiar, e se abanando com o chapéu, tirou ladainha:
— Não tem mais nenhum Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas, minha gente?!...
E os cacundeiros, em coro:
— Não tem não! Tem mais não!...
Puxaram e arrastaram Nhô Augusto, pelo atalho do rancho do Barranco, que ficou sendo um caminho de pragas e
judiação.
E, quando chegaram ao rancho do Barranco, ao fim de légua, o Nhô Augusto já vinha quase que só carregado, meio
nu, todo picado de faca, quebrado de pancadas e enlameado grosso, poeira com sangue.
Empurraram-no para o chão, e ele nem se moveu.
— É aqui mesmo, companheiros. Depois, é só jogar lá para baixo, p’ra nem a alma se salvar...
Os jagunços veteranos da chácara do Major Consilva acenderam seus cigarros, com descanso, mal interessados na
execução. Mas os quatro que tinham sido bate-paus de Nhô Augusto mostravam maior entusiasmo, enquanto o
capiauzinho sem testa, diligente e contente, ia ajuntar lenha para fazer fogo.
E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major — que soía ser um triângulo
inscrito numa circunferência —, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô
Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos.
— Segura!
Mas já ele alcançara a borda do barranco, e pulara no espaço. Era uma altura, O corpo rolou, lá em baixo, nas moitas,
se sumindo.
— Por onde é que a gente passa, p’ra poder ir ver se ele morreu?
Mas um dos capangas mais velhos disse melhor:
— Arma uma cruz aqui mesmo, Orósio, para de noite ele não vir puxar teus pés...
E deram as costas, regressando, sob um sol mais próximo e maior.
Mas o preto que morava na boca do brejo, quando calculou que os outros já teriam ido embora, saiu do seu esconso,
entre as taboas, e subiu aos degraus de mato do pé do barranco. Chegou-se. Encontrou vida funda no corpo tão
maltratado do homem branco; chamou a preta, mulher do preto que morava na boca do brejo, e juntos carregaram
Nhô Augusto para o casebre dos dois, que era um cofo de barro seco, sob um tufo de capim podre, mal erguido e
mal avistado, no meio das árvores, como um ninho de maranhões.
E o preto foi cortar padieiras e travessas, para um esquife, enquanto a preta procurava um coto de vela benta, para
ser posta na mão do homem, na hora do “Diga Jesus comigo, irmão”...
Mas, nessa espera, por surpresa, deu-se que Nhô Augusto pôs sua pessoa nos olhos, e gemeu:
— Me matem de uma vez, por caridade, pelas chagas de Nosso Senhor...
Depois, falou coisas sem juízo, para gente ausente, pois estava lavorando de quente e tinha mesmo de delirar.
— Deus que me perdoe, — resmungou a preta, — mas este homem deve de ser ruim feito cascavel barreada
em buraco, porque está variando que faz e acontece, e é só braveza de matar e sangrar... E ele chama por Deus, na
hora da dor forte, e Deus não atende, nem para um fôlego, assim num desamparo como eu nunca vi!
Mas o negro só disse:
— Os outros não vão vir aqui, para campear defunto, porque a pirambeira não tem descida, só dando muita volta
por longe. E, como tem um bezerro morto, na biboca, lá de cima vão pensar que os urubus vieram por causa do que
eles estão pensando...
Deitado na esteira, no meio de molambos, no canto escuro da choça de chão de terra, Nhô Augusto, dias depois,
quando voltou a ter noção das coisas, viu que tinha as pernas metidas em toscas talas de taboca e acomodadas em
regos de telhas, porque a esquerda estava partida em dois lugares, e a direita num só, mas com ferida aberta. As
moscas esvoaçavam e pousavam, e o corpo todo lhe doía, com costelas também partidas, e mais um braço, e um
sofrimento de machucaduras e cortes, e a queimadura da marca de ferro, como se o seu pobre corpo tivesse ficado
imenso.
Mesmo assim, com isso tudo, ele disse a si que era melhor viver. Bebeu mingau ralo de fubá, e a preta enrolou para
ele um cigarro de palha. Em sua procura não aparecera ninguém. Podia sarar. Podia pensar.
Mas, de tardinha, chegou a hora da tristeza; com grunhidos de porcos, ouvidos através das fendas da parede, e os
ruflos das galinhas, procurando poleiro nos galhos, e a negra, lá fora, lavando as panelas e a cantar:
As árvores do Mato Bento
deitam no chão p’ra dormir...
E havia também, quando a preta parava, as cantigas miúdas dos bichinhos mateiros e os sons dos primeiros sapos.
Esfriou o tempo, antes do anoitecer. As dores melhoraram. E, aí, Nhô Augusto se lembrou da mulher e da filha. Sem
raiva, sem sofrimento, mesmo, só com uma falta de ar enorme, sufocando. Respirava aos arrancos, e teve até medo,
porque não podia ter tento nessa desordem toda, e era como se o corpo não fosse mais seu. Até que pôde chorar,
e chorou muito, um choro solto, sem vergonha nenhuma, de menino ao abandono. E, sem saber e sem poder,
chamou alto soluçando:
— Mãe... Mãe...
O preto, que estava sentado, pondo chumbada no anzol, no pé da porta de casa, ouviu e ficou atrapalhado; chamou
a preta, que veio ligeira e se enterneceu:
— Não faz assim, seu moço, não desespera. Reza, que Deus endireita tudo... P’ra tudo Deus dá o jeito!
E a preta acendeu a candeia, e trouxe uma estampa de Nossa Senhora do Rosário, e o terço.
Agora, parado o pranto, a tristeza tomou conta de Nhô Augusto. Uma tristeza mansa, com muita saudade da mulher
e da filha, e com um dó imenso de si mesmo. Tudo perdido! O resto, ainda podia... Mas, ter a sua família, direito,
outra vez, nunca. Nem a filha... Para sempre... E era como se tivesse caído num fundo de abismo, em outro mundo
distante.
E ele teve uma vontade virgem, uma precisão de contar a sua desgraça, de repassar as misérias da sua vida.
Mas mordeu a fala e não desabafou. Também não rezou. Porém a luzinha da candeia era o pavio, a tremer, com
brilhos bonitos no poço de azei te, contando histórias da infância de Nhô Augusto, histórias mal lembradas, mas
todas de bom e bonito final. Fechou os olhos. Suas mãos, uma na outra, estavam frias. Deu-se ao cansaço. Dormiu.
E desse modo ele se doeu no enxergão, muitos meses, por que os ossos tomavam tempo para se ajuntar, e a fratura
ex posta criara bicheira. Mas os pretos cuidavam muito dele, não arrefecendo na dedicação.
— Se eu pudesse ao menos ter absolvição dos meus pecados!...
Então eles trouxeram, uma noite, muito à escondida, o padre, que o confessou e conversou com ele, muito tempo,
dando-lhe conselhos que o faziam chorar.
— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?!
—Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum...
E por aí a fora foi, com um sermão comprido, que acabou depondo o doente num desvencido torpor.
— Eu acho boa essa idéia de se mudar para longe, meu filho. Você não deve pensar mais na mulher, nem em
vinganças. Entregue para Deus, e faça penitência. Sua vida foi entortada no verde, mas não fique triste, de modo
nenhum, porque a tristeza é aboio de chamar o demônio, e o Reino do Céu, que é o que vale, ninguém tira de sua
algibeira, desde que você esteja com a graça de Deus, que ele não regateia a nenhum coração contrito!
— Fé eu tenho, fé eu peço, Padre...
—Você nunca trabalhou, não é? Pois, agora, por diante, cada dia de Deus você deve trabalhar por três, e ajudar os
outros, sempre que puder. Modere esse mau gênio: faça de conta que ele é um poldro bravo, e que você é mais
mandante do que ele... Peça a Deus assim, com esta jaculatória: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei meu
coração semelhante ao vosso. .
E, páginas adiante, o padre se portou ainda mais excelente mente, porque era mesmo uma brava criatura.
Tanto assim, que, na despedida, insistiu:
— Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa
muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria... Cada um tem a sua hora e
a sua vez: você há de ter a sua.
E, lá fora, ainda achou de ensinar à preta um enxofre e tal para o gogo dos frangos, e aconselhou o preto a pincelar
água de cal no limoeiro, e a plantar tomateiros e pés de mamão.
Meses não são dias, e a vida era aquela, no chão da choupana. Nhô Augusto comia, fumava, pensava e dormia. E
tinha peque nas esperanças: de amanhã em diante, o lado de cá vai doer menos, se Deus quiser... — E voltou a
recordar todas as rezas aprendidas na meninice, com a avó. Todas e muitas mais, mesmo as mais bobas de tanta
deformação e mistura: as que o preto engrolava, ao lavar-lhe com creolina a ferida da perna, e as que a preta
murmurava, benzendo a cuja d’água, ao lhe dar de beber.
E somente essas coisas o ocupavam, porque para ele, féria feita, a vida já se acabara, e só esperava era a salvação
da sua al ma e a misericórdia de Deus Nosso Senhor. Nunca mais seria gente! O corpo estava estragado, por dentro,
e mais ainda a idéia. E tomara um tão grande horror às suas maldades e aos seus malfeitos passados, que nem podia
se lembrar; e só mesmo rezando.
Espantava as ideias tristes, e, com o passar do tempo, tudo isso lhe foi dando uma espécie nova e mui serena de
alegria. Es teve resignado, e fazia compridos progressos na senda da conversão.
Quando ficou bom para andar, escorando-se nas muletas que o preto fabricara, já tinha os seus planos, menos maus,
cujo ponto de início consistia em ir para longe, para o sitiozinho perdido no sertão mais longínquo uma data de dez
alqueires, que ele não conhecia nem pensara jamais que teria de ver, mas que era agora a única coisa que possuía
de seu. Antes de partir, teve com o padre uma derradeira conversa, muito edificante e vasta. E, junto com o casal de
pretos samaritanos, que, ao hábito de se desvelarem, agora não o podiam deixar nem por nada, pegou chão, sem
paixão.
Largaram à noite, porque o começo da viagem teria de ser uma verdadeira escapada. E, ao sair, Nhô Augusto se
ajoelhou, no meio da estrada, abriu os braços em cruz, e jurou:
— Eu vou p’ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal!... E a minha vez há de chegar... P’ra o céu eu vou, nem que
seja a porrete!... E os negros aplaudiram, e a turminha pegou o passo, a caminho do sertão.
Foram norte a fora, na derrota dos criminosos fugidos, dormindo de dia e viajando de noite, como cativos
amocambados, de quilombo a quilombo. Para além do Bacupari, do Boqueirão, da Broa, da Vaca e da Vacaria, do
Peixe-Bravo, dos Tachos, do Tamariduá, da Serra-Fria, e de todos os muitos arraiais jazentes na reta das léguas, ao
pé dos verdes morros e dos morros de cristais brilhantes, entre as varjarias e os cordões-de-mato. E deixavam de
lado moendas e fazendas, e as estradas com cancelas, e roçarias e sítios de monjolos, e os currais do Fonseca, e a
pedra quadrada dos irmãos Trancoso; e mesmo as grandes casas velhas, sem gente mais morando, vazias como os
seus currais. E dormiam nas brenhas, ou sob as árvores de sombra das caatingas, ou em ranchos de que todos são
donos, à beira das lagoas com patos e das lagoas cobertas de mato. Atravessaram o Rio das Rãs e o Rio do Sapo. E
vieram, por picadas penhascosas e sendas de pedregulho, contra as serras azuis e as serras amarelas, sempre. L
Depois, por baixadas, com outeiros, terras mansas. E em paragens ripuárias, mas evitando a linha dos vaus, sob o
vôo das garças, — os caminhos por onde as boiadas vêm, beirando os rios.
E assim se deu que, lá no povoado do Tombador, — onde, às vezes, pouco às vezes e somente quando transviados
da boa rota, passavam uns bruaqueiros tangendo tropa, ou uns baianos corajosos migrando rumo sul, — apareceu,
um dia, um homem esquisito, que ninguém não podia entender.
Mas todos gostaram logo dele, porque era meio doido e meio santo; e compreender deixaram para depois.
Trabalhava que nem um afadigado por dinheiro, mas, no feito, não tinha nenhuma ganância e nem se importava
com acrescentes: o que vivia era querendo ajudar os outros. Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no
querer de repartir, dando de amor o que possuísse. E só pedia, pois, serviço para fazer, e pouca ou nenhuma
conversa.
O casal de pretos, que moravam junto com ele, era quem mandava e desmandava na casa, não trabalhando um nada
e vi vendo no estadão. Mas, ele, tinham-no visto mourejar até dentro da noite de Deus, quando havia luar claro.
Nos domingos, tinha o seu gosto de tomar descanso: ba tendo mato, o dia inteiro, sem sossego, sem espingarda
nenhuma e nem nenhuma arma para caçar; e, de tardinha, fazendo parte com as velhas corocas que rezavam o terço
ou os meses dos santos. Mas fugia às léguas de viola ou sanfona, ou de qualquer outra qualidade de música que
escuma tristezas no coração.
Quase sempre estava conversando sozinho, e isso também era de maluco, diziam; porque eles ignoravam que o que
fazia era apenas repetir, sempre que achava preciso, a fala final do padre:
— “Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há-de ter a sua”. — E era só.
E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira
nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.
Quem quisesse, porém, durante esse tempo, ter dó de Nhô Augusto, faria grossa bobagem, porquanto ele não tinha
tentações, nada desejava, cansava o corpo no pesado e dava rezas para a sua alma, tudo isso sem esforço nenhum,
como os cupins que levantam no pasto murundus vermelhos, ou como os tico ticos, que penam sem cessar para
levar comida ao filhote de pássaro-preto bico aberto, no alto do mamoeiro, a pedir mais.
Esta última lembrança era do povo do Tombador, já que em toda a parte os outros implicam com os que deles se
desinteressam, e que o pessoal nada sabia das alheias águas passadas, e nem que o negro e a negra eram agora pai
e mãe de Nhô Augusto.
Também, não fumava mais, não bebia, não olhava para o bom- parecer das mulheres, não falava junto em discussão.
Só o que ele não podia era se lembrar da sua vergonha; mas, ali, naquela biboca perdida, fim-de-mundo, cada dia
que descia ajudava a esquecer.
Mas, como tudo é mesmo muito pequeno, e o sertão ainda é menor, houve que passou por lá um conhecido velho
de Nhô Augusto — o Tião da Thereza — à procura de trezentas reses de uma boiada brava, que se desmanchara nos
gerais do alto Uru cuja, estourando pelos cem caminhos sem fim do chapadão.
Tião da Thereza ficou bobo de ver Nhô Augusto. E, como era casca-grossa, foi logo dando as notícias que ninguém
não tinha pedido: a mulher, Dona Dionóra, continuava amigada com seu Ovídio, muito de-bem os dois, com tenção
até em casamento de igreja, por pensarem que ela estava desimpedida de marido; com a filha, sim, é que fora uma
tristeza: crescera sã e se encorpara uma mocinha muito linda, mas tinha caído na vida, seduzida por um cometa, que
a levara do arraial, para onde não se sabia... O Major Consilva prosseguia mandando no Murici, e arrematara as duas
fazendas de Nhô Augusto... Mas o mais mal- arrumado tinha sido com o Quim, seu antigo camarada, o pobre do
Quim Recadeiro — “Se alembra?” — Pois o Quim tinha morrido de morte-matada, com mais de vinte balas no corpo,
por causa dele, Nhô Augusto: quando soube que seu patrão tinha sido assassinado, de mando do Major, não tivera
dúvida: . . .jurou desforra, beijando a garrucha, e não esperou café coado! Foi cuspir no canguçu detrás da moita, e
ficou morto, mas já dentro da sala-de-jantar do Major, e depois de matar dois capangas e ferir mais um...
— Pára, chega, Tião! ... Não quero saber de mais coisa nenhuma! Só te peço é para fazer de conta que não me viu, e
não contar p’ra ninguém, pelo amor de Deus, por amor de sua mulher, de seus filhos e de tudo o que para você tem
valor!... Não é mentira muita, porque é a mesma coisa em como se eu tivesse morrido mesmo... Não tem mais
nenhum Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas, Tião...
— Estou vendo, mesmo. Estou vendo...
E Tião da Thereza pôs, nos olhos, na voz e no meio-aberto da boca, tanto nojo e desprezo, que Nhô Augusto abaixou
o queixo; e nem adiantou repetir para si mesmo a jaculatória do coração manso e humilde: teve foi de sair, para trás
das bananeiras, onde se ajoelhou e rejurou: — P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!...
E foi bom passo que nesse dia um homem chamado Romualdo, morador à beira da cava, precisou de ajuda para tirar
uma égua do atoleiro, e Nhô Augusto teve trabalho até tarde da noite, com fogueira acesa e tocha na mão.
Mas, daí em seguida, ele não guardou mais poder para espantar a tristeza. E, com a tristeza, uma vontade doente
de fazer coisas mal-feitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarrasse, e ficasse
sem trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa
das coisas, como os outros sabiam viver.
Mas, a vergonheira atrasada? E o castigo? O padre bem que tinha falado:
— “Você, em toda sua vida, não tem feito senão pecados muito graves, e Deus mandou estes sofrimentos só para
um pecador poder ter a idéia do que o fogo do inferno é!...”
Sim, era melhor rezar mais, trabalhar mais e escorar firme, para poder alcançar o reino-do-céu. Mas o mais terrível
era que o desmazelo de alma em que se achava não lhe deixava esperança nenhuma do jeito de que o Céu podia
ser.
— Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês, mãe Quitéria, e assim tão mole, tão sem homência, será que
eu posso mesmo entrar no céu?!...
— Não fala fácil, meu filho!... Dei’stá: debaixo do angu tem molho, e atrás de morro tem morro.
— Isso sim... Cada um tem a sua vez, e a minha hora há-de chegar!...
E, enquanto isso tudo, Nhô Augusto estava no escuro e sozinho, cercado de capiaus descalços, vestidos de riscado e
seriguilha tinta, sem padre nenhum com quem falar. E essa era a conseqüência de um estouro de boiada na vastidão
do planalto, por motivo de uma picada de vespa na orelha de um marruás bravio, combinada com a existência, neste
mundo, do Tião da Thereza. E tudo foi bem assim, porque tinha de ser, já que assim foi.
Apenas, Nhô Augusto se confessou aos seus pretos tutelares, longamente, humanamente, e foi essa a primeira vez.
E, no fim, desabafou: que era demais o que estava purgando pelos seus pecados, e que Nosso Senhor se tinha
esquecido dele! ‘A mulher, feliz, morando com outro... A filha, tão nova, e já na mão de todos, rolando por este
mundo, ao deus-dará... E o Quim, o Quim Recadeiro — um rapazinho miúdo, tão no desamparo — e morrendo como
homem, por causa do patrão... um patrão de borra, que estava p’r’ali no escondido, encostado, que nem como se
tivesse virado mulher!...
— O resto é peso p’ra dia, mãe Quitéria... Mas, como é? Como é que eu vou me encontrar com o Quim lá com Deus,
com que cara?!... E eu já fui zápede, já pus fama em feira, mãe Quitéria! Na festa do Rosário, na Tapera... E um dia
em que enfrentei uns dez, fazendo todo-o-mundo correr... Desarmei e dei pancada, no Sergipão Congo, mãe
Quitéria, que era mão que desce, mesmo monstro matador!... E a briga, com a família inteira, pai, irmão, tio, da
moça que eu tirei de casa, semana em antes de se casar?!
— Vira o demônio de costas, meu filho... Faz o que o seu padre mandou!
— E é o diabo mesmo, mãe Quitéria... Eu sei... Ou então é castigo, porque eu vou me lembrar dessas coisas logo
agora, que o meu corpo não está valendo, nem que eu queira, nem p’ra brigar com homem e nem p’ra gostar de
mulher...
— Rezo o credo!
Mas Nhô Augusto, que estava de cócoras, sentou-se no chão e continuou:
—Tem horas em que fico pensando que, ao menos por honrar o Quim, que morreu por minha causa, eu tinha ordem
de fazer alguma vantagem... Mas eu tenho medo... Já sei como é que o inferno é, mãe Quitéria... Podia ir procurar a
coitadinha da minha filha, que talvez esteja sofrendo, precisando de mim... Mas eu sei que isso não é eito meu, não
é não. Tenho é de ficar pagando minhas culpas, penando aqui mesmo, no sozinho. Já fiz penitência estes anos todos,
e não posso ter prejuízo deles! Se eu quisesse esperdiçar essa penitência feita, ficava sem uma coisa e sem outra...
Sou um desgraçado, mãe Quitéria, mas o meu dia há-de chegar!... A minha vez...
E assim nesse parado Nhô Augusto foi indo muito tempo, se acostumando com os novos sofrimentos, mais meses.
Mas sempre saía para servir aos outros, quando precisavam, ajudava a carregar defuntos, visitava e assistia gente
doente, e fazia tudo com uma tristeza bondosa, a mais não ser.
Até que, pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do
fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela: com o calor dos dias
aumentando, e os dias cada vez maiores, e o joão-de-barro construindo casa nova, e as sementinhas, que
hibernavam na poeira, esperando na poeira, em misteriosas incubações. Nhô Augusto agora tinha muita fome e
muito sono. O trabalho entusiasmava e era leve. Não tinha precisão de enxotar as tristezas. Não pensava nada... E
as mariposas e os cupins-de-asas vinham voar ao redor da lamparina... Círculo rodeando a lua cheia, sem se
encostar... E começaram os cantos. Primeiro, os sapos: — “Sapo na seca coaxando, chuva beirando”, mãe Quitéria!...
— Apareceu uma jia na horta, e pererecas dentro de casa, pelas paredes... E os escorpiões e as minhocas pulavam
no terreiro, perseguidos pela correição das lava-pés, em préstitos atarefados e compridos... No céu sul, houve nuvens
maiores, mais escuras. Aí, o peixe-frito pegou a cantar de noite. A casca de lua, de bico para baixo, “despejando”...
Um vento frio, no fim do calor do dia... Na orilha do atoleiro, a saracura fêmea gritou, pedindo três potes, três potes,
três potes para apanhar água... Choveu.
Então, tudo estava mesmo muito mudado, e Nhô Augusto, de repente, pensou com a idéia muito fácil, e o corpo
muito bom. Quis se assustar, mas se riu:
— Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria! Agora eu sei que ele está se lembrando de mim...
— Louvor ao Divino, meu filho!
E, uma vez, manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia
inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta
cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava?! ... Não era pecado... Devia
ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar...
E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a pa lha, com uma pressa medonha, como se não tivesse
curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na
fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha
fina.
Não, não era pecado!... E agora rezava até muito melhor e podia esperar melhor, mais sem pressa, a hora da
libertação.
E, pois, foi aí por aí, dias depois, que aconteceu uma coisa até então jamais vista, e té hoje mui lembrada pelo povinho
do Tombador.
Vindos do norte, da fronteira velha-de-guerra, bem monta dos, bem enroupados, bem apessoados, chegaram uns
oito homens, que de longe se via que eram valentões: primeiro surgiu um, dianteiro, escoteiro, que percorreu, de
ponta a ponta, o povoado, pedindo água à porta de uma casa, pedindo pousada em outra, espiando muito para tudo
e fazendo pergunta e pergunta; depois, então, apareceram os outros, equipados com um despropósito de armas —
carabinas, novinhas quase; garruchas, de um e de dois canos; revólveres de boas marcas; facas, punhais, quicés de
cabos esculpidos; porretes e facões, — e transportando um excesso de breves nos pescoços.
O bando desfilou em formação espaçada, o chefe no meio. E o chefe — o mais forte e o mais alto de todos, com um
lenço azul enrolado no chapéu de couro, com dentes brancos limados em acume, de olhar dominador e tosse
rosnada, mas sorriso bonito e mansinho de moça — era o homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do
Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros,
de Carinhanha até Paracatu; maior do que António D ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come- brasa, o
pega-à-unha, o fecha-ti-eta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem.
O povo não se mexia, apavorado, com medo de fechar as portas, com medo de ficar na rua, com medo de falar e de
ficar calado, com medo de existir. Mas Nhô Augusto, que vinha de vir do mato, carregando um feixe de lenha para
um homem chamado Tobias da Venda, quando soube do que havia, jogou a carga no chão e correu ao encontro dos
recém-chegados.
Então o bandido Flosino Capeta, um sujeito cabeça-de-canoa, que nunca se apartava do chefe, caçoou:
— Que suplicante mais estúrdio será esse, que vem vindo ali, feito sombração?!
Mas seu Joãozinho Bem-Bem fez o cavalo avançar duas passadas, e disse:
— Não debocha, companheiro, que eu estou gostando do jeito deste homem caminhar!
E Flosino Capeta pasmou deveras, porque era a coisa mais custosa deste mundo seu Joãozinho Bem-Bem se agradar
de alguém ao primeiro olhar.
Mas Nhô Augusto, parecendo não ver os demais, veio direi to ao chefe, encarando-o firme e perguntando:
— O senhor, de sua graça, é que é mesmo o seu Joãozinho Bem-Bem, pois não é?
— P’ra lhe servir, meu senhor.
— A pois, se o senhor não se acanha de entrar em casa de pobre, eu lhe convido para passar mal e se arranchar
comigo, enquanto for o tempo de querer ficar por aqui... E de armar sua rede debaixo do meu telhado, que vai me
dar muita satisfação!
— Eu aceito sua bondade, mano velho. Agora, preciso é de ver quem é mais, desse povinho assustado, que quer
agasalhar o resto da minha gente...
— Pois eu gostava era que viessem todos juntos para o meu rancho...
— Não será abuso, mano velho?
— É não... E de coração.
— Pois então, vamos, que Deus lhe pagará!
E seu Joãozinho Bem-Bem, que, com o rabo-do-olho, não deixava de vigiar tudo em volta, virou-se, rápido, para o
Epifânio, que mexia com a winchester:
— Guarda a arma, companheiro, que eu já disse que não quero essa moda de brincar de dar tiro à toa, à toa, só por
amor de espantar os moradores do lugar!...Vamos chegando! Guia a gente, mano velho.
E aí o casal de pretos, em grande susto, teve de se afanar, num corre-corre de depenar galinhas, matar leitoa,
procurar ovos e fazer doces. E Nhô Augusto, depois de buscar ajuda para tratar dos cavalos, andou de casa em casa,
arrecadando aluá, frutas, quitandas, fumo cheiroso, muita cachaça, e tudo o mais que de fino houvesse, para os
convidados. E os seus convidados achavam imensa graça naquele homem, que se atarefava em servi-los, cheio de
atenções, quase de carinhos, com cujo motivo eles não topavam atinar. Tinham armado as redes de fibra nas árvores
do quintal, e repousavam, cada qual com o complicado arsenal bem ao alcance da mão. Então seu Joãozinho BemBem contou a Nhô Augusto: estava de passagem, com uma pequena parte do seu bando, para o sul, para o arraial
das Taquaras, na nascença do Manduri, a chamado de seu amigo Nicolau Car doso, atacado por um mandão
fazendeiro, de injustiça. E Flosino Capeta acrescentou:
— Diz’que o tal tomou reforço, com três tropas de serranos, mas é só a gente chegar lá, para não se ver ninguém
mais... Eles têm que “dar o beiço e cair o cacho”, seu moço!... Mas a gente nem pode mais ter o gosto de brigar,
porque o pessoal não aparece, no falar de entrar no meio do seu Joãozinho Bem-Bem...
Mas seu Joãozinho Bem-Bem interrompeu o outro:
— Prosa minha não carece de contar, companheiro, que to do o mundo já sabe.
Nhô Augusto passeava com os olhos, que nunca ninguém tinha visto tão grandes nem tão redondos, mostrando todo
o branco ao redor. Seu Joãozinho Bem-Bem ria um riso descansado, e os outros riam também, circundando-o,
obedientes.
— A gente não ia passar, porque eu nem sabia que aqui tinha este comercinho... Nosso caminho era outro.
Mas de uma banda do rio tinha a maleita, e da outra está reinando bexiga da brava... E falaram também numa
soldadesca, que vem lá da Diamantina... Por isso a gente deu tanta volta.
Os pretos trouxeram a janta, para o meio do pátio. Era um banquete. E quando a turma se pôs em roda, para começar
a comer, o anfitrião fez o sinal da cruz e rezou alto; e os outros o acompanharam, com o que Nhô Augusto deu
mostras de exultar.
— O senhor, que é o dono da casa, venha comer aqui perto de mim, mano velho... — pediu seu Joãozinho Bem-Bem.
— Mas, que é que o senhor está gostando tanto assim de apreciar? Ah, é o Tim?... Isso é morrinha de quartel... Ele
é reiúno...
Nhô Augusto namorava o Tim Tatu-tá-te-vendo, desertor do Exército e de três milícias estaduais, e que, por isso
mesmo e sem querer, caminhava marchando, e, para falar com alguém, se botava de sentido, em estricta posição.
— Esta guarda guerreira acompanha o senhor há muito tempo, seu Joãozinho Bem-Bem?
O chefe acertou a sujigola e tossiu, para responder:
— Alguns. É tudo gente limpa... Mocorongo eu não aceito comigo! Homem que atira de trás do toco não me serve...
Gente minha sé mata as mortes que eu mando, e morte que eu mando é sé morte legal!
— Epa, ferro!.., — exclamou Nhô Augusto, balançando o corpo. Seu Joãozinho Bem-Bem continuou:
— Povo sarado e escovado... Mas eles todos me dão trabalho... Este aqui é baiano, fala mestre... Cabeçachata é
outro, porque eles avançam antes da hora... Não é gente fácil... Nem goiano, porque não é andejo... E nem mineiro,
porque eles andam sempre com a raiva fora-de-hora, e não gostam de parar mais, quando começam a brigar... Mas,
pessoal igual ao meu, não tem!
— E o senhor também não é mineiro, seu Joãozinho Bem- Bem?
— Isso sim, que sou... Sou da beira do rio... Sei lá de onde é que eu sou?!... Mas, por me lembrar, mano velho, não
leve a mal o que eu vou lhe pedir: sua janta está de primeira, está boa até de regalo.., mas eu ando muito escandecido
e meu estômago não presta p’ra mais... Se for coisa de pouco incômodo, o que eu queria era que o senhor mandasse
aprontar para mim uma jacuba quente, com a rapadura bem preta e a farinha bem fina, e com umas folhinhas de
laranja-da-terra no meio... Será que pode?
—Já, já...Vou ver.
— Deus lhe ajude, mano velho.
Enquanto isso, os outros devoravam, com muita esganação e lambança. E, quando Nhô Augusto chegou com a
jacuba, inter pelou-o o Zeferino, que multiplicava as sílabas, com esforço, e, como tartamudo teimoso, jogava, a cada
sílaba, a cabeça para trás:
— Pois eu... eu est-t-tou m’me-espan-t-tando é de uma c’coisa, meu senhor: é de, neste jantar, com t-t-tantas c’come
rias finas, não haver d-d-duas delas, das mais principais!
— Que é que está fazendo falta, amigo?
— É o m’molho da sa-mam-baia e a so-p-p’pa da c’c’an jiquinha!
Nhô Augusto sorriu:
— Eu agaranto que, na hora da zoeira, tu no pinguelo não gagueja!
— Que nada! — apoiou seu Joãozinho Bem-Bem. — Isto é cabra macho e remacheado, que dá pulo emcruz...
Já Nhô Augusto, incansável, sem querer esperdiçar detalhe, apalpava os braços do Epifânio, mulato enorme, de
musculatura embatumada, de bicipitalidade maciça. E se voltava para o Juruminho, caboclo franzino, vivo no menor
movimento, ágil até no manejo do garfo, que em sua mão ia e vinha como agulha de coser:
— Você, compadre, está-se vendo que deve de ser um corisco de chegador!...
E o Juruminho, gostando.
— Chego até em porco-espinho e em tatarana-rata, e em homem de vinte braços, com vinte foices para sarilhar!...
Deito em ponta de chifre, durmo em ponta de faca, e amanheço em riba do meu colchão!... Está aí nosso chefe, que
diga... E mais isto aqui...
E mostrou a palma da mão direita, lanhada de cicatrizes, de pegar punhais pelo pico, para desarmar gente em
agressão.
Nhô Augusto se levantara, excitado:
— Opa! Oi-ai!... A gente botar você, mais você, de longe, com as clavinas... E você outro, aí, mais este compadre de
cara séria, p’ra voltearem... E este companheirinho chegador, para chegar na frente, e não dizer atélogo!...
E depois chover sem chuva, com o pau escrevendo e lendo, e arma-de-fogo debulhando, e homem mudo gritando,
e os do-lado-de-lá correndo e pedindo perdão!...
Mas, aí, Nhô Augusto calou, com o peito cheio; tomou um ar de acanhamento; suspirou e perguntou:
— Mais galinha, um pedaço, amigo?
— ‘Tou feito.
— E você, seu barra?
— Agradecido... ‘Tou encalcado... ‘Tou cheio até à tampa! Enquanto isso, seu Joãozinho Bem-Bem, de cabeça entorna
da, não tirava os olhos de cima de Nhô Augusto. E Nhô Augusto, depois de servir a cachaça, bebeu também, dois
goles, e pediu uma das papo-amarelo, para ver:
— Não faz conta de balas, amigo? Isto é arma que cursa longe...
— Pode gastar as óito. Experimenta naquele pássaro ali, na pitangueira...
— Deixa a criaçãozinha de Deus. Vou ver só se corto o galho... Se errar, vocês não reparem, porque faz tempo que
eu não puxo dedo em gatilho...
Fez fogo.
— Mão mandona, mano velho. Errou o primeiro, mas acertou um em dois... Ferrugem em bom ferro!
Mas, nesse tento, Nhô Augusto tornou a fazer o pelo-sinal e entrou num desânimo, que o não largou mais.
Continuou, porém, a cuidar bem dos seus hóspedes, e, como o pessoal se acomodara ali mesmo, nas redes, ao
relento, com uma fogueira acesa no meio do terreiro, ele só foi dormir tarde da noite, quando não houve mais nem
um para contar histórias de conflitos, assaltos e duelos de exterminação.
Cedinho na manhã seguinte, o grupo se despediu. Joãozinho Bem-Bem agradeceu muito o agasalho, e terminou:
— O senhor, mano velho, a modo e coisa que é assim meio diferente, mas eu estou lhe prestando atenção, este
tempo to do, e agora eu acho, pesado e pago, que o senhor é mas é pessoa boa mesmo, por ser. Nossos anjosdaguarda combinaram, e isso para mim é o sinal que serve. A pois, se precisar de alguma coisa, se tem um recado ruim
para mandar para alguém... Tiver algum inimigo alegre, por aí, é só dizer o nome e onde mora. Tem não?
Pois, ‘tá bom. Deus lhe pague suas bondades.
—Vão com Deus! Até à volta, vocês todos. ‘Té a volta, seu Joãozinho Bem-Bem!
Mas, depois de montado, o chefe ainda chamou Nhô Augusto, para dizer:
— Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está-se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando
roça e cortando lenha... Não quero especular coisa de sua vida p’ra trás, nem se está se escondendo de algum crime.
Mas, comigo é que o senhor havia de dar sorte! Quer se amadrinhar com meu povo? Quer vir junto?
— Ah, não posso! Não me tenta, que eu não posso, seu Joãozinho Bem-Bem...
— Pois então, mano velho, paciência.
— Mas nunca que eu hei de me esquecer dessa sua bizarria, meu amigo, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem!
Aí, o Juruminho, que tinha ficado mais para trás, de propósito, se curvou para Nhô Augusto e pediu, num cochicho
ligeiro, para que os outros não escutassem:
— Amigo, reza por uma irmãzinha que eu tenho, que sofre de doença com muitas dores e vive na cama entrevada,
lá no arraial do Urubu...
E o bando entrou na estrada, com o Tim Tatu-tá-te-vendo puxando uma cantiga brava, de tempo de revolução:
“O terreiro lá de casa
nao se varre com vassoura:
varre com ponta de sabre,
bala de metralhadora...”
Nhô Augusto não tirou os olhos, até que desaparecessem. E depois se esparramou em si, pensando forte.
Aqueles, sim, que estavam no bom, porque não tinham de pensar em coisa nenhuma de salvação de alma, e podiam
andar no mundo, de cabeça em-pé... Só ele, Nhô Augusto, era quem estava de todo desonrado, porque, mesmo lá,
na sua terra, se alguém se lembrava ainda do seu nome, havia de ser para arrastá-lo pela rua- da-amargura...
O convite de seu Joãozinho Bem-Bem, isso, tinha de dizer, é que era cachaça em copo grande! Ah, que vontade de
aceitar e ir também...
E o oferecimento? Era só falar! Era só bulir com a boca, que seu Joãozinho Bem-Bem, e oTim, e o Juruminho, e o
Epifânio —e todos — rebentavam com o Major Consilva, com o Ovídio, com a mulher, com todoo-mundo que tivesse
tido mão ou fala na sua desgarração. Eh, mundo velho de bambaruê e bambaruá! ... Eh, ferragem!...
E Nhô Augusto cuspiu e riu, cerrando os dentes.
Mas, qual, aí era que se perdia, mesmo, que Deus o castigava com mão mais dura...
E só então foi que ele soube de que jeito estava pegado à sua penitência, e entendeu que essa história de se navegar
com religião, e de querer tirar sua alma da boca do demônio, era a mesma coisa que entrar num brejão, que, para a
frente, para trás e para os lados, é sempre dificultoso e atola sempre mais.
Recorreu ao rompante:
— Agora que eu principiei e já andei um caminho tão grande, ninguém não me faz virar e nem andar defasto!
E, à noite, tomou um trago sem ser por regra, o que foi bem bom, porque ele já viajou, do acordado para o sono,
montado num sonho bonito, no qual havia um Deus valentão, o mais solerte de todos os valentões, assim parecido
com seu Joãozinho Bem-Bem, e que o mandava ir brigar, só para lhe experimentar a força, pois que ficava lá emcima, sem descuido, garantindo tudo. E, assim, dormiram as coisas.
Deu uma invernada brava, mas para Nhô Augusto não foi nada: passava os dias debaixo da chuva, limpando o
terreiro, sem precisão nenhuma. Depois, entestou de pôr abaixo o mato, que conduzia até à beira do córrego os
angicos de casca encoscorada e os jacarandás anosos, da primeira geração. E era cada machadada bruta, com ele
golpeando os troncos, e gritando. E os pretos, que se estavam dando muito bem com o sistema, traziam-lhe de vez
em quando um golinho, para que ele não apanhasse resfriado; e, como para chegarem até lá também se molhavam,
tomavam cuidado de se defender, igualmente, contra os seus resfriados possíveis.
E ainda outras coisas tinham acontecido, e a primeira delas era que, agora, Nhô Augusto sentia saudades de
mulheres. E a força da vida nele latejava, em ondas largas, numa tensão confortante, que era um regresso e um
ressurgimento. Assim, sim, que era bom fazer penitência, com a tentação estimulando, com o rasto no terreno
conquistado, com o perigo e tudo. Nem pensou mais em morte, nem em ir para o céu; e mesmo a lembrança de sua
desdita e reveses parou de atormentá-lo, como a fome depois de um almoço cheio. Bastava-lhe rezar e aguentar
firme, com o diabo ali perto, subjugado e apanhando de rijo, que era um prazer. E somente por hábito, quase, era
que ia repetindo:
— Cada um tem a sua hora, e há-de chegar a minha vez!
Tanto assim, que nem escolhia, para dizer isso, as horas certas, as três horas fortes do dia, em que os anjos escutam
e dizem amém...
Mas, afinal, as chuvas cessaram, e deu uma manhã em que Nhô Augusto saiu para o terreiro e desconheceu o mundo:
um sol, talqualzinho a bola de enxofre do fundo do pote, marinhava céu acima, num azul de água sem praias, com
luz jogada de um para o outro lado, e um desperdício de verdes cá embaixo — a manhã mais bonita que ele já pudera
ver.
Estava capinando, na beira do rego.
De repente, na altura, a manhã gargalhou: um bando de maitacas passava, tinindo guizos, partindo vidros,
estralejando de rir. E outro. Mais outro. E ainda outro, mais baixo, com as maitacas verdinhas, grulhantes, gralhantes,
incapazes de acertarem as vozes na disciplina de um coro.
Depois, um grupo verde-azulado, mais sóbrio de gritos e em fileiras mais juntas.
— Uai! Até as maracanãs!
E mais maitacas. E outra vez as maracanãs fanhosas. E não se acabavam mais. Quase sem folga: era uma revoada
estrilando bem por cima da gente, e outra brotando ao norte, como pontozinho preto, e outra — grão de verdura
— se sumindo no sul.
— Levou o diabo, que eu nunca pensei que tinha tantos!
E agora os periquitos, os periquitinhos de guinchos timpânicos, uma esquadrilha sobrevoando outra... E mesmo, de
vez em quando, discutindo, brigando, um casal de papagaios ciumentos. Todos tinham muita pressa: os únicos que
interromperam, por momentos, a viagem, foram os alegres tuins, os minúsculos tuins de cabecinhas amarelas, que
não levam nada a sério, e que choveram nos pés de mamão e fizeram recreio, aos pares, sem sustar o alarido — rrrlrrril!rrrl-rrril!...
Mas o que não se interrompia era o trânsito das gárrulas maitacas. Um bando grazinava alto, risonho, para o que ia
na frente: — Me espera!... Me espera!... — E o grito tremia e ficava nos ares, para o outro escalão, que avançava lá
atrás.
— Virgem! Estão todas assanhadas, pensando que já tem milho nas roças... Mas, também, como é que podia haver
um de-manhã mesmo bonito, sem as maitacas?!...
O sol ia subindo, por cima do vôo verde das aves itinerantes. , Do outro lado da cerca, passou uma rapariga.
Bonita! Todas as mulheres eram bonitas. Todo anjo do céu devia de ser mulher. E Nhô Augusto pegou a cantar a
cantiga, muito velha, do capiau exilado:
“Eu quero ver a moreninha tabaroa,
arregaçada, enchendo o pote na lagoa...
Cantou, longo tempo. Até que todas as asas saíssem do céu.
— Não passam mais... Ô papagaiada vagabunda! Já devem de estar longe daqui...
Longe, onde?
“Como corisca, como ronca a trovoada,
no meu sertão, na minha terra abençoada...”
Longe, onde?
“Quero ir namorar com as pequenas,
com as morenas do Norte de Minas...”.
Mas, ali mesmo, no sertão do Norte, Nhô Augusto estava. Longe onde, então?
Quando ele encostou a enxada e veio andando para a porta da cozinha, ainda não possuía idéia alguma do que ia
fazer. Mas, dali a pouco, nada adiantavam, para retê-lo, os rogos reunidos de mãe preta Quitéria e de pai preto
Serapião.
—Adeus, minha gente, que aqui é que mais não fico, porque a minha vez vai chegar, e eu tenho que estar por ela
em outras partes!
— Espera o fim das chuvas, meu filho! Espera a vazante...
— Não posso, mãe Quitéria. Quando coração está mandando, todo tempo é tempo!... E, se eu não voltar mais, tudo
o que era de meu fica sendo para vocês.
Rodolpho Merêncio quis emprestar-lhe um jegue.
— Que nada! Lhe agradeço o bom desejo, mas não preciso de montada, porque eu vou é mesmo a pé...
Mas, depois, aceitou, porque mãe Quitéria lhe recordou ser o jumento um animalzinho assim meio sagrado, muito
misturado às passagens da vida de Jesus.
E todos sentiram muito a sua partida. Mas ele estava madurinho de não ficar mais, e, quando chegou no sozinho,
espiou só para a frente, e logo entoou uma das letras que ouvira aos guerreiros de seu Joãozinho Bem-Bem:
“A roupa lá de casa
não se lava com sabão:
lava com ponta de sabre
e com bala de canhão...”
Cantar, só, não fazia mal, não era pecado. As estradas cantavam. E ele achava muitas coisas bonitas, e tudo era
mesmo bonito, como são todas as coisas, nos caminhos do sertão.
Parou, para espiar um buraco de tatu, escavado no barranco; para descascar um ananás selvagem, de ouro mouro,
com cheiro de presépio; para tirar mel da caixa comprida da abelha borá; para rezar perto de um pau-d’arco florido
e de um solene pau-d’óleo, que ambos conservavam, muito de-fresco, os sinais da mão de Deus. E, uma vez, teve de
se escapar, depressa, para a meia-encosta, e ficou a contemplar, do alto, o caminho, belo como um rio, reboante ao
tropel de uma boiada de duas mil cabeças, que rolava para o Itacambira, com a vaqueirama encourada — piquete
de cinco na testa, em cada talão sete ou oito, e, atrás, todo um esquadrão de ulanos morenos, cantando cantigas do
alto sertão.
E também fez, um dia, o jerico avançar atrás de um urubu reumático, que claudicava estrada a fora, um pedaço,
antes de querer voar. E bebia, aparada nas mãos, a água das frias cascatas véus-de-noivas dos morros, que caem
com tom de abundância e abandono. Pela primeira vez na sua vida, se extasiou com as pinturas do poente, com os
três coqueiros subindo da linha da montanha para se recortarem num fundo alaranjado, onde, na descida do sol,
muitas nuvens pegam fogo. E viu voar, do mulungu, vermelho, um tié ainda mais vermelho — e o tié-piranga pousou
num ramo do barbatimão sem flores, e Nhô Augusto sentiu que o barbatimão todo se alegrava, porque tinha agora
um ramo que era de mulungu.
Viajou nas paragens dos mangabeiros, que lhe davam dormida nas malocas, de tecto e paredes de palmas de buriti.
Re tornou à beira do rio, onde os barranqueiros lhe davam comi da, de pirão com pimenta e peixe. Depois, seguiu.
Uma tarde, cruzou, em pleno chapadão, com um bode amarelo e preto, preso por uma corda e puxando, na ponta
da corda, um cego, esguio e meio maluco. Parou, e o cego foi de clamando lenta e mole melopéia:
“Eu já vi um gato ler
e um grilo sentar escola,
nas asas de uma ema
jogar-se o jogo da bola,
dar louvores ao macaco.
— Eh, zoeira! ‘Tou também!.., — aplaudiu Nhô Augusto. Já o cego estendia a mão, com a sacola:
— “Estou misturando aqui o dinheirinho de todos”...
Mas mudou de projeto, enquanto Nhô Augusto caçava qual quer cobre na algibeira:
—Tem algum de-comer, aí, irmão? Dinheiro quero menos, que por aqui por estes trechos a gente custa muito a
encontrar qualquer povoado, e até as cafuas mesmo são vasqueiras...
E explicou: tinha um menino-guia, mas esse-um havia mais de um mês que escapulira; e teria roubado também o
bode, se o bode não tivesse berrado e ele não investisse de porrete. Ago ra, era aquele bicho de duas cores quem
escolhia o caminho... Sabia, sim, sabia tudo! Ótimo para guiar... Companheiro de lei, que nem gente, que nem pessoa
de sua família...
Se despediu. Achava a vida muito boa, e ia para a Bahia, de volta para o Caitité, porque quando era menino tinha
nascido lá.
— Pois eu estou indo para a banda de onde você veio... Em todo o caso, meu compadre cego por destino de Deus,
em todo o caso, dá lembrança minha a todos do povo da sua terra, toda essa gente certa, que eu não tenho ocasião
de conhecer!
E aí o jumento andou, e Nhô Augusto ainda deu um eco, para o cerrado ouvir:
— “Qualquer paixão me adiverte. . .“ Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus!...
E quando o jegue empacava — porque, como todo jumento, ele era terrível de queixo-duro, e tanto tinha de orelhas
quanto de preconceitos, — Nhô Augusto ficava em cima, mui concorde, rezando o terço, até que o jerico se decidisse
a caminhar outra vez. E também, nas encruzilhadas, deixava que o bendito as no escolhesse o caminho, bulindo com
as conchas dos ouvidos e ornejando. E bastava batesse no campo o pio de uma perdiz magoada, ou viesse do mato
a lália lamúria dos tucanos, para o jumento mudar de rota, pendendo á esquerda ou se em pescoçando para a direita;
e, por via de um gavião casaco-de- couro cruzar-lhe à frente, já ele estacava, em concentrado prazo de irresolução.
Mas, somadas as léguas e deduzidos os desvios, vinham eles sempre para o sul, na direção das maitacas viajoras.
Agora, amiudava-se o aparecimento de pessoas — mais ranchos, mais casas, povoados, fazendas; depois, arraiais,
brotando do chão. E então, de repente, estiveram a muito pouca distância do arraial do Murici.
— Não me importo! Aonde o jegue quiser me levar, nós vamos, porque estamos indo é com Deus!...
E assim entraram os dois no arraial do Rala-Coco, onde ha via, no momento, uma agitação assustada no povo.
Mas, quando responderam a Nhô Augusto: — É a jagunçada de seu Joãozinho Bem-Bem, que está descendo para a
Bahia... —ele, de alegre, não se pôde conter:
— Agora sim! Cantou p’ra mim, passarim! ... Mas, onde é que eles estão?
Estavam aboletados, bem no centro do arraial, numa casa de fazendeiro, onde seu Joãozinho Bem-Bem recebeu Nhô
Augusto, com muita satisfação.
Nhô Augusto caçoou:
— “Boi andando no pasto, p’ra lá e p’ra cá, capim que acabou ou está para acabar. .
— E isso, mano velho... Livrei meu compadre Nicolau Cardoso, bom homem... E agora vou ajuntar o resto do meu
pessoal, porque tive recado de que a política se apostemou, do lado de lá das divisas, e estou indo de rota batida
para o Pilão Arcado, que o meu amigo Franquilim de Albuquerque é capaz de precisar de mim...
Fitava Nhô Augusto com olhos alegres, e tinha no rosto um ar paternal. Mas, na testa, havia o resto de uma ruga.
— Está vendo, mano velho? Quem é que não se encontra, neste mundo?... Fico prazido, por lhe ver. E agora o senhor
é quem está em minha casa... Vai se arranchar comigo. Se abanque, mano velho, se abanque!... Arranja um café aqui
p’ra o parente, Flosino!
— Não queria empalhar... O senhor está com pouco prazo...
— Que nada, mano velho! Nós estamos de saída, mas ainda falta ajustar um devido, para não se deixar rabo para
trás... Depois lhe conto. O senhor mesmo vai ver, daqui a pouco... Come com gosto, mano velho.
Nhô Augusto mordia o pão de broa, e espiava, inocente, para ver se já vinha o café.
— Tem chá de congonha, requentado, mano velho...
— Aceito também, amigo. Estou com fome de tropeiro... Mas, qu’é de o Juruminho?
— Ah, o senhor guardou o nome, e, a pois, gostou dele, do menino... Pois foi logo com o pobre do Juruminho, que
era um dos mais melhores que eu tinha...
— Não diga...
O rosto de seu Joãozinho Bem-Bem foi ficando sombrio.
— O matador — foi à traição, — caiu no mundo, campou no pé... Mas a família vai pagar tudo, direito!
Seu Joãozinho Bem-Bem, sentado em cima da beirada da mesa, brincava com os três bentinhos do pescoço, e batia,
muito ligeiro, os calcanhares, um no outro. Nhô Augusto, parando de limpar os dentes com o dedo, lastimou:
— Coitado do Juruminho, tão destorcido e de tão bom parecer... Deixa eu rezar por alma dele...
Seu Joãozinho Bem-Bem desceu da mesa e caminhou pela sala, calado. Nhô Augusto, cabeça baixa, sempre sentado
num selim velho, dava o ar de quem estivesse com a mente muito longe.
— Escuta, mano velho...
Seu Joãozinho Bem-Bem parou em frente de Nhô Augusto, e continuou:
—....eu gostei da sua pessoa, em-desde a primeira hora, quando o senhor caminhou para mim, na rua daquele
lugarejo... Já lhe disse, da outra vez, na sua casa: o senhor não me contou coisa nenhuma de sua vida, mas eu sei
que já deve de ter sido brigador de ofício. Olha: eu, até de longe, com os olhos fechados, o senhor não me engana:
juro como não há outro homem p’ra ser mais sem medo e disposto para tudo. E só o se nhor mesmo querer...
— Sou um pobre pecador, seu Joãozinho Bem-Bem...
— Que-o-quê! Essa mania de rezar é que está lhe perdendo... O senhor não é padre nem frade, p’ra isso; é algum?...
Cantoria de igreja, dando em cabeça fraca, desgoverna qual quer valente... Bobajada!
— Bate na boca, seu Joãozinho Bem-Bem meu amigo, que Deus pode castigar!
— Não se ofenda, mano velho, deixe eu dizer: eu havia de gostar, se o senhor quisesse vir comigo, para o norte... Já
lhe falei e torno a falar: é convite como nunca fiz a outro, e o se nhor não vai se arrepender! Olha: as armas do
Juruminho estão aí, querendo dono novo...
— Deixa eu ver...
Nhô Augusto bateu a mão na winchester, do jeito com que um gato poria a pata num passarinho. Alisou coronha e
cano. E os seus dedos tremiam, porque essa estava sendo a maior das suas tentações.
Fazer parte do bando de seu Joãozinho Bem-Bem! Mas os lábios se moviam —talvez ele estivesse proferindo entre
dentes o creio-em-deus-padre — e, por fim, negou com a cabeça, muitas vezes:
— Não posso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem!... Depois de tantos anos... Fico muito agradecido, mas não posso,
não me fale nisso mais...
E ria para o chefe dos guerreiros, e também por dentro se ria, e era o riso do capiau ao passar a perna emalguém,
no fazer qualquer negócio.
— Está direito, lhe obrigar não posso... Mas, pena é...
Nisso, fizeram um estardalhaço, à entrada.
— Quem é?
— É o tal velho caduco, chefe.
— Deixa ele entrar. Vem cá, velho.
O velhote chorava e tremia, e se desacertou, frente às pessoas. Afinal, conseguiu ajoelhar-se aos pés de seu
Joãozinho Bem-Bem.
— Ai, meu senhor que manda em todos... Ai, seu Joãozinho Bem-Bem, tem pena!... Tem pena do meu povinho
miúdo... Não corta o coração de um pobre pai...
— Levanta, velho...
VO senhor é poderoso, é dono do choro dos outros... Mas a Virgem Santíssima lhe dará o pago por não pisar em
formiguinha do chão... Tem piedade de nós todos, seu Joãozinho Bem- Bem!
— Levanta, velho! Quem é que teve piedade do Juruminho, baleado por detrás?
— Ai, seu Joãozinho Bem-Bem, então lhe peço, pelo amor da senhora sua mãe, que o teve e lhe deu de mamar, eu
lhe peço que dê ordem de matarem só este velho, que não presta para mais nada... Mas que não mande judiar com
os pobrezinhos dos meus filhos e minhas filhas, que estão lá em casa sofrendo, adoecendo de medo, e que não têm
culpa nenhuma do que fez o irmão... Pelo sangue de Jesus Cristo e pelas lágrimas da Virgem Maria!...
E o velho tapou a cara com as mãos, sempre ajoelhado, curvado, soluçando e arquejando.
Seu Joãozinho Bem-Bem pigarreou, e falou:
— Lhe atender não posso, e com o senhor não quero nada, velho. É a regra... Senão, até quem é mais que havia de
querer obedecer a um homem que não vinga gente sua, morta de traição?... É a regra. Posso até livrar de sebaça, às
vezes, mas não posso perdoar isto não... Um dos dois rapazinhos seus filhos tem de morrer, de tiro ou à faca, e o
senhor pode é escolher qual deles é que deve de pagar pelo crime do irmão. E as moças... Para mim não quero
nenhuma, que mulher não me enfraquece: as mocinhas são para os meus homens...
— Perdão, para nós todos, seu Joãozinho Bem-Bem... Pelo corpo de Cristo na Sexta-feira da Paixão!
— Cala a boca, velho. Vamos logo cumprir a nossa obrigação...
Mas, aí, o velho, sem se levantar, inteiriçou-se, distendeu o busto para cima, como uma caninana enfunada, e
pareceu que ia chegar com a cara até em frente à de seu Joãozinho Bem- Bem. Hirto, cordoveias retesas, mastigando
os dentes e cuspindo baba, urrou:
— Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus p’ra ajudar a minha fraqueza no ferro da tua força maldita!
Houve um silêncio. E, aí:
— Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso
Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e
nem o diabo não faz!
Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava,
despreocupada, no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que
quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que
acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral.
— Você está caçoando com a gente, mano velho?
— Estou não. Estou pedindo como amigo, mas a conversa é no sério, meu amigo, meu parente, seu Joãozinho BemBem.
— Pois pedido nenhum desse atrevimento eu até hoje nunca que ouvi nem atendi!...
O velho engatinhou, ligeiro, para se encostar na parede. No calor da sala, uma mosca esvoaçou.
— Pois então... — e Nhô Augusto riu, como quem vai contar uma grande anedota — ...Pois então, meu amigo seu
Joãozinho Bem-Bem, é fácil... Mas tem que passar primeiro por riba de eu defunto...
Joãozinho Bem-Bem se sentia preso a Nhô Augusto por uma simpatia poderosa, e ele nesse ponto era bemassistido,
sabendo prever a viragem dos climas e conhecendo por instinto as grandes coisas. Mas Teófilo Sussuarana era
bronco excessivamente bronco, e caminhou para cima de Nhô Augusto. Na sua voz:
— Epa! Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez!...
E a casa matraqueou que nem panela de assar pipocas, escurecida à fumaça dos tiros, com os cabras saltando e
miando de maracajás, e Nhô Augusto gritando qual um demônio preso e pulando como dez demônios soltos.
— Ô gostosura de fim-de-mundo!...
E garrou a gritar as palavras feias todas e os nomes imorais que aprendera em sua farta existência, e que havia muitos
anos não proferia. E atroava, também, a voz de seu Joãozinho Bem-Bem:
— Sai, Canguçu! Foge, daí, Epifânio! Deixa nós dois brigar sozinhos!
A coronha do rifle, no pé-do--ouvido... Outro pulo... Outro tiro... Três dos cabras correram, porque outros três
estavam mor tos, ou quase, ou fingindo.
E aí o povo encheu a rua, à distância, para ver. Porque não havia mais balas, e seu Joãozinho Bem-Bem mais o Homem
do Jumento tinham rodado cá para fora da casa, só em sangue e em molambos de roupas pendentes. E eles
negaceavam e pulavam, numa dança ligeira, de sorriso na boca e de faca na mão.
— Se entregue, mano velho, que eu não quero lhe matar...
— Joga a faca fora, dá viva a Deus, e corre, seu Joãozinho Bem-Bem...
— Mano velho! Agora é que tu vai dizer: quantos palmos é que tem, do calcanhar ao cotovelo!...
— Se arrepende dos pecados, que senão vai sem contrição, e vai direitinho p’ra o inferno, meu parente seu Joãozinho
Bem-Bem!...
— Úi, estou morto...
A lâmina de Nhô Augusto talhara de baixo para cima, do púbis à boca-do-estômago, e um mundo de cobras
sangrentas saltou para o ar livre, enquanto seu Joãozinho Bem-Bem caía ajoelhado, recolhendo os seus recheios nas
mãos.
Aí, o povo quis amparar Nhô Augusto, que punha sangue por todas as partes, até do nariz e da boca, e que devia de
estar pesando demais, de tanto chumbo e bala. Mas tinha fogo nos olhos de gato-do-mato, e o busto, especado, não
vergava para o chão.
— Espera aí, minha gente, ajudem o meu parente ali, que vai morrer mais primeiro... Depois, então, eu posso me
deitar.
— Estou no quase, mano velho... Morro, mas morro na faca do homem mais maneiro de junta e de mais coragem
que eu já conheci!... Eu sempre lhe disse quem era bom mesmo, mano velho... E só assim que gente como eu tem
licença de morrer... Quero acabar sendo amigos...
— Feito, meu parente, seu Joãozinho Bem-Bem. Mas, agora, se arrepende dos pecados, e morre logo como
um cristão, que é para a gente poder ir juntos...
Mas, seu Joãozinho Bem-Bem, quando respirava, as rodilhas dos intestinos subiam e desciam. Pegou a gemer. Estava
no estorcer do fim. E, como teimava em conversar, apressou ainda mais a despedida. E foi mesmo.
Alguém gritou: — “Eh, seu Joãozinho Bem-Bem já bateu com o rabo na cerca! Não tem mais!”... — E então Nhô
Augusto se bambeou nas pernas, e deixou que o carregassem.
— P’ra dentro de casa, não, minha gente. Quero me acabar no solto, olhando o céu, e no claro... Quero é que um de
vocês chame um padre... Pede para ele vir me abençoando pelo caminho, que senão é capaz de não me achar mais...
E riu.
E o povo, enquanto isso, dizia: “Foi Deus quem mandou esse homem no jumento, por mór de salvar as famílias da
gente!. . .“ E a turba começou a querer desfeitear o cadáver de seu Joãozinho Bem-Bem, todos cantando uma cantiga
que qualquer-um estava inventando na horinha:
—Não me mata, não me mata
seu Joãozinho Bem-Bem!
Você não presta mais pra nada,
seu Joãozinho Bem-Bem!...
Nhô Augusto falou, enérgico:
— Pára com essa matinada, cambada de gente herege!... E depois enterrem bem direitinho o corpo, com muito
respeito e em chão sagrado, que esse aí é o meu parente seu Joãozinho Bem-Bem!
E o velho choroso exclamava:
— Traz meus filhos, para agradecerem a ele, para beijarem os pés dele!... Não deixem este santo morrer assim... P’ra
que foi que foram inventar arma de fogo, meu Deus?!
Mas Nhô Augusto tinha o rosto radiante, e falou:
— Perguntem quem é aí que algum dia já ouviu falar no nome de Nhô Augusto Estêves, das Pindaíbas!
—Virgem Santa! Eu logo vi que sé podia ser você, meu primo Nhô Augusto...
Era o João Lomba, conhecido velho e meio parente. Nhô Augusto riu:
— E hein, hein João?!
— P’ra ver...
Então, Augusto Matraga fechou um pouco os olhos, com sorriso intenso nos lábios lambuzados de sangue, e de seu
rosto subia um sério contentamento.
Daí, mais, olhou, procurando João Lomba, e disse, agora sussurrado, sumido:
— Põe a benção na minha filha.., seja lá onde for que ela esteja... E, Dionóra... Fala com a Dionóra que está tudo em
ordem!
Depois, morreu.

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