Ciência Veterinária nos Trópicos v. 18 nº 1

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Ciência Veterinária nos Trópicos v. 18 nº 1
Ciência Veterinária
nos Trópicos
v. 18 nº 1
janeiro-abril/2015
CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA
VETERINÁRIA DE PERNAMBUCO –
CRMV-PE
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Quadrimestral
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Edições da Revista Ciência Veterinária nos
Trópicos estão disponíveis no site
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(CFMV), Resolução nº 652, de 18 de novembro de 1998.
INDEXAÇÃO
Revista Ciência Veterinária nos Trópicos está
indexada na base de dados da Cabi Abstracts, Agris
e Agrobase.
2
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18 n 1 - janeiro/abril, 2015
Sumário
04 Informações Gerais
05 Editorial
06
REVISÃO DE LITERATURA • LITERATURE REVIEW
Nitrato na alimentação de ruminantes
mitiga a produção de metano
Nitrate in ruminant feeding mitigates methane
production
Table of Contents
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
Indigestão por manga (Mangifera indica) em
bovinos - Primeiro relato
Indigestion for mango (Mangifera indica) in bovine first report
33
RIZZO, H.; CARVALHO, J.S.; HORA, J.H.C.; RODRIGUES, F.M.;
FRAGA, G.J.M.; VILLA-LOBOS, E.M.C.
FREIRE, A.P.A.; SILVA, F.L.M.; POLIZEL, D.M.; SUSIN, I.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
12
Aspectos clínicos e histopatológicos
de cadelas com neoplasia mamária
submetidas à mastectomias
Toxic levels of zinc in mineral
salt mixtures used in beef cattle
suplementation
43
Niveis tóxicos de zinco em misturas minerais
utilizadas na suplementação de bovinos para corte
MARÇAL, W.S.; NASCIMENTO, M.R.L. MENCK, M.F.
Clinical and histopathological aspects of bitches with
breast cancer that underwent mastectomy
RÊGO, M.S.A.; FUKAHORI, F.L.P.; DIAS, M.B.M.C.; SILVA,
V.C.L.; LEITÃO, R.S.C.S.; SANTOS, F.L.; PEREIRA, M.F.; LIMA,
E.R.; ALMEIDA, E.L.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
19
Características seminais de carneiros das
raças Dorper, Santa Inês e mestiços em
condições de clima tropical
Seminal and testicular characteristics of Dorper,
Santa Inês and crossbreed rams in a semi-arid tropical
environment
MAIA, M.S.; SILVA, J.V.C.; MEDEIROS, I.M.; LIMA, C.A.C.;
MOURA, C.E.B.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
23
Ocorrência espontânea de linfoma
maligno em ovelha: Relato de caso
Spontaneous Occurrence of Malignant Lymphoma in
Sheep: Case Report
REGO, R.O.; SOUZA, J.C.A.; MENDONÇA, C.L.; SILVA, R.J.;
SILVA, N.A.A.; RIET-CORREA, F.; AFONSO, J.A.B.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
27
Efeito da suplementação de três
concentrações de taurina ao sêmen caprino
criopreservado
Effect on supplementation of three taurine’s
concentration in cryopreserved goat sperm
LIMONGI, R.; ARAÚJO SILVA, R.A.J.; BATISTA, A.M.;
GUERRA, M.M.P.; SILVA, S.V.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18 n 1 - janeiro/abril, 2015
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
Fraturas dos metacárpicos acessórios e
a incidência da desmite do suspensório
de boleto em cavalos de pólo: estudo
retrospectivo de 35 casos
47
Fractures of the accessories metacarpals bones and
incidence of desmitis of the suspensory ligament in
polo’s horses: retrospective study of 35 cases
BERNARDO, J.O.; ESCODRO, P.B.; MARIZ, T.M.A.; DIAZ,
K.A.F.; BITTAR, M.J.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
Determinação das variáveis fisiológicas
e bioquímicas de equinos Mangalarga
Marchador durante prova oficial de
marcha
52
Physiological and biochemical findings in Mangalarga
Marchador horses during official competition of
marcha
SILVA, M.C.P.; BERKMAN, C.; BADIAL, P.R.; SARMENTO,
E.C.L.B.S.; OLIVEIRA, N.G.F.; RAPHAEL, U.B.; MEDEIROS,
J.M.Q.; TEIXEIRA, L.G.
ARTIGO CIENTÍFICO • SCIENTIFIC ARTICLE
Alelo DMRT3 mutante em equinos
de marcha batida e picada das raças
Campolina e Mangalarga Marchador
58
DMRT3 mutant allele in batida and picada gaited
horses from Campolina and Mangalarga Marchador
breeds
MANSO FILHO, H.C.; COTHRAN, E.G.; JURAS, R.; GOMES
FILHO, M.A.; SILVA, N.M.V.; SILVA, G.B.; FERREIRA, L.M.C.;
ABREU, J.M.G.; MANSO, H.E.C.C.C.;
3
Informações Gerais
A
revista Ciência Veterinária nos Trópicos é editada quadrimestralmente pelo Conselho Regional de Medicina Veterinária de Pernambuco (CRMV – PE), e destina-se a divulgação de trabalhos técnico-científicos (trabalhos originais de interesse
na área de ciência veterinária e zootecnia, ainda não publicados, nem encaminhados a outra revista para o mesmo fim) e de notícias de cunho profissional, ligadas
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Ciência Veterinária nos Trópicos, v. 18, n. 1 (jan-abr 2015) – Recife:
CRMV – PE, 2015
Quadrimestral
ISSN 1415-6326
1. Veterinária – Ciência – Periódico I. Conselho
Regional de Medicina Veterinária de
Pernambuco, Recife, PE.
CDD 636.08905
4
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18 n 1 - janeiro/abril, 2015
Editorial
E
stamos iniciando o ano de 2015 com mais uma edição da revista Ciência Veterinária
nos Trópicos, e nessa oportunidade estaremos publicando 10 novos trabalhos nas
diferentes áreas da Ciência Veterinária.
O trabalho de revisão, que dá início ao novo volume, vai em direção de um dos temas
atuais associado à melhor convivência entre a criação de animais, a ecologia e o bem-estar dos
animais. Nele é abordado tema de como a suplementação com minerais pode afetar a produção
de metano nas criações de ruminantes, sem deixar de observar que o excesso de nitrato poderá
causar toxidade.
Em seguida teremos uma publicação que aborda, com detalhes, a problemática do
câncer em caninos. No caso detalha a histopatologia dos tumores de mama em cadelas após a
mastectomia. Trabalho rico em figuras e sempre atual na medicina de pequenos animais.
Ainda nesse mesmo volume há mais três publicações que relatam aspectos importantes na criação dos pequenos ruminantes. A primeira delas nós trás informações sobre as
características do sêmen de ovinos Dopper, Santa Inês e mestiços em condições tropicais. Esses
animais passaram a fazer parte dos sistema de criação no Nordeste mas ainda há poucos estudos combinados com esses grupos. O segundo, refere-se ao aos efeitos da suplementação com
taurina sobre a qualidade do sêmen congelado de caprinos, o que ainda desperta muita atenção
dos pesquisadores pois nem sempre esse tipo de processo tem obtido sucesso com o observado
nos bovinos. Finalmente, a revista apresenta uma publicação com a ocorrência de um tipo de
tumor em ovinos, o que não é um acontecimento regularmente diagnosticado devido as característica de criação desses animais. Esse trabalho estar fartamente ilustrado, facilitando bastante
a compreensão do processo.
Nas publicações com bovinos, a revista apresenta duas novas publicações. Uma demonstra como os animas podem ser acometidos de problemas nutricionais devido aos erros
do manejo. No primeiro caso há um relato de caso sobre a indigestão por consumo excessivo
de mangas, e no segundo apresenta uma detalhada discussão sobre os níveis tóxico de zinco
em produtos comerciais utilizados na suplementação com sal mineralizado para bovinos. Esse
último, em inglês, inicia a internacionalização de nossa revista.
Finalmente a revista termina com a apresentação de três trabalho que envolvem os
equinos de esporte. Em um deles os autores demonstram como os animas de marcha utilizam
os compostos energéticos durante as provas de marcha, utilizando animais com diferente idades. Em seguida outro grupo de pesquisadores descrevem a presença do gene DMRT3, que é
conhecido como “gait keeper” e responsável pela dissociação nos andamentos marchados. E
por último há uma publicação sobre a ocorrência de fraturas nos animais de pólo, esporte que
não é praticado em nosso região mas bastante desenvolvido em todo o Mundo.
Esperamos que a leitura desses temas tão atuais, sejam importantes para todo e que
contribuam para o desenvolvimento profissional e cultural de todos os leitores. Também gostaríamos de convidar a todos para que “socializem” as suas experiência e pesquisas em nossa
revista, para assim contribuir a a Ciência Veterinária nos Trópicos.
Hélio Cordeiro Manso Filho
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18 n 1 - janeiro/abril, 2015
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Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 06-12 - janeiro/abril, 2015
Nitrato na alimentação de
ruminantes mitiga a produção
de metano
Ana Paula Alves FREIRE¹*, Fernanda Lavínia Moura SILVA¹, Daniel Montanher POLIZEL¹,
Ivanete SUSIN¹
RESUMO
1
Universidade de São Paulo, Escola
Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”.
Departamento de Zootecnia - Programa
de Pós-Graduação em Ciência Animal e
Pastagens. Piracicaba, SP, Brasil.
* Autor correspondente:
[email protected]
O metano e o dióxido de carbono são subprodutos naturais da fermentação microbiana
principalmente de carboidratos e em menor extensão dos aminoácidos no rúmen e no intestino grosso dos animais. O fator primário que afeta a produção de metano pelos ruminantes
é a alimentação, pelo fato de fornecer substrato para as bactérias metanogênicas. Mudanças
na alimentação dos animais através do uso estratégico de recursos disponíveis, com uma dieta
equilibrada com base nas necessidades fisiológicas dos animais contribui com a redução da
produção de metano. O nitrato quando fornecido na dieta de ruminantes promove o uso de
íons hidrogênio para sua conversão em amônia. Alguns microrganismos são capazes de reduzir
nitrato a nitrito e então nitrito a amônia com o uso de hidrogênio, assim a metanogênese pode
ser reduzida. No entanto, o fornecimento de nitrato, em teores excessivos para ruminantes, sem
cuidados quanto à adaptação dos animais as dietas, pode levar a ocorrência de metahemoglobinemia. Para evitar a intoxicação recomenda-se que haja adaptação dos animais aos teores de
nitrato.
P A L A V R A S - C H A V E Amônia, Gases de efeito estufa, Metahemoglobina, Metano
entérico, Nitrito.
Nitrate in ruminant feeding mitigates methane production
ABSTRACT
Methane and carbon dioxide are natural products of microbial fermentation primarily
of carbohydrates and lesser extent of amino acids in rumen and intestine of the animals. The
main factor affecting methane production in ruminants is the food, due to providing substrate
for methanogenic bacteria. Changes in animal nutrition through the use of strategic resources,
with a balanced diet based on the physiological needs of animals contributes to the reduction
of methane production. Nitrate when added in ruminant diet promotes the use of hydrogen
ions for its conversion to ammonia. Some microorganisms are able to reduce nitrate to nitrite
and then nitrite to ammonia using hydrogen, and therefore methanogenesis can be reduced.
However, the supply of nitrate, without an adaptation period, in levels that exceed the ruminant capacity to use it can lead to the occurrence of methemoglobinemia. To avoid poisoning
is recommended an adaptation period of animals to the nitrate content.
KEYWORDS
Ammonia, Enteric methane, Greenhouse gases, Methemoglobin, Nitrite
INTRODUÇÃO
A atividade enzimática microbiana no rúmen resulta da hidrólise da maior parte da matéria orgânica dietética, e o metano
proveniente da digestão dos alimentos representa perda de energia para o animal e contribui para o aumento do metano presente na atmosfera. A fermentação microbiana da matéria orgânica
por microorganismos do rúmen depende de um abastecimento de
NAD+, o qual é convertido para NADH e o H2 e seus elétrons do
6
NADH são usados pelas Archaea para reduzir CO2 em metano,
permitindo que NAD+ seja regenerado para que a fermentação
possa continuar (NOLAN et al., 2010).
O fornecimento de nitrato na ração de ruminantes promove
o uso de hidrogênio competindo com a produção de metano. O
nitrato além de mitigar metano (NOLAN et al, 2010; VAN ZIJDERVELD et al., 2011; EL-ZAIAT et al., 2014; NEWBOLD
et al., 2014), fornece amônia para a síntese de proteína microbiana no rúmen (LENG, 2008). Pesquisas que utilizam aditivos
Nitrato na alimentação de ruminantes mitiga a produção de metano
alimentares, como o nitrato, sem prejudicar o desempenho proFermentação ruminal e microrganismos metanogênicos
dutivo dos animais e que ainda permitem utilizar a energia que
A maior parte do metano é produzido pela fermentação no
seria perdida com a produção de metano, são importantes para rúmen-retículo e grande parte é emitido pelas narinas e boca e
determinar melhor utilização dos nutrientes.
somente cerca de 3% do metano emitido é proveniente do reto
(MUÑOZ et al, 2012). O metano é produzido em condições
anaeróbias por microrganismos metanogênicos presentes no
EMISSÕES DE METANO
rúmen. A sua produção é modulada principalmente pela presença de dióxido de carbono e de hidrogênio livre no ambienOs principais gases responsáveis pelo efeito estufa são: a) te ruminal, onde, a partir do hidrogênio livre, ocorre a redução
o dióxido de carbono, produzido através da queima de com- do dióxido de carbono por microrganismos metanogênicos,
bustíveis fósseis e queima da biomassa; b) o metano que pode com consequente formação de metano. A fermentação de
ser produzido naturalmente em solos inundados, em lavouras equivalentes de glicose liberados a partir de polímeros de carde arroz e oriundo da fermentação ruminal e produzido arti- boidratos é um processo oxidativo sob condições anaeróbias
ficialmente ou de fontes sintéticas na produção de gás natural, que ocorre na via Embden-Meyerhof e formando co-factores
mineração de carvão, tratamento de esgoto e aterros sanitários; reduzidos como o NADH. Estes cofactores reduzidos devem
c) os clorofluorcarbonos, oriundos da atividade industrial; d) o ser re-oxidados para NAD para que a fermentação de açúcaóxido nitroso liberado após aplicação de fertilizantes nitroge- res tenha continuidade. NAD+ é regenerado por transferência
nados em áreas agrícolas (LASSEY, 2008; MILICH, 1999).
de elétrons para outros receptores de oxigênio (CO2, sulfato,
A pecuária representa uma importante fonte de liberação nitrato e fumarato) (MOSS; JOUANY; NEWBOLD, 2000). O
dos gases do efeito estufa gerando dióxido de carbono, óxido H2 é um dos principais produtos finais da fermentação por
nitroso e metano tanto de forma direta, através da fermentação protozoários, fungos e bactérias, e não há acúmulo no rúmen
ruminal nos ruminantes ou de forma indireta, através das ati- porque ele é imediatamente utilizado por outras bactérias. No
vidades, como por exemplo, na produção de rações (HRISTOV rúmen, a formação de metano é a principal via de eliminação
et al., 2013b). O metano produzido pelos ruminantes com- do hidrogênio por meio da seguinte reação: CO2 + 4H2 → CH4
preende 17% e 3,3% das emissões globais de metano e gases de + 2H2O (MOSS; JOUANY; NEWBOLD, 2000)
efeito estufa, respectivamente (KNAPP et al., 2014). O metano
O fator primário que afeta a produção de metano pelos rudo esterco tanto de ruminantes e não ruminantes contribui minantes é a alimentação, pelo fato de fornecer substrato para
de 2% das emissões globais de metano e 0,4% das emissões as bactérias metanogênicas. A conversão anaeróbia para produglobais de gases de efeito estufa (KNAPP et al., 2014). Ovinos e ção de metano no primeiro passo, ocorre a hidrólise de polímecaprinos produzem 10 a 16 kg de CH4/ano e bovinos cerca de ros orgânicos (tais como o polissacarídeos, lipídios, proteínas
60 a 160 kg de CH4/ano, dependendo do tamanho corporal e e gorduras) em monômeros orgânicos solúveis e este passo é
da ingestão de matéria seca pelo animal.
realizado por bactérias anaeróbias, tais como Bacterioides, ClosAs técnicas de mensuração da produção de metano per- tridium, e Streptococcus. O segundo passo envolve a fermentação
mitem que diversas pesquisas sejam realizadas utilizando uma anaeróbia de monômeros em H2, CO2, acetato, propionato e
diversidade de aditivos e ingredientes alimentares que atuam butirato. A terceira etapa, a metanogênese, envolve a conversobre a metanogênese nos ruminantes. Estratégias de alimen- são de acetato, H2 e CO2 em metano pelas Archaeas (LIU e
tação são importantes para que a eficiência de utilização do WHITMAN, 2008). A metanogênese é considerada uma etapa
alimento seja aumentada e ainda, que venha a contribuir com limitante, e a atividade das Archaeas é importante para a maa redução da produção de metano. No contexto global, aten- nutenção da digestão anaeróbia eficiente e evita o acúmulo de
ção especial deve ser colocada na mitigação das emissões dos H2 e ácidos graxos de cadeia curta (LIU e WHITMAN, 2008).
gases de efeito estufa. Em 2005, a Europa, a América do Norte e
As Archaeas são vulneráveis a parâmetros tais como temos países da antiga União Soviética produziram 46,3% de carne peratura, pH, e podem ser inibidas por produtos químicos
e leite de ruminantes e foram responsáveis por apenas 25,5% (LIU e WHITMAN, 2008). Os microrganismos metanogênicos
das emissões de metano. Em contraste a Ásia, África e América pertencem a um separado domínio de Archaea sobre o reino
Latina produziram quantidades semelhante (47,1%) de carne dos Euryarchaeota e encontram-se em vários outros ambientes
e leite, no entanto as emissões de metano produzido por ru- anaeróbios além do rúmen. A maioria das Archaeas no rúmen
minantes foi de 69% (O’MARA, 2011). Isso é devido aos paí- utilizam energia para o seu crescimento pela redução bioquíses em desenvolvimento, possuirem a maioria dos agricultores mica de CO2 com H2, e algumas bactérias utilizam acetato e
trabalhando em pequenos sistemas lavoura-pecuária. Nessas compostos contendo grupo metil para produzir metano (LIU
regiões a eficiência é reduzida, pois os pequenos agricultores e WHITMAN, 2008).
normalmente contam com maior número de animais de baixa
As Archaeas estão presentes no rúmen em quantidade que
produção, com baixa qualidade da alimentação e baixo poten- varia de 107 a 109 células/mL de líquido ruminal que irá decial genético.
pender do tipo da dieta fornecida ao animal, especialmente
Melhoria na alimentação dos animais através de uso estra- o conteúdo de fibra na ração (KAMRA, 2005). No rúmen, as
tégico de recursos disponíveis, com uma dieta equilibrada com Archaeas estão associadas com os protozoários (LANGE; WESbase nas necessidades fisiológicas dos animais contribui com a TERMANN; AHRING, 2005), portanto, qualquer aditivo que
redução da produção de metano.
reduz a população de protozoários irá inibir a produção de
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 06-12 - janeiro/abril, 2015
7
Ana Paula Alves Freire et al.
metano. As Archaeas também interagem com outros microrO modo de ação depende do aditivo, mas pode incluir
ganismos ruminais em uma competição pelo uso do hidrogê- inibição direta da metanogênese, supressão de protozoários
nio para produzir metano e outros produtos finais na fermen- ciliados, fornecer ou estimular um caminho competitivo para
tação ruminal.
eliminação de H2 (KANAPP et al., 2014). Quando as Archaeas
são reduzidas ou eliminadas, uma outra rota deve existir para
eliminação de hidrogênio, ou as concentrações de hidrogênio
ESTRATÉGIAS ALIMENTARES PARA REDUÇÃO DA no rúmen aumentará e potencialmente inibe a fermentação.
PRODUÇÃO DE METANO
Segundo Brown et al. (2011), idealmente este dissipador de hidrogênio alternativo resultaria na produção de um composto
Há várias estratégias estudadas para redução do metano e que pode ser absorvido e metabolizado pelo animal de modo
elas podem ser classificados em três grandes categorias: a pri- que a energia não seja perdida.
meira é o manejo alimentar, pelo fornecimento de alimentos
Nitrato na alimentação de ruminantes
de boa qualidade e aumento da produtividade animal e eficiênSob certas condições, uma grande variedade de plantas pocia alimentar. Alguns alimentos podem aumentar ou diminuir dem acumular quantidades de nitrato. Além disso, certas ervas
a produção de propionato, diminuindo H2 que seria converti- daninhas que normalmente habitam pastagens ou lavouras tamdo a metano; a segunda são os modificadores ruminais, pela bém pode acumular nitratos. No entanto, grãos de cereais e conadição de substâncias específicas que direta ou indiretamente centrados proteicos raramente contêm concentrações de nitrato
inibem as bactérias metanogênicas; a terceira é o aumento da apreciáveis. O nitrato não é distribuído uniformemente em planprodução animal através da genética e outras abordagens de tas, por exemplo, onde os teores são normalmente mais elevados
gestão, com a melhoria de utilização de nutrientes para fins em hastes, menor em folhas e extremamente baixo em sementes
produtivos, aumentando a eficiência alimentar e diminuindo (LENG, 2008). Nos animais em pastejo sob condições normais,
a produção de metano por unidade de produto, seja carne ou as concentrações de nitrato são baixas e não são significativas
leite (KNAPP et al., 2014).
no que diz respeito à quantidade de nitrogênio necessário para a
Devido à má qualidade de algumas pastagens, o manejo fermentação microbiana eficiente no rúmen. É apenas sob condido pastejo pode não ser uma opção viável para melhorar a nu- ções especiais que o nitrato é elevado o suficiente para estar perto
trição animal em muitas regiões, e a melhoria da produtivida- das exigências do nitrogênio ruminal (LENG, 2008). Além do
de deve vir pelo fornecimento de forragens conservadas ou ali- nitrato naturalmente encontrado nas pastagens, é possível fornementos concentrados. O crescimento da produção de grãos de cê-lo como ingrediente nas rações de ruminantes como uma fonte
cereais geralmente acompanhou o crescimento da população de nitrogênio não-proteico.
mundial (HRISTOV et al., 2013a), no entanto é questionável se
As bactérias ficam aderidas ao epitélio ruminal e liberam
grande quantidade de grãos estarão disponíveis para a alimen- enzimas nitrato redutase e nitrito redutase que são produzidas
tação dos animais ruminantes. Aumentar a inclusão de grãos somente quando há presença de substrato, o nitrato é reduzido a
nas rações dos ruminantes pode ser economicamente viável nitrito e posteriormente a amônia (KOZLOSKI, 2009). Stephenpara aumentar a produção de leite e, particularmente, a produ- son e Whetham (1925) mostraram que Echerichia coli reduz o
ção de carne e, assim, reduzir o impacto ambiental da pecuária, nitrato a nitrito na presença de doadores de hidrogênio, como lacporém, é questionável a longo prazo (HRISTOV et al., 2013b). tato, glicerol, ácido succínico ou ácido málico. Adicionalmente,
Manipulando a composição nutricional da alimentação segundo Woods (1938), a Escherichia coli e Clostridium welchii
de ruminantes pode-se alterar a produção de metano, pois a foram capazes, na presença de hidrogênio, de reduzir o nitrato a
composição e a qualidade dos alimentos interferem na fer- amônia quantitativamente. Em experimento in vitro, o pH ótimo
mentação e nos produtos da fermentação ruminal. Segundo para redução do nitrato e nitrito são 6,2 e 5,6, respectivamente e
Johnson e Johnson (1995), a produção de metano é influen- na presença de hidrogênio o nitrato é reduzido a amônia com o
ciada pelo nível de ingestão de ração, o tipo de carboidrato da consumo de hidrogênio, de acordo com a equação: KNO3 + 4H2
dieta e a alteração da microflora ruminal. Desta maneira, estra-  NH3 + 2H2O + KOH (LEWIS, 1951a). O nitrato é um inibidor
tégias alimentares que reduzam as emissões de metano podem da metanogênese ruminal, no entanto, é preciso ter cuidado quantrazer benefícios não somente ao meio ambiente, mas também to aos riscos de toxicidade por nitrito.
ao próprio ruminante. Para reduzir a produção de metano peO fornecimento de nitrato, em teores excessivos para rumilos ruminantes alguns aditivos estão sendo estudados e utili- nantes sem cuidados quanto à adaptação dos animais as dietas
zados, como os ionóforos; lipídeos; os receptores de elétrons, podem levar a ocorrência de metahemoglobinemia. A metahemopor exemplo o nitrato; componentes secundários de plan- globinemia é uma condição causada pela oxidação do ferro férritas, como taninos condensados, saponinas e óleos essenciais co da hemoglobina, tornando a molécula incapaz de transportar
(ODONGO et al., 2007; GRAINGER et al., 2010; TAN et al., oxigênio, ocorrendo assim anóxia celular (VAN ZIJDERVELD
2011; MOHAMMED et al., 2011; JORDAN et al., 2006; VAN et al., 2011). Isso se deve ao nitrato ser reduzido pelas bactérias
ZIJDERVELD et al., 2011; EL-ZAIAT et al., 2014; NEWBOLD ruminais a nitrito, que ao ser absorvido, oxida o íon ferro da heet al., 2014). Além disso, estratégias também são utilizadas, tais moglobina no sangue que se transforma em metahemoglobina
como a defaunação; a inclusão de concentrado na ração dos (LEWIS, 1951b). Segundo Hubert e Voordouw (2007) a adição
ruminantes e alteração do processamento de rações (HALES, de sulfato à dieta contendo nitrato atua como doador de elétrons
COLE e MCDONALD, 2012).
na redução de nitrito à amônia, evitando a formação de metahe-
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 06-12 - janeiro/abril, 2015
Nitrato na alimentação de ruminantes mitiga a produção de metano
moglobina. Além disso, é importante também o fornecimento
gradativo dos teores de nitrato aos animais, para que possibilite
adaptação da microbiota ruminal e assim tenha capacidade de
reduzir nitrato a amônia.
A utilização de nitrato tem mostrado benefícios quanto a redução do metano produzido pelos ruminantes, e, além disso, é
uma fonte de nitrogênio não protéico para a microbiota ruminal.
Nolan et al. (2010) estudaram ovinos da raça Merino alimentados
com feno de chaffed oaten e uma fonte de nitrogênio não-proteico (5,54 g de ureia por kg de feno ou 4% de KNO3). Os autores
registraram que os animais alimentados com KNO3 tiveram aumento dos ácidos graxos de cadeia curta no rúmen, principalmente acetato. A produção de metano (L/kg matéria seca consumida)
nesses animais foi 23% menor na dieta com KNO3. Os autores
constataram que a redução da produção de metano duas horas
após a alimentação não permaneceu. Assim, talvez uma forma de
liberação lenta do nitrato pode melhorar a mitigação de metano e
reduzir o nitrato e o nitrito absorvido pelo rúmen e assim reduzir
o risco de toxicidade. Corroborando com os autores citados anteriormente van Zijderveld et al. (2010) constataram que a produção de metano (L/dia) reduziu 32% em ovinos alimentados com
ração contendo nitrato e 16% nos animais que consumiram sulfato. Os autores estudaram ovinos da raça Texel substituindo ureia
por 2,6% de nitrato em dietas contendo, 2,6% de sulfato, 2,6%
de nitrato + 2,6% de sulfato e sem adição de ambos. Na redução
de nitrato no rúmen há utilização de quatro moles de hidrogênio,
equivalendo ao decréscimo de 25,8g de metano por cada 100 g
de nitrato consumido. O nitrato influenciou na redução dos microrganismos metanogênicos, e segundo os autores, foi devido a
menor disponibilidade de elétrons para essas bactérias ou ainda
pela toxicidade do nitrito a esses microrganismos.
O nitrato influencia na redução dos microrganismos metanogênicos, devido à menor disponibilidade de elétrons para essas
bactérias ou ainda pela toxicidade do nitrito a esses microrganismos (VAN ZIJDERVELD et al., 2010; HULSHOF et al., 2012).
Segundo Iwamoto, Asanuma e Hino (2002), a presença de nitrato
favorece o crescimento das bactérias Selenomonas ruminantium,
Veillonella parvula, e Wolinella succinogenes, pois estas bactérias são nitroredutoras e obtem energia a partir da redução de
nitrato e/ou nitrito; e além disso, as bactérias redutoras podem
reduzir a metanogênese ruminal sem acumúmulo de hidrogênio.
Segundo El-Zaiat et al. (2014), a inclusão de 4,51% de nitrato
de cálcio encapsulado (contendo 60,83% NO3- na matéria seca)
reduziu a população de protozoários no rúmen de 22,55 (× 105/
mL) em uma dieta controle para 19,90 (× 105/mL) quando adicionaram nitrato de cálcio. Esta redução foi devido os protozoários
estabelecerem uma estreita relação simbiótica com as bactérias
metanogênicas. Protozoários são conhecidos por produzir grandes quantidades de H2, o qual é utilizado pelas bactérias metanogênicas, encontrados dentro e próximas aos protozoários (MORGAVI et al., 2010).
Zhou, Yu e Meng (2012) estudaram a incubação in vitro de
feno de alfafa com concentrações de 12, 24, 36 e 48 µmol/mL de
nitrato e observaram que a produção de metano foi inibida com o
acréscimo do nitrato e os microrganismos metanogênicos reduziram. Também as populações de F. succinogenes e R. flavefaciens
foram reduzidas, sugerindo que estas espécies são sensíveis ao
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 06-12 - janeiro/abril, 2015
nitrato. Foi sugerido que o nitrito inibe bactérias que produzem
ATP através de sistemas de transporte de elétrons, mas não as
bactérias que não possuem citocromos e utilizam ATP através da
fosforilação de substratos (MARAIS et al., 1988). Este modo de
atuação aos microrganismos pode explicar, pelo menos parcialmente, a inibição que o nitrato causa a R. flavefaciens que obtém
para 50% do seu ATP através de processos de transporte de elétrons (DAWSON et al., 1979). Segundo Zhou, Yu e Meng (2012)
a administração de nitrato resultou em aumento no pH e diminuição das concentrações totais de ácidos graxos de cadeia curta
quando a concentração de nitrato foi em 24 µmol/mL ou superior.
A suplementação com nitrato (22g/kg de matéria seca) em
comparação com dieta contendo ureia fornecida a bovinos Nelore x Guzerá reduziu a ingestão de matéria seca (HULSHOF et al.,
2012). No entanto, os autores observaram que a adição de nitrato
não influenciou na concentração de ácidos graxos de cadeia curta
totais, sugerindo pouca inibição dos microrganismos devido ao
nitrato. Os autores constataram ainda que a emissão de metano
reduziu em 32% nas dietas com nitrato, e possivelmente, o nitrato como um dissipador de elétron não foi a única razão para
a diminuição da emissão de metano, podendo o efeito tóxico do
nitrito intermediário ter afetado os microrganismos e consequentemente a fermentação ruminal. Estequiometricamente, 4 moles
de hidrogênio são redirecionadas para a redução de 1 mole de
nitrato, equivalente a 258,7 g de metano por kg de nitrato. A mitigação de metano obtida foi de 5,0 g de metano por kg de matéria
seca ingerida, resultando em uma eficiência de 87% (HULSHOF
et al., 2012).
van Zijderveld et al. (2011) estudaram a adição de 2,1% de
nitrato de cálcio em substituição a ureia em dietas com teores de
34% de concentrado fornecido a vacas. Os autores observaram
uma redução da produção de metano em 16% (g de metano por
kg de matéria seca ingerida), e o consumo de matéria seca não foi
alterado na dieta com nitrato (25 g de nitrato por kg de matéria
seca). Quando é fornecido um teor elevado de nitrato, é provável
que parte do nitrato ingerido e do nitrito formado no rúmen sejam
absorvidos através da parede do rúmen para o sangue e perdido
na urina (TAKAHASHI et al., 1998).
El-Zaiat et al. (2014) estudaram dietas com ureia, 4,51% de
nitrato encapsulado na dieta de ovinos Santa Inês e observaram
que o nitrato encapsulado diminui a quantidade de protozoários
no rúmen e a produção de metano também é reduzida, sem alterar o consumo de matéria seca pelos animais. A produção de
metano foi de 28,6 e 19,1 L por kg de matéria seca ingerida, nos
tratamentos com ureia e 4,51% de nitrato encapsulado, respectivamente.
Newbold et al. (2014) realizaram dois experimentos, sendo
que no experimento 1 estudaram a influência de teores de nitrato
em 0; 0,6; 1,2; 1,8; 2,4 e 3% quanto a produção de metano na
dieta de bovinos da raça Honlandês e observaram que o nitrato
reduziu a produção de metano produzido em até 28%. No experimento 2 testaram teores de nitrato em 0; 0,48; 0,96; 1,44; 1,92
e 2,40% em dietas fornecidas a bovinos da raça Nelore quanto
ao desempenho e observaram que, o peso corporal, o ganho de
peso, o peso de carcaça e o rendimento de carcaça não foram
influenciados pela adição de nitrato. No entanto, à medida que o
teor de nitrato foi aumentado na dieta, o consumo de matéria seca
9
Ana Paula Alves Freire et al.
reduziu e a eficiência alimentar foi aumentada. Assim como os
autores anteriores, de Raphélis-Soissan et al. (2014), avaliaram
2% de nitrato ou 1,1% de ureia em rações para ovinos da raça
Merino e verificaram que a adição de nitrato mitiga metano, além
disso verificaram aumento no pH ruminal, na concentração de
acetato e na relação acetato:propionato e redução nas concentrações de propionato.
Velazco, Cottle e Hegarty (2014) forneceram dietas contendo 11,5% de proteína bruta com 0,89% de ureia ou 2,57% de
nitrato de cálcio a bovinos da raça Angus, e observaram que o
nitrato de cálcio não influenciou o consumo de matéria seca pelos animais, e diferentemente de outros estudos não verificaram
influencia na produção de metano.
A vantagem energética na produção seja de carne ou leite,
devido a redução da produção de metano pela adição de nitrato,
é pouco mostrada na literatura. Segundo El-Zaiat et al. (2014) a
adição de nitrato de cálcio não apresentou benefícios no aumento
do ganho de peso de ovinos e van Zijderveld et al. (2011) não
observaram aumento na produção de leite de vacas. Newbold et
al. (2014) avaliaram teores crescentes de nitrato até 2,4% e observaram redução do consumo de matéria seca por bovinos, no
entanto o peso corporal final dos animais não foram afetados,
e a eficiência alimentar foi maior nos animais que consumiram
teores crescentes de nitrato.
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é um ingrediente que reduz a produção de metano, e desde que se
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utilize nitrato de forma cuidadosa e os animais tenham adaptação
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v. 18 n. 1/2 p. 13-19 - janeiro/agosto, 2015
Aspectos clínicos e
histopatológicos de cadelas
com neoplasia mamária
submetidas à mastectomia
Michelle Suassuna de Azevedo RÊGO¹*, Fernanda Lúcia Passos FUKAHORI¹, Mirella
Bezerra de Melo Colaço DIAS¹, Vanessa Carla Lima da SILVA², Renata Serpa Cordeiro
Sá LEITÃO², Fernando Leandro dos SANTOS³, Márcia de Figueiredo PEREIRA³, Evilda
Rodrigues de LIMA³, Edvaldo Lopes de ALMEIDA³
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo analisar os aspectos clínicos e histopatológicos de cadelas
com neoplasia mamária submetidas à mastectomia. Foram avaliadas 36 cadelas, sem predileção de raça, idade, e porte, submetidas à anamnese, exame físico para a classificação clínica do
câncer (TNMc), exames de rotina no pré-operatório e amostra histopatológica coletada após
a cirurgia para caracterização do tipo de tumor. Todos os animais tiveram como tratamento
a mastectomia. A amostra foi analisada com predominância de idade 6-10 anos (55,5%), e a
obesidade estava presente em apenas 16,7% delas e 83,3% de escore normal. A maioria das
cadelas eram nulíparas (55,5%), apresentando pseudogestação (25,0%), tumoração das mamas
inguinais (75,0%), em ambas as cadeias, com nódulos multicêntricos (77,8%), prevalecendo
nódulos (27,0%) de tamanho superior a 2cm de diâmetro, e no histopatológico prevaleceu o
carcinoma complexo (30,5%), com intensa anaplasia, anisocariose e anisocitose. Conclui-se que
pseudogestação, nuliparidade, idade, localização, tamanho e classificação das neoplasias mamárias são importantes fatores prognósticos que podem subsidiar o clínico veterinário para
uma abordagem sistematizada desses animais. Com esta prática há a possibilidade da realização
do diagnóstico precoce aumentando às alternativas do tratamento e cura.
P A L A V R A S - C H A V E 1
Doutoranda do Programa de Pós-
Graduação em Ciência Veterinária
da Universidade Federal Rural de
Pernambuco.
² Médica Veterinária autônoma
³ Professor (a) do Departamento de
Medicina Veterinária da Universidade
Federal Rural de Pernambuco.
*Autor para correspondência:
[email protected]
Oncologia, tumoração da mama, câncer, cães.
Clinical and histopathological aspects of bitches with breast cancer
that underwent mastectomy
ABSTRACT
This study aimed to analyze the clinical and histopathological aspects of bitches with
breast cancer that underwent mastectomy. 36 bitches were studied there was without predilection for race, age, and size, to medical history, physical examination for clinical classification of
cancer (TNMc), routine tests before surgery and histopathology samples collected after mastectomy for characterization of tumor type. All animals underwent mastectomy as treatment.
Analysis of the sample showed a predominance of subjects with ages 6-10 years (55,5%), normal score (83,3%) with a mixed diet intake (55,5%). The majority (55,5%) of the bitches were
nulliparous, with pseudocyesis (25,0%), tumors in inguinal glands (75,0%), in both sides of the
midline, with multicentric nodules (77,8%), with a prevalence of nodules (27,0%) larger than
2cm in diameter, while on histopathology there was a higher prevalence of complex carcinomas (30,5%), with severe anaplasia, anisokaryosis and anisocytosis. It is concluded that pseudopregnancy, nulliparity, age, location, size and classification of mammary tumors are important
prognostics factors that can subsidize the veterinary practitioner a systematic approach to these
animals. With this practice there is the possibility of holding early diagnosis increases the treatment and healing alternatives.
K E Y W O R D S Oncology, mammary tumor, cancer, dogs.
13
Michelle Suassuna de Azevedo Rêgo et al.
INTRODUÇÃO
Os tumores da mama representam 52,0% de todas as neoplasias na fêmea canina, sendo que 50,0% destas são malignas
(Mac EWEN e WITHROW, 1996). A etiologia do câncer de
mama é multifatorial, com participação de fatores genéticos,
ambientais, infecciosos, nutricionais e, principalmente, de fatores hormonais, sendo essa considerada uma neoplasia hormônio-dependente (SILVA et al., 2004). Na cadela, existe grande controvérsia no que se refere aos fatores predisponentes que
podem estar associados aos tumores de mama. Alguns autores
associam as neoplasias da mama a desordens endócrinas decorrentes de cistos foliculares e corpo lúteo persistente, além de
outros fatores como pseudogestação, nuliparidade, obesidade
e utilização de progestágenos (MOL et al., 1997). Contudo, esses fatores não são significativos para carcinogênese da mama
(MORRISON, 1998).
Há uma maior prevalência de neoplasias em fêmeas da espécie canina quando comparada aos machos, e os tumores de
mama são responsáveis pela prevalência desses processos neoplásicos. Animais com idade entre 8 e 12 anos são os mais acometidos (Silva, 2001). Cadelas bem nutridas apresentam menor ocorrência de câncer de mama que as obesas. Desse modo,
fatores nutricionais podem ter papel no desenvolvimento do
tumor de mama (Mac EWEN e WITHROW, 1996). Dieta rica
em gordura animal, que resulta em obesidade, aumenta a probabilidade do aparecimento dos tumores de mama na mulher
e nos roedores. Contudo, a gordura animal atua muito mais
como um promotor do que iniciador da carcinogênese (COTRAN et al., 2000).
Para as neoplasias da mama em fêmeas da espécie canina, a mastectomia constitui a terapia de escolha, com exceção
dos carcinomas inflamatórios as metástases à distância. Foi observada mínima atividade antitumoral com a combinação de
quimioterápicos como a doxorrubicina e ciclofosfamida ou a
cisplastina como agente único, nos tumores de mama (Mac
EWEN e WITHROW, 1996).
Diante do aspectos abordados e da necessidade de estudos
desta enfermidade na espécie canina, este trabalho teve por objetivo analisar os aspectos clínicos e histopatológicos de cadelas com neoplasia mamária submetidas à mastectomia.
MATERIAL E MÉTODOS
Esta pesquisa foi realizada no Hospital Veterinário do Departamento de Medicina Veterinária (DMV) da Universidade
Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), envolvendo os setores
de Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais e os Laboratórios
de Patologia Clínica Veterinária e de Patologia Animal, além
do Laboratório de Biologia Molecular Aplicada à Produção
Animal (BIOPA), localizado no Departamento de Zootecnia.
Foram utilizadas 36 cadelas da rotina clínica e cirúrgica,
todas com autorização dos proprietários e a aprovação do
Comitê de Ética no Uso de Animais (CEUA) da UFRPE nº
017/2011, no período de agosto de 2010 a março de 2011. Na
anamnese, os proprietários foram questionados sobre: idade,
14
antecedentes genéticos, tipo de alimentação, ambiente onde
vive, se é vacinado e vermifugado, regularidade do cio, se é ovariectomizada, ocorrência de pseudo-gestação, de corrimentos
vaginais, frequência do uso de progestágenos contraceptivos,
histórico reprodutivo, entre outros.
Os animais foram submetidos ao exame físico geral e ao
exame específico das mamas. No geral avaliou-se a idade, porte
dos animais, estado corporal, e raça, e no específico das mamas,
identificaram-se as lesões tumorais quanto ao número, tamanho, localização, consistência, aderência à fáscia e músculos
abdominais, e a descrição do aparecimento de edema, necrose, inflamação, ulceração e secreção. Também foi realizada a
avaliação macroscópica de nódulos cutâneos e alterações dos
linfonodos regionais axilar e inguinal.
Quanto à idade, os cães foram classificados em: adultos (de
um a nove anos) e idosos (maiores de dez anos). A classificação
do porte físico dos animais obedeceu às normas do manual da
confederação do Brasil Kennel Clube, no qual o porte é obtido
a partir da altura entre o solo e a cernelha, com o animal em
posição, apoiado sobre os quatro membros. Animais com até
35 cm foram classificados como de porte pequeno, de 36 a 46
cm de porte médio e acima de 46 cm de porte grande (CBKC,
1987). A condição corporal foi avaliada segundo os critérios
da Hill’s (2008) pela visualização do estado geral do animal
durante o exame físico. As cadelas foram classificadas como
magras, normais e obesas. A raça foi estabelecida pela visualização das características de cada animal, seguindo os padrões
das mesmas.
Quanto à localização, as neoplasias foram classificadas em
mama torácica cranial, mama torácica caudal, mama abdominal cranial, mama abdominal caudal e mama inguinal (Figura
1A). Quanto ao tamanho dos tumores, ao comprometimento
linfonodal e metástase, os animais foram classificados de acordo com o sistema TNM proposto pela Organização Mundial
da Saúde (OMS) (MISDORP et al., 1999). A classificação pelo
TNM-clínico (adaptado de EISENBERG e KOIFMAN, 2000),
tem como base os seguintes critérios:
T= Tamanho ou Extensão Tumoral (maior diâmetro do
tumor primário); Tx – tumor primário não pode ser avaliado;
T0 – nenhuma evidência de tumor primário; TIS – carcinoma
in situ ou doença de Paget do mamilo sem tumor adjacente;
T1 – 2 cm ou menos; T2 - > 2,0 até 5,0 cm; T3 - > 5,0 cm;
T4 – qualquer tamanho de tumor com extensão direta para
parede torácica ou pele; T4a – extensão à parede torácica; T4b
– edema, ulceração da pele ou nódulos cutâneos satélites confinados à mesma mama; T4c – T4a + T4b T4d – carcinoma
inflamatório; N = Envolvimento Linfonodal; Nx – linfonodos
regionais não podem ser avaliados; N0 – ausência de metástases para linfonodos regionais; N1 – metástases para linfonodos
regionais ipsilaterais móveis; N2 - metástases para linfonodos
regionais ipsilaterais fixos (linfonodos fixos uns aos outros ou
fixos a outras estruturas); N3 – metástases para linfonodos da
cadeia mamária interna ipsilateral; M = Metástase à Distância;
Mx – metástases não podem ser avaliadas; M0 – não existem
metástases; M1 – presença de metástases à distância.
Após a avaliação destes fatores, os casos foram agrupados
em estágios que variavam de I a IV graus crescentes de acordo
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 13-19 - janeiro/abril, 2015
Aspectos clínicos e histopatológicos de cadelas com neoplasia mamária submetidas à mastectomia
Tabela 3: Percentual (média ± desvio padrão) de integridade do acrossoma (iAC), integridade da membrana plasmática (iMP) e alto
potencial de membrana mitocondrial (aPMM) de espermatozoides caprinos Boer pós-descongelação, suplementados ou não com taurina,
sob períodos de incubação
Estadiamento
Tamanho
Linfonodo
Metástase
Estádio 0
Estádio I
Estádio IIA
TIS
T1
T0
T1
T2
T2
T3
T0
T1
T2
T3
T4
*qqT
N0
N0
N1
N2
N0
N1
N0
N2
N2
N2
N1, N2
*qqN
N3
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
M0
*qqT
*qqN
M1
Estádio IIB
Estádio IIIA
Estádio IIIB
Estádio IV
*qqT- qualquer tamanho, *qqN- qualquer envolvimento linfonodal
com a gravidade da doença (Quadro1).
Para tais informações utilizou-se uma ficha clínica de
acompanhamento de tumores da mama.
Os proprietários foram orientados a trazerem seus animais
em jejum alimentar de 12 horas e hídrico de seis horas ao ambulatório da Área de Cirurgia de Pequenos Animais e encaminhados para a tricotomia do abdômen ventral e puncionamento da veia cefálica para a manutenção do animal em venóclise
com solução de ringer com lactato. Os animais foram sedados
com acepromazina (0,2mg/kg) associado com sulfato de atropina (0,044mg/kg) intravenoso, e encaminhados ao bloco cirúrgico. Realizou-se a indução anestésica com propofol (4mg/
kg) intravenoso, e intubados com sonda orotraqueal e oxigênio a 100% e a manutenção com isofluorano. Como indutor
de dor foi aplicado o Tramadol (4mg/kg) intravenoso.
Os animais foram colocados em decúbito dorsal, feita a
antissepsia da pele com povidine tópico e colocação dos campos cirúrgicos (Figura 1B). Utilizou-se instrumental básico de
cirurgia geral (diérese, hemostasia e síntese) em todos os casos
e procedendo-se a mastectomia. As massas tumorais foram removidas com áreas de segurança de aproximadamente 1cm do
tecido sadio. O leito cirúrgico em todos os atos foi lavado com
soro fisiológico a 0,9% à temperatura ambiente e aspirado com
compressa cirúrgica. Realizou-se ovariosalpingohisterectomia
associada à mastectomia em apenas algumas cadelas. As hemostasias foram realizadas com pinças hemostáticas e ligadas
com categut cromado número 1 e fechamento abdominal e
da pele com mononylon 2-0 com pontos simples (Figura 1C).
Sobre a ferida cirúrgica colocamos curativo compressivo.
As mamas ou fragmentos de tecido da mama foram imediatamente encaminhados ao Setor de Patologia Animal, após
extirpação cirúrgica da lesão para serem registradas, examina-
Figura 1: A) Neoplasia mamária localizada na região abdominal caudal direita com pontos de ulceração em cadela. B) Preparação da
mastectomia, com colocação de campos cirúrgicos. C) Mastectomia da cadeia mamária direita.
A
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 13-19 - janeiro/abril, 2015
B
C
15
Michelle Suassuna de Azevedo Rêgo et al.
das detalhadamente, pesadas, sendo as características macroscópicas das lesões anotadas no livro de registro e em fichas
apropriadas e fotografadas. Em seguida foram colhidos fragmentos de cada porção lesada para posterior estudo histológico. Estes fragmentos foram fixados em solução de formol
neutra tamponada a 10%, desidratadas, diafanizados, embebidos em parafina, laminados em micrótomo com espessura de
5 micra e corados pela hematoxilina-eosina (HE) de acordo
com a técnica preconizada por Luna (1968) e Prophet (1992).
A classificação dos tumores de mama teve como base a proposta de Misdorp et al. (1999) publicada pela AFIP (Armed Forces
Institute of Patology).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O peso das cadelas variou de 2,6 a 40 kg com média de
15,5, sendo que 6/36 (16,7%) dos animais eram de pequeno
porte com peso variando de 2,6 a 7,8 kg, 23/36 (63,9%) de porte médio com peso entre 7 a 21 kg e 7/36 (19,4%) de porte
grande com peso de 20 a 40 kg. A obesidade estava presente em
apenas 6/36 (16,7%) delas, sendo as outras 30/36 (83,3%) de
escore normal, discordando com Mac Ewen e Withrow (1996),
quando verificaram que cadelas bem nutridas apresentam menor ocorrência de câncer de mama que as obesas. Nesta pesquisa, 20/36 (55,5%) das cadelas recebiam alimentação mista
(caseira e ração industrializada), sendo que 12/36 (33,3%) das
cadelas receberam exclusivamente ração industrializada e 4/36
(11,1%) apenas comida caseira.
Observou-se idade mínima de cinco e a máxima de 16
anos, com média de 10,1. Das 36 cadelas, 20/36 (55,5%) delas
estavam na faixa de seis a 10 anos, 15/36 (41,6%) acima de dez
anos e apenas 1/36 (2,7%) animal abaixo de seis anos. Esses
percentuais mais elevados nos animais de seis a 10 anos estão
próximos aos de Silva (2001) quando afirma que os tumores de
mama são responsáveis pela prevalência dos processos neoplásicos nas fêmeas caninas com idade entre 8 e 12 anos.
A partir de dados, fornecidos pelos proprietários, sobre a
vida reprodutiva dos animais analisados, observou-se o número médio de partos por animal sendo de 1,0, onde o número
máximo foi três e o mínimo zero, 20/36 (55,5%) cadelas eram
nulíparas, com distribuição de 9/22 (40,9%), 6/8 (75,0%) e 5/6
(83,3%) animais de portes médio, grande e pequeno, respectivamente, e 16/36 (44,5%) haviam tido pelo menos uma cria,
sendo distribuídas em 13/22 (59,0%), 2/6 (33,3%) e 1/8 (12,5%)
cadelas de médio, grande e pequeno porte, respectivamente,
confirmando os dados da literatura que denotam maior susceptibilidade de animais nulíparos ou com pequena quantidade de crias no desenvolvimento de tumores da mama (KOHLI
et al., 1998).
Dos animais estudados, 30/36 (83,3%) apresentaram cios
regulares e 6/36 (16,6%), sendo 4/22 (18,1%) de porte médio
e 2/6 (33,3%) de porte pequeno, foram ovariectomizadas após
o terceiro ano de vida. Os animais ovariectomizados nesta
pesquisa, não se encontravam na faixa etária onde Johnston
(1993) acredita haver alguma função protetora no desenvolvimento das neoplasias mamárias, que se estende até dois anos
16
e meio. De Nardi et al. (2002) preconizam a esterilização antes
do primeiro estro para a prevenção, no entanto Silva (2003)
acredita que a esterilização deve ocorrer após o primeiro cio
para que o animal tenha pleno desenvolvimento endócrino.
A história de pseudogestação esteve presente em 9/36
(25,0%) animais, na sequência dos portes médio 5/22 (22,7%),
grande 3/8 (37,5%) e pequeno 1/6 (16,6%). Apenas 3/22 (13,6%)
cadelas (porte médio) apresentaram secreção vaginal, 14/36
(38,8%) (11/22 (50,0%) de porte médio, 2/8 (25,0%) grandes
e 1/6 (16,6%) de porte pequeno) receberam anticoncepcionais
e 4/36 (11,1%) (3/22 (13,6%) de médio porte e 1/8 (12,5%) de
grande porte) apresentaram aborto até o momento do estudo.
Na cadela existe controvérsia no que se refere aos fatores
que podem estar associados aos tumores mamários. Todavia,
pseudogestação, nuliparidade e utilização de progestágenos
vem sendo continuamente indicados como predisponentes
(MOL et al., 1997; SILVA et al., 2004). No entanto para Morrison (1998) número de crias, pseudogestação, ciclo estral anormal não são fatores significantes para tumorigênese mamária.
As lesões mostraram-se mais frequentes nas mamas inguinais, acometendo 27/36 (75,0%) animais com diferente distribuição entre as cadeias esquerda (40,7%) e direita (18,6%) e
em ambas (40,7%), com predominância da esquerda. Dos 36
casos, oito (22,2%) apresentaram um único nódulo mamário
enquanto que o envolvimento multicêntrico estava presente
em 28/36 (77,8%) animais, onde 20/36 (55,5%) tinham envolvimento bilateral, 4/36 (11,1%) tinha envolvimento apenas do
lado direito, percentual idêntico da incidência de envolvimento apenas do lado esquerdo.
Os tumores localizados nas mamas abdominais e inguinais representaram 88,8% dos tumores primários dessa pesquisa, dados semelhantes ao encontrado por Moulton (1990), Mac
Ewen e Withrow (1996), Fonseca (1999) e Burini (2002) que
afirmam que a frequência de neoplasia mamária é significativamente maior nas mamas inguinais e abdominais, sem explicações para tais acontecimentos. Enquanto Moulton (1990)
afirma que essas mamas são mais acometidas, devido a maior
quantidade de parênquima mamário, sofrendo assim maior alteração proliferativa em resposta aos hormônios.
Pela apresentação macroscópica dos tumores, concluímos
que os animais acometidos de tumores multicêntricos foram
maioria absoluta, totalizando 77,8% do total de casos tratados.
Resultado superior ao encontrado por Burini (2002) que relata
57,0% de acometimento multicêntrico dos animais pesquisados. Moulton (1990) afirma que o envolvimento multicêntrico
pode chegar a 50,0% dos casos.
Segundo Donegan e Spratt (1988) o câncer de mama na
cadela é frequentemente um processo multifocal e é comum
o desenvolvimento independente de câncer entre as mamas.
Quando se divide o número total de tumores encontrados pela
quantidade de animais tratados, têm-se uma média de 3,05 tumores por animal, um número bastante alto se considerarmos
que 22,2% dos animais não apresentavam tumores multicêntricos. Um animal apresentava tumores em 7 mamas das duas
cadeias mamárias.
Em 27/36 (75,0%) dos animais, os tumores apresentaram
integridade cutânea, valor próximo ao encontrado por Burini
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 13-19 - janeiro/abril, 2015
Aspectos clínicos e histopatológicos de cadelas com neoplasia mamária submetidas à mastectomia
(2002) que relata 78,0% de tumores íntegros no seu estudo.
Segundo Cassali et al. (2002) ulcerações têm efeito significativamente negativo no tempo de sobrevida dos animais. No nosso estudo, 9/36 (25,0%) dos tumores primários apresentavam
ulcerações, sendo que a totalidade dos tumores que apresentava essas ulcerações tinha comportamento maligno, dados que
corroboram com a afirmação que ulcerações pioram o prognóstico do paciente.
Do grupo de animais pesquisados, 21/36 (58,3%) tinha acometimento das duas cadeias mamárias, 7/36 (19,4%) somente
da cadeia mamária direita e 8/36 (22,2%) da cadeia mamária
esquerda. Em 1/36 (2,7%) dos casos foi constatada alteração de
volume do linfonodo, o que não é suficiente para confirmar
um quadro de metástase local, apenas demonstra o linfonodo
responsivo a afecções. O acometimento neoplásico linfonodal encontrado com exame histopatológico por Cavalcanti e
Cassali (2006) foi de 10,0%, muito acima do encontrado em
nosso estudo, associado a um pior diagnóstico (QUEIROGA
e LOPES, 2002).
Dos animais pesquisados, 11 (30,5%) tiveram o tumor classificado como carcinoma complexo com falta de orientação
de crescimento, anisocariose e anisocitose e intensa anaplasia;
9 (25,0%) carcinoma túbulo-papilar com reduzida relação
citoplasma núcleo, núcleos proeminentes, claros e granulares, infiltrado mononuclear, focos de necrose e anisocitose; 7
(19,4%) carcinossarcoma com anisocitose, algumas áreas de
mineralização, infiltrado mononuclear e inflamação; 2 (5,6%)
fibrossarcoma com anaplasia, anisocariose e anisocitose e falta de orientação de crescimento; 2 (5,6%) carcinoma simples
com anisocitose, anaplasia citoplasmática e nuclear, células
arredondadas ou alongadas; 1 (2,8%) carcinoma misto com estrutura complexa de origem ectodérmica; 1 (2,8%) carcinoma
sólido com baixa relação núcleo citoplasma e anisocariose; e 3
(8,3%) material inconclusivo.
Na Figura 2 observam-se características quanto a classificação histopatológica de carcinoma túbulo-papilar (Figura 2A),
carcinoma complexo (Figura 2B) e carcinossarcoma (Figura
2C).
Sorenmo (2003) encontrou o aumento de malignidade do
carcinoma complexo para o carcinoma simples, e deste para o
sarcoma. Considerando apenas o grupo dos carcinomas simples, foi observada a seguinte ordem crescente de malignidade:
não-infiltrativo (in situ); túbulo-papilar; sólido e anaplásico.
Enquanto que no presente trabalho, observou-se que apresentaram o maior grau de malignidade foram: carcinoma complexo, carcinoma simples, sólido e fibrosarcoma.
Os carcinossarcomas são compostos de componentes epiteliais e mesenquimais malignos. Os animais portadores possuem um prognóstico desfavorável e desenvolvem metástases
no primeiro ano após a cirurgia (BENJAMIN et al., 1999).
Animais que apresentavam tumores em estádio avançado de crescimento (maiores que 5cm) representaram 11/36
(30,5%) dos casos, enquanto tumores com diâmetro de 3 a 5cm
representaram 13/36 (36,1%). 12/36 (33,3%) dos cães apresentavam processo neoplásico em fase considerada inicial, com
nódulos de até 3 cm. O tamanho tumoral é um dado muito
importante no que diz respeito ao prognóstico do animal. Os
resultados atestam a busca tardia de tratamento como comportamento geral dos proprietários.
Tumores malignos representaram 100,0% do total pesquisado, pois este era um requisito para a inclusão nesta pesquisa. Observou-se que 8/36 (22,2%) se encontravam em estádio
clínico I que apresenta grandes possibilidades de cura por
meio da remoção cirúrgica do tumor, no entanto, o animal
pode, eventualmente, desenvolver a forma disseminada e vir
a óbito, antes da detecção clínica (BURINI, 2002). Metástase
foi diagnosticada, em 1/36 (2,7%) do total de animais, a partir
de exame histopatológico do linfonodo. Este mesmo animal
apresentou estádio IV, ou seja, o pior prognóstico, enquanto
27/36 (75,0%) estavam em estádio II e III, que por definição
não inclui pacientes com evidência de metástase à distância.
De uma forma geral, o avançado estado evolutivo dos tumores pesquisados no que diz respeito ao tamanho, preservação da integridade cutânea e multicentricidade, evidencia que
o prognóstico ruim de forma geral dos animais pesquisados se
deve a busca tardia do tratamento, demonstrando assim um
comportamento pouco cuidadoso dos proprietários desses
animais, muitas vezes orientados por veterinários, que, infeliz-
Figura 2: A) Carcinoma túbulo-papilar. Formação de túbulos com projeções papilares. Glândula mamária, cadela, 12 anos. Hematoxilina & Eosina,
obj.40x/0,65. B) Carcinoma complexo. Células epiteliais em um padrão sólido a tubular e células tipo mioepiteliais (seta vazada). Inúmeras mitoses
(seta cheia) Glândula mamária, cadela. Hematoxilina & Eosina, obj. 40x./0,65. C) Carcinossarcoma. Presença de células epiteliais e células semelhantes a elementos do tecido conjuntivo maligno. Hematoxilina & Eosina, obj.10x./0,65.
A
B
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C
17
Michelle Suassuna de Azevedo Rêgo et al.
mente, preferem esperar o crescimento do tumor antes do tra- EISENBERG A.L.A.; KOIFMAN S. Aspectos gerais dos adenocarcitamento. Com essa prática, além da possibilidade de evolução
nomas de mama, estadiamento e classificação histopatológica com
de quadros neoplásicos malignos, fato que piora sensivelmente
descrição dos principais tipos. Revista Brasileira de Cancerologia,
o prognóstico do paciente, devido a disseminação do tumor,
v. 46, 63-77p., 2000.
tumores inicialmente benignos podem sofrer malignização.
FONSECA C. S. Avaliação dos níveis séricos do α-estradiol e progesterona em cadelas portadoras de neoplasias mamárias, 1999, 87f.
CONCLUSÕES
Dissertação (Mestrado em Clínica Veterinária), Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, JabotiConclui-se que pseudogestação, nuliparidade, idade, locabal, SP.
calização, tamanho e classificação das neoplasias mamárias
são importantes fatores prognósticos que podem subsidiar o GREENWALD P. et al. Diet and cancer prevention. European Journal
clínico veterinário para uma abordagem sistematizada desses
of Cancer, v. 37, 948-965p, 2001.
animais. Com esta prática há a possibilidade da realização do
diagnóstico precoce aumentando às alternativas do tratamen- GREENWALD P. Role of dietary fat in the causation of breast cancer:
to e cura.
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19
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 20-25 - janeiro/abril, 2015
Características seminais de
carneiros das raças Dorper,
Santa Inês e mestiços em
condições de clima tropical
Marciane da Silva MAIA¹ *, Joelma Vasconcelos Celestino da SILVA² , Iralice Montenegro de MEDEIROS², Claudio Adriano Correia de LIMA³ , Carlos Eduardo Bezerra
de MOURA4
RESUMO
¹ Embrapa Semiárido – EMPARN. Av.
Eliza Branco Pereira dos Santos, SN.
Parque das Nações, Caixa postal 188,
CEP: 59158-160, Parnamirim-RN.
[email protected]
* autor para correspondência.
² Universidade Federal do Rio Grande
do Norte – UFRN. CEP: 59280-000,
Macaíba-RN. [email protected];
[email protected]
³ Instituto de Assistência Técnica e
Extensão Rural do Rio Grande do
Norte – EMATER. CEP: 59064-901,
Natal -RN. [email protected]
Avaliaram-se os parâmetros seminais e testiculares de 17 carneiros (cinco Santa Inês, cinco
Dorper e sete mestiços ¾ Dorper + ¼ Santa Inês). A coleta de dados foi realizada quinzenalmente. Os ejaculados foram colhidos em vagina artificial, mantidos em banho-maria (37
°C) e avaliados quanto ao volume, aspecto, vigor, motilidade, turbilhonamento, concentração,
morfologia e viabilidade espermática. Houve diferença significativa (P <0,05) entre as raças
para perímetro escrotal, temperatura retal e algumas das características seminais. O volume do
ejaculado foi maior (P <0,05) na Dorper (1,27 ± 0,1 ml) comparado à Santa Inês (0,81 ± 0,1 ml)
e mestiços (1,00 ± 0,1 ml). A motilidade espermática foi significativamente maior nos carneiros
Santa Inês e mestiços (85,5 ± 2,2 e 85,2 ± 1,4%, respectivamente) do que no Dorper (77,8 ±
3,2%). O total de espermatozoides anormais, a porcentagem de defeitos maiores e a temperatura retal média foram mais elevados (P <0.05) na Dorper do que nas outras raças. As evidências
sugerem que os carneiros da raça Santa Inês e mestiços apresentam melhor desempenho reprodutivo sob as condições em que o estudo foi conduzido, possivelmente por estarem mais bem
adaptados às condições ambientais da região.
PA L AV RAS - C H AV E com.br
4
Universidade Federal Rural do
Semiárido – UFERSA, Mossoró –RN.
[email protected]
Estresse térmico, perímetro escrotal, qualidade de
sêmen, morfologia espermática, ovino
Seminal and testicular characteristics of Dorper, Santa Inês and
crossbreed rams in a semi-arid tropical environment
ABSTRACT
The seminal and testicular parameters of 17 rams (five of Santa Ines, five Dorper and seven
crossbreed - ¾ Dorper + ¼ Santa Inês) were evaluated every two weeks. The ejaculates were
collected by artificial vagina and after collection; the semen was kept in a water bath (37°C)
and evaluated for volume, aspect, vigor, total motility, mass motility, concentration, morphology and viability. Significant differences (P<0.05) were observed between breeds for the scrotal
circumference, rectal temperature and some of the seminal characteristics. The semen volume
was greater (P <0.05) in the Dorper (1.27 ± 0.1 ml) compared to Santa Ines (0.81 ± 0.1 ml) and
crossbreed (1.00 ± 0.1 ml) and significantly higher sperm motility was found for the Santa Ines
and crossbreed (85.5 ± 2.2 and 85.2 ± 1.4%, respectively) compared to the Dorper rams (77.8 ±
3.2%). The total morphological abnormalities and the percentage of major defects were higher
(P <0.05) in the Dorper than in the other breeds. The average rectal temperature was also significantly (P <0.05) higher in the Dorper than in the other breeds. The evidence suggests that
Santa Ines and crossbreed rams show better reproductive performance under conditions in
which the study was conducted, possibly because they are better adapted to the environmental
conditions of the region.
KEYWORDS
20
thermal stress, scrotal circumference, semen quality, sperm
morphology, sheep
Características seminais de carneiros das raças Dorper, Santa Inês e mestiços em condições de clima tropical
INTRODUÇÃO
A região Nordeste possui o maior efetivo (57,2%) do rebanho ovino do país (IBGE, 2011). Nessa região, o rebanho
é formado, predominantemente, por ovinos deslanados sem
padrão racial definido (SPRD) e por animais puros das raças
nativas Santa Inês, Somalis e Morada Nova.
Em geral, a ovinocultura nordestina está voltada para a
produção de carne e pele, de forma extensiva, sendo o desempenho produtivo e reprodutivo prejudicados pelo baixo nível
de tecnologia aplicado ao sistema. Apesar de produzir cerca de
oito toneladas de carne ovina/ ano (FAO, 2009) e desse tipo de
carne apresentar valor comercial muito maior do que a carne
de outras espécies animais, a produção brasileira não é suficiente para atender a demanda do mercado, devido principalmente, ao sistema de produção deficiente. Assim, precisa haver
um aprimoramento no processo de produção como um todo,
para que a atividade possa se tornar mais competitiva. Para isso
a genética é fundamental. No entanto, é preciso investir não
só em melhoramento genético, como também em opções de
manejo, alimentação e sanidade dos rebanhos.
As biotécnicas de reprodução como a inseminação artificial e a transferência de embriões, assim como a melhoria
nos processos de congelação de sêmen, poderão contribuir
para maximizar o uso de reprodutores. Porém é importante
lembrar que para obter bons resultados com essas biotécnicas,
deve-se partir de um sêmen de boa qualidade. Sendo assim, os
reprodutores devem ser mantidos sob condições de ambiente
e manejo que favoreçam a produção de sêmen de boa qualidade. Nos últimos anos tem havido a introdução de animais de
raças exóticas especializadas para carne, como a Dorper, com o
intuito de promover o melhoramento genético dos rebanhos.
A raça Dorper quase sempre é apontada como alternativa para
cruzamentos industriais, em acasalamentos com fêmeas da
raça Santa Inês e do tipo SPRD (Silva et al., 2010) com o objetivo de melhorar os índices produtivos e a qualidade da carcaça
(Cezar et al., 2004). No entanto, existe pouca informação sobre
a fertilidade e o desempenho reprodutivo destes animais sob
as condições de clima e manejo do Nordeste do Brasil. Portanto, é importante comparar as características reprodutivas dos
animais Dorper com aqueles das raças nativas da região para
que os produtores possam ter uma garantia de sucesso em seu
investimento.
O uso de reprodutores que produzam sêmen de boa qualidade é fundamental para maximizar o desempenho reprodutivo dos rebanhos. Assim, o objetivo deste estudo foi obter
informações sobre as características seminais e testiculares de
carneiros das raças Dorper, Santa Inês e mestiços (¾ Dorper
+ ¼ Santa Inês) criados nas condições de clima e manejo do
Nordeste do Brasil.
MATERIAIS E MÉTODOS
O experimento foi conduzido na Fazenda São Joaquim,
localizada no município de Macaíba – RN, no período de 15
de fevereiro a 14 de maio de 2011. Durante o período experimental a temperatura média do ar foi de 31,8°C, a umidade re-
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 20-25 - janeiro/abril, 2015
lativa foi de 80,9% e o ITU (índice de temperatura e umidade)
85,9. As coletas de dados ocorreram quinzenalmente, quando
se realizava a colheita de um ejaculado, a medição do perímetro escrotal e da temperatura retal de cada animal. Realizava-se
também, a medição da temperatura e umidade relativa do ar
com o auxílio de um termo-higrômetro (GRX BRASIL, modelo 5195.03.0.00).
Foram utilizados 17 machos ovinos adultos, com três a
cinco anos de idade, clinicamente sadios e com escore de condição corporal 3,5 a 4, sendo cinco da raça Dorper, cinco Santa
Inês e sete mestiços (¾ Dorper + ¼ Santa Inês). Os animais
eram mantidos em um sistema de confinamento a céu aberto.
Durante o dia permaneciam em um piquete de capim Pangola (Digitaria decumbes), onde recebiam uma suplementação
alimentar (750 g/animal/dia) contendo milho, soja, torta de algodão, uréia e mistura mineral, com aproximadamente 17% de
proteína bruta e capim elefante, palma forrageira e mandioca,
picados, à vontade. Ao final da tarde, os carneiros eram levados
ao centro de manejo onde pernoitavam com as fêmeas, para a
realização dos acasalamentos.
Durante a coleta de dados realizava-se inicialmente, a medição do perímetro escrotal com auxílio de fita métrica, aferida
em centímetros, com precisão de 1,0mm; no ponto de maior
diâmetro testicular. Em seguida, procedia-se a medição da
temperatura retal (TR) utilizando-se um termômetro clínico
com escala em mercúrio de 35 a 43°C o qual era introduzido
no reto do animal onde permanecia por cerca de três minutos
e então era feita a leitura da temperatura. Após estas avaliações,
procedia-se a colheita dos ejaculados.
Os ejaculados foram colhidos pela técnica da vagina artificial, pois a mesma não provoca dor e produz um ejaculado
de melhor qualidade, comparada à técnica do eletroejaculador
(Chemineau et al., 1991; Evans e Maxwell, 1987). Após a inibição inicial, devido a presença de humanos, todos os animais
se submeteram a colheita voluntariamente. Utilizou-se uma
vagina artificial aquecida (41 a 42°C) e uma fêmea em estro
para estimulação do macho. De cada animal foram colhidos
seis ejaculados. Após a colheita o sêmen era mantido em banho-maria a 37 oC e imediatamente, avaliado quanto ao volume, aspecto, turbilhonamento, motilidade e vigor espermático
(Maia, 2010). Para a avaliação da motilidade espermática uma
pequena gota de sêmen foi depositada sobre uma lâmina de
vidro limpa e aquecida (37 ° C), diluída com uma gota de solução de citrato de sódio a 2,94% e coberta com lamínula e em
seguida, examinada sob microscopia óptica (400x). Três campos foram analisados por lâmina e a percentagem de espermatozoides móveis estimada subjetivamente. Para avaliação do
movimento de massa uma gota de sêmen puro foi depositada
sobre uma lâmina de vidro (37 ° C) e avaliada sob microscópio
óptico com uma ampliação de 100 x. O resultado foi expresso
em notas numa escala de 0 a 5, onde zero correspondia a ausência de turbilhonamento e cinco ao turbilhonamento máximo (Maia, 2010; Chemineau et al., 1991;. Evans e Maxwell,
1987). Em seguida retirava-se uma amostra para a determinação da concentração espermática (diluição de 1:400, hematocitômetro) e preparava-se um esfregaço com uma gota de sêmen
corada com eosina-nigrosina (Maia, 2010; Chemineau et al.,
1991; Evans e Maxwell, 1987) para posterior avaliação da mor-
21
Marciane da Silva MAIA et al.
fologia espermática e porcentagem de vivos. A morfologia espermática foi determinada em 200 espermatozoides/lâmina e
as anomalias observadas foram classificadas em defeitos maiores e defeitos menores conforme o modelo proposto por Blom
(1973). As avaliações foram feitas sob microscopia de luz (1000
x, sob imersão -BIOVAL – L1000, Brasil) com o auxílio de um
contador de células digital ([email protected], AS-24, Brasil).
Todas as avaliações foram realizadas no Laboratório de Tecnologia de Sêmen (LATES), localizado na estação experimental
da EMPARN, em Parnamirim-RN.
Análise estatística
Os dados foram analisados estatisticamente utilizando-se a
análise de variância (ANOVA) para determinar o efeito da raça
sobre os diferentes parâmetros considerados. As médias foram
comparadas pelo teste de Tukey a 95% de confiança.
Os valores percentuais foram submetidos à transformação
logarítmica para homogeneização das variâncias, e em seguida
submetidos à ANOVA. Realizou-se também a análise de correlação (coeficiente de correlação linear de Pearson) entre os
parâmetros espermáticos e a temperatura retal (TR) e perímetro escrotal (PE). Todas as análises foram realizadas com o auxílio do programa estatístico Statgraphics (Statistical Graphis
Corp., USA).
Os carneiros da raça Santa Inês e os mestiços apresentaram
motilidade significativamente maior que os da raça Dorper. A
concentração espermática, bem como, a porcentagem de vivos,
turbilhonamento e defeitos menores não diferiu significativamente entre as raças (Tabela 1). O valor médio da concentração
espermática foi 3.591,6 x106 sptz/mL.
O total de defeitos espermáticos (TDE) e o percentual de
defeitos maiores (DMA) diferiram significativamente entre as
raças. Os carneiros da raça Dorper apresentaram TDE e DMA
mais altos que aqueles observados para a raça Santa Inês e mestiços, os quais, não diferiram entre si (Tabela 1). Dentre as patologias espermáticas observadas, destacaram-se as patologias
de acrossoma (37,11%), cauda dobrada (13,63%), cauda fortemente dobrada (12,24%), gota proximal (10,20%), gota distal
(6,82%) e cabeça solta normal (5,13%).
O perímetro escrotal foi significativamente maior nos carneiros mestiços comparados aos Dorper e semelhante ao Santa Inês (Tabela 1). Houve baixa correlação positiva entre PE e
concentração espermática (Tabela 2).
A temperatura retal (TR) foi significativamente maior (P
< 0,05) nos carneiros da raça Dorper comparada à Santa Inês
e mestiços, os quais apresentaram médias semelhantes entre si
(Tabela 1).
Os parâmetros seminais, motilidade (MT), concentração e
vivos, correlacionaram-se negativamente, com a TR. EnquanRESULTADOS
to que o percentual de espermatozoides anormais (TDE) e o
percentual de DMA apresentaram uma alta correlação positiva
O volume do ejaculado diferiu significativamente (P<0,05) com a TR e uma correlação negativa com o PE. Observou-se
entre as raças. Os carneiros da raça Dorper apresentaram um também uma correlação positiva entre concentração espermáejaculado com volume maior, que os da raça Santa Inês e mes- tica e perímetro escrotal (Tabela 2).
tiços. A motilidade espermática também foi afetada pela raça.
Tabela 1 - Parâmetros seminais, testiculares e fisiológicos (media ± ep) de carneiros das raças Santa Inês, Dorper e Mestiços, no nordeste do Brasil
Raça
Média Geral
(n = 102)
CV
(%)
1,00±0,1b
1,02±0,03
38,96
3936,3±204,2
3492,4±174,9
3591,6±116,1
32,69
77,8 ± 3,2b
85,5 ± 2,2a
85,2 ± 1,4a
81,9 ± 1,5
15,84
Vivos (%)*
82,7±1,7
83,0±2,1
84,9±1,3
83,7±1,0
11,35
MM (0 - 5)
4,2±0,1
4,3±0,1
4,3±0,1
4,3±0,1
15,04
Vigor (0 - 5)
4,00±0,1
4,4±0,1
4,2±0,1
4,2±0,1
17,31
TDE (%)
26,2±3,8a
17,7±1,3b
15,3±1,3b
19,2±1,5
20,32
DMA (%)
21,5±3,8
12,4±1,4
10,8±0,9
14,4±1,2
25,68
DME (%)
4,8± 0,6
5,3±0,7
4,5±0,7
4,8± 0,4
62,63
PE (cm)
TR (°C)
35,0± 0,4b
39,59±0,11a
35,1 ± 0,4ab
38,68±0,09b
36,1 ± 0,3a
38,68±0,11b
35,6 ± 0,2
38,92±0,14
6,00
2,84
Parâmetro
Dorper
(n = 30)
Santa Inês
(n = 30)
Mestiços
(n = 42)
V (mL)
1,27±0,1a
0,81±0,1c
C (x106/mL)
3375,6±208,4
MT (%)
a
b
b
Médias seguidas de letras diferentes na mesma linha diferem entre si a P < 0,05, pelo teste de Tukey. *Coloração vital. V: volume; C: concentração espermática; MT:
motilidade total; MM: turbilhonamento; TDE: total de defeitos espermáticos; DMA: defeitos maiores; DME: defeitos menores; PE: perímetro escrotal; TR: temperatura
retal.
22
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 20-25 - janeiro/abril, 2015
Características seminais de carneiros das raças Dorper, Santa Inês e mestiços em condições de clima tropical
Tabela 2 - Coeficiente de correlação linear de Pearson (r) entre a temperatura retal (TR) e perímetro escrotal (PE) com os parâmetros espermáticos
V
C
MT
MM
VIVOS
TDE
DMA
DME
TR
0,17
-0,21*
-0,28*
-0,19
-0,20*
0,79**
0,86**
0,16
PE
0,06
0,20
0,09
0,15
0,09
-0,34
-0,31
-0,14
*
**
**
*P<0,05 ** P<0,01. V: volume, C: concentração espermática, MT: motilidade total, MM: turbilhonamento, TDE: total de defeitos espermáticos, DMA: defeitos maiores,
DME: defeitos menores, PE: perímetro escrotal, TR: temperatura retal.
DISCUSSÃO
Os valores dos parâmetros seminais e testiculares avaliados
diferiram entre os três grupos de animais estudados e variaram bastante em comparação com diversos estudos realizados
com ovinos deslanados (Maia et al., 2011; Frazão Sobrinho et
al., 2009; Souza et al., 2007; Fourie et al., 2004). Porém, eliminando-se o fator raça, o valor médio de todos os achados está
de acordo com os valores recomendados para a espécie ovina
(CBRA 2013; Evans e Maxwell, 1987). A diferença entre os três
grupos de carneiros pode ser atribuída às variações no grau de
tolerância dos indivíduos ao estresse térmico. De acordo com
Chemineau et al. (1991) a temperatura ambiente elevada observada em regiões tropicais, especialmente na estação seca, pode
interferir com a termorregulação testicular refletindo negativamente sobre a espermatogênese e, portanto, sobre a qualidade
do sêmen. Para avaliar a tolerância dos carneiros ao estresse térmico foi medida a temperatura retal dos animais, uma vez que
este parâmetro tem sido utilizado para esta finalidade (Mota,
1997). A temperatura retal média (TR) dos animais foi de 38,9
°C, semelhante à referida por Raslan (2008) para fêmeas e machos no turno matutino e estava dentro do intervalo de termoneutralidade (38,8-39,9 °C) descrito por Marai et al. (2007)
em ovinos. No entanto, houve diferença significativa entre as
raças para TR, com os animais da raça Dorper mostrando os valores mais altos. Provavelmente, as condições ambientais sob as
quais o estudo foi realizado foram estressante para os animais
desta raça que eram menos tolerantes ao estresse térmico do
que os animais Santa Inês e mestiços. Cezar et al. (2004) também relataram os animais Dorper e mestiços demonstraram
menor grau de adaptabilidade ao ambiente semiárido do que
os Santa Inês. Em nosso estudo, a média do ITU pela manhã
foi de 85,9 que está na faixa considerada de emergência. O
ITU é um índice de conforto térmico que pode ser relacionado
com o desempenho do animal; quando acima da normalidade (até 70 normal; 71-78 crítico; 79-83 situação de perigo;
84 ou maior emergência; Hahn 1985 citado por Raslan, 2008)
ocassiona estresse térmico e alterações fisiológicas e comportamentais nos animais, podendo comprometer a produtividade
e sobrevivência. Trabalhando com os mesmos genótipos aqui
avaliados (Santa Inês, Dorper e mestiços) Cezar et al. (2004)
observaram que um ITU de 82,4 obtido no turno da tarde causou estresse térmico em todos os animais, resultando em elevação da temperatura retal, frequência respiratória e frequência
cardíaca. Porém, os machos Dorper e mestiços apresentaram
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 20-25 - janeiro/abril, 2015
frequência respiratória, significativamente mais elevada que os
Santa Inês. Possivelmente como mecanismo para eliminar o
excesso de calor.
Em carneiros, as características seminais mais afetadas pela
temperatura ambiente elevada são a motilidade, vigor, concentração e morfologia (Maia et al., 2011; Moreira et al., 2001;
Freitas e Nunes, 1992). Além disso, a elevação da temperatura retal a 39-39,5 °C afeta a espermatogênese, resultando no
aparecimento de espermatozoides anormais no ejaculado algumas semanas mais tarde (Chemineau et al., 1991). Em nosso
estudo, as anormalidades espermáticas mais frequentes foram
as de acrossoma, cauda dobrada e enrolada, gota proximal e
distal e cabeças soltas normais. Estes tipos de defeitos estão
relacionados ao estresse térmico e / ou degeneração testicular
(Moreira et al., 2001; Santos e Simplício, 2000; Barth e Oko,
1989). O percentual médio de anormalidades espermáticas
totais (19,2%) foi inferior ao encontrado em outros estudos
com animais da raça Dorper e Santa Inês (Maia et al., 2011;
Souza et al., 2007; Fourie et al., 2004). No entanto, ao compararmos os três grupos de animais avaliados, observamos que os
da raça Dorper apresentaram um maior percentual de defeitos
espermáticos totais (TDE; 26,2%) e defeitos maiores (DMA),
comparado às outras raças, valor este superior ao recomendado
para espécie (CBRA, 2013). A constatação da temperatura retal
mais elevada na Dorper que nas outras raças é indicativo de
que esses animais estavam sofrendo estresse térmico nas nossas
condições climáticas. Além disso, foi observada uma alta correlação positiva entre TDE e DMA com a TR. Assim, quanto
mais elevada for a TR maior será a porcentagem de anomalias
espermáticas. De acordo com Fourie et al. (2004) os carneiros
da raça Dorper acumulam uma grande quantidade de gordura
no tecido subcutâneo do cordão espermático e bolsa escrotal.
Essa gordura escrotal pode interferir com o mecanismo de
termorregulação testicular, o qual é essencial para uma ótima
espermatogênese. Assim, todos esses fatores podem ter contribuído para a maior porcentagem de TDE e DMA observados
na raça Dorper. Estes achados demonstram ainda, a influência
da temperatura corporal elevada, em situações de estresse calórico, sobre as características seminais, em particular a morfologia espermática.
A motilidade espermática também foi afetada pela raça.
Os carneiros da raça Santa Inês e os mestiços apresentaram
sêmen com motilidade espermática superior aos da raça Dorper, cujo valor (77,8%) foi inferior ao mínimo aceitável para
sêmen ovino colhido em vagina artificial (CBRA, 2013). Essa
diferença pode ser atribuída ao alto percentual de TDE obser-
23
Marciane da Silva MAIA et al.
vado na Dorper, uma vez que existe uma relação negativa entre
motilidade e anormalidade espermática (Bearden et al., 2004).
Esse fato foi verificado em nosso estudo onde os dois grupos
de animais com maior motilidade espermática (Santa Inês e
Mestiços), também foram os que apresentaram o menor porcentual de células anormais, em relação ao Dorper.
O perímetro escrotal diferiu entre os três grupos de animais sem, no entanto, apresentar qualquer efeito sobre a concentração espermática. Essa diferença pode ser atribuída à
predominância do formato testicular longo-oval (Araújo et
al., 2011) na raça Dorper, afetando o valor do PE em relação
às outras raças. Observou-se também, uma ampla variação no
perímetro escrotal em comparação com outros estudos realizados com animais deslanados (Salgueiro e Nunes, 1999; Bittencourt et al., 2003; Fourie et al., 2004; Monteiro, 2007; Maia et
al., 2011), possivelmente em decorrência da variação na idade
e peso dos animais, bem como, às diferenças no manejo nutricional dispensado aos mesmos (Siqueira Filho, 2007; Bittencourt et al., 2003).
CONCLUSÕES
Os carneiros Santa Inês e os mestiços mostraram-se bem
adaptados às condições de clima e manejo da região onde o
estudo foi realizado, produzindo sêmen de boa qualidade. Já
os da raça Dorper demonstraram alterações espermáticas que
podem comprometer sua capacidade fecundante, sendo necessário proporcionar a estes animais as condições adequadas de
ambiente e manejo que favoreçam a produção de sêmen de
boa qualidade.
A termorregulação testicular influencia diretamente as características seminais, em particular a morfologia espermática,
sendo o estresse calórico decorrente das altas temperaturas ambientais, um fator de efeito negativo sobre essa característica.
A medição da temperatura retal pode ser utilizada como um
parâmetro de avaliação da tolerância dos indivíduos ao estresse
calórico e um indicador do seu impacto na qualidade seminal.
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25
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 26-31 - janeiro/abril, 2015
Ocorrência espontânea de
linfoma maligno em ovelha:
Relato de caso
Rafael Otaviano do REGO¹, José Claudio de Almeida SOUZA², Carla Lopes de
MENDONÇA³, Rafael José da SILVA³, Nivan Antônio Alves da SILVA³, Franklin RIETCORREA4, José Augusto Bastos AFONSO³.
RESUMO
¹ Programa de Pós-Graduação em Ciência
Veterinária, Universidade Federal Rural
de Pernambuco; Av. Dom Manoel de
Medeiros, s/n; Dois Irmãos; Recife-PE,
Brasil; 52171-900.
E-mail: [email protected]
Autor para correspondência.
² Unidade Acadêmica de Garanhuns,
UFRPE, Garanhuns, PE. 55.292-901.
³ Clínica de Bovinos, Campus Garanhuns
da Universidade Federal Rural de
Pernambuco. Av. Bom Pastor, s/n. CP 152.
Boa Vista. Garanhuns-PE. 55 292-270.
4
Hospital Veterinário, Centro de Saúde e
Tecnologia Rural (CSTR), Universidade
Federal de Campina Grande, Campus de
Patos, 58700-000, Patos, PB, Brasil.
Os relatos na literatura de linfoma em ovinos são escassos, logo o objetivo deste trabalho é
relatar a ocorrência dessa doença em uma ovelha atendida na Clínica de Bovinos, Campus-Garanhuns/UFRPE. Os achados foram obtidos de uma ovelha mestiça de quatro anos, pesando 40
kg, criada em sistema semi-intensivo. O proprietário relatou que adquiriu esse animal há três
meses de outro rebanho e que há dois observou que o animal ficou apático, com perda do apetite e separado do rebanho, foi medicado na propriedade sem sucesso. Clinicamente apresentou
um quadro de apatia, taquicardia, caquexia, anorexia, bem como hipomotilidade ruminal e
intestinal. No hemograma evidenciou-se leucocitose por neutrofilia, com presença de leucócitos degenerados no esfregaço sanguíneo. A sorologia (IDGA) para vírus da Leucose Enzoótica
Bovina foi negativa. Além desses achados, a ultrassonografia revelou um comprometimento
pulmonar grave. O animal veio a óbito após sete dias. Na necropsia observou-se uma massa no
tecido subcutâneo, aderida à região torácica caudal esternal, firme com características nodular
e de coloração esbranquiçada. Nodulações idênticas e de tamanhos menores foram visualizadas
na serosa do retículo e abomaso, com metástases nos rins, omento, linfonodos mesentéricos,
diafragma, coração e pulmão. A histopatologia revelou estruturas atípicas disposta na forma
de manto, com múltiplos vacúolos, com estroma fibroso entremeado. As células tumorais caracterizam-se por serem pequenas e arredondadas, basofílicas, com citoplasma escasso, núcleo
grande e redondo, hipercromático, com cromatina densa e com raras mitoses. Estes achados
indicam uma forma de linfoma espontâneo em ovelha.
P A L A V R A S - C H A V E Ovino, neoplasia, linfoma, tumor, caquexia
Spontaneous Occurrence of Malignant Lymphoma in Sheep: Case
Report
ABSTRACT
There are very few reports of lymphoma in sheep in the literature. Therefore, the aim of
the present study was to report the prevalence of this disease among sheep cared for in the
Clinic of Cattle in the Campus Garanhuns of the Federal Rural University of Pernambuco
(UFRPE). The results were obtained from a four year old sheep (weight 40 kg) that had been
reared in a semi-intensive system. The owner reported that he had acquired this animal three
months earlier from another herd and that, one month later; he had noticed that the animal
was apathetic, no appetite and distanced itself from the herd. The animal was treated unsuccessfully on the farm. The animal exhibited clinical signs of apathy, tachycardia, cachexia and
anorexia, as well as ruminal and intestinal hypomotility. The hemogram showed evidence of
leukocytosis by neutrophilia, with the presence of deteriorated leukocytes in the blood smear.
The serology (IDGA) for the enzootic bovine leukosis virus was negative. The ultrasound confirmed severe lung disease. The animal died after seven days. In the necropsy there was a mass
in the subcutaneous tissue adhered to chest sternal there was a notable increase in the volume
adhered in the external caudal subcutaneous region, with nodular characteristics and a whitish
coloration. Identical, although smaller, nodulations were visualized in the serous membrane of
the reticulum and the abomasum, with metastases in the kidneys, omentum, mesenteric lymph
26
Ocorrência espontânea de linfoma maligno em ovelha: Relato de caso
nodes, diaphragm, heart and lungs. The histopathology revealed atypical mantle structures,
with multiple vacuoles and interspersed fibrous stroma. The tumoral cells were small, round,
basophilic, with scarce cytoplasm and a large, round nucleus, with hyperchromatic qualities,
dense chromatin and rare mitosis. The results of the present study confirm that this was a case
of atypical lymphosarcoma in the sheep in question.
K E Y W O R D S sheep; neoplasia; lymphoma; tumor, cachexia.
INTRODUÇÃO
MATERIAL E MÉTODOS
A ocorrência de neoplasias em animais domésticos é frequentemente observada, no entanto estudos sobre as prevalências de tumores em pequenos ruminantes são escassos, principalmente por conta do abate desses animais em idade precoce
(Ramos et al., 2008; Pawaiya & Pawam, 2011).
Os principais sistemas acometidos por tumores nessas
espécies são os sistemas tegumentar e reprodutor, tendo com
maior frequência os de origem epitelial. Entre as neoplasias, o
linfossarcoma de forma espontânea raramente acometem ovinos, apesar desta espécie se mostrar susceptível (Valentine &
Mcdonough, 2003; Ramos et al., 2008; Carvalho et al., 2014).
O linfossarcoma faz parte das “neoplasias linfoides” e, é
um distúrbio linfoproliferativo onde o tumor se inicia mais
frequentemente em órgãos hematopoiéticos sólidos, como os
linfonodos, baço ou tecido linfoide associado à mucosa e, menos frequentemente, em órgãos não linfoides (Panziera et al.,
2014).
A transformação neoplásica de um tipo celular da linhagem linfocitária ocasiona expansão descontrolada de clones
dessa célula. A causa dessa alteração geralmente é desconhecida, porém pode estar associado à exposição ao vírus da leucose
bovina (VLB), como demonstrado experimentalmente em ovinos (Olson & Baungartener, 1976; Valentine & Mcdonough,
2003; Pugh, 2004).
Embora não completamente elucidada, a patogênese dessa
doença está relacionada a produtos do complexo de histocompatibilidade principal e glicoproteínas expressas na superfície
das células B receptoras em decorrência da ação viral, ligadas
a peptídeos presentes em células T apresentadoras de antígenos. Demonstrou-se também que ovinos inoculados com VLB
apresentam quadros de linfocitose, com alto número de linfócitos do tipo B e linfossarcomas com este mesmo tipo celular
em curtos períodos de tempo, o que viabiliza estudos de patogênese dessa doença, tanto em ovinos como bovinos (Olson &
Baungartener, 1976).
A importância econômica da ocorrência de linfossarcomas reside nas perdas acarretadas por vários fatores como:
custos com o diagnóstico, o tratamento das complicações secundárias, descarte prematuro ou morte dos animais, particularmente daqueles com alto potencial genético, e condenação
de carcaças em frigoríficos (Silva-Filho et al., 2011).
Devido às poucas descrições de linfossarcoma em ovinos,
a finalidade deste trabalho é relatar a ocorrência clínica e anatomopatológica dessa enfermidade em uma ovelha no Agreste
de Pernambuco.
As descrições dos achados foram obtidas a partir de um
ovino, atendido na Clínica de Bovinos, Campus Garanhuns/
UFRPE, fêmea, mestiça e com quatro anos de idade, pesando
40 kg, oriunda de uma fazenda no município de São João-PE,
compondo um rebanho de 50 animais. Na anamnese, o proprietário relatou que há dois dias observou que o animal estava
apático, com perda do apetite e separado do rebanho, tendo
sido medicado na propriedade sem sucesso. Foi relatado que
esse animal juntamente com os demais foi trazido a três meses
de outro estado e apenas um animal adoeceu. Os animais eram
criados em sistema semi-intensivo, cuja alimentação diária era
constituída de capim elefante (Pennisetum purpureum), capim pangola (Digitaria decumbens) e 500g ração - a base de farelo de milho e trigo - fornecida duas vezes ao dia e sal mineral
ad libitum. O exame clínico foi realizado segundo Radostits
et al. (2007).
Para avaliação hematológica o sangue foi coletado em
tubos de vidro com anticoagulante EDTA a 10%, no qual se
realizou o hemograma, a determinação da proteína plasmática
total e o fibrinogênio plasmático seguindo a metodologia proposta por Jain (1993).
Foram coletadas amostras de soro do animal em questão
e em 20 ovinos (± 20% do rebanho) da propriedade, adultos e
de ambos os sexos. As amostras foram submetidas à prova de
imunodifusão em Gel de Agar (IDGA), com antígeno glicoproteico para a detecção de anticorpos contra o vírus da Leucose Enzoótica Bovina (LEB), conforme técnica descrita por
Flores et al. (1988).
O exame ultrassonográfico foi realizado no antímero direito com o animal em posição quadrupedal, sem sedação e
após ampla tricotomia compreendendo a caudalmente o 11o
espaço intercostal (EIC), dorsalmente na altura da cartilagem
da escápula, cranialmente o 6o (EIC) e ventralmente a linha
mediana caudal ao esterno, segundo a técnica descrita por
Flöck (2004) utilizando um transdutor convexo de 3,5 MHz1.
Durante o período em que permaneceu internado, nove dias, o
quadro clínico agravou-se e foi indicada a eutanásia, conforme
Luna & Teixeira (2007). O animal foi encaminhado ao exame
necroscópico.
Durante a necropsia foram colhidos fragmentos do rúmen, reticulo, abomaso, linfonodos, rins, coração, pulmão e
diafragma, fixados em formol a 10%. Estes fragmentos foram
processados rotineiramente e corados pela hematoxilina e eosina (HE) para avaliação descritiva da lesão (Barros & Marques,
2003).
1
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 26-31 - janeiro/abril, 2015
Ultrassom GE – Logiq 100 pro.
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RafaelOtavianodoRego¹José
, ClaudiodeAlmeidaSouza²,CarlaLopesdeMendonça³,RafaelJosédaSilva³,NivanAntônioAlvesdaSilva³,FranklinRiet-Correa4,JoséAugustoBastosAfonso³.etal.
RESULTADOS
Os principais sinais clínicos observados durante o exame
físico foram apatia, escore nutricional regular (II), presença de
moderado edema submandibular e grau de desidratação de
8%. Além de anorexia, taquicardia, taquipnéia, hipomotilidade
ruminal e abomasal. O animal apresentava dificuldade de expansão pulmonar, com áreas de hipofonese, com a respiração
predominantemente abdominal e na auscultação observaram-se sibilos na porção dorsal do pulmão direito. A temperatura
se manteve dentro da faixa de normalidade para a espécie.
No hemograma observou-se que não houve alterações na
série vermelha, proteína plasmática total e fibrinogênio plasmático, porém no leucograma foi constatado leucocitose por
neutrofilia e a presença de leucócitos degenerados (Tabela 01).
A prova de IDGA revelou resultado negativo para o animal
Tabela 1 - Resultado hematológico de uma ovelha SRD, atendida na
Clínica de Bovinos, Campus-Garanhuns da UFRPE com linfossarcoma
atípico.
Valores
Avaliação
Hematológica
Hematológicos
Referência*
Eritrócitos (x106/μL)
10,1
(9,0-15,0)
Hematócrito (%)
41
(27,0-45,0)
Hemoglobina (g/dL)
14,9
(9,0-15,0)
VCM (fL)
40,59
(28,0-40,0)
CHCM (%)b
36,34
(31,0-34,0)
Leucócitos (/μL)
14.100
(4,0-12,0)
Neutrófilos (/μL)
10.857
(700-6.000)
Linfócitos (/μL)
3243
(2.000-9.000)
PPT (g/dL)
6,4
(6,0-7,5)
Fp (mg/dL) d
400
(100-500)
a
c
* Fonte: Kramer (2000); a VCM: Volume Corpuscular Médio; b CHCM:
Concentração Corpuscular Média, c Proteína plasmática total, d Fibrinogênio
Plasmático.
A
atendido e os demais do rebanho analisados.
O exame ultrasonográfico do antímero direito, entre 11º e
6º espaços intercostais, evidenciou presença de grande quantidade de conteúdo líquido, com aspecto predominantemente
anaecóico, deslocando medialmente os pulmões, aproximadamente 11 cm, e provocando a distensão caudal do campo torácico. No interior do conteúdo anaecóico foram identificados
filamentos ecogênicos livres sugestivos de fibrina. No 6º espaço intercostal, na altura da linha do cotovelo, foi evidenciado
saco pericárdico deslocado medialmente, aproximadamente 5
cm, por conteúdo anaecóico similar ao observado nas outras
janelas acústicas. Foram observados depósitos e filamentos ecogênicos aderidos à superfície do saco pericárdico sugestivos de
aderências e fibrina.
Ao exame anatomopatológico, observou-se uma massa no
tecido subcutâneo, aderida a região torácica caudal esternal, de
consistência firme com características nodular e de coloração
esbranquiçada. Nodulações com as mesmas características e de
tamanhos menores foram visualizadas de forma focal na serosa
do reticulo, do rúmen e multifocal infiltrada com expansão
mural na serosa do abomaso (Figura 01-A).
Além desses órgãos, foi observada, ainda, uma massa de
aproximadamente cinco centímetros, com mesmas características, no omento (Figura 01-B) e esta lesão também foi evidenciada nos linfonodos mesentéricos (Figuras 02-A). Constataram-se ainda no córtex renal áreas esbranquiçadas circulares,
irregulares multifocais que se aprofundavam ao parênquima
(Figura 02-B). Na cavidade torácica além da pleuropneumonia
exsudativa e a grande quantidade de derrame cavitário sero-sanguinolento, massas semelhantes foram observadas na face
abdominal do diafragma, no epicárdio direito e lobo apical
direito do pulmão (Figuras 02-C e D).
Os achados histopatológicos das estruturas nodulares revelaram massas com estruturas atípicas disposta na forma de
manto, com múltiplos vacúolos de diversos tamanho, distribuídos aleatoriamente e com um discreto estroma fibroso
(Figura 3-A). Essas células tumorais caracterizam-se por serem
pequenas e arredondadas, basofílicas, com citoplasma escasso, núcleo grande e redondo, hipercromático, com cromatina
densa e basófílica, e nucléolo pouco evidente, além de discreto
pleomorfismo. Observaram-se raras mitoses. (Figura 03-B).
B
Figura 1 - Linfossarcoma linfocítico no sistema digestório de uma ovelha adulta na CBG/UFRPE. A. Massas tumorais na serosa e parede do abomaso
e retículo. B. Presença de massa tumoral de aproximadamente cinco centímetros de diâmetro no omento (seta).
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Ocorrência espontânea de linfoma maligno em ovelha: Relato de caso
Figura 02: Linfossarcoma linfocítico em diversos órgãos de uma ovelha adulta na CBG/UFRPE. A. Linfonodo mesentérico aumentado de tamanho.
B. Massa tumoral na superfície e parênquima da cortical dos rins. C. Massa tumoral focal no diafragma (seta), D. Massa tumoral focal no epicárdio
direito (seta)
Figura 03: Achados histológicos do linfossarcoma em ovelha CBG/UFRPE. A. Massa com discreto estroma fibroso entremeado e com múltiplos vacúolos de tamanhos variados (10x). B. Células tumorais pequenas e arredondadas, basófílicas, com citoplasma escasso, núcleo grande e redondo, com
cromatina densa e basófílica e nucléolo pouco evidente (40x).
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RafaelOtavianodoRego¹José
, ClaudiodeAlmeidaSouza²,CarlaLopesdeMendonça³,RafaelJosédaSilva³,NivanAntônioAlvesdaSilva³,FranklinRiet-Correa4,JoséAugustoBastosAfonso³.etal.
DISCUSSÃO
A associação das informações obtidas nos achados clínicos
e laboratoriais, principalmente na macroscopia e histopatologia ratificou o diagnóstico de linfossarcoma. A ocorrência de
forma espontânea em ovinos é rara, e tem muita similaridade
a forma esporádica ou linfossarcoma juvenil em bovinos, na
qual nem o vírus da leucemia bovina nem anticorpos contra
o VLB estão associados. Tal achado se assemelha como ao encontrado em cabras acometidas com a forma natural de linfossarcoma (Smith & Sherman, 2009). Geralmente o diagnóstico
do linfossarcoma, como no animal em estudo, é constatado em
animais acima de dois anos de idade (Johnstone & Manktelow
1978, Anjos et al. 2010).
Os achados clínicos desse relato são semelhantes aos encontrados por DiGrassie et al. (1997) e Anjos et al. (2010), os
quais relataram que a rápida deterioração da condição física,
ocorre quando os sinais clínicos são notados. Em caprinos acometidos com linfossarcoma geralmente podem ter uma variedade de sinais clínicos incluindo febre, emaciação, dispneia e
diarreia, com a morte ou a eutanásia ocorrendo em uma semana a dois meses na maioria dos casos. Achados estes observados
no caso em estudo.
Mesmo o animal atendido sendo um adulto, os ovinos
apresentam uma prevalência baixa para ocorrência de linfossarcoma devido essa espécie ser abatida de forma precoce, ou
seja, antes da meia-idade e por isso tem menor probabilidade
de desenvolver tumores (Ramos et al., 2008). Apesar da baixa
ocorrência, Valli (2007) descreve que cerca de 30-60% dos ovinos jovens infectados desenvolvem linfossarcomas de células
B. Linfomas em pequenos ruminantes não apresentam predisposição por sexo nem raça (Jacobs et al., 2002).
A leucocitose por neutrofilia pode ser interpretada como
consequência da condição inflamatória que estava acometendo o pulmão (Jain, 1993; Radostits et al., 2007). Estes achados,
associados ao resultado negativo do IDAG, se assemelham a
forma esporádica do linfossarcoma juvenil em bovinos, que
não está associada ao vírus da LEB em bovinos, na qual pode
também ser observado leucocitose persistente por linfocitose,
além da presença de linfócitos atípicos na circulação (Barros,
2007; Radostits et al., 2007).
Geralmente, a distribuição das lesões do linfoma em pequenos ruminantes é idêntica às observadas em bovinos, sendo a forma multicêntrica a mais observada nessas espécies.
Nos ovinos os linfonodos ilíacos, cervical e mediastínicos são
os frequentemente mais afetados. Outros órgãos comumente
afetados em ovinos e caprinos com linfoma são baço, fígado,
rim, trato alimentar, músculo esquelético e coração. Ocasionalmente as lesões macroscópicas em ovinos são encontradas nos
rins e trato alimentar, como foi constatado no caso em estudo
(Parodi, 1987; Southwood et al., 1996; Jacobs et al., 2002)
As alterações renais observadas nesse estudo são mais descritas em casos espontâneos de ovelhas com linfossarcomas
conforme os casos descritos por Johnstone & Manktelow
(1978) e Anjos et al. (2010), do que nos casos experimentais
como relatado por Olson & Baumgartener (1976), onde a tumoração geralmente ocorre de forma bilateral na forma de
30
nódulos que podem ser salientes ou não, frequentemente múltiplos, acometendo mais o córtex do que a região medular e
que segundo Jacobs et al. (2002) muitas vezes é o único achado
macroscópico de linfomas em ovinos.
A apresentação multicêntrica observada no animal em
questão é a forma predominantemente no ovino, conforme relato de Anjos et. al. (2010). Outras formas como a cutânea e tímica também podem ocorrer como as descritas por Johnstone
& Manktelow (1978). A forma multicêntrica nesse caso afetou
a serosa do rúmen e do abomaso e parênquima renal, causando linfoadenomegalia simétrica e envolvendo outros órgãos,
assim como observado nos ovários em caprinos (Digrassie et.
al., 1997), além do fígado, rins, linfonodos, baço, trato alimentar, músculos esqueléticos e coração (Johnstone & Manktelow,
1978; Valentine & Mcdonough, 2003).
As alterações microscópicas encontradas na ovelha de
proliferação de células neoplásicas arranjadas em mantos,
sustentada por um fino estroma fibrovascular, são descritas
comumente nos casos espontâneos em pequenos ruminantes
(Digrassie et al., 1997; Anjos et al., 2010) e nos casos experimentais (Olson & Baumgartener, 1976; Djilali & Parodi et al.,
1989).
Com base nos achados clínicos-patológicos confirmou-se
o diagnóstico de linfossarcoma multicêntrico, aumentando a
casuística conjuntamente aos casos encontrado no Sul do Brasil por Anjos et. al. (2010), e fora do país por Jacobs et al. (2002).
CONCLUSÃO
Os achados encontrados contextualizam os relatos da literatura, que são poucos, sobre o comprometimento da vida produtiva dos animais quando acometidos com esta enfermidade.
A constatação de casos espontâneos, como o em estudo, na forma multicêntrica, devem ser analisados quanto a sua origem e
os riscos que possam representar para a sanidade do rebanho.
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Pesquisa Veterinária Brasileira, v.34. n. 9, p. 856-864, 2014.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 26-31 - janeiro/abril, 2015
31
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
Efeito da suplementação
de três concentrações de
taurina ao sêmen caprino
criopreservado
Rafael LIMONGI de Souza¹, Robespierre Augusto Joaquim ARAÚJO SILVA², André
Mariano BATISTA², Maria Madalena Pessoa GUERRA², Sildivane Valcácia SILVA¹
RESUMO
1
Laboratório de Biotecnologia em
Reprodução Animal (LABRA), Centro de
Biotecnologia (CBiotec), UFPB,
João Pessoa/PB.
² Laboratório de Andrologia
(ANDROLAB), Departamento de
Medicina Veterinária, UFRPE, Recife/PE.
*E-mail: [email protected]
Objetivou-se avaliar o efeito da adição de diferentes concentrações de taurina ao sêmen caprino pós-descongelação. Utilizou-se sêmen criopreservado de caprinos Boer (n=3), onde foram
descongeladas duas palhetas de cada reprodutor (37 ºC/30 s) e as amostras foram homogeneizadas. Quatro grupos experimentais foram formados: GC= grupo controle (sêmen com adição
de meio essencial mínimo); G1= sêmen + 5 mM de taurina; G2= sêmen + 25 mM de taurina;
G3= sêmen + 50 mM de taurina; submetidos à avaliação de cinética espermática e integridade
de membrana plasmática, acrossoma e função mitocondrial nos momentos após formação dos
grupos amostrais (T0), uma (T1) e três (T3) horas pós-descongelação. Foram realizadas seis
repetições. Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA, One way) e teste de
Tukey, com nível de significância de 5%. O GC apresentou redução (p<0,05) para os valores de
motilidade total, motilidade progressiva, percentual de espermatozoides rápidos e frequência
de batimento cruzado no T3, resultado não observado para os grupos tratados com taurina.
Não foram observadas diferenças (p>0,05) para os demais parâmetros cinéticos e de integridade
das membranas espermáticas entre os grupos tratados e o grupo controle. Mediante o exposto,
conclui-se que a taurina, nas concentrações de 5, 25 e 50 mM mantem a motilidade total, motilidade progressiva, percentual de espermatozoides rápidos e frequência de batimento cruzado
de espermatozoide caprino após três horas pós-descongelação.
P A L A V R A S - C H A V E Aminoácido; espermatozoide; motilidade
Effect on supplementation of three taurine´s concentration in
cryopreserved goat sperm
ABSTRACT
This study aimed to evaluate the effect of different concentrations of taurine to post-thaw
goat semen. It was used goat cryopreserved semen Boer (n=3); two pallets of each breeding
animal were thawed (37 °C/30 s) and samples were homogenized. Four experimental groups
were formed: CG= control group (semen with minimal essential medium); G1= semen + 5
mM taurine; G2= semen + 25 mM taurine; G3= semen + 50 mM taurine; assessed for sperm
kinetics, plasma membrane and acrosome integrity, and mitochondrial function after the sample groups formation: at thawing moment (T0), one (T1) and three (T3) hours post-thaw. Six
replicates were performed. Data were subjected to variance analysis (ANOVA, One way) and
Tukey’s test at 5% significance level. The CG decreased (p<0.05) values for total motility, progressive motility, rapid sperm and beat cross frequency after T3, which was not observed in the
groups treated with taurine. No observed differences (p>0.05) to other kinematic parameters
and integrity of sperm membranes among the treated groups and the CG. Thus, in conclusion,
the taurine at concentrations 5, 25 and 50 mM preserves total motility, progressive motility,
rapid sperm and beat cross frequency of goat sperm after three hours post-thaw.
K E Y W O R D S 32
amino acid; sperm; motility
Efeito da suplementação de três concentrações de taurina ao sêmen caprino criopreservado
INTRODUÇÃO
2. MATERIAL E MÉTODOS
A criopreservação é uma biotécnica que permite preservar
tecidos biológicos ou células, como os espermatozoides, por
tempo indeterminado através da congelação a temperatura de
-196 ºC. Esta biotécnica pode induzir danos letais ou subletais
à célula espermática devido à mudança de temperatura (WATSON, 2000) e ao estresse osmótico provocado durante a congelação e descongelação do sêmen (PARKS e GRAHAM, 1992).
As lesões causadas pelo processo de criopreservação às
estruturas que conferem motilidade e viabilidade espermática também podem ser induzidas pela formação de radicais
livres, entre eles estão as espécies reativas de oxigênio (ROS). O
aumento de ROS no meio celular pode exceder a capacidade
protetora do sistema antioxidante, provocar lesões nas estruturas celulares e desencadear o processo de estresse oxidativo
(SIKKA et al., 1995).
O sistema antioxidante participa no bloqueio da ação dos
radicais livres antes que causem a lesão, ou como reparador da
lesão ocorrida. Estes agentes estão presentes no plasma seminal
e nos espermatozoides (BILODEAU et al., 2002), entretanto, os
espermatozoides criopreservados de caprino são desprovidos
de antioxidantes extracelulares, devido à retirada do plasma seminal (NUNES, 1982), o que justifica a necessidade da adição
de antioxidantes antes da congelação ou pós-descongelação.
A taurina é um aminoácido que não participa da síntese proteica, mas tem função na excreção de colesterol, atuando como neurotransmissor, osmorregulador e como potente
antioxidante (HUXTABLE, 1992; BOUCKENOOGHE et al.,
2006). O uso da taurina como forma de melhorar a qualidade
do sêmen tem o objetivo de minimizar danos causados pela
geração excessiva de radicais livres, diminuindo o ataque de
ROS à membrana da célula.
Em estudos com búfalos da raça Murrah e de gado da raça
Karan Fries, Kumar et al. (2013) notaram que a incorporação
de taurina (50 mM) ao diluente preservou significativamente a
motilidade, viabilidade e integridade das membranas espermáticas. Perumal et al. (2013) observaram em seus estudos, com
bovinos da raça Mithun, que a inclusão de taurina (25, 50 e
100 mM) ao diluente reduziu os percentuais de espermatozoides mortos, com alterações de cauda e anormalidades acrossômicas, atribuindo essas melhorias à atividade antioxidante
da taurina que impediu a geração excessiva de ROS. Alvarez e
Storey (1983) utilizaram à taurina (0,5 mM) na criopreservação de sêmen de coelhos e observaram a redução dos índices
de peroxidação lipídica com melhora na taxa de motilidade
espermática, e Bucak et al. (2007) observaram que a adição de
taurina (25 e 50 mM) ao sêmen ovino promoveu o aumento
dos níveis de vitamina E, antioxidante responsável pela preservação da membrana plasmática.
Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi avaliar o
efeito da adição de taurina ao sêmen caprino pós-descongelação.
Exceto os especificados, todos os químicos utilizados neste estudo foram adquiridos da Sigma-Aldrich®, St Louis, MO,
USA.
Neste trabalho foram utilizadas amostras congeladas de
sêmen de reprodutores caprinos da raça Boer (n=3), obtidas
em central de reprodução. Foram descongeladas duas palhetas
de cada reprodutor (37 ºC/30 s) e as amostras foram homogeneizadas para evitar variabilidade individual (BUCAK et al.,
2008). Após avaliação inicial da motilidade total e progressiva
por análise computadorizada de espermatozoides (CASA), o
pool foi destinado à formação dos quatro grupos experimentais: GC= grupo controle, adição de solução salina fisiológica,
sem adição de taurina [90 µL de sêmen + 100 µL de meio essencial mínimo (DMEM)]; G1= sêmen com 5 mM de taurina (900
µL de sêmen + 10 µL de taurina 500 mM + 90 µL de DMEM);
G2= sêmen com 25 mM de taurina (900 µL de sêmen + 50 µL
de taurina 500 mM + 50 µL de DMEM); G3= sêmen + 50 mM
de taurina (900 µL de sêmen + 100 µL de taurina 500 mM). A
solução mãe de taurina (500 mM) foi preparada em DMEM.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
2.1 ANÁLISES ESPERMÁTICAS
As análises foram realizadas em três momentos: após a formação dos grupos amostrais (T0), uma (T1) e três (T3) horas
pós-descongelação. Durante esse período as amostras ficaram
incubadas na bancada com temperatura aproximada de 28 °C.
Em cada momento, previamente à realização das análises, para
cada um dos grupos foi realizada uma diluição (1:10 v/v) em
DMEM de forma a se obter uma concentração de 20-30x106 espermatozoides/mL. Cada avaliação foi realizada em triplicata e
este experimento foi realizado seis vezes.
2.1.1 CINÉTICA ESPERMÁTICA
A cinética espermática foi analisada através do sistema
computadorizado de análise espermática (CASA; Sperm Class
Analyzer - SCATM software, Microptics, v. 5.1, S.L., Barcelona,
Espanha). Uma alíquota (5 µL) de cada amostra foi depositada sobre lâmina previamente aquecida (37 ºC), coberta com
lamínula e analisada por microscópio de contraste de fase (aumento de 100x; NikonTM H5505, Eclipse 50i, Tóquio, Japão) e
as imagens foram capturadas utilizando uma câmera de vídeo
(Basler Vision TechnologiesTM A312FC, Ahrensburg, Alemanha). Para cada amostra foram analisados cinco campos não
consecutivos, selecionados aleatoriamente, com registro de, no
mínimo, 2000 espermatozoides. Foram avaliados os seguintes
parâmetros: motilidade total (MT), motilidade progressiva
(MP), linearidade (LIN), retilinearidade (STR), índice de oscilação (WOB) e percentual de espermatozoides rápidos (RAP),
sendo estes expressos em porcentagem; velocidade curvilinear
(VCL), velocidade em linha reta (VSL), velocidade média do
percurso (VAP), expressos em micrômetros por segundos; amplitude do deslocamento lateral da cabeça espermática (ALH),
expresso em micrômetros e a frequência do batimento flagelar
cruzado (BCF), expressa em Hertz. Os pontos finais da cinética
33
Rafael Limongi de Souza et al.
foram mensurados com as seguintes configurações: temperatura de 37 ºC, taxa de frame de 25 s, contraste mínimo de 75,
25 frames adquiridos por campo, velocidade analisada entre 0
a 180 µm/s e limiar de 75% de STR.
BP 450-490 nm para excitação. As células que apresentavam a
peça intermediária fluorescentes em laranja foram classificadas com alto potencial de membrana mitocondrial, enquanto
aquelas fluorescentes em verde foram classificadas com baixo
potencial de membrana.
2.1.2 INTEGRIDADE DE MEMBRANA PLASMÁTICA
Para avaliação da integridade de membrana plasmática
(iMP) utilizou-se o método de coloração dupla com Diacetato de Carboxifluoresceína (DCF) e Iodeto de Propídeo (IP),
segundo Silva et al. (2011). Alíquotas de 5,0 µL de DCF (0,46
mg/mL em DMSO) e 5,0 µL de IP (0,5 mg/mL em PBS) foram
adicionadas a 30 µL de cada amostra e incubados por 10 minutos a 37 ºC. Um total de 200 espermatozoides foi avaliado
em microscópio de epifluorescência (Carl Zeiss, Gottingen,
Alemanha), com aumento de 400x, usando filtro de emissão
DBP 580-640 nm e excitação DBP 485-520 nm. Os espermatozoides foram classificados com a membrana plasmática intacta
quando fluoresceram em verde, e com membrana danificada
quando fluorescidos em vermelho.
2.1.3 INTEGRIDADE DO ACROSSOMA
Para determinar a integridade acrossomal (iAC), foram
confeccionados estiraços os quais foram posteriormente corados com Isotiocíanato de Fluoresceína conjugado a Peanut
agglutinin (FITC-PNA), de acordo com a técnica descrita por
Câmara et al. (2011). Uma alíquota de 20 µL da solução estoque FITC-PNA (1 mg/mL) foi descongelada e adicionada a
480 µL de PBS para obter concentração final de 100 µg/mL.
Alíquotas (20 µL) desta solução foram colocadas sobre lâminas
estiradas, as quais foram incubadas por 20 minutos em câmara
úmida (4 ºC), na ausência de luz. Após a incubação, as lâminas
foram enxaguadas duas vezes em água miliQ refrigerada (4 ºC)
e colocadas para secagem na ausência de luz. Imediatamente
antes da avaliação, 5 µL de meio de montagem (4,5 mL de
glicerol, 0,5 mL de PBS e 5 mg de p-phenylediamine) foi colocado sobre a lâmina e coberto com lamínula.
Foram avaliados 200 espermatozoides por lâmina, em
microscopia de epifluorescência, com aumento de 1000x sob
imersão, usando filtro de emissão LP 515 nm e BP 450-490
nm para excitação. Os gametas foram classificados como portadores de acrossomas intactos, quando apresentavam a região
acrossomal com fluorescência verde, ou acrossomas reagidos,
quando apresentavam faixa verde fluorescente na região equatorial da cabeça espermática ou não apresentavam fluorescência verde na região acrossomal.
2.1.4 FUNÇÃO MITOCONDRIAL
A função mitocondrial dos espermatozoides foi determinada pela utilização do fluorocromo catiônico lipofílico JC-1
(SILVA et al., 2012). Alíquotas de 5,0 µL de JC-1 (0,15 mM em
DMSO) foram adicionadas a 30 µL de cada grupo experimental e incubadas por 10 minutos a 37 ºC. Duzentos espermatozoides foram avaliados em microscopia de epifluorescência,
com aumento de 400x, usando filtro de emissão LP 515 nm e
34
2.2 ANÁLISE ESTATÍSTICA
Os dados foram avaliados pelo teste de Kolmogorov-Smirnov para testar a normalidade da variância. Para comparações
entre os tempos do mesmo tratamento e comparações entre
os tratamentos em um mesmo tempo foi utilizado o teste de
comparação de médias ANOVA, seguida do pós-teste de Tukey (p≤0,05) pelo software da IBM, SPSS Statistics (versão 18.0
para Windows).
3. RESULTADOS
Os resultados dos parâmetros cinéticos foram expressos na
forma de média e desvio padrão e estão apresentados em gráficos na figura 1, e nas tabelas 1 e 2. A motilidade espermática
total (MT) e a motilidade progressiva (MP) foram superiores
a 30% em todos os grupos estudados (Figura 1) sendo estas
amostras aprovadas segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para comercialização em programas de inseminação artificial (CBRA, 2013).
A análise dos parâmetros cinéticos de espermatozoides
caprinos pós-descongelação constatou que a MT, MP e RAP
(Figura 1) foram inferiores (p<0,05) para o grupo controle
após 3h de descongelação/incubação, fato não observado para
os grupos tratados com a taurina. Apesar dos grupos GC e G3
apresentarem redução (p<0,05) para o BCF (Figura 1) no T3
em relação ao T0, o G3 não diferiu dos demais grupos tratados
neste momento.
O tratamento com taurina não influenciou (p>0,05) os resultados de VCL, VSL, VAP (Tabela 1), WOB (Tabela 2) e ALH
(Figura 1). Entretanto, para a LIN e STR (Tabela 2), foi observado que no T1 houve redução destes valores para o G3, e ao avaliar o T3 foi visto que esses valores foram restabelecidos. Não
houve efeito (p>0,05) do tempo de descongelação/incubação
ou tratamento para as variáveis iMP, iAC e aPMM (Tabela 3).
4. DISCUSSÃO
A cinética espermática obtida pela análise computadorizada dos espermatozoides descongelados demonstrou que os
parâmetros de velocidade deste experimento encontram-se na
média, ou são superiores a alguns estudos com utilização de
sêmen caprino criopreservado (DORADO et al., 2007; SOARES et al., 2011).
O comportamento pós-descongelação do sêmen sem a
adição do aminoácido mostrou-se como o esperado, uma vez
que espermatozoides expostos à redução de temperatura sofrem o efeito do choque térmico, causado pelo desequilíbrio
iônico, com aumento dos íons cálcio, sódio e zinco e dimi-
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
Efeito da suplementação de três concentrações de taurina ao sêmen caprino criopreservado
Figura 01: Parâmetros (média ± desvio padrão) de motilidade total (A), motilidade progressiva (B), percentual de espermatozoides
rápidos (C), batimento flagelar cruzado (D) e amplitude lateral
da cabeça (E) de espermatozoides caprinos da raça Boer pós-descongelação, suplementados ou não com taurina, sob períodos de
incubação.
GC=Grupo Controle, sem adição de antioxidante; G1=Grupo 1 (5 mM de
Taurina); G2=Grupo 2 (25 mM de Taurina); G3=Grupo 3 (50 mM de Taurina).
T0=Momento de avaliação após descongelação; T1=Momento de avaliação 1
hora após descongelação; T3=Momento de avaliação 3 horas após descongelação.
Diferentes letras minúsculas representam diferença (p<0,05) entre os tempos em
um mesmo grupo. Diferentes letras maiúsculas representam diferença (p<0,05)
entre os grupos em um mesmo tempo.
Tabela 1 - Valores médios (± desvio padrão) para velocidade curvilínea (VCL), velocidade linear progressiva (VSL) e velocidade média da
trajetória (VAP) de espermatozoides de caprino Boer pós-descongelação e suplementados ou não com taurina, sob períodos de incubação
VCL (µm/s)
VSL (µm/s)
VAP (µm/s)
GC
T0
T1
T3
120,57±19,04
124,80±8,76
134,83±12,76
89,95±22,84
84,43±15,86
92,37±20,22
107,13±21,66
108,43±12,23
118,78±17,61
G1
T0
T1
T3
126,75±10,21
127,23±6,43
132,10±7,03
92,08±15,76
82,38±5,91
87,63±19,93
112,05±12,78
108,23±7,56
114,30±13,63
G2
T0
T1
T3
133,88±16,85
128,13±16,78
125,60±17,96
99,62±21,43
87,50±27,36
86,63±23,22
119,60±19,67
110,36±24,13
108,61±22,15
G3
T0
T1
T3
121,92±12,60
112,03±17,81
133,50±16,68
89,75±15,76
69,65±19,68
92,40±17,92
107,36±15,71
90,56±20,99
117,95±19,30
GC=Grupo Controle, sem adição de antioxidante; G1=Grupo 1 (5 mM de Taurina); G2=Grupo 2 (25 mM de Taurina); G3=Grupo 3 (50 mM de Taurina).
T0=Momento de avaliação após descongelação; T1=Momento de avaliação 1 hora após descongelação; T3=Momento de avaliação 3 horas após descongelação.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
35
Rafael Limongi de Souza et al.
Tabela 2: Percentual (média ± desvio padrão) de linearidade (LIN), retilinearidade (STR) e índice de oscilação (WOB) de espermatozoide
de caprinos Boer pós-descongelação e suplementados ou não com taurina, sob períodos de incubação
LIN (%)
WOB (%)
STR (%)
GC
T0
T1
T3
73,86±7,95
67,35±9,04a
67,88±9,17a
83,43±4,98
77,43±6,72a
77,11±6,91a
88,38±4,37
86,58±4,44
87,71±5,11
G1
T0
T1
T3
72,25±7,20a
64,75±3,15a
65,88±10,76a
81,76±5,44a
76,15±1,85a
75,95±7,77a
88,22±3,30
85,01±2,86
86,25±6,42
G2
T0
T1
T3
73,70±8,10a
66,95±12,12a
66,55±8,77a
82,66±5,53a
78,13±7,71a
77,16±5,78a
88,96±4,14
85,15±7,53
85,93±5,30
G3
T0
T1
T3
73,30±6,44a
61,35±9,11b
69,70±5,66ab
83,35±3,00a
76,25±4,37b
79,08±3,7ab
87,83±5,00
80,37±8,07
88,03±3,60
a
a
GC= Grupo Controle, sem adição de antioxidante; G1=Grupo 1 (5 mM de Taurina); G2=Grupo 2 (25 mM de Taurina); G3=Grupo 3 (50 mM de Taurina).
T0=Momento de avaliação após descongelação; T1=Momento de avaliação 1 hora após descongelação; T3=Momento de avaliação 3 horas após descongelação.
Diferentes letras representam diferença (p<0,05) entre os tempos em um mesmo grupo.
Tabela 3: Percentual (média ± desvio padrão) de integridade do acrossoma (iAC), integridade da membrana plasmática (iMP) e alto
potencial de membrana mitocondrial (aPMM) de espermatozoides caprinos Boer pós-descongelação, suplementados ou não com taurina,
sob períodos de incubação
iAC (%)
iMP (%)
aPMM (%)
GC
T0
T1
T3
65,58±7,27
62,25±6,46
55,00±11,40
44,00±7,11
34,67±8,70
48,33±11,26
62,32±6,21
54,84±6,62
53,17±11,39
G1
T0
T1
T3
52,58±14,79
55,92±9,76
49,33±7,63
38,67±5,35
31,83±6,31
38,42±10,42
60,67±10,08
58,75±11,00
51,25±12,31
G2
T0
T1
T3
58,91±8,17
56,00±7,35
51,25±12,55
40,92±4,42
34,08±8,22
38,58±8,56
58,35±5,52
58,58±6,88
49,92±11,73
G3
T0
T1
T3
56,58±8,15
60,25±10,10
48,42±14,62
38,92±6,41
35,73±8,80
42,90±6,90
51,58±16,44
58,83±6,18
54,18±13,09
GC= Grupo Controle, sem adição de antioxidante; G1=Grupo 1 (5 mM de Taurina); G2=Grupo 2 (25 mM de Taurina); G3=Grupo 3 (50 mM de Taurina).
T0=Momento de avaliação após descongelação; T1=Momento de avaliação 1 hora após descongelação; T3=Momento de avaliação 3 horas após descongelação.
nuição dos íons potássio e magnésio, resultando na redução
da motilidade do espermatozoide caprino (BEZERRA, 2010).
Além do desequilíbrio iônico, o espermatozoide ainda pode
sofrer alterações da osmolaridade, levando a célula espermática ao processo de choque osmótico (HOLT, 2000), que pode
levar a diminuição de sua motilidade. Os grupos tratados com
taurina, independente das concentrações utilizadas, não apresentaram esta diminuição, possivelmente pela sua capacidade
osmorreguladora, onde a taurina é transportada por um transportador específico dependente de Na+, ou seja, seu transporte
corresponde a alterações iônicas além de ser sensível a outras
36
substâncias orgânicas, como a glicose (HUXTABLE, 1992).
Ainda, Tappaz (2004) define a taurina como um osmólito orgânico utilizado pelas células para regulação do volume celular, se readequando ao desbalanceamento osmótico, evitando
o desequilíbrio e suas lesões.
Verstegen et al. (2002) relataram que o aumento dos valores de VSL, VCL e VAP estão associados a fertilidade, onde
observaram que os espermatozoides com valores elevados para
estes parâmetros fertilizaram mais de 50% dos oócitos inseminados. O aumento do BCF e ALH, associados ao aumento do
padrão do vigor, são indicadores de hiperativação espermática
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
Efeito da suplementação de três concentrações de taurina ao sêmen caprino criopreservado
(MORTIMER e MORTIMER, 1990) e aumento dos índices
de fertilidade. Valores elevados de BCF e LIN implicam na
melhor migração e penetração do espermatozoide no muco
cervical (MORTIMER, 2000). Entretanto, o GC no momento
três horas pós-descongelação, apresentou diminuição dos seus
valores para o BCF, fator este que implicaria na sua menor eficiência de migração no muco cervical. O G3, mesmo sofrendo
redução do BCF no T3 em relação aos demais tratamentos,
ainda preservou este parâmetro quando comparado ao GC.
As amostras descongeladas apresentam bons níveis de capacidade de penetração cervical quando analisado os valores da
LIN, com percentuais superiores a 50% em todos os grupos,
entretanto, a ALH que é uma variável importante para determinação da boa capacidade penetrante do espermatozoide,
teve seus valores menores que os descritos por Cox et al. (2006)
para espécie caprina.
Os efeitos protetores da taurina, evidenciados pela preservação da MT, MP, RAP e BCF, também podem estar relacionados ao mecanismo antioxidante deste aminoácido, uma
vez que a taurina reage com o ânion superóxido, tendo função
scavenger1, protegendo a célula espermática dos efeitos deletérios de algumas espécies reativas de oxigênio, além de evitar a
perda da atividade enzimática da superóxido dismutase (OLIVEIRA et al., 2010).
Os dados de preservação da motilidade espermática com o
uso da taurina obtidos neste estudo corroboram com os resultados positivos para motilidade espermática nos experimentos
de Bucak et al. (2007) e Kumar et al. (2013), que testaram a
taurina na concentração de 50 mM em sêmen de carneiro e
sêmen de búfalo, respectivamente. Ainda, Perumal et al. (2013)
e Atessahin et al. (2008), utilizando sêmen bovino com 25 e 50
mM, e sêmen caprino com 25 mM de taurina, respectivamente,
atribuíram a boa qualidade dos parâmetros cinéticos do sêmen
devido ao aumento da atividade de enzimas antioxidantes nas
células espermáticas, como a glutationa peroxidase (GSH-PX)
e Vitamina A, impedindo a geração excessiva dos radicais livres e minimizando injúrias provocadas por estes, concordando com o descrito por Bucak et al. (2007), onde relatam que
a taurina mantém a integridade e normalidade do acrossoma,
estabilizando a membrana plasmática e melhora a motilidade
espermática devido a atividade antioxidante da taurina.
Além do seu potencial osmorregulador e função antioxidante, a taurina pode ter preservado as características móveis
do espermatozoide neste experimento devido a sua função estimuladora da glicólise e moduladora da atividade Na+/K+-ATPase (HUXTABLE, 1992; IJAZ e DUCHARME, 1995), onde
a combinação desses efeitos faz com que a célula espermática
preserve a sua motilidade modulando seu aporte energético.
Entretanto, não foi observado aumento do aPMM dos espermatozoides.
Neste experimento, foi observado que todos os grupos
preservaram seus padrões de integridade da membrana plasmática e acrossomal, entretanto, por mais que a integridade
1 Uma molécula scavenger é toda substância química capaz de
atenuar ou dissipar os efeitos tóxicos de outra molécula. Referida
como uma substância capaz de eliminar as impurezas de uma
mistura.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
dessas membranas sejam atributos essenciais para fertilidade
do espermatozoide, a motilidade espermática, que é um parâmetro relacionado à capacidade fertilizante, pode diminuir
mesmo que não ocorra lesões nessas estruturas (BAUMBER et
al., 2000), como o observado no grupo controle deste estudo.
5. CONCLUSÃO
A adição da taurina ao sêmen caprino pós-descongelação,
nas concentrações de 5, 25 e 50 mM preserva a motilidade
total, motilidade progressiva, percentual de espermatozoides
rápidos e o batimento flagelar cruzado de espermatozoide caprino após três horas de incubação.
AGRADECIMENTOS
À Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa (PRPG) da
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) pelo fornecimento
de bolsa ao discente e por fomentar parte da pesquisa com
o programa Pró-PIBIC; ao Laboratório de Andrologia (ANDROLAB) da Universidade Federal Rural de Pernambuco
(UFRPE), por fornecer o espaço e equipamentos necessários
para o desenvolvimento deste trabalho.
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 32-38 - janeiro/abril, 2015
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18 n. 1/2 p. 39-42 - janeiro/agosto, 2015
Indigestão por manga
(Mangifera indica) em bovinos
- Primeiro relato
Huber RIZZO1*, Artur Cezar de Carvalho FERNANDES1, Rachel Livingstone Felizola Soares
de ANDRADE2
RESUMO
O objetivo deste trabalho é relatar um caso de indigestão causado pela ingestão de manga
por uma vaca leiteira, em final de gestação, criado no município de Itaporanga D’ajuda-SE.
Foi relatado que o animal apresentou timpanismo recidivante, seguido de secreção nasal bilateral seromucosa. Na Clínica de Grandes Animais do Hospital Veterinário da Faculdade Pio
Décimo, o mesmo foi submetido a cesariana, com nascimento de bezerro a termo, seguida de
rumenotomia onde foram retirados 174 caroços de manga. O conteúdo ruminal encontrava-se
acidótico (pH 5,0). O comprometimento sistêmico ficou evidente nos exames hematológicos,
diante de um quadro de leucocitose por neutrofilia com desvio à esquerda, e alteração nos
valores referentes a função hepática e renal. Após seis horas do procedimento cirúrgico o animal veio a óbito. No exame necroscópico observou-se hiperemia de mucosa ruminal, além da
presença de mais um caroço. Histologicamente observou-se congestão hepática e renal e rúmen
com áreas multifocais de infiltrado inflamatório neutrofílico perivascular na camada mucosa.
P A L A V R A S - C H A V E 1
Departamento de Medicina Veterinária,
Universidade Federal Rural de
Pernambuco, CEP: 52171-900, Recife, PE
2
Curso de Medicina Veterinária,
Faculdade Pio Décimo, CEP: 49095-000
Aracaju, SE
*autor para correspondência: e-mail:
[email protected]
cesariana, sistema digestório e rumenotomia.
Indigestion for mango (Mangifera indica) in bovine - first report
ABSTRACT
The objective of this study is to report a case of indigestion caused by the mango intake by
a dairy cow in late gestation, created in the city of Itaporanga D’ajuda, state of Sergipe, Brazil.
It was reported that the animal had recurring bloat, followed by bilateral nasal seromucous secretion. At the Large Animal Clinic on the Veterinary Hospital of the Faculty Pio Décimo, the
animal was submitted to a cesarean section with calf birth at term, followed by rumenotomy,
whereby were removed 174 mango pits. The rumen content was acidotic (pH 5.0). The systemic involvement was evident in hematological tests, presenting leukocytosis by neutrophilia
with left desviation and change in values ​​for liver and kidney function. After six hours of surgery the animal died. In the autopsy observed ruminal mucosa detachment, and the presence
of another mango pit. Histologically, hepatic and kidney congestion. The rumen mucous layer
presented also multifocal areas of perivascular neutrophilic inflammatory infiltrate.layer.
K E Y W O R D S caesarean, digestive system and rumenotomy.
INTRODUÇÃO
Os distúrbios da cavidade rumenorreticular, que incluem casos de acidose ruminal,
indigestão simples, compactação ruminal e
timpanismo estão, na maioria das vezes, associados a erros alimentares devido à escassez de
forragem em períodos de estiagem. Os alimentos disponíveis nesses períodos geralmente são
de má qualidade e de pouca digestibilidade
levando ao aumento do fornecimento de ali-
mento concentrado. Dieta com altos teores
de concentrado é a principal causa das indigestões de origem alimentar em ruminantes
(Afonso et al., 2008, Coutinho et al., 2009, Lira
et al., 2011).
Outras fontes de alimento, comum ou
não a dieta dos ruminantes, também podem
levar a transtornos digestivos como a palma
forrageira (Afonso et al., 2008) e leguminosas
Stylosanthes spp. (Moraes et al., 2010). Surtos
de timpanismo espumoso em bovinos foram
39
Huber RIZZO et al.
relacionados a pastagens de Trifolium repens (trevo-branco)
e Trifolium pratense (trevo-vermelho) (Dalto et al. 2009, Costa et al., 2013). A acidose ruminal foi descrita em pequenos
ruminantes que recebiam restos de comida caseira (lavagens)
e de padaria, frutas e fontes de carboidrato de fácil digestão
como milho em grãos e farelo de milho (Lira et al., 2011) e em
ovinos, relatou-se compactação rumenal e abomasal devido à
ingestão de côco catoté (Oliveira et al., 2007).
Os sinais clínicos observados em geral são apatia, anorexia,
queda na produção de leite, perda crônica de peso, taquicardia,
taquipnéia, atonia ruminal, desidratação, aumento do flanco
esquerdo ou de ambos, mucosas congestas, fezes pastosas, fétidas, ressecadas e/ou escassas, decúbito e óbito. O conteúdo
ruminal pode estar líquido ou ressecado com alterações de pH
e microbiota (Afonso et al., 2008, Dalto et al., 2009, Lira at al.,
2011).
Considerando a ausência de relatos, o objetivo deste trabalho é, pela primeira vez, descrever um caso de indigestão por
caroço de manga (Mangifera indica) em bovino leiteiro que
ocorreu no Estado de Sergipe, Brasil.
hemácias de 6,86x106/µL, hemoglobina de 10,3 g/dL, volume
globular de 25% (VG: 25%, HGM: 15pg VGM: 36,4fL, CHGM:
41,2%). Observou-se leucocitose (23x103/µL) por neutrofilia,
com desvio a esquerda (bastonetes 12% e 2,76x103/µL, segmentados 62% e 14,26x103/µL, linfócitos 24 % e 5,52x103/µL,
monócitos 1% e 0,23x103/µL, eosinófilos 1% e 0,23x103/µL
respectivamente para relativos e absolutos), além da presença
de eritroblasto e crenação. As plaquetas se mostraram baixas
(133x103/µL). No exame bioquímico notou-se comprometimento hepático (ALT/TGP: 26 UI/L, AST/TGO 460 UI/L, GGT
48 UI/L, bilirrubina total: 3,91 mg/dl, bilirrubina direta: 0,89
mg/dl e bilirrubina indireta: 3,02 mg/dl) e renal (uréia: 127
g/l e creatinina: 2,7 mg/dl). Outros parâmetros avaliados foram
proteína (5,9 g/dl), albumina (2 g/dl) e globulina (4 g/dl) (Li et
al., 2011, Oliveira et al., 2014).
Após a avaliação dos parâmetros clínicos e dos exames
complementares optou-se pela cesariana onde foi retirado, a
termo, um bezerro macho de 27 kg. Após o parto procedeu-se a exploração da cavidade abdominal e durante a palpação,
através da parede ruminal foram localizadas várias estruturas
ovalares achatadas de aproximadamente 10 cm de comprimento. Procedeu-se, portanto, com a rumenotomia de onde foram
RELATO DE CASO
retirados 174 caroços de manga (Mangifera indica) do rúmen
e retículo do animal. Os caroços, ainda úmidos pesavam 6,4
Foi atendido na Clínica de Grandes Animais do Hospital quilos (Figura 1).
Veterinário Dr. Vicente Borelli da Faculdade de Medicina Veterinária Pio Décimo de Aracaju, Sergipe (CGA-Pio X) uma vaca
mestiça (¾ Holandês x ¼ Gir) com cinco anos, em período
final de gestação, criada no município de Itaporanga D’ajuda-SE em sistema semi-intensivo, submetida a duas ordenhas
diárias. Devido à estiagem causada pelo longo período de seca
no Estado no ano de 2013, o proprietário relata que aumentou
o fornecimento de alimento concentrado com o objetivo de
manter a produção do rebanho. A propriedade possuía uma
particularidade que era a presença de árvores de manga (Mangifera indica) no trajeto diário das vacas em lactação do pasto a
sala de ordenha, sendo que alguns animais durante esse trajeto
ingeriam os frutos depositados no solo. Há 20 dias do atendimento do animal o proprietário relata queda da produção
de leite e perda de peso progressivo, além de três episódios
de dilatação do flanco esquerdo que foi revertido através da
administração, via oral, de 100 ml de medicamento a base de
silicone a 30% suspenso em metilcelulose (Ruminol®). A partir do segundo episódio de timpanismo o animal tornou-se
anoréxico e apresentou secreção nasal mucosa intermitente.
Ao chegar à CGA-Pio X, a vaca encontrava-se em decúbito lateral no caminhão de transporte e foi retirado do mesmo
suspenso devido o estado de inanição. Foi examinada em decúbito lateral, onde pode-se confirmar seu baixo escore de condição corporal (ECC 1,5) e a presença de desidratação (10%),
enoftálmia, mucosas hipocoradas, relaxamento dos ligamentos
pélvicos sacro-ilíacos, úbere pouco desenvolvido, mas com secreção colostral e, a palpação retal, feto posicionado na entrada
da cavidade abdominal responsivo a prova de balotamento.
Outro dado que indicou a viabilidade fetal foi presença do frêmito arterial.
Figura 1: Caroços de manga (Mangifera indica) retiradas de do rúmen
No exame hematológico, o animal apresentou valores de e retículo de bovino submetido a cesariana e rumenotomia
40
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 39-42 - janeiro/abril, 2015
Indigestão por manga (Mangifera indica) em bovinos - Primeiro relato
O conteúdo ruminal era de coloração castanha, consistência pastosa, pH 5,0 e tempo de redução de azul de metileno
de 12 minutos. O liquido ruminal acidótico foi retirado, procedeu-se a transfaunação e em seguida a rumenocentese, rafia
da musculatura e pele. No pós-cirúrgico imediato foi administrado oxitetraciclina de longa ação (10/mg/kg/IM), flunixim
meglumine (1,1/mg/kg/IV) e fluidoterapia visando estabilizar
o quadro de acidose metabólica, no entanto após seis horas do
procedimento cirúrgico, em função da gravidade da condição
clínica, o animal veio a óbito.
No exame necroscópico observou-se vísceras anêmicas, hiperemia de mucosa ruminal além de mais um caroço de manga em seu interior, presença de objeto metálico perfurante de
2,5 cm (parafuso) fixo na mucosa em favo do retículo, hiperemia serosa e repleção da vesícula biliar, moderada hemorragia
petequial multifocal a coalescente na superfície epicárdica e
discreta congestão e enfisema pulmonar. Histologicamente
notou-se moderada congestão hepática, focalmente extensa na
região centrolobular; presença de discreto infiltrado inflamatório linfocítico em região cortical renal, com moderado grau
de degeneração tubular, além de congestão cortical e medular.
No rúmen foram observadas áreas multifocais de discreto infiltrado inflamatório neutrofílico perivascular na camada mucosa e no coração foram visualizados múltiplos cistos parasitários
compatíveis com Sarcocystis spp., sem infiltrado inflamatório
associado. Não foram observadas alterações patológicas no
abomaso e omaso.
DISCUSSÃO
A escassez de alimento, seja ela por condições climáticas
ou pelo oferecimento de um alimento de baixo valor nutritivo,
de fato leva os animais a buscar fontes alternativas de alimento
principalmente em situações de final de gestação quando pode
se desenvolver um quadro de balanço enenrgético negativo,
devido a elevada necessidade energética (Lago et al., 2014). O
alto índice de matéria seca e carboidrato da manga levou aos
distúrbios digestórios no rúmen, onde o farelo da amêndoa da
semente apresenta teores de matéria seca, proteína bruta, fibra
detergente neutro, fibra detergente ácido, fibra bruta, lignina,
extrato etéreo, matéria mineral, cálcio, fósforo e carboidratos
totais, respectivamente de 88,36%%; 4,39%; 29,65%; 2,20%;
1,90%; 0,72%; 12,18%; 1,81%; 0,10%; 0,05% e 69,98% (Santana et al., 2007). Alem disso houve ocorrência de lesão mecânica sobre a mucosa causada pelos caroços de manga.
O pH ruminal acidótico leva a crer que mesmo um grande
número de caroços não tenha causado compactação abomasal
que poderia levar ao aumento de pH devido o refluxo de sua
secreção ao rúmen. Isto foi observado em um caso de ovino
que apresentou pH ruminal de 7,5 em quadro de compactação de rúmen e abomaso por cerca de 1250 unidades de côco
catolé (Syagrus olearacea) preenchendo 2/3 desses compartimentos (Oliveira et al., 2007). O diferente desenvolvimento
dos casos se deve ao diâmetro dos caroços de manga que não
permitiu sua passagem pelo orifício retículo-omasal para chegar ao abomaso. De forma a contribuir com o diagnóstico de
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 19-25 - janeiro/abril, 2015
acidose ruminal, vale ressaltar as alterações renais observadas
no exame bioquímicos, devido a redução da taxa de filtração
glomerular decorrente dos danos renais, observados no histopatológico, onde havia degeneração tubular e congestão cortical e medular, além da queda do fluxo sanguíneo renal devido
a diminuição na pressão sanguínea arterial justificado pelo
presença do baixo hematócrito, além da severa desidratação
que a acidose provoca. O comprometimento renal pode ter
se agravado uma vez que o animal desenvolveu um quadro de
cetose devido as exigências nutricionais do final da gestação, a
oferta de alimentos de baixa qualidade e pela anorexia causada
pela indigestão (Li et al., 2011).
Dentre os achados histopatológicos da acidose, estão as alterações da mucosa e papilas ruminas causadas pela queda do
pH do fluido, caracterizado por infiltrado inflamatório de polimorfonucleares e degeneração hidrópica das papilas, além de
congestão hepática com degeneração e necrose de hepatócitos
(Xu e Ding, 2001), órgãos esses que também foram afetados,
no bovino relatado, tanto pela acidose ruminal quanto pela
cetose, levando a elevação das enzimas hepáticas e hiperemia
da mucosa ruminal (Oliveira et al., 2014),.
CONCLUSÃO
A ingestão de manga (Mangifera indica) pode levar a
indigestão devido à acidose ruminal em bovinos. Deve-se prevenir a ingestão de frutos, principalmente contendo amêndoas
e sementes, que caiam ao solo e ficam a disposição na pastagem e possam se acumular no rúmen causando distúrbios digestivos.
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42
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 19-25 - janeiro/abril, 2015
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18 n. 1/2 p. 43-46 - janeiro/agosto, 2015
Toxic levels of zinc in mineral
salt mixtures used in beef
cattle supplementation
Wilmar Sachetin MARÇAL1, Marcos Roberto Lopes do NASCIMENTO2, Maísa Fabiana
MENCK3.
¹ Veterinary Clinic Department, Londrina
State University, Londrina, Paraná, Brazil.
*[email protected]
ABSTRACT
Zinc concentration was measured in 36 salt formulations collected from the states of São
Paulo and Paraná, Brazil. Zinc content in each sample was determined by inductively coupled
plasma atomic emission spectrometry. Thirty-five samples (range 70 ± 24.5 to 11,200 ± 6.27
ppm) had values above 300 ppm, the maximum acceptable value in cattle nutrition. These
results show the necessity to monitor the industry, because some mineral mixtures can be dangerous to animal health, therefore impair food safety production.
K E Y W O R D S ² Químico, CNEN (Comissão Nacional de
Energia Nuclear), Poços de Caldas, Minas
Gerais
³ Londrina State University, Londrina,
Paraná, Brazil.
Cattle, Mineral Salt, Zinc.
Niveis tóxicos de zinco em misturas minerais utilizadas na
suplementação de bovinos para corte
RESUMO
A concentração de zinco foi mensurada em 36 formulações de sal colhidas no estado de
São Paulo e Paraná, Brasil. A concentração de zinco em cada amostra foi determinada por espectrometria de emissão atômica com plasma indutivamente acoplado. Trinta e cinco amostras
(intervalo de 70 ± 24,5 a 11.200 ± 6,27 ppm) apresentaram valores acima de 300 ppm, o máximo
valor aceitável em nutrição de bovinos. Estes resultados mostram a necessidade de monitorar a
indústria, porque algumas misturas minerais podem ser perigosas para a saúde animal, portanto, prejudicando a produção de segurança alimentar.
P A L A V R A S - C H A V E Bovinos, Sal Mineral, Zinco.
INTRODUCTION
The increased competition in the Brazilian market for the commercialization of
mineral salt mixtures (MSM) for animal consumption is one of the main reasons why the
mineral mixture industry (MMI) look to reduce costs with the aim to win competition
and guarantee future business. Today, there
are around 5,500 formulations of mineral
mixtures being sold throughout the Brazilian
market (MARÇAL et al, 2005).
In order to be profitable and maintain it
business, the MMI have negligenciated some
important aspects related to the concepts of
total quality. Some of these aspects are quality raw material sources that comprise mineral
salt mixtures. The materials chosen are at the
most accessible price, including from international origin (MARÇAL et al, 2003).
It is believed that some of these raw material sources can be contaminated with toxic
elements, such as heavy metals and radioactive
substances, generating a subject of concern
among nutritionists, clinical veterinarians
and technicians that work with the area of
health and animal production (MARÇAL et
al, 2005). By this reason, investigative research
project was launched with the intention to
evaluate the level of pollutants in mineral formulations used as cattle feed supplement in
Brazil.
The objective of this study is to investigate
the zinc presence in some different mineral
supplements produced in Brazil, through laboratory analysis to quantify those pollutants,
43
Wilmar Sachetin MARÇAL et al.
which can be connected with the macro and micro mineral Table 1: Zinc concentrations in individual samples of
mineral salt in Brazil
elements of the formulations prepared for animal feed.
The zinc was the element chosen, because is considered
for many specialists as an inorganic chemist of large risk to
State
Sample nº.
City
the animals, mainly in the bovine species (McDOWELL,
Avaré
1985; BRITO, 1993; NATIONAL RESEARCH COUNCIL,
01
Avaré
1996; MARÇAL, 1996; MARÇAL et al, 1999; ASSOCIATION
02
Avaré
OF AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS, 2001 and
03
Mogi
Mirim
MARÇAL et al, 2005), where the animal contamination can
04
Ribeirão
Preto
occur by the ingestion of contaminated mineral formulations.
05
Araçatuba
06
Piracicaba
SÃO
07
Batatais
MATERIAL AND METHODS
PAULO
08
Birigüí
09
Birigüí
The samples were collected directly from the main com10
São
Vicente
mercial resellers in selected cities, where they had many cattle.
11
Presidente
Each sample weighed about 200 grams, and noted the man12
Prudente
ufacturing date, expiry period and batch number. At harvest
13
General
Salgado
the containers were sealed, with original factory. Samples were
14
Campinas
paid an identication code to prevent the disclosure of the
15
Fernandópolis
brand and manufacturer, with respect to research ethics.
16
Londrina
The criterion used to determine the number of samples
17
Londrina
considered the study conducted by MIGUEL (1982). The dif18
Rolândia
ference in samples between states occurred because the state of
19
Cornélio Procópio
Paraná had more trademark officially controlled by the Feder20
Maringá
al Government agencies.
21
Cascavel
Samples were conditioned in transparent plastic contain22
Paranaguá
ers and then send to analysis at the National Commission of
23
Londrina
Nuclear Energy (CNEN) Laboratory of Poços de Caldas, Minas
24
Cambé
Gerais, Brazil. After drying at 110 0C samples were solubilized
25
Umuarama
by multiacid attack with nitric, hydrofluoric and hydrochloric PARANÁ
26
Umuarama
acids, and then zinc was determined by inductively coupled
27
Umuarama
plasma atomic emission spectrometry using a Jarrell-Ash mod28
Jandaia do Sul
el 975 equipment.
29
Jandaia do Sul
In the analytic detection of zinc in the mineral formula30
Maringá
tions, it was not possible to separate the raw material compo31
Londrina
nents, so in order to proceed with the investigation the authors
32
Londrina
worked with readily industrialized formulations.
33
Londrina
To calculate the values of central tendency (average and
34
Maringá
medium), percentages for the quantitative variables and vari35
Colombo
ability values (deviate pattern and variation coefficient), the
36
Catanduvas
program SAS/BASIC was used, as described in SAS PROCEDURES GUIDE (1990).
RESULTS AND DISCUSSION
The results obtained from the present research, whose
inorganic zinc element was quantified in 36 most important
mineral formulations produced in the two states, are presented in Table 1 and Fig. 1.
The concern about mineral formulations contaminated
by metallic elements and/or radioactive substances has been a
subject of attention for technicians and farmers. The evaluated
results have generating debates among researchers in several
countries, with great impulse in the early nineties.
The subject of health control in animal feeding is a point
44
Value of Zinc
(ppm)
11.200 ± 6.27
4.710 ± 1.10
1.310 ± 0.08
8,020 ± 3.21
1.250 ± 0.07
1.890 ± 0.17
3.700 ± 0.68
1.620 ± 0.13
1.030 ± 0.05
1.270 ± 0.08
7.700 ± 2.96
2.140 ± 0.22
2.660 ± 0.35
2.120 ± 0.22
3.060 ± 0.46
470 ± 110.45
1.770 ± 0.06
1.770 ± 0.06
440 ± 96.80
70 ± 24.5
6.820 ± 2.32
2.270 ± 0.25
1.510 ± 0.11
4.450 ± 0.99
380 ± 72.20
4.910 ± 1.20
2.100 ± 0.22
11.000 ± 6.05
4.600 ± 1.05
11.000 ± 6.05
1.670 ± 0.13
3.050 ± 0.46
4.240 ± 0.89
1.750 ± 0.15
2.470 ± 0.30
2.600 ± 0.33
of great interest and increased attention also in Brazil with
strengthened participation by specialists (MARÇAL et al,
1999; MARÇAL et al, 2001).
The microelements sources, most costly in the MSM,
can be contaminated with zinc element (CAMPOS NETO &
MARÇAL, 1996; MARÇAL et al, 2003), because industries try
to find cheaper, alternatives sources of microelements to decrease it production costs.
In this aspect, the main objective of this study was to investigate the zinc element presence in mineral, mixed supplements produced in Brazil. There was no type of research like
this realized anywhere in the country until now. Preliminary
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 43-46 - janeiro/abril, 2015
Toxic levels of zinc in mineral salt mixtures used in beef cattle supplementation
3302
3579
300 ppm AAFCOI*
studies shown that contaminated raw material has been used
in the MSM with the intention to decrease production costs of
the final product (MARÇAL et al, 2003; MARÇAL et al, 2005).
Because of the high number of mineral formulations on
the market in Brazil, we proceeded to select samples only from
the manufacturing states. One approach is work in some federation states that hold significant cattle population consuming
the main MSM marks manufactured countrywide. The states
chosen were São Paulo, Paraná, which together hold approximately 14.06% of the bovine herds in Brazil.
In great number of the samples, values were higher that
the acceptable maximum limit of 300 ppm attributed by ASSOCIATION OF AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS
(2001).
It is necessary to emphasize that the next phase of our
studies will be to evaluate possible sub-clinical effects of zinc
toxicity in cattle receiving MSM with the highest zinc concentrations. The main objective will be to verify changes in the
bovine reproductive system, looking for possible impairment
of the toxic element in the reproduction of the cow, as referred
to by STUART and OEHME (1982); McDOWELL (1985); MARACEK et al (1998); MARÇAL et al (1999); MARÇAL et al
(2003) and MARÇAL et al (2005). It is important to detach
that excessive amounts of zinc in the diet are known to depress food consumption and may induce copper deficiency
(McDONALD et al, 1987; MARÇAL et al (2003).
These results show the necessity to constant monitor the
industry and when failures are found the proper recommendations should be made. The environment has received a large
discharge of this element and in quantities which are not
absorbed, it is eliminated through animal’s excrements that
contaminate soil, plants and water. Great attention must be
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 43-46 - janeiro/abril, 2015
Figure 1: Average values (N=36) for zinc concentrations in mineral salt from two states in Brazil, correlated with reference values from ASSOCIATION OF
AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS (2001).
*ASSOCIATION OF AMERICAN FEED CONTROL
OFFICIALS (2001).
done with raw materials sources because of the threat to animal health. Government agencies must be aware to the issue,
because besides the animal health, human health can be in
danger due to possible man contamination with foods from
animals that were fed with suspicious MSM. An accumulative zinc contamination can occur with those individuals that
constantly ingest contaminated animals products, therefore,
this can impair the potential of animal food production for
the domestic market and for the export of Brazilian Animal
Food products to potential worldwide markets that demands
quality.
CONCLUSIONS
Analysis of results observed in researches conducted to
date that permits the following conclusions:
1st) Thirty-five samples were found with the zinc concentration upper to 300 ppm, the maximum limit attributed by
ASSOCIATION OF AMERICAN FEED CONTROL OFFICIALS (2001), representing 97.22% of the analyzed mineral
formulations;
2nd) The largest value founded, 11,200 ppm, refers to
a mineral formulation sold in the state of São Paulo, which
holds the highest human population by state in Brazil.
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 43-46 - janeiro/abril, 2015
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18 n. 1/2 p. 21-23 - janeiro/agosto, 2015
Fraturas dos metacárpicos acessórios
e a incidência da desmite do
suspensório de boleto em cavalos de
pólo: estudo retrospectivo de 35 casos
Juliana de Oliveira BERNARDO¹, Pierre Barnabé ESCODRO², Tobyas Maia de
Albuquerque MARIZ³, Kathryn Anne Ford DIAZ4, Maurício José BITTAR5
RESUMO
As fraturas dos ossos metacárpicos acessórios (MTCa) são comuns em cavalos de corrida,
trote, salto e pólo. A desmite do suspensório do boleto (LSB) pode estar associada à fratura ou
proliferação periostal no eixo axial do MTCa, que comprime o LSB e causa a lesão. O objetivo
deste trabalho foi realizar o estudo retrospectivo dos casos de fraturas de MTCa em cavalos
de pólo, submetidos à ostectomia parcial, correlacionando o membro acometido e a incidência de desmite de LSB. Foram estudados 35 casos, sendo que 29 (82,86%) das fraturas foram
no membro torácico direito (M.T.D.) e seis (17,14%) no membro torácico esquerdo (M.T.E.).
Das 35 fraturas, 25 (71,43%) ocorreram no quarto metacárpico (MTC-IV), sendo 21 (84%) no
M.T.D. e quatro (16%) no M.T.E e 10 (28,57%) ocorreram no MTC-II, sendo 8 (80%) no M.T.D
e 2 (20%) no M.T.E. Quinze animais apresentavam desmite do LSB, representando 42,85 % do
total, porém apenas 26,7% apresentavam lesões agudas, demonstrando assim que, a desmite do
LSB não está relacionada diretamente às fraturas de MTCa, sendo estas ocasionadas por traumas diretos durante o esporte. Concluiu-se que a incidência das fraturas nos ossos metacárpicos
acessórios, em cavalos de pólo são mais comuns nos membros torácicos direito e quartos ossos
metacárpicos.
1
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”, Botucatu/SP;
2
Equino, Esporte, Fratura, Metacárpicos, Desmite.
Professor Adjunto de Clínica Médica
e Cirúrgica de Equídeos, Universidade
Federal de Alagoas,
3
Professor Adjunto de Equinocultura,
Universidade Federal de Alagoas;
4
Médica Veterinária Autônoma Rio de
Janeiro-RJ;
5
P A L A V R A S - C H A V E Mestranda, Departamento de Cirurgia
de Grandes Animais da Universidade
Medico Veterinário Autônomo,
Anestesiologista de Equinos no Estado de
São Paulo
Fractures of the accessories metacarpals bones and incidence of
desmitis of the suspensory ligament in polo’s horses: retrospective
study of 35 cases
*autor para correspondência:
[email protected]
ABSTRACT
The fractures of the accessories metacarpals bones are common in race horses, trotting,
jumping and polo. The desmitis of the suspensory ligament (LSB) may be associated with
fracture or periosteal proliferation in the axial accessory metacarpal, which compresses the
LSB and cause injury. The aim of this study was the retrospective study of cases of fracture of
accessory metacarpal in polo´s horses, who underwent partial ostectomy, correlating with the
incidence of desmitis LSB. Were studied 35 cases, and 29 (82.86%) of the fractures were in the
right forelimb (M.T.D) and six (17.14%) in the left forelimb (M.T.E). Twenty-five of 35 fractures
(71.42%) involved the fourth metacarpal bone, 21 (72.41%) in the right forelimb and four
(66.66%) in the left forelimb and 10 (28.57%) involved the second bone MTC-II, 8 (80%) in the
right forelimb and 2 (20%) in the left forelimb. Fifteen animals had desmitis the LSB, representing 42.85% of the total, but only 26.7% had acute lesions, demonstrating that the desmitis the
LSB is not directly related to fractures of accessories metacarpals bones, which are caused by
direct trauma during sport. It was concluded that the incidence of bone fractures metacarpal
accessories, polo’s horses are more common in right forelimbs and fourth metacarpals bones.
K E Y W O R D S Equine, Sport, Fracture, Metacarpals, Desmitis.
47
Juliana de Oliveira Bernardo et al.
O objetivo deste trabalho é realizar um estudo retrospectivo dos casos de fratura de MTCa em cavalos de pólo, submetiOs equinos possuem três ossos metacárpicos denominados dos à ostectomia parcial no Hospital Vetpolo, correlacionando
de segundo (MTC-II), terceiro (MTC-III) e quarto osso meta- o membro acometido e a incidência de desmite de LSB.
cárpico (MTC-IV). O MTC-III no equino é bem desenvolvido
e possui grande importância na dinâmica da locomoção, enquanto o MTC-II e MTC-IV, situados respectivamente, na face MATERIAL E MÉTODOS
palmar medial e palmar lateral do MTC-III, são rudimentares,
sendo chamados de metacárpicos acessórios (MTCa) ou splint
Foi realizado, com previa autorização dos proprietários, o
bones (BUDRAS; SACK; RÖCK, 2009, ASHDOWN; DONE, estudo retrospectivo da incidência do membro e a presença ou
2008, KÖNIG; LIEBICH, 2002).
não de desmite do LSB em 35 animais com diagnóstico radioAs fraturas de MTCa podem ser proximais, médias ou dis- gráfico de fratura dos MTCa e submetidos a ostectomia parcial
tais; simples ou compostas; abertas ou fechadas. As fraturas na no Hospital Vetpolo no período de 2002 a 2008. Foram atendiregião proximal dos MTCa são as mais comuns, porém nem dos 22 fêmeas e 13 machos, puro sangue inglês, com peso entre
sempre são facilmente detectáveis no exame radiológico (SÁ; 372 a 488 kg e idade entre 5 e 16 anos, sendo todos os animais
FRANÇA, 2004).
praticantes de pólo.
Os animais de pólo são frequentemente acometidos por
Os animais foram submetidos ao exame clínico minuciofraturas de MTCa e desmite devido ao esforço desempenhado so, com atenção especial à claudicação, realizando-se, quando
em movimentos repentinos e explosões durante as partidas e necessário, bloqueios perineurais. Realizou-se então, os exames
aos riscos de traumas diretos por taco e bola (GOMES, 2008; radiográficos, com equipamento portátil de raio-x (FNX-90
ROONEY, 1974).
CTI - Electra, Rio de Janeiro, Brasil) e exames ultrassonográAlguns autores afirmam que as fraturas de metacárpicos ficos, utilizando-se de transdutor convexo de 7,5 MHz (Aloka
acessórios em equinos estão frequentemente associadas à des- SSD 500 - Aloka Co. - Tokio, Japão).
mite do ligamento suspensório do boleto (LSB) (WRIGHT,
Estatísticas descritivas foram realizadas com o objetivo de
2010; (ESCODRO; IBIAPINA; DIAZ, 2008; BERTONE, 2006; avaliar qual membro e osso mais acometido por fraturas em
SMITH, 2006; BUTLER et al., 2000). Dyson et al. (1995) ainda MTCa em equinos de pólo e correlacioná-las à presença de
sugerem que a fibrose formada no LSB decorrente a desmite desmite do LSB. Além disto, realizou-se uma distribuição de
diminui a capacidade da articulação metacarpofalângica na probabilidade para avaliação das variáveis aleatórias categóriabsorção de impactos o que leva a fratura dos MTCa. A des- cas para analisar a probabilidade de ocorrência de fraturas de
mite do LSB pode ocorrer devido ao estresse excessivo, porém acordo com o membro acometido.
nem sempre são diagnosticadas na prática da medicina esportiva equina (SCHWARZBACH et al., 2008).
Os principais sinais clínicos envolvidos nos casos de fratu- RESULTADOS E DISCUSSÃO
ra dos MTCa são a claudicação após o repouso do exercício, aumento do volume da região metacárpica, aumento de temperaFoi possível observar nos exames radiográficos dos 35 catura local e a sensibilidade dolorosa à palpação (GEORGETTI, valos com fraturas de MTCa, que 29 (82,86%) animais apre2007; THOMASSIAN, 2005; DEVAS, 1967). O aumento de sentaram fraturas no membro torácico direito (M.T.D.) e seis
volume na região ocorre normalmente em fraturas proximais, (17,14%) no membro torácico esquerdo (M.T.E.), havendo sopodendo estar presente ou não em fraturas distais, podendo- mente fraturas unilaterais, médias ou distais. O maior número
-se relacionar o aumento de volume com a gravidade da lesão, de fêmeas acometidas (62,85%) pode ser justificado pela prefequanto maior o edema, maior a gravidade da fratura, porém rência na utilização do gênero neste esporte.
em alguns casos, os animais são medicados sem acompanha
Das 35 fraturas, 25 (71,43%) ocorreram no MTC-IV,
mento médico veterinário o que dificulta o diagnóstico clínico sendo 21 (84%) no M.T.D. e 4 (16%) no M.T.E. Dez fraturas
(ESCODRO; IBIAPINA; DIAZ, 2008).
ocorreram (28,57%) ocorreram no MTC-II, sendo 8 (80%) no
Para o diagnóstico de fraturas de MTCa deve-se realizar M.T.D e 2 (20%) no M.T.E. (Figura 1), todas médio-distais, sem
um exame clínico minucioso com vista às claudicações (ES- necessidade de colocação de pinos de fixação, divergindo do
CODRO; GIANINI; LOPES, 2007). Como exames comple- descrito por. Sá e França (2004), que citam que geralmente as
mentares, pode-se utilizar os bloqueios perineurais, radiografia fraturas de MTCa exigem a colocação de pinos a fim de evitar
e ultrassonografia. A radiografia é essencial para o diagnóstico instabilidade local, migração, sequestro ósseo ou afecções secorreto, pois permite diferenciar o tipo de lesão e outros danos cundárias a fratura.
às estruturas adjacentes. Porém, é indispensável a realização da
Observou-se uma maior incidência de fraturas no M.T.D,
ultrassonografia para avaliar se lesões no LSB.
representando 29 casos (82,86%), o que pode ser explicado
Na ultrassonografia é possível encontrar áreas anecogêni- pelo esporte exercido pelos animais, onde o taco e bola rolam
cas ou hipoecogênicas marginais sob a área da fratura. Já em pelo lado direito quando em avanço da partida, devido o tacasos onde a desmite do LSB é primária, a lesão é central, dife- queio do jogador ser realizado com o braço direito. Sá e França
renciando das lesões secundárias a fratura (ESCODRO; GIA- (2004) encontraram uma proporção de 56% no M.T.D. e 44%
NINI; LOPES, 2007; BERTONE, 2006; DYSON et al., 1995).
no M.T.E. de fraturas de MTCa em equinos de pólo, não encon-
INTRODUÇÃO
48
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 21-23 - janeiro/abril, 2015
Toxic levels of zinc in mineral salt mixtures used in beef cattle supplementation
Figura 1 - Incidência (%) de fraturas nos segundo
(MTC-II) e quarto (MTC-IV) ossos metacárpicos
acessórios em membro torácico direito (M.T.D.)
e membro torácico esquerdo (M.T.E.) em equinos
praticantes de pólo.
trando diferença significativa entre os membros acometidos,
porém com M.T.D. também sendo o que apresenta maior números de fraturas..
Esta peculiaridade no esporte, também pode alicerçar a
explicação da maioria das fraturas serem no quarto metacárpico (71,42%), já que o taqueio ocorre na face lateral do M.T.D.
Diferentemente dos resultados encontrados por Sá e França
(2004), onde 52% dos animais apresentavam fraturas de MTC-II e 48% fraturas de MTC-IV. Em relação ao M.T.E., a incidência também pode ser explicada pelas jogadas de “back”, em
que o jogador faz o movimento de defesa pelo lado esquerdo
do animal.
O valor das variáveis categóricas neste estudo foi significativo, demonstrando ser o membro torácico direito mais acometido com fraturas em equinos praticantes de polo (82%),
enquanto que apenas 18% ocorreram no membro torácico
esquerdo. Além disso, a probabilidade do quarto osso metacárpico acessório ser acometido no M.T.D. foi de 84% e apenas
16% no M.T.E. A probabilidade do segundo osso metacárpico
acessório ser acometido no M.T.D. foi de 80%, enquanto houve
apenas 20% no M.T.E. (Figura 2).
Nas avaliações ultrassonográficas do ligamento suspensó-
Figura 2 - Probabilidade (%) de ocorrência de fraturas dos segundo ( MTC-II) e quarto (MTC-IV) ossos metacárpicos acessórios em membro
torácico direito (M.T.D.) e membro torácico esquerdo (M.T.E.) em equinos praticantes de pólo.
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 21-23 - janeiro/abril, 2015
49
Juliana de Oliveira Bernardo et al.
Figura 3 - Incidência (%) de fratura em
metacárpicos acessórios associada à desmite do ligamento suspensório do boleto
no membro torácico direito (M.T.D.) e
membro torácico esquerdo (M.T.E.).
rio do boleto (LSB), foi possível observar áreas anecogênicas
ou hipoecogênicas na região relacionada à fratura do MTCa,
em 15 animais, indicando desmite do LSB, representando
42,86% dos casos. Destes 15 animais, 11 (73,34%) apresentaram lesões crônicas, com tempo de evolução de 20 a 90 dias, e
quatro (26,66%) apresentaram lesões agudas, com no máximo
três dias de evolução.
Em relação ao membro acometido com desmite do LSB,
observou-se que no M.T.D., 9 (60,00%) animais apresentaram
lesões crônicas e 4 (26,66%), lesões agudas, totalizando 13 animais, ou seja, 46,43% dos casos de fratura de MTCa. Em relação
ao M.T.E., 2 (13,33%) animais apresentaram lesões agudas, totalizando 2 animais, ou seja, 33,33% dos casos (Figura 3).
As desmites de LSB associadas às fraturas de MTCa estiveram presentes em 42,86% dos casos, sendo mais comuns em
traumas crônicos, representando 73,33% do total. Estes valores diferem dos resultados encontrados por Schwarzbach et al.
(2008) que notaram uma maior incidência de desmite do ligamento suspensório no membro torácico em associação com
fraturas de MTCa e Sá e França (2004) que verificaram uma
alta incidência de desmite do ligamento suspensório em animais de pólo que apresentavam fraturas de segundo ou quarto
metacarpianos (82,35%), afirmando não haver predileção pelo
membro acometido.
Os autores ainda afirmam que é difícil discernir se a ocorrência da desmite do LSB leva a fratura de MTCa ou se a fratura leva à desmite (SCHWARZBACH et al., 2008; SÁ; FRANÇA, 2004). Porém, os resultados deste estudo retrospectivo,
mostraram que a desmite do LSB pode estar mais associada
à proliferação óssea no eixo axial do osso, devido á calcificação da fratura, do que propriamente com a fratura primária,
sendo que a ostectomia parcial precoce pode auxiliar no não
comprometimento do LSB em animais com fraturas de metacárpicos acessórios.
A partir dos dados analisados, pode-se levantar a hipótese
que a maioria das fraturas em cavalos de pólo está relacionada
50
com trauma direto, e não com lesão primária do LSB, como
ocorre em cavalos de corrida, relatado por Wright (2010) e
Bertone (2006) que tem fraturas no segundo osso metacárpico
direito e quarto osso metacárpico esquerdo, devido ao sentido anti-horário das corridas. Uma vez que 82% dos animais
apresentaram fratura no M.T.D., apenas 42,46% apresentaram
desmite do LSB, confirmando assim esta hipótese.
A causa principal de claudicação dos animais acometidos
foi devido a desmite do ligamento suspensório. A ostectomia
parcial foi considerada o tratamento de escolha, pois os animais voltaram a sua atividade atlética.
CONCLUSÃO
Conclui-se que a incidência as fraturas dos ossos metacárpicos acessórios, em cavalos de pólo são mais comuns nos
membros torácicos direito e quarto osso metacárpico, divergindo da estatística de casos em cavalos de corrida, provavelmente
estando associadas aos traumas diretos com tacos e bolas.
São necessários mais estudos retrospectivos e pesquisas,
buscando reforçar os dados aqui levantados, bem como pesquisar o prognóstico das ostectomias parciais e retorno à atividade esportiva dos animais, correlacionando os casos com a
desmite do LSB.
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 21-23 - janeiro/abril, 2015
51
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 27-32 - janeiro/abril, 2015
Determinação das variáveis
fisiológicas e bioquímicas
de equinos Mangalarga
Marchador durante prova
oficial de marcha
Mayra Carla Pedrosa da SILVA1, Carolina BERKMAN2, Peres Ramos BADIAL3, Emílio
Carlos Leão Bittencourt SARMENTO1, Nielma Gabrielle Fidelis OLIVEIRA4, Ulisses Barbosa
RAPHAEL4, Jéssica Monteiro Queiróz de MEDEIROS4, Luisa Gouvêa TEIXEIRA*5.
RESUMO
1
Médico(a) Veterinário(a) autônomo(a).
2
Docente do Departamento de
Diagnóstico por Imagem da UFMT, Sinop,
MT.
3
Postdoctoral Research Associate Mississipi
State University, College of Veterinary
Medicine Department of Pathobiology and
Population Medicine Starkville, MS, US.
4
Graduando(a) do Curso de Medicina
Veterinária do Centro Universitário
Cesmac, Marechal Deodoro, AL.
5
Docente do Curso de Medicina
Veterinária do Centro Universitário
Cesmac, Marechal Deodoro, AL e
Doutoranda do Programa de PósGraduação em Cirurgia Veterinária da
Objetivou-se avaliar os efeitos da prova de marcha nas variáveis fisiológicas e bioquímicas
de equinos e compará-los entre os dois tipos de marcha (picada e batida). Aferiu-se a frequência
cardíaca (FC), temperatura retal (TR), lactatemia e glicemia de 18 cavalos atletas, Mangalarga
Marchadores, machos, divididos nas categorias de Cavalo Júnior e Cavalo Jovem. Em cada uma
destas, cinco animais realizaram marcha picada e quatro realizaram marcha batida. Os dados
foram coletados 60 minutos antes da prova (T0), um (T1), cinco (T2) e dez minutos (T3) após
o término desta. Os dados foram analisados pelo ANOVA, com nível de probabilidade de 5%, e
para as diferenças entre as médias utilizou-se o Teste de Tukey (p≤0,05). Observou-se aumento
significativo apenas da FC no T1 e da TR nos T1 a T3, exceto em Júnior Marcha Picada. Não
houve diferença significativa entre as marchas. Conclui-se que os equinos estavam aptos para
exercer tais provas e que a execução da marcha picada ou da batida exigiu o mesmo condicionamento físico.
P A L A V R A S - C H A V E glicemia, lactatemia, marcha picada, marcha batida.
Physiological and biochemical findings in Mangalarga Marchador
horses during official competition of marcha
FCAV/UNESP, Jaboticabal, SP.
ABSTRACT
*Autora para correspondência:
We evaluated the gait competition effects on some physiological and biochemical parameters in Mangalarga-Marchador horses, and compared these findings between two gait types
(marcha picada and marcha batida). Heart rate (HR), rectal temperature (RT), lactatemia, and
glycemia were measured in 18 athlete male horses subdivided in two categories (Júnior and
Jovem). Each category was comprised of five and four animals performing marcha picada and
marcha batida, respectively. The variables were measured 60 minutes before (T0), and one (T1),
five (T2) and ten (T3) minutes after the competition. Data were analyzed using ANOVA followed by Tukey’s test considering significance level at P=0.05. The HR and RT increased significantly on T1, and from T1 to T3, respectively, when compared to T0 in all groups except
one (Júnior category, marcha picada). There was no significant changes between groups. We
conclude that all horses were well trained and conditioned to perform the competition. Also,
the same conditioning level is necessary to perform marcha picada or marcha batida.
[email protected]
K E Y W O R D S 52
glycemia, lactatemia, marcha picada, marcha batida.
Determinação das variáveis fisiológicas e bioquímicas de equinos Mangalarga Marchador durante prova oficial de marcha
res, machos, em plena atividade atlética, distribuídos em duas
categorias, sendo Cavalo Júnior (30 a 36 meses de idade) e
No Brasil, a população de equinos é estimada em aproxi- Cavalo Jovem (36 a 54 meses de idade). Em cada uma destas
madamente 5,5 milhões de cabeças, sendo a quarta maior do categorias, cinco animais realizaram marcha picada e quatro
mundo (IBGE, 2015). Os equinos são utilizados em diversas animais marcha batida.
áreas esportistas e este setor do agronegócio movimenta anualmente, em média, R$ 705 milhões e emprega cerca de 20 mil PROCEDIMENTOS
pessoas. Nas últimas décadas, o setor esportivo desenvolveu- se
rapidamente, contribuindo para o aumento do estudo da fisioAs aferições dos parâmetros físicos, ambientais e coletas
patologia do exercício equino (LIMA et al., 2006). No entanto, de sangue foram realizadas 60 minutos antes do início de cada
devido à grande variedade de esportes e das raças de cavalos, prova de marcha (T0), um (T1), cinco (T2) e dez minutos (T3)
torna-se importante a avaliação dos animais praticando as suas após o término destas. Realizou-se a aferição da FC (batimenatividades físicas em condições de campo para que se estabele- tos por minuto - bpm) por meio de estetoscópio, da TR (ºC)
çam programas de nutrição e condicionamento físico (WAN- utilizando-se termômetro digital e do tempo de cada prova
DERLEY et al., 2010).
(min.) com o cronômetro digital. Foram mensuradas, com
A raça Mangalarga Marchador é a mais populosa do Bra- auxílio de termo-higrômetro digital, a temperatura do ar e a
sil, havendo aproximadamente 350.000 equinos registrados umidade do ambiente no qual foi realizada a prova equestre.
(WANDERLEY et al., 2010). Poucas pesquisas são realizadas
A partir de um banco de amostras pertencente à Associacom esta raça, cujo andamento característico é a marcha. Du- ção Alagoana dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marcharante as provas equestres desta modalidade, o animal realiza dor (AACCMM), filiada à Associação Brasileira dos Criadores
exercício de longa duração, em um percurso em círculo, sem do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM), as amostras
repouso e em velocidade constante, considerado exaustivo e de plasmáticas sanguíneas congeladas foram gentilmente cedidas
grande gasto energético (GAMA et al., 2012).
para este estudo. Previamente, estas foram coletadas por meio
O estudo de variáveis fisiológicas como frequência cardía- de venopunção jugular à vácuo, em frascos estéreis contenca (FC) e temperatura retal (TR), e das variáveis bioquímicas do fluoreto de sódio, e centrifugadas a 1000 x g durante cincomo o lactato e glicose sanguíneos, auxiliam na determina- co minutos para obtenção apenas do plasma sanguíneo. Este
ção do grau de condicionamento e dos gastos energéticos de foi acondicionado em microtubos de 1,5 mL e congelado em
equinos atletas durante o esforço físico (ROGERS et al., 2007; freezer a -20 ºC. Posteriormente, as amostras foram analisadas
EVANS et al. 2007; FERRAZ et al., 2010). Estas variáveis, quan- a partir do analisador bioquímico semi-automático (Bioplus
do relacionadas, tornam-se uma importante ferramenta para 200F®) utilizando- se kits comerciais para mensuração do lacavaliar o tipo de via metabólica utilizada durante o exercício tato (Liquiform, Labtest®, Ref. 116-1/40) e glicose (PAP Liqui(DAVIE et al., 2000; VERMEULEN et al., 2006).
form, Labtest®, Ref. 84-1/500) plasmáticos.
A utilização de testes para a avaliação do desempenho
atlético, realizados a campo (pista), adicionado a avaliação das ANÁLISE ESTATÍSTICA
respostas fisiológicas obtidas pela ação do exercício e do treinamento, pode ser considerada uma valiosa ferramenta para
Os dados obtidos foram submetidos a testes paramémaximização dos resultados obtidos nas competições. Desta tricos, por meio da análise de variância em blocos (ANOVA)
forma, o programa de treinamento deixa de ser realizado so- e as médias submetidas ao Teste de Tukey. As médias relaciomente de maneira empírica tornando-se um processo técni- nadas aos equinos em repouso (T0) com os demais momentos
co, com embasamento clínico e fisiológico (SANTOS, 2006; (T1, T2 e T3), foram comparadas em uma mesma categoria e
ERCK et al., 2007). No entanto, pouco se tem estudado sobre a tipo de marcha. O efeito do tipo de marcha (picada versus bainfluência do tipo de prova equestre nas variáveis fisiológicas e tida) foi comparado em cada categoria e no mesmo momento
bioquímicas, em cavalos de marcha.
de avaliação. A análise estatística foi realizada utilizando-se o
A partir do presente estudo, objetivou-se avaliar em cavalos programa SAS (Statistical Analysis System®), considerando-se
Mangalarga Marchadores os efeitos da prova de marcha em re- nível de probabilidade de 5% (p≤0,05).
lação às variáveis fisiológicas (FC e TR) e bioquímicas (lactato
e glicose plasmáticos) de cada categoria, além de compará-los
entre os dois tipos de marcha (picada e batida).
RESULTADOS
INTRODUÇÃO
A temperatura ambiente média foi de 26,69 ± 1,56
°C e a umidade do ar de 80,0 ± 0,08 % no dia da execução das
provas de marcha, as quais foram realizadas no tempo médio
ANIMAIS
de 18,88 ± 0,25 minutos para as categorias Cavalo Jovem ou
Júnior, tanto marcha batida quanto picada.
Durante prova oficial de marcha realizada no Parque de
Os valores da FC apresentaram aumento significativo
Exposições José da Silva Nogueira, situado na cidade de Ma- (p≤0,05) apenas no T1 quando comparadas ao T0, nas cateceió - AL, foram avaliados 18 equinos Mangalarga Marchado- gorias Cavalo Jovem Marcha Batida (tabela 1), Cavalo Jovem
MATERIAL E MÉTODOS
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Mayra Carla Pedrosa da Silva et al.
Marcha Picada (tabela 2) e Cavalo Júnior Marcha Batida (tabela 3). A categoria de Cavalo Júnior Marcha Picada (tabela 4)
não apresentou alteração significativa (p>0,05) da FC. Adicionalmente, observou-se o declínio dos valores da FC (p>0,05)
nos momentos T2 e T3, se comparado ao T0, em todas as categoria e tipos de marcha, apresentando-se próximo ao T0 aos
dez minutos após o término da prova (T3).
Em relação aos resultados da TR, observou-se diferença significativa (p≤0,05) nos momentos T1, T2 e T3, quando
comparados ao T0, para as categorias Cavalo Jovem Marcha
Batida (tabela 1) e Cavalo Jovem Marcha Picada (tabela 2) e
Cavalo Júnior Marcha Batida (tabela 3). A categoria Cavalo Júnior Marcha Picada (tabela 4) apresentou aumento significativo (p≤0,05) somente em T1, para esta variável. No entanto, ao
avaliarmos os valores da TR nas diferentes categorias, pode-se
observar que houve a diminuição de T3 para T1, sendo em T1
o maior valor após a prova de marcha, para esta variável.
Os valores do lactato plasmático do presente estudo não
Tabela 1 - Médias ± desvios-padrão obtidos para a frequência cardíaca, glicose, lactato e temperatura retal de equinos da raça Mangalarga Marchador e categoria Cavalo Jovem Marcha Batida.
Momento da Coleta
Frequência cardíaca
(bpm)
Temperatura retal (ºC)
Lactato (mmol/L)
Glicose (mmol/L)
T0
44,00±4,90a
37,90±0,19a
1,61 ± 0,42a
5,52±0,47a
T1
67,50±3,30b
39,63±0,29*b
2,89±0,42a
6,72±0,58a
T2
57,75±5,72ab
39,53±0,19b
3,02±0,67a
6,64±0,41a
T3
49,25±4,11ab
39,00±0,08b
3,02±0,70a
6,99±0,29a
Médias seguidas por letras diferentes, nas colunas, diferem entre si pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade (P<0,05). *(P<0,01).
T0 = 60 minutos antes da prova de marcha; T1 = um minuto, T2 = cinco minutos e T3 = 10 minutos após o término da prova de marcha.
Tabela 2 - Médias ± desvios-padrão obtidos para a frequência cardíaca, glicose, lactato e temperatura retal de equinos da raça Mangalarga Marchador e categoria Cavalo Jovem Marcha Picada.
Momento da Coleta
Frequência cardíaca
(bpm)
Temperatura retal (ºC)
Lactato (mmol/L)
Glicose (mmol/L)
T0
39,20±2,33a
37,88±0,17a
1,11±0,09a
5,19±0,43a
T1
73,80±4,15*b
39,66±0,23*b
3,06±0,70a
6,44±0,80a
T2
58,60±4,47ab
39,02±0,33b
2,84±0,60a
6,27±0,82a
T3
52,20±2,76ac
38,98±0,21b
2,04±0,42a
5,52±0,56a
Médias seguidas por letras diferentes, nas colunas, diferem entre si pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade (P<0,05). *(P<0,01).
T0 = 60 minutos antes da prova de marcha; T1 = um minuto, T2 = cinco minutos e T3 = 10 minutos após o término da prova de marcha.
Tabela 3 - Médias ± desvios-padrão obtidos para a frequência cardíaca, glicose, lactato e temperatura retal de equinos da raça Mangalarga Marchador e categoria Cavalo Júnior Marcha Batida.
Momento da Coleta
Frequência cardíaca
(bpm)
Temperatura retal (ºC)
Lactato (mmol/L)
Glicose (mmol/L)
T0
43,00±6,61a
37,93±0,09a
1,78±0,30a
5,33±0,14a
T1
70,50±5,62b
39,65±0,33*b
4,11±1,67a
6,38±0,17a
T2
56,75±6,21ab
39,38±0,35b
4,16±2,17a
6,14±0,28a
T3
50,75±5,44ab
39,38±0,21b
3,64±1,65a
6,34±0,25a
Médias seguidas por letras diferentes, nas colunas, diferem entre si pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade (P<0,05). *(P<0,01).
T0 = 60 minutos antes da prova de marcha; T1 = um minuto, T2 = cinco minutos e T3 = 10 minutos após o término da prova de marcha.
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 27-32 - janeiro/abril, 2015
Determinação das variáveis fisiológicas e bioquímicas de equinos Mangalarga Marchador durante prova oficial de marcha
Tabela 4 -Médias ± desvios-padrão obtidos para a frequência cardíaca, glicose, lactato e temperatura retal de equinos da raça Mangalarga
Marchador e categoria Cavalo Júnior Marcha Picada.
Momento da Coleta
Frequência cardíaca
(bpm)
Temperatura retal (ºC)
Lactato (mmol/L)
Glicose (mmol/L)
T0
44,80±4,96a
38,56±0,33a
3,02±1,50a
5,42±0,45a
T1
64,60±5,47a
39,92±0,11b
3,31±0,44a
6,18±0,38a
T2
56,80±5,12a
39,46±0,21ab
2,86±0,45a
5,94±0,45a
T3
51,00±3,90a
39,40±0,19ab
2,71±0,43a
6,00±0,64a
Médias seguidas por letras diferentes, nas colunas, diferem entre si pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade (P<0,05).
T0 = 60 minutos antes da prova de marcha; T1 = um minuto, T2 = cinco minutos e T3 = 10 minutos após o término da prova de marcha.
apresentaram diferença estatística (p>0,05), apesar do maior
valor destes em T1, T2 e T3 se comparados ao T0, nas categorias de Cavalo Jovem Marcha Batida (tabela 1), Cavalo Jovem
Marcha Picada (tabela 2), Cavalo Júnior Marcha Batida (tabela 3) e Cavalo Júnior Marcha Picada (tabela 4). Também foi
possível verificar que os níveis desta variável apresentaram-se
menores em T3 do que em T1, tendendo ao retorno aos valores
basais aos 10 minutos após o exercício.
Os valores de glicose plasmática nas categorias Cavalo Jovem Marcha Batida (tabela 1), Cavalo Jovem Marcha Picada
(tabela 2), Cavalo Júnior Marcha Batida (tabela 3) e Cavalos
Júnior Marcha Picada (tabela 4) não apresentaram diferença
estatística (p>0,05) nos diferentes momentos após o exercício,
se comparados ao T0. No entanto, o aumento foi observado
nos valores da glicose em T1, T2, e T3, nas duas categorias e
tipos de marchas, apesar de não significativo (p>0,05). Neste
estudo, a média de aumento dos valores da glicose nas diferentes categorias e tipos de marcha durante o T1 foi de 20 % em
relação ao T0, exceto para Cavalo Júnior Marcha Picada, que
foi de 14%.
Comparando os dois tipos de marcha (Picada versus Batida) não foi observada diferença estatística (p>0,05) entre as
categorias Cavalo Júnior e Cavalo Jovem nos momentos T0,
T1, T2 e T3 para as variáveis analisadas (FC, TR, lactato e glicose). Logo, neste estudo, os resultados desta comparação não
foram apresentados em forma de tabela, visto que não houve
diferença significativa.
DISCUSSÃO
O aumento dos valores da FC é fisiologicamente mediado
por estímulos ao sistema nervoso simpático, a partir da liberação das catecolaminas durante o exercício e captação destas
pelos receptores β-adrenérgicos, produzindo assim alteração
desta variável (MARTÍNEZ et al., 2009). Os resultados relativos à FC no presente estudo, corroboram aqueles obtidos por
Wanderley et al. (2006) e Gomes et al. (2015), os quais relatam
aumento significativo desta em equinos, imediatamente após
o término de prova de marcha e vaquejada, respectivamente,
com diminuição da FC para valores próximo ao basal, aos
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 27-32 - janeiro/abril, 2015
quinze minutos de repouso. Pode-se inferir que recuperação
do ritmo cardíaco dentro dos primeiros dez minutos após o
término de uma prova equestre ocorre em cavalos bem condicionados ao exercício (FLAMÍNIO e RUSH, 1998). Além disto,
sugere-se que o rápido retorno da FC demonstra também que
não houve superaquecimento corpóreo como consequência
deste (GOMES et al., 2015).
A ausência de alteração significativa da FC observada no
grupo Cavalo Júnior Marcha Picada indica que a intensidade
do exercício não foi suficiente para alterá-la e que estes animais podem estar mais condicionados em relação aqueles dos
demais grupos.
Os valores da TR registrados neste estudo corroboram
aqueles descritos por Lopes et al. (2009) e Gomes et al. (2015),
os quais também observaram aumento significativo (p≤0,05)
da TR após o exercício em cavalos da raça Quarto de Milha,
submetidos à prova de vaquejada. McConaghy (1994) e McCutcheon e Geor (2008), relatam que após 10 minutos do fim
de exercícios extenuantes, a TR dos equinos fica em torno de
39ºC a 40ºC e deve diminuir nos 10 a 20 minutos seguintes,
corroborando os resultados apresentados no presente estudo.
Isto indica que os animais estavam retornando a TR para o
basal, não sendo observado aumento progressivo da TR após o
término do exercício.
Os equinos possuem mecanismos termorregulatórios elaborados que são capazes de manter a temperatura corpórea
interna, apesar dos efeitos ambientais (McCONAGHY, 1994).
Assim, a atividade física produz energia térmica suficiente para
elevar a temperatura corporal em até 5°C, sendo que este calor
é difundido pelo sangue em direção à pele e trato respiratório,
para dissipação por meio da sudação e evaporação. No entanto,
durante o exercício físico cansativos, a taxa de calor produzido
excede a taxa de dissipação, podendo elevar a temperatura em
até 1ºC por minuto (JONES, et al. 2006).
A ausência de alterações significativas nas concentrações
de lactato também foram observadas por Rizzo et al. (2008) ao
avaliar éguas Mangalarga Marchadoras submetidas a prova de
marcha, concordando com os resultados desta pesquisa para
essa variável. No entanto, Wanderley et al. (2010) e Gama et
al. (2012), examinando cavalos desta mesma raça após prova
experimental de marcha, demonstram o aumento significati-
55
Mayra Carla Pedrosa da Silva et al.
vo do lactato plasmático imediatamente e aos cinco minutos,
respectivamente, após o exercício. Este fato deveu-se, provavelmente, ao maior tempo de prova aos quais os equinos foram
submetidos, se comparados ao presente estudo.
A redução observada nos níveis plasmáticos de lactato durante o T3 desta pequisa, tendendo aos valores basais, apesar
de não significativa, foi semelhante aquela descrita por Wanderley et al. (2010), os quais também relataram a diminuição
destes após 15 minutos do término da simulação da prova de
marcha, à campo.
O lactato é uma variável sanguínea importante para ser
analisada, pois serve de parâmetro para todos os tipos de treinamento, podendo ser um fator limitante durante a atividade
atlética (HYYPPA et al., 1997). O aumento do lactato plasmático superior a 4,0 mmol/L é indicativo de exercício de curta
duração e alta intensidade, sendo a produção de energia realizada por via anaeróbia. Os exercícios de intensidade moderada (submáxima) e longa duração caracterizam aumentos
plasmáticos entre 2,5 e 4,0 mmol/L, com predominância do
metabolismo aeróbio (GAMA et al., 2012). As concentrações
do lactato abaixo do limiar de anaerobiose justificam os resultados encontrados neste experimento possibilitando classificar
o tipo de exercício realizado pelos equinos do presente estudo,
como submáximo.
Desta forma, a avaliação da concentração de lactato plasmático pode ser um parâmetro empregado para indicar o
condicionamento atlético de cavalos, visto que animais que
apresentam grande capacidade aeróbia geralmente possuem
baixas elevações das concentrações de lactato em resposta ao
exercício, justificando os presentes resultados (GAMA et al.,
2012). Assim, cavalos bem treinados absorvem melhor o lactato, após o esforço físico, se comparados aos não treinados. Em
um organismo sadio, a produção de lactato aumenta durante
o exercício quando se necessita de mais energia por unidade
de tempo, do que aquela produzida pelo metabolismo oxidativo. No entanto, o excesso de lactato causa a fadiga muscular
(LINDNER, 2006; OÇANHA, 2011).
Os valores de glicose plasmática encontrados no presente
delineamento, quando os equinos estavam em repouso (T0),
estão dentro do intervalo considerado fisiológico para esta espécie, sendo de 4,16 a 6,18 mmol/L (COELHO et al., 2011).
O aumento da glicose sanguínea após a execução de prova de
marcha nesta pesquisa, corrobora aqueles citados por Silva et
al. (2014), apesar do resultado destes ter sido significativo estatisticamente. Desta forma, infere-se que houve o aumento na
glicemia apenas em decorrência da execução de atividade física, havendo a disponibilização de substrato energético para o
trabalho muscular, no presente estudo.
O efeito do exercício sobre a concentração sanguínea da
glicose é variável, dependendo do tipo e duração do exercício.
Esta variável se eleva em decorrência do aumento da atividade
de hormônios que regulam o metabolismo energético, como
as catecolaminas e o glucagon que, ao serem liberados, provocam glicogenólise e gliconeogênese hepática. Neste processo
metabólico há diminuição da liberação da insulina, que somados ao efeito do cortisol, promovem um efeito hiperglicêmico
(HYPPA et al., 1997).
56
Semelhante aos nossos resultados, Wanderley et al. (2010)
encontraram valores de glicose sanguínea 20% maiores em cavalos submetidos à simulação de prova de marcha à campo,
quando comparado aqueles em repouso. Equinos melhor condicionados demonstram maiores valores de glicose durante
a prova de marcha, em relação aqueles pouco condicionados
(SILVA et al., 2014).
Wanderley et al. (2006), ao avaliarem cavalos Mangalarga
Marchadores durante prova experimental de marcha picada e
batida, relataram diferença significativa de FC, frequência respiratória, volume globular sanguíneo e lactato plasmático, os
quais foram maiores naqueles que realizaram marcha picada,
diferindo do presente estudo. Estes autores sugerem que os
animais deveriam estar mais adaptados ao exercício proposto e
citam que a realização da marcha picada requer maior gasto de
energia por produzir maior atrito e contato com a superfície
do solo durante a locomoção, quando comparada à marcha batida. No entanto, a partir dos resultados obtidos após comparação entre os dois tipos de marcha no presente estudo, pode-se
inferir que o gasto energético e exigência de condicionamento
físico para a realização da marcha picada e marcha batida foi
o mesmo.
Deve-se considerar que os dados da presente pesquisa foram coletados em uma prova oficial de marcha a campo e não
durante simulação deste tipo de prova. Assim, os equinos deste
estudo são atletas em plena atividade, fato que justifica o bom
condicionamento ao tipo de prova realizada. Neste estudo não
foram questionados os protocolos de treinamento ou nutricional dos cavalos. Acredita-se que haja relação direta do tipo
de treinamento e alimentação com os resultados encontrados,
visto que não houve prejuízos metabólicos para estes animais,
após a prova. Assim, sugere-se a realização de estudos que relacionem o condicionamento físico de cavalos Mangalarga Marchadores durante prova de marcha, com protocolos de treinamento e alimentar destes animais.
CONCLUSÃO
A realização da prova de marcha ocasionou alterações
nos valores das variáveis fisiológicas dos equinos, retornando
próximo aos valores basais aos dez minutos após o término do
exercício. Este fato, aliado à ausência de aumento significativo
dos valores das variáveis bioquímicas, faz-nos sugerir que os
equinos do presente estudo estavam devidamente condicionados para exercer as respectivas provas de marcha. Adicionalmente, infere-se que a execução da marcha picada ou da marcha batida exige o mesmo gasto energético e condicionamento
físico dos cavalos Mangalarga Marchadores, quando estes são
atletas.
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57
Ciência Veterinária nos Trópicos, Recife-PE,
v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
Alelo DMRT3 mutante em
equinos de marcha batida e
picada das raças Campolina e
Mangalarga Marchador
Hélio Cordeiro MANSO FILHO1*; Ernest Gus COTHRAN2; Rytis JURAS2; Manuel
Adrião GOMES FILHO3; Núbia Michelle Vieira da SILVA1; Gisele Barbosa da SILVA1;
Lúcia Maia Cavalcanti FERREIRA1; José Mário Girão ABREU4; Helena Emília Cavalcanti da Costa Cordeiro MANSO1
RESUMO
¹ Núcleo de Pesquisa Equina,
Departamento de Zootecnia,
Universidade Federal Rural de
Pernambuco, Recife-PE;
2
Department of Veterinary Integrative
Biosciences, Texas A&M University,
College Station-TX, Estados Unidos da
America;
3
Departamento de Morfologia e
Fisiologia Animal, UFRPE, Recife-PE,
Brasil.
4
Faculdade de Medicina Veterinária,
Universidade Estaural do Ceará,
Fortaleza-CE, Brasil;
*Autor para a correspondência:
[email protected]
Recentemente, diferentes publicações demonstraram que o alelo DMRT3 esta associado
aos importantes aspectos da locomoção relacionados com a associações entre bípedes e por isso
é denominado “the Gait Keeper”. Ele, quando mutante, promove os andamentos dissociados,
sejam eles marchados ou saltados. Todavia, as comparações entre os tipos de marcha e as raças
Campolina (CAMP) e Mangalarga Marchador (MM) no que se refere à presença desse alelo
mutante não foram estudadas. Esse trabalho objetivou o estudo da presença do alelo DMRT3
mutante em equinos de marcha batida e picada das raças Campolina e Mangalarga Marchador.
Foram utilizadas amostras de DNA de 105 equinos adultos (50 CAMP (batida n=27; picada
n=25); 53 MM (batida n=27; picada n=26). O material genético o foi sequenciado utilizando-se
protocolos do Borlaug Center através Illumina Hi-Seq 100-PE e os resultados foram analisados
através da distribuição da frequência desse gene entre as raças e entre os andamentos. As raças
Campolina (CAMP) e Mangalarga Marchador (MM) possuem o DMRT3 mutante. Na CAMP
não encontrou-se o alelo DMRT3 normal homozigoto, tanto na picada como na batida. Ainda na CAMP, a maior frequência no DMRT3 mutante homozigoto ocorreu tanto na picada
(~44%) como na batida (~26%). Na raça MM não encontrou-se o alelo mutante em homozigose
nos animais de marcha batida. As maiores frequências na MM de batida foi no alelo DMRT3
normal homozigoto (~43%) e na picada no alelo mutante em homozigose (~32%). Esse estudo
indica que o alelo DMRT3 mutante encontra-se nas raças CAMP e MM e que a frequência dele
tem relação não só com a raça, mas também com o tipo do andamento. Por isso, surge a necessidade de estudos mais detalhados para se determinar o possível uso da análise do alelo DMRT3,
normal e mutante, como ferramenta dentro dos programas de melhoramento genético e de
treinamento para que possam ser utilizados nos equinos marchadores.
PA L AV RAS - C H AV E equídeo; genética; andamento; exercício; cavalo;
marchador
DMRT3 mutant allele in batida and picada gaited horses from
Campolina and Mangalarga Marchador breeds
ABSTRACT
Recently, few papers had shown that DMRT3 allele has association with different aspects of
the locomotion in horses and other animals, principally ones that have relationships with animal legs associations and now is denominated “ the Gait Keeper”. This allele, when mutant, produce dissociated gaits, with ou without flying phase. However, there is no information about
the DMRT3 mutant allele presence when it is compared different types of marcha, batida and
picada, and different gaited horses breeds, Campolina (CAMP) and Mangalarga Marchador
(MM). The aims of this paper were the evaluation of the DMRT3 wild type and mutant alleles
in gaited horses with batida and picada gait from CAMP and MM breeds. It was used DNA
samples from 105 adult horses (50 CAMP (batida n=27; picada n=25); 53 MM (batida n=27; picada n=26). All genetic samples was sequenced using the Borlaug Center protocol by Illumina
58
Alelo DMRT3 mutante em equinos de marcha batida e picada das raças Campolina e Mangalarga Marchador
Hi-Seq 100-PE and the results were analyzed by frequency distribution of this allele between breeds and gaits. Results showed
that CAMP and MM have the DMRT3 mutant allele. In CAMP breed it was not observed DMRT3 wild type allele in homozygous, in batida and picada horses. In addition, the DMRT3 mutant homozygous in CAMP breed occurred in picada (~44%) and
batida (~26%) gaits animals in large frequencies. The MM breed did not have DMRT3 mutant homozygous in batida horses.
The largest frequency in batida horses in MM breed was obtained in DMRT3 wild type homozygous (~43%) and in picada
horses was in DMRT3 mutant homozygous (~32%). This research showed that DMRT3 mutant allele is present in CAMP and
MM breeds and its frequency has relationships not only with horse’s breed but also with type of the horse’s gait. Finally, to
understand the importance for gaited horses of the DMRT3 allele, mutant or wild type, it is necessary more studies because this
knowledge has important implication for development new genetic selection methods and training programs to these breeds.
KEYWORDS
equid; genetic; gaits; exercise; equine, four-beat horse
INTRODUÇÃO
Ao longo dos últimos anos, diferentes sistemas de melhoramento animal foram empregados na seleção dos animais
domésticos, sendo que a força e os andamentos sempre formaram os maiores objetivos na seleção dos equídeos. No Brasil, ao
longo das décadas, formaram-se dois grandes grupos de raças
de equídeos selecionados a partir da sua função e por conseguinte pelos seus tipos de andamentos. Em um dos grupos, há
raças nacionais desenvolvidas para o trabalho em fazendas e
atividades pecuárias, com animais que se deslocam em andamentos associados como o trote e o galope e nele estão raças
de equinos (Nordestina, Pantaneira e Crioula) e de asinino
(Nordestina). Já um segundo grupo, formou-se com animais
utilizados mais para as cavalgadas e deslocamentos em baixa
velocidade, mas com um andamento dissociados e suas variações (picada, batida, de centro e trotada) e nele estão raças de
equinos (Campolina, Mangalarga e Mangalarga Marchador) e
de asininos (Pêga e Brasileira).
No sentido de se compreender como os andamentos do
ponto de vista genético, nos últimos anos foram estudados e
identificado os genes associados a locomoção dos animais. Entre eles foi demonstrado que o alelo DMRT3 é um dos mais
importantes e por isso foi denominado “Gait Keeper”. Ele
coordena os movimentos tanto entre os membros esquerdos
e direitos, como também entre membros torácicos e pélvicos
(ANDERSSON et al., 2012). Também foi descoberto que nos
equinos o “Gait Keeper” ainda se apresenta tanto na forma natural (“wild type” ou CC) como em uma forma mutante (AA)
(ANDERSSON et al., 2012). A forma alelo DMRT3 AA ocorre
a partir da troca da Cisteína pela Adenosina em determinada
área do alelo e que os animais com o alelo DMRT3 AA apresentam melhor desempenho nas modalidades esportivas próprias das raças quando comparados com animais com o alelo
natural (ANDERSSON et al., 2012; JÄDERKVIST et al., 2015).
O alelo DMRT3 AA causa importantes modificações nos
andamentos dos animais. Andersson et al. (2012) demonstram
que em camundongos transgênicos, com DMRT3-null, o comprimento da passada é maior, devido a maior fase de extensão
dos membros, quando comparados com os animais controles
com o alelo DMRT3 CC, semelhantemente ao que ocorre nos
cavalos Standardbreds. Também foi demonstrado que o alelo
DMRT3 CC ocorre em maior frequência nas raças com anda-
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
mentos associados, enquanto que a forma mutante está mais
frequente em raças conhecidas como “gaited horses” ou de andamento dissociados, como a marcha e o tölk (ANDERSSON
et al., 2012; PROMEROVÁ et al., 2014; PATTERSON et al.,
2015). Nesse aspecto, já há estudos demonstrando que algumas raças Brasileiras possuem o alelo DMRT3 AA, tanto de andamento dissociado (Campolina: 89-95%; Mangalarga: ~7%;
Mangalarga Marchador: ~45-50%) como nas de andamento associado (Marajoara: ~7%; Crioulo: ~2%) (MANSO FILHO et
al., 2014; PROMEROVÁ et al., 2014; PATTERSON et al., 2015).
O alelo DMRT3 AA provoca modificações nos padrões de
deslocamento, favorecendo o aparecimento de andamentos
dissociados, sejam eles marchados ou saltados. Entretanto, ainda não há comparações quem combinem as análises dos tipos
de marcha (batida e picada) e das raças (Campolina e Mangalarga Marchador) no que se refere à presença do alelo DMRT3
AA, CC ou CA. Esse trabalho objetivou o estudo da presença
do alelo DMRT3 AA e CC em equinos de marcha batida e de
marcha picada e nas raças Campolina e Mangalarga Marchador. O conhecimento da distribuição desse gene entre as raças
e nos diferentes andamentos poderá contribuir para o melhor
entendimento dos andamentos dessas raças e das habilidades
esportivas, facilitando a adoção de práticas de treinamento e de
melhoramento genético que visem o bem-estar dos animais.
MATERIAL E MÉTODOS
Animais e colheita de amostras: Foram utilizadas amostras
dos pelos da crina caudal de 105 equinos, sendo 52 da raças
Campolina (batida n=27; picada n=25) e 53 da raça Mangalarga Marchador (batida n=27; picada n=26). Todos eram adultos
(5-20 anos), com registro definitivo e com o andamento fixado, seguindo as regras das respectivas associações de criadores,
com local nascimento tanto em Pernambuco como em outros
Estados do Brasil. Esses animais também haviam competido
em provas de marchas nos últimos anos ou estavam competindo em provas de marcha, conforme o seu andamento. As
amostras de pelos colhidas desses animais estavam armazenadas no banco de amostras do Núcleo de Pesquisa Equina/
UFRPE e os procedimentos utilizados no atual experimento
foram aprovados pelo Comitê de Ética na Pesquisa Animal da
UFRPE (026/2013) .
59
Hélio Cordeiro Manso Filho et al.
Análise do material genético e análise de dados: O material genético obtido das amostras de pelos dos animais foram
sequenciadas utilizando-se protocolos do Borlaug Center através Illumina Hi-Seq 100-PE, na Texas A&M University, e estão
detalhadamente descritos na literatura (ANDERSSON et al.,
2012). Os resultados foram analisados através da distribuição
da frequência dos alelos DMRT3 natural homozigoto (CC),
mutante homozigoto (AA) e heterozigoto (CA) entre as raças
e entre os andamentos.Também foram obtidas as frequências
alélicas e heterozigosidade esperada (He) e observada (Ho) segundo Nei (1987) e o teste para o equilíbrio de Hardy-Weinberg foram realizados com auxílio do GENEPOP versão 4.2,
conforme Rousset (2008).
RESULTADOS
Os resultados encontrados determinaram que o alelo
DMRT3 mutante (AA), estava presente nas raças Campolina
(CAMP) e Mangalarga Marchador (MM). Contudo, nessas raças foi observado que o alelo DMRT3 em homozigose, tanto
do alelo natural (CC) como do mutante (AA), e em heterozigose (CA) apresentavam diferentes variações nas suas frequências, tanto entre as raças CAMP e MM, como entre os animais
de marcha batida e picada.
Os animas da raça CAMP não apresentaram o alelo
DMRT3 CC, tanto para os cavalos de marcha picada como
para os de marcha batida. Ainda na raça CAMP determinou-se
que os animais de marcha picada apresentaram a maior frequência do alelo DMRT3 AA (~43%). Já nos animais da raça
MM não foi encontrado o alelo DMRT3 AA nos animais de
marcha batida. As maiores frequências observadas na raça MM
de marcha batida foi do alelo DMRT3 CC (~42%) e na marcha picada do alelo DMRT3 AA (~32%). A presença do alelo
DMRT3 CA foi observada em todos os grupos avaliados, sendo
que na raça CAMP a maior frequência foi determinada nos
animais de marcha batida (~24%) e na raça MM nos animais
de marcha picada (~15%).
Ainda conforme as Tabelas 1 e 2, ambas as raças não estão
em Equilíbrio de Hardy-Weinberg e apresentam um excesso de
genótipos homozigóticos quando analisa-se os resultados encontrados. O coeficiente de endogamia foi baixo na raça Campolina para a marcha batida com 0,19% e alto na picada com
39,9% e com um erro padrão 0,003 e 0,0019, respectivamente.
Já na raça MM a consanguinidade foi alta na marcha batida
com 31,6% e baixa na marcha picada com 2,4%. Devido as características do programa Genepop não foi possível comparar
os resultados entre as raças pois alguns apelos apresentavam
valores inferiores a dois.
DISCUSSÃO
Ao redor do mundo as raças com andamentos dissociados
ou “gaited horses” estão presentes em diferente centros de criação de equinos mas com importância produtivas diferentes.
Para que uma raça possua o andamento dissociado natural, ela
deverá possuir a presença do alelo DMRT3 mutante (AA), sendo que a frequência desse alelo poderá depender do sistema
de seleção genética utilizado ao longo dos anos e da população avaliada. Em estudo com mais de 140 raças de equinos foi
identificado que o alelo DMRT3 AA esta presente em cerca de
48% das raças analisadas, com a frequência variando de 1 até
100% (PROMEROVÁ et al., 2014). Esse estudo demonstra cla-
Tabela 1 - Frequência de Alelos de acordo com o tipo de andamento e o coeficiente de consanguinidade na raça Campolina.
ANDAMENTO
ALELO
N
F
SE
15
27
0,0019
0,0003
22
25
0,3994
0,0019
CC
AA
AC
Batida
0
12
Picada
0
3
Total
52
Observação: CC: alelo homozigoto natural; CA: alelo heterozigoto; AA: alelo homozigoto mutante; N: número de cavalos para cada tipo de marcha; F: coeficiente de
consanguinidade dentro de cada tipo de marcha; SE: erro padrão, medida de variabilidade da média.
Tabela 2 - Frequência de Alelos de acordo o tipo de andamento e o coeficiente de consanguinidade na raça Mangalarga Machador.
ANDAMENTO
ALELO
N
F
SE
0
27
0,3163
0,0021
17
26
0,0242
0,001
CC
AA
AC
Batida
23
4
Picada
1
8
Total
53
Observação: CC: alelo homozigoto natural; CA: alelo heterozigoto; AA: alelo homozigoto mutante; N: número de cavalos para cada tipo de marcha; F: coeficiente de
consanguinidade dentro de cada tipo de marcha; SE: erro padrão, medida de variabilidade da média.
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Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
Alelo DMRT3 mutante em equinos de marcha batida e picada das raças Campolina e Mangalarga Marchador
Figura 1. Distribuição do alelo DMRT3, natural e mutante, conforme raça e tipo de marcha em Cavalos das raças Campolina e
Mangalarga Marchador.
Observações: CC: alelo homozigoto natural; CA: alelo heterozigoto; AA: alelo homozigoto mutante equinos adultos das raças Campolina (n=52) (A) e Mangalarga
Marchador (n=53) (B).
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
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Hélio Cordeiro Manso Filho et al.
ramente que há interesse de diferentes criadores e associações
de criadores pela seleção em favor do alelo DMRT3 AA que
causa o andamento dissociado, que é refletido na diferentes
distribuição dos alelos, natural e mutante, em diferentes raças.
No atual estudo, ao avaliar os animais em conjunto
(n=105) e independente do tipo de andamento, observa-se que
o alelo DMRT3 AA esta presente em mais de 70% dos animais,
sendo que na raça Campolina ele chega a 100%, enquanto
que na MM é de pouco superior aos 54%. Ainda no atual
experimento, observa-se que são poucos os animais CA na raça
Mangalarga Marchador (~25%), diferentemente do encontrado nos animais da raça Campolina (~45%). Promerová et al.,
(2014) estudando essas duas raças, mas sem indicar o tipo de
andamento marchado, observa que na raça CAMP (n=18) há
uma frequência de ~89% do alelo DMRT3 AA enquanto que
na raça MM (n=22) esse número é de ~45%. Já na publicação
de Patterson et al. (2015) (n=81), analisando animais MM de
marcha batida (n=44) e picada (n=37), identificou que a frequência do alelo DMRT3 mutante foi de ~50%, quando os
animais dos dois andamentos foram combinados. Ambos os
estudos acima apresentaram resultados bastante semelhantes
aos descritos aqui e indicam que a combinação entre as três
publicações fornece uma boa indicação da realidade na frequência do DMRT3 natural e mutante nas raças CAMP e MM,
principalmente, sabendo-se que essas pesquisas utilizaram diferentes populações de equinos em suas análises.
O alelo DMRT3 AA pode ser responsabilizado pelas diferenças, tanto intra-racial como inter-racial, na qualidade e
tipo do andamento marchado dissociado nas raças CAMP e
MM. Em outras raças com andamentos dissociados, a frequência desse alelo DMRT3 AA é elevada, mas ausente em raças
com andamentos associados com no cavalo Árabe e Puro-Sangue Inglês (ANDERSSON et al., 2012). Jäderkvist et al (2015)
observa que equinos das raças Standardbred, Icelandic e Finnhorses que possuem o alelo DMRT3 AA, são superiores nas
competições indicadas para essas raças e que animais que são
CC ou CA não se saem tão bem nessas provas raciais específicas, sendo mais eficientes no adestramento e hipismo clássicos.
Nesse sentido, Andersson et al., (2012) ainda comentam que
animais AA possuem uma certa dificuldade para a coordenação entre membros ao trote e no galope, devido às características de formação nas conexões nevosas motoras. Entretanto, a
dissociação promovida pelo alelo DMRT3 AA ou CA, pode favorecer os andamentos marchados na raças nacionais, seja ela
batida ou picada, aumentado a frequência dos tríplice apoios e
o conforto naturalmente durante o deslocamento do cavaleiro.
Deve-se observar que a dissociação entre os membros, durante os deslocamentos à marcha, é largamente buscado na
seleção das raças CAMP, MM e outras raças nacionais de equídeos marchadores. A dissociação entre os membros, seja ela
natural ou artificial, é um dos principais pontos na avaliação
das raças durante as competições de marcha. Nesse sentido, os
animais da raça MM já competem, separadamente, em provas de marcha batida e picada desde a década de 1990, prática
introduzida na raça Campolina somente nos anos 2000. Esse
sistema de melhoramento genético, com base nos andamento, ainda passou outra variação na forma de seleção entre as
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duas raças, aonde na raça MM adotou a marcha com critério
de desempate entre animais nas competições muito antes que
a raça CAMP, e com isso, provavelmente, se formaram populações distintas entre as raças. Entretanto, ainda não esta claro
com a presença do alelo DMRT3 AA poderia ter sua frequência modificada e contribuir para todo o processo de seleção
das raças, já que a marcha pode ser artificial, e que diversas
prática de treinamento podem alterar a forma dos membros
se associarem ou dissociarem, sendo assim diferentes aspectos
da epigenética, como o treinamento e condicionamento, devem ser levados em consideração quando são analisados esses
resultados.
As diferenças inter-raciais, no que diz respeito ao alelo
DMRT3 CC ou AA, devem ser melhor analisadas, já que estudos com diferentes parâmetros fisiológicos e bioquímicos
demonstram poucas diferenças entre as raças CAMP e MM,
incluíndo a estimativa de gasto energético estimado para o
deslocamento à marcha (SILVA et al., 2015; MANSO FILHO
et al., 2012). Entretanto, Wanderley et al (2010) demonstrou
que quando cavalos da raça MM de marchas picada e batida,
são avaliados numa mesma velocidade média (~3,2m/s), apresentam acúmulo de lactato significativamente diferente. Nesse
caso, o animais de marcha picada apresentam maior acúmulo
de lactato, frequências cardíacas e respiratória mais elevadas,
indicando maior gasto energético quando comparado com
os de marcha batida (WANDERLEY et al., 2010). Contudo,
quando os animais das duas raças deslocam-se em velocidades médias diferentes, mas entre 3 e 4 m/s, não são observadas diferenças significativas inter-raciais, tanto para parâmetros fisiológicos (frequência cardíaca), como para parâmetros
bioquímicos (concentrações de glicose e lactato). Nesse caso,
compreende-se claramente que os conceitos do custo da locomoção, detalhadamente descrita por Hoyt e Taylor (1981)
e por Winkler et al (2002), são responsáveis por importantes
adaptações no metabolismo do cavalo atleta. Sendo assim, os
conceitos da economia da locomoção deveriam fazer parte da
avaliação dos animais durante as provas de andamento regularmente, ou seja, durante as avaliações os animais deveriam se
deslocar em velocidades diferentes em conjunto ou de forma
individual, para melhor serem analisados.
Ainda analisando-se o perfil da frequência do alelo
DMRT3 nas raças marchadoras, foi descrito que a maior ou
menor presença do alelo DMRT3 AA ou CA poderia estar associada ao nível de consanguinidade ou de endogamia em uma
determinada raça. Nesse sentido, Patterson et al. (2015) ressalta
que uma maior frequência do alelo DMRT3 mutante, pode
estar associado ao maior “inbreeding” na população da raça
MM analisada. No atual estudo o nível de consanguinidade
observado nas duas raças estudas variou de forma importante
conforme o tipo de andamento, sendo mais baixa nos CAMP
batida e MM picada (Tabelas 1 e 2), mas devido ausência de
alguns alelos o programa utilizado par as análise não permitiu
a indicação do valor de P. na comprando entre os alelos. Em
outro estudo com a raça MM, Costa et al (2005) encontrou o
coeficiente de endogamia para todos a população registrada de
1,3% e de 5,7% para os animais endogâmicos dessa raça. Semelhantemente, Procópio et al (2003) observa que o coeficiente
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
Alelo DMRT3 mutante em equinos de marcha batida e picada das raças Campolina e Mangalarga Marchador
de endogamia na raça CAMP é próxima a zero para toda a população registrada na associação dos criadores, sendo que nos
animais endogâmicos dessa raça o coeficiente de endogamia
foi de 6,0%. Sendo assim, essas diferenças na frequência dos
alelos DMRT3 detectadas no atual experimento e as diferenças
entre os níveis de endogamia entre as populações de equinos
das raças CAMP e MM podem possuir alguma relação mas
que devem ser melhor estudadas.
Para se compreender melhor os efeito da variação do
DMRT3 nas populações das raças MM e CAMP deve-se observar também o período de fechamento do livro de registro
aberto. Nesses livros eram registrados animais sem ancestrais
conhecidos, mas com a morfologia no padrão da raça em questão. Na raça MM ele foi fechado para os machos na década
de 60 e para as fêmeas na década de 80, do século XX. Já na
raça CAMP esse livro foi fechado no final década de 60 para
os machos, e nos anos 90 para as fêmeas, também no século
XX. Esses fatores, fechamento dos livros abertos e nível de consanguinidade, podem também terem contribuído para o atual
tipo de andamento marchado e nas diferentes frequências do
alelo DMRT3 CC e AA nas raças CAMP e MM. Finalmente deve-se observar que nos últimos anos a raça MM realizou alguns
termos de ajuste de conduta (TAC) junto ao Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), reconhecendo a utilização, nos cruzamentos e programas de reprodução,
de animais de outras raças em sua população, principalmente
animais da raça Mangalarga. Essa última raça que possui um
andamento marchado associado e com baixa frequência do
alelo DMRT3 mutante (PROMEROVÁ et al., 2014).
Finalmente, deve-se ressaltar que os diferentes aspectos
da epigenética podem ser importantes no entendimento dos
atuais resultados, já que a marcha, picada ou batida, pode ser
um andamento natural ou artificial, e que os treinamentos,
tanto para o condicionamento físico como o condicionamento para habilidades específicas, podem modificar a qualidade
dos andamentos e a forma pela qual os membros se associam
ou se dissociam durante o deslocamento do animal. Esses efeitos ainda não estão bem claros e devem ser melhor explicados
nos próximos anos com o advento de novas técnicas de estudos genético, em populações maiores, associados aos estudos
da cinemática. Ainda deve-se recordar que as tentativas de se
introduzir o andamento marchado dissociado em raças com
andamentos tipicamente associados, raramente, terminam em
grande sucesso. Quando os animais de raças tipicamente de
andamentos associados conseguem desenvolver algum tipo de
andamento marchado e dissociado, eles tendem a desenvolver
lesões nos membros locomotores mais precocemente do que
os animais naturalmente marchadores. Sendo assim, estudos
mais complexos devem ser realizados para que o conhecimento da frequência do alelo DMRT3, CC ou AA, e a importância
dos animais alelo DMRT3 CA, possam ser melhor aplicados
na seleção das raças CAMP e MM, e assim estimular novas práticas de melhoramento genético e de treinamento nos cavalos
marchadores no Brasil.
CONCLUSÕES
Ciênc. vet. tróp., Recife-PE, v. 18, n. 1 p. 6-11 - janeiro/abril, 2015
Esse estudo demonstrou que na população analisada das
raças CAMP e MM existem a presença do alelo DMRT3 mutante, e que ele apresenta diferenças na sua frequência, não só
entre as raças mas também entre os tipos do andamentos que
as duas raças apresentam. Também foi demonstrado que há
ausência do alelo CC na CAMP, em ambos andamentos, e a do
alelo AA na MM nos animais de marcha batida, na população
analisada. Por isso, estudos mais detalhados, para se determinar
o possível uso da análise do alelo DMRT3 como ferramenta
dentro dos programas de melhoramento genético, devem ser
realizado pois as diferentes frequências pode ser importantes
nas práticas de treinamento físico, específico ou não, que possam ser utilizados nos equinos marchadores com andamento
dissociados.
AGRADECIMENTOS
Ao CNPq, CAPES e a Guabi Nutrição Animal pelo suporte financeiro a esse projeto, e aos membros do Clube do Cavalo
Campolina e do Núcleo dos Criadores do Cavalo Mangalarga
Marchador, ambos do Estado de Pernambuco, pela inestimável
ajuda com seus animais.
INFORMAÇÃO RELEVANTE
Parte desse trabalho, que descreve a presença do alelo
DMRT3 mutante nas raças CAMP e MM, foi publicado nos
Anais do Congresso Anual da Associação Brasileira de Médicos Veterinários de Equídeos - ABRAVEQ, em Julho de 2014,
Campos do Jordão-SP.
REFERÊNCIAS
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