caleidoscópio policiário fevereiro

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caleidoscópio policiário fevereiro
 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO FEVEREIRO M. Constantino [email protected] CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO FEVEREIRO Os romanos chamavam‐lhe FEBRUARIUS, de Februus deus dos mortos, também de februare – purificar, porque era o mês em que se celebravam as festas expiatórias dos Lupercais. Já que é o mais pequeno dos meses do ano, 28 dias ou 29 nos anos bissextos, deixamos o exemplo de uma pequena fábula moderna de um dos grandes pensadores do século passado, Anthony de Mello (in The Song of a Bird). COME A TUA PRÓPRIA FRUTA Queixava‐se um discípulo ao mestre: O senhor conta‐nos histórias, mas nunca nos revela o seu sentido. E respondeu o Mestre: Que dirias se alguém te oferecesse uma fruta já mastigada? Resposta acertada. O sentido das coisas é um bem que ninguém dá, é uma descoberta pessoal. 2 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Com demasiada frequência o ser humano tem tentado ignorar ou banir a verdade fundamental, de que tem de semear antes de colher, de ganhar antes de poder gastar, de APRENDER ANTES DE COMPREENDER. A vida não é governada por actos ou circunstâncias extrínsecas, vindos de fora. Cada um de nós cria a sua própria vida pelos pensamentos que tem. É a faculdade de pensar, de raciocinar, de melhorar a sua condição, o sentido das coisas que torna os humanos diferentes de outras espécies animais, só está nas nossas mãos pelo menos tentar apoiar o nosso pensamento em bases adequadas… ninguém pode fazê‐lo por nós! M. Constantino 3 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 1 DE FEVEREIRO SETE DE ESPADAS Sete de Espadas (1921‐2008) – 1 de Fevereiro de 1921, data de nascimento de Sete de Espadas ou Tharuga, pseudónimos usados respectivamente para o policiário e para o charadismo de Manuel José Lattas, natural da Chamusca, Ribatejo. Iniciou‐se no policiário no princípio da década de 40, na secção dirigida por Repórter Mistério (Gentil Marques). Foi amor à primeira vista, amor para ficar e se desenvolver. Não só abraçou a modalidade de solucionista como a de Produção. Nesta última modalidade é de relevar, a par de outros, o título de Campeão Nacional, no II Torneio Nacional de Problemística Policiária, disputado em 1958, com Lúcifer Interveio na História. Com vocação especial para o relacionamento com a juventude, vê, com satisfação, os mais jovens de ontem tornarem‐
se os Homens de hoje! Pode orgulhar‐se de, até hoje, ser o homem que mais Secções Policiárias dirigiu e mais convívios entre policiaristas organizou, desde as Tertúlias dos cafés às visitas a vários locais do país, em plena e franca confraternização. Dirigiu a primeira Secção no Jornal de Sintra (1947), com o título, predilecto, de Mistério e Aventura; em 1948, aparece no Camarada, com nova Secção; em 1953, são as Secções do Guião, Em fim de Livro… na Colecção Xis, a da Lente (propósito editorial 4 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO próprio!); em 1954, no Cavaleiro Andante, com a Página Dezassete e o pseudónimo de Misterioso C. A.; em 1956, no Jornal do Sporting. Uma pausa para ganhar fôlego, surgindo, em 1975, na revista Crime (editada pelo Inspector Varatojo), no Mundo de Aventuras Especial, na Secção Mistério Policiário do Mundo de Aventuras (de 1975 a 1986), no Jornal O Crime (1989 a 1994) – e no mesmo com a Secção Édipo e a Esfinge, de 1995 até ao falecimento em 9 de Dezembro de 2008. Dias antes, já muito doente, ainda prometia um torneio policial para aquela secção a iniciar em 2009. Lutador incansável, não esquecemos que criou e manteve com muita dedicação, durante 32 números, debaixo de canseiras e dificuldades monetárias que se adivinhavam, uma revista própria – o seu maior sonho – a XYZ. O Sete de Espadas está referenciado como um dos três grandes do policiário português: Repórter Mistério, o introdutor do enigma em Portugal; Artur Varatojo, o divulgador nos jornais, rádio e televisão; e Sete de Espadas que expandiu o policiário português e lhe deu expressão, o homem que mais adeptos conseguiu captar – iniciou, manteve e reconduziu muitos dos afastados para a modalidade. O SETE marca três gerações de aplicação do poder do raciocínio e profunda amizade. AINDA SETE DE ESPADAS Como já se disse, Sete de Espadas iniciou‐se no enigma policiário no princípio da década de 40, talvez mais propriamente no ano de 1944 ou 1945. De qualquer modo desde logo se destacou, com vivacidade invulgar, na defesa da literatura de mistério e emoção. Daí que ao aparecer no mercado nacional a publicação brasileira Policial em Revista, fizesse chegar a sua escrita de letra garrafal ao Brasil. Em 1946 o redactor da referida revista, assinala a publicação de uma das suas críticas, que publica do seguinte modo: Veio‐nos de Portugal, há algum tempo, uma colaboração de Manuel José Lattas, residente em Agualva‐Cacém. Se tem boa memória devem lembrar daquele bem feito trabalho intitulado Chesterton ou Wallace? Que deu início em nossas colunas a uma polémica do nosso colaborador A.B. Hoje inserimos novo trabalho do Amigo Português. VANTAGENS DA LITERATURA DE FICÇÃO De Manuel José Lattas Procurando bons autores, cujas traduções são bem cuidadas, eu posso encontrar entre as suas personagens todos tipos do dia a dia da vida, verdadeiramente retratados, absolutamente reais e ligados por aquele fio que assenta em bases de pura dedução lógica e me encaminham para a resolução final de um problema que me atrai e seduz. 5 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Lendo‐os eu encarno um a um, todas as suas personagens e posso sentir amor, paixão, desilusão ódio, ciúme, cinismo, abnegação, justiça e toda a gama de sentimentos que nós mortais temos cá dentro, calcados bem no fundo do nosso íntimo, mais ou menos em estado latente. Além do magnífico e salutar exercício cerebral, eu vou encontrar sempre nas páginas da literatura policial, uma figura que me domina e que me prende, quer esteja incarnada num inspector de polícia, num advogado ou num detective particular, mas que é, acima de tudo, um magnífico paladino da justiça e da moral, cumpridor da lei, que a lei é muitas vezes sofisma e um lutador enérgico contra o Universo cheio de mentiras idealista e onde o mal impera. Confesso que leio livros policiais e isso não me assusta nem me diminui. A crescente expansão do romance policial trouxe as suas obrigações e deveres; um vastíssimo público, composto de homens das leis e de ciência, de médicos, de engenheiros e de toda a espécie de especialistas não podia deixar de ser observante e exigente; e para satisfazer este Argos de olhos inexoráveis tornou‐se necessário um extremo cuidado na construção e apresentação da história. Um erro ou deslize podia deitar abaixo ou invalidar a solução. Cada nova conquista da ciência criou responsabilidades novas. A história policial manobra hoje todos os lados da ciência, da arte e da lei. E por tudo isto e pelo muito que fica por dizer, eu não tenho medo de me confessar um defensor da literatura policial, que já não faz encolher desdenhosamente os ombros senão a uma meia dúzia de senhores muito sérios e superiores a estas coisas, tudo o que seja realmente vivo e do nosso tempo. Entre os mestres do género, sem margem para discussão, está colocada a criadora da figura extraordinária do detective amador Sir Edward Palliser morador no nº 9 de Queen Anne’s Close, um beco sem saída – Agatha Christie! Prefiro, porém, Oppenheim! Mais romancista! Os seus livros são sempre histórias bem delineadas e bem dosadas. Ele não tem necessidade de forçar; não procura as histórias de rabo torcido e também não tem necessidade de puxar muitos cordelinhos para a movimentação das suas personagens. Ali tudo é natural e lógico. Nada de aventuras rocambolescas, nem plataformas especiais. Simples! Humano! Leal! EFEMÉRIDES Ribeiro de Carvalho (1952) – Data do nascimento em Torres Novas do policiarista Eduardo Filipe Ferreira Bento. Solucionista e produtor, que conquistaria um amplo horizonte. Contista de enormes qualidades é lembrado pelo seu anonimato voluntário. Em sede própria voltaremos a lembrar o autor. 6 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO H. C. Bailey (1878‐1961) – Data do nascimento de Henry Christopher Bailey em Londres. É repórter do Daily Telegraph entre 1901 e 1946 e começa a escrever literatura histórica. Publica o primeiro romance policiário em 1930, Garstons (ou The Garston Murder Case), onde cria o personagem Joshua Clunk, também herói de The Red Castle (1931), um malandro e hipócrita, uma espécie de detective que chega a disfarçar‐se de beata para atingir os seus fins. No entanto Reggie Fortune é o primeiro personagem que aparece no conto Call Mr Fortune (1920) e que dá origem a uma série e entra no romance Shadow on the Wall (1934) e continua em outros, alternando com Clunk. Reginald Fortune ou Reggie é baixo, gorducho louro e de olhos azuis, parece uma criança, mas é astuto e é o favorito do público, chegando a aparecer em dois volumes de contos por ano durante duas décadas. Matthew Head (1907‐1985) – Nasce John Edwin Canaday em Fort Scott, Kansas‐
EUA. Frequenta a Universidade do Texas e serve no Marine Corps durante a 2ª Guerra. É professor universitário de História de Arte e publica vários livros sobre temas de arte sob o nome de John Canaday. Escreve o seu primeiro romance policiário The Smell of Money em 1943. Em 1945 apresenta um personagem fixo, a Drª Mary Finney, que volta a aparecer numa série de romances. A acção de muitos dos livros de Matthew Head decorre em África em Brazaville, no Congo. Bibliografia: The Smell of Money (1943), The Accomplice (1947) e Another Man's Life (1953); na série Drª Mary Finney: The Devil in the Bush (1945), The Cabinda Affair (1949), The Congo Venus (1950) e Murder at the Flea Club (1955). Leonard Gribble (1908‐1985) – Leonard Reginald Gribble nasce em Londres. Usa os pseudónimos de Bruce Sanders, Dexter Muir, James Gannett, Landon Grant, Lee Denver, Leo Grex, Louis Grey, Piers Marlowe e Sterry Browning. Pertence ao Press and Censorship Division do Ministério da Informação em Londres entre 1940 e 1945. Escritor imaginativo e prolífero escreve muitos policiários, mais de uma centena de romances e múltiplos 7 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO contos curtos, espalhados pelas revistas da especialidade. Inicia‐se em 1929 com The Case of the Marsden Rubies, o primeiro da série Anthony Slade e Departamento X2. Com o pseudónimo Leo Grex começa uma nova série com os protagonistas Paul Irving and Phil Sanderson: The Tragedy at Draythorpe Hutchinson (1931) e The Nightborn (1931). Leonard Gribble é um dos membros fundadores da Crime Writers Association em 1953. Colin Watson (1920‐1983) – Nasce em Croydon, Surrey, Inglaterra. Escritor e jornalista, publica o primeiro romance em 1958. Cria vários personagens: Inspector Walter Purbright and Lucilla Teatime. É famoso pela série Flaxborough, um total de 13 títulos, alguns dos quais adaptados pela BBC, na série televisiva Murder Most English. Bibliografia: Coffin, Scarcely Used (1958), Bump in the Night (1960), Hopjoy Was Here (1962), Lonelyheart 4122 (1967), Charity Ends at Home (1968), Flaxborough Chronicle (1969), The Flaxborough Crab (1969) também editado com o título Just What the Doctor Ordered, Broomsticks over Flaxborough (1972) também editado com o título Kissing Covens, The Naked Nuns (1975) também editado com o título Six Nuns and a Shotgun, One Man's Meat (1977) também editado com o título It Shouldn't Happen to a Dog, Blue Murder (1979), Plaster Sinners (1980), Whatever's Been Going on at Mumblesby? (1982). CONTO Dissemos no início que Ribeiro de Carvalho era um contista de enormes qualidades, agora podemos acrescentar que nas várias categorias, porque o conto que transcrevemos, da sua autoria, é um conto de ficção científica de 1993 publicado na revista Célula Cinzenta, ainda que extenso é um bem a não perder. 8 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO O MUNDO É UMA ESPERANÇA Pese embora todos os esforços e verbas que governos e instituições privadas dedicaram à investigação, é certo que o vírus continuava a fazer vítimas a um ritmo alarmante. Dos laboratórios saíam regularmente vacinas, remédios, xaropes e outros tratamentos para combater o mal. Mas o vírus ia resistindo, modificava‐se, criava novas formas e quando os cientistas esgotaram o alfabeto a baptizar as suas várias manifestações, passaram a utilizar nomes latinos tão do agrado da comunidade. Bruxos, gurus, mães‐santas, ervanários, hipnotizadores, iam fazendo fortunas com a cura do mal, mas o vírus continuava a alastrar. Alguns hospitais sentiam‐se já impotentes para dar guarida e tratamento a todos os doentes que lhes apareciam e um sentimento de medo ia‐se apossando progressivamente de todos os povos. Os governos apelavam à calma, aconselhavam o uso de preservativos, faziam grandes campanhas nos meios de comunicação. Mas nada resultava. A primeira tentativa séria de pôr ordem na Sociedade, veio da Igreja Católica. O Papa publicou uma encíclica em que excomungava todos aqueles que tivessem relações sexuais extra‐conjugais ou com pessoas do mesmo sexo. Era contra as leis de Deus e da natureza, dizia, e quem não cumprisse estas directivas arderia eternamente no Inferno. Do alto dos púlpitos, os padres ameaçavam os indignos com as penas mais pesadas que se pudessem imaginar e apelavam para que os verdadeiros católicos se lançassem numa nova Cruzada contra todos os seguidores de Satã. Começaram a surgir distúrbios nas casas nocturnas, incêndios, destruições, apedrejamentos. As prostitutas e homossexuais eram ferozmente perseguidos e a mais antiga profissão do mundo estava em vias de extinção. Seitas político‐religiosas, ultra‐conservadoras, formaram‐se rapidamente e espalharam‐se por todo o mundo. Em Itália, os Filhos da Virtude, que preconizavam a abolição de todo o tipo de relações sexuais e a supressão dos toxicodependentes, ganharam as eleições nacionais com 53% dos votos. Na Índia, os Guerreiros da Inocência sofreram 60.000 baixas durante uma manifestação reprimida pelo governo. Durante os dois primeiros anos após o aparecimento da Encíclica, 27 partidos de cariz nitidamente racista assumiram o governo dos seus países, em eleições livres e democráticas. O principal objectivo destes partidos tornou‐se a eliminação de todas as formas de exploração e desejo sexual. Grandes estádios passaram a servir de campos de concentração onde prostitutas, homossexuais, artistas pomo, livreiros pouco escrupulosos, pintores de nus, se amontoavam até as autoridades definirem o seu destino que, normalmente, acabava em valas pouco fundas. Bibliotecas foram obrigadas a fechar. Estações de televisão proibidas de passarem qualquer programa que contivesse, explícita ou implicitamente, referência a sexo ou drogas. A maioria acabou por encerrar. Foi generalizado o uso obrigatório de véus e saias para as mulheres e túnicas para os homens. Naturalmente, a investigação sobre o vírus, sofreu fortes retrocessos até que 9 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO estabilizou num nível mínimo. Movimentos de resistência apareciam e desapareciam mas, embora com grandes perdas, iam consolidando e profissionalizando as suas acções. Os principais alvos que, no princípio, tinham sido os Santuários da Moral, depressa passaram a ser as figuras político‐
religiosas. De entre todos, sobressaiu o movimento conhecido da Esperança que, nascendo em França, se espalharam rapidamente por toda a Europa e depois pelo resto do mundo, tornando‐se um verdadeiro exército internacional. As medidas tomadas pelos vários governos, porém, eram ainda insuficientes. O vírus continuava a espalhar‐se e a aterrorizar as populações. As percas sofridas pelo C.P.S., Confederação dos Povos do Senhor, formada por todos os países Defensores da Virtude, corresponderam a 10% do total da população, nos primeiros quinze anos da Confederação; esta percentagem era nitidamente inferior às dos restantes países onde, durante o mesmo período, a percentagem de mortos em virtude do vírus foi de 27%. A apresentação destes números, acompanhada por uma campanha de propaganda devidamente elaborada, levou à tomada de poder pelos partidos irmãos da C.P.S. com o apoio de parte significativa da população. As várias agências e organizações humanitárias que tiveram a sua missão dificultadas, foram dissolvidas. Os membros da Organização Mundial de Saúde, da Cruz Vermelha, do Crescente Vermelho e de todas as outras, foram perseguidos e presos, considerando‐se que todos se tinham mostrado incapazes e Inimigos da Fé. O edifício da ONU, em Nova Iorque, foi implodido dando assim origem ao fim do Mundo Velho e ao nascimento da Nova Ordem. Mas ninguém conseguia eliminar o vírus e embora os Guerrilheiros da Esperança sofressem baixas altíssimas, as suas forças eram, ainda que lentamente ao princípio, rapidamente substituídas por elementos da população. Calcula‐se que em 25 anos as suas baixas, motivadas pelo vírus, foram da ordem dos 47%. Apesar disso, as suas acções tornavam‐se cada vez mais significativas. Assaltos a depósitos de armamento, destruições de templos, libertação de crianças dos Orfanatos de Deus, libertação de áreas geográficas e organização das populações. Nesta altura, a estratégia definida pelo Alto Comando dos GEs passava pela consolidação do movimento em áreas significativas. Lembre‐se, no entanto, que um dos feitos mais espectaculares durante esse período, foi o assalto ao estádio do Maracanã, de onde libertaram 40.000 prisioneiros. O aparecimento dos Territórios Livres agravou os problemas internos dentro da CPS. Com uma população a reduzir‐se significativamente, em virtude das mortes causadas pelo vírus e, principalmente, por deserção, a CPS viu‐se subitamente com grandes cidades abandonadas, vias de comunicação destruídas, fábricas fechadas, insurreições armadas. Culpando os Adoradores do Vírus pelo estado caótico da economia, o Comando Militar dos Anjos decidiu bombardear os territórios livres com armas químicas, de neutrões, de protões, com tudo o que ainda havia nos seus arsenais e estava operacional. 10 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Quando ELES chegaram, verificaram que tinha havido um pequeno erro de cálculo. O computador da nave informava ainda 27.324 humanos em todo o planeta. Não se importaram. Tinham passado duzentos anos desde que inocularam o vírus nos duzentos humanos. Podiam esperar outro tanto. 11 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 2 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Frank L. Packard (1887‐1942) – Frank Lucius Packard nasce em Montreal, Canadá. Engenheiro civil de profissão, trabalha no Canadian Pacific Railway. A partir de 1911 dedica‐se à escrita, em 1914 escreve e publica The Miracle Man e em 1917 inicia a série protagonizada por Jimmie Dale com The Adventures of Jimmie Dale (1917). Jimmie é um aventureiro, um malfeitor para a polícia e um justiceiro para os delinquentes. Este personagem, nascido fabulosamente rico e graduado em Oxford, é sócio do sigiloso St. James Club. Solteiro, rodeado de servidores, é um conquistador entre as mulheres de alta sociedade, onde conhece tudo e todos. Aborrecido, disfarçado de vagabundo, converte‐
se em Larry o Morcego, para se permitir os roubos convenientes, divertindo‐se a desarticular os grandes bandos violentos, deixando a marca pela qual é conhecido Gray Seal – o selo cinzento. Frank Gruber (1904‐1969) – Nasce em Elmer, Minnesota, EUA. É também conhecido pelos pseudónimos Charles K. Boston, John K. Vedder e Stephen Acre. Fixa‐se em Iorque onde passa momentos difíceis enquanto escreve para revistas. Publica o primeiro romance, um western, em 1934, mas só em 1940 alcança a fama com o primeiro livro policiário, The French Key, seguido de The Laughing Fox, do mesmo ano, protagonizado 12 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO pela dupla Johnny Fletcher e Sam Cragg, dando início a uma série de bons romances policiários. Johnny e Sam são uma parelha de vendedores de um único livro, oportunistas, mas inteligentes. O primeiro é um cérebro, mas um bom cérebro que assombra a própria polícia com as deduções e descobertas sobre os crimes que se lhe deparam, é uma espécie de detective amador, Sam designado por jovem Sansão, é a forma em que se apoia o primeiro. Johnny Fletcher e Sam Cragg, sem família e sem emprego fixo tentam viver e divertir‐se, o que nem sempre é fácil… ressalvando o humor e o optimismo que dão mostras. Frank Gruber escreve mais de 60 livros policiários, mais de 2 centenas de argumentos para cinema e televisão e cerca de 300 contos para revistas, reproduzidos em várias colecções e antologias. Em Portugal diferentes editoras têm vindo a publicar os livros de Frank Gruber. O primeiro a ser editado, em 1951, pela Livros do Brasil, o nº 51 da Colecção Vampiro é O Enigma do Quarto Fechado (The French Key). A Livros do Brasil‐Vampiro editou já mais 30 títulos diferentes de Frank Gruber. A Publicações Europa‐América também publicou uma dezena de livros de Frank Gruber na Colecção Livros de Bolso, Clube do Crime. Georges Pierquim (1922) – Nasce em Aix‐en‐Provence, França. Escritor, jornalista, fotógrafo, produtor de televisão. Dedica‐se ao rádio com Claude Duvel, tem um programa de enigmas policiais. Escreve o primeiro romance com o pseudónimo Georges E. Perkins em 1955, L’Assassin Frappe Deux Fois. Com um intervalo de cinco anos, volta a escrever com a colaboração de Jimmy Guieu; adoptam o pseudónimo Jimmy G. Quint e escrevem romances de espionagem Destination Cataclysme (1960), Vengez Ma Trahison (1961) e Pouvoirs Spéciaux (1961), etc. etc. Só ou em colaboração escreve três ou quarto livros por ano. 13 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 3 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Modesto Navarro (1947) – António Modesto Navarro nasce em Vila Flor. Serve nas forças armadas como fuzileiro naval em Moçambique. Regressa à vida civil e trabalha em publicidade e associações culturais. Desenvolve intensa actividade política e é fundador da Associação Portuguesa de Escritores. Publica contos, ensaios e romances, num total de cerca de 40 obras. Na modalidade policiário, sob o pseudónimo de Artur Cortez, escreve três livros. Posteriormente na mesma linha, mas sob Modesto Navarro escreve outros romances entre os quais Condenada à Morte a que foi atribuído em 1991 o Prémio Caminho de Literatura Policial. É o autor de histórias da série policial Crime à Portuguesa, da RTP. Bibliografia Policiária: A Morte no Tejo (Artur Cortez), A Regra do Jogo Edições, 1982 A Morte dos Anjos (Artur Cortez), Livros Horizonte, 1983 A Morte do Artista (Artur Cortez), Ulmeiro, 1984 A Morte no Douro, Ulmeiro, 1984 O Pântano, Ulmeiro, 1986 Condenada à Morte, Caminho, nº 138 Policial de Bolso (1991) Fina Flor, Caminho, nº1 58 Policial de Bolso (1993) 14 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Henning Mankell (1948) – Nasce em Estocolmo, Suécia. Trabalha como dramaturgo durante vários anos e publica o seu primeiro em 1973. Escreve peças de teatro, ficção e livros infantis. Actualmente divide a sua vida entre a Suécia e Moçambique onde desenvolve a sua actividade teatral como director do Teatro Avenida de Maputo. Na literatura policiária é o criador do Kurt Wallander, um oficial da Polícia de Ystad. É um dos autores suecos mais conhecidos e os seus livros são bestsellers internacionais. Em Portugal os seus livros têm sido editados pela Editorial Presença na colecção Fio da Navalha. 1 – Assassino Sem Rosto, nº 30 Colecção Fio da Navalha (Faceless Killers, 1991) 2 – A Quinta Mulher, nº 37 Colecção Fio da Navalha (The Fifth Woman, 1996) 3 – A Falsa Pista, nº 42 Colecção Fio da Navalha (Sidetracked, 1995) 4 – Os Cães de Riga, nº 48 Colecção Fio da Navalha (The Dogs of Riga, 1992) 5 – A Leoa Branca, nº 57 Colecção Fio da Navalha (The White Lioness, 1993) 6 – O Homem que Sorria, nº 66 Colecção Fio da Navalha (The Man Who Smiled, 2005) 7 – Um Passo Atrás, nº 92 Colecção Fio da Navalha (One Step Behind, 1997) 8 – A Muralha Invisível, nº 101 Colecção Fio da Navalha (Firewall, 1998) 9 – O Homem de Pequim, nº 106 Colecção Fio da Navalha (The Man from Beijing, 2010) Apenas este último não pertence à série Kurt Wallander. Site oficial do autor: http://www.henningmankell.com/ 15 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 4 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Maurice Procter (1906‐1976) – Nasce Maurice Procter em Nelson, Lancashire, Inglaterra. Ingressa na polícia em 1927, publica o primeiro livro em 1947, No Proud Chivalry e, ao constatar que pode viver apenas da escrita, dedica‐se a esta em exclusivo. A experiência na polícia confere realismo à sua obra literária. Procter, entre 1947 e 1969, publica um total de 26 livros. É conhecido pela série Martineau, um total de 14 títulos, em que o protagonista é Harry Martineau, um Inspector Chefe da polícia de Granchester City. Seis dos seus romances foram adaptados ao cinema, incluindo Rich Is The Treasure (1952) e Hell Is a City (1954). Em Portugal, Maurice Procter estão editados os seguintes livros: 1 – E o Diabo os Juntou, Portugália Editora, nº 2 da Colecção Olho de Lince 2 – Dinheiro do Diabo, Portugália Editora, nº 5 da Colecção Olho de Lince, 1963 3 – A Emboscada, Portugália Editora, nº 8 da Colecção Olho de Lince 4 – Mudança ao Luar, Agência Portuguesa de Revistas, nº 5 Colecção Dossier Crime, 1965 (Devil in Moonlight, 1962) 5 – Dois Homens em Vinte, Empresa Nacional de Publicidade, nº 19 Colecção Policial Esfinge, 1967 (Two Men In Twenty, 1964) 16 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Harry Whittington (1915‐1990) – Harry Benjamin Whittington nasce em Ocala, Florida, EUA. É um escritor policiário de um género violento e novela negra. Entre 1950 e 1970 publica cerca de 200 romances, alguns dos quais adaptados ao cinema e televisão. Reparte o título de rei da ficção Pulp com H. Bedford‐Jones. Na sua vastíssima produção literária utiliza 15 pseudónimos diferentes: Ashley Carter, Blaine Stevens, Clay Stuart, Curt Colman, Hallam Whitney, Harriet Kathryn Myers, Harry White, Henri Whittier, Hondo Wells, J. X. Williams, John Dexter, Kel Holland, Suzanne Stephens, Tabor Evans e Whit Harrison. Jean‐Pierre Bastid (1937) – Nasce em Montreuil, França. É escritor e realizador. Tem vários livros publicados em nome próprio e é co‐autor em outras obras com Jean‐Patrick Manchette, Michel Martens, Jean‐Pierre Lajournade e Charles Villeneuve. O romance mais conhecido é Laissez Bronzer Les Cadavres! (1971), que segundo a crítica representa uma renovação do polar e do policial negro francês. Peter Driscoll (1942‐2005) – Nasce em Londres. Escritor, repórter e editor é um autor de bestsellers. Escreve vários romances, a maioria thrillers internacionais e uma peça de teatro. Bibliografia: 1 – The White Lie Assignment (1971), com acção na Albânia 2 – The Wilby Conspiracy (1972), com acção na África do Sul 3 – In Connection With Kilshaw (1974), com acção na Irlanda 4 – The Barboza Credentials (1976), com acção em Moçambique 5 – Pangolin (1979), com acção em Hong Kong 6 – Heritage (1982), com acção na Algéria 7 – Spearhead (1987), com acção em na África do Sul 8 – Secrets of State (1992), com acção nos EUA 9 – Spoils of War (1994), com acção no Iraque 17 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO HISTÓRIA DA NARRATIVA POLICIÁRIA – ANTES DE POE É actualmente inquestionável que a verdadeira narrativa policiária nasceu com Edgar Allan Poe ao publicar no número de Abril de 1841 no Graham's Lady's and Gentleman's Magazine, de Filadélfia, o conto The Murders in the Rue Morgue. E é bem possível que o autor não tivesse consciência do seu notável feito, porquanto ao fazer a crítica dos seus contos, o citado, A Carta Roubada e O Mistério de Marie Roget (os três personalizados pelo primeiro investigador amador da História) referia‐se a estes contos analíticos devem em grande parte a sua popularidade ao facto de apresentarem uma nova chave. Todavia, ninguém poderá afirmar se a ideia analítica será ou não resultado do conhecimento de anteriores escritos, já que a análise dedutiva é remota. Veja‐se a fábula do Leão e da Raposa, de Ésopo, a História de Daniel no Tempo do deus Baal (Bíblia), um e outro reportando‐se à interpretação analítica dos rastros. De Salomão, rei de Israel, juiz célebre, sábio, decifradores de charadas, conhecem‐se alguns episódios interessantes e sinais de notável inteligência. Citam‐se entre outros, o desvio da pedra de xadrez e o CASO DA ROSA ARTIFICIAL Tendo chegado a soberana de Sabá dos remotos países da Ásia à corte do sábio Salomão a fim de lhe prestar homenagem, quis a soberana avaliar a subtileza do espírito de Rei Hebreu, pedindo a solução de alguns enigmas. Apresentou‐lhe a rainha, para que as diferenciasse, uma rosa natural e outra artificial, tão iguais entre si, que seria impossível ao olho humano distingui‐las. Ordenou o rei que as colocasse no jardim. Breve veio uma abelha, mirou com desdém a rosa artificial e foi segredar misteriosamente no cálice da flor natural. 18 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Por um estratagema habilidoso, Salomão conseguiu decifrar o enigma. O poder de observação é digno de um moderno e treinado detective. Nas obras dramáticas, As Coéforas de Esquilo e Rei Édipo de Sófocles, perduram desafios de interesse. Arquimedes, no notável Vitrúvio Tratado de Arquitectura, nos dá em A Coroa do Rei uma extraordinária lição de dedução‐indução. Também Virgílio em Eneida (Livro VIII) nos apresenta uma achega com a lenda do monstro Caco. 19 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 5 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Margaret Millar (1915‐1994) – Margaret Ellis Millar nasce em Kitchener, Ontário, Canadá. O seu primeiro romance, The Invisible Worm, em 1941, torna‐a alvo de fama. Trabalha também como argumentista para a Warner Brothers. Margaret Millar é casada com Kenneth Millar, mais conhecido pelo pseudónimo, Ross Macdonald, o casal forma uma parceria na escrita e no crime. Em 1982 é agraciada com o Grand Master of the Mystery Writers of América e em 1986 recebe o Derrick Murdoch Award. Nas suas obras cria vários personagens: Paul Prye, um psiquiatra detective amador, Tom Aragon, advogado hispânico, e o Inspector Sands. Publica os seguintes livros: Série Paul Prye: The Invisible Worm (1941) The Weak‐Eyed Bat (1942) The Devil Loves Me (1942) Série Inspector Sands: Wall of Eyes (1943) Taste of Fears, também com o título The Iron Gates (1945) Série Tom Aragon: Ask for Me Tomorrow (1976) The Murder of Miranda (1979) Mermaid (1982) Margaret Millar escreve ainda cerca de vinte romances policiários, com destaque para Beast In View (1955), vencedor do Edgar Allan Poe Award em 1956 e incluído na lista dos 100 melhores livros de crime e mistério do crítico e novelista H.R.F Keating; A Strange in My Grave (1960) e In Banshee (1983), que são considerados respectivamente um dos seus melhores trabalhos e o enredo mais emocionante. Em Portugal: 1 – Vida por Vida, Minerva, nº 76 da Colecção Xis (1958), Vanish In An Instant (1952) 2 – A Bola de Cristal, Minerva, nº 83 da Colecção Xis (1958), Beast In View (1955). 3 – A Caixa de Prata, Minerva, nº 99 da Colecção Xis (1960), The Listening Walls 20 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO (1959) 4 – Um Estranho no Meu Túmulo, Averno (2011), A Stranger in My Grave (1960) ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA – O ENIGMA E A SUA APRESENTAÇÃO Semente do fruto da literatura policiária e, para além das virtudes do romance e do conto, nasceu o problema policiário ou enigma, tão do agrado de alguns milhares de adeptos ou cultores que ao longo da vida se recrearam ou recreiam com este actuante estímulo cerebral. MAS O QUE É O ENIGMA POLICIAL? Fundamentalmente é uma questão exposta para se lhe encontrar solução. De harmonia com o conceito é a descrição de uma coisa que por particularidades ou pelas qualidades que lhe são próprias, ou deliberadamente nela inseridas, de modo a tornar difícil a identificação do que se trata. O mistério que advém destes problemas ou enigmas é um desafio ao espírito observador, dedutivo ou indutivo, estimulante do intelecto ante o labirinto ardiloso da questão. Nada mais do que o desafio contido num conto ou romance policial clássico. No início dos anos 40, a apresentação de tais enigmas ou problemas que as revistas ofereciam eram exclusivamente apresentados em fotografias, o chamado foto‐crime, cuja solução resultava da observação dos pormenores das fotos, com contradições das declarações dos personagens. Trabalho dispendioso para os apresentadores que começaram a usar o desenho manual, o que não resultou, optando‐se pela prosa – verso ou peça teatral, por curiosidade. Hoje. muitos anos decorridos, é o relato do crime com enredo integrado, constituindo uma espécie de conto, do qual se requer a finalização (solução) que é usada 21 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO totalmente ou preferencialmente. E com boas razões, tanto se pode escrever um enigma do tipo clássico, isto é, apresentando o crime, detalhes e suspeitos, pedindo‐se a solução, ou apresentar o enigma, descrevendo‐o e ao respectivo criminoso e intervenientes, desafiando o solucionista a apontar o erro ou erros que incriminam o delinquente. De qualquer modo são vastas as alternativas e sem dispêndio (fotos), tão só com a imaginação e arte do produtor do enigma ou problema. Apresentamos um enigma escrito pelo inesquecível Roussado Pinto e desafiamos o leitor a tentar encontrar a solução. Sam Sixkiller e Paul Justice entraram no escritório onde tinham sido chamados e olharam para o corpo do homem caído sobre a secretária. Ferber, o sargento, estava presente, e em voz breve, disse: – O médico legista também vem aí, e a brigada de homicídios chega um pouco mais tarde. – Pormenores? Ferber informou: Suicídio. É dono da firma, e pelo que parece tudo está complicado em questão económica. Tem dívidas e poucas possibilidades de pagá‐las. Paul rodeou a secretária, e do lado onde pendia a mão da vítima, em pleno solo, estava uma garrafa. Ele baixou‐se, apanhou‐a, tirou‐lhe a rolha e cheirou‐a. Caminhou para o inspector e disse: – Conheço o cheiro. Veneno demasiado violento. Morte instantânea. Basta uma gota misturada em qualquer líquido para… Calou‐se. Sam não lhe ligava importância. Caminhara para a porta, a receber uma senhora que acabara de entrar. – É a mulher do morto. Sam, cumprimentou a senhora e na intenção de evitar cenas violentas, disse: – Desculpe, mas é melhor esperar lá fora. Por agora, tem que nos deixar trabalhar. – Mas que aconteceu, meu Deus? – O seu marido suicidou‐se. – Perdão – interveio Paul. – O marido desta senhora não se suicidou. Foi assassinado. O que levou Paul Justice a optar pelo assassínio? 22 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 6 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Louis Nizer (1902‐1994) – Nasce em Londres, mas vive a maior parte da sua vida nos EUA. Advogado e escritor, é o fundador de uma firma de advogados em Nova Iorque. Ao longo da sua longa carreira defende muitas celebridades, como Charlie Chaplin, Mae West e Johnny Carson. Em 1962 escreve My Life in Court, um dos seus livros mais conhecidos, um bestseller com a descrição de alguns dos seus próprios casos. Em 1973 publica The Implosion Conspiracy, que analisa o julgamento e a execução do casal Rosenberg; o livro baseia‐se principalmente na transcrição do julgamento, mas também inclui muitas histórias comoventes de vida dos Rosenberg. O CRIME NA LITERATURA – NÃO ESPECIALIZADA A extensão do crime e a variedade dos grupos nele envolvidos refutou teses de que este pode ser explicado por generalizações causais ou que o problema pode ser resolvido como parte de um problema socioeconómico. A literatura é a expressão da vida humana no que se refere ao belo e ao feio, ao virtuoso e ao maligno, a alma e o espírito do povo eleito ou obscuro captado pela lente 23 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO fotográfica das letras. As reacções da literatura não especializada – não ligada ao policiário – não ligada ao facto criminológico, pormenorizada por autores dos mais diversos quadrantes. Escolhemos Portugal e Brasil, língua comum para fixar estes clichés inseridos na rubrica. ANATOMIA DO CRIME 1 – REPARTIÇÃO DE ÁGUAS Um pouco além do sítio onde a vereda se bifurcava, lá estava patente a prova do delito: o rego de água repartido em dois, um fio correndo para a belga do Pimpim, o outro, não mais farto que o primeiro, continuando de rota batida para as batatas do Francisco. – É uma vergonha, seu Pimpim. Um homem que faz a barba não pratica destas safadezas. O outro saltara para o caminho e desculpava‐se apaziguador: – Escuta, Milheirinha, tenho tudo a morrer à sede. Hoje vim ver esta desgraça, com ideias de para aí me pôr a chorar. E vai senão quando os meus olhos deram com o rego de água a correr por aí fora. Não sabia para quem ia a água. E que soubesse, era o mesmo. Pensei em dar um nadinha de água às cebolas. – E não tem vergonha… – Homem, compreende… – Compreendo que é um larápio. – Milheirinha, criatura de Deus, já todos fizemos coisas destas pelo menos uma vez na vida. Ver os frutos definharem‐se sem lhes podermos acudir, retalha o coração, bem sabes. Não faças tanto banzé por nada, homem. Perdi a paciência. Mas Milheirinha não notara. – Já lhe disse: vossemecê é um larápio. João Pimpim chegou para ele. – Larápio és tu, barbeiro de trampa seca. – Seu Pimpim, que eu perco a cabeça! E ergueu o sacho. O outro porém foi mais rápido, jogou‐lhe a lâmina da sachola à tola. E ele caiu, como uma massa banhado em sangue. Caiu para o lado sem um ai. A água, que corria cantando, tingiu‐se de vermelho. 24 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 7 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Charles Dickens (1812‐1870) – Charles John Huffam Dickens nasce em Landport, na ilha de Portsea, na costa sul de Inglaterra. É considerado o escritor mais popular do período vitoriano e nos seus romances a critica social tem uma presença forte. Apesar de não ser encarado como um escritor de ficção policiária, é óbvia a ligação da sua obra ao crime e ao mundo dos criminosos. Por exemplo, em The Adventures of Oliver Twist (1838) o famoso carteirista Fagin é um verdadeiro professor do crime ao treinar os miúdos da rua na arte do roubo, em The Life and Adventures of Martin Chuzzlewit (1844) o detective particular Nadgett, é encarregado de resolver um assassinato, e em Bleak House (1853) há o detective Inspector Bucket e um mistério para esclarecer. Dickens interessa‐se pelas actividades da Polícia e não nega o seu fascínio pelos detectives profissionais, o que é bem patente em vários textos curtos, como The Detective Police e On Duty with Inspector Field, publicados na revista semanal Household Words (1850‐ 1859). Charles Dickens morre inesperadamente e deixa por terminar The Mystery of Edwin Drood, um romance publicado em folhetins mensais. 25 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO J. S. Fletcher (1863‐1935) – Joseph Smith Fletcher nasce em Halifax, West Yorkshire, Inglaterra. É jornalista e escritor. Escreve o primeiro romance, Andrewlina, em 1889, ao qual se seguem quase duas centenas de romances e contos do género clássico popular. Cria o investigador privado Ronald Camberwell, protagonista de livros cuja acção decorre em Londres. The Middle Temple Murder de 1919 é considerado o seu melhor trabalho. JUSTIÇA – OS DUELOS E A LEI Data do histórico duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão, dois intelectuais da época. Antero considerado um temperamental ilhéu, bélico e atrevido na linguagem, mas de débil compleição física e que ousava com presunção, desafiar um tripeiro ágil e destemido, de características atléticas, apanágio de Ramalho, o qual era já de antemão tido como vencedor, havendo quem temesse pela sorte do açoriano. O evento teve lugar em Arca de Água, no Porto, e Ramalho sai ferido aos primeiros passos. O acontecimento foi fortemente comentado e os portuenses não calavam o pasmo. Nota: Existem diferentes datas atribuídas a este duelo: 4, 6 e 7 de Fevereiro de 1966. Sem hipótese, de momento, de poder confirmar a data exacta a opção foi de manter o dia 7, referenciado por Eça de Queirós nos seus registos. FICHA CRIMINAL – O PRAZER DE MATAR Cada dia, em algum lugar, uma pessoa chega ao último dia da sua existência. O caso Grace Buddle, dez anos de idade, parecia ter pouquíssimas possibilidades de ocorrer no domingo, 3 de Junho de 1925. Ainda que para os pais e o filho Edward, de dezoito anos, e a pequena Grace estivessem muito longe da abundância, formavam uma família feliz. Edward publicara um anúncio a pedir um emprego e tudo melhoraria. O optimismo deste 26 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO foi confirmado, um homem de avançada idade e aspecto respeitável, Frank Howard dava uma oportunidade a Ed para viver ao ar livre, ajudando‐o numa quinta em Farmingdale. Por gratidão, confiando no homem baixo e de cabelos brancos, o casal permitiu que ele levasse a filha, Grace, a uma festa infantil que a irmã de Frank Howard ia dar naquela tarde. Não voltaram a vê‐la com vida. Não havia qualquer festa. A pequenita foi levada a uma casa desabitada em Greenburgh, onde Albert Fish – o verdadeiro nome de Howard – a estrangulou. Passaram‐se seis anos antes que alguém tivesse notícias de Grace Budd. Todavia, em 11 de Novembro de 1934, os Budd receberam uma carta enviada pelo assassino, informando que se acostumara a comer carne humana com um amigo, o capitão John Davis, e não resistiu em levar Grace, e depois de a estrangular, comê‐la. Não a tomara, morrera virgem, afirmava. A carta causou um efeito terrível. Contrataram o detective Smith que descobrira a pista de Fish, de 66 anos, até Nova Iorque, onde foi preso a 13 de Dezembro. Tinha em seu poder uma série de recortes narrando os crimes que cometera Fritz Haarmann, o vampiro de Hanover. Fish confessou o assassinato e até ao julgamento no Tribunal de White Planes foi submetido a variadíssimos exames psiquiátricos pelo Dr. Fredric Wertham, que considerou Fish um dos casos de perversão mais desenvolvidos da literatura de psicologia. Fish confessou que sentia prazer em matar crianças e que actuava segundo as ordens de deus. Admitiu cometer actos obscenos com quase uma centena de crianças e ter assassinado quinze, em vinte e três estados, desde New Jersey a Montana. Parecia óbvio que a defesa de Fish se basearia em loucura. Mas em 12 de Março de 1935 os jurados opinaram pela culpa deliberada de assassinato em 1º grau. A única esperança de Fish estava nas apelações, enquanto aguardava a execução em Sing Sing. Não sabemos o prazer que teve na sua própria execução na cadeira eléctrica, numa manhã gélida de 1936. 27 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 8 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Júlio Verne (1829‐1905) – Jules Verne nasce em Nantes, França. Tal como aconteceu com Willian Morris, Samuel Butler, Bulwer‐Lytton, Albert Robida e o próprio Edgar Poe, entre outros, não foi incluído como autor de ficção científica, pela quase totalidade dos especialistas. No entanto, Verne escreve num género e viveu permanentemente com ele. Na sua época não havia, de facto, a chamada ficção científica e quanto muito, Verne era o autor por excelência da literatura de antecipação. Começou por estudar lei, mas estava mais interessado em escrever. Abandona os estudos e trabalha como corrector na bolsa para se sustentar sem deixar de escrever. Em 1863 aparece Cinco Semanas em Balão das suas Viagens Extraordinárias. Curiosamente este balão era muito mais perfeito do que os então existentes. Dá conta que o público gosta e surgem mais viagens extraordinárias e aventuras, não só pelo ar, como à lua e ao centro da terra. Em 1870 publica Vinte Mil Léguas Submarinas com um submarino que nunca ninguém ainda construíra, ainda que existisse um modelo holandês de 1620 e outro de 1776 de um estudante de Yale, sem forma prática de navegação. O submarino de Verne tem aparelho de direcção e inovações que foram utilizadas para um submarino operacional conseguido em 1880. Não se fica por aqui e, ainda que por vezes seja apelidada de literatura infantil, ressalta da mesma uma sabedoria tal, que vale a pena ler e reler. Em breve resenha, destacamos: Cinco Semanas em Balão (1863) Viagem ao Centro da Terra (1864) Da Terra à Lua (1865) À Volta da Lua (1869) Vinte Mil Léguas Submarinas (1869/70) Uma Cidade Flutuante (1871) Volta ao Mundo em 80 Dias (1874) O Raio Verde (1882) A Ilha da Hélice (1895) Robur, o Conquistador (1886) 28 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO A Aldeia Aérea (1901) O Senhor do Mundo (1904) A Caça ao Meteoro (1907) obra póstuma publicada em versão revista. André Gillois (1902‐2004) – Maurice Diamantberger nasce em Paris. É um dos pioneiros da rádio em França. Escritor, argumentista e realizador (com o pseudónimo D. B. Maurice). Tem uma longa carreira e uma vasta obra literária com destaque para 125, Rue Montmartre (1958), vencedor do Prix du Quai des Orfèvres do mesmo ano. O último livro de André Gillois foi publicado em 2000. CRIMINOLOGIA – LOCAL DO ACIDENTE Encontrado um corpo, se ferido, a polícia deve chamar a equipa de paramédicos para prestar assistência; se morto deve permanecer como foi encontrado. Na dúvida de ter havido acidente, suicídio ou crime, o local deve ser isolado para certificar a não destruição de indícios probatórios. Compete ao médico, regra legista, confirmar a morte, a causa, a provável hora da mesma, aproximadamente, pela temperatura, lividez ou rigor mortis, que pode fornecer pistas cruciais para uma investigação, antes da autópsia. Os agentes fazem observações preliminares, interrogam testemunhas (se as houver), o que constará do relatório de ocorrência. A posição do cadáver pode contribuir para estabelecer o diagnóstico diferencial entre homicídio, suicídio ou acidente, quer considerado individualmente, quer conjugado com outros elementos, pelo que antes do levantamento do corpo, este deve ser fotografado de vários pontos associados ao local onde foi encontrado. Este local deve ser registado pela fotografia e desenho esquemático. Também imprescindível, por ser de grande utilidade, a fotografia métrica judiciária, pois permite fixar as distâncias entre os diferentes objectos e as suas rigorosas dimensões. A justiça, através dos seu colaboradores especializados não deixará de 29 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO assimilar e recolher tudo o que constituir pistas ou indícios, tal como impressões digitais, manchas de sangue, urina, sémen, pelos, cabelos, etc., e porventura, armas, cartuchos, detonadores. A busca estende‐se à roupa do morto, calçado, unhas, vestígios de pegadas, de arrastamentos, rastos de veículos ou exame destes, se presentes no local. Tudo. Nada é demais, o exame no local é um auxiliar precioso. 30 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 9 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Le Livre de Poche (1953) – Data do lançamento em França de Le Livre de Poche, uma colecção literária fundada e impulsionada por Henri Filipacchi que reúne vários amigos editores em torno deste projecto. O formato de livro de bolso existia desde 1905 com romances populares a baixo preço, mas a aposta de Le Livre de Poche é na literatura de qualidade a um preço seis vezes menor do que o formato habitual. A colecção é um sucesso empresarial e depressa a edição de policiais e de thrillers se junta à dos clássicos. A autora mais vendida é Agatha Christie, com mais de 40 milhões de livros vendidos, seguida de Émile Zola com 22 milhões. O Le Livre de Poche continua activo após quase 60 anos de actividade editorial. Michel Vianey (1939‐2008) – Nasce em Paris. Jornalista, escritor, argumentista e realizador é mais conhecido pelos filmes policiais que escreve para cinema e televisão, Salientam‐se Un Assassin Qui Passe (1981), Un Dimanche de Flic (1983) e Spécial Police (1985). 31 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO ESTATÍSTICA – LONGEVIDADE DAS DAMAS DO CRIME As escritoras e os escritores são seres humanos. Nem sempre inteligentes, por vezes imaginativos, ociosos ou trabalhadores, estudiosos ou mandriões. Ricos ou pobres têm alegrias e tristezas, êxitos e fracassos, são cobardes ou valentes, sujeitos à abastança, à fome, ao amor e ao ódio, ambíguos, nascem, vivem ou vegetam e morrem. Idênticos atributos para as escritoras. Eis uma pequena estatística da longevidade das Damas do Crime: Shirley Jackson (1916‐1965) 48 anos Holly Roth (1916‐1964) 48 anos Craig Rice 1908‐1957) 49 anos Frances Noyes Hart (1890‐1943) 53 anos Josephine Tey (1896‐1952) 55 anos Ethel Lina White (1876‐1944) 57 anos Margery Allingham (1904‐1966) 62 anos Mary Fitt (1897‐1959) 62 anos Joanna Cannan (1898‐1961) 63 anos Charlotte Armstrong (1905‐1969) Dorothy L. Sayers (1893‐1957) Elisabeth Sanxay Holding (1889‐1955) 66 anos Frances Lockridge (1896‐1963) 67 anos Phoebe Atwood Taylor (1909‐1976) 67 anos Doris Miles Disney (1907‐1976) 69 anos Helen Reilly (1891‐1962) 71 anos Georgette Heyer (1902‐1974) 72 anos Carolyn Wells (1862‐1942) 73 anos Anthony Gilbert (1899‐1973) 74 anos Evelyn Berckman (1900‐1978) 78 anos Rae Foley (1900‐1978) 78 anos Elizabeth Daly (1878‐1967) 79 anos Baronne Orczy (1865‐1947) 82 anos Mary Roberts Rinehart (1876‐1958) 82 anos Patricia Wentworth November (1878‐1961) 83 anos Ngaio Marsh (1895‐1982) 83 anos Agatha Christie (1890‐1976) 86 anos Miriam Allen DeFord (1888‐1975) 87 anos Anna Katharine Green (1846‐ 1935) 89 anos Vida média de 69,3 anos. 32 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO FICÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGAL Como sucede com quase todas as classes de Literatura, e Portugal não é excepção, a Ficção Científica foi aflorada ao longo dos tempos por um ou outro autor sem que conscientemente pretendesse escrever obra da temática, como é o caso, das utopias, a que muitos estudiosos, mais ou menos fundamentados, negam enquadramento na ficção científica. Estão nesta consideração o Canto VIII de Os Lusíadas, de Luís de Camões, no qual se descreve a fabulosa Ilha dos Amores, e um ou dois episódios de A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. É o caso, igualmente, de alguns escritores sob pseudónimos anglo‐saxónicos, cujos temas de cientista louco, Frankenstein, guerras futuras entre continentes, etc., são postos em evidência, conquanto emoldurados na Literatura de emoção. Conscientemente, Ficção Científica propriamente dita, quer no que respeita a autores nacionais, quer traduções estrangeiras, mais estas do que aquelas na proporção de 100 (cem) para um (1), só após a segunda Guerra Mundial se desenvolveram em Portugal. E, por outro lado, bastante difícil, tal a falta de dados existentes, indicar qual o texto que mereceria a honra de encetar o género. Fernando Saldanha, um estudioso da matéria, ele próprio escritor da classe, situa o primeiro original em 1965 com a publicação das novelas de A. Maldonado Rodrigues, Vieram do Infinito e Os Mágicos, seguidas de vários contos de Carlos Macedo, Maria Judite de Carvalho e Francisco Reich de Almeida, etc. Por sua vez, Hugo Rocha, autor de Outros Mundos, outras Humanidades, revela no prefácio de A Ameaça Cósmica, de Luís Mesquita ser A Mensagem no Espaço, deste último autor, o primeiro trabalho de ficção científica de autor nacional. Consideramos porém o romance Através do Espaço, de Francisco Cruz, escrito em 1937 mas só publicado em 1942 um sério candidato ao título da primazia. Seja como for, as obras publicaram‐se, leram‐se e são hoje extraordinariamente difíceis de encontrar no mercado. E isto embora, como explica o editor da Colecção Satélite que se quedou pelo primeiro número, mau grado o nosso natural cepticismo dada a relativamente pouca audiência que este número inexplicavelmente tem continuado a encontrar entre nós e ainda o facto, tristemente comprovado, de autoria portuguesa não ser ainda acarinhada pelo público em certos ramos de literatura. 33 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 10 DE FEVEREIRO HOMENAGEM A EDGAR WALLACE O nascimento é uma débil estrela que crescerá de forma opaca ou cheia de luz. A estrela de Wallace só na morte do escritor em 10 de Fevereiro de 1932 revelará todo o brilho que foi seu apanágio. De facto, filho ilegítimo de um casal de actores miseráveis, Wallace nasce no dia 1 de Abril de 1875 e foi adoptado por um vendedor de peixe. Vendeu jornais e leite, foi soldado na África do Sul, poeta e jornalista; regressa a Inglaterra cheio de querer e desde logo, começou a escrever. De improviso e fácil diálogo, tremendamente produtivo, chegando a escrever seis livros em simultâneo. O êxito levou‐o para a área do cinema e, quando morreu cheio de dívidas, deixou milhares de dólares de direitos de autor para os herdeiros. Nada menos que 173 livros, traduzidos em 28 línguas, 23 peças de teatro, 655 sketches, 957 novelas e contos, 165 filmes extraídos das suas obras, incontáveis artigos espalhados por revistas e jornais. Richard Horatio Edgar Wallace nasceu uma estrela opaca para morrer cheio luz de luz. 34 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO EFEMÉRIDES Frederick Van Rensselaer Dey (1861‐1922) – Nasce em Watkins Glen, no Estado de New York, EUA. Advogado de profissão inicia‐se na escrita durante o processo de recuperação de uma doença. Escreve para edições populares americanas (Dime Novel e Pulp Fiction). Em 1891 é contratado para continuar a série de aventuras de Nick Carter, série de mistério/detective iniciada por John R. Coryell. Dey escreve para este personagem 185 romances e 437 contos. Sob o pseudónimo Marmaduke Dey publica 5 romances e 2 peças de teatro. Utiliza ainda outros pseudónimos: Varick Vanardy com que escreve 8 romances; para outros editores assina como Ross Beckman, Dirck Van Doren e Frederic Ormund; em colaboração com mais escritores escolhem os pseudónimos Bertha M. Clay e Marian Gilmore. Autor muito produtivo e popular, destacam‐se na sua obra literária The Magic Word e The Magic Story com mais de vinte edições cada e Night Wind, contos sob o pseudónimo Varick Venardy, publicados entre 1913 e 1920. E. L. Konigsburg (1930) – Elaine Lobl Konigsburg nasce em Nova Iorque. É escritora e ilustradora de livros para crianças e jovens. Galardoada com vários prémios é uma autora reconhecida pelo seu contributo para a literatura infantil e juvenil. No campo policiário destaque para: The View from Saturday (1996) Silent to the Bone (2000) The Outcasts of 19 Schuyler Place (2004) The Mysterious Edge of the Heroic World (2007) Uma colecção de livros para jovens (10‐14 anos) que juntam enigmas, mistério e história de detectives. 35 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO ESPIONAGEM – ALGUÉM QUE FOI ESPIÃO E HERÓI SIDNEY REILLY (1873‐1925) Agentes do Secret Intelligence Service (SIS), o mais proficiente, melhor equipado e talvez o mais implacável serviço de espionagem ao longo dos tempos, tem somado êxitos indiscutíveis, alguns dos quais nunca serão revelados. Não Reilly, o capitão Sidney Reilly manifestou‐se como um super‐espião. Filho de um irlandês e de uma bela russa, herdara o sangue romântico e temperamental, o bastante para se ligar activamente, sem fins lucrativos, ao serviço de espionagem britânico. Correu o mundo antes de ser enviado para a pátria dos czares, com a missão de enfraquecer o colosso russo a favor do Japão. Instalou‐se na Manchúria sob o disfarce de negociante de madeiras, período em que teve contacto com o famoso capitão Tanama e descobriu que um dos seus compatriotas era agente russo. Prestes a ser apanhado antecipou‐se, tomou a decisão – jornada difícil e longa – de chegar ao Japão. Daí acompanhou os eventos então ocorridos – a vitória militar nipónica – para a qual teria contribuído conforme interesses britânicos. Só em 1910 a presença do capitão voltou a ser assinalada, mudara de nome e de condição – na Rússia, cuja língua dominava perfeitamente. Regressou à Pátria com um relatório imenso e apreciado. Alistou‐se na Royal Flying Corps (RFC) no início da 1ª guerra mundial, cobrindo‐se de glória pelo seu arrojo. É ferido e condecorado. O Departamento de espionagem precisa dele, acode para desaparecer deliberadamente, algures na Rússia. Na missão de que fora encarregado caminha entre a Alemanha e a Rússia onde se insinuou entre os revolucionários de Março, que destruíram o domínio czarista, sem que a sua identidade fosse posta em causa. Apoderou‐se de valiosos documentos secretos de natureza política mundial, o que lhe permitiu à Inglaterra proceder às suas escolhas. Teve de enfrentar a acusação de ser um espião ao serviço do estrangeiro, mas Reilly, como bom elemento de Intelligence, forjou documentos, arranjou provas tão brilhantes que confundiu o inimigo, acabando por condenar o denunciante. Mas nada seria como antes, a dúvida ficou e passou a ser vigiado primeiro e depois procurado. Prevenido, escapa‐se. No seu alcance o governo põe o retrato na imprensa e oferece uma quantia elevada pela sua localização, no entanto Reilly está a caminho da pátria. Em 1925 vigia de nova para a Rússia. Foi a derradeira façanha, foi morto perto da aldeia de Allakul na Rússia, abatido a tiro pelos agentes da polícia secreta da URSS em luta emocionante, tenaz e desigual para o heróico britânico. 36 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 11 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Elliot Paul (1891‐1958) – Elliot Harold Paul nasce em Linden, Massachusetts, EUA. Graduado pela Malden High School, participa na 1ª Guerra Mundial em França. Trabalha como jornalista e dedica‐se à escrita inspirado na sua experiência militar. Escreve 10 romances policiários protagonizados por Homer Evans, onde a detecção pura e a sátira se misturam. Além destes, publica mais vinte de romances policiários. Roy Fuller (1912‐1991) – Roy Broadbent Fuller nasce em Failsworth, Lancashire, Inglaterra. Educado na Blackpool High School, trabalha como solicitador, serve na Royal Navy e, mais tarde, lecciona na Oxford University. Este escritor britânico é reconhecido pela sua obra poética. Escreve Savage Gold (1946), um livro de aventuras e lança‐se na área do romance policiário em 1948 com With My Little Eye, que é descrito como um exemplo perfeito de uma história de crime. Segue‐se The Second Curtain (1953) e Fantasy and Fugue (1954), também editado com o título Murder in Mind. Em 1988 foi publicado Crime Omnibus, que reúne estas três obras do escritor. 37 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Sidney Sheldon (1917‐2007) – Sidney Schechtel nasce em Chicago, Illinois, EUA. É escritor, guionista e director em Hollywood nos anos 40. Está no sexto lugar na lista dos escritores de ficção que mais livros vendem em todo o mundo, com mais de 300 milhões exemplares, traduzidos em 51 idiomas. Tem vários livros adaptados ao cinema e televisão e recebe mais de trinta prémio ou galardões, com destaque no policiário para o Edgar Allan Poe Award em 1969 com The Naked Face. Os livros de Sidney Sheldon têm sido editados em Portugal pelo Círculo de Leitores; Publicações Europa América (na colecção Obras de Sidney Sheldon) e pela Livros do Brasil (na Colecção Vida e Aventura). O primeiro livro deste autor publicado em Portugal foi The Naked Face com o título A Face Nua, o nº 160 da Colecção Enigma na Edições Dêaga em 1972. Este livro é reeditado pela Círculo de Leitores com o título A Outra Face em 1985 e pela Europa‐ América em 1992 – Rosto Nu. ENIGMA POLICIÁRIO (TEORIA) Referimos anteriormente que os enigmas ou problemas policiários, segundo os pormenores nele inseridos, são de diversos tipos, classes ou espécies‐tipos, conceito este mais adequado. O que se segue é do tipo CONTRADIÇÃO – certamente o mais usado em problemística – e consiste em encontrar no texto de enredo uma contradição dos factos materiais, ou imateriais, como por exemplo nas declarações dos intervenientes que se contradizem ou contradizem os factos observados pela narração. Não é incomum o declarante, na ânsia de se livrar do imbróglio, ter lembranças tardias que não passam de mentiras. Tenha‐se em atenção os falsos álibis, as recordações exageradas que não correspondem à realidade. 38 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO ENIGMA PRÁTICO – UM TELEFONEMA ANÓNIMO de AUSTIN RIPLEY O relógio batia suavemente as oito badaladas, quando o médico legista, Dr. Bryerson, disse: – Este ferimento no coração produziu morte instantânea, Fordney. Ela morreu entre as duas e as quatro horas. – Isto faz‐nos lembrar um suicídio – observou o Sargento Merry. – Mas será mesmo? – Acrescentou abrindo casualmente uma caixa de bombons que estava em cima de uma mesa, ao lado do cadáver. – Repare, professor. – Mostrou uma fotografia de jornal de um empresário de um cabaret, Frank Malddon, um dos admiradores da jovem morta. Fora rasgada do jornal da tarde e colocada em cima dos bombons. Estava manchada de sangue. – Talvez ela tenha sido assassinada e colocou isto aqui para denunciar quem a matou – comentou Merry Fordney ficou em silêncio diante da cadeira onde se sentava Bebea Beluscu, a vítima, com um pijama vermelho e um jornal manchado de sangue no regaço. No chão estava uma automática de calibre 25. O ângulo do ferimento dirigia‐se para baixo. Bebea era excepcionalmente alta. Faltava uma quarta parte dos bombons de camada superior da caixa… Aquele telefonema anónimo informara‐os da morte de Bebea… a porta aberta do apartamento… perfeito… As investigações revelaram que os dois únicos visitantes foram Jim Dalton e Frank Malddon. Estes indicaram: Danton – Hoje era o aniversário de Bebea. Mandei‐lhe aquela caixa de bombons de manhã, vim vê‐la cerca das 2h30, saí às 2h45. Estava satisfeita e viva a essa hora. Malddon – Fui ao apartamento de Bebea às 8h30, a porta estava aberta… encontrei‐
a morta. Nada podia fazer, por isso parti imediatamente. Não fui eu que informei a polícia, estou a responder num processo de homicídio. O Professor Fordney pensou um pouco e ordenou ao sargento uma prisão. Quem foi preso? Pense um pouco, ponha‐se no lugar do célebre Professor Fordney e arranque a solução. 39 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 12 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Paul Winterton (1908‐2001) – Nasce em Leicester, Inglaterra. Estuda na London School of Economics e trabalha como jornalista no The Economist e no News Chronicle. Na 2ª Guerra Mundial é correspondente estrangeiro em Moscovo, que será cenário de alguns dos seus livros. Usa os pseudónimos Andrew Garve, Roger Bax e Paul Somers. Entre 1950 e 1978 escreve 30 livros policiários como Andrew Garve. Como Roger Bax publica Death Beneath Jerusalém (1938), Red Escapade (1940), Disposing of Henry (1947), Blueprint for Murder também editado com o título The Trouble With Murder (1948), Came the Dawn também editado com o título Two If by Sea (1949) e A Grave Case of Murder (1951). Sob o pseudónimo de Paul Somers escreve os trillers Beginner's Luck (1958), Operation Piracy (1958), The Shivering Mountain (1959) e The Broken Jigsaw (1961). É membro fundador da Crime Writers' Association em 1953. John Boland (1913‐1976) – Bertram John Boland nasce em Birmingham. Serve no exército britânico como artilheiro, é trabalhador agrícola, marinheiro, lenhador, trabalhador ferroviário, operário, vendedor de cartazes publicitários e escritor de ficção científica e policiários. Escreve contos para revista da especialidade, como Galaxy Science Fiction e New Worlds. Publica o primeiro livro White August em 1955, depois No 40 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Refuge (1956), seguem‐se mais cerca de trinta livros em com destaque para as séries The Gentlemen e Kim Smith. Publica três peças de teatro: Murder in Company (1973), Elementary My Dear (1975) e Who Says Murder? (1975); ainda dois livros sobre escrita de alguma forma ligados ao policiário Short‐Story Writing (1960) e Short Story Technique (1973). John Boland utiliza também o pseudónimo James Trevor. Janwillem van de Wetering (1931‐2008) – Nasce em Roterdão, mas vive um pouco por todo o mundo, África do Sul, Austrália, Colômbia, Japão… É um escritor de literatura infantil e de literatura policiária. Escreve em inglês e holandês e muitas vezes as duas versões tem diferenças significativas. A sua criação mais conhecida é a dupla Grijpstra e de Gier: Henk Grijpstra e Rinus de Gier detectives da Brigada Criminal da Polícia Municipal de Amesterdão, cidade incluída na maior parte obra do autor. Outsider in Amsterdam (1975) é o primeiro livro de Wetering que publica cerca de vinte romances e ainda contos curtos no Alfred Hitchcock's Mystery Magazine e no Ellery Queen's Mystery Magazine. Em 1984 é galardoado com Grand Prix de Littérature Policière para o melhor romance policiário internacional do ano. OS PRIMEIROS CÃES POLÍCIAS De Carlos Estegano É de 8 de Fevereiro de 1816 o primeiro exemplo, registado, do uso de um cão, treinado, ao serviço da lei. Foi em Midmar Lodge, no Condado do Aberdeen, na Escócia, que um Terrier, propriedade de M. Gillespie, agente da polícia, participou na luta contra os contrabandistas do whisky. A acção do cão, que tinha sido ensinado a usar o olfacto para a detecção dos cavalos usados no transporte da bebida, provocou de imediato uma diminuição no movimento 41 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO dos carregamentos e levou as autoridades a apreenderem quatro depósitos de whisky e a destruírem outros quatro. O Terrier – cujo nome os anais da época não registam – foi morto a tiro, numa outra investigação próxima de Kintyre, também na Escócia, a 30 de Julho do mesmo ano. Só sessenta anos mais tarde, em Abril de 1876, voltamos a ter notícia doutro facto criminal, tendo como protagonista um cão. Em Bastwell, na zona de Blackburn e ao norte de Manchester, a polícia inglesa investiga a morte de E. Holland, uma criança de sete anos de idade, que fora atacada sexualmente e posteriormente degolada. Procurando pistas, no local do crime, a polícia emprega um cão, mas as tentativas resultam infrutíferas. A polícia tem, no entanto, dois suspeitos. O cão, levado a casa do primeiro, não revela qualquer excitação, mas em casa do segundo, o barbeiro W. Fish, o animal encaminhou‐se para o fogão da sala, onde a criança é encontrada, escondida na chaminé. Fish é preso e confessa o crime. Do herói deste caso nem o nome, ou a raça, ficou registado. O uso regular de cães treinados para o trabalho policial é iniciado em 1899, pelas autoridades de Ghent, na Bélgica, em sequência do auxílio útil, dado anteriormente, pelos animais nas patrulhas nocturnas. Na Inglaterra, o emprego regular de cães polícias iniciou‐se em 1908, por instigação de E. Geddes, director da North‐Eastern Railway Police Force, preocupado com o grande número de roubos das mercadorias em trânsito nos comboios. Foram comprados três cachorros Terrier à polícia de Ghent, para o primeiro canil, em Hull Docks, tendo os animais, posteriormente, contribuído sensacionalmente para a diminuição dos roubos. A primeira força de polícia inglesa a usar permanentemente cães foi a do condado de Wilt, a oeste de Londres, cujo chefe, coronel H. Lekellyn, começou a empregar cães de caça, em 1910, para seguir pistas. Em 1912, enquanto a North‐Eastern Railway construía canis em Hartlepool, Tyne Dock e Middlesbrough, na costa leste, a polícia de Wilt adquiria alguns cães, da raça Labrador, para patrulhas nocturnas. Depois, e a partir de 1914, o uso de cães nas actividades policiais foi‐se multiplicando, mas isso é outra historia. A dos primeiros cães polícias, dos Precursores, termina aqui. 42 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO CONTO CURTO AO FUNDO DA ESTRADA VELHA De António Serra In Célula Cinzenta … As botas produziam um ruído estranho ao pisarem o cascalho solto, do caminho que conduzia ao palheiro. Tinha enfiado, à pressa, um casacão que usava em noites de temporal, bem como umas botas de carneira já gastas pelo correr dos anos. O frio misturado com a minha ânsia provocavam‐me arrepios. Acordara estremunhado com o ladrar dos cães. Olhara a janela e vira qualquer coisa como um grande clarão seguido dum som abafado, parecido como aquele que é produzido com o cair dum muro. Seguia agora, quase que a trote, a caminho do barracão. A noite estava clara. Uma lua bem cheia inundava de luminosidade todo o terreno de searas que me rodeava. A cerca de 20 metros estaquei. Estava ofegante e o suor corria‐me por todo o corpo. A pouco e pouco recuperei o sangue frio. À medida que me ia aproximando via jorrar de dentro do palheiro uma luz intensa… e o cheiro que chegava até mim era um cheiro a queimado. Não queria acreditar no que os meus olhos acabavam de presenciar. – Mas porquê eu… meu Deus?!... – balbuciei. Dei a volta e desatei a correr de volta a casa. Peguei no telefone e disquei, o mais rápido que os meus dedos podiam. – Está?... Está lá por favor! – Sou eu novamente – disse afogueado – é para trazerem um reboque que desta vez foi… um camião TIR que me entrou pelo palheiro dentro!... 43 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 13 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Robert Bruyez (1911‐????) – Nasce em França. Estuda medicina que interrompe para se licenciar em letras, repórter de informação e judiciário escreve obras de carácter histórico até se dedicar, à literatura policiária. Em 1960 obtêm o Grand Prix du Roman d'Aventures com Crimes Sur Ondes Courtes, escreve ainda Sous Les Yeux de Verre (1951) e Bonne Pêche Monsieur Sandy (1955). Em Portugal a Livraria Clássica editou em 1952 A Última Causa de Redet tradução de Sous Les Yeux de Verre. Georges Simenon (1903‐1989) – Georges Joseph Chistian Simenon nasce em Liège, Bélgica. Jornalista, escreve o seu primeiro livro aos 17 anos sob o pseudónimo de George Sim. Decide viver apenas da escrita e fixa‐se em França. Criador do famoso Comissário Maigret, inicia em 1931 com Pietr‐le‐Letton uma vasta série, que ultrapassa os 100 títulos. Simenon utiliza 27 pseudónimos diferentes e escreve mais de seis centenas de romances e contos. É o escritor de língua francesa que mais vende em todo o mundo; é o 4º autor de língua francesa, e autor belga mais traduzido em todo o mundo, em 47 idiomas diferentes. 44 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO FICÇÃO CIENTÍFICA – BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (1) Entre os vários géneros literários dominantes, a Ficção Científica é certamente a que mais representa a imaginação dos autores. Não só não existe definição teórica literária que encaixe no género, como não há fronteira limitativa para o seu âmbito, por mais engenhoso ou imaginativo que os escritores se apresentem. O que foi, o que é, o que será a humanidade; o homem no passado, presente e futuro, vida, morte, ressurreição, imortalidade; máquinas pensadas e impensáveis, o mundo real, paralelos, desconhecidos, terrestres, extraterrestres, utopias fruto de conhecimento acumulado durante séculos. A revolução técnica e científica levada ao infinito é a forma mais extensa da novela intelectual de hoje e exerce uma influência sobre milhões de leitores. Perante a forte oferta editorial, lê‐se o mau, o pior, o menos mau e, naturalmente o bom. Para o aficionado criámos uma pequena biblioteca, BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA com apenas 100 volumes. Lemos livros, revistas, críticas de todas as áreas, aprendemos a escolher, ou melhor, ganhámos experiência, ordenadamente por datas, deixamos ao dispor cem volumes. Se não os tem e os encontrar, não os perca. Volume 1 – Frankenstein; or, The Modern Prometheus (1918) de Mary Shelley Concebida como uma novela de horror, estilo gótico, tem sido citada sob os prismas criminal, terror, ficção científica etc. É um facto que a Ficção Científica não tinha ainda nome nem a forma literária de hoje, o que justifica o impacto de ser considerado como progenitora da transformação genética e da mutação, um elemento de futuro possível. Na realidade Shelly foi escritora de um só livro (The Last Man escrito em 1926, não obteve votos para escolha) que preenche um dos temas Básicos da Ficção Científica sob a 45 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO ideia de duplicar a vida, de criar um substituto do homem, um ser mecânico a que se insufla vida e alma, converte‐se de certo modo numa alternativa a Deus. Um dos anseios mais antigos da Humanidade. Ficha Técnica Frankenstein Autor: Mary Shelley Ano da Edição: 2009 Editora: Leya Colecção: BIS Páginas: 240 ISBN: 9789896530198 Obs: Livro de Bolso 46 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 14 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES 1929 – Massacre do Dia de São Valentim – A Lei Seca nos EUA proíbe o fabrico, a venda e o transporte de bebidas alcoólicas. A cidade de Chicago está repartida entre Al Capone e Bugs Moran, o primeiro chefia a Zona Sul – italiana, e o segundo lidera a Zona Norte – irlandesa. A cidade parece demasiado pequena para dois gangs. Numa tarde do dia de São Valentim no interior da garagem de Chicago são encontrados sete corpos de homens, bem vestidos, com sinais de terem sido alinhados contra a parede e sumariamente executados. Algumas das vítimas são homens de Moran, as testemunhas identificam veículos (falsos) da polícia no local, Al Capone está oportunamente de férias, longe de Chicago e Bugs Moran escapa à cilada por causa de um providencial atraso. É o início de um intricado processo de investigação, que ficou conhecido como o Massacre de São Valentim, por ter acontecido no dia 14 de Fevereiro, e também o princípio da decadência de Moran e da perseguição do governo a Al Capone. 47 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO LITERATURA POLICIÁRIA E DIA DOS NAMORADOS A Judgement in Stone (1977) de Ruth Rendell No Dia dos Namorados a governanta Eunice Parchman mata os quatro membros da família que a emprega. O detective superintendente‐chefe William Vetch investiga para descobrir evidências da tragédia pessoal que precipitou o crime. Este livro estÁ editado em Portugal com o título Sentença em Pedra. The Saint Valentine's Day Murders (1984) de Ruth Dudley Edwards Robert Amiss funcionário fica envolvido numa teia complexa de mistério e assassínio quando tenta encontrar o responsável pelo envio de chocolates envenenados no Dia dos Namorados. Saint Valentine's Night (1989) de Andrew M. Greeley O repórter Neal Connor mistura romance e perigo quando regressa a Chicago, a sua cidade natal, e reencontra uma antiga namorada, agora viúva do seu melhor amigo. Deadly Valentine (1991) de Carolyn G. Hart Um baile inocente no Dia dos Namorados em Broward's Rock torna‐se fatal. Annie Laurance investiga o crime em que a sua própria sogra é a principal suspeita. Bleeding Hearts (1994) de Jane Haddam Ex‐agente do FBI Gregor Demarkian corre contra o tempo para prevenir um assassinato no Dia dos Namorados. Crimes of the Heart (1995) Uma colectânea de 14 contos tendo como tema a atração fatal. Inclui Matchmaker de Sharyn McCrumb, Hard Feelings de Barbara D'Amato e The Rosewood Coffin ou The Divine Sarah de P. M. Carlson. Valentine (1996) de Tom Savage Jillian Talbot, um escritor de suspense, vê o seu quotidiano idílico em Greenwich Village interrompido pela presença de um indivíduo obcecado que se torna mais agressivo com o Dia dos Namorados. Love Lies Bleeding (1997) de Susan Wittig Albert China Bayles espera um pedido de casamento no Dia dos Namorados, em vez disso o seu noivo, Mike McQuaid, é baleado. 48 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Claws and Effect (2001) de Rita Mae Brown Harry Haristeen e seu gato detective, Mrs. Murphy, tem um desafio de Dia dos Namorados relacionado com cartas ameaçadoras e o assassinato de um director hospitalar. Love and Death (2001) Uma antologia de 14 mistérios do Dia dos Namorados. Contos originais do tipo A whodunit ou Whodunnit de Dorothy Cannell, Caroyn Hart, Nancy Pickard, Gar Anthony Haywood, Peter Robinson, Eve Sandstrom, Ed Gorman, Margaret Maron, Jean Hager, Robert J. Randisi, M. D. Lake, Susan Dunlap, Marilyn Wallace e Kathy Hogan Trocheck. Crimes of Passion (2002) de Nancy Means Wright e outros Quatro histórias emocionantes de obsessão e desejo dos mestres do mistério. Inclui The Lovebirds de B. J. Daniel onde o detective Tempest Bailey tem de resolver o mistério que envolve o assassinato de Peggy Kane, uma amante que recebeu um presente do dia fatal dos namorados. Outros contos de Maggie Price, Jonathan Harrington e Nancy Means Wright. A Catered Valentine's Day (2007) de Isis Crawford No funeral da mãe de um cliente, as irmãs Bernie e Libby, vêem‐se perante um estranho mistério quando o cadáver de Ted Gorman, o proprietário da Just Chocolate, que supostamente morreu há algumas semanas num violento acidente de carro, é encontrado na sepultura de outra pessoa. Cat Playing Cupid (2009) de Shirley Rousseau Murphy Quando um casamento no Dia dos Namorados, é interrompido pela descoberta de um cadáver, Joe Grey e seus companheiros relacionam o assassinato com um caso antigo envolvendo o passado romântico do pai da noiva. BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA POLICIÁRIA IDADE MÉDIA, RENASCENÇA E DEPOIS… O raciocínio ORAL e narrativo perde motivação com a Idade Média, não é sem razão que também se apelida esta época de Idade das Trevas. Na realidade os crimes e delitos não eram considerados como tal, o assassínio inclusive, resolvia‐se no seio das famílias que gozavam de liberdade absoluta de agir ou não e, em caso afirmativo, quase sempre, não pelo crime, mas pela vingança daquele. A verdadeira repressão de crime apenas era usada quando relacionada com o culto religioso. O Juiz supremo era o padre, sem apelo quanto ao veredicto deste. As 49 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO investigações eram substituídas pelo designado Juízo de Deus. Uma prova a que os suspeitos se submetiam que, pela sua índole, só poderia ser positiva. A terra, a água e o fogo, no pensamento do homem da Idade Média, são os elementos de que Deus se serve para apontar o culpado ou salvar o inocente. De mãos nuas o acusado devia levar um ferro em brasa da pedra baptismal ao altar‐
mor; caminhar descalço sobre ferros previamente aquecidos ao rubro – era a prova de fogo. Mergulhar o braço em água a ferver para extrair uma pedra colocada no fundo, era a prova do caldeirão ou prova de água que poderia igualmente consistir em atirar com o suspeito para dentro da água amarrado de pés e mãos. Se voltasse à tona era inocente, se mergulhasse era culpado… necessariamente existiam bem poucos inocentes! O julgamento pela cruz e pelo caixão eram novas formas de prova. No primeiro caso, os queixosos deviam ficar de braços erguidos diante do crucifixo sem demarcação de tempo, o primeiro que baixasse os braços era o culpado; no segundo, o suspeito era levado perante o corpo da vítima e tocar‐lhe, se esta começasse a sangrar, era considerado culpado. O Juízo de Deus pelo duelo aparece mais tarde, mas ainda no período da Idade Média e havia de estender‐se até ao Século XVIII. A propósito do tema, ainda que tenha sido escrito para além da Idade designada, cabe registar a narrativa de Heinrich Von Kleist, poeta, dramaturgo e novelista alemão (1777‐1811). No dia designado pelo tribunal para a execução, no qual Friedrich e Littegard deviam morrer queimados na fogueira, o moribundo conde conseguiu ser levado junto do Imperador e, reunindo as últimas forças, gritou: – Alto! Antes de lançarem fogo deixem‐me falar! Quero declarar a inocência dos que vão ser queimados, são palavras de um pecador arrependido que vai morrer. O Imperador levantou‐se. – Que dizes? Então não ficou tudo esclarecido com o Juízo de Deus? – Littegard é inocente! – exclamou o enfermo. – É claro que o Juízo de Deus é infalível. Von Trotta atingido três vezes com feridas mortais, cada uma por si só, recuperou… este pecador que apenas foi atingido na pele, morre sem remédio. Quereis mais claro onde está a mão de Deus? Littegard é inocente, foi com a sua criada que me encontrei na noite escura, vestida com os trajes da bela viúva. O Imperador ordenou que soltassem os prisioneiros, mandou dar‐lhes roupas novas e abraçou‐os. Vota Trotta aproximou‐se do moribundo e, sem rancor, abraçou‐o, enquanto Jacob Barbaroxa pronunciava as suas últimas palavras: – Jamais poderei obter o perdão de Deus, nem dos homens, pois sabei que sou o assassino de meu irmão o nobre Duque de Wilhelm Von Breysach… a quem mandei matar… na noite… na noite… 50 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO O cadáver tomou o lugar dos ex‐condenados e, em breve, o fogo purificava o corpo imundo. Como se viu, na ligeira amostra, o Juízo de Deus, em qualquer das suas formas, apresentava riscos consideráveis, sobretudo numa época em que a ameaça das infecções era constante. Para a Igreja, só o espírito impuro, ou seja o culpado, podia ter sangue impuro, enquanto a pureza de sangue provava a pureza da consciência. Mais modernamente, mas não menos feroz, era o julgamento do pão, o acusado tinha de engolir um pedaço de pão sobre o qual se havia lançado previamente uma maldição; se o engolia sem dificuldade, estava salvo, se o pão não lhe passava da garganta, era culpado. A este respeito num dos capítulos de Decameron (1344‐1366), de Giovanni Boccaccio, escritor italiano (1313 ‐1375), quando conta: No Roubo do porco de Calandrino por Bruno e Buffalmacco, o julgamento pelo pão é‐nos apresentado sob a forma de bolinhas de gengibre, das quais duas haviam sido confeccionadas com aloés hefático fresco e coberto de açúcar como as outras. A operação era chamada "tiromanteia" e preparava‐se segundo determinados pedacinhos de pão e queijo, os quais eram benzidos com especiais fórmulas pela Igreja e distribuída aos presumíveis ladrões para os identificar, baseando‐se a questão na convicção de que o culpado não era capaz de engolir comida benta. Na História de Boccaccio dá‐se uma inversão às regras. É o dono do porco roubado, Calandrino, que é submetido ao juízo pelos dois ladrões, Bruno e Buffalmacco, sendo‐lhe distribuídas as bolinhas confeccionadas com aloés, que não consegue tragar, acabando por se convencer que roubou o porco a si próprio… (continua…) 51 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 15 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES B. M. Gill (1921‐1995) – Barbara Margaret Trimble nasce em Holyhead, Anglesey, País de Gales. É educada em Convent du Bon Sauveur e trabalha como professora. Escreve sob os pseudónimos B. M. Gill e Margaret Blake. Como B. M. Gill cria a série Inspector Maybridge que protagoniza 3 livros: Victims (1980), que nos EUA tem o título Suspect, Seminar for Murder (1985) e The Fifth Rapunzel (1991); escreve ainda mais 6 romances, com destaque para The Twelfth Juror (1984) e Nursery Crimes (1988) ambos nomeados para o Edgar Awards Best Novel. Como Margaret Blake escreve 8 livros num género que a crítica classifica como thrillers românticos. Em Portugal está editado Morto por te Conhecer (1991), o nº 17 da Colecção Crime S.A. da Ulisseia; Título original: Dying To Meet You (1988). Sax Rohmer (1883‐1959) – Arthur Henry Sarsfield Ward nasce em Birmingham, Inglaterra. Criador do celebérrimo Doutor Fu Manchu em 1913 em The Mystery of Dr Fu‐
Manchu (também intitulado The Insidious Dr. Fu‐Manchu, cria também outras personagens Paul Harley, Daniel “Red” Kerry, Gaston Max e Sumuru, num total de 41 romances policiários de mistério/detective. Neste género publica ainda 9 colectâneas de contos e 4 peças de teatro. Usa também o pseudónimo Michael Furey. Em Portugal estão 52 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO editados: Sumuru (1955), Livros do Brasil. Título original: Sumuru ou Slaves of Sumuru (1951) Relíquia Sangrenta (1957), nº 4 Colecção Policial Corvo, António Lopes Ferreira A Serpente de Jade (1957), nº 13 Colecção Biblioteca Mocho, Organizações O Sinistro Dr. Fu‐Manchu (1975), Colecção Aventura, Portugal Press, mais tarde reeditado com o título: O Mistério do Doutor Fu Manchu (1979), nº 1 da Colecção Círculo Negro, Editorial Veja. Título original: The Mistery of Doctor Fu Manchu (1913) O Regresso do Dr. Fu‐Manchu (1976), nº 5 Colecção Aventura, Portugal Press. Título original: The Return of Dr. Fu‐Manchu. Anthony Gilbert (1899‐1973) – Lucy Beatrice Malleson nasce em Londres. Autora prolífica escreve cerca de 70 romances policiários a maioria protagonizados por Arthur G. Crook, um advogado /detective. Publica 30 peças de rádio e teatro. Utiliza ainda os seguintes pseudónimos: Kilmeny Keith, Lucy Egerton, Anne Meredith e Sylvia Denys Hooke. Durante muitos anos a identidade de Anthony Gilbert é mantida em segredo e os leitores julgam que o autor é um homem. A sua escrita é caracterizada por uma trama hábil, diálogos e acção inteligentes sem violência exagerada. O livro The Woman in Red é adaptado ao grande ecrã em 1945 no filme My Name is Julia Ross. Gregory Mcdonald (1937‐2008) – Nasce em Shrewsbury, Massachusetts, EUA. Trabalha como jornalista no Boston Globe entre 1966 e 1973. No ano seguinte inicia uma série de novelas policiárias protagonizadas por Fletch e caracterizadas por ironia e humor. No segundo romance entra um novo personagem, o Inspector da Polícia Francis Xavier Flynn. No total escreve 25 livros policiários, incluindo 9 da série Fletch e 3 mistérios sobre Flynn. Gregory Mcdonald é galardoado duas vezes com o famoso Edgar Allan Poe Award em 1975, Fletch, com Best First Novel e em 1977 Fletch Confessed com Best Paperback Original. Em França, em 1997, recebe o prémio Trophées 813 para o 53 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO melhor romance policiário estrangeiro por The Brave, escrito em 1991 e traduzido em francês em 1996 com o título Rafael, Derniers Jours. PERSONAGEM: FU MANCHU, O SENHOR DO MAL De entre os criminosos mais temíveis criados pela ficção policiária, Fu Manchu é de certo o mais sinistro. Une ao mistério da sua personalidade o medo da sua presença e a angústia que irradiam das acções tenebrosas a que se impõe, reforçando o hoje esvaído perigo amarelo. Vestia uma folgada túnica amarela, de tonalidade idêntica ao seu rosto, crânio de cabelos rapados, mãos ossudas rematadas por unhas grandes, agudas como punhais. Infinitamente rico e inteligente, o doutor Fu Manchu é senhor de poderes ocultos, mestre do crime, o Senhor do Mal que ambiciona a conquista do mundo. Imponente e terrífico de figura esguia e gigantesca, chefe incontestável de poderosas seitas secretas, a sua ascendência aristocrática, que talvez remonte à longínqua dinastia Manchu, determina que honre a palavra dada, mau grado a perfídia da acção. Maquiavélico e implacável no seu combate, tem como principal adversário Sir Denis Nayland Smith, que apesar do apoio do Dr. Petrie, abnegado cientista, e da sua bela esposa, escrava resgatada ao jugo do inimigo, não consegue contrariar a eterna ambição do maléfico opositor. 54 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 16 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Desmond Cory (1928‐2001) – Pseudónimo de Shaun Lloyd McCarthy que nasce em Lancing, Sussex, Inglaterra. Estuda na Steyning Grammar School e em St Peter's College, Oxford. Serve nos Royal Marines. Combina a carreira de escritor com a carreira académica de professor universitário em vários países: Espanha, Suíça, Chipre, Qatar e Bahrein etc. Autor policiário cria os personagens Mr Dee, Johnny Fedora, Lindy Grey, John Dobie e Mr Pilgrim, escreve um total de 35 romances de mistério/detective e espionagem. Publica ainda 4 colectâneas de contos curtos, 1 peça de ficção científica para a rádio e 2 livros de mistério para jovens. O primeiro romance é Secret Ministry (1951) protagonizado por Johnny Fedora, seguido de Begin, Murderer, do mesmo ano, com Lindy Grey. Em Portugal estão publicados: Onda de Choque (1967), nº 18 Colecção Espionagem, Dêagá O Tesouro Nazi (1970), nº 54 Colecção Espionagem, Dêagá Os Mortos Vivos (1970), nº 57 Colecção Espionagem, Dêagá 55 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO FICCÇÃO CIENTÍFICA – SUPERPOVOAÇÃO Regista‐se que o nosso globo terrestre tinha no ano de 1950 uma população de 2.556.000.053 habitantes, cinquenta anos depois sobe para 6.082.966.429. Nesta expectativa o crescimento indefinido da população é tema de preocupação/actividade por parte dos escritores de ficção científica. Os profetas da desgraça clamam que a fome é a ruína universal do meio ambiente, advogam que a população da terra não pode manter‐se, sendo preciso reduzir o índice de natalidade, através de produtos químicos sem efeitos secundários ou outro procedimento social. Os imaginativos autores encontram sempre alternativas para conter a corrida célere dos cavaleiros do Apocalipse. É verdade que no conhecimento presente nenhum dos mundos do sistema solar é habitável, excepto a Terra. Mas uma vez mais a ficção defende a implantação de órgãos para viver noutros mundos possíveis de albergar ou viver debaixo de células aí adaptadas, ou no subsolo, onde se estabeleceriam condições similares às da terra. Quimera naturalmente para a actualidade. Enquanto este velho lugar de nascimento e sepultura puder suportar o futuro, e até quando, parece urgente encarar o problema, ou pelo menos indagar seriamente: para onde vamos? ANATOMIA DO CRIME – DESCONFIANÇA Extracto do conto OS CEGOS de Luís Jardim, Brasil – 1946 É a terrível suspeita que enche o pai estúpido de ódio provocado contra o infeliz. Joaquim levantou a cabeça e olhou o cego Umbelino. Os seus ouvidos guardavam a expressão da mulher do tio. E na cabeça a expressão reproduzia‐se como um eco de gota em gota; filho de gato é gatinho; filho de cego é ceguinho. De súbito, sem se dominar, empurrado por uma força estranha, Joaquim pulou em cima de Umbelino, agarrando‐o pelo pescoço. O cego estrebuchou com um berro medonho. O menino assombrou‐se e abriu ao choro. O velho Borges levantou‐se de um pulo e gritou para o afilhado, dando‐lhe murros nas costas. – Atrevido dos diabos, larga esse desgraçado. Tu não me respeitas, não, condenado? Apóstrofes terríveis soltam da boca do velho. – Um homem que bate num cego é capaz de espancar Nosso Senhor! Deus me perdoe mas eu acabo por te excomungar, se não te mato. O vaqueiro confessa então a sua desconfiança. Ele “malda que aquela marmota” não é seu filho. Porquê? Porque eu não sou cego e ele é… O velho, porém, tem a noção das coisas. 56 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO – O Divino é grande! O Divino é grande! Tu lembras‐te de teu pai, Joaquim? – Não me lembro, não, padrinho. A mãe dizia‐me que ele morreu quando eu tinha… coisa de um ano. E se tu vives maldando que esse menino não é teu filho só porque é cego e tu não és, como é que tu não nasceste cotó, sendo teu pai aleijado de nascença? Joaquim contudo não se rende. A obsessão pode mais do que o seu respeito pelo padrinho e tio Umbelino, sentindo que algo de terrível o ameaça, acabe de fugir, não sabe para onde; ele miserável, que não tem olhos para si como para os outros, apenas os olhos do instinto. Joaquim não se apieda. Põe o punha à cinta e cai o mundo. Onde o cego vá, ele o alcançará… 57 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 17 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Ronald A Knox (1888‐1957) – Ronald Arbuthnott Knox nasce em Knibworth, Leicestershire, Inglaterra. Trabalha para a Military Intelligence durante a 1ª Guerra Mundial, é ordenado padre em 1911 pela igreja anglicana e converte‐se ao catolicismo romano em 1917. Escritor com uma obra literária notável de poesia, religião e outros tópicos – o que atesta a sua capacidade intelectual – inicia a escrita policiária em 1925 com The Viaduct Murder. De seguida cria o personagem Miles Brendon, protagonista dos seguintes romances: The Three Taps (1927), The Footsteps At the Lock (1928), The Body in the Silo (1933), também editado com o título Settled Out of Court, Still Dead (1934) e Double Cross Purposes (1937). Escreve ainda alguns contos que estão incluídos em antologias famosas como Great Short Stories of Detection, Mystery and Horror 2nd Series (1931) editada por Dorothy L Sayers e Fifty Famous Detectives of Fiction (1983). Em Portugal no nº 500 da Colecção Vampiro de Bolso da Livros do Brasil, Quem Matou o Almirante, um livro conjunto de vários autores pertencentes ao Detection Club, Ronald A. Knox escreve o capítulo VIII, Trinta e Nove Pontos Duvidosos (Thirty‐Nine Articles of Doubt). 58 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Lawrence Blochman (1900‐1975) – Lawrence Goldtree Blochman nasce em San Diego, Califórnia, EUA. Este patologista forense norte‐americano inicia na juventude a carreira de escritor. Trabalha como editor no Japão, Índia, China e França. Dedica‐se à literatura policiária, na escrita e na tradução. Publica 11 romances, cujo protagonista é o Inspector Leonidas Prike do C.I.D. (British Secret Service) na Índia, e revela um profundo conhecimento da cultura e da atmosfera deste país. Escreve 1 peça de teatro e 14 short stories com Dr. Daniel Webster Coffee como personagem principal. Várias das suas obras são adaptadas à rádio, televisão e cinema. Traduz livros para a língua inglesa policiários franceses, incluindo alguns romances do famoso escritor belga Georges Simenon. Lawrence Blochman é o 4º presidente de Mystery Writers of America (1948‐49). Em 1951 recebe um Edgar Award na categoria de Best Short Story, Diagnosis: Homicide e em 1959 é novamente galardoado com um Edgar Allan Poe Award especial pelos serviços prestados à Mystery Writers of America. Elleston Trevor (1920‐1995) – Pseudónimo, e possivelmente o nome legal, de Trevor Dudley‐Smith que nasce em Bromley, Kent, Inglaterra. Engenheiro aeronáutico escreve livros policiários para jovens. Em 1946 escreve o que é considerada a sua primeira obra policiária The Immortal Error, sob o pseudónimo Elleston Trevor, seguida de mais 32 romances até 1994. Este autor usa variados pseudónimos: Adam Hall, Caesar Smith, Howard North, Lesley Stone, Mansell Black, Roger Fitzalan, Simon Rattray, Trevor Burgess e Warwick Scott. Cria diversos personagens e na sua extensa obra literária destaca‐se The Flight of the Phoenix (1964) e a série Agente Secreto Quiller, 19 thrillers escritos com o pseudónimo Adam Hall. Ruth Rendell (1930) – Ruth Barbara (Grassmann) Rendell nasce em Londres. A autora que também usa o pseudónimo de Barbara Vine, cria o famoso Chief Inspector Wexford, cuja estreia se regista em From Doon With Death (1964) e que conta já com 23 títulos. Escreve ainda mais 28 romances policiários e 33 short stories. Como Barbara Vine 59 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO publica 14 livros. É uma escritora muito premiada e os seus livros estão traduzidos em 22 línguas. Em Portugal diversas editoras tem publicado os seus livros. COLECÇÃO DE MORADAS Há colecções para todos os gostos. Há quem coleccione notas bancárias de todos os países… para serem verdadeiras é necessário ter dinheiro. Alguns são mais modernos e coleccionam caixas de fósforos. Tenho um vizinho que colecciona garrafas de bom vinho, pelos vistos vazias, tendo em consideração o aspecto do nariz e a recusa em receber alguém depois das 16 horas… O meu vício secreto é guardar as moradas dos meus amigos detectives… se alguém estiver interessado, aqui vai, não é segredo. Commissaire Maigret: 132, Boulevard Richard‐Lenoir, Paris 11e, FRANCE Thomas Carnacki: Cheyne Walk, Chelsea, London, UK Max Carrados: The Turrets, Richmond, London, UK Martin Hewitt: Strand, a 30 jardas da Charing Cross Station, London, UK Dr. John Evelyn Thorndyke: 5A King's Bench Walk, London, UK Hercule Poiroit: 56B Whitehaven Mansions, Charterhouse Square, Smithfield, London W, UK; ou 228 Whitehouse Mansions em The Cat Among the Pigeons. Na tradução portuguesa Poirot e as Jóias do Príncipe, o nº 31 das Obras Completas de Agatha Christie da Livros do Brasil na página 357 tem Whitehouse Mansion, 28; ou ainda, 203, Whitehaven Mansions em The Clocks. Na tradução portuguesa Poirot e os Quatro Relógios o nº 33 das Obras Completas de Agatha Christie da Livros do Brasil na página 326 temos Whiteheaven Mansions, 203 Miss Jane Marple: Danemead, High Street, St Mary Mead Nero Wolfe: West 35th Street, New York City USA Philip Marlowe: Hobart Arms, Franklin Avenue, Hollywood USA 60 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO OS MUSEUS DE SHERLOCK HOLMES A memória do Grande Detective acha‐se perpetuada em placas, réplicas de objectos canónicos, reproduções da figura de Holmes, cartazes alusivos às suas aventuras e outras manifestações de carinho e respeito, espalhadas, um pouco por todo o mundo, desde Londres (o que não surpreende) até ao Japão (o que já é motivo de estupefacção, porque, que se saiba, nas suas andanças canónicas, nunca Holmes foi ao Oriente). A mais espectacular de todas essas iniciativas é constituída pelos museus dedicados ao Grande Detective e que, em regra, compreendem a reconstituição dos aposentos canónicos de Baker Street, ou, pelo menos, da sala em que Holmes recebia os seus clientes e se dedicava quer às suas loucuras dedutivas (com recurso ao cachimbo, ao violino, ou até à cocaína), quer a entretenimentos que por vezes nada tinham a ver com o caso, de momento entre mãos: experiências químicas; tiro ao alvo nas paredes; leitura do pensamento de Watson; consumo de bebidas (com ou sem intervenção do gasogénio) e de iguarias variadas, que tanto podiam ser um ganso recheado como um tratado naval, servido como hors d'oeuvre, etc… Desses museus era já conhecido o que, recuperado do Festival Britânico de 1951, é um dos motivos de orgulho do pub The Sherlock Holmes, em Northumberland Street, a meio caminho entre Trafalgar Square e o Tamisa. Dois outros se lhe vieram juntar. O primeiro foi inaugurado, em 1990, no nº 239 de Baker Street (numerado 221‐B, por razões de óbvio oportunismo. O seu proprietário, John Adianitz, instalou‐o num prédio, estreito e esguio, de três pisos, e recheou‐o com móveis vitorianos que, para visitantes mais exigentes, parecem provir da Feira da Ladra Londrina. O bilhete de entrada, que não é barato, dá acesso a um arremedo da morada canónica em que alguns adereços tradicionais alternam com outros que pouco ou nada dizem ao holmesiano que se preze. Acresce que a configuração e a tacanhez do imóvel deixa no visitante sérias dúvidas quanto à higiene de Holmes e Watson e indicia a promiscuidade a que seriam obrigados para conviver, em espaço tão apertado, com Mrs. Hudson, Billy e uma ou duas criadas. O museu mais recente data de 1991 e adorna o Parkhotel Savage de Meiringen, na Suiça, onde Conan Doyle situou o Englischer Hof que serviu de albergue ao famoso par, no Problema Final. Os hóspedes podem tomar o pequeno‐almoço ou os aperitivos num salão que, com algum rigor, pretende reproduzir a sala de visitas do 221‐B de Baker Street, antes de irem contemplar, ao vivo, a catarata de Reichenbach – como parece fazê‐
lo a estátua de Holmes, sentado num pedregulho, à espera do regresso de Watson, ludibriado pela mensagem fraudulenta de Moriarty que nas sombras aguarda o momento oportuno para, sem testemunhas, pôr ponto final a certo problema que o atormentava: a sobrevivência do seu inimigo privado nº 1. 61 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 18 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Auguste Le Breton (1913‐1999) – Auguste Montfort nasce em Lesevem, Bretanha, França. É considerado um dos maiores vultos do policiário no âmbito do romance negro, contribuindo decisivamente para demarcar a narrativa francesa do seu modelo e rival americano. É extenso o número de romances publicados em seu nome, muitos dos quais levados à tela. De entre todos cita‐se Du Rififi Chez les Hommes (1953), publicado entre nós em 1983 pelas Edições 7 com o título Rififi, o nº 2 da Colecção Alibi. Anteriormente, em 1978, a Editora A.M. Pereira publica Os Marginais, Les Pégrilots (1973) no título original. Len Deighton (1929) – Leonard Cyril Deighton nasce em Marylebone, Londres. Ilustrador, fotógrafo, chefe de cozinha, professor, agente literário… começa a escrever policiários em 1962 com The IPCRESS File, mais tarde adaptado ao cinema. A maior parte da sua obra é na área da espionagem. Cria duas séries: Harry Palmer, com livros editados e a série Bernard Samson, com 9 títulos. Escreve mais 11 romances de espionagem e 2 livros de short stories. Em Portugal estão editados alguns livros deste autor. 1 – O Caso IPCRESS (1965), Portugália Editora 1º livro da série Harry Palmer 2 – Funeral em Berlim (1966), Portugália Editora. Título Original: Funeral in Berlin 62 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO (1964), 3º livro da série Harry Palmer 3 – Um Cérebro de um Bilião de Dólares (1990), Gradiva, Colecção Não Incomode. Título Original: The Billion Dollar Brain (1966), 4º livro da série Harry Palmer 4 – Adeus, Mickey Mouse (1990), Gradiva, Colecção Não Incomode. Título Original: Goodbye Mickey Mouse (1982) 5 – O Que Escondem as Águas (1994), Gradiva, Colecção Não Incomode. Título Original: Horse Under Water (1963), 2º livro da série Harry Palmer ENIGMA POLICIÁRIO – ELIMINATÓRIAS Esta é a classe de problemas ou enigmas, designados por eliminatórias de muito fácil decifração, se bem que por vezes, bastante trabalhosas. Trata‐se de um trabalho de lógica através do qual por sucessivas exclusões contidas nas premissas ou indicadores, se vai delimitando o seu número, até que reste a única que preenche a hipótese procurada. Consiste em chegar à verdade pela negação de todas as hipóteses admissíveis, menos uma. A apresentação desta espécie‐tipo é regra geral por alíneas, numa segunda forma acompanhada de um desenho onde se movimentam algumas figuras do problema. Muitas vezes os dados são apresentados por uma conversa ocasional, onde se dispuseram os dados a eliminar. Célebre como o seu autor, o querido amigo Artur Varatojo, um nome de sucesso na área do policiário, publicou em 1947, no Jornal de Sintra, um problema deste tipo que ficará para a história do Policiário, aqui reproduzido. ALGUÉM GUARDOU O VELHO REVÓLVER Há precisamente vinte anos naquela mesma sala Jack Grosset matara um homem. O revólver assassino escorregara para o chão e alguém o apanhara. Agora a mira desse velho revólver traçava uma linha recta com o coração do assassino. Soou um tiro e... Jack Grosset caiu morto. Ricardo Diabo recordou o caso com um sorriso. Michael Brown contara‐lhe como tudo se passara, então. Ele estava no bar quando Jack Grosset matara o pai. Grosset deixara cair o revólver e Michael guardara‐o. Tinha então dez anos e tomou conta dos irmãos mais novos. Três rapazes e duas raparigas: George, Peter, Buck, Dorothy e Jenny. Jenny era bonita, esguia e atraente, enquanto Dorothy tinha ar másculo que lhe 63 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO dava uma dureza de feições sem a fragilidade feminina da irmã. Nenhum esquecera a morte do pai e Mick ditaria a vingança. Foi dado a todos o direito igual de vingar o pai. Solenemente Mick meteu uma só bala no tambor vazio e rodou‐o várias vezes até não saber onde ela se encontrava. Então sortearam entre eles a ordem porque cada um tentaria a vingança. Por capricho o mais velho ficou marcado para último, imediatamente precedido de George. Qualquer um podia picar a única bala do tambor de seis tiros. O primeiro como o último, tinham iguais possibilidades. Ninguém sabia em que altura ia detonar o velho revólver, e essa dúvida transmitia‐
lhes um frémito de nervosismo. Combinaram entrar um de cada vez enquanto os outros do lado de fora com a respiração suspensa esperariam a detonação. O primeiro deles levantou o revólver e o coração dos outros cinco parou de bater. As raparigas apertaram as mãos. Soou o estalido metálico da câmara vazia e o revólver dentro de momentos passava de mão. George não perdoou nunca o destino de nunca ter chegado a atirar. Buck quando recebeu a arma das mãos da irmã viu brilhar‐lhe nos olhos uma lágrima rebelde de raiva incontida. Só quando o seu dedo pequeno e bem modelado premira o gatilho até ao fim, e o mesmo som metálico respondera negativamente é que a bonita rapariga compreendera a inutilidade da sua tentativa. Buck, que foi o primeiro deles a irromper no salão após ter soado o tiro, nunca compreendeu como ninguém reparou nas tentativas dele e dos irmãos que o precederam. Este foi o caso que Ricardo Diabo não quis resolver apesar de ter descoberto qual dos irmãos Brown vingara o pai. E você, leitor, que também descobriu, diga‐nos: Quem matou Grosset? Porquê? 64 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 19 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Yves Dermèze (1915‐1989) – Paul Béraot nasce em Tonneins, Aquitânia, França. Escritor de policiário, aventura e ficção científica usa vários pseudónimos, sendo os mais conhecidos Yves Dermèze, Paul Béra. É galardoado em 1950 com o Prix du Roman d'Aventures com Souvenance Pleurait. Em 1977 recebe o Grand Prix de l'Imaginaire atribuÍdo pelo conjunto da sua obra. Escreve no total perto de 40 livros. Para registo eis os pseudónimos usados pelo escritor: André Gascogne, Michel Avril e Paul Mystère, este último como co‐autor. E ainda Alain Janvier, Francis Hope, François Richard, Jean Vier, John Luck, Luigi Saetta, Martin Slang, Serge Marèges, Serge Valentin, Steve Evans, Téka e outros… No campo policiário estão publicados em Portugal: 1 – Um Anel de Rubis (1951), nº 104 da Colecção Os Melhores Romances Policiais, Livraria Clássica Editora. Título Original: Double Crime Sans Indices (1946) 2 – Souvenance Chorava (1951), Clássica Editora 1950. Título Original: Souvenance Pleurait Ross Thomas (1926‐1995) – Ross Elmore Thomas nasce em Oklahoma City, EUA. É jornalista, agente de relações públicas, guionista e especialista em ficção político‐
criminal. Cria os personagens Mac McCorkle e Mike Padillo. Inicia‐se no romance 65 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO policiário em 1966 com The Cold War Swap, obra que ganha o Edgar Award para o melhor primeiro romance no ano seguinte. Para a série Mac McCorkle escreve quatro títulos, para a série Arthur Case Wu, três, publica treze romances entre 1967 e 1994; sob o pseudónimo Oliver Leeck escreve cinco livros de suspense e aventura, entre 1969 e 1976, protagonizados por Philip St. Yves, mais tarde adaptados ao cinema. Em 1982 Ross Thomas é convidado por Wim Wenders para guionista do filme Hammett, onde acaba por desempenhar um pequeno papel. Ganha o Edgar Award para o melhor romance, em 1985, com Briarpatch (1984). Depois de trinta anos ao serviço da literatura policiária Ross Thomas recebe a título póstumo, em 2002, The Gumshoe Lifetime Achievement Award pelo conjunto da sua obra. A.D.G. (1947‐2004) – Alain Fournier nasce em Tours. Jornalista e escritor policiário assina as suas obras com as iniciais do seu pseudónimo, Alain Dreux Gallou. Cria um estilo próprio, muitas vezes rotulado de neo‐polar. A sua escrita é recheada de gíria, trocadilhos e neologismos e os personagens das suas histórias são verdadeiros anti heróis livres truculentos. O seu primeiro romance é La Divine Surprise (1971) e seguem‐se mais de vinte livros na mesma linha. CONTO QUARTO COM SOL Vasco Fortes Acordar de manhã. Raios de sol atravessam as finas cortinas e incidiram sobre o soalho dando um novo tom ao quarto. Uma volta na cama. O desejo de estar uns momentos mergulhado no sono comprometia o acordar. Estava em sonhos. Não deviam ser maus pois queria manter‐se 66 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO mais um pouco. Com um gemido a consciência aos poucos tornava posse do seu corpo. As pernas mexeram‐se, algo incomodadas com a longa estada na mesma posição. Agora, eram os olhos que saíam da penumbra característica dos sonhos. Notou a luz que lhe chegou através das pálpebras numa tonalidade vermelha de sangue. Calmamente caiu na realidade do tempo. Gradualmente tomou consciência. E, apesar dos olhos fechados percebeu estar num sítio estranho. De facto os seus acordares não eram assim. Como toda a família, dormia no interior da pequena e velha casa entalada entre prédios altos mais modernos, mas mesmo assim já antigos. Apenas a janela da sala iluminava de luz natural o espaço da casa. O seu quarto não era excepção. Também ele estava completamente imerso na escuridão, mesmo ao meio‐dia. O cheiro confirmava que estava fora do seu abrigo de todas as noites. Sim, cheirava a cera fresca, pelo menos do dia anterior, o que lhe causava um certo incómodo, irritando‐lhe as mucosas nasais. “Atchim!!” O espirro obrigou‐o a sentar‐se na cama e a abrir os olhos. Apesar de o compartimento ser de pequenas dimensões, reparou que eram maiores do que as do seu quarto. Olhou em volta ainda empecilhado com a irrigação excessiva dos seus olhos provocada pelo espirro e pelo rompante de luz que entrava em fios pelo meio do quarto. “Atchim!!” Novo espirro impediu‐o de olhar mais atentamente. Fungou com força para tentar evitar novo ataque. Mais calmo, e em melhores condições pôde olhar em volta. Era um quarto simples, de pessoa que vive só. Pelo menos assim dava a entender a estreiteza da cama onde dormira. Esta coberta com uma colcha de seda natural branca, localizava‐se geometricamente no meio do quarto. De um lado, e a meio ficava a janela alta e com bandeira. Enquanto olhava em volta coçava‐se, reflectindo no sono profundo que tinha passado. Como de costume não lembrava o que tinha sonhado. Apenas traços muito gerais e esbatidos davam‐lhe a certeza de ler sonhado. Não importava; importava, isso sim, saber como tinha vindo ali parar, naquele quarto estranho. Absorto, coçava as costas. Estava em roupa interior. O cabelo completamente despenteado, tomava jeitos e trejeitos a fazer madeixas de cabelo fino a sair em várias direcções, o que lhe dava um aspecto esgrouviado. “Ahhhhh!” Bocejou. Um esgar exagerado da sua boca acompanhava o ruído que fazia. Quando terminou, coçou a cabeça com força. Deixou‐se cair de novo sobre a cama, ainda em pensamentos confusos, tentando descobrir como teria vindo ali parar. Fechou os olhos para concentrar‐se melhor. Mas apesar de tentar resistir acabou por adormecer de novo, caindo nos pensamentos que 67 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO lhe turvavam a consciência. Acordou de novo, mas agora perturbado pela escuridão familiar que o envolvia. Estava de novo no seu quarto, e num salto brusco retomou as faculdades sobressaltadas pela lembrança do ocorrido havia pouco. Era de facto o seu quarto, e mais uma vez ficou intrigado pela circunstância. Abriu as gavetas da memória, e, ainda embriagado de sono, veio‐lhe à cabeça uma frase – Quarto com Sol. Fora com este desejo que adormecera na noite anterior, o que seria acordar num quarto completamente novo banhado pelo Sol… 68 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 20 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Rosemary Harris (1923) – Rosemary Jeanne Harris nasce em Londres. Frequenta o Courtauld Institute of Art e durante a 2ª Guerra Mundial faz parte da Red Cross. Trabalha nos estúdios de cinema da Metro‐Goldwyn‐Mayer e entre 1970 e 1973 orienta para o jornal londrino The Times uma secção sobre livros infantis. É uma autora premiada pelos seus livros destinados a crianças. Escreve também romances policiários com uma manifesta preferência para temas como o terrorismo e o totalitarismo futurista. Destacam‐se os romances de suspense All My Enemies (1967), The Nice Girl's Story (1968) e The Double Snare (1975). Esta autora não deve ser confundida com a escritora policiarista do mesmo nome, Rosemary Harris, mas de nacionalidade norte‐americana e nascida em 1962. Andrew Bergman (1945) – Nasce em Queens, New York, EUA. É produtor, realizador de cinema, guionista e escritor. Publica 4 romances policiários. Na série Jack LeVine: The Big Kiss‐Off of 1944 (1974), Hollywood and Levine (1975) e Tender Is Levine (2001); escreve ainda Sleepless Nights (1994). Em Portugal foram editados dois destes livros: 1 – Levine em Hollywood (1979), nº 3 da Colecção Série Negra, da editora A Regra do Jogo 69 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 2 – Verão Quente de 1944 (1980), nº 6 da Colecção Série Negra, da editora A Regra do Jogo FICÇÃO CIENTÍFICA – BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (2) Na sequência da apresentação do 1º volume da Biblioteca verifica‐se que alguns escritores excluídos merecem uma lembrança, como Júlio Verne, poeta da tecnologia e do imaginário técnico‐científico. Ficam igualmente de fora, mas registados para a história Le Vingtième Siècle de Albert Robida (1848‐1926) e Edward Bellamy (1850‐1898) com Looking Backward: 2000‐1887 publicado em 1887, uma utópica viagem no tempo de 2000 a 1887. Para incluir na Biblioteca Essencial temos: Volume 2 – The Time Machine (1895) de W G. Wells Volume 3 – The War of The Worlds (1898) de W G. Wells H. G. Wells (1866‐1946) é uma figura importante da ficção científica e a sua obra tem uma vigência de interesse duradouro. The Time Machine introduz o conceito de viagem no tempo por meios mecânicos, constituindo uma excelente divagação sob o tema da exploração temporal. Nela, um sábio do século IXX fabrica uma máquina graças à qual se desloca ao futuro onde descobre que a raça humana, após múltiplas mutações, se circunscreve a duas únicas raças inimigas: os pacíficos Elois e as bestas antropófagas Morlocks. O volume 3, The War of The Worlds, é mais uma inovação que no futuro será uma das grandes estrelas da Ficção Científica: a invasão da terra por extraterrestres. Obra de um realismo convincente desenvolve e põe à prova os factores psicológicos e morais da humanidade ao enfrentar criaturas diabólicas irredutíveis, originárias do planeta Marte e dispostas a arrasar o mundo graças às armas altamente sofisticadas, as gigantescas tripodes mecânicas desintegradoras. Nem a força nem a inteligência dos humanos consegue vencer a força invasora. Inteligente, sim é a solução do autor: um inesperado aliado salva a raça humana do extermínio total. 70 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Ficha Técnica A Guerra dos Mundos Autor: H.G. Wells Ano da Edição: 2011 Editora: Ulisseia ColecçãO: Vício da Leitura ISBN: 9789725684535 Ficha Técnica A Máquina do Tempo Autor: H.G. Wells Ano da Edição: 2002 Editora: Europa‐América Páginas: 108 ISBN: 9789721050198 71 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 21 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Jean Sabran (1908‐1994) – Jean‐Marie‐Edmond Sabran nasce em Hyères, Provença‐
Alpes‐Costa Azul, França. É mais conhecido pelo pseudónimo Paul Berna, que usa nos famosos livros para jovens – adaptações de clássicos e originais, que publica em conjunto com o irmão. Utiliza os pseudónimos Bernard Deleuze e Paul Gerrard para o romance negro e Joël Audrenn para os policiários. Escreve mais meia centena de livros para adultos. Destacam‐se os preferidos do autor La Chasse au Dahu (1960), Le Mistigri (1961), La Tournée du Bourreau (1962), La Javanaise (1964), Ilse Est Morte (1967), Les Incandescentes (1973). Em 1959 recebe o Grand Prix de Littérature Policière pelo livro Deuil en Rouge. Em 1968, The Secret of the Missing Boat é nomeado para o Edgar Awward Best Juvenile Mystery. Uma história curiosa envolve este romance, com o título original L'Épave de la Bérénice: como o editor francês recusa a obra, o escritor apresenta‐
a directamente ao editor inglês, que a traduz e publica, uma vez nos Estados Unidos acaba por obter a nomeação e só depois é publicada em França. Em Portugal estão publicados: 1 – Uma Carabina para Dois (19??) Ps. Paul Gerrard, nº 17 Colecção Policial Esfinge, Empresa Nacional de Publicidade. Título Original: Une Carabine Pour Deux (1964) 2 – O Porche Amarelo (1970) Ps. Paul Gerrard, nº 23 Colecção Policial, Editorial Notícias. Título Original: La Porche Jaune (1967) 3 – A Dança da Meia‐noite (1979) Ps. Joël Audrenn, Europa‐América. Título Original: La Sardane de Minuit (1978) 72 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO CRMINALÍSTICA: MÉTODO PARA INTERROGATÓRIOS A prova testemunhal, desvalorizada em relação às técnicas, não deixa de ter valor, a determinar pelo juiz. É extremamente útil na fase investigatória, daí o cuidado com que é encarada. Se a vítima do delito se encontra viva, e sem prejuízo do se estado de saúde, é a primeira pessoa a ser inquirida e só depois as testemunhas presenciais ou relacionadas com o delito. Em muitas circunstâncias é possível encontrar testemunhas voluntárias, outras vezes isso nem sempre é realizável, o que obriga o investigador à árdua tarefa de as descobrir. No caso de existirem, a melhor forma de obter informações exactas é quando os acontecimentos ainda estão frescos na mente das testemunhas. Em geral os interrogatórios perdem eficiência com o tempo: falta de observação clara dos factos, distorção dos mesmos, exagero, produto da imaginação ou por meditação, troca de impressões com amigos ou inimigos da vítima, leituras de jornais etc. Outra razão para o interrogatório rápido, e com brevidade, ao acontecimento é o facto de que, psicologicamente, as testemunhas podem alterar os factos depois de pensar e reflectir, o que um investigador prático e hábil deve evitar para descobrir o que pretende, a verdade. Há três espécies de testemunhas: a) Os cooperantes, aqueles que de forma espontânea estão dispostas a fornecer todas as informações; b) Os indiferentes, que não só não estão dispostos a colaborar, como lhes é indiferente, nem lhes interessa a verdade do acontecimento; c) Os antagónicos, hostis, resistentes permanentemente a tudo e a todos. Claro que neste caso resta o recurso ao Ministério Público para obter declarações sob pena de desobediência judiciária. Os indiferentes e os antagónicos formam a classe única dos não cooperantes, a que 73 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO a psicologia judiciária justifica por: 1 – Antipatia ou repúdio pela polícia ou Justiça; 2 – Represália para com a vítima, amigos etc.; 3 – Experiências negativas anteriores pessoais ou de familiares ou amigos; 4 – Ser estrangeiro e considerar perigoso, ou receio de envolvimento judiciário; 5 – Ser iletrado ou de baixo nível social; 6 – Ser familiar ou ter ligações de amizade, ou comerciais, com os suspeitos. Em situações como as apontadas, o investigador com habilidade e precaução deve analisar a causa que originou a relutância em proporcionar informações, desvanecer com argumentos lógicos e reais os temores existentes e convencer a testemunha apelando para: – A sua própria dignidade e orgulho; – Deveres cívicos e sentimento de justiça; – Interesses futuros próprios e familiares; – Apelo sigiloso e prestígio patriótico. Na realidade são os procedimentos, contudo há que ter em atenção o depoimento feminino. As mulheres são muito mais observadoras, podendo com um simples olhar, recordar e descrever do vestir ao olhar e movimentos de uma pessoa, por outro lado são emocionais ao ponto de transformar um pequeno raio de hostilidade numa qualquer certeza irredutível. Em emoções e paixões nada as demove. 74 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 22 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Peter Cheyney (1896‐1951) – Reginald Evelyn Peter Southouse Cheyney nasce em Whitechapel, Londres. Troca o trabalho monótono de solicitador pelo mundo do espectáculo. Estreia‐se na escrita policiária em 1936 com escrita This Man Is Dangerous, dando início a uma carreira literária que só termina, com a sua morte, em 1951. É o primeiro escritor britânico de romance policial negro. Publica uma extensa obra com destaque para as short stories e para 34 romances de diferentes séries com os personagens: Slim Callaghan , Lemmy Caution, Michael Kells, Everard Peter Quayle e Johnny Vallon que geralmente retrata o submundo de violência norte‐americano; 33 romances com a série Alonzo McTavish onde grupos criminosos competem entre si. Peter Cheyney também escreve sob o pseudónimo Lyn Southney. Alguns livros do autor estão traduzidos em Portugal a maioria na Colecção Vampiro de Bolso da Livros do Brasil. Edward D. Hoch (1930‐2008) – Edward Dentinger Hoch nasce em Rocherter, New York, EUA. Autor extraordinariamente prolífico publica cerca de mil contos policiários/mistério/ficção científica. Cria as séries Nick Velvet (a mais famosa), Captain Jules Leopold (com mais de cem contos), Dr. Sam Hawthorne (mistérios de quarto 75 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO fechado), Jeffery ou Jeffrey Rand (espionagem), Simon Arc (detective investigador do sobrenatural), Sebastian Blue e Laura Charme (crime internacional) e ainda as séries Al Darlan, Alexander Swift, Barney Hamet, Ben Snow, Michael Vlado, Sir Gideon Parrot, Susan Holt e Stanton & Ives. Edward D. Hoch utiliza diversos pseudónimos: Anthony Circus, Irwin Booth, Pat McMahon, Mr. X, R.E. Porter, R.L. Stevens e Stephen Dentinger. Este autor é presidente dos 1982 Mystery Writers of América em 1968 e um dos mais premiados de sempre. Em 1968 recebe o Edgar Allan Poe Award para Best Short Story com The Oblong Room. Em 1998 e em 2001 é galardoado com Anthony Award respectivamente por One Bag of Coconuts e por The Problem of the Potting Shed; em 2000 recebe o Lifetime Achievement Award, em 2001 o Grand Master dos Mystery Writers of America e o Lifetime Achievement Award e em 2008 Readers Choice Award com o conto The Theft of the Ostracized Ostrich. BREVE HISTÓRIA DA LITERATURA POLICIÁRIA – 2 No Ocidente era o pão, no Oriente o arroz. Conta‐se: O corpo do irmão de um grande potentado, um príncipe da Índia, foi encontrado no Jardim do Palácio, com um punhal cravado nas costas. As suas jóias, avaliadas numa enorme fortuna tinham desaparecido… Diversos suspeitos foram presos, as suas casas revistadas. Objectos de menor valor foram encontrados na residência de um daqueles que, interrogado, declarou nada saber a respeito da morte nem como os objectos haviam ido parar na sua humilde casa. Submeteram‐no a um interrogatório muito rigoroso, procurando forçá‐lo a dizer como se tinha desfeito do resto das jóias, mas não conseguiram nada. Ele apenas abanava a cabeça negativamente. Em companhia de outros suspeitos foi submetido a urna prova interessante e clássica: encher a boca de arroz a cada suspeito e ordenar que mastigassem. Após o exame, foram todos postos em liberdade. Dias depois o principal suspeito, foi encontrado morto, perto de casa, com um punhal cravado nas costas, como o príncipe. Investigando‐se o caso, descobriram‐se manchas de sangue pelo caminho que ia dar à casa do jardineiro. Preso este, confessou ter morto aquele indivíduo porque o surpreendera em visita à sua esposa, enquanto ele trabalhava. Interrogado, entretanto, sobre a morte do príncipe negou que fosse o seu autor. Consequentemente ordenaram‐lhe que mastigasse arroz com a boca cheia. Não o conseguiu e ao cuspi‐lo, verificou‐se que os grãos de arroz estavam tão secos como antes. Vendo‐se perdido ante esta prova, confessou finalmente ser o autor da morte do 76 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO príncipe, admitindo que colocara as jóias na casa do rival para inculpá‐lo, confessando também onde enterrara o resto das jóias. Enquanto as provas, usadas para descobrir quando os criminosos mentem, são consideradas, neste país as mais modernas possíveis; a Índia usa o arroz há centenas de anos, talvez milhares de anos, com sucesso. Uma espécie do moderno “detector de mentiras”; nuns casos o pão ou o arroz impedem a salivação do culpado, na outra – o método actual – são os impulsos sanguíneos que denunciam o culpado. A fogueira e o enterramento nas encruzilhadas, das pessoas julgadas possuídas pelo diabo tais como os que atentavam contra a própria vida, faziam parte da vida quotidiana da época. O curandeiro ou curandeira, que viviam à parte das outras pessoas em cabanas ou grutas dos arredores das populações, servindo‐se de ervas, sementes silvestres para as poções curativas, capazes de prever o mau ou o bom futuro das pessoas, mercê de, uma pré‐psicologia apurada, eram temidos e ao mesmo tempo respeitadas pelo povo ignorante. A tradição traz‐nos, desta vez por intermédio de uma lenda do folclore inglês, a história de uma curandeira com todas as qualidades natas de um moderno detective, capaz de observar, reunir os pormenores mais insignificantes, expurgar os inadequados e tirar conclusões pertinentes. A velha riu, um cacarejo sem alegria e tornou: – Tu brigaste com ela por minha causa. Ela rompeu o noivado, pobrezinha, porque viu a maldade da tua alma. Não é verdade que a atiraste ali para dentro do lago quando ela não quis fazer as pazes? Não é verdade que a empurraste para dentro até ela não se mexer? – Sua malvada, feiticeira desdentada é essa a sua vingança? A velha tocou o corpo com a estaca enquanto falava: – A sua mão nua fala por si. Dilacerada, riscada, como eu cortei as minhas mãos neste mesmo ramo. Ela tentou agarrar‐se desesperadamente ao galho cheio de espinhos, conto eu fiz… ela foi empurrada! E o punho fechado, Metcalfe, sabes o que contem? Não reparaste que ela te devolvia o anel no momento, em que a empurravas. Abre o punho fechado onde está o anel. Para o que o tiraria ela da mão esquerda se não fosse para to devolver? Confessa, confessa Metcalfe… Ela própria abriu o punho fechado da moça, onde estava o anel. O homem procurou fugir, mas a multidão caiu sobre ele. 77 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 23 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES M. S. Craig (1923‐1991) – Mary Francis Shura (Young) Craig nasce em Pratt, Kansas, EUA. É uma autora de livros infantis e de romances para jovens e adultos. Utiliza diferentes pseudónimos, M. S. Craig para os romances policiários. Publica na área do romance de suspense To Lay The Fox (1982), Gillian's Chain (1983), The Third Blonde (1985), Flash Point (1987). Em 1990 é eleita presidente dos Mystery Writers of America. John Sandford (1944) – John Roswell Camp nasce em Cedar Rapids, Iowa, EUA. Jornalista, autor de bestsellers, recebe o Prémio Pulitzer do jornalismo em 1986. Rules of Prey, o seu primeiro romance policiário, é editado em 1989; é protagonizado pelo detective Lucas Davenport, numa série com mais de 20 livros e que ainda se continua a publicar. MISTÉRIOS DA HISTÓRIA – A MORTE DO HERDEIRO DO FARAÓ A catedrática Sue Black, chefe de anatomia e antropologia forense da Universidade de Dundee, na Escócia, foi convidada para examinar um fragmento de crânio e face do 78 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO rosto mumificado, ostentando um nariz rotundo que o identifica como realeza faraónico e por tal, guardado no Museu do Egipto do Cairo entre outras múmias destroçadas. Examinando o fragmento, a famosa catedrática, depois de séries de pesquisas e exames, verificou que se tratava de um varão de entre trinta a quarenta anos e que o nariz mumificado tinha uma depressão do lado esquerdo devido, sem a menor dúvida, a um forte golpe capaz de lhe ter provocado por acidente ou crime. Atendendo à época, recorreu‐se ao testemunho bíblico, dado que aquele nariz pertencera a Ramsés II (1303?‐1213? a.C.) o faraó que inspirara o êxodo com seu filho, já que ambos haviam conhecido Moisés, sofreram as dez pragas do Egipto e era o seu exército que perseguira os filhos de Israel. Nas tábuas ou nos hieróglifos não se registavam qualquer acidente. Sem registos os estudiosos, que nem sequer põem em dúvida o êxodo e o fracasso do exército faraónico, voltam‐se para os egiptólogos que escavavam o solo do Vale dos Reis. Aí encontram uma tumba meio destruída onde recolhem o que dizem ser o 1º, 2º, 6º e 9º filho de Ramsés, o Grande, e que foram retirados. Soe Black, com toda a sua autoridade e conhecimentos mantém que a fractura encontrada originou a morte, por ter haver atingido um vaso sanguíneo, tem a forma de uma pedra, uma arma letal usada nas batalhas na antiguidade. A morte, assim, seria normal para um homem da sua idade e líder do exército d sereso seu pai, tratar‐se‐ia de Amun‐her‐khepeshef, o primogénito do Faraó. O êxodo envolveu dois milhões de seres, de entre os filhos de Israel, enquanto os homens do exército não chegariam aos 20 000, bem armados mas inúteis em terreno quase sempre adverso. Nada mais fácil do que passar despercebido o matador, mas não a morte, já que o corpo foi para o Museu do Cairo. Ontem como hoje, razões políticas abafam os contratempos cujo conhecimento prejudica a governação. O CRIME NA LITERATURA NÃO POLICIÁRIA – TRAIÇÃO Extracto de Jornadas de Portugal de Antero de Figueiredo O sr. Francisco, velho alquilador, dono e condutor da traquitana a espedaçar‐se nas suas ferragens desconjuntadas, vai‐me contando casos e coisas das terras que atravessamos. A sua cara sem barba, modelada pelas sombras da face seca e pelos vincos fundos aos lados da boca, na testa e em volta dos olhos negros que dominam, com expressão fiel, toda esta rudeza – lembra a dos «homens do Infante», no painel de Nuno Gonçalves. Por deferência, conversa comigo em língua grave (português), mas com a rara gentinha triste que vamos topando por estes rudes caminhos, troca dizeres em ter‐mos 79 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO charros (mirandês) de espanholado falar. – Como vai aqueilha que sabes? – Marie? – Si. – Não me hables delha! – Porquê? – Es una ambrulheira, una cotchina, una… – Que me cuntas?! Nesta altura o tal Menul (um moço de lavoura tosco e espadaúdo), fita os olhos de brasa nos olhos mansos do Francisco e, por entre dentes cerrados esfuzia uma palavra baixa e insolente, a espumar ódio e sangue, contra a traidora, levantando os braços hirtos de cólera e enviesando o olhar inviperado na direcção de uma aldeia parda, ao longe, faz, com as mãos crispadas, um gesto convulso de ameaça tremenda. Súbito, corta, duro, para o monte, em passadas agrestes. Vai furibundo: leva na alma o cio de um toiro e o ciúme arreganhado e noctívago de um felino montês. O cocheiro ainda lhe gritou do alto da boleia: – Manul, anda cá! – Adius! – Que tengas juizio!… E para mim: – A cabra da rapaza!… Pregou‐lha!…É rês ao monte!… – Mata‐a? – O mais certo. Nestes sítios, as mortes são só por vinho ou por mulheres. 80 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 24 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Grant Allen (1848‐1899) – Grant Allen nasce em Alwington, Kingston, Ontário, Canadá. Naturista, físico, antropologista, jornalista e escritor, tem uma vasta obra no campo da ciência, da sociologia e também dá um contributo importante para a ficção científica e policiária. É considerado um inovador ao criar o Coronel Clay, personagem principal de uma série de contos An African Millionaire publicados no Strand Magazine e mais tarde adaptadas à rádio. Escreve ainda duas séries de contos protagonizadas por mulheres detectives – das primeiras a surgir na literatura –, Miss Cayley's Adventures e Hilda Wade, esta última uma enfermeira que alia a detecção aos conhecimentos médicos. August Derleth (1909‐1971) – August William Derleth nasce em Sauk City, Wisconsin, EUA; escritor com uma vastíssima obra – 100 contos e 150 livros – em diferentes áreas é também famoso pelo seu trabalho como antologista e editor. Começa a escrever com 13 anos de idade e mais tarde dedica‐se à escrita de contos góticos e de terror. Em 1939 funda com Donald Wandrei a editora Arkham House cujo objectivo inicial é a publicação da obra de H.P Lovecraft. Como autor de literatura policiária, Derleth cria o detective londrino Solar Pons, protagonista de uma dezena de romances. Cria ainda as 81 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO séries Judge Peck e Sac Prairie com duas dezenas de livros. Usa os pseudónimos Michael West, Stephen Grendon e Tally Mason. A British Fantasy Society instituiu em 1971 um prémio com o nome deste escritor, o August Derleth Award, que distingue o melhor romance do ano no campo da fantasia, ficção científica e horror. Ralph McInerny (1929‐2010) – Nasce Ralph Matthew McInerny nasce em Minneapolis, Minnesota, EUA. Filósofo e professor durante 40 anos na University of Notre Dame (EUA). Inicia‐se na escrita policiária em 1977 com Her Death of Cold, o primeiro da série Father Dowling Mysteries, que atinge os 30 títulos e é adaptada a televisão. Escreve ainda, sob o pseudónimo Monica Quill, a série Sister Mary Teresa, uma freira que soluciona crimes (10 livros); na série Andrew Bloom o protagonista é em advogado (6 livros); a série Notre Dame romances de mistério passados na Universidade de Notre Dame com os personagens Roger e Philip Knight; (13 livros); Egidio Manfredi um detective do Ohio à beira da reforma (2 livros). McInerny utiliza os seguintes pseudónimos: Edward Mackin, Ernan Mackey, Harry Austin, Matthew FitzRalph e o já referido Monica Quill. ESPIONAGEM – AGENTES SECRETOS (1) Nem se nasce agente secreto, nem o é quem quer. Têm formação em escolas próprias, onde poucos entram e de onde só sai um número reduzido dos poucos admitidos. A selecção exige uma capacidade física excepcional, inteligência, espírito patriótico, conhecimento perfeito de línguas, etc. O treino físico proporciona endurecimento e resistência, as diferentes técnicas de combate são estudadas até ao mínimo detalhe. Ninguém desconfia de um homem se trouxer consigo um simples jornal, um isqueiro ou um molho de chaves no bolso, todavia o agente secreto sabe com 82 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO facilidade como transformar tais objectos em armas. Uma arma de fogo apontada a curta distância raramente é perigosa quando se está preparado para o desarme ou em 90% dos casos, partir o braço que a empunha. Disparam armas de fogo de todos os calibres e tipos. E preciso ter sangue frio também para manipular misturas explosivas. Nas escolas de espionagem há médicos que vigiam constantemente a alimentação e o repouso dos alunos para os manter em forma, engenheiros especializados numa série de cursos que visam ensinar principalmente a demolição de tudo, de pontes, de edifícios, dos veículos terrestres aos aéreos, que também é preciso conhecer e conduzir. Aprendem a fotografar com perícia e a usar os meios de comunicação, a transmitir e descodificar mensagens criptografadas, ainda que existam presentemente máquinas poderosas, verdadeiros cérebros electrónicos para transmitir ou decifrar mensagens em segundos. FICHA CRIMINAL – O BAÚ DA MULHER TIGRE Meter um cadáver num baú, inteiro ou esquartejado, é inconcebível, conhecido o espaço reduzido e a decomposição rápida do corpo. Fazer‐se acompanhar do baú, é simplesmente assombroso! Todavia, Winnie Ruth Judd acompanhou os baús contendo as suas vítimas durante uma longa viagem pela América do Norte. Na noite de 16 de Outubro de 1931, num apartamento da capital do Arizona, uma reunião amigável com Agnes Anne LeRoi e Hedvig Samuelson degenerou em violência física e Winnie matou a tiro as duas mulheres. A 18 do mesmo mês tomou o comboio em direcção a oeste, acompanhada de Carl Harris. Quando chegaram ao destino previsto e foram reclamar os baús, saia deles um cheiro pestilento e o empregado exigiu as chaves para que abrissem os baús, julgando tratar‐se de contrabando de carne de veado. Sob o pretexto de irem buscar as chaves, desapareceram. Mais tarde, presa “a mulher tigre” como foi apelidada, foi julgada e sentenciada à morte. Dez dias antes da execução o tribunal conclui que a senhora não estava no seu juízo e foi internada no hospital estadual. Saiu em liberdade 40 anos depois… em 1971. 83 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 25 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES S.B. Hough (1918‐1990) – Stanley Bennett Hough nasce em Preston, Lancashire, Inglaterra. Escritor de ficção científica sob o nome de Rex Gordon, usa também o pseudónimo Bennett Stanley. Publica 10 romances de mistério/detective. Cria o Inspector Brentford, personagem principal em Dear Daughter Dead (1965) e Sweet Sister Seduced (1968). John Wainwright (1921‐1995) – Nasce em Hunslet, East Yorkshire, Inglaterra. Em 1947 ingressa na polícia em Yorkshire e estuda advocacia ao mesmo tempo. Escreve o primeiro livro em 1956, mas só em 1966 se torna escritor a tempo inteiro. Até 1992 publica 80 livros, com o nome próprio ou sob o pseudónimo Jack Ripley. Cria várias séries: Lewis, Gilliant, Charles Ripley, Sullivan, Inspector Chefe Lennox, Inspector Lyle, Superintendente Robert Blayde e Superintendente Ralph Flensing. 84 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO ENIGMA POLICIÁRIO – INVESTIGAÇÃO EM CINZENTO Os criminologistas afirmam que é na juventude que se preparam os grandes criminosos. Segundo as estatísticas mais recentes, em cada 10.000 habitantes. 536 delitos de roubo, fraude, passagem de moeda falsa, etc., são praticados por crianças até aos 14 anos, números inigualáveis para quaisquer outras idades. Da consequente leitura do relatado, o correr das recordações trouxe‐me ao presente um remoto caso que envolvia duas crianças de dez e doze anos e o desaparecimento de um diamante. Estávamos num dia implicante. Chuva leve mas contínua escorrera todo o santo dia, até cerca das 17 horas. Tudo ficara peganhento, de ambiente opaco. Nesta situação, foi com um sentimento de desconforto que correspondi ao apelo do Sr. Vila‐Pouca, residente, à época, na Rua dos Lusíadas, ali para o Restelo. Desvaneceu‐se‐me, no entanto, aquele estado de espírito ao conhecer o drama daquele homem que, se se permite, bem poderia chamar‐se, com inteira propriedade, o Senhor Pouca Sorte. Na verdade, emigrante de tenra idade, por esse mundo comera o pão que o diabo amassou. Cansado, regressara à pátria, fazendo um casamento serôdio, aparentemente feliz, rematado com dois gémeos que viriam a revelar‐se atacados de afonia congénita, por deformação orgânica permanente. Acresce que, num passeio ao Alentejo, de onde era natural, um terrível desastre automobilístico deixou‐o viúvo, preso a uma cadeira de rodas, sobrecarregado com a educação dos filhos e sustento ‐ este mais consentido que imposto, diga‐se… do inconformado Rafael Lobo, o condutor do veículo daquele dia fatídico, a quem o desastre amputara ambos os braços um pouco acima dos cotovelos. Valeu‐lhe, na vicissitude, a destreza das suas mãos de hábil lapidário. O infortúnio parecia, contudo, ser uma constante. Que sucedera agora? Como invariavelmente, na prisão imprescindível da sua cadeira de rodas, o lapidador trabalhava um esplêndido diamante. Olhos cansados, adormeceu. Na obscuridade da tarde que findava, acordou sobressaltado. Como que pressentindo algo de desagradável, procurou instintivamente sobre a mesa o – diamante desaparecera! Ao seu grito, Rafael e Rosa acorreram. Buscas, explicações, nada resolveram. Embora existisse um seguro que cobria as “pedras” que lhe eram entregues, desorientado pedira a Rosa que me telefonasse, já que não desejava a presença da Polícia. Determinado, olhei o grupo na minha frente, todos vestidos de cinzento (cor preferida ou imposta?). No rosto de cada transparecia um sentimento diverso: desespero em Vila‐
Pouca, expectativa em Rafael, indiferença na pequena Maria Bonita, afilhada de Rosa, indignação nesta e, em oposição, os gémeos, caras inidentificáveis pintadas de guerreiros índios, a que não faltava a tradicional pena no cabelo, camisolas de indispensável cinzento médio, com o nome de cada um em letras cinzentas mais escuras nas costas, definiam apenas divertimento. Comecei por pedir a Rafael a sua versão dos 85 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO acontecimentos. Esclareceu‐me, enquanto com um gesto de cabeça me apontava as mangas da camisa vazias. – Bem vê, não tirei o diamante! Estava sentado à janela, vigiando os miúdos que brincavam aos índios no pátio das traseiras. O patrão adormecera e eu também dormitava. Vi o menino aproximar‐se do pai e tirar‐lhe a língua… Só quando se afastou, pelo nome, percebi que era o Marco. Fui atrás dele para lhe perguntar o que queria, mas não o alcancei. Deve ter sido ele por brincadeira, está sempre a pregar partidas… Rosa, muito alterada, alta e sólida, enrolava o avental nas mãos fortes, dizendo: – Os miúdos são uns diabos, isso são, mas não ladrões… Também não sei quem tirou aquilo. Não vi o menino entrar na sala; depois que a professora saiu, “às cinco”, foram os dois para o pátio. Por acaso fui acender a luz da cozinha – o interruptor fica ao pé da porta – e vi o Rafael dirigir‐se para a saída… ainda lhe perguntei se os gémeos estavam bem, mas nem me olhou; respondeu‐me com um resmungo surdo. A pequena afilhada foi encostar‐se à sua protectora, envergonhada. Confirmou as declarações de Rosa, afirmando que não tinham saído da cozinha. Restavam‐me os rapazes. É bem verdade que as crianças que procedem delituosamente apresentam congénita inclinação para o crime ou são, provavelmente, influenciadas pelo ambiente. Naturalmente que não seria o caso. Tratar‐se‐ia de brincadeira e agora receariam as consequências. Procurando fazer‐me entender, perguntei por escrito a cada, se tinha tirado a jóia ou estiveram na sala depois da saída da professora. Ambos acenaram veemente negativa e, trocando olhares, como se pensassem por um só cérebro, cruzaram os braços esfingicamente, fecharam‐se num mutismo feroz a todas as insistências da minha parte. Antes de me dirigir à sala do lapidário, contígua à que nos encontrávamos (segundo os ensinamentos de Locard, por ali devia ter começado), perguntei a todos se se importariam de ser revistados. Face à resposta negativa, que me pareceu franca, passei ao local do “crime”. À esquerda da entrada, uma janela larga; em frente, um pouco para a direita, a porta da cozinha; à direita, duas janelas, numa das quais estava encostada a mesa de lapidário, na outra a cadeira onde se sentara Rafael. Todas as janelas envidraçadas, com cortinas, estavam fechadas. Ao centro, sobre a mesinha, uma jarra de flores murchas, pétalas caídas, a contrastar ‐ o que não podia deixar de me surpreender suspeitosamente – com o asseio de toda a casa e o próprio soalho encerado impecavelmente, que percorri de joelhos em busca da jóia perdida… Saí, dei a volta pelo pequeno jardim frente à casa, passei para o pátio das traseiras, de terra barrenta encharcada. Num pequeno círculo de relva ao centro, uma tenda tipo índio, na qual entrei procurando entre a amálgama existente algo que se parecesse com um diamante. Marto veio ter comigo e, zangado, empurrou‐me dali. Voltando ao convívio dos outros, pensava a todo o vapor, seguro à teoria de Claude Bernard: “a marcha do espírito não pode avançar, senão pondo uma ideia adiante da outra”. Quem? Como? Talvez sabendo “Como”, saberia “Quem”. Comecei a expor conclusões. Marco e Marto 86 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO trocaram um olhar – mais uma vez a sensação de uma cabeça a pensar pelos dois – e esgueiraram‐se para a saída. Ainda fiz um gesto para os deter mas, reconsiderando, continuei com a explanação. Subitamente, voltaram. Marco, puxando‐me pelo casaco, presenteou‐me com um pé de erva‐bezerra que trazia atrás das costas. Ambos sorriam abertamente. Embatuquei. Diacho dos miúdos, estariam eles a gozar‐me? Estariam a dizer‐me algo? Ora bolas… A que propósito vinha a oferta? Teria esta relação com as flores murchas da jarra, que tanto me impressionara? Resolvi o caso. A solução verdadeira viera‐me, afinal, em bandeja de prata… Sabe bem ao advogado, melhor diria, consultor criminólogo, porquanto raramente chegava ao Tribunal, divagar hoje no reino da saudade. O problema apresentado pertence à categoria enigma que consiste em inserir no conteúdo do trabalho indícios de forma metafórica ou ambígua cuja interpretação contribui ou é a solução. São infinitos os artifícios que se podem empregar. Desde a colocação de um objecto, de determinada forma, a uma letra, uma carta, livro, deixados pela vítima para indicar o autor da sua situação. Uma palavra dita para ser ouvida, ou frase, descrição, cujo efeito depende do produtor e a solução do raciocínio e interpretação do solucionista. É um enigma de um enigma. Preste atenção aos pormenores e pondere na solução, que apresentaremos proximamente. 87 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 26 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Jack Ritchie (1922‐1983) – John George Reitci nasce em Milwaukee, Wisconsin, EUA. Alista‐se no exército americano na 2ª Guerra Mundial e é colocado nas ilhas Kwajalein no Pacífico Central. É aqui que descobre a ficção policiária. Regressa a casa no final da guerra e como não quer dedicar‐se à profissão de alfaiate como o pai, decide viver da escrita de contos. Vê o seu primeiro trabalho Always The Season, publicado em 1953 no New York Daily News. Nas três décadas seguintes contribui com centenas de short stories para revistas especializadas em ficção: Alfred Hitchock's Mystery Magazine, Ellery Queen's Mystery Magazine e Manhunt. Com várias adaptações ao grande e ao pequeno ecrã, os contos de Jack Richie abarcam uma diversidade de géneros: mistério, suspense, thriller, quarto fechado, vampiros, etc. São escritos com o mínimo de palavras, mas os personagens são bem caracterizados como Henry Turnbuckle, um detective idiossincrático ou o vampiro, detective particular, chamado Cardula, anagrama de Dracula. Jack Ritchie recebe um Edgar Award para best short story em 1982 com The Absence of Emily. O seu único romance Tiger Island é publicado postumamente em 1987. 88 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO Gabrielle Lord (1946) – Gabrielle Craig Lord nasce em Sydney, Austrália. Especialista em literatura vitoriana, é considerada a rainha do crime no seu país. Começa a escrever aos 30 anos, em especial na área do chamado thriller psicológico cria as séries Gemma Lincoln, Jack McCain e Conspiracy 365. Esta última é destinada à juventude e desdobra‐se em 13 volumes, 12 com o nome de cada um dos meses do ano e um último com o título Revenge (2011). A editora Contraponto tem vindo a publicar esta série da escritora. Em 2002 Gabrielle Lord recebe um Ned Kelly Award para a Best Crime Novel, prémio atribuído pela Crime Writers Association of Australia e em 2003 é distinguida com o Davitt Award, a melhor escritora de crime australiana, por Baby Did a Bad Bad Thing. Elizabeth George (1949) – Susan Elizabeth George nasce em Warren, Ohio, EUA. É uma autora de romances policiários, enquadrados na categoria de suspense psicológico. O seu primeiro livro A Great Deliverance (1988) recebe o e é triplamente premiado: com o Anthony Award, e com o Agatha Award para Best First Novel nos EUA e com o Grand Prix de Littérature Policière em França. O livro Well‐Schooled in Murder (1990) é galardoado com o prestigioso prémio alemão MIMI 1990. Cria o Inspector Thomas Lynley da Scotland Yard e a Sargento Detective Barbara Havers. A BBC adaptou à televisão a série The Inspector Lynley Mysteries. Elizabeth George é uma escritora reconhecida internacionalmente e as suas obras têm sido também publicadas em Portugal. LITERATURA POLICIÁRIA – TESTEMUNHO COMO VI O ROMANCE POLICIÁRIO Assinado por J. Sousa, que pertenceu ou pertencia à PJ este texto chegou até nós através do saudoso colega Inspector Saldanha, entre os documentos com vista a um Manual Policial, jamais concluído. Ao abraçar a carreira policial, intuitivamente, devorei alguns romances ou novelas policiais, convencido de que, na vida real, as ciências criminais, as técnicas e tácticas de 89 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO investigação ali explanadas seriam um manancial de conhecimentos quase infalíveis ou, pelo menos, um frutuoso contributo na investigação criminal. A breve trecho, porém, veio o desencanto, a desilusão! Com efeito, na minha então débil inteligência crítica e instintiva, como diria Fernando Pessoa, entendi que o romance policial me apontava falhas, já que o enredo não correspondia sequer a uma especulação da realidade. Também é certo que, então, nem sempre cuidei na escolha e, daí, que os romances a que tive acesso, normalmente os mais económicos, me parecessem despidos de interesse, quer no tocante à sua estrutura: espaço, tempo, personagens e acção; tudo uma série de actos previamente estudados onde o crime e a investigação se confundiam com o acidente ocasional; quer mesmo quanto à parte específica da literatura que, para mim, muito deixava a desejar, resultando quase todos eles em história folhetinesca ou vulgar literatura de cordel. Por outro lado, ainda na minha óptica de então, o “investigador particular”, o “detective” – o herói de história – partia para a decifração dos enigmas com uma tal visão superadora, mesmo irreverente para com as instituições, que deixava o pobre polícia da lei amesquinhado e boquiaberto: de um mero indício arranjava prova irrefutável; as testemunhas surgiam abundantes e espontâneas; as portas abriam‐se para as mais incríveis diligências; e, finalmente, o suspeito era de imediato identificado e localizado. Dadas as conclusões evidentes, logo este se confessava culpado. Enfim um happy end. Dessa maneira, como já se referiu, nasceu a desmotivação e as horas de lazer foram orientadas noutros sentidos. De realçar, todavia, que de tudo quanto se leu, depois de sedimentado ou até esquecido, algo permaneceu no subconsciente que, em tempo oportuno, frutificou não só do ponto de vista cultural como também no campo profissional. E tanto assim é que, mais tarde, quando a prole adrede me ofereceu, em festas de ano, alguns romances policiais, houve como que uma “refontalizacão”, um voltar à fonte, ao princípio, mas, desta vez, foi à luz de um espírito mais amadurecido que se fez a sua leitura. Então, sim, os romances policiais seduziram‐me como a outros milhões de leitores. Em face do exposto, esta singular introdução que compilei, aliás pouco lisonjeira ou quiçá incoerente, não pretende, como é óbvio, minimizar o romance ou a novela policial, mas, pelo contrário, estimular a sua leitura, alertando contudo os novéis leitores para as falhas e reacções apontadas, tendo em conta que tais romances fomentam o mito policial e favorecem a confusão entre o imaginário e o real, bem como ainda será uma chamada de atenção para o que já alguém referiu: “a novela policial impõe‐se, desde que se cuide de dois factores; por um lado, da determinação da inteligência do investigador; por outro, da determinação psicológica do criminoso”. 90 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 27 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Joseph Hone (1937) – Nasce em Londres a 25 ou 27 de Fevereiro. É educado em Dublin. Trabalha como produtor na BBC e nas Nações Unidas, assistente de direcção de John Ford, professor no Egipto e editor. Actualmente é professor em Oxfordshire em Inglaterra. No policiário escreve romances de mistério e espionagem. É o criador do espião britânico Peter Marlow, herói dos seguintes livros: The Private Sector (1971), The Sixth Directorate (1975), The Flowers of the Forest (1980) publicado nos EUA com o título The Oxford Gambit e The Valley of The Fox (1982). FICÇÃO CIENTÍFICA BIBLIOTECA ESSENCIAL DE FICÇÃO CIENTÍFICA E FANTASIA (3) Volume 4 – We ou MbI (1920) de Evgueni Zamiatine Yevgeny Ivanovich Zamyatin (1884‐1937) engenheiro russo, um dos primeiros dissidentes sovietes. We, publicada originalmente em inglês, apresenta‐se como uma arma política 91 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO contra Lenine, contra os regimes ditatoriais ou totalitários, sob a forma de novela. Tem por cenário um futuro Estado Unido Mundial, no século XXVI, em que as pessoas são números. A felicidade matemática se não aceite é imposta; liberdade não é felicidade! Supressão cirúrgica da fantasia e do desejo; o impulso sexual vencido pela Lex Sexualis – são questões postas. Benefactor, que também é engenheiro construtor, autoridade única, fabrica uma nave planeando incorporar as plantas na sociedade. Volume 5 – R.U.R. (Rossum's Universal Robots) (1920) de Karel Čapek Karel Čapek (1893‐1938), jornalista de nacionalidade checa, escreveu cerca de cinquenta livros nos domínios do teatro e da novela, além dos que vão ser destacados: RUR, ou Robots Universais, é uma obra teatral. Graças a esta obra que escreveu em colaboração com o seu irmão Josef, se deve nada menos que o uso universal do termo robot, para designar as criaturas mecânicas, inspirando‐se num antigo vocábulo que significa trabalho pesado: rabota, e que se havia de fixar mundialmente. Os robots de Capek têm um aspecto tão humano que a maioria dos autores de hoje classifica de androides. Em RUR, os robots não só se parecem com os humanos, como haviam de comportar‐se como eles, invadindo‐os uma tal ânsia de poder que terminam por dominar o mundo. Ficha Técnica Nós Autor: Evgueni Zamiatine Tradução: Manuel João Gomes Ano da Edição: 2004 Editora: Antígona Páginas: 287 ISBN: 9726080320 92 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 28 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Ben Hecht (1893‐1964) – Nasce em Nova Iorque. Romancista, argumentista, produtor e director de cinema é conhecido como o the Shakespeare of Hollywood. Na literatura policiária distingue‐se a escrita para cinema dos thrillers The Unholy Night (1929) e Notorious (1946), produzido e realizado por Alfred Hitchcock. Ben Hecth é ainda o guionista do clássico Scarface (1932). CRIMINALÍSTICA A identificação pelas impressões digitais foi um passo de gigante naquela área. O problema que se mantém até hoje, é que embora as investigações possam obter material biológico do principal delinquente, se este não constar das bases de dados dos bancos de identificação, os teste não servem para nada. Impõe‐se uma aceleração positiva. Mais recentemente, ao partir‐se do princípio de que cada pessoa possui um padrão repetitivo de sequência das bases de ADN nos cromossomas, desenvolveu‐se uma técnica de análise intitulada Short Tandem Repeat (STR), seguido de um Simple Nucleotide Polymorphism (SNP). Esta técnica tem grande futuro, pois permite criar uma espécie de 93 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO retrato robô em traços gerais a enquadrar num determinado grupo. O perfil SNP proporciona a alternativa ao sugerir uma série de características do possuidor de ADN, como a cor de cabelos, dos olhos ou a idade. As margens de certeza vão de 82% par a cor da pele e de 9 anos para a idade, o que por vezes é necessário e suficiente. A identificação ocular permite a leitura dos vasos sanguíneos da retina dos olhos, que é exclusivo de cada pessoa. Casualmente – assim nascem muitas descobertas – um mecânico que aperfeiçoava um instrumento a pedido de um oftalmologista, reparou na série de desenhos dos vasos sanguíneos de vários pacientes, constatando surpreendido que todos eles eram iguais na mesma pessoa. Uma investigação em larga escala confirmou o exposto. A vantagem sobre as impressões digitais, é que são tão seguras como estas e de verificação mais rápida. É muito provável que num futuro próximo a substituição das impressões digitais ela identificação ocular seja aplicada em larga escala. SEGREDOS DA LITERATURA – MORIARTY NAPOLEÃO DO CRIME A vida ficcionada de Sherlock Holmes tem sido explorada e dissecada desde a sua idealização, nascimento e acção. E para lá destes atribuindo‐se‐lhe novos episódios detectivescos. Ainda que em plano secundário, outros personagens que com ele privavam ou contactavam na vida ou na luta, são periodicamente abrangidos. Tal como Sherlock Holmes teria sido formado na figura e métodos do Professor Bell, o maior inimigo do notável detective, o Professor Moriarty, teria resultado de Worth. Na realidade Adam Worth, que durante 30 anos foi o mestre do crime, o génio do mal em que se inspirou Arthur Conan Doyle para personalizar o terrível e infame adversário do génio Holmes. 94 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 29 DE FEVEREIRO EFEMÉRIDES Heimo Lampi (1920‐1998) – Nasce em Hollola, Finlândia. Advogado e colunista de jornais está incluído no grupo de escritores de crime escandinavos. O destaque na sua obra vai para Death Stalks Meteora , no título original Kuolema Kulkee Meteoralla, escrito em 1981. OS GRANDES TEMAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA – ROBÔS Desde os tempos em que a bruma da história é intensa, impenetrável, por vezes transformada em mera lenda, a criação de seres metálicos ou mecânicos ocupa uma parcela da fascinação humana. Um passeio pelo túnel do espaço literário permite conhecer os homens mecânicos de As Mil e Uma Noites, as raparigas de ouro do deus grego Hefaísto, os jogadores de xadrez do Barão de Kempelen ou Maelzel, etc. etc. Em R.U.R., iniciais correspondentes a Rossum's Universal Robots, peça teatral de 1920, do autor checo Karel Čapek, (1890‐1938), nasce o termo robot, derivado de robota (trabalho) aplicado aos seres artificiais criados pelo industrial Rossum para substituir os 95 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO homens no trabalho. A partir de então, o termo usa‐se, na generalidade, para designar criaturas metálicas, quase sempre hominídeas, perigosas umas — sempre prontas da dominar a humanidade em seu proveito — pacíficas outras, por vezes sujeitas a maus tratos e agressões da incompreensão humana, a menos que apresentem programação menos segura. Breve resenha que se pretendia esboçar do robô através da história da ficção científica apresentar‐se‐ia como um tratado, tal o volume de diversificação da temática. Opta‐se por exemplificarão sabor da preferência. Os robôs de Rossum estão impregnados daquilo a que se convencionou designar por sindroma de Frankenstein, isto é, a constância da revolta da criatura contra o seu criador. Advirta‐se, por outro lado que, muito embora se tivesse recolhido e propagado o termo robô através daquela narração, no actual nível da literatura de ficção científica tais figuras seriam classificadas de andróides dada a sua natureza orgânica produzida por meios sintéticos. A palavra robô será aplicada exclusivamente a seres mecânicos construídos de matérias inorgânicas, metal em regra, e dotados de cérebros electrónicos que lhes permitiria a movimentação. Os robôs de Rossum vestem‐se como ao pessoas, blusas de pano cru, apertadas por correias e ostentando placas de cobre com um numero. Caras sem expressão, olhar fixo, os seus movimentos e a maneira de falaz tem qualquer coisa de seco, de hirto. Podem fazer o mesmo trabalho que o homem, mas por menor custo: os robôs Rossum podem ser adquiridos por 150 dólares cada. Harry Domin, director geral das fábricas, comenta: o velho Rossum queria destronar Deus. Era um materialista terrível. O que ele queria era fornecer a prova de que não precisamos de Nosso Senhor, metendo‐se‐lhe na cabeça fazer um homem exactamente igual a nós diante do seu tubo de ensaio e sonhando que dali sairia uma árvore da vida, inteirinha. Uma salmoura coloidal que nem um rafeiro seria capaz de tragar, e que poderia ter obtido, por exemplo, uma medusa com cérebro de Sócrates ou então uma minhoca com cinquenta metros de comprimento. Isto é o que diz o velho Rossum, mas foi o jovem Rossum quem teve a ideia de fazer máquinas de trabalho vivas e inteligentes. Uma máquina de trabalho não precisa de sentir alegria, nem tocar violino, nem fazer uma porção de coisas no género… e fabricar operários artificiais é a mesma coisa que fabricar motores a petróleo… os robôs não são homens; do ponto de vista mecânico. São mais perfeitos do que nós, possuem uma inteligência admirável, mas não têm alma… Mas de tempos a tempos os robôs que não têm amor a nada, nem a eles próprios, têm um ataque de raiva. Chama‐se‐lhes convulsões, acredita‐se num defeito do organismo e era necessário metê‐los na prensa. De trabalhadores passaram a soldados. Primeiro nos campos de batalha…, depois a insurreição em Madrid contra o governo… 96 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO A primeira organização da raça robô formou‐se no Havre. Nós, primeira organização da raça de Rossum's Universal Robot, declaramos o homem inimigo e proscrito do universo. O homem já não nasce, mas vida não perecerá. A tradição explica a querela: urna nova imagem da rebelião de Lúcifer contra o seu criador, e que dominou a Ficção Científica primitiva. Foi preciso esperar até 1938, para que o robô monstruoso, vilão, desse lugar a um tipo bem mais simpático, Adam Link, de Eando Binder (ps. dos irmãos Earl Andrew Binder (1904‐1965), e Otto Oscar Binder (1911‐1974), que protagoniza uma série de aventuras verdadeiramente agradáveis. A confirmação dessa nova imagem deve‐se, porém, ao famoso Isaac Asimov. Em 1939 escreveu Robbie um robô‐ama‐seca, que ficará famoso, cuja cabeça era um pequeno paralelepípedo de arestas e cantos arredondados lidados a um paralelepípedo maior, que servia de tronco por meio de uma baste curta e flexível, brilhantes olhos vermelhos, pele metálica mantida a uma temperatura de vinte e um graus pelas bobines interiores de alta resistência. Pernas e braços de aço cromado, braços capazes de vergar uma barra de aço de cinco centímetros de espessura até lhe dar a forma de um biscoito, mas capazes também de enlaçar suave e amorosamente uma menina de oito anos. Uma máquina sem voz, sim, mas uma máquina cheia de amor. A Asimov se devem os robôs positrónicos, nova técnica que substitui cérebro electrónico então existente. Ao mesmo se devem as três Leis da Robótica, que baniu a terrível síndroma de Frankenstein: 97 CALEIDOSCÓPIO POLICIÁRIO 1 – Um robô não pode causar dano a um ser humano nem, por inacção, permitir que qualquer homem sofra danos; 2 – Um robô deve cumprir as ordens que lhe forem dadas pelos seres humanos, excepto em casos que essas ordens colidam com a Primeira Lei; 3 – Um robô deve proteger a própria existência desde que essa protecção não colida com a Primeira ou com a Segunda Lei. Máquinas perfeitas, sem dúvida. Em L‐do‐it? , um interessante conto de Clifford Simak, encontramos o modelo suficiente perfeito para pôr em causa o termo máquina. Demonstraremos a Vossa Senhoria – disse Lee – que os robôs são algo mais que simples máquinas. Nós estamos dispostos a apresentar provas de que em tudo, salvo no metabolismo, o robô e uma cópia do homem e que inclusivamente t o metabolismo e até certo ponto, análogo ao metabolismo do homem. E o Tribunal pronunciou as suas decisões: Os robôs possuem capacidade de livre escolha… Os robôs possuem capacidade de pensar… Os robôs podem reproduzir‐se… 98 

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