varal 16 - Varal do brasil

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varal 16 - Varal do brasil
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Literário, sem frescuras!
© Tschuwawah - Fotolia.com
ISSN 16641664-5243
Ano 3 - Julho/Agosto 2012—
2012—Edição no. 16
www.varaldobrasil.com
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
www.varaldobrasil.com
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
®
LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, verão de 2012
No. 16
bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddd
ddddddddddddddddddddmnhee$pam&ngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbb
bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmm
mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddd
ddddddddddddddddddmnhee$pam&ngnrihssssssssssssssssssnerrrrrrrrrrrrrrekkkkkkkkkkkkkkkkkkkkbbbbb
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mmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
hhhhhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
kkkkkkkkkkkkkkkkkrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrffffffffffffffmanajudyebeneogguaenejuebehaddddddddddd
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hhuyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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bbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbbmmmmmmmmmmm
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huyuyuytuyhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhjkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL
NO. 16 - Genebra - CH
Copyright Vários Autores
O Varal do Brasil é promovido, organizado e realizado por Jacqueline Aisenman
Site do VARAL: www.varaldobrasil.com
Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com
Textos: Vários Autores
Colunas:
Clara Machado
Daniel Ciarlini
Fabiane Ribeiro
Sarah Venturim Lasso
Sheila Kuno
Ilustrações: Vários Autores
Em setembro a revista
Foto capa: ©-Tschuwawah---Fotolia.com
VARAL DO BRASIL vem com o tema
Foto contracapa: Paulo Aisenman
Muitas imagens encontramos na internet sem ter
o nome do autor citado. Se for uma foto ou um
desenho seu, envie um e-mail para nós e teremos o maior prazer em divulgar o seu talento.
NOSSA INFÂNCIA
Participe! Peça o formulário pelo email: [email protected]
Revisão parcial de cada autor
Revisão geral VARAL DO BRASIL
Composição e diagramação:
Jacqueline Aisenman
A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A
revista está gratuitamente para download em
seus sites e blogs.
Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL
NO. 17 envie seus textos até 10 de agosto de
2012 para: [email protected]
O tema da edição no. 17 será: Nossa Infância
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Inscrições até 10 de agosto!
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Chegou o verão no hemisfério norte! Depois de longos meses de frio - podemos mesmo falar de
um dos piores invernos dos últimos vinte anos - eis que o calor do verão aquece enfim corpos e
corações.
Este ano foi um ano especial para o Varal: muitos números de nossa revista que está cada vez
conquistando um espaço maior e, de quebra, chegando ao coração de leitores ao redor do mundo que estão sempre mais participativos. Uma alegria para todos nós!
Também lançamos nossa segunda coletânea, Varal Antológico 2, em três cidades que nos receberam de coração aberto e com muita festa regada à música, poesia e bons papos literários.
Fomos a Salvador dia 25 de maio, a Belo Horizonte no dia 31 de maio e a Brumadinho no dia
primeiro de junho. Contamos para estes significativos eventos que fizeram o Varal se estender
na Bahia e em Minas Gerais, com o apoio de muita gente! Vamos agradecer aqui os que coordenaram diretamente, mas não esquecemos que os envolvidos foram muitos!
Norália de Mello Castro e a Prefeitura da cidade de Brumadinho , Secretaria da Cultura e Casa
de Cultura Carmita Passos; Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus em Salvador, assim como as proprietárias gentilíssimas do Beco da Rosália;. E, finalmente, mas nunca por último, Clevane Pessoa de Araújo Lopes e Marcos Llobus em Belo Horizonte. Com estes últimos levamos
também nosso agradecimento ao pessoal encantador do Restaurante Dona Preta, aos poetas
participantes do Conversa ao Pé do Fogão e do Sarau da Lagoa do Nado. Estiveram conosco
nos três encontros, diversos coautores do livro, os quais enriqueceram, com suas vivências e
presença, cada um dos eventos acima relacionados! Neste número trazemos para você algumas
fotos para compartilhar nossa alegria!
Com o sucesso da segunda coletânea, abrimos as inscrições para a seleção prévia para o Varal
Antológico no. 3 e que será lançado no ano que vem no Brasil.
Fazemos questão de agradecer a todos os autores participantes deste número e de todos as
edições já publicadas pelo Varal. Vocês são a alma que faz do Varal do Brasil uma revista viva,
alegre, realmente literária sem frescuras!
Entramos em férias no período julho/agosto e desejamos a todos, onde estiverem, o que de melhor possa haver na vida! Nos encontraremos em setembro (inscrições abertas até dez de agosto) com a edição no. 17 falando sobre Nossa Infância!
Sua Equipe do Varal
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
1.
AILTON SALES
34.
JOSE CAMBINDA DALA
2.
ALMA LUSITANA
35.
JOSE CARLOS DE PAIVA BRUNO
3.
ANA MARIA ROSA
36.
JOSÉ HILTON ROSA
4.
ANA ROSENROT
37.
JUAN BARRETO
5.
ANDRE L. A. SOARES
38.
KARINE ALVES RIBEIRO
6.
ANDRÉ VALÉRIO SALES
39.
LARIEL FROTA
7.
ANTÔNIO FIDÉLIS
40.
LÉNIA AGUIAR
8.
ANTONIO VENDRAMINI NETO
41.
LENIVAL NUNES DE ANDRADE
9.
CARLOS BRUNNO S. BARBOSA
42.
LINA MACIEIRA
10.
CARLOS CONRADO
43.
LUCIA AEBERHARDT
11.
CLARA MACHADO
44.
LUNNA FRANK
12.
DANIEL CIARLINI
45.
MAGNO OLIVEIRA
13.
DANIEL CRAVO SILVEIRA
46.
MARCOS TORRES
14.
DANILO A. DE ATHAYDE FRAGA
47.
MARIA DALVA LEITE
15.
DHIOGO JOSÉ CAETANO
48.
MARIA LUIZA FALCÃO
16.
DOMINGOS A. R. NUVOLARI
49.
MARIA LUIZA FRONTEIRA
17.
ELISE SCHIFFER
50.
MARIO REZENDE
18.
ELISEU RAMOS DOS SANTOS
51.
NINA DE LIMA
19.
ESTRELA RADIANTE
52.
RAFIKI ZEN
20.
FABIANE RIBEIRO
53.
REGINA COSTA
21.
FELIPE CATTAPAN
54.
ROBERTO ARMORIZZI
22.
FERNANDA DE FIGUEIREDO FERRAZ
55.
ROZELENE FURTADO DE LIMA
23.
FRANCISCO FERREIRA
56.
RUTE MIRANDA
24.
FRANCY WAGNER
57.
SANDRA NASCIMENTO
25.
GIORDANA BONIFÁCIO
58.
SANDRA BERG
26.
GLADYS GIMÉNEZ
59.
SARAH VENTURIM LASSO
27.
GUACIRA MACIEL
60.
SHEILA KUNO
28.
HELENA KUNO
61.
VARENKA DE FÁTIMA
29.
HELENA BARBAGELATA
62.
VIVIANE SCHILLER BALAU
30.
HILDA FLORES
63.
WILLIAN LANDO CZEIKOSKI
31.
ISABEL C. S. VARGAS
64.
WILSON CARITTA
32.
IVANE PEROTTI
65.
WILSON DE OLIVEIRA JASA
33.
JOANA ROLIM
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Abundancia
Por Ailton Sales
Família sempre unida
Mesa farta e agasalho
Dinheiro na dose certa
Fruto do próprio trabalho
Muita paz muita harmonia
Muito amor e tolerância
Essa é a vida prometida
Por Jesus... Em abundancia.
Família desagregada
Muito luxo e ostentação
Dinheiro em demasia
Sempre fácil sempre à mão
Sem paz sem tranquilidade
Em constante vigilância
Essa é a vida oferecida
Pelo Homem... Na abundancia.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Déjà-vu
Por Ana Maria Rosa
Ia passando por uma rua próxima, quando sentiu o desejo irresistível de rever aquela casa. Parou o carro e deixou que suas pernas a levassem à rua das mangueiras. Era melhor voltar – uma mulher de trinta anos parecendo uma adolescente – iria apenas passar como quem
não quer nada, só para dar uma olhada. De longe, avistou a casa amarela. Parou tentando recuperar a respiração. Ainda havia tempo de voltar. Seu corpo impulsionou-se até o número 25.
Quedou-se observando: a fachada imponente, a porta entalhada, o muro de pedra, o jardim de
rosas, a grade alta... Em que momento tudo se acabara? Antes, entrava sem se anunciar,
agora não podia sequer tocar a campainha. Precisava desistir. Dobrou a esquina e viu o portãozinho do quintal, aberto. Olhou para os lados e entrou.
Experimentou o trinco da porta da cozinha. Arrodeou a casa, viu uma janela aberta. Volte, Marina, volte... Escutou o silêncio da casa, o coração aos pulos. Estava louca. Uma mulher
casada com um deputado, mãe de dois filhos – escondida – espreitando o interior de uma casa! Assomou a cabeça à janela e viu a sala de jantar parada no tempo: a mesa grande, as cadeiras de veludo verde, os quadros, o lustre. Apenas as cortinas eram novas – cor de vinho.
Mulherzinha de mau gosto! Fechou os olhos, calculou a altura da janela – como da primeira
vez que dormira com ele – agarrou-se ao parapeito e pulou.
Ouviu o chuveiro e a voz dele vinda de longe – Quem é?
Entrou no quarto, escondeu-se atrás da cortina, ficou a espiá-lo – belo e viril – enxugando
o cabelo. Ouviu a ordem – Marina, saia daí!
Marina fundiu-se ao corpo nu. Sentiu uma mistura de prazer, felicidade e dor, tudo misturado. Teve medo de estar sonhando novamente. Desejou morrer: não queria acordar em sua
casa, na cama ao lado do marido.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Escolhas *
Ana Rosenrot
De um canto escuro e apertado, vejo a chuva que cai pesada, gelando as almas e
anunciando a proximidade do inverno, para angústia dos que nada tem.
Observo as pessoas que passam apressadas, coloridos guarda-chuvas tremulam como
bandeiras, todos correm em busca de seus destinos, não me enxergam, minha caixa de esmolas está molhada e vazia.
Mas a vida é assim mesmo, uns se abrigam em luxuosos carros importados, outros em
cantos escuros e úmidos, a sorte não sorri para todos, como um dia sorriu pra mim.
Minha vida vai correndo como a enxurrada, cheia de sujeira e abandono, o medo crescendo conforme a água da enchente sobe, me sinto tão só, ninguém olha em minha direção,
sou a imagem dos seus temores mais íntimos, acham que nunca estarão no meu lugar e pensar que um dia também pensei assim.
A chuva se arrasta por horas, sinto meus ossos doerem devido ao excesso de umidade,
meu corpo parece estar apodrecendo junto com os jornais que me servem de cobertor e como
o papel, minha alma se dissolve, misturando-se com a lama da rua.
Pouco tempo atrás, parece que já faz um século, minha vida era outra, eu tinha dinheiro
e posição, mas fiz escolhas erradas, me envolvi com as piores pessoas e destruí as conquistas de toda uma vida, devido a ganância e a ambição.
Agora estou aqui, vivendo os segundos, colhendo os restos do mundo, tão inoportuno e
dispensável quanto o entulho que se acumula.
O sol volta a brilhar e as pessoas retomam sua rotina e de repente, alguém que conheço de outra vida me atira uma moeda, o faz como se jogasse uma pedra em um rio, pouco se
importando onde irá cair, pelo menos, com a moeda, ela acha que aliviou a possível parcela
de culpa que sente sobre minha triste situação, mas a culpa somente existe em quem se julga
culpado e essa culpa é toda minha.
Hoje eu sou filho do mundo, flagelo da humanidade, não me diga que sente pena de
mim, pois todos querem me ver longe de suas vistas, até mesmo você, com sua beleza comprada, mas eu estou melhor agora, pois me sinto vivo, real, faço parte de suas ruas e praças,
sempre estarei ao seu lado, lembrando ao mundo que a miséria existe.
A vejo se afastar, passos rápidos, tensos, quem estou enganando, preciso alcançá-la,
olhar em seus olhos outra vez, me levanto, sigo em sua direção, ela entra no carro, alguém a
espera, perco a coragem de me aproximar, ela pertence a outro mundo e nele eu não existo
mais.
Volto a me esconder da vida naquele canto escuro, talvez um dia, eu tome coragem e
faça com que meu grito seja ouvido, até mesmo por você, talvez.
*Conto premiado com Menção Honrosa no III Concurso de Poesias, Contos e Crônicas de Jacareí
“Troféu Jacaré” 2011.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
ALICE
Por André L. Soares
Alice, embebida de pureza,
há poucas horas, chegara ao planeta,
ainda estava imune à maldade,
quando as notícias velozes
rasgaram-lhe as têmporas.
Lágrimas verdes vertendo das retinas,
pontas de dor aguda a lhe fisgar o peito,
grito de clave de sol, preso à garganta,
ela então, vê a santa desnuda
sob a luz fria do cotidiano,...
momento em que o belo pintou-se de breu
(sabor amargo de inocência trincada).
Cansada, recolhe-se ao quarto,
a proteger-se dos cristais e plasmas.
Após sangrar lembranças, cerra pálpebras,
chora e soluça outra vez, sozinha.
Por fim, Alice adormeceu!
Em seus sonhos ainda existem flores,
a água e a verdade parecem cristalinas
e até o coração do homem é bom.
Acanhado, procurei algo
que a fizesse sentir-se melhor
quando acordasse;
tentei criar um ‘origami’, mas já era tarde...
eu só tinha em mãos, a realidade.
.
Foto de André L. Soares
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
TEMPO DE REFLETIR
Por Lenival de Andrade
Amigos humanos terráqueos
Vejam bem
E prestem muita atenção também
Pois estamos vivendo
Num tempo muito difícil
Para todos nós
E é muito bom
Parar para pensar
Pensar e refletir
A DEUS perdão pedir
De joelhos e perante ele
Ser Supremo, Soberano e Maior
Sobre tudo e todos
Além de todo o mar, céu e infinito
Pensem e meditem
Antes de tudo o que vai fazer e falar
Não precisa complicar
Sem precisar medir
Pois sempre é tempo
Tempo de refletir
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Deus grego
beijava.
7 Anos passados, em uma manhã de segundafeira, em meu escritório recebo um telefonema
Por Lúcia Brüllhardt
informando que minha amiga ( a da pulseira )
tinha sido assassinada com 19 facadas e o rosto tinha sido completamente destruído por áciEstou em Atenas, exatamente em um antigo
do.
cemitério, parada de frente a um túmulo branco Novamente aquela explosão de luzes como um
coberto por lindas lápis-lazúlis. A beleza era
raio em minha mente e como cenas de filme
tamanha, que fascinada com o brilho das pepassa o sonho, o deus grego, a pulseira, a tradras me abaixo para pegá-las.
vessia no riacho..... em meio a turbulência de
De repente surge a minha frente um deslumimagens, a voz que me revela : Seria você.
brante “deus grego” LINDO!
Tentei acordar do pesadelo; ERA REALIDADE,
Pele branca, olhos cor de mel, cabelos doura- eu não estava dormindo, passado o choque e
dos e um corpo desenhado pelas mãos de
recuperadas minhas forças emocionais, que
Zeus. Ele veste um minivestido de seda branca devido ao ocorrido me abalaram profundamencom um cinto dourado e sandálias de couro
te, continuei minha rotina diária...
amarradas nas pernas, musculosas e depilaQuando em uma bela tarde de verão europeu,
das. Tinha uma postura elegante e os braços
cruzados na altura do peito. Em cada braço na decido caminhar na beira do lago. Aquela tarde
altura dos músculos uma pulseira em ouro ma- de domingo era muito especial, o dia estava
realmente lindíssimo, céu azulado, a brisa leve
ciço.
Levanto minha cabeça e olho para ele que me que balançava meus longos cabelos negros,
um cheiro de alegria, felicidade misturada com
fala :
satisfação parava no ar. Eu estava muito feliz e
- Atenção! Não toque nestas pedras.
ACORDEI! (tudo não tinha passado de um so- eufórica, uma dose dupla de felicidade batia em
meu peito. Não entendia porque estava tão fenho).
Alguns anos após este sonho, viajava de férias liz.
para Grécia uma amiga e na volta me traz de
Ao chegar no lago, decido subir até uma clareipresente uma pulseira de pedras “ lápisra, onde poderia observar todo o movimento de
lazúlis.”.
pessoas e contemplar os contrastes de cores
Em minha mente uma explosão de luzes como céu, mar, árvores e montanhas. Um local ideal
um raio, me traz a tona o “deus grego” me avi- para deitar e desfrutar a natureza.
sando para não tocar nas pedras. Muito assustada, mas contendo minhas emoções agrade- Jogo minha toalha na grama verde, sento e coloco meus óculos de sol. Tiro minha roupa bem
ço, pego a pulseira guardo em minha bolsa...
devagar, ficando somente de biquíni, sentido
Na ida para minha casa teria que passar por
uma ponte com um riacho de forte correnteza. assim, o toque dos raios de sol em meu corpo e
No meio da ponte ouço uma voz que me acon- o vento leve acariciando minha pele. Naquele
exato momento sinto que olhos me observam.
selha :
- Joga a pulseira fora, pois a mesma está pre- Ainda sentada, giro minha cabeça para à direita, vejo um jovem de uns 27 anos, loiro, pele
parada para te destruir a partir do momento
branca, cabelos dourados. O mesmo também
que colocares no braço. (Assustada, e quase
sentado, óculos de sol, somente de calção de
sem folego, não hesitei. Obedeci)
banho preto bem justo ao corpo, olhava exataA vida continuou no ritmo normal.
mente em minha direção.
Vez por outra recebia a visita da amiga que me
Tentei disfarçar, mais ele me observava com
perguntava :
grande intensidade. Não era discreto, olhava e
- A pulseira que te dei, você não vai usar? Já
vim aqui diversas vezes e não te vejo com ela ? olhava MESMO.
Com um grande aperto no coração e um frio
Perdendo a paciência me levanto, vou em sua
que me percorria toda a espinha dorsal eu res- direção, paro em frente a ele que permanece
pondia : Aquela linda e maravilhosa pulseira só sentado, eu em pé com as mãos na cintura,
uso em ocasião especial. Foi o melhor presente quase gritando pergunto :
que você me deu. Obrigada. Abraçava ela e
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Era ele. ERA ELE, em carne e osso, ali na minha frente, naquele castelo, era real... Me enEle muito calmo, sereno e com uma grande
gasgo, perco o folego, tremo. Uma sensação
classe, tira os óculos de sol e coloca na cabede felicidade, medo e curiosidade percorre todo
ça, olha bem em meus olhos, sorri e me resmeu ser. Controlando o vendaval de emoções,
ponde :
respiro e falo compassadamente :
- Eu estou olhando para você.
- Tenho a impressão de que já te conheço há
Eu meia desconcertada, totalmente sem saber vários anos.
O meu deus grego me responde :
o que responder falei :
A partir de hoje eis que tudo se transforma. Vim
- Vamos entrar na água? E saio correndo e me aqui na terra para te levar a uma outra dimenjogo nas águas geladas do lago de Bienne.
são, viver contigo um amor intenso e te entreApós o mergulho olho para trás pensando que gar o segredo dos nossos antepassados.
ELE tinha me acompanhado.
Londres, Paris, Veneza, Barcelona, Maurício,
Mas ELE continuava sentado sorrindo e olhan- Pretoria, Tailândia e Brasil. Atravessamos os
sete mares. De trem, navio e avião, cruzamos
do em minha direção.
de leste a oeste e de norte a sul.
Completamente irritada saio da água quase ro- Loucuras deliciosas vividas plenamente, como
xa e tremendo de frio, volto a onde ele perma- dois apaixonados, vivemos durante 15 anos.
necia e grito :
Durante este período ele foi meu mestre, amante, amigo e colaborador. Até o dia em que o
- O que você está fazendo sentado aí? Eu te
destino através da morte nos separou. Hoje enconvidei para nadar!
contro me aqui sozinha NA FRIA NOITE DE
Agora com um sorrido mais largo , ele se levanINVERNO.
ta coloca uma toalha em meus ombros e me
Fico pensando e sonhando em todas as belas
fala:
coisas que vivemos e vencemos juntos.
_ Eu tentei te avisar que é começo de verão
Infelizmente você não esta mais aqui e me sinaqui na Suíça... à água esta CONGELADA, in- to abandonada. Como companheira a solidão.
felizmente você não me deu atenção e saiu
Nos encontramos em uma tarde de verão, lemcorrendo em direção ao lago. Gostei muito de
bras? Que lindo este dia junto a ti.
ver sua demonstração de coragem.
Você foi para mim um presente dos céus. NaCoragem que nada, aquele homem tinha me
quela tarde quando você olha em meus olhos vi
deixado completamente desnorteada, a ponto
que um amor belo e invencível nascera.
de me jogar nas aguas congeladas de um lago.
Lembro que desejei viver eternamente com voQuem era ele? De onde vinha?O que fazia
cê, onde juntos poderíamos transportar montaaqui ? Eu tinha que descobrir isso urgente.
nhas. Lembro de seu sorriso e nos dias de doSem perder tempo , convidei o estranho para
mingo que juntos corríamos e brincávamos cojantarmos juntos. Ele aceitou.
mo duas crianças. Você não lembra? Para mim
Ao anoitecer , espero meu estranho, que até
foi ontem ,você sempre foi o homem que deseentão eu não sabia seu nome nem onde mora- jei para mim. Eu e vocês, dois! Ouço nossa
va ( tinha esquecido de perguntar). Exatamente canção, sinto suas mãos que tocam em
na hora marcada e no local acertado , ele che- mim...Ilusão. Você não está aqui . Você tornouga.
se distante. Velho amigo, desejo seu ombro paAgora muito mais lindo, que a tarde. Entro em ra apoiar minha face como antigamente. A dor
seu carro e vamos a um restaurante com espe- de sua ausência dilacera minha alma, meu peicialidade francesa. O restaurante funcionava
to e meu ser... O amor solitário fere e acaba
em um antigo castelo, e o lugar que restava,
com as forças que tenho. Volta em meus soera uma mesinha exatamente com dois lugares nhos. Explode em luzes no meu pensamento,
na torre.
te materializar para um último adeus. Desejo
Sentamos e fomos servidos com um coquetel
somente antes de morrer poder reviver os dias
de boas vindas. Brindamos, e no tilintar das ta- lindos que tivemos.. Sentir seu hálito perfumaças, a explosão de luzes em minha mente, trás do e quente entre meu corpo me fazendo trea imagem do deus grego, que conheci (em so- mer de prazer. Meu amado, como é bom relemnho) na cidade de Atenas.
brar os momentos que passei ao seu lado.
- O que você tanto olha?
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Volto a Atenas, tentando te encontrar, mais lá você não está. Talvez a beira do lago, ou no restaurante castelo, lá também você não está.
Eu não conseguirei viver sem você. Ouve minha dor, houve meu lamento.
Eu grito de paixão e desejo. Meu deus grego.
Não quero ir para outros braços, não quero sentir outros beijos. O sétimo céu quero ver somente
com você.
Como forma de amenizar a saudade , olho nossas fotos e os presentes que recebi de você, durante nossa caminhada aqui na terra. No meio de tantos, uma pequena caixinha vermelha em
forma de coração, me chama atenção. Curioso, nunca tinha a visto antes. Abro –a e, encontro
um papel no qual está escrito :
“ deus, mito, lenda, sonho ou alucinação “
Lágrimas quentes rolam dos meus olhos, que caem pesadas no chão e se transformarão em
lápis-lazúlis. .
Amazônia
Por Magno Oliveira
As aves não mais voam
Os peixes não mais nadam
Os pássaros não mais cantam
As pessoas não mais se amam.
Tudo isso por culpa do homem e a sua maldade
Tudo por culpa do homem e a sua falta de caridade.
As nossas matas desmatadas
As nossas florestas devastadas
Nossos animais em extinção
Nosso medo da poluição.
A Amazônia é nossa devemos protege lá
A Amazônia é nossa devemos ama lá.
Viva o verde, viva a Amazônia,
Viva os índios, viva a alegria.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O CLUBE DOS VIRA-LATAS é uma organização não governamental, sem fins lucra&vos, que mantém em seu abrigo hoje mais de 400 animais que são cuidados e alimentados diariamente. Boa parte desses animais chegou ao Clube após
atropelamentos, acidentes, maus tratos e abandono. Nosso
obje&vo é resgatá-los das ruas, tratá-los e conseguir um lar
responsável para que eles possam ter uma vida feliz.
doações. Todos podem ajudar, seja divulgando o
Clube, seja adotando um animal ou mesmo doando
dinheiro, ração ou medicamentos. Qualquer doaVocê sabia que no Brasil milhões de cães e gatos
vivem nas ruas, passando fome, frio e todos os &pos ção, de qualquer valor por menor que seja, é bemde necessidades? Cerca deles 70% acabam em abri- vinda. As contas do Clube bem como o desƟno de
gos e 90% nunca encontrarão um lar. Parte será ví&- todo o dinheiro estão abertas para quem quiser
ma ainda de atropelamentos, espancamentos e toBRADESCO (banco 237 para DOC)
dos os &po de maus tratos.
Infelizmente, não é possível solucionar este proble- Agência: 0557
ma da noite para o dia. A castração dos animais de CC: 73.760-7
rua é uma solução para diminuir as futuras popula- Titular: Clube dos Vira-Latas
ções mas não resolve o problema do agora. Sendo CNPJ: 05.299.525/0001-93 Ou
assim, algumas coisas que você pode fazer para ajudar um animal carente hoje:
Banco do Brasil (banco 001 para DOC)
Agência: 6857-8
Adotar um animal de maneira responsável
CC: 1624-1
Voluntariar-se em algum abrigo.
Titular: Clube dos Vira-Latas
Doar alimento (ração) e/ou remédios para abrigos. CNPJ: 05.299.525/0001-93
Por que ajudar os animais?
Contribuir financeiramente com ONGs.
(Saiba mais sobre o Clube em h$p://frfr.facebook.com/ClubeDosViraLatas?ref=ts)
Nunca abandonar seu animal
Como o Clube vive? Somente de doações. Todas as
nossas contas são públicas, assim como extratos
bancários e notas fiscais.
Como ajudar o Clube? Para manter esses mais de
400 peludos em nosso abrigo, contamos hoje apenas o trabalho dos voluntários e com o dinheiro de
www.varaldobrasil.com
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
AS TOURADAS DE SEVILHA
Por Antonio Vendramini Neto
Nos caminhos percorridos em terras espanholas,
visitei juntamente com a companheira, a esplendorosa cidade de Sevilha, em pleno verão europeu.
Trata-se de uma terra aguerrida, povo cheio de
vida, dando a impressão que estão sempre nervosos e apressados, mas não vimos nada de excepcional em sua metrópole que os levasse a ter esse
comportamento, pelo contrario, é um povo muito
acolhedor, talvez seja o espírito da raça.
É um povo festeiro, com uma cultura de danças
regionais como o Flamenco de mais antigamente
e os mais modernos com as Sevilhanas. Tem também a semana santa que é percorrida pelas ruas
finalizando na belíssima cadetral.
Destacam-se a “Feria de Abril”, de caráter folclórico, com milhares de pessoas vindas de toda a Espanha, e no recinto da festa as pessoas se reúnem para cantar e dançar. “Durante a semana”,
realizam-se uma serie de touradas, de fama nacional, na conhecida “Plaza de Toros, La Maestranza”, onde tivemos a oportunidade de visitar, mas
nos dias que se seguiram, não houve touradas,
ficamos então com o museu muito bem montado
em suas dependências.
A paixão que os eleva, são as touradas, que é
uma questão de cultura, que veio da mistura de
AS TOURADAS REGISTRADAS NO MUSEU
europeus e seus conquistadores, mais recentemente, os mouros que ficaram em seu território
por mais tempo, cerca de 700 anos, transformanO espetáculo em sua praça de touros é algo
do-se na “caliente” região de Andaluzia.
parecido a um ginásio esportivo. As pessoas
Além dela, visitamos as principais cidades como; sentam nas arquibancadas para assistirem e
Mérida, Córdoba e Granada, estão situadas a Su- em todas as “corridas” o “toro” é sacrificado.
deste da Península Ibérica é a capital da província
da Comunidade Autônoma, sendo a quarta cidade O matador o enfrenta com uma capa vermelha,
espanhola, com cerca de 700.000 mil habitantes. o qual é ajudado pelos seus assistentes, depois vêm os “picadores” que dão as suas estoO que mais nos impressionou, foram os acervos e cadas, enfraquecendo os seus músculos, inicia
as arquiteturas da época que estou descrevendo -se então a etapa com os gritos da platéia de
como sendo a dos Mouros. No ano 712 da nossa olé-olé, que “pegou” nos jogos de futebol aqui
era, o Califa Musa, acompanhado de seu filho e no Brasil, quando o time vencedor quer tamcom um exercito de 18.000 homens, cruzou o es- bém dar o seu espetáculo.
treito e procedeu a conquista, em busca de pastaO papel do toureiro é fazer um bonito show,
gens de abundancia de água.
deixando o touro cansado, tirando suspiros da
Ocupou as cidades de Medina, Carmona e Sevilha torcida. È uma pena a judiação que é feito com
e, seguidamente atacou Mérida que após sitiada a o animal. Mas nesse país é tradição e nunca
conquistou. A Cidade então passou também a ser vai acabar. Eu sempre torço pelo touro, porque
território Mouro. E foram eles que lhe deram o no- o bicho homem faz dele um palhaço dentro do
me atual, a portentosa Sevilha.
picadeiro e acabando com sua existência.
Nesta época a sua riqueza cultural cresceu enor- Enfim, depois de tantos passos, gritos de olé,
memente com a chegada dos árabes, em tanto, o matador se prepara para a estocada final.
que tinha dependência do Califado de Córdoba Com um movimento de espada escondida soconvertendo-se na mais importante de AL - Anda- bre a capa, faz com que o animal se aproxime,
luz. Os cristãos reconquistaram a cidade em 1248 enfiando em seu dorso, fazendo-o cair. É o fidurante o reinado de Fernando III de Castela. Foi nal.
também sede da exposição Ibera America em
1929 e da exposição mundial em 1992, onde inú- No museu, pudemos ver os cartazes das touradas de antigamente, destacando-se, o terrível
meras obras foram erigidas em seu louvor.
“Manuel Rodrigues”, conhecido nos meios coO clima é muito gostoso, com aquele tempero me- mo “El Manolete”, um dos maiores matadores
diterrâneo, com temperatura media anual de 19 que já existiu, morreu no dia da tourada marcagraus, o que a faz uma das mais quentes da Euro- da no cartaz (28\08\1947), foi ferido pelo touro
pa, dado a proximidade com o continente Africano, “Islero”, no meio da “Praça de Toros Linares”.
tornando-se o paraíso dos turistas, dobrando a
população. Em julho a temperatura sobe para até
35, superando no apogeu do verão em mais de 40
graus.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Sedex lírico: Carta a uma senhora poeta
Por Carlos Bruno S. Barbosa
Hoje a noite amanheceu mais fria e pálida em mim, senhora. Me disseste que não sabes escrever, jogaste fora um poema lindo sobre essa angústia que nos atinge e, com ele,
levaste à cova da insegurança vários versos que morreram antes de poderem crescer. Enquanto escrevo isso com os olhos caídos, em luto pelos poemas que não te aconteceram, ouço minha vizinha lá fora aconselhar uma amiga: “Tem que pensar pra cima e não pra baixo.”
Desconheço o assunto que a levou a tal reflexão, prefiro guardar apenas essa poesia que sua
voz, indelicadamente alta e decididamente vigorosa, me transmite sem querer.
Quando tornei-me professor e quis me dedicar a inspirar meus alunos a escreverem,
sempre trouxe comigo o sonho louco de Bukowski de imaginar que deveria haver um poeta
em cada esquina da vida e, assim, aprendi a ver poesia em quase tudo, pois quase tudo é
múltiplo, lírico e singular. A arte salvou minha vida; sem ela, confesso que me jogaria debaixo
de um carro, me atiraria no mar ou me tornaria uma pessoa apática, sem gosto pra nada, inutilizada pela própria inexistência. Sei que o ato de escrever não permite que salvemos o mundo, não impede que aviões se atirem sobre prédios inocentes, não traz a cura do câncer, não
tira a dor da perda de alguém; mas salva a invisível alma que agoniza, impede que pilotemos
tais aviões contra casas que amamos, controla a dor estagnada e mantém vivas aquelas pessoas que se perderam no caminho. E também sei o quão difícil é este caminho que escolhi:
às vezes, converso com paredes surdas; às vezes, me sinto ridículo; às vezes, estou muito
só... Mas e aquele verso que alguém ouviu e levou pra própria vida, como um urso de pelúcia
que, apesar da aparência inútil, conforta a criança que levamos pra cama quando nos ninamos em sonhos difíceis? E aquela febre de encontrar a palavra certa e a impressão de que a
Terra toda volta a se mover quando a encontramos? E esse brilho nos teus olhos, senhora,
outrora estrela, agora triste fagulha... por que pensas em exterminá-lo de vez? Por que perder
tudo isso, por que deixar de escrever?
A vida, na maioria das vezes, é inglória e rancorosa, senhora, e, talvez, por isso, não
nos deixe prazer em nossa arte; talvez, por isso, quando escrevemos, o ar parece rarefeito
pra tais ações. A vida, quase sempre, nos ignora, senhora, renega nossos talentos e faz-nos
esquecer dos diamantes que carregamos nas cavernas de nós mesmos. Me disseste que não
sabes escrever, como um planeta dourado que se julga inabitável pra qualquer habitante de
valor. Me desculpe os olhos tristes, senhora, mas o que dizes não condiz com teus versos
sublimes de lirismo incontestável, nem a vida que sempre carregaste nas palavras vivas de
calor e amor. A vida já apaga muitas luzes nos túneis da rotina; não deixes que a tua própria
insegurança desfaça a única chama independente que nos restou. Volta a escrever, senhora,
por favor...
(http://diariosdesolidao.blogspot.com/2011/09/sedex-lirico-carta-uma-senhora-poeta.html)
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O gozo
Por Carlos Conrado
A Terra banha-se despida
Sob o olhar de Deus.
O pudor horrorizado grita:
- Isto é um crime contra a decência!
Voluptuosa a Terra atiça
Os desejos secretos de quem a fez.
O olhar, vendo as curvas benditas
Atende ao convite do incesto,
Na pirâmide pubiana atira
O esperma onipotente.
Ergue-se no tempo um riso
Símbolo da satisfação
Deste orgasmo de Deus.
Pintura de Carlos Conrado
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Imagem TMK(Tom.CJ)
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SEDA BRANCA
Por Daniel Cravo Silveira
Plana no escuro dos céus, a Lua
Farol solitário de branca luz
Peregrina vestal nua
És meu tesouro e minha cruz.
Forasteiro das horas incertas
Nesta noturna visita,
A revelar-te das ruas desertas
O meu amor selenita.
Lua nova, lua tímida, fugidia
Teus sorrisos se calaram
Teu silêncio é uma lança
A cortar do coração toda a esperança.
Não temas este amar que te revelo
Não há culpa, nem pecado se o sinto
Não vês que és da vida, o meu elo
Da sanidade à terra, és meu cinto.
Dos céus a distância te protege
Meus lábios, meus abraços, não te alcançam
Seda branca, a reinar eterna no paraíso.
Jogo ao vento minhas rimas que se lançam
Ao espaço, a tua busca, por um sorriso!
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
ARMAND LESTAT
Por Lunna Frank
Foi naquela noite quente e chuvosa, quando Antonella, bebia uma taça de vinho tinto suave,
olhou pela janela do seu quarto, vendo o céu, a lua cheia estava enorme foi quando começou a
sentir uma sensação diferente uns calafrios ao mesmo tempo um calor enorme tremia como se
estivesse com uma febre muito alta.
Sentiu uma transformação uma vontade enorme de uivar percebeu-se forte dominadora, nesse
momento a chuva fina caia lá fora, quando desceu as escadas do sobrado acendeu as luzes da
sala de estar sentiu aquele vento frio, eram as janelas que estavam abertas, fechou as janelas e
as cortinas, quando resolveu tomar mais uma taça de vinho, avistou aquela sombra vinda em
sua direção, sentiu um medo enorme mais a sombra atraiu com um perfume forte envolvente.
Era aquele homem belo, forte e diferente, com os olhos fixos em Antonella, meio anestesiada
com o vinho e o perfume que exalava me tomou pelas mãos dei o ar da minha graça, nesse momento seu colar de pérolas negras arrebentou, sentiu uma grande concentração de energias e
prazeres, começou a uivar e pontapear nem sabia a quantas andava, percebeu então que ele a
tomava em seus braços beijou seu pescoço sua boca era gélida e quente ao mesmo tempo.
Um beijo profundo ardente misturando suas salivas foi festejando o momento sem dar conta, parecia que já conhecia aquele homem, se entregou sem reservas, com um simples movimento
mordeu e chupou seu pescoço, é um prazer indescritível como jamais sentiu em toda sua vida.
Fizeram amor e sentiu umas gotas de sangue em seus lábios, sentiu um arrepio muito forte, depois desfaleceu. Quando acordou estava nua na praia bem em frente da sua casa do seu lado
uma capa negra e duas taças de vinho personalizadas com um nome, apanhou a capa cobriu
seu corpo e foi correndo para casa.
Estava amanhecendo, tomou um banho quente, um café forte, quando se deparou com duas
marcas em seu pescoço eram marcas pequenas dois furinhos com um pequeno hematoma em
volta, todos os pensamentos passaram naquela hora estava confusa cansada com sono.
Anoiteceu, quando acordou festejou aquele momento, tive um pouco de medo mais a excitação
era maior, refletindo o que teria acontecido já que lembrava vagamente, misturando os pensamentos entre o sonho e a realidade.
Mais a memoria visual daquele homem lindo, forte daquela figura que emergiu na penumbra da
noite em sua sala, com aquele olhar misterioso jamais poderia ter sido um sonho, já que deixou
suas marcas em seu pescoço.
Pensou que fosse ser transformada em uma morta viva um ser da noite, mais ao contrario esse
homem deixou um presente, sua marca o dom da imortalidade, deu as mãos a palmatoria para
as mulheres que como Antonelle já viveram essa magnifica experiência do amor sobrenatural.
E todas as noites chuvosas de verão, vai para janela do seu quarto com as duas taças de vinho,
vestindo sua capa totalmente nua uivando para lua cheia esperando por Armand Lestat para reviver essa experiência de amor maravilhosa e saborear as gotas do seu sangue adocicado, fazer
amor e celebrar com uma taça de vinho tinto até a próxima lua cheia.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Pular as pedras
Querendo Ter Coragem
Saltar os obstáculos e deixar passar a onda,
Por Maria Dalva Leite
Contornar a montanha se ela estiver obstruindo o caminho,
Passado reconfortante
E fixar-se nas marcas que lhe trarão de volta,
caso precise voltar,
Para passar a exaustão,
Busco achar o sentido perdido
Não se esqueça de cumprimentá-la antes de
por o pé na estrada
La onde me encontro
Por nada solte a mão de Deus,
O sentido proibido também me visita
O perigo ronda,
Lá onde me encontro: cama de nuvens, num
local acolhedor
Não esmoreça
Onde só o bem estar e a alegria podem me
acompanhar
Deve ser evitada,
Rígida numa posição confortável rejeito as
mudanças que sempre surpreendem,
Fujo da dor escondendo-me do que incomoda.
Navegando em águas calmas, ficar bem é o
melhor
Petrificada longe da dor.
Entender o que esta se passando
Compreender e se lembrar da lição que a
mestra vida nos dá..
Abençoa-la em todas nuances e inserir- se
como parte do todo.
A insegurança filha do medo
Ela surrapa as encostas, rola as pedras, afunda os precipícios.
Cuidado! tenha fé.
Tudo é para o bem.
A segurança é a magia que fará você transpor
os obstáculos, E ficar distante do medo
Repito : não solte a mão de Deus, ocupe-se
dele e atenção por onde pisa para não falsear
o passo, e fraquejar.
Deus seja louvado.
Vamos em frente que atrás vem gente.
Unir-se à vida.
Dar bom- dia para o dia, Saudar o sol, a chuva, o luar,
Respirar o mesmo ar que nos contata com
todas formas de ser, desde a menor formiguinha, as folhagens das plantas, todos animais ,
a grama verdinha, verdinha ondulada pelo
vento.
Todas pessoas do mundo interconectadas
respirando o mesmo ar.
Existindo juntas na linda atmosfera, pulmão da
terra, preenchendo o olhar de cores,
prenhe de frescor e odores, amadurecidos em
toda sua trajetória pelo universo.
Sorrir para o tempo magnânimo
Compreender as oportunidades,
Não se apavorar com o caminho,
Bem-fazer toda ajuda,
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Genuínas reminiscências
Por Maria Luzia Fronteira
Arrebata-me uma saudade na rajada do vento, na morrinha e na invernada que rasga o silencio oh, e à noitinha junto à lareir’ acender o lume, com a saruga do pinheiro, os gravetos d’
acácia, e as folhas tenras d’ eucalipto e do loureiro, e das bagas oh, o cheiro, sob as rachas
da lenha resguardada no palheiro de paredes de pedra e de telhado rijo fabricado n’ olaria da
minha rua.
Arrebata-me a saudade das brasas na lareira sob a panela de ferro, cozendo o milho, ou a
sopa de trigo ou o bolo do caco e a castanha no brasume p’a família inteira.
Arrebata-me uma saudade na cartola e no garrafão de vime, e no corno do boi cheio de vinho
caseiro amiúde...e dos poios laranja terra, adubada com o estrume da vaca e a mondada a
eito das urtigas e da erva melada...e das botas d’água da rega na levada clorofilada de musgos, ervas aromáticas, treviscos, giestas, dente de leão, abundâncias, trevos, pata de galinha, junquilhos e malvas.
Arrebata-me uma saudade na vassoura de urze e na vassoura de palha e no cabo de madeira, da pá, da foice, da pedoa, da enxada do machado e da lima...oh e arrancar a erva do pátio na calçada.
Arrebata-me uma saudade de beber água com sabor a terra das nascentes e do verde dos
montes ingremes, numa bica de palma fazendo a ponte na levada quebrada.
Ah e do toque das ave-marias, às seis e meia e as mulheres resguardadas de pés em banhomaria absorvendo um calorzinho na derme fria, e as mãos em direção ao azul do céu, ora
num tom azul anil, ora num tom azul mar, ora num tom azul petróleo ora num tom místico
pardacento rezand’o terço e dando as graças pelo berço abençoado em que foramos acolhidos.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
25 ANOS
Por Sarah Venturim Lasso
Bem vindos 25 anos
Faço bodas de prata de mim mesma
Como uma rosa desabrochando
Feminina
Menina
Virando mulher
Em 25 primaveras juvenis
Despeço-me da juventude
E abro as portas
Para um caminho sem volta
Trilhado por mim mesma
Em noites de insônia
Rumo ao desconhecido
Adulta
Com frio
Com medo
Sozinha
Acompanhada de mim mesma
Nessa vida
Como um jardim
Seco e inóspito
Sigo firme e forte
Rumo ao verão
E a chuva
E mesmo sem saber
Como será o amanhã
Sigo positiva
E pensativa
Como uma rosa
Driblando meus próprios espinhos
Enlaçados em meu corpo frágil
Mesmo sem saber do amanhã
Sigo rosa,
A espera da colheita do amor.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
ROCAMBOLE DE GOIABADA
http://tudogostoso.uol.com.br/
Ingredientes
• 3 claras em neve
• 3 gemas
• ½ xícara de água
• 1 xícara de açúcar
• 1 xícara de farinha de trigo
• 1 colher de chá de fermento
300 g de goiabada derretida
Modo de fazer
1. Bater na batedeira as claras em neve, após jogar a gemas, a água,
em seguida o açúcar, o trigo e por último o fermento
2. Colocar a massa em forma retangular grande untada em forno préaquecido
3. Assim que retirar do fogo colocar a massa sobre um pano de prato
polvilhado com açúcar (ou papel manteiga)
4. Enrole imediatamente e reserve
Derreta a goiabada e aplique, enrole novamente e polvilhe açúcar ou
cubra com chantilly
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Uma Árvore Chamada Terezinha-Centro Cultural Lagoa do Nado Jardim dos Poetas -Belo Horizonte - MG
Por Clevane Pessoa de Araújo Lopes
Jacqueline Aisenman de azul, e sua árvore, Terezinha, observada por Rogério Salgado e por mim, (Clevane Pessoa), no Jardim dos Poetas-Lagoa do nNdo, em
31 de maio de 2012.Salgado e eu .
Crédito da foto: Lecy de Souza
Marco Llobus marcara para 31 de maio, a segunda edição do Jardim dos Poetas(**): poetas que
passaram pela Lagoa do Nado (*)em Saraus de Poesia , os que fizeram parte do histórico processo ...
A premiada prosadora e poeta Norália de Castro Mello estava nos primórdios da organização,
em Brumadinho, de um lançamento- do Varal do Brasil-2, onde estamos na qualidade de coautoras e organizada por Jacqueline Aisenman a qual lançaria também seu próprio novo livro,
"Briga de Foice", pela
Design Editora , de Jaguará do Sul/SC, um belo trabalho editorial. Jacqueline também é catarinense-e mora há anos, em Genebra.
Norália sonhava em reunir aqui, os coautores mineiros.
Queria sobretudo, oferecer a Jacqueline a grande oportunidade de conhecer Inhotim (**).Mas as
negociações se arrastavam, graças aos valores -e ela então, investiu potencialmente na Prefeitura de Brumadinho, onde hoje reside, que cedeu-lhe a Casa da Cultura-para a recepção de 01
de junho, hospedagem aos poetas e prosadores, várias benesses. A Secretaria de Cultura e Turismo entrou no esquema produtivo-e Norália pode contar com Juliana Brasil, Regina Esméria,
Maria Lúcia Guedes, Maria Carmen de Souza, que se empenharam na decoração e na degustação de acepipes tipicamente mineiros juninos. Segundo comentários dos autores e convidados,
foi uma grande confraternização-continuada em Inhotim e depois no Restaurante D. Carmita,
com os lançamentos das antologias citas e livros dos presentes .
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Bem, então, no Dia 31, aqui em Belo Horizonte, começamos a recepção à Jacqueline, que
seria homenageada junto com Diovvani Mendonça (leia-se Paz e Poesia ***) , no Sarau da
Lagoa do Nado, no Restaurante D. Preta, reduto de poetas ,artistas e pessoas da Paz, a
convite de Claudio Marcio Barbosa , produtor
cultural e poeta, que faz parte da família que
administra o D.Preta. preparam um substancial
prato mineiríssimo, o Feijão Tropeiro (****).
Foi organizada uma mesa de livros , para a
degustação da mente e do espírito, por que
não, do coração? Jacqueline recebeu as
"Palmas Barrocas" -alusivas à arte sacra mineira, uma criação da artista de Sabará-uma
das mais antigas cidades mineiras- Dirléia Neves Peixoto e que são parcimoniosamente distribuídas pelo grupo de Poetas Pela Paz e pela
Poesia., grupo que realiza o Paz e Poesia em
Belo Horizonte (*****).
No D. Preta, , esperamos a chegada de Norália, que chegou com sua filha Daniela. Desse
momento, participaram os poetas e artistas de
Belo Horizonte, Marco Llobus, Neuza ladeira
Rodrigo Starling, Iara Abreu, Maria Moreira,
Adão Rodrigues, Fátima Sampaio, Rogério
Salgado, Claudio Márcio Barbosa , Serginho
BH (fundo musical ao violão) e eu. Coautoras
de outros Estados e cidades estiveram no congraçamento: Yara Darin, Maria Clara Machado, e, com Norália e Daniela, também artista,
chegou a alegre Madhu Maretiori, que lançou seu encantador "Em Nome de Gaia"- minilivro de grande conteúdo.
Bem, esse prólogo longo , mas necessário ao
registro de nossa história de poetas, nos leva
agora, à Lagoa do Nado.
Lá, além do mini tour pelo pulmão verde e suas águas, com passagem pela exposição a
céu aberto da obra enraizada de Mestre Thibau., Jacqueline e nós, poetas convidados ,
fomos levados para plantar nossa árvore no
Jardim da Poesia.
poderia ser madrinha ou afilhada do poeta e o
poeta escolheria o nome de sua árvore, pensei em achegar-me a uma que desse muitas
flores , para dar-lhe o nome de minha mãe,
que adorava o verde. Eu andava daqui e dali,
mas fui atraída por um cedro. Mesmo ele apresentando uma praga branca. Não consegui
afastar-me das lindas folhas oblongas e acetinadas. Então, pensei: vou dar-lhe o nome de
Máximo, pois meu avô ,paraibano, trovador,
cordelista e jornalista, repentista sonetista, que
ensinou-me a metrificar e amar a poesia ainda
no seu colo, não obstante árvore do gênero
feminino na gramática, mas comum dos dois
na espécie, Cedro sempre vai lembrar-me o
gênero masculino.
Desejei muita sorte ao meu cedro-que cresça
o máximo, seja o máximo-sobrenome de vovô,
Luiz Máximo de Araújo -pensei .
Depois de curtir a árvore que me escolheu, fui
circular e quando Jacqueline Aisenman foi batizar a sua, ela disse-me;-Terezinha, o nome
de minha mãe.
Fiquei literalmente arrepiada .Claro que o prenome da santinha de Lisieux é muito comum,
mas eu, que vivo na memória e no imaginário,
escritora que sou, logo pensei : -Mamãe, que
adorava o pai, deu-lhe lugar.
E assim , toda vez que for ao jardim de nós,
Poetas, no CC Lagoa do nado, vou acarinhar
essas duas árvores: pela amiga distante, em
outro país, Jacqueline Aisenman e cultura o
nome materno de ambas, e o d e vovô, meu
mago iniciador que revelou-me a POIESIS, como soi ser, com autoria, orgulho e alegria ::Terezinha e Máximo.
Mais tarde, já em casa, li um texto maravilhoso, em Varal Antológico 2 de Jaqueline Aisenman ,denominado Pintura Ingênua, onde ela
abre ao leitor o grande amor por seu pai ("Meu
pai, sentado na cozinha, palpitava a vida, dava
palpites em tudo"), onde a mãe amada entreaparece, figura de fundo e de palco ,indispensável( "Ou ia pelos braços queridos de minha mãe, braços)
Quando saí de casa, sabendo que cada árvore
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
cheios de alma") .
Realmente , esse plantio para mim, transcendeu os objetivos lindos desse jardim de árvores:
permitiu-me a sagrada memória familiar vir bailar conosco por entre as mudinhas esperançosas...
(A Jacqueline Aisenman, agradecendo o convite para ser e estar em Varal Antológico 2:alegria e
honra).
Jacqueline, vendo nossos livros. Nas mãos,
Sais—de Rogerio Salgado. Na pilha, meu
Asas de Água e Nós, de Rodrigo Starlingentre outros.
Exemplares de Varal Antológicoantologia coordenada por Jacqueline Aisenman
Café com Letras é da ALTO, em teófilo otoni e Lírios sem Delírios, meu livro mais recente (selo aBrace).
Revistas internacionais aBrace
Convite para o evento em Brumadinho
Fotos de Clevane Pessoa
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Varal Antológico 2 se estende entre os poetas em Belo Horizonte
Fotos de Yara Abreu, Clevane Pessoa, Yara Darin entre outros
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
UMA CONVERSA AO PÉ DO FOGÃO, UM SARAU PERFEITO!
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Guerra sem paz
Por Lina Macieira
O homem
é a luz do seu
próprio eu
rebeldia sem cor
forte carência espiritual
armas interior.
O homem reprime sua vontade
de fazer amor, fugindo da paz
homem insolente, homem frágil
digno de morrer e mata.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
NO MUNDO DA
FICÇÃO CIENTÍFICA
Por Daniel C. B. Ciarlini
O adeus de Bradbury e
Fahrenheit 451
Deixando saudades e uma extensa lista
de romances e contos, Ray Bradbury, escritor
americano considerado um dos pilares do gênero da ficção científica moderna, morreu na
manhã do último dia 6 de junho, aos 91 anos.
Era natural de Waukegan, Illinois, Estados UniAlém de ter explorado com talento o
dos, onde nasceu em 22 de agosto de 1920.
campo
da ficção científica, teve proveitosas
Viveu a maior parte de sua vida em Los Angeparticipações no gênero do horror, onde, inclules, Califórnia.
sive, foi referência e conquistou o reconheciDiferentemente de Isaac Asimov, Arthur mento e o respeito de figuras como Stephen
C. Clarke e Robert A. Heinlein, que foram des- King, considerado o mestre do terror e do suscobertos por John W. Campbell Jr. na era das pense da contemporaneidade. É a Bradbury
pulp magazines, Bradbury foi o único escritor que King dedica Dança Macabra (1981), coleda década de 40 a surgir no campo da ficção tânea de ensaios impressionistas que discutem
científica de maneira, por assim dizer, indepen- a manifestação do horror nos campos da literadente, sem apadrinhamento, cujos conheci- tura e cinema.
mentos científicos e técnicos não foram adquiriRay Bradbury era o último dos moicanos
dos em academias, mas de maneira empírica,
autodidata. Estreou na literatura com o conto que representava a Geração de Ouro da ficção
Hollerbochen’s dilemma, publicado entre 1938 científica moderna, formada também por Isaac
e 1939, e iniciou a carreira como profissional Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke.
em 1941, quando teve seu primeiro conto pago Foi considerado o apóstolo dos gentios e o emdivulgado na Super Science Stories. Anos mais baixador da ficção científica para o mundo extarde já era visto assinando textos na Astoun- terior (ou seja, além das fronteiras estaduniding e nas principais revistas congêneres que denses), pois “Pessoas que não liam livros
circulavam os EUA. Período este que seu no- desse gênero e que se retraíam diante de suas
me virou febre e angariou um público conside- convenções pouco familiares e de seu vocaburável de leitores em toda a porção Norte da lário bastante especializado, descobriram que
eram capazes de ler e entender Ray Bradbury”,
América.
segundo afirmou Asimov em ensaio à TV Guide, em 12 de janeiro de 1980. Sendo um dos
mestres da science fiction, não podia deixar de
ter publicado clássicos como As Crônicas Marcianas, coletânea de vinte e seis contos que
consolidou sua carreira e foi classificada pelo
próprio autor como uma espécie de “mitologia
espacial”, escrita nos anos 50.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Apesar de ser considerado um dos quatro pilares da ficção científica, estranhamente
não gostava desta denominação, negando muitas vezes que fosse escritor do gênero. Além
disso, dos casos peculiares que marcam a sua
biografia, sabe-se da aversão que tinha por viagens de avião e de jamais ter dirigido um automóvel. Escreveu peças de teatro, poemas e foi
roteirista de sucesso, tendo adaptado Moby
Dick para Hollywood. Antes de se tornar escritor, era jornaleiro. Começou a escrever para
sustentar a família.
Guy Montag, a personagem principal,
observando as pessoas encasteladas em telões de televisão afixados nas paredes de suas
residências, onde assistem a programas e ao
mesmo tempo interagem (um tipo de antecipação aos reality shows), assim desabafa:
“Ninguém mais presta atenção. Não posso falar
com as paredes porque elas estão gritando para mim. Não posso falar com minha mulher; ela
escuta as paredes. Eu só quero alguém para
ouvir o que tenho a dizer. E talvez, se eu falar
por tempo suficiente, minhas palavras façam
sentido” (op. cit., p. 120, grifos do autor).
Sem nada a instruir a não ser o exercício
e as práticas esportivas, à escola é reservado o
papel de formar “corredores, saltadores, fundistas, remadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores,
críticos, conhecedores e criadores imaginativos” (op. cit., p. 88), sendo, pois, a palavra
“intelectual” um tipo de palavrão. Nesse sentido, eis que os filhos são mantidos nas escolas
por nove dias seguidos, com apenas um dia de
folga, logo, não ficam mais do que três dias por
mês na casa dos pais, e quando assim o são à
frente dos telões. O livro também é visto como
uma ameaça ao governo que incentiva a ignorância: “Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem.
Quem sabe quem poderia ser alvo do homem
lido? Eu? Eu não tenho estômago para eles,
nem por um minuto” (op. cit., p. 89).
Em Fahrenheit 451, um de seus livros
mais famosos, Bradbury produz uma narrativa
tipicamente soft e distópica. Desvenda uma sociedade transformada pelos avanços dos meios
de comunicação que alienam a sociedade. A
leitura de livros é vista como proibida e para
manter a ordem o governo manda queimar bibliotecas e até residências que comportam leitores. Interessante observar que este papel é
desempenhado pelos bombeiros, vistos como
mantenedores da ordem. Apesar de escrito na
década de 50, ainda é notável a ironia do autor
ao analisar o aspecto alienado das pessoas
frente às futilidades trazidas pelo desenvolvimento econômico: “O que mais falam é de marcas de carro ou roupas ou piscinas [...] todos
dizem a mesma coisa e ninguém diz nada diferente de ninguém” (op. cit., p. 51-2). Ou ainda:
“O clangor reduziu as pessoas à submissão;
não corriam, não havia lugar nenhum para onde correr” (op. cit., p. 116).
Afora esses aspectos, Fahrenheit 451,
como toda boa obra de ficção científica, não
deixa de especular a respeito de inventos tecnológicos, como quando demonstra a existência de bancos 24 horas, cujos caixas são robôs, uma antecipação dos atuais caixas de
atendimento automático. Vê-se ainda a existência de helicópteros de polícia que podem se
transformar em viaturas ou vice-versa; além de
cães mecânicos farejadores. Bacharéis e cientistas, em face da proibição de livros, desenvolvem ainda um método que consegue trazer a
lume tudo aquilo que já leram, bem como uma
bebida que modifica a composição química do
corpo a fim de alterar o feromônio, despistando
assim os sabujos, os cães mecânicos.
Sem escritório e espaço em casa para
produzir, Bradbury escreveu Fahrenheit 451
nos porões da Universidade da Califórnia em
Los Angeles, entre livros velhos e máquinas de
datilografar alugadas a dez centavos a meia
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
hora. Segundo afirmou, o livro acabado lhe custou nove dólares e oitenta centavos.
Das passagens mais emblemáticas e libertas que, a meu ver, Bradbury deixou aos colecionadores de preciosidades, resume-se em um trecho de denúncia a toda e qualquer forma de
opressão que tenta podar o espírito livre e imaginativo do homem: “[...] este é um mundo louco e
ficará mais louco, se permitirmos que as minorias – sejam elas de anões ou gigantes, orangotangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, prócomputadorologistas ou neo-ludditas, débeis mentais ou sábios – interfiram na estética. O mundo real é o terreno em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis como num grande jogo.
Mas a ponta do nariz do meu livro ou dos meus contos ou poemas é onde seus direitos terminam e meus imperativos territoriais começam, mandam e comandam”.
ORGIA
Por Mário Rezende
Que mulher é essa?
Que magia é essa que ela tem,
de me atrair assim,
como uma presa fácil,
indefesa, sem forças
e vontade de fugir?
Quem é essa mulher
que me deixa assim
com os neurônios em orgia,
ouvindo cantos e tambores
ecoando batuques ritmados?
Por que será que essa mulher
controla assim a minha mente
e provoca uma vontade louca
de me deixar levar, ficar ausente?
Todo esse poder é teu, minha mulher.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
UM BILHETE ANÓNIMO
Por Lénia Aguiar
Quando o final do ano lectivo aconteceu, Magda, que até agora tinha ocultado os seus sentimentos pelo professor de educação física, Guilherme, por temer a rejeição e parecer ousada,
finalmente teve coragem para se declarar escrevendo um bilhete. Descobriu qual o seu cacifo e
colocou um bilhete. Guilherme ficou surpreso com tal papelinho, assim como com o seu conteúdo:
Há muito que lhe quero dizer que é bonito.
Conheço-o há algum tempo e você a mim também.
Se quer saber quem sou vá até ao cais às 20h30min.
M
Quando terminou de ler sorriu. Arrumou o bilhete e tirou tudo o que tinha no cacifo arrumando na mochila. Saiu da sala em direcção a casa. Foi a pé, morava relativamente perto.
Enquanto caminhava pensava:
«-Quem será? Porquê tão tarde o encontro? Deveria ser já, estou ansioso para saber quem é.
Se não gostar disfarço, dou meia volta e vou para o bar da praia.»
Ao chegar a casa tomou um banho e vestiu t-shirt e calças de treinar. Nem o pai nem a
mãe desconfiavam que ele teria um encontro. Jantou e fez-lhes companhia durante algum tempo enquanto a tv transmitia o noticiário. Ao passar cinco minutos das vinte horas, levantou-se e
disse-lhes que ia encontrar-se com amigos.
Quando chegou ao cais avistou algumas pessoas ao redor, a maioria acompanhadas. Mas
havia uma mulher mais afastada e voltada para o mar, era elegante e de cabelo ondulado escuro. Só poderia ser aquela a M! Até suspeitou que pudesse ser a sua ex-aluna, porém, não queria estar muito empolgado, pois era cedo e a tal mulher poderia ainda não ter chegado ou nem
aparecer. Aproximou-se lentamente e disse sorridente:
--Está um bonito fim de tarde! - Porém, ao aperceber-se de quem se tratava acrescentou – Magda!?
--Sim. Estou à espera do homem que sempre esteve apaixonado por mim e só agora admitiu.
-Estou sem palavras... Algumas vezes suspeitei do teu interesse, mas conclui ser loucura minha.
--Também apercebi-me muitas vezes que me olhava com ar de macho... Farei dezoito anos
amanhã.
--Não te importas mesmo que namoremos? Eu fui teu professor até hoje.
--Poderemos mentir, ninguém precisa saber que eras meu professor, Guilherme.
Ele enlaçou-a e beijou-a confessando:
--Só o nosso amor interessa.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
A essência da poesia
Por Alma Lusitana
Recentemente abandonado pela comunidade,
vive na rua sem rumo e numa selvagem crueldade.
Desce a calçada com os pés doridos pela ausência de resguardo,
sendo vencido por um cansaço aliado à urgência de alimento.
Numa noite chuvosa, sucumbe sobre os gélidos paralelos
de uma calçada deserta e sombria.
Ao despertar dolorosamente da sua malfeita sorte,
encontra a seu lado, lambendo-lhe afectuosamente a face,
um pequeno cachorro também desgastado pelas atrocidades
da nossa preconceituosa sociedade.
Fixados num olhar penetrante, o sem-abrigo, retira do bolso
meio pão enlameado repartindo-o poeticamente com o único
ser que no auge do seu desespero e imune a qualquer presunção,
o acompanha nesta sua dolorosa enfermidade.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O violino
Por Danilo Augusto de Athayde Fraga
(As três graças)
Apaga
A luz e dança
A casa vazia a noite jovem
A lua e você
Toca um quarteto
De Ravel de cordas
A corda não
Quer parar de adormecer
Eu e você e mais
A lua e a noite eu sou
Entre rosa orquídea e adelfa
A quarta e quinta corda
O violinista adormecido
O poeta que desperta para enfim
Fechar os olhos como quem goza
Uma breve nota de Satie
As três graças de Canova
Eu sou o arco que desliza sobre cordas
Tensas e também é corda
O verso e o seio como taça
O vinho e o sonho
O amor ou algo parecido
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
A ARTE INCONDICIONAL DE AMAR
Por Dhiogo José Caetano
O amor é a maior força que existe no mundo. Aqui falo de amor no sentido lato e não só do sentimento que pode existir entre dois seres. O amor total é uma forte de energia que não utilizamos
o suficiente.
O amor é uma plenitude que no envolve até nos momentos de raiva, pois a raiva ou ódio é a antítese do amor, ou seja, o amor que está doente.
Portanto, aja sempre com amor e terá sucesso na sua existência. O amor está na base de todas
as grandes descobertas e grandes invenções que tiveram lugar, têm lugar e terão lugar na história da humanidade.
Sem amor, não podemos construir nada de grande. O amor é simplesmente a essência que nos
mantém vivos.
Se os homens projetaram enormes templos, igrejas, mosteiros, sinagogas, mesquitas, foi por
amor ao ser supremo: o seu salvador aquele conhecido com regente de todas as coisas que
existe no universo.
Se os homens fizeram descobertas em todos os domínios, foi para melhorar a vida dos seus
amados irmãos.
Seja no domínio da medicina, da tecnologia, do dia a dia ou da melhoria das condições de vida,
no fundo, os investigadores, os cientistas, os médicos e os grandes exploradores agiram sempre
para o bem da humanidade.
O amor vence tudo, a sua supremacia sobrepõe todas as coisas.
Aqueles que tentaram, tentam ou tentarão praticar o mal serão sempre vencidos, porque a força
do amor é maior do que a força do ódio. Esta pode causar muitos estragos, mas será sempre
vencida no fim!
Meus amados irmãos, convindo vocês para praticar a arte do amor no dia a dia. Não só irá atingir mais depressa os seus objetivos, mas também praticará o bem à sua volta. Obterá sempre
uma recompensa moral ou material.
Será um ministro que prega o amor e que é sempre amado.
Em suma, cultive a atitude de amar incondicionalmente e não por interesse ou esperando receber uma recompensa. Coloque um amor incondicional nas suas palavras, pensamentos e atos,
assim a sua vida plenamente será rega com muito sucesso, clarividência e paz.
Amar nunca é demais!
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Rocambole de Batata
Marilice Bernabei
http://www.receitas.com/
Ingredientes
Massa
• 1/2 kg de batata
• 1 xícara de leite
• 3 ovos
• 4 colheres de farinha de trigo
1 colher de manteiga
Recheio
O de sua preferência: frango, palmito, carne moída, presunto e queijo, camarão ou verduras
refogadas.
modo de preparo
Massa
1º - Descasque as batatas e depois de cozinhar em água e sal, esmague-as e passe-as pela peneira.
2º - Junte a manteiga, o leite morno, a farinha aos pouquinhos e misturando bem.
3º - Depois, acrescente os ovos. Bata muito bem até conseguir uma massa lisa e uniforme.
Montagem
1º - Despeje numa assadeira untada com manteiga e polvilhada com farinha de trigo.
2º - Alise, polvilhe com um pouquinho de farinha de rosca e leve ao forno por cerca de 15
minutos.
3º - Deixe esfriar um pouco e, quando ainda quente, vire a massa sobre um guardanapo
polvilhado com farinha de rosca.
4º - Espalhe o recheio e enrole com cuidado, aperte com o guardanapo e depois de alguns
minutos desembrulhe.
5º - Salpique com pedacinhos de manteiga e passe outra vez pelo forno por cerca de 5 minutos.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
forte graças à nova família.
A Tartaruga Fifi
Infelizmente, depois de tanto carinho e amor,
Suzi não quis mais Fifi e sua família inconsequentemente colocou-a na rua, à sua própria
sorte.
Para a alegria de Fifi, uma menina chamada
Sofia apareceu e a resgatou, livrando-a daquela movimentação enorme das ruas.
Em casa, Sofia perguntou a tartaruga:
-Você está perdida?
A tartaruga balançou a cabeça mostrando que
sim.
Por Helena Akiko Kuno
(Helena tem 8 anos e escreve pela primeira Então Sofia adotou Fifi e ficou muito feliz, pois
vez para a revista)
ganhara uma amiga para brincar.
Em um belo dia ensolarado, Suzi andava pela O tempo passou, Fifi adoeceu e não havia veterua quando viu um novo Pet shop e decidiu co- rinário que cuidasse de tartarugas na cidade.
nhecê-lo.
Um dia Fifi começou a fechar os seus olhinhos.
Chegando lá, ela viu diversos animais: cachorSofia inconformada chorou muito, mas não haros, gatos, peixes, hamsters e tartarugas.
via mais tempo, Fifi tinha morrido.
Mas uma tartaruga bem pequena no fundo de
uma gaiola lhe chamou a atenção, ela parecia Sofia ficou tão triste e até hoje ela ainda lembra
-se de Fifi.
fraquinha e magrela.
Suzi com dó da tartaruga foi correndo para casa conversar com a mãe:
- Mãe tem uma tartaruguinha no novo petShop,
você compra para mim?
- Não sei filha, estou com pouco dinheiro este
mês.
- Por favor, mãe.
- Está bem, mas lembre-se que a responsabilidade é sua.
Chegando ao pet shop, Suzi pegou a tartaruguinha na mão e disse:
- É essa tartaruga que eu quero mãe.
- Mas ela parece tão frágil, não acha?
- Não mãe, eu não acho!
- Está bem querida, então vai ser essa.
Então a tartaruga começou a ficar saudável e
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O segredo
Por Domingos A. R. Nuvolari
Florinda casou-se a alguns instantes e já estava eufórica para a sua viagem de lua de mel, que
faria daqui a algumas horas. Ediberto seu noivo, se divertia regado a cerveja e seu pagode preferido, que saia da caixa de som.
Entre fotos e abraços sujava cada vez mais a cauda de seu vestido longo e branco, perdido nas
rendas, que um dia sonhara para este dia tão especial. Com o nó já frouxo de sua gravata, o
noivo ria das piadas contadas pelos amigos, na rodada que seguia noite adentro e não parecia
que Ediberto estivesse sonhando com a viagem ao nordeste baiano, terra de sua gente.
Os convidados, que não foram à cerimônia, não terminavam de chegar ao salão de festas, inclusive Maria Antônia, uma confidente de Florinda que no meio da festa adentrou ao salão, seu
olhar não se cansou de procurar a noiva, até que a avistou e correu ao seu encontro.
O noivo era preparado pelos amigos para o momento esperado, o tradicional corte da gravata.
Soma tão esperada que ajudaria no custeio dos dias que passariam, na pequena cidade natal
do baiano, que ali continuava a se divertir como sempre se divertia, na sua pacata vida de vigia
de um supermercado.
Durante seus dois anos de namoro e noivado, Florinda não se deixou levar pela fraqueza da
carne, sempre seguiu rigidamente a tradição da família, que sonha em levar a noiva para o altar
e casar de véu e grinalda, corretamente.
Maria Antônia, agora de frente para a noiva, nem mal cumprimentou Florinda, pelo seu casamento, foi logo cochichando no ouvido da noiva, com um ar de fofoca, segredo guardado há
tempos, a espera do momento certo para soltar a bomba. Florinda num gesto de surpresa, colocou as duas mãos na boca aberta, afirmando ainda mais a inesperada bomba que a amiga confidente fuxicou em seu ouvido.
Nesta altura da festa, Ediberto já garantia um bom trocado para a tão sonhada lua de mel, que
esperou, embora não demonstrasse estar com pressa. Ele conhecera Florinda no cemitério da
cidade quando levava ela ao tumulo ali esquecido, meses antes do início do namoro.
Quando Ediberto olhou para Florinda, naquela cena olhando para ele, ele sentiu em seu gesto
de desespero e podia imaginar que não era um simples gesto, ele parecia saber do que se tratava pois ficou paralisado como se um segredo havia acabado de ser descoberto.
Florinda voltou-se para o local onde Ediberto estava e saiu ao seu encontro, já em meio ao choro, ao nervosismo e ao desespero. Ediberto repentinamente acorda de seu pesadelo, na véspera de seu casamento, suando frio, assustado mas com a certeza e a garantido que seu segredo
ainda ficaria guardado, por mais algum tempo, com ele e com Maria Antônia, falecida pouco antes do início de seu namoro.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Adoção é uma permuta de amor.
O homem ama o cão e o cão ama o homem.
Os dois tornam-se amigos.
Na foto, Costelinha
Por Elise Schiffer
Amigos: Costelinha (4 anos) e Rosemberg (12 anos)
Era uma vez um menino que vivia sozinho,
Sua família havia mudado de residência.
O menino ainda não tinha amigos no novo Bairro.
No dia de Natal o menino pediu a sua mãe.
Mãe, eu quero um cachorro de presente.
Era uma vez um cachorro chateado,
Que havia sido abandonado ainda filhote.
O cachorrinho estava sozinho, não tinha nenhum amigo.
As pernas tremiam de tanto medo que sentia por estar sozinho.
O filhote latiu e latiu pedindo aos céus um dono para amar.
No dia de Natal a mãe do menino o levou a um abrigo de animais.
Lá o menino viu muitos filhotes pulando e latindo.
O coração do menino bateu forte pelo filhote mais sujo e magro.
Era o filhote mais feio no berçário do abrigo.
Hoje o filhote é um belo cão, o menino esta feliz e os dois são grandes amigos.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
PSICOSE LITERÁRIA
Por Eliseu Ramos dos Santos
Uma folha em branco era a visão mais
recorrente em sua vida desde então. Fitava-a
insistentemente, mas não conseguia mais escrever depois que havia feito. Agora estava sozinho. Aliás, estivera sozinho há muito tempo,
contudo, desta vez se encontrava fisicamente
só, por pouco mais de um mês não vira algum
mísero rosto diferente, nem o seu próprio. Quebrou todos os espelhos da casa, pois não suportava a expressão de fracasso e desolação
tatuada em sua face. Por vezes conseguia se
enxergar furtivamente no reflexo da água em
suas mãos antes de lançá-la contra o rosto, ou
senão era possível se reconhecer de um modo
deformado na garrafa de uísque recémesvaziado, esta sim, era a imagem que mais
lhe agradara nos últimos tempos: seu semblante totalmente distorcido, o que representava
para ele, a desfiguração de seu pobre espírito.
Diante do estado de solidão, há muito tempo
não pronunciara uma só palavra. Não carecia,
ele não era do tipo que jogava palavras ao vento, o máximo que produziu sonoramente durante esse período fora alguns gritos dispersos de
desespero e angústia motivados pelas lembranças vinculadas ao que fizera, surgiam em
sua mente com tanta força e violência que não
conseguia conter-se em silêncio: gritar emudecia sua mente e o deixava um pouco menos
morto.
Falando nisso, não cogitou em nenhum
momento a ideia de suicídio, para ele, viver o
maior tempo que dispusesse com aquele sentimento tão corrosivo quanto ácido era o único
modo de diminuir em alguns per centos sua
parcela de responsabilidade sobre seu ato. Assim, já realizara o próprio julgamento pessoal,
pois os meios jurídicos já não importavam
mais, tampouco a punição divina, até porque
não era religioso. No entanto fez de seu lar um
inferninho particular para ser simultaneamente,
demônio e pecador, onde ele mesmo prepara a
via-crúcis e a percorre sem auto refutações.
A casa era grande, entretanto ele passou
maior parte do tempo num quarto dos fundos,
sem móveis, onde havia apenas um belo tapete
persa e sua máquina de datilografia com uma
folha posicionada ansiando a primeira frase ser
escrita. Ele achou que conseguiria escrever e
secretamente ainda tinha esperança de fazê-lo,
mas não podia dormir por pouco mais de quatro horas por dia, os pesadelos eram constantes e verossímeis e o cheiro dos corpos já impregnava toda a casa. O cheiro era mesmo o
pior de tudo, aquilo que o deixava mais angustiado. Cansava-o. Espalhado por todas as partes da casa, exceto no tapete persa. Por isso
ele passava horas a fio de bruços, com os braços abertos e o nariz estacionado nas cerdas
do tapete. Podia cultivar o terrível sentimento
até o fim contanto que não precisasse suportar
o aroma da morte. Sabia que lhe restava pouco
tempo até que o cheiro se ousasse a romper os
limites da casa e chamar a atenção do mundo
que há depois da porta da frente.
Pois então, se quisesse que valesse a pena tudo que havia feito, deveria começar a escrever logo. Seria sua obra-prima. Um estandarte da literatura moderna, recuperaria enfim,
o reconhecimento de todos, mesmo com um
débito tão alto a pagar, o sacrifício não seria
em vão. Não o sacrifício próprio, mas o de seus
entes: sua bela e amável esposa e seus filhos,
carinhosos e educados. “Morreram para entrar
na história”, pensava ele, em momentos de intensa insanidade, “serão eternos personagens
do meu legado como escritor, estarão vivos por
séculos no imaginário de toda a humanidade!
Ora, como não? Se estivessem aqui prestariam
inúmeros agradecimentos a mim por serem escolhidos para tal.” Sua mente agora doentia
costumava variar do estado de plena culpa e
desolação para uma incontinente e repentina
megalomania. Um desgraçado dégradé de
emoções que o deixava cada vez mais demente. Não era à toa que se encontrasse nessas
condições, afinal praticara um dos atos mais
lastimáveis conferidos ao ser humano: o assassínio da própria família.
“Mas foi por uma causa nobre! E ademais,
eles me jogaram no poço da decadência, precisava ter feito algo, sim, tudo faz sentido!” Essa
ideia repugnante brotou-lhe em sua cabeça
paulatinamente, tendo como origem um sincero
diálogo com seu agente, “antes de seu casamento cara, você era louco, bebia como ninguém e tinha várias mulheres, quantas quisesse, havia histórias pra contar e não eram poucas, sua mente borbulhava em criatividade e
isso se traduzia em grandes escritos seus, por
isso tinha se tornado um grande escritor, hoje
você não é mais nada.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Você é do tipo que precisa viver pra escrever, toda sua obra até hoje foi baseada em
sua vida, por isso mesmo agora você é um cara
decadente e sua familiazinha o deixou assim,
sua vida é decadente e seus escritos também
seguem o mesmo ritmo, tudo chatice. Volta a
viver cara, viva para ter uma história pra contar,
estão todos esperando você tornar a ser quem
era, quem nunca deveria ter deixado de ser...”,
nesses termos, a coisa que ele mais prezava
no mundo, sua carreira, se transformara num
fiasco, precisava reverter isso, custasse o que
custar.
“Viva cara, para ter uma história”, depois
dessa conversa com seu agente e conselheiro
essa ideia foi-se germinando tão intensamente
que não conseguia pensar em outra coisa,
“viver uma história, viver uma história, fazer
uma história, fazer história”, os pensamentos
dele iam sendo gradualmente atingidos por
uma gangrena de obscuridade, pensava finalmente que para voltar a escrever como antes
precisava se livrar de sua família, a esquizofrenia rondava suas ações e emoções. A partir daí
cada vez que observava seus filhos brincando
e sorrindo, e sua mulher realizando as tarefas
domésticas com todo o carinho e dedicação,
pensava como eles estavam sugando seu talento e transformando num escritor inconstante.
Aquilo não era vida. O ódio crescia vertiginosamente e a rotina tediosa potencializava ideias
psicóticas e compulsivas. A essa altura formulava diversas maneiras de abstraí-los de sua
vida, e só a morte lhe parecia a opção plausível
e necessária. Então começa a surgir em sua
mente doentia a possibilidade de destruir sua
família e renascer enquanto escritor. A premissa de que, sem seus entes sua carreira iria renascer como uma fênix levantando voo já lhe
soava como uma verdade absoluta. A solidão
realçava sua aptidão para a escrita. Mal via a
hora de voltar a escrever majestosamente como antes e se envaidecer diante dos elogios
que outrora havia se habituado. Durante meses
fora crescendo em seu ser a vontade de ver
seu lar definhar às suas vistas. Tornara-se frio
com todos. Isolou-se em sua redoma psicótica,
todos eram inimigos, pois o condenariam caso
seus pensamentos viessem à tona. Não podia
mais confiar em ninguém. Estado paranoico.
Olhava para todos os lados a todo o momento.
A única coisa que o fazia esboçar um leve sorriso era reler seus antigos escritos e fomentar a
esperança de que tudo voltaria a ser como antes. A nostalgia era obrigatória e morbidamente
seguida pelo desejo de aniquilar seus inimigos
do lar. “Dei minha vida por eles, e o que eles
fazem? Acabam com minha criatividade, destroem minha carreira, me deixam decadente.
Mas isso não ficará assim, não mesmo.”
Só lhe faltava a coragem da prática, pois
a bravura de admitir a si mesmo seus intentos
sórdidos ele já havia alcançado. Imaginava como seria glorioso seu retorno as livrarias, mataria sua família e faria deste ato o enredo para o
novo livro. Sim! Estava tudo certo, todos ficariam estupefatos e secretamente maravilhados
com todos os detalhes descritivos que constariam no texto, quebraria todos os paradigmas
vigentes. Seria ali inaugurado um novo momento da literatura mundial. No primeiro instante, as
pessoas o bombardeariam impiedosamente pelo que havia praticado, mas os insultos costumeiros estariam criptograficamente carregados
de admiração pela bela e pormenorizada descrição de seu ato. Seria a redenção de sua carreira e o declínio de um homem na sociedade.
O escritor do submundo. Um maravilhoso paradoxo que mexeria com a cabeça de todos os
leitores e marcariam suas vidas. Só isso o interessava agora. Marcar. Chocar. Faria com que
as pessoas sentissem desejos absurdos e obscuros ao lerem sua obra. No fundo tinha a certeza de que toda a humanidade tem intrinsecamente o instinto psicótico de contemplar a violência e a barbárie.
Sabia que esta podia ser sua ultima obra,
mas estava tão obcecado com a ideia que nada
mais importaria, nada precisaria ser escrito
após o ponto final. Só lhe faltava mesmo a coragem do ato. Nunca tentou contra a vida de
alguém, tampouco agredira sua esposa, ultima
vez que havia brigado ainda cursava o colegial.
Por mais que seu estado fosse de plena psicose, ainda esbarrava em preceitos cultivados
durante toda uma vida e era cabível que mesmo anestesiado por pensamentos tenebrosos,
seu corpo poderia não responder a seus comandos quando necessário. Pensava em fazêlo ébrio, mas isso prejudicaria a etnografia do
ato, pois poderia perder alguns detalhes ou
mesmo não lembrar devido à embriaguez.
Como seria concebível realizar, ou mesmo cogitar tal feito egoísta e desumano? Nesse
momento, ele era o pior homem da face da Terra, ou talvez aquele que melhor representasse
o que realmente somos. Provavelmente sentiase assim, como se desfrutasse ali o sabor
amargo da essência de nossa espécie. Somos
também animais, na verdade, somos primeiro
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
primeiro animais, depois pensamos em humanidade. E assim estava ele, se vendo como um
animal com desejos incrivelmente humanos.
Então o fez. De um modo surpreendente e
impiedoso. Não estava alcoolizado, nem ao menos havia planejado, por mais que ele tivesse a
convicção que o momento estava próximo não
tinha certeza de quando seria. Já não tinha medo, tampouco pensava em remorso, sua mente
trabalhava por uma via de mão única, sem pensamentos duais. As palavras de seu agente realmente o afetaram intensamente, mas provavelmente já tivesse uma inclinação à loucura,
ninguém que esteja em pleno domínio de suas
faculdades mentais hortaria pensamentos tão
execráveis. Assim, num ataque fulminante de
cólera provocada por uma discussão banal com
sua esposa, ele inicia sua ininteligível vingança
contra sua família. As crianças brincavam inocentemente no jardim. Ele a golpeou de súbito
interrompendo bruscamente o que ela dizia, banhada em sangue e perplexidade, caiu entre a
mesa e o fogão solenemente branco, ainda não
havia sucumbido, pois a faca não afetara um
ponto vital. Lá estava ela, ensanguentada, exalando porquês pelos poros. Trêmula. Fitando
horrorizada o amado algoz de pé, à sua frente
ainda com a arma em mãos, suando bicas.
Apesar dos pedidos desesperados e agonizantes de sua esposa, ele não parou, não teria como, estava possesso e só pensava em
calar aquela maldita voz de súplica. Desferiu
mais quatorze golpes com surpreendente perícia. A partir da quinta ou sexta facada a pobre
senhorita já não reagia de nenhum modo, mesmo assim, envolto pelo ódio infundado e cada
vez mais fértil, ele continuou até deixá-la em
frangalhos. Quando finalmente cessou, parte do
sangue já havia coagulado e ela esboçava uma
expressão quase sacra em seu rosto hipnotizante de tão belo. Uma linda mulher. Certamente dedicou seus últimos instantes de vida a
preocupar-se com seus filhos. A preocupação
tinha fundamento. O escritor psicótico levantouse esbanjando uma profunda respiração, limpou
as mãos ensanguentadas e se dirigiu ao jardim;
as crianças prontamente o convidaram para
brincar, como sempre faziam. Ele foi até os meninos e passou-lhes as mãos carinhosamente
sobre seus cabelos. Chamou-os para dentro.
Os dois meninos caminharam em direção a
morte sem pestanejar, eram bastante obedientes. Não passaram pela cozinha, mas perguntaram pela mãe. “Foi fazer umas compras, meus
filhos”. O pai então levou os garotos diretamen-
te ao quarto deles. Lá se sentaram delicadamente em suas respectivas camas a pedido dele. Ele sentou-se num pequeno banquinho próximo a porta para que pudessem vê-lo sob o
mesmo ângulo. Os rostos rosados e os olhos
atentos dos pequenos não o fizeram esmorecer
e repensar no que estava prestes a fazer. Começou então a comentar as razões que estavam motivando seus atos, obviamente as crianças nada entenderam, na verdade não era como se ele estivesse explicando a ninguém, o
fazia somente para reforçar sua própria decisão: escolhera sua carreira em detrimento da
própria família, pois àquela altura achava que
eram duas coisas que não podiam coexistir.
Ao terminar de comentar suas confidências, as crianças permaneciam rigorosamente
no mesmo lugar e posição, aí então ele foi em
direção ao mais novo, o pegou pelos braços
gordinhos, o suspendeu à altura dos seus ombros e sorriu. Os dois sorriram. A criança tinha
apenas quatro anos, de nada tinha noção ainda, e nunca teria. Ele a deitou na cama e com
o felpudo travesseiro começou a pressionar sobre o rosto do garoto, cada vez mais forte. O
outro menino assistia a tudo e sorria inocentemente considerando tudo aquilo uma grande
brincadeira. Depois de algum tempo de sufocamento o pequeno sofredor começou a debaterse freneticamente como se estivesse se afogando no mar da infância pouco vivida. Seu irmão começou a chorar, e percebendo que havia algo de errado pedia insistentemente para
seu pai parar. Aquela cena poderia certamente
comover qualquer indivíduo, mas Ele estava
implacável. Inabalável. Era como se uma força
maligna guiasse suas ações sem nenhum receio. A criança dera seu ultimo suspiro, “ele está dormindo, está só dormindo”, disse ele para
tranquilizar sua próxima vítima. Está dormindo.
Um eterno sono. Uma pequena vida esgotada
pelo extremo e doentio egoísmo desperto e alimentado elefantemente em tão pouco tempo.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O outro garoto, após ouvir seu pai, sentiu
um inexplicável frio na espinha provocado por
aquela voz gélida e assustadora. O medo atingiu dorsalmente o espírito da pobre criança que
correu desesperadamente gritando pela mãe.
Ao descer as escadas como se não houvesse
degraus, o garoto se deparou na cozinha com o
corpo incrivelmente perfurado de sua querida
mãe, sua agilidade de segundos atrás se fora o
deixando num estado de paralisia, simplesmente não conseguia se mover diante daquela imagem estarrecedora. O assassino rapidamente o
acompanhou. Confuso e desolado o menino
abraçou fortemente o pai apontado para sua
mãe como se uma dolorosa interrogação fosse
emitida pelo seu pequeno dedo indicador. Mal
sabia o garoto que estava agarrado ao homem
que causara toda aquela terrível situação. O
decadente escritor respirou fundo mais uma
vez e afastando os bracinhos do filho o segurou
pelo pescoço com a maior força que dispunha
e com o mínimo de piedade que se pode ter. O
menino não se cabia em agonia e não parava
de se contorcer. As lágrimas torrenciais não
cessavam, seu nariz escorria e sua respiração
se mostrava cada vez mais espaçada, e foi-se
esvaindo até o momento que não pôde mais
adiar seu encontro com a morte, desfaleceu.
Talvez ainda estivesse com um vestígio de vida
no momento que foi lançado ao chão, mas logo
cederia e morreria, possuía um corpo muito frágil. Estava feito. Terminado. Não havia mais
família. Na realidade não havia mais nada, também ele estava morto, de algum modo. Mas era
preciso escrever o livro, esse imperativo era o
que mais martelava em sua mente fria. Já se
imaginava descrevendo onde, quando, isso e
aquilo. Em sua cabeça todo o livro já estava
esboçado, só restava passar tudo isso para o
papel.
“Ó céus, porque a vida teria me destinado
tal dose de ironia?” Curiosamente não conseguia mais escrever. Não do jeito que tanto desejava, não podia se satisfazer com qualquer
frase, era sua obra-prima e precisava de uma
inspiração inconcebível, daquelas que não surgem a um individuo qualquer, aquelas que só
os grandes sábios conseguem aproveitar. Havia feito e desfeito um sem-número de inícios
para seu livro, mas nenhum estava digno, nunca estaria, pois depositou tamanha soberba e
expectativa em sua genialidade esquizofrênica
que a ultima coisa que teria competência pra
fazer era uma boa história. O Livro se tornara
maior que ele. Sua incapacidade de escrever
algo aceitável o deixou num estado ainda mais
deplorável. Suas esperanças foram postas numa história tão primorosa que ficou impossível
descrevê-la em simples palavras.
“É só uma questão de tempo! Logo estarei
vendo tudo com mais clareza e aí sim começarei a escrever tudo como tem de ser escrito, de
um modo impecável.” Não aconteceu. Alguns
dias se passaram, o telefone e a campainha já
haviam tocado infinitas vezes, como se o mundo perscrutasse alguma informação sobre a
família que a muito não dava sinal de vida. Ele
já não sabia mais o que fazer. Colocou a culpa
de sua surpreendente inércia literária no idioma, era demasiado limitado para expressar tão
grande emoção que transmitiria em seus escritos. Duas semanas se passaram. Emagrecera
alguns quilos; a barba já escurecera grande
parte seu rosto, tinha profundas olheiras causadas pela insônia crônica. Sua aparência se
transformara de tal modo como se buscasse
uma representação estética para se assemelhar ao que fizera com seus entes. Brutalidade.
Selvageria. Passou dois dias inteiros deitado,
olhando para o teto de braços abertos no tapete persa. Sem beber nem uma gota d’água,
sem comer sequer uma migalha de pão. Zumbi.
Pouco tempo depois de completar um
mês após o acontecido, ele começou realmente
a se dar conta do que havia feito, como se um
choque de realidade o atingisse vertiginosamente. Ficou horrorizado. As lágrimas secaram.
Não parava de tremer, nem mesmo quando ganhava alguns minutos de cochilo. Mas em nenhum momento pensou em suicídio. Os flashes
daquele dia fatídico surgiam em sua mente de
modo tal que o deixava com a sensação de estar enjaulado junto a crocodilos famintos. Mesmo assim ainda pensava em seu livro. Sua máquina de datilografia continuava lá de prontidão, esperando o primeiro lampejo do escritor.
Ele a fitava por várias horas ao dia, mas a folha
em branco posicionada no aparelho era o que
melhor representava sua inspiração para escrever.
Passaram-se mais alguns dias, seu corpo
estava num estado miserável, seus poucos
passos eram cada vez mais frágeis. E Aquele
cheiro insuportável. Alguns vizinhos que imaginaram por alto que a família teria viajado começaram a dar fé do odor. Na vizinhança mal conheciam uns aos outros, contudo perceberam
que alguma coisa estava errada. Chamaram a
polícia.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Chegaram rápido e sem titubear tocaram insistentemente a campainha. O escritor
a essa altura já imaginava quem estava à sua
porta e porque chegaram até ela. Não importava. Levantou-se do tapete persa se sacolejando desajeitado e um súbito desejo veio-lhe
à cabeça: queria ver sua família pela ultima
vez, por pior que estivessem, afinal, desde
aquele dia evitou passar o olhar sobre suas
vítimas, não os observara nem por um segundo. Então, foi lentamente ao quarto dos filhos
onde o mais novo sucumbira de modo cruel e
agonizante. Lá estava o pequeno que, mesmo rodeado por moscas, ainda parecia manter um tênue aspecto angelical. O escritor o
fitou por alguns segundos, depois começou a
tossir ininterruptamente em razão do fedor.
Ansiava vomitar, mas certamente nada sairia
daquele corpo a não ser resquícios de sua
bile. Desceu as escadas acompanhado do
toque cada vez mais decidido da campainha,
sabia que em um ou dois minutos tudo estaria acabado. Tudo, exceto seu livro.
Ao descer, dirigiu-se de um modo decadente até a cozinha, apoiou-se na parede
com a palma da mão e ergueu a cabeça em
direção aos corpos. Nesse exato momento,
um dos policiais virilmente arromba a porta
com um forte chute, o frágil escritor não se
deu ao trabalho de olhá-lo, era como se já
tivesse vivido esse momento mil vezes, nada
que acontecesse ali seria imprevisível para
ele. Os policiais tentam chamar a atenção do
moribundo entoando gritos firmes de ordem,
assim, com as pálpebras semiabertas ele cai
de joelhos, escorando as nádegas sobre seus
calcanhares encardidos, neste momento,
qualquer um que presenciasse tal cena
seria capaz de medir
até que ponto um ser
humano pode alcançar na escala da degradação. Após isto,
os policiais se entreolharam como se estivessem em dúvida da abordagem a ser executada, e não era à toa: o assassino aparentava
ser tão vítima quanto os cadáveres encontrados na casa momentos mais tarde. E dessa
forma, ele ficou conhecido por todo o país somente como o escritor assassino, não tinha
mais nome, não tinha mais nada, restou-lhe
apenas a perspectiva de escrever seu livro no
tempo perpétuo do cárcere.
AS FLORES DO CAMINHO
Por Estrela Radiante
Encontrei pelo caminho muitas flores,
Muitas delas com espinhos que causam dores,
Mas também tão belas com muitas cores,
E assim vamos vivendo entre amores.
Encontrei pelo caminho muitas rosas,
Muitas delas, tão bonitas, tão charmosas,
Exalando uma fragrância, perfumosas,
Enfeitando as pessoas, calorosas.
Encontrei pelo caminho os botões,
Espalhando a beleza, aos borbotões,
Entre as pedras e as areias dos sertões,
Consolando, quando em dores, os corações.
Encontrei bonitas flores, no jardim,
Entre rosas, amarelas e carmim,
Colorindo todo o verde, bem assim,
Enviei-lhe um buque, com fita de cetim.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
E O VARAL ANTOLÓGICO 2 SE ESTENDEU NA LINDA CIDADE DE
BRUMADINHO!
Foto de Valdeck Almeida de
Jesus
Com a coordenação de Norália de Mello Castro e o empenho conjunto de muitos cidadãos, o
Varal estendeu-se na cidade de Brumadinho, Minas Gerais no dia primeiro de junho.
A Casa da Cultura Carmita Passos, totalmente decorada para o evento com varais que dançavam pelas paredes e janelas, recebeu os coautores do livro Varal Antológico 2.
Foi um momento inesquecível, onde tivemos apresentação de coral, jovens e talentosos cantores e discursos emocionantes e emocionados.
Os escritores presentes distribuíram livros, trocaram ideias e levaram até Brumadinho a nova
literatura que vem surgindo com muita força!
Estiveram presentes os coautores: André Victtor, Flavia Menegaz, Vóf Fia, Norália de Mello
Castro, Valdeck Almeida de Jesus, Yara Darin, Clara Machado, Carla Renata Jorge Neves,
Cláudio de Almeida Hermínio, Irineu Baroni e a organizadora Jacqueline Aisenman.
Abaixo, as palavras de Claudio de Almeida Hermínio, coautor no livro Varal Antológico 2.
A IMPORTÂNCIA DA LITERATURA EM NOSSA VIDA
A Literatura tem o poder de levar-nos a refletir sobre a nossa condição existencial e sobre a situação sociocultural em que vivemos, ajudando-nos na formação da personalidade,
preservando o pensamento livre.
A Literatura se faz presente em todas as classes sociais: nos morros, sobre as palafitas,
nos palácios. Alguns tentam ignorá-la mas ela resiste e ressurge no dia a dia. Às vezes através das pessoas mais simples, um porteiro ou uma dona de casa. As histórias são contadas
de uma forma tão profunda que alçam voo e nas mãos de grandes escritores, elas são capazes de atravessar o oceano e aqueles que as contaram se tornam contadores de existência.
QUE SEJAMOS CONTADORES DE EXISTÊNCIA!
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Fotos de Valdeck Almeida de Jesus, Yara Abreu, Carla Jorge Neves, Madhu Maretiore,
entre outros.
De mensagem recebida de Norália de Mello Castro:
Com a passagem do Varal do Brasil em Brumadinho duas
coisas maravilhosas estão acontecendo na cidade!
No dia 1o. de junho foi iniciada a BIBLIOTECA da Casa de
Cultura, que será aberta para toda a comunidade!
Os poetas participantes sugeriram que fosse criado um dia
oficial para a POESIA. O pedido foi acolhido com muita
satisfação e estão estudando a criação desse dia, através
de uma lei.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Por Fabiane Ribeiro
A luz revestiu seu corpo e fez doer seus olhos que, diferentemente de quando ele estava acordado, contemplavam tudo pela mágica da visão.
Conto 4 – A rosa da noite escura
“...Eu andei por entre serpentes e espinhos naquele noite, como nas anteriores. Meu pé cortou-se em sangue.
Seria um vermelho vivo a colorir de forma assustadora o
solo negro, mas a escuridão impedia-me de ver o sangue
jorrar; apenas podia senti-lo. Olhos fitavam-me como estrelas na noite escura. Guizos eriçavam-me os pelos. E
os espinhos... esses, dilaceravam-me”.
***
— Você está bem? Consegue nos ouvir? – alguém dizia
ao longe.
Tudo girava sem, contudo, sair do lugar.
— O que aconteceu? – ele perguntava. Mas não havia
resposta.
O mundo parecia em silêncio ao seu redor. Entretanto,
ele podia sentir o tumulto que se formara.
Mas os olhos... Os pares de olhos de serpentes o perseguiam... E ele não era capaz de fugir. Cruzava túneis
incontáveis. Descia e subia degraus invisíveis de escadas sem fim.
Olhou para o lado e viu que não estava sozinho. Alguém
caminhava junto dele.
Ele soube, então, o que tudo aquilo significava.
Aquela pessoa estivera com ele desde o início de sua
jornada pela noite escura. Estivera ao seu lado por entre
as cobras e os espinhos, compartilhando sua dor. Foi a
presença, antes oculta pela escuridão, daquela pessoa,
que lhe deu forças para continuar; para dar cada novo
passo.
Ele havia alcançado o sol. E sua luz dera-lhe o privilégio
de contemplar aquela moça... que estivera como um anjo
a levá-lo adiante pelo caminho.
As mãos, que estiveram lado a lado na escuridão, entrelaçaram-se sob a luz do sol. Eles marcharam juntos em
direção ao oásis. Mas, ao aproximarem-se, puderam perceber que não se tratava exatamente de um oásis. Eles
puderam ver que era apenas uma rosa, sozinha, imperando sob os raios do sol.
Ele fechou os olhos, deixou de enxergar. Ouviu os murmúrios de seus colegas na reunião cada vez mais altos.
— Que susto – alguém falou – você estava descrevendo
um pesadelo e, de repente, desmaiou.
A escuridão imperava. Ele podia enxergar. De forma inu— Eu não desmaiei – ele falou, reerguendo-se – eu apesitada, estava de olhos abertos, e justo agora, tudo que o nas fui sugado com toda força para o pesadelo recorrenenvolvia era escuridão.
te que tenho. Entretanto, pela primeira vez eu vi seu fim
e pude compreendê-lo. O pesadelo tornou-se o sonho
— O que significa tudo isso? Que lugar é esse? – ele
mais lindo... Nós nunca estamos sozinhos. Mãos invisídizia entre sussurros desesperados.
veis conduzem-nos por entre as serpentes e os espiFechou novamente os olhos, estava na sala de reuniões nhos.
dos deficientes visuais, caído ao chão. As pessoas falaUma rosa havia surgido na noite escura e se fortalecido
vam com ele; ele respondia. Mas ninguém o escutava...
em meio as areias do deserto; podendo ser vista apenas
Abriu os olhos e viu-se novamente preso dentro daquele sob a luz do sol, mas podendo ser sentida a cada novo
pesadelo sem fim.
pulsar de qualquer existência que estivera à sua procura.
Andou sob o peso da escuridão por horas incontáveis. O Ele soube que, na verdade, a ausência de luz em sua
solo pedregoso e forrado de espinhos e serpentes acom- visão não o tornava só. Ele sempre tivera alguém ao seu
panhou-o por boa parte da jornada. Até que ele parou
lado, mesmo que teimasse em não perceber.
para tomar fôlego e viu que, ao longe, as pedras transformavam-se em areia... Era um deserto que agora se pro- No fundo, aquela rosa trouxera consigo uma lição: não
há escuridão ou medo suficiente para afastar dois corajetava frente a seus olhos.
ções que batem como um só. Aquela rosa parecia anunEle correu. Reuniu forças que não sabia possuir, e checiar ao vento do deserto, sob a luz do sol ou sob a escugou arrastando-se ao deserto. A suavidade daquele solo ridão da noite fria, que qualquer jardim regado a dois é
fez seus pés, feridos, estremecerem de satisfação. Revi- mais florido.
gorado, ele continuou a jornada e, após muito caminhar,
contemplando apenas areia, um oásis surgiu em sua vis- Após acalmar todos os membros do grupo de deficientes
visuais, a coordenadora Maria Isabel prosseguiu com a
ta. Junto de um belo raio de sol.
reunião...
Tudo se fez claridade.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Simetrias e Reflexos
Por Felipe Cattapan
Na simetria convexa de um jardim zen
crianças brilham bolinhas de gude.
Opaco,
um velho sem palavras
só entrevê uma falta de decoro.
Mas longe dali,
na solidão côncava de uma eternidade incolor,
Buda sorri
e em silêncio reflete
que enquanto houver luz e aurora
todas as cores serão consentidas
aos seres iluminados.
Sem dissolver o transe policromático
as crianças se perpetuam
na infinitude da brincadeira caleidoscópica...
experimentando
na cor do fluxo de cada movimento
que estar
é o brilho invisível de ser.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Algumas coisas que você precisa
saber sobre New York
Por Fernanda de Figueiredo Ferraz
Você precisa saber que a temperatura
muda de repente. Você precisa saber que a arquitetura é magnífica. Você precisa saber que
encontrará qualquer coisa que procurar, porém,
você precisa saber que não é para visitar o
“ponto zero” entre 8:00 am ou 10:00 am, pois
correrá risco de atropelamento por “pés”.
NY é uma das cidades mais populosas
do mundo. - Também não pode parar para
atender o telefone no meio da Av. Lexington
entre a 42th e 44th street, pois correrá o mesmo risco. Se sair da Grand Central nos horários
de pico, somente ande para onde a multidão
esteja andando, não importa, você pára para
averiguar o mapa e a direção assim que avistar
uma porta de qualquer lojinha, não pare nem
para ver que tipo de loja, entre! Pode ser de
brinquedos, café, perfumes, bebidas, revistas,
já disse que não importa, salve-se e veja onde
está.
Há uns meses fui a uma entrevista em
downtown as 8:00 am da manhã, imaginem
aquela delícia de metrô! Para o metrô eu estava preparada, não estava preparada era para a
enxurrada de gente saindo debaixo da terra, eu
de um lado, e mais outros 5 a 10 corredores
emergindo do subterrâneo para a superfície e
se afunilando nas ruas. Você anda e anda rápido.
O meu sapato era novo, como todo o
visual para a promissora entrevista, só que o
sapatinho resolveu dar um show de “atacação”,
era de frente, de lado, atrás e eu andando, eu
sentia as bolhas nascerem e estourarem, tudo
isso sem saber muito se eu estava na direção
certa, mas Manhattan neste horário só tem uma
mão, a mão downtown. A vontade de parar para arrumar o “dito cujo” era imensa, mas ao espiar de rabo de olho aquela gente, gente mesmo, multidão atrás de mim, quase cheirando o
meu cangote, um pânico me vinha e eu andava. Eu tentava enxergar uma árvore, um poste,
uma coluna, uma parede para encostar, e era
só parede de gente. Andei algumas boas milhas até conseguir cruzar da esquerda para a
direita e entrar num café. É nessas horas eu
quero socar as placas de push, porque eu sempre puxo! Claro que eu puxando a porta do café
e todas as pessoas que saíram dos 5 a 10 escadas do metrô se entrelaçando nas ruas e andando freneticamente eu fui empurrada e atropelada umas 20 vezes, quase perdi minha bolsa, mas não caí.
Neste ponto não conseguia andar
mais um quarteirão inteiro com aquele sapato,
meus pés estavam em carne viva, e eram os
dois, me impossibilitando de mancar se quer.
Fui para a entrevista, porque nessas horas o
corpo solta um “Q” de adrenalina que não te
deixa tirar do foco maior – A entrevista – Fui
arrastando os pés como se fossem patins. Não
deu, parei na primeira loja de sapatos que avistei e achei um único par disponível do meu tamanho: uma sapatilha dourada com glitter dourado!!! Torci o nariz, abaixei a cabeça e falei
com vergonha: Eu vou levar.
Além da barra da calça ficar arrastando no chão, arrasando o figurino preestabelecido, a sapatilha chamava mais atenção que EU,
a entrevistada, não adiantava nem dar cambalhotas, a “brilhosa” me ofuscava.
Voltei para casa descalça, sem emprego, na contramão, mas fora do horário de pico.
Agora, você deve saber que em cada quarteirão da ilha você achará 2 Starbucks, as vezes
do mesmo lado da rua, as vezes no lado contrário e para cada 1 “Starbucks” você achará 4
“Dry Cleanears”, 3 “Nail Salon” e 2 casas de
massagens. Por fim entendi porque existem
tantos serviços de massagem de pé! Foi lá que
afoguei minha mágoa do dia, relaxei e deixei
uma tip enorme para a massagista que sorria
sem parar
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Covardia
Por Fernando Ferreira
Queria ter a vocação para a galhofa
e tornar-me poeta satírico, trocista
mas coragem me falta.
Bebo o mundo da superfície,
embora acalente a latente utopia
de profundos mergulhos,
mas sou covarde.
Não cultivei em meu espírito
a bravura do tigre, antes finjo de morto
contraído em inseto, fixo, uma planta carnívora
contentando com eventuais moscas incautas
destarte cobice um banquete de javalis;
mas me falta coragem.
Se não me perguntam, também nada digo
e assim, não me contagio.
Não sei se lhes disse, mas sou covarde.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
VARAL ANTOLÓGICO 3
Abrem-se dia 10 de agosto as inscrições para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO 3 a
ser lançado em 2013.
Os interessados deverão enviar textos (no mínimo um, no máximo 5) num total de cinco páginas
A5, letra Times New Roman 12, espaço 1.5.
Todos os textos serão examinados por uma Comissão Examinadora composta de escritores e
críticos que acompanham e/ou participam do Varal do Brasil.
Os textos selecionados serão comunicados por e-mail a cada autor até o dia 10 de outubro de
2012 e farão parte do livro Varal Antológico 3 mediante participação cooperativa.
O regulamento para a participação da seleção estará disponível no site e blog do Varal do Brasil,
assim como através do e-mail [email protected] a partir de 10 de agosto de 2012.
O tema será livre e os textos podem ser: contos, crônicas ou poemas (todos os três em todas as
suas variações).
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
ROCAMBOLE DE CARNE
http://www.ligadanasdicas.com/
Ingredientes
Um quilo de carne moída;
- Um pacote de sopa de cebola;
- E duas colheres (sopa) de maionese.
Para o recheio sugerimos:
- Fatias de bacon;
- Ovos cozidos;
- Azeitonas sem caroço e cortadas em fatias;
- Rodelas de tomate;
- E rodelas de cebola.
Modo de preparo
Misture todos os ingredientes nas quantias certas e coloque em um recipiente em que você possa abrir completamente essa massa de carne para colocar o recheio.
No recheio, coloque todos os ingredientes à vontade misturando todos eles sobre a carne
aberta. Após rechear, enrole em forma de rocambole e leve ao forno quente. Após alguns
minutos, o seu rocambole de carne estará pronto para servir.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O ESCRITOR E O LEITOR
Por Jacqueline Aisenman
Há uma relação muito importante e delicada chamada escritor e leitor.
Por não entendê-la, há escritores que se entristecem e leitores que se fecham.
Quem escreve tem em suas aspirações um gênero preferido (há os que se devotam à poesia,
os que preferem contos, romances, crônicas, etc..) ou que escrevem um pouco de tudo.
Quem lê tem também seus gêneros preferidos (ou gênero!) ou também gosta talvez de um
pouco de tudo.
Citando a poesia, por exemplo, há os que gostam de escrever todos os tipos de poemas, alguns gostam apenas de sonetos, outros de haicais, ou outros tipos ainda; alguns gostam das
rimas, outros detestam. Assim também são os leitores, que têm certamente suas preferências.
Todo escritor tem certeza de que será lido e reconhecido. Todo leitor tem sua opinião sobre o
que leu e sabe da importância da mesma. Nem todo escritor será lido e/ou reconhecido. Nem
todo leitor terá sua opinião reconhecida.
Entre estilos e gêneros, leitor e escritor se encontram nas páginas de um livro.
Há os que gostam de um estilo e detestam outros. Há os que apreciam a diversidade de estilos.
Há os que escrevem inspirados em algum estilo. Há os que criam o seu próprio estilo. Há os
que escrevem muito; assim também os que escrevem só de vez em quando.
Dentre os escritores, há os nomes que todo leitor conhece e que são por muitos divulgados.
Há também os nomes que o leitor descobre. Há aqueles que permanecerão em gavetas e que
o leitor não conhecerá. Há os que se tornarão conhecidos como suas inspirações.
Há escritores que vendem muito porque os leitores já conhecem o que escreve e há escritores que vendem pouco porque ainda não são conhecidos dos leitores.
Há tantos gêneros e estilos quando há leitores e escritores (alguns gostam de ser chamados
apenas de poetas, outros de contistas ou cronistas ou romancistas...). Alguns leitores tornamse críticos.
Mas só uma coisa pode mesmo unir leitor e escritor: o amor pelas letras. Se o escritor tiver
amor e paciência, deixará que o leitor faça seu caminho e chegue a ele. Também compreenderá que há leitores que não virão porque... porque é assim! Se o leitor tiver vontade, abrirá
seus horizontes e buscará no novas alternativas e continuação para aquilo que já aprecia.
Por isto se compreende aqui nesta dinâmica, mais do que em outras, quando se fala que “há
gosto para tudo”. Enfim... como já diziam os antigos: “o que seria do amarelo se todo mundo
gostasse apenas do verde?”! Esta é uma frase que explica bem!
Mas escrever e ler, leitura e escrita, isto funciona como a vida: não existe caminho apenas de
ida, não há apenas uma cor, não há somente um tom. Há espaço para todos!
Que os leitores sempre encontrem novos autores e os escritores sempre encontrem novos
leitores!
Que a literatura se renove sempre e nunca deixe de prestigiar os que são e sempre serão as
nossas fontes de inspiração!
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
A elegância dos destituídos
Por Giordana Bonifácio
O brasileiro age com muita elegância.
Não se revolta, não grita, matem-se calmo e
aceita as mais terríveis atribulações com um
sorriso estampado na cara. Se isso não for o
máximo que se pode exigir de um gentleman,
então não sei do que se trata elegância. Nós
ficamos mudos enquanto desviam o dinheiro de
nossos impostos. E reclamamos pouco do descaso do governo com saúde, educação e segurança. Somos extremamente educados, no
sentido da polidez que se exige em situações
como esta. Quase apresentamos o nosso bolso
para os corruptos saquearem com mais facilidade o fruto do nosso trabalho: “aqui senhor,
ainda restam dois reais.” Mas eles como sinal
de delicadeza nos deixam ficar com esta migalha para que possamos pagar o transporte público caríssimo e de condições deploráveis que
os nossos governantes nos oferecem. Não
existem creches, hospitais com leitos suficientes ou saneamento básico, mas em breve aqui
se dará a Copa do mundo e prometemos receber os turistas com toda nossa hospitalidade.
Viu, o brasileiro é um poço de cavalheirismo.
As escolas estão ruindo? Os professores são
desprezados e mal-pagos? Não há problema,
eis que a Olimpíada, vai trazer divisas para o
Brasil, nem que seja por curtos dois meses. E
depois disso, a gente bem que poderia despertar desse torpor. “Cruz-credo, parece macumba. Será que nos lançaram um encosto?” A
gente não sente, as agulhas encravadas no
nosso corpo. É IPI, IPVA, IPTU, IR e outro tanto
de impostos que são encravados na nossa pele. E nem adianta enganar a Receita. O país
não tem um bom mecanismo para localizar criminosos, mas para “mal-pagadores”, nossa,
encontram você até na mais remota tribo indígena do Acre! E o brasileiro já parece até boneco vodu.
Sem querer nos envolver, sem querer
nos misturar, sem querer e querendo a gente
aceita muita coisa. Rios de dinheiro são desviados e muitas vezes com nosso consentimento.
Porque aquele político, sabe aquele, de paletó
e gravata e discurso mole? Sim, ele pode ser
corrupto, mas, algumas coisinhas pequenas,
ele faz. Algo como inaugurar obras que demoraram décadas para ficarem “meio-prontas”.
Porque têm de ficarem inacabadas, senão, co-
mo aquele homem bem apessoado e carismático que elegemos saquearia os recursos da nação? E a gente corre atrás do “trio-elétrico” para acompanhar o showmício desse e daquele
candidato que na campanha abraçam-nos e
tratam-nos como iguais. Porém, só basta serem
eleitos que nos lançam na mais abjeta sarjeta.
Nem se recordam de qualquer promessa que
tenham feito e que empenharam o fio do bigode
para provar sua honestidade. E nós como gado
manso, somos massa de manobra. Sem função
alguma, a não ser a de dizer sim a tudo. Quem
vai se revoltar? Quem vai protestar e importunar os donos do poder? Nós? Não, somos muito corteses para atos tão selvagens. A crítica
ácida deixamos para nossos irmãos Argentinos
que gostam de fazer paneladas. “Gente mais
mal-educada!” Gostamos mesmo é de sorrir
das situações, como se a piada apagasse o
desgosto e amenizasse a vergonha. Uma guerra política ocupa as páginas dos jornais e poucos sabem algo mais profundo sobre a cachoeira de escândalos que entopem a mídia. Está
todo mundo envolvido? Esquerda e Direita? Sigamos pelo centro então, que brasileiro não admite, mas adora ficar em cima do muro, sem
opinar em nada. Quem se importa se há uma
inflação mascarada e nossos salários estão se
depreciando? Besteira, ainda dá para comprar
um carro popular à milhões de prestações, porque o IPI está reduzido. Reduzida também está
a qualidade de nossas estradas. Buracos que
se reabrem todo período de chuvas e são tampados toscamente, porque, o dinheiro para esse serviço também foi parar numa conta de laranjas num paraíso fiscal.
Mas a gente sabe tudo sobre laranja,
não foi para ela que perdemos na última Copa?
A Holanda, a laranja mecânica que nos atropelou? E fomos muito gentis com nossos oponentes. Reconhecemos sua superioridade. Mas
nós, nativos desse país de poucos, não faltamos com a delicadeza. Conferimos sempre
uma segunda chance para aqueles que nos enganaram. Alguma coisa como “ofereça a outra
face”. E aqueles que sumiram com um milhão
agem com mais destreza e evadem do país
com cem milhões. “São espertos, se fosse eu,
faria o mesmo!” Assumem alguns que não têm
sequer a possibilidade, nessa terra excludente,
de ocupar a cadeira do rei. “Somos brasileiros e
não desistimos nunca”, grita o slogan. E ficamos certos que não desistimos é de sobreviver
em meio a tantas dificuldades. É tanta greve,
tanto descaso e impunidade que ficamos até
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
calejados. A gente tem “casca grossa”. E comemos o feijão com arroz que pesa cada vez
mais na cesta básica do povo. Silenciosamente, sentimo-nos representados quando ouvimos
o hino nacional, mesmo que muitos não saibam
sequer entoá-lo por completo. “O judiciário não
representa o povo.” Tenta alertar a imprensa
com manchetes em destaque. A gente lê e deixa passar, pois, o que se pode fazer?
A gente desaprendeu a levantar a voz. Com
muito custo a gente se rebela e fala mal do árbitro da partida de futebol. A condição dos estádios era deplorável? Aí vem uma Copa do mundo, afinal, esse problema será resolvido. Não
podemos receber os visitantes com a casa “mal
-arrumada”. Sabemos que os engarrafamentos
serão colossais, mas vamos brincar com as
nossas mazelas. Se muitos ficarão presos no
trânsito, que tal fazermos uma piada sobre o
brasileiro que foi assistir ao jogo e chegou aos
quarenta e cinco do segundo tempo, bem na
hora de ver a nossa querida seleção ser eliminada da Copa? Difundir-se-á como água na internet. É bom ressaltar, nossos provedores de
internet cobram os preços mais caros de todo
mundo para nos fornecer um serviço contra o
qual chovem reclamações. Mas seremos socorridos em tempo por nossa emissora favorita de
televisão que amenizará as dores de nossas
feridas com novelas cuja função primordial é
abafar nossa indignação.
E depois disso tudo, seremos ainda mais
cordiais, deixando nossos gênios venderem-se
para as grandes nações porque, nesse país, o
saber é desprezado. Permitamos que nossas
maiores invenções sejam patenteadas por empresas estrangeiras. Afinal, nós somos solidários. Doamos nossas riquezas a troco de nada.
E ficamos felizes quando é alardeado que somos a sexta economia do mundo. E se não
permitíssemos que nos roubassem de todas as
maneiras escusas nessa crônica demonstradas? Se houvesse um investimento verdadeiro
em nossa educação tão sucateada? Se nossas
indústrias fossem motivadas a produzir com
mais qualidade a um menor preço? E se a segurança permitisse que andássemos tranquilos
em nosso próprio país? E se o serviço de saúde fosse condizente com nosso tão propagado
poderio econômico? O que seríamos se não
aceitássemos com tanta passividade a condição degradante a que nos submetem? Seríamos o país que tanto esperamos? A gente tem
de reaprender a gritar, porque a nossa, até
agora, elogiada boa-educação está nos causando muitos problemas. Vamos tirar esses
óculos que não nos permitem enxergar a realidade. Se continuarmos a recitar a ladainha dos
políticos, sim, aquela do “Brasil, país do futuro”,
(ou de todos, como o governo não cansa de
lembrar), não nos daremos conta que o futuro
já chegou e não estamos nele. E que estamos
num Estado de poucos para poucos que exclui
a grande maioria que engole tudo em troca de
quase nada. Nosso povo aceita nossa desigualdade em função da política assistencialista,
que oferece bolsas miseráveis aos pobres para
ter seu apoio incondicional. Insurja-se nação
tupiniquim, que o seu brado heroico retumbante
ressoará pelos cinco continentes! Por isso,
creio que nossa gentileza está nos fazendo
mansos. Melhor que sejamos ouvidos, mesmo
que para tanto tenhamos de nos rebelar e acabar com o mito da nossa hospitalidade. Porque
já dizia minha mãe, “quem muito se abaixa, o
rabo lhe aparece”.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
A Pagina em branco e as ideias
Por Francy Wagner
As ideias ficam borbulhando na cabeça e o pavor de uma pagina em branco as escondem
nos cantos escuros do coração.
É muito interessante quando se tenta fazer um
texto, trabalhado para publicação. É muito mais
fácil quando simplesmente se escreve aquilo, o
que se pensa, e as ideias vão se encadeando
tal e qual uma corrente logica ou sem logica.
Escrever se torna então um vicio, uma necessidade de se por para fora aquelas ideias que
ficam ali, nos perseguindo os pensamentos como sombras, fantasmas de nossa mente, se
enrolando e enroscando nos neurônios, cortando ligações de pensamentos lógicos, e tornando nossa vida um passar de horas angustiantes, pois a necessidade é faminta.
Fome de expor aquilo que nos incomoda.
Apenas uma ideia... apenas um tema... contudo, se esse tema não é desenvolvido com o
auxilio dos signos, vai crescendo sem forma e
se torna um monstro voraz que engole a paciência, a logica e a vontade.
O desenvolvimento do tema, escrever aquilo
que se passa dentro da alma, tornou-se para
mim a maior e melhor terapia para minha depressão, para esclarecimento de duvidas, para
busca de soluções. A folha em branco agora é
minha melhor amiga; a caneta companheira
inseparável e o computador, esse, o amante
parceiro de todas as horas e situações.
Meu vicio não tem hora. Minha necessidade se
apresenta nos momentos mais inusitados, imprevisível como uma mulher.
Os temas são tão variados quanto os objetos
oferecidos nas pequenas lojas de “quase tudo”;
dos necessários aos supérfluos, dos mais simples aos mais complexos, tecnologia de ultima
geração.
Meu sonho: ver meus textos lidos, comentados.
Os leitores são meu publico. Os comentários os
aplausos.
Infelizmente tenho poucos leitores e não conheço os métodos de propaganda.
Todo artista precisa de alguém que lhe exponha os trabalhos. O artista produz mas não sabe vender. Um artista não sabe nem dar valor
aquilo que produz, pois dentro de sua alma ainda há muito o que produzir e o tempo é pouco.
Aqueles que vendem o material que o artista
produz, ditam as regras de mercado. São comerciantes. Comerciante que precisa ser especial. A mercadoria que ele está oferecendo, valorizando, vendendo, é algo imaterial: é um pedacinho da alma de alguém.
A alma do artista produz frutos que exporta para as outras almas.
Este alimento é essencial para a sobrevivência
da emoção.
Sem o alimento da alma, as pessoas vão se
tornando secas, amargas, morrendo por dentro:
tornam-se zumbis que vagam pelas ruas em
busca de algo que as satisfaça, comprando tudo aquilo que o dinheiro ganho com seu esforço é capaz de oferecer.
Amontoam-se roupas, sapatos, bolsas, utensílios domésticos, elétricos, eletrônicos, jogos de
videogame, imóveis, moveis, enfim toda a sorte
de matéria que é linda aos olhos na loja e logo
depois perde o brilho. Lembrei dos terços de
contas transparentes das feiras do interior do
nordeste, de onde venho. Quando saem do foco das luzes amarelas penduradas nos ferros
de sustentação das barracas, perdem o brilho...
deixam de ser brilhantes para serem exatamente aquilo que são: contas de vidro ou plástico
duro, com um furinho por onde passa aquele fio
e as transformam num terço católico.
Então, para se tornarem brilhantes novamente
aos olhos de quem as comprou, precisam de
uma luz, precisam ser banhadas novamente
com algo imaterial: a fé!
O alimento da alma esta ali, brilhante novamente aos olhos.
A produção do artista é isso: o alimento vivo da
alma, sem meios termos. Puro, que envolve,
que da a vida, que reanima, que ressuscita!
Todos os dias eu ressuscito dos mortos quando
acordo pela manha e decido se vai ser um dia
se ser zumbi, ou um dia de vida, de alegria; um
dia que meu sol vai brilhar, mesmo que esteja
chovendo la fora, mesmo que esteja nevando.
Meu sol pode brilhar de noite, de madrugada...
qualquer momento, pois ele esta dentro de
mim. No peito, habitado pela Alma, pelos sentimentos.
Sinto a dor da saudade na alma, sinto a raiva
na alma, sinto o amor na alma... o corpo sua
vestimenta: uma maquina perfeita, funcional,
equilibrada, governada pelo maior e mais poderoso computador do universo: o cérebro.
Se eu acordar e deixar meu cérebro guiar minha vida naquele dia, viro um zumbi, faço tudo
logicamente perfeito, livre de emoções que
possam me atrapalhar o raciocino.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Se eu acordar e decidir que minha alma vai guiar
minha vida naquele dia, viro um louco alucinado,
sem logica, sem regras, sem fronteiras.
Terei um dia de produção artística: um dia onde
tudo brilha, meu sol brilha e minha alma produz.
A busca deste século é juntar alma e cérebro, trabalhando juntos, no mesmo corpo!
Vou deixar esse assunto para seus pesquisadores exotéricos. Este segredo é hermético!
Desta forma a folha em branco não é mais tão pavorosa.
O texto esta pronto, pronto para ser revisado pelo
cérebro. Pronto para se tornar alimento, gostoso
ou não, vai depender do apetite do leitor.
A única garantia do escritor, é que o prato foi preparado com carinho. Estará servido através de
um Servidor na Internet, pois não tenho avaliador
de preço, intermediário, comerciante para meus
textos... ainda não foram suficientemente saboreados nem levados ao mercado. Ainda é uma pequena produção caseira, para aqueles convidados especiais.
Bom apetite!
VARAL DE SETEMBRO
NOSSA INFÂNCIA
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Impulso
Por Guacira Maciel
Saltou na Estação Rodoviária... que lugar é este? O inferno? A cabeça, zonza, deu-lhe
uma sacudidela. Estava tonto por tantas horas sem o sono gostoso, que começava com
as galinhas empoleirando-se no pé de caju, cuja raiz já nascera se arrastando feito cobra
ao sol do sertão. Também acordava junto com elas; era bom ouvir o galo cantar de madrugadinha, aquilo tinha um gosto de café quentinho e de lida. Passou a mão sobre os
olhos macerados para espantar a pasmaceira. Só então se deu conta da dor que lhe martelava o corpo em algum lugar. Não; ela estava por todo o corpo, mas era pior no ponto
sobre o qual passou a mão calosa de trabalhador. É...é aqui que dói mais; deve ser fome,
e pensou que não comia feito gente desde o início da viagem. Sentiu saudade e veio-lhe à
boca o gosto do feijãozinho com carne seca feito por Dona Sebastiana. Bom, aquele gosto... gosto de mãe, gosto de terra do roçadinho que botava o pão na mesa da família. E
gosto da feira do sábado, quando todos os vizinhos levavam seus produtos quase que para serem trocados por outros, como um escambo. A feira era colorida, parecia sempre o
dia da festa da Padroeira. As meninas vestidas com suas “roupas de sair” passeavam grudadinhas com as mãos dadas feito corda de licuri, olhando como quem não quer nada,
para os meninos que ajudavam os pais no trabalho pesado, fingindo não vê-las. Outra
pontada o lembrou que precisava comer. Que dia é hoje? Perguntou pensando alto sem
perceber; ainda assim olhou para os lados esperando uma resposta que não veio. Vixe!
Aqui as pessoas não ouvem, não enxergam, nem falam? Só olham, olham para nós com
estranheza, como se a gente fosse de outro planeta. A dor da fome deu-lhe outra fisgada
e sentiu vertigem, vixe maria! E agora? Preciso comer, lembrou outra vez. Era fome, cansaço e saudade, tudo misturado. A coisa tá piorando...Sentou-se em um banco, uma média de café com leite num copo de plástico tão vagabundo que lhe queimava a mão, ocupava uma delas, mas isso lhe deu certo conforto; ainda estava vivo; na outra um pão com
margarina; isso lá é manteiga!... Ficou olhando sem ver o vai e vem ensurdecedor. Em
algum momento pensou...parecem formigas...as lágrimas quentes nublaram a vista ardida, cansada...o seu lugar não era ali...engoliu o pão com dificuldade, jogou o copo sujo no
lixo e levantou já procurando o papelzinho com o endereço do primo Natanael.
Imagem: h$p://detemposemcoisas.blogspot.ch/
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Gosto de rabiscar perigosamente
nas linhas rígidas do meu caderno, embora
minhas escritas sejam tortas, vivo em eterno
estágio letárgico perdida entre minhas garatujas, procuro como uma equilibrista, manter-me
sempre nessa corda bamba. As letras são meu
suporte.
Um bom assunto
Por Gladys Giménez
O professor Jaime Cimenti, em certa
feita disse: “...o cronista que é um vampiro
de assuntos, tem como vício aproximar-se das
pessoas para roubar histórias.” Senti-me assim,
uma vampira tentando sugar histórias para a
próxima história. Já não me sinto culpada em
fazer de conta que estou lendo, ou apenas
apreciando a paisagem e fingidamente captar
as nuances, infiltrar-me nas entrelinhas, envolver-me qual radar em conversas que rondam
meus ouvidos. Tomo ciência que meu maior
Costumo escrever poesias, pequenos romance é certamente, a criação de um ato libitextos, testículos enfim, mas aventurar-me nos dinoso entre o papel qual noiva de branco à espera da cilíndrica tinta, ambas seduzidas pelas
intrínsecos caminhos da crônica, para mim, é
algo inusitado, pois muitas vezes pareço-me a mãos que as afagam e rompe com sua pureza
uma folha em branco, meu cérebro escarafun- para depois jogá-las ao mundo e serem devoradas pela curiosidade humana.
cha até os recônditos e na maioria das vezes
não encontra nada. Síndrome da página em
Assim como o morcego que suga dos
branco? Talvez, pois há quem diga que na mi- pomares alheios a fruta e depois dispersa suas
nha idade muita informação atrapalha, começo sementes favorecendo o ecossistema, ajo ena acreditar nisso. Mas, voltemos ao assunto
tão como a dinâmica desses bichos alados, disprincipal deste texto. De uns tempos para cá
persando, contribuindo para a cultura, se assim
me deparei a prestar mais atenção nos movifor possível.
mentos das pessoas que habitam meu planeta. Sugar do mundo e jogá-lo ao mundo. Está aí,
Particularmente meu planeta é Vênus, minha
creio eu, uma boa perspectiva para os meus
Musa inspiradora gosta de silêncio, de quietu- apanhados secretos.
de, taurinas são esquivas, mas como ia dizendo, comecei a interessar-me por histórias contadas ao léu, comecei a olhar com atenção as
cenas corriqueiras que aconteciam do outro lado da minha vida. Sem querer comecei a colecionar histórias. Depois de um breve tempo alimentando-me desse novo ruído, ruminando sobre meu novo hobby , dei um salto e pergunteime: para quê? Que utilidade eu daria a essa
caixa de pandora? Ideia remota parece que eu
até tinha, mas na realidade ainda não passava
de um grande ponto de interrogação em mim.
Iniciei a escrevinhar. Parto difícil
este. Estou gostando da experiência, algo novo, desafiador, mas terei que ter persistência,
tesão pela arte, de outra feita já faz muito que
brinco com as letras, elas nunca me decepcionam, são maleáveis, curvam-se aos meus caprichos.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Sarah Venturim Lasso
...CAPITÃES DA AREIA, DE JORGE
AMADO?
Com o centenário de Jorge Amado esse ano, seus livros que já
eram famosos, ficaram ainda mais na moda.
O livro, que foi publicado em 1937, conta a história de meninos
abandonados em Salvador, tema que até hoje é atual. Essa
obra foi perseguida e queimada em praça pública em Salvador , em 1937.
A obra é dividida em três parte, o que considero interessante e
faz dela ainda mais prazerosa de ler, pois pode-se reler alguma
parte individual (tenho mania de reler livros que já li, várias vezes).
O jeito único de escrever de Jorge, faz o leitor se emocionar e
envolver com os personagens, cujos nomes são uma diversão
parte: Volta seca, Gato, Boa-vida, Sem-pernas, Pirulito, entre outros.
Um livro atemporal, que com certeza será apreciado por mais cem anos.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
FOGUEIRA DE IDEIAS
Por Wilson Caritta
Quando penso em me queimar
Vem na mente tanta coisa
Que até se mente à coisa feita
Não faz falta
Há quem faz farta
Alguma mesa
Onde falta
Até a falta
Mas se na mente
Não se mente o tempo todo
Fica na gente
Um gosto e tanto
De um tempo morto e enterrado
Na queimação que assim me invade
Meio assim desconjugada
Na perdição da mente arde
Uma pergunta:
Se queimado todo o amor,
Que cheiro terá espalhado?
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
CHEGADA
E
PARTIDA
Por Viviane Schiller Balau
Que linda chegada filho!
Deus concedeu-me
Para abrilhantar minha vida
Junto com você e,
Hoje sinto que nunca poderia...
Dizer adeus pela sua partida
Quero que saiba meu amado
Anjo que me deixou inesperadamente
Pelas mãos de uns desalmados que vinham
Fazendo racha e atropelaram você; e o mataram...
Meu amado que partiu para morar com
Senhor deixando muita saudade,
Lembrança de tudo o que ficou na vida.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
enterra em suas entranhas geladas
A LÍNGUA DO MAR
todo aquele que vai ou vem.
Mulheres cansadas choravam
Um canto sem lágrimas
Por Ivane Laurete Perotti
um canto sem cor.
Foram-se os rostos cansados
Sereias sem manto
Era uma partida sem dor.
juntavam-se para ouvir o clamor.
A ponte levantara tropeços
Das ondas que levaram a esperança
na entrada do cais.
subia um mastro de horror
Nenhum navio aportara
era a paga que ainda faziam
na baía destroçada.
aqueles que esperavam
Partiram velhos e jovens,
esperavam...
quem estava tentou ficar,
mas a língua do mar era grande
e um a um conseguiu alcançar.
A dor apareceu salgada,
quebrada,
estilhaçada.
Levou o passado
e deixou o futuro
onde haveria de estar.
Deixou o nada no agora
da hora que se fez,
dolorida
encarquilhada.
Entre aqueles que ficaram
ergueram-se muros de lágrimas
e o mar recuou,
a língua manchada de sangue
insaciável a língua do mar.
Mulheres espiavam
tentando olhar para além...
Fugiam do lugar onde estavam
queriam aguardar alguém.
O mar não devolve o que leva
nem leva para devolver
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O VARAL ANTOLÓGICO SE ESTENDE EM SALVADOR ENTRE
MÚSICA E POESIA!
Com organização de Valdeck Almeida de Jesus e Renata Rimet, aconteceu dia 25 de maio o
lançamento do livro Varal Antológico 2 em Salvador.
A noite, alegre e cheia de surpresas encantadoras, aconteceu num local mais do que especial: o
barzinho cult Beco da Rosália.
Poetas declamaram, músicos tocaram e cantaram entre muitas conversas animadas que trouxeram a nova literatura brasileira como assunto principal.
Os coautores do livro, entre eles Raimundo Candido Teixeira Filho, Maria Perpétua Freire Brasileiro e Valdeck Almeida de Jesus, estiveram presentes.
Entre os eventos marcantes da noite, a música do cantor Dé Barrense e as declamações inflamadas e musicadas do poeta Gibran.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Fotos de Renata Rimet e Valdeck Almeida de Jesus
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O VOO DA COTOVIA
Por Marcos Torres
Ter asas para voar como uma cotovia,
como seria delicioso, viajar pelo mundo sobre os penhascos,
montanhas além das colinas,
nada de catraca ou bilheteria;
essas coisas são transtornos,
demasiado aborrecimento.
Embora saiba: quando se quer ver algo novo
não há jeito, é preciso pagar alguma moeda
para saborear outras paisagens.
Ah, como eu queria ser uma cotovia.
Ah, como eu queria poder voar, deslizar no céu,
ir além dos ventos uivantes onde somente a cotovia alcança.
Cortar todo o atlântico, e lá do alto
ver os pássaros cuidando do ninho na copa das árvores.
Atravessar os mares gelados,
sobrevoar por entre as montanhas além das colinas,
seguindo em direção ao Polo Norte.
Mas essa ausência de asas
me deixa demasiadamente...
Limitado
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
MULHERES EM BUSCA DE
SEUS DIREITOS
Por Hilda Agnes Hübner Flores
O Alcorão, codificado por Maomé, mantém a
dominação sobre a mulher. A autoridade, concedida ao homem por Alá, dá-lhe direito ao dobro do que se dá à mulher, ente irracional que
constitui a “maior calamidade” do homem. (séc.
VI d.C.).
O cristianismo trouxe alguma valorização da
mulher. Todavia, o apóstolo Paulo proibiu-lhe
Reconhecida como única geratriz da vida, na
de falar dentro da igreja. Se não entendesse
aurora da humanidade, a mulher era respeitada
alguma coisa e quisesse se instruir, deveria pechefe de clã. Quando o homem, fisicamente
dir esclarecimentos ao marido, em casa. (ano
mais forte, se impôs como caçador e defensor,
67 d.C.).
a mulher passou a depender dele. E logo viu-se
reduzida a uma dantesca e duradoura estreite- O monge Martinho Lutero fundou o protestanza existência, que se arrastou por milênios, co- tismo como forma de combater excessos do
mo mostram os escritos de pensadores e deli- cristianismo, que abjurou. Para a mulher, reconeadores do comportamento das gentes. São menda uma vida austera, sem luxúria nem vaidade, sendo pecado maior a pretensão de ela
conceitos a estabelecer parâmetros entre o
possível e o inatingível, o permitido e o excluí- querer ser sábia. Nasceu assim um poço imensurável no caminho da realização intelectual
do no agir cotidiano da mulher.
feminina. (séc. XVI).
Vejamos alguns exemplos. O Código do Hamurabi dá ao marido o direito de rejeitar a “mulher Os séculos finais da Idade Média registram verde conduta desordenada e descumpridora das dadeiro genocídio, principalmente de mulheres
obrigações do lar”, podendo reduzi-la à escravi- conhecedoras do segredo das ervas medicidão, até mesmo para pagar dívida dele, na ca- nais. Atribuindo-se-lhes artimanhas do diabo,
acusadas de bruxaria, centenas de anônimas
sa do credor. (Babilônia, séc. XVII a.C.).
antecessoras de Joana D´Arc foram assim conNove séculos mais tarde, leis imperativas do
denadas à fogueira.
filósofo Zaratustra, da Pérsia, mandam “adorar
o homem como um deus”, ajoelhando-se a mu- Nem o Renascimento, período das “grandes
lher toda a manhã aos pés do marido para per- conquistas”, trouxe algum avanço em direção
aos direitos da mulher. O todo-poderoso Henriguntar: “Senhor, que desejais que eu faque VIII da Inglaterra repudiou cinco esposas,
ça?” (séc. VI a.C.).
escapando Catarina Parr, porque o rei morreu
Tentáculos dessa legislação alcançaram a Ínantes dela, consumido por sequelas de orgias
dia e somaram-se às “Leis de Manu” que sosexuais. (séc. XVII).
brevivem até os dias atuais, quando regulam
castas oficialmente extintas e impõem à mulher As grandes navegações conduziram ao descobrimento do Brasil. Portugal lhe estruturou a
reverenciar o marido como a um deus, em hipótese alguma podendo governar a si própria. economia a serviço da Metrópole e a religião a
serviço de Deus; a sociedade configurou-se
Aristóteles, o grande pensador da culta Atenas, com acréscimo de duas culturas estranhas à
em sua escola peripatética pregou uma filosofia Metrópole: a indígena e a africana, diferenciade total reprimenda à mulher, que não passa
das pela ausência da noção de pecado e sem o
de “um homem inferior”, só criada quando “a
cultivo do mito da virgindade a que era submenatureza não pode fazer homens.” (séc. IV
tida a mulher branca, a única “livre” na imensa
a.C.).
Colônia.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Pregadores moralistas dimensionaram o relacionamento entre os casais e o espaço social
destinado à mulher. Pe. Antonio Vieira, ímpar
literato do barroco, quando na contramão da
política portuguesa teve de trocar o real confessionário lisboeta pela catequese no exílio do
Brasil, viu a mulher como uma criatura vulnerável, movida pela paixão e pelos sentimentos
que a predispunham a ceder às tentações do
Demo. Para que tal não acontecesse, para preservar o nome honrado do marido mantenedor,
recomenda a proteção do lar, longe de olhos
concupiscentes e ocupada em constante atividade física e mental, como dedilhar as contas
do rosário e envolver os lábios na repetição
exaustiva da reza. Esse empenho, desejado
para preservação da virgindade, requer cultivo
perene, porque
Os pecados contra a castidade são igualmente
graves perante Deus, para homens e mulheres, mas nas mulheres, ainda que veniais, tiram a honra e nos homens não, ainda que
mortais (Cartas de Vieira, v. 9, p. 12-200).
Está aí o cerne de engenhosa maquinação judicial que até meado do século XX absolveu
muito uxoricida sob pretexto da “legítima defesa da honra”, sedimentado que estava o autoritarismo masculino, hegemônico no Brasil Colônia e Império.
Ausentes a imprensa e a cultura, consolidada
estava a condição de total dependência feminina. Vir a público, editar livro, nem pensar. A
primeira brasileira a fazê-lo foi a paulista Teresa Orta, que em criança acompanhou para Lisboa os pais enriquecidos no Brasil. Estudou e,
na contramão da determinação paterna, casou
com o professor, acabando deserdada. Viúva,
12 filhos e uma batalha judicial com o único
irmão, em 1752 ousou editar um romance de
nome quilométrico e fundo contestador/
reivindicador, audácia que gerou retaliações
para além de sua vida terrena, fazendo com
que a 3ª edição, em 1570, tivesse autoria atribuída a Alexandre de Gusmão, intelectual brasileiro falecido em Lisboa, 37 anos antes. Deve
-se à Professora Conceição Flores o oportuno
resgate dessa obra pioneira de nossas letras,
em sua tese de Doutorado: As aventuras de
Teresa Margarida da Silva e Orta em terras do
Brasil e Portugal.
Em 1820 o viajante Saint-Hilaire foi surpreendido na cidade portuária de Rio Grande, RS, pela presença da sobrinha do vigário, Maria Clemência da Silveira Sampaio, moça de 20 primaveras que dominava o francês, e que dois
anos mais tarde teve poema seu publicado no
Rio de Janeiro, recebendo inclusão entre os
“Poetas da Independência”. À aridez literária,
sobrepõe-se notável visão econômica de futura
sesmeira, que relaciona nossas riquezas naturais e pede ao Imperador pontes e barcas que
as façam circular, para progresso da Província.
As duas guerras mundiais do século XX mostraram que hecatombes geram, na contramão,
situações para a mulher se lançar a pioneirismos ausentes em tempos de paz.
Tal fato já ocorrera na guerra civil dos Farrapos, cenário, por dez anos (1835-45), de
abrangente destruição e muita fome, o que induziu um punhado de mulheres a, literalmente,
“pegar na pena” para denunciar essas atrocidades. A poeta cega Delfina Benigna da Cunha, em glosa critica o líder Bento Gonçalves:
Maldições te sejam dadas / Bento infeliz, desvairado, / No Brasil e em toda a parte / Seja teu
nome odiado. A jornalista Maria Josefa Barreto
Pereira Pinto atirou “farpas aos farroupilhas”
em seu jornal Belona irada contra os sectários
de Momo. Já Nísia Floresta, nordestina residindo em Porto Alegre, documentou a fartura das
chácaras circundantes, onde imperava “paz,
abundância e a doce influência de um clima
sadio” – riqueza que virou ruína e desolação
descrita pela amiga Ana de Barandas ao lamentar o ocaso de seu sítio natal Belmonte,
próspera propriedade rural na periferia de Porto Alegre.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
São denúncias de escritoras com coragem para
documentar em livros que viraram pioneiros de
nossa literatura. E aqui cabe um detalhe: essas
quatro escritoras publicaram sem a então obrigatória autorização do marido. Isto porque nenhuma delas o possuía: Delfina era solteira, o
marido da jornalista sumira; Nísia Floresta enviuvara e Ana de Barandas estava divorciada
oficiosamente, passando a “cabeça de casal”.
Nísia foi a única que teve aprovação do marido
na 1ª edição de sua tradução reinterpretada da
feminista inglesa Mary Wollstonecraft – Direitos
das mulheres e injustiças dos homens – obra
de capital importância para entender a escalada do feminismo, incômoda aos olhos do conservador autoritarismo masculino da Porto Alegre, naquele advento farroupilha. Nísia contesta a perene condição de dependência feminina,
refuta a “tese” da superioridade masculina a
partir de seu crânio maior, e reivindica dois direitos basilares da mulher: acesso ao estudo e
direito ao trabalho remunerado. Estudo, a família de Nísia lhe proporcionou, e a precoce viuvez a fez “cabeça de casal” e mantenedora dos
filhos, tarefa que exerceu com sua intelectualidade, ao abrir escola de primeiras letras.
inícios da República, motivando o templo positivista do Rio de Janeiro e o do Rio Grande do
Sul, Estado que Júlio de Castilhos pretendeu
industrializar. Tarefa para homem. A mulher,
guindada à “rainha do lar”, devia zelar pelo marido, educar os filhos para o espaço externo e
as meninas para as prendas domésticas. Mas o
índice de 74% de analfabetismo, incompatível
com a meta de industrialização, conclamou a
mulher para o magistério, de remuneração
aquém das necessidades do mantenedor.
Grandes educadoras surgiram: Ana Aurora do
Amaral Lisboa, Stela e Aracy Gusmão (mãe e
filha), Honorina Figueiroa, Marinha Noronha,
Antonieta Lisboa, Natércia Cunha Velloso, todas sul-rio-grandenses. Quantos nomes ilustres
a apor, em termos de território nacional?
Cabe aqui rever o papel da Princesa Isabel,
apresentada como beata desligada da realidade. Quando casou, libertou escravos seus;
mais tarde, aderiu à camélia branca, símbolo
abolicionista, acobertando escravos na Quinta
da Boa Vista e no palácio Imperial de Petrópolis; em 1888, assinou a Lei Áurea que lhe valeu
condecoração papal da Rosa de Ouro. Pouco
conhecido é o documento de 11.8.1889, projeto
que a herdeira do trono apresentaria por ocasiA Escola Normal surgiu no Rio Grande do Sul ão da abertura do ano legislativo, a 20.11.1889:
em 1869. Nela Luciana de Abreu, enjeitada na indenizar os ex-escravos com terras financiaRoda dos Expostos, aprimorou seus talentos e das pelo Banco Mauá e, o que interessa neste
trabalho, instituir o sufrágio feminino como forse fez professora habilidosa na condução de
sua aula repleta de alunos. Uma delas, Andra- ma de “libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro doméstico”. Argumentava: “Se a mulher
dina de Oliveira, deixou testemunho da metodologia usada: competição via estímulo e atri- pode reinar, também pode votar!” Mas, cinco
dias antes da fala no Legislativo, os militares
buição de novas tarefas aos mais capazes! E
deram golpe, proclamando a República! (Rev.
da tribuna da Sociedade Partenon Literário,
que reuniu uma centena de intelectuais brasilei- Nossa História, p. 68-74).
ros, Luciana de Abreu, cinco décadas após Ní- Exilada a Princesa, o voto feminino amargou
sia Floresta, dá testemunho acerca da questio- décadas até que a advogada e ativista Bertha
nada (in)capacidade feminina. Afirma: “Meninos Lutz abraçasse a causa. Feminista contundene meninas aprendem por igual; inteligência e
te, em 1919 criou a Liga de Emancipação Inteaprendizado são uma questão de oportunidade, lectual da Mulher, embrião da Federação Brasinão de sexo.”
leira pelo Progresso Feminino, de 1922, ambas
O francesismo cultural ponteou ao longo do Im- cooptando feministas de vários Estados na luta
pério, acolhendo a língua francesa no cotidiano pela conscientização da causa sufragista. Dez
da corte. O Positivismo comtiano imperou nos anos mais tarde, a 24.2.1932, Getúlio Vargas
decretou o voto feminino, exercido por poucas
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
poucas eleitoras em 1933 e postergado pela
ditadura do Estado Novo. Eleição pra valer, só
em 1946 – ressalvada a pioneira exceção do
Rio Grande do Norte, onde o governador Juvenal Lamartine decretou o voto feminino em
1927, ressaltando-se o nome de Alzira Teixeira
Soriano, batalhadora pela causa e futura vereadora eleita.
ra, só lhe restou o exílio. Em companhia da filha, a poeta Lola de Oliveira, encetou uma tournée cultural de cinco anos, peregrinando por
Montevidéu, Buenos Aires, Paraguai e Mato
Grosso, para então se fixar em S. Paulo, terra
dos ancestrais Andradas. Aí faleceu sem o uso
da razão, e sem ver sinuosas marchas e contramarchas como o concubinato, o desquite, a
Ao separar Igreja de Estado, a República abriu criticada alternativa de “casamento no Uruguai”
caminhos a favor dos direitos da mulher. A ca- e outras nuances legais, que retardaram o dida dois ou três anos algum deputado apresen- vórcio até 1978.
tava no Congresso novo projeto divorcista co- Estavam, pois, lançados os quatro pilares básimo solução para casamentos insustentáveis.
cos do feminismo: direito ao estudo, ao trabaAté então, só a Igreja podia conceder divórcio, lho remunerado, ao voto e ao divórcio, cabe um
o que fazia com muita parcimônia e sem desfa- olhar retroativo sobre o papel da mulher na sozer o vínculo conjugal.
ciedade colonial: a branca, cerceada
“Meninos e me- por severos preceitos religiosos; a
indígena e afro, sem as amarras etEm 1912, há um século porninas aprendem no-moralistas e integrantes, como
tanto, houve a inserção de
por igual; inteli- escravas, da construção econômica
uma mulher, Andradina de
do país. Imperaram por séculos,
Andrade e Oliveira, a brilhan- gência e aprenplantando valioso legado: no cotidiate ex-aluna de Luciana de
dizado são uma no familiar, na culinária, na vestiAbreu – lembra o leitor? Nomenta, em suaves canções de ninar,
tável intelectual e jornalista
questão de
na medicina popular, em preceitos
porto-alegrense, no ensaio
religiosos traduzidos em populares
oportunidade,
Divórcio?, seu 11º livro, adcrenças e crendices, base da axiolovoga o divórcio “pleno”,
não de sexo.”
gia brasileira...
aquele com direito a novo
A transmigração real, em 1808, descasamento. Nos 27 capítulos
locou para o Brasil o centro administrativo, dedo livro, desnuda as mazelas da sociedade aincorrendo a abertura dos portos, medidas de sada órfã de leis trabalhistas, saúde precária, insneamento e de urbanização, a criação de centrução incipiente e ausência de preparo profistros de ciência como a Faculdade de Medicina,
sional, e a mulher prisioneira de uma intrincada
vetada à mulher...
rede de ignorância, crendices e preconceitos
que a amordaçavam dentro de um conformisA presença de imigrantes (1818 no Rio e 1824
mo de religiosa subserviência e resignação. Di- no Sul) trouxe a economia mini fundiária, exitovórcio?, reeditado em 2007 pela Academia Lite- sa porque movida por mão de obra livre. A imirária Feminina do Rio Grande do Sul, é leitura grante alemã, além das tarefas de casa, trabalhou na lavoura, no artesanato, no comércio, na
proveitosa para quem deseja submergir nos
meandros sócio moralistas da primeira Repúbli- navegação. Alfabetização e aprendizado profissional, a comunidade assumiu, criando associca.
ações religiosas, recreativas e profissionais. A
A audácia da autora comprometeu sua liberdaimprensa passou a informar, também, em línde. Cerceada por tríplice e radical oposição
gua alemã.
(Igreja, Positivismo e Maçonaria) reforçada por
férreos preconceitos da sociedade conservadowww.varaldobrasil.com
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Na década de 1870, imigrantes italianos labutaram nos cafezais paulistas e progrediram nos
minifúndios do sul. Polacos foram centrados
em minifúndios do Paraná. Inserida na perspectiva de crescimento econômico, a mulher
trabalhava de sol a sol. Josefine Wiersch mais
tarde documentou sobre o exaustivo trabalho
na nova pátria, a garantir prosperidade.
e jardins de infância permitem à mãe cursar Faculdade e se inserir no mercado de trabalho,
condicionante de sua realização pessoal. Manifestações ostensivas como desfiles com dísticos direcionados e pouco sonoros panelaços
de contestação, apelos de “sutiã fora” e a imprensa reivindicativa, incitam para o feminismo
engajado.
Ao correr das décadas, as diferentes etnias
fundem valores. De capital importância na busca dos direitos femininos, foi a gradativa escalada no estudo e no preparo profissional. Escolas de primeiras letras proliferaram pelas colônias de imigrantes. Escolas Normais, urbanas,
prepararam mestres desde o Império, em escala insuficiente. A indústria em implantação abre
espaço para operárias. As guerras mundiais, a
par da destruição, induziram mulheres para inusitados afazeres, escancarando a necessidade
de novos preparos profissionais.
Na década de 70, os Mestrados aprofundaram
conhecimentos e ampliaram preparo profissional, desamordaçando seculares anseios de
frustrada realização intelectual. Doutorados
brotaram dentro e fora do país. 1975-1985, a
“Década da Mulher”, monitorou reivindicação
de “igual salário para igual tarefa”, decorrendo
mudanças radicais em seculares privilégios do
homem face às novas conquistas da mulher.
A partir da década de 1940 multiplicam-se Faculdades buscadas pelo sexo feminino: Serviço
Social, Letras, Pedagogia, História, Psicologia... Aos poucos a mulher se aventura em Faculdades de administração, técnicas e mesmo
eletrônicas. No cotidiano, se desdobra: atende
o lar, exerce a profissão e conjuga com atividade paralela. A ginecologista Noemy Valle Rocha aproveitou viagens profissionais para coleta de valioso folclore do peão dos Pampas, enquanto, na atualidade, Sylvia Helena Tocantins
levanta no Pará o folclore do caboclo amazônico. A pílula, na década de 1960, descortinou
liberdade sexual e limitação da prole. Creches
A política legislativa é buscada, ainda, com certa resistência, mas decorre em meio a laboriosos méritos. Concursos públicos acessam para
novos cargos, exercidos com competência e
mérito, independente de idade, sexo e cor.
No início de 70, Hellê Vellozo traz do México a
Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – iniciativa paralela de valorização feminina,
Muitos nomes femininos se inseriram em cam- como vinha sendo, desde 1943, a Academia
panhas e laboriosas buscas de aperfeiçoamen- Literária Feminina RS, idealizada pela ativista
to dos direitos da mulher. Delminda Silveira e
Lydia Moschetti e seguida de outras Academiseu ruidoso grupo de S. Catarina, faziam-se
as: em Natal (1958), Goiás, idealizada por Rosarita Fleury (1969), Jundiaí, S. Paulo (1971) e,
presentes em manifestações pro abolição; a
feminista de Camaquã, no RS, Ana Cesar Ro- na década de 80, em Belo Horizonte, Santos e
Paraná.
drigues, acompanhou os deslocamentos do
marido militar. No Norte, trabalhou em Rádios; Pós-Doutorados, hoje em profusão, alargam
em Recife fundou e dirigiu a Legião da Mulher horizontes. Pesquisas nos diferentes ramos
Brasileira, com cursos profissionais para meni- profissionais oportunizam descobertas e impulnas.
sionam para novos empreendimentos.
Desde as décadas finais do século XX, literatas
e pesquisadoras de gênero aprofundam temáticas. Zahidé Muzart em 1996 criou a Editora
Mulheres, reabilitando a memória de centenas
de vozes femininas que o tempo apagou. Constância Lima Duarte se doutorou sobre a obra de
Nísia Floresta e reeditou a maioria dos livros
dessa nordestina pioneira, precursora do feminismo.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Raquel de Queiroz, Nélida Piñon, Ligia Fagundes Telles e Ana Maria Machado deram o toque feminino na Academia Brasileira de Letras;
Maria Dinorah, Lya Luft, Patrícia Bins e Jane
Tutikian, patronas da Feira do Livro há 57 anos
evento internacional em Porto Alegre. Tantos
nomes, a projetar as letras: Cecília Meireles,
Lúcia Miguel Pereira, Olga Savary... Me perdoem todas as não citadas aqui. Na medida do
possível, imortalizo-as em meu Dicionário de
Mulheres.
Fontes consultadas
Arquivo da Cúria Metropolitana de Porto Alegre, Livros de Batismo, Casamento e Óbito
BARMAN, Roderick. Princesa Isabel. S. Paulo:
Unesp, 2001
FLORES, Hilda Agnes Hübner. Dicionário de Mulheres. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2011 (2ª ed.).
_____. Sociedade: preconceitos e conquistas. Porto Hilda Hübner Flores, professora da PUCRS aposentada, é historiadora. Dentre seus 18 livros, publiAlegre: Nova Dimensão, 1989
cou: Sociedade: preconceitos e conquistas
_____. Alemães na Guerra dos Farrapos. Porto Ale(mulheres na Guerra dos Farrapos), Mulheres na
gre, EdiPucrs, 2008
Guerra do Paraguai/2010 (ensaio); Dicionário de
MUZART, Zahidé L. Escritoras brasileiras do séc.
Mulheres, 2ª ed. 2011 (3.000 verbetes de autoras
XIX. Florianópolis, v. I 1999, v. II 2004, v. III 2009
brasileiras). Reeditou, com estudo biográfico: O Ramalhete de Ana de Barandas, Divórcio? de AndradiRevista Nossa História, ano 3, nº 31, maio/2006, p.
na de Oliveira e Autobiografia de Lydia Moschetti.
68-74
Tema imigratório: Canção dos imigrantes, Alemães
na Guerra dos Farrapos, Aspectos da Revolução de
1893 e História da imigração alemã no Rio Grande
do Sul - todos ensaios. Traduziu: Memórias de um
imigrante boêmio, Memórias de Brummer, O Doutor
Maragato, S. Clara na Revolução Federalista.
Muitos nomes femininos se inseriram em
campanhas e laboriosas buscas de aperfeiçoamento dos direitos
da mulher.
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Goiânia e de S. Luiz Gonzaga, da AJEB/RS, por três vezes presidiu a Academia Literária Feminina RS e
está na 5ª presidência do Círculo de Pesquisas Literárias RS – todas instituições com publicação de
antologia anual.
E-mail: [email protected]
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Contra Mundum
Por Helena Barbagelata
A aurora insiste em romper a aldraba
negra do horizonte, enquanto a paisagem vem
de leve cantar inútil aos corpos; chuvas de oiro
pousadas a braços de ninguém, a luz que passa
rasteira e censurada na fleuma das horas; arrastam-se
os ódios enfarpelados de cansaço, em cortejo solene por
entre o dia, sobre-humanos na barbárie do intelecto;
desaprendem-se as emoções à sombra da terra, coroa-se
a tirania algébrica das imitações, e a palavra é uma arma
animal; há uma clausura em que se ouve chamar de amor à
lascívia, onde a vaidade em cada boca enroupou as virtudes
de agravos, e o sentir se fez proibido; há uma concupiscência
que vem estéril ladear-me a alma como um grifo, mas aqui o
sentimento nasce ainda branco e livre na ilesa parecença
das pombas; a alma aqui ainda cala silente o bulício sibilino e
vão de desejos, e no que resta de mim expira o mundo,
mendigado em ânsias indefessas de silêncio; bem-amada
solidão, há em ti um jardim onde se aprende a sapiência
poética das coisas, e em último espanto se inspira o perfume
íntimo e dolente das rosas; a alma ali ainda canta às estrelas,
e não há manhã que caminhe indiferente nos seus pés de prata.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
servem, para desinquietarem, despertarem)
cumprindo seu papel, mas também foram anjos
que abençoaram, braços e abraços repletos de
ternura e de alegria com os balanços das crianPor Isabel C S Vargas
ças que sustentou fortemente em todos os verões quando alegres brincavam ao redor, penduravam cadeiras ou simples cordas para se
Foi no ano de 1986 que um pequeno pi- balançarem ou, ainda, quando com suas pernheiro foi comprado e plantado em um peque- nas frágeis tentavam nos braços subirem para
ver o mundo mais além.
no jardim em uma casa de praia.
CICLOS
Estes mesmos braços carregaram
A princípio não havia exigência nenhuma,
pacotes
e
luzes que alegraram e iluminaram
pois era muito novinho. Não tinha que fazer nada. Nem dar sombra nem abrigar pássaros, muitos Natais.
outros animais nem pessoas.
Apesar de não ser mais criança, de
ter
assumido
proporções de um gigante, a dúviComo o funcionamento de todo ser em
da,
o
questionamento
(que é a mola propulsora
desenvolvimento, a princípio, parece ser o mesmo, só tinha que crescer descobrir o mundo, de quem não se conforma com as frases feitas,
deixar-se descobrir pelos outros, experimentar os cenários estanques, os sentimentos enquapossibilidades, encantar com as descobertas drados em moldes pré-determinados e com o
que abrem inúmeras possibilidades a serem futuro sendo resultado de uma imutável operavivenciadas, mas que ao serem escolhidas, de ção matemática) começaram a assaltar, pois o
imediato, excluem outras. Não deveria ser as- fato de crescer demais começou a inquietar, a
sim, pois o sol não exclui a lua nem as estrelas, perturbar e a gerar desconforto.
o dia não exclui a noite e ambos aceitam a chuva e os ventos, fugindo da rotina e aceitando as
mudanças que com eles advêm. Generosamente dividem espaços, olhares, encantamentos daqueles que tem olhos de ver, coração à
flor da pele e alma cigana que é capaz de estar
em todo lugar, que não tem território próprio
porque todo território é seu.
Foi possível crescer em várias direções;
para o alto buscando o céu, para o lado espalhando galhos que são braços, que protegem e
abraçam de maneira carinhosa e acolhedora,
para baixo fincando fortes raízes que se firmam
dando suporte a todo aquilo que está acima da
terra e abaixo do céu (ou além dele), à vista
dos olhos, ao alcance do olfato apurado capaz
de distinguir cheiro de chuva molhada, de fruto
maduro, de flor desabrochando, de ouvir o canto do sabiá, do bem-te-vi e do beija-flor que plana no ar, leve como os pensamentos inocentes
e puros das crianças.
É necessário ter o olhar bem mais
além da linha do horizonte, querendo sempre
transpor barreiras, desafiando o já dito e questionando o costume, a norma, o construído, o
sentido (nas entrelinhas, no visível e no não dito, em outros dizeres que permeiam o caminho
e que podem se constituir em novos saberes)
criando novos desafios e novos espaços de experimentação. Este percurso pode mostrar o
medo, instalar a dúvida do caminho a ser trilhado, desejando retornar a territórios conhecidos,
identificados que apresentam características de
normalidade, de estabilidade, de segurança,
numa total contradição entre a segurança do
conhecido e as inúmeras perspectivas do inexplorado.
A experimentação, o desafio do novo
significa a janela que mostra novos horizontes
e o caminho para experimentar novos modos
de vida, que poderão até não se constituírem
naquilo que é esperado, ou no vislumbrado,
Toda a existência cresceu dentro daquilo mas que servirão para isto mesmo, mostrar o
que era esperado, proporcionando segurança, que vale a pena.
proteção, aconchego, alegria, sombra sob a
Nesta etapa do percurso surgem as
qual repousaram corpos cansados e mentes dúvidas, as incertezas, face à internalização
sonhadoras que ali, a seus pés arquitetaram dos conceitos que constituíram o sujeito e a
idéias, sonhos que ganharam o mundo em ca- vontade de arriscar-se para descobrir novos
da tentativa desafiadora ou conquista obtida.
ensinamentos, novas finalidades, não ignoranOs espinhos cutucaram (é para isto que do durante a trajetória a presença constante de
um superego controlador ou a culpa por
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
abandonar velhos paradigmas que representam ensinamentos aprendidos como dogmas,
mas que nos dias de hoje já não possuem o mesmo significado. Afinal crianças crescem,
adultos envelhecem a vida muda, pessoas e os espaços são modificados. Todos morrem só
que em momentos diferentes, cada um a seu tempo, quando seu ciclo termina
Em virtude disto nesta trajetória espaço-tempo- de ser e não ser, de subir e chegar
às nuvens ao mesmo tempo em que aprofunda raízes, de crescer e se deixar podar, de viver
e de morrer, de ser árvore frondosa ou rio que corre e não deita raízes, nos tornamos capazes
de (mesmo com o coração partido, a seiva a sangrar) deixar-se cortar para em cada labareda
da chama da vida ou do fogo ardente e gélido da morte que acompanha o homem por toda a
eternidade , esquentar os corações, virar fumaça que sobe para voltar em gotas de chuva que
regam as sementes que tornarão a brotar num ciclo interminável de vida, doação, morte e renascimento.
Enquanto isto, outro tipo de raiz, não aquela plantada no solo, mas a que plantamos no coração daqueles que servimos permanece viva, nutrindo o espírito que se eleva por
entre as nuvens, as quais agora vemos de outra dimensão.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O e-mail na comunicação
Por Joana Rolim
Escutando, numa FM, uma música, ela e eu
nos tornamos um. Era uma voz, distante, e eu,
inteira.
"Quando te perdi, eu me perdi..."
Foram os versos que me ficaram. É revirar uma
vida. Agora, escrevendo, ainda a tenho. Não sei
o cantor nem qual a música. Mas ele ainda canta em minha emoção as palavras que fizeram a
integração de um passado com aquele instante.
Os e-mails também são ricos de emoção em
comunicação. Recebi um de um amigo ('expert'
em música especiais) uma que me fez reviver
momentos meus.
Linda e verdadeira a música.
Acho que já estamos nesta.
Vamos andar devagar porque ......já tivemos
pressa.
Vamos aproveitar a calma da vida.....que nós
merecemos.
Tocando em frente
ANDO DEVAGAR PORQUE JÁ TIVE PRESSA....
'Conta-se que, num dia qualquer, Almir Sater
estava em São Paulo para uma temporada e
desceu do seu apartamento para tomar um cafezinho num mercado ali perto. Chegando ao
destino, encontrou Renato Teixeira que o convidou para experimentar uma viola nova, que
acabara de comprar. Enquanto tomavam café,
Almir dedilhou a viola e soltou... "Ando devagar"...ao que Renato emendou ..."porque já tive
pressa". Dizem que essa maravilha ficou pronta
em 10 minutos.
Um dia alguém perguntou ao Almir como essa
música fora feita e ele respondeu:
─ Ela já estava pronta...Deus apenas esperou
que eu e o Renato nos encontrássemos para
mostrá-la pra gente.'
intensidade daquilo que prazerosamente poderíamos ter vivido!'
'Em suas mensagens ou palavras que poucas
vezes trocamos, encontro um exemplo de empolgação e vivacidade...Abraço! G.E
'Liberdade, lindo!!! Neste dia de meu aniversário, o que eu mais aprecio e que mais valorizo!
Vc adivinhou,?!?! Sei que queremos ser aprisionados pela sedução daquele que não escraviza, demonstrando sua insegurança em nos ter.
Mas, sim, aprisionadamente seduzidos pela capacidade do outro emanar aromas de verdadeiro amor, que combinam com toda a
"decoração": atitudes, discursos, gestos, falares, pensares e silêncios...' (I.F.)
Eu, você e liberdade:
'É tempo de novo mitos, novos arquétipos. Nós
já somos feito da história de 3.000 anos, quanta
carga pra carregarmos, não é? A liberdade entra aí...' (C.)
Esta página foi comunicação na liberdade - mistérios que somos para nós mesmos. É a vida
na emoção. É coração que fala, coração que
responde. Corpo que se manifesta.
Comunicação é vida. Comunicação, íntegra,
revelada no momento em que se dá. Somente.
Mas revivida quando lembrada. Compartilho.
Eu, você e liberdade:
Recebi, curti e enviei. Uma resposta muito sensível, mais um momento de comunicação na
sua essência e de poesia na minha emoção me
inundou de energia e alegria.
'Muito obrigado pela belíssima e significativa
música...por acaso adoro e quase respiro esta
música! Ela nos transporta para um momento
de serenidade e saudável reflexão. Não se conta ou se mede a vida por horas, dias, meses...enfim, mede-se pela intensidade das ocasiões... A pressa atordoa a lucidez e abafa a
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Jesus Cristo
Por José Cambinda Dala
Suportou o deserto
Venceu o diabo
Mostrando coerência no comportamento
Satanás desistiu Dele
Foi recebido como um verdadeiro rei
Apesar de ter negado o poder
Traído foi crucificado
Morreu como Grande Herói
Sepultado como um qualquer
Ressuscitou e subiu ao céu
Sentado junto com o Pai
Esperam receber quem de nós se comportar bem.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Creio
Por José Carlos de Paiva Bruno
Creio num Homem projeto, muito além de objeto...
Em vida, repleto: em morte, discreto... Bilhete secreto!
Creio atômica avaliação múltipla, astúcia de muitos pontos...
Lusos do começo, novos baianos em apreço...
Sou tamanho e momento, alegria e lamento; movimento...
Cepo sem acento, acepipe d’alquimia convento...
Simples convenção; forma da fórmica, sofisticação...
Creio em plantas e cores, diversidades amores!
Creio em delicados licores, pétalas em flores...
Amálgama em geração, fusório embriagada explosão...
Creio firula efeito folhetim, tintim por tintim...
Aventura pandora sim, assim leque de Berlim!
Assanhadas palavras, saracoteando estradas, jornadas...
Jornais de um tempo inteiro, sagas gorjetas do feiticeiro...
Creio druida truques de vida, versus araques do fim...
Assim arautos de um novo Jardim, coloridas maçãs de mim!
Creio no improviso, mímica emergência do aviso...
Clemência da amazona, fogo de lua, química nua...
Creio num ir e voltar, quase criança engatinhar...
Passada que mostra pegada, marca de caminhar!
Sendo sempre começo, sou o fim que mereço...
Creio na estação do preço: se subo ou se desço...
Aroma de um lado belo, lençol apito que revelo...
Com ela me atrelo, creio não no fim, trem de jasmim!
Imanentes versos da imaginação, linhas da liberdade,
Beijo você beldade, curvas loucuras de paixão e amizade...
Existência do que simplesmente creio: começo, fim e meio...
Devaneio...
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Olhando as estrelas
Por José Hilton Rosa
Saio lá fora
vejo as estrelas
a noite é calma
vem o frio da noite
a casinha fica distante
o caminho tem poeira
quando tem pressa
vai a galope
Lá dentro ainda há o amor
é simples e sem luxo
mas, amor há
o alimento está no fogão
No jardim ainda há flor
no inverno acende fogueira
a segunda-feira tem trabalho
com a enxada levo a marmita
O almoço é na sombra da árvore
água na cabaça
café é na garrafa
o cigarro é de palha.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
COSMOPOLITA
Por Juan Barreto
Aquela música me pegou pelos cabelos como os homens das cavernas faziam com suas
mulheres e me arrastou por dias, por anos atrás.
A vida dá muitos sinais. Tilintares marcam o compasso.
Sou seu ao passo que acho sua pessoa.
Acho que a gente pode tudo, pode ser tudo, só não pode ser podre, porque é isso que nos
difere dos mortos, é isso que nos difere do lixo, da merda. Entende?
O ser humano é 70 - 75% composto de água e nem assim ele consegue ser transparente.
Eu faço parte desse inferno que reclamo.
Vai fumar pedra, papel ou tesoura?
Vai cheirar e vai chorar! Quer apostar?
Apostar não. É ilegal!
Dedos são os chifres das mãos!
Só importa aquilo que de alguma forma dá forma e te entorta por dentro, mas antes de se
apaixonar verifique se o mesmo encontra-se nesse andar.
PARtir é ímpar.
Sempre que eu penso em possibilidades aparece alguma coisa que parecia impossível.
A verdade é que a vida é um eterno 'colar colou'
Não ganha o mais forte, ganha quem chegar primeiro.
Minhas impressões sobre as coisas deixo onde puder
Minhas impressões digitais eu deixo em quem deixar
principalmente nas pessoas 'nhac'.
Tsc,tsc,tsc e outras onomatopeias.
Patrocine um raciocínio.
Tira sarro porque o outro usa boneca inflável, e você que namora à distância?
Quem está mais longe da realidade desejada?
Essas frustrações brandas... Por isso os bares.
E mais... Por isso as bebidas.
“-Garçom!
-Pra beber, alguma coisa, Sr.?
-Um 'sorry'sal efervescente."
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Reluzente
Por Sandra Nascimento
Cansado e triste
o meu coração pausou
Duas luzes diferentes
despontaram então:
uma para a vida outra para a morte
Agora nada mais revelava a solidão
Nem seus olhos refletiam as paisagens do mundo
Só as palavras invadiam os meus sentidos
E o mundo girou
a mim e em torno da outra luz constante e sonsa
Sem desculpa o dia não anoiteceu, percebi
Apenas se manteve eterno
para os que não precisam piscar os olhos diante de
luzes radiantes
Mas esse não era o meu caso
Sem saída, sosseguei meu pensamento assustado
E recostado na sombra
de tudo o que acreditou
ele dormiu e sonhou
Sonhou reluzente
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
FOLIA
Por Regina Costa
Joguei pro alto em sete tempos, pensamento,
Tudo muda, tudo volta, sentimento
A gente canta
Vira o tempo, muda o mês
Te encontrei mais uma vez
Em sete tempos, pensamento,
Estou de bem com o meu amor,
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
Estou te amando à beira-mar
Patati patatiti
O sol já vai raiar
Em sete tempos, pensamento
Sopra um tema, portamento,
Anuncia o realejo que amanhã tem mais calor
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
A gente canta pra encontrar
Vem pra cá chega bem mais
A gente quer é mais que mais
Cirandar nesta cantiga
Volta e meia vamos dar
Te encontrei mais uma vez
Meu bem, te vi sonhar
Nosso abraço é na medida
Nosso amor é sem rotina
Patati patatiti
Nosso papo é noite e dia
Na folia das palavras que se soltam afinadas
Chove esfria brilha o sol
Pelo ar...
Sempre és meu par
Qu’est-ce qu’il dit bem-te-vi?
Sete tempos, pensamento
Na folia das palavras
Te encontrei de toda vez
Patati patatiti
Estamos superafinados
Chove esfria brilha o sol
Pelo ar...
Sempre és meu par
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Minha Flor
Por Karine Alves Ribeiro
Flor, divina flor de canteiro.
Tão simples, tão suave,
de beleza congênita
e ricas hastes.
Na sua intermitência juvenil,
envereda para o lado do sol,
sem medo, nem mácula...
Amanhece sempre assim:
Luminosa.
De encantos bravios,
é torrente e mimosa,
é grande e delicada,
admirável e tênue,
viçosa e clara...
Flor que instiga meus viços,
meus mimos,
meus clarins.
Ficaria tão linda num vaso de jade,
sobre uma mesa em meu quarto...
Mas é absolutamente bela, somente no jardim!
Livre e togada,
Vênus, adorada
por anjinhos de pedra
num chafariz...
A última purga,
o último sol,
a última nota de Mozart,
a última gota no atol...
O beijo que ela não me deu,
me abriga,
na primavera que nunca acaba,
no abraço que não deslaça,
das suas pétalas a me despir.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
se repetia com um detalhe, o número de tapas
ia aumentando. Como cada um cometera seu
próprio erro, ao creditar ao próximo sua falha,
Por Lariel Frota
as bofetadas aumentavam. A cada cobrança
uma desculpa e uma, duas, três bofetadas no
rosto do companheiro da fila. Achavam que
Diante do senhor justiceiro, a fila quando chegasse a vez do rapaz abobalhado,
aguardava . Eram tempos de prestação de con- teriam se livrado do castigo, pois o senhor justas e todos ali acreditavam conhecer o nível ticeiro jamais retornava ao início do julgamende sua exigência.
to.
Primeiro em silêncio absoluto ele sem(…)
pre anotava os feitos positivos de cada um,
-Então você confirma que é culpado pedepois iniciava a análise dos erros. Era o molos
erros
de todos a sua frente?
mento em que a maioria se apavorava.
-Não senhor.
Cada um sabia da própria responsabilidade, com olhos grudados ao chão pensavam
-Como não, se não tem ninguém atrás
silenciosamente na fala de defesa preparada de você a quem responsabilizar como fizeram
que era acima de tudo, uma tentativa de esca- os seus companheiros?
par do castigo que não conheciam, mas temi-Desculpe senhor!
am.
Dizendo isso se esbofeteou fortemente,
Concluíam em suas limitações: “Se o
provocando
o riso de todos.
grande senhor era benévolo ao extremo nas
A fila
suas ações, deveria ser proporcionalmente ri-Não entendi, porque você se deu essa
goroso no castigo aplicado aos infratores”.
bofetada?
Naquele dia o clima estava mais tenso, a
fila era formada pelas pessoas mais inteligentes do lugar. Tão astutos que haviam programado uma resposta coletiva, caso sentissem
que o castigo seria duro demais. A exceção
era o rapaz no último lugar, um gorducho,
usando óculos de hastes escuras de lentes
muito grossas, meias verdes e pés com os sapatos trocados, que lhe acentuavam o ar abobalhado.
Não era dotado de recursos intelectuais,
por isso ninguém entendia sua presença
equivocada, aquela não era a fila dos limitados,
mas se nada nele os ameaçava, deixaram-no
ali, atado a sua precariedade intelectual.
-Pelo erro que cometi. As outras bofetadas estão ardendo, mas tenho certeza de que
só sou culpado pelo meu erro.
(…)
Depois de anos de andanças o senhor
justiceiro sorriu. Tirou o manto que usava e colocou sobre os ombros daquele jovem de rosto
inchado.
Saíram caminhando como velhos amigos. Atônitos nenhum dos espertos conseguia
entender o que havia acontecido. Um jato de
luz resgatou aqueles dois vultos lá adiante na
estrada. Dizem que a partir daquele dia, ele
vive em festa num reino distante, onde a felicidade e a justiça reinam com plenitude.
Diante da pergunta incisiva, o primeiro
Saíram caminhando como velhos amida fila, como ficara combinado, diz em voz alta tentando dar as palavras, ares de credibilida- gos. Atônitos ninguém da fila de espertos entendeu o que havia acontecido. Um jato
de:
de luz resgatou os dois vultos lá adiante na
-Desculpe senhor, definitivamente a culestrada. Dizem que a partir daquele dia, o jopa não foi minha.
vem de ar abobalhado, vive em festa num rei-Então aponte o causador do seu erro. no distante, onde a felicidade, a justiça e a
Conforme fora acertado previamente, se paz, reinam em plenitude, enquanto por aqui,
vira para o sujeito atrás de si e lhe dá um tapa milhares de pessoas espertas continuam se
na cara, deixando a marca dos dedos estampa- esbofeteando sem entender nada!
da em vermelho dolorido.
Assim de um em um a mesma resposta
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
PARTICIPAÇÃO NO VARAL
•
Em setembro tema Nossa Infância –
receberemos textos até 10 de agosto
(se atingirmos um número ideal de páginas o texto pode ser reservado para
uma próxima edição);
•
E em novembro, aniversário do Varal! A
revista Varal do Brasil completará 3
anos e conta com você para festejar! O
tema será livre e você pode se inscrever até 10 de outubro (as inscrições podem ser encerradas antes, dependendo
do número de participantes).
Você pode escrever na forma que desejar:
verso ou prosa! Haicai? Trova? Poema? Crônica? Conto? Miniconto? Soneto? Que outras mais você faz? Mostre pra gente!
Traga sua poesia, sua visão da vida, seus
sonhos, para o VARAL!
Venha conosco!
Varal do Brasil: Literário, sem frescuras!
FAÇA SUA ESTA CAUSA!
ADOTAR É ANIMAL
AJUDANIMAL, GRUPO DE AJUDA E AMPARO
AOS ANIMAIS DO ABC
www.ajudanimal.org.br
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
CONVERSANDO COM
CLARA MACHADO
Vou iniciar esse texto falando um pouco das
ra ele não terminar com ela. Mas o homem
carências do ser humano, pois se somos seres também sente a pressão, pois acaba achando,
sociais e dependemos do outro quando nasce- pelo que vê ao redor de si, que precisa ser o
provedor e o que direciona a relação e que ela
mos para nossa sobrevivência.
O homem é um ser que depende totalmente de deve ser submetida a ele e a seus desejos. E
outra pessoa quando ele nasce para a sua so-
hoje , mesmo com a atitude mais moderna de
brevivência, isso automaticamente já fica intro- homens e mulheres, existindo um reverso desjetado no inconsciente.: a necessidade de ter
ta situação relacional, a pressão acaba sendo
quem lhe dê tudo para que possa sobreviver no para ambos muito grande e a obrigatoriedade
mundo. Dentro dele ele sabe: preciso de ajuda
do sim como resposta acaba aparecendo. Por-
para me alimentar, preciso que me deem cari-
que ao falar a pequena palavra “não”, algo se
nho, atenção, afeto, etc.
perderá nesta história.
Agora você imagine se, quando bebê automati- Depois esse (a) jovem se casa, e novamente
camente já se tem esse registro, imagine o que sente quenão se pode dizer não, porque agora
vai acontecendo quando vai se desenvolvendo, esta casado (a), os acordos de obediência, decriança, adolescente, adulto e idoso,
veres, fidelidades são muito fortes e muitas ve-
A criança vai para escola para socializar, fazer
zes, mesmo quando se percebe que o casa-
amigos e aprende que precisa ser boazinha, e
mento foi um erro, que casou com a pessoa
falar sim para os coleguinhas para ter amigos,
errada, que a pessoa se transformou depois do
senão ela fica só .
casamento, pensa não se pode dizer não, não
O adolescente, vive a época dos grupos e onde quero mais, foi um equivoco! As pessoas fisente a necessidade de falar sim para tudo o
cam , se suportam, se maltratam, adoecem
que o líder do grupo determina para não ser
mas não conseguem dizer não.
excluído, pois para o adolescente o mais impor- E depois vem os filhos ai a questão fica mais
tante é ter uma "galera" que ele se identifique e complicada: como vou dizer não, agora tenho
que o aceite.
filhos e tudo fica mais pesado com o peso da
Depois esse ser humano se torna adulto, quer
responsabilidade.
se relacionar, namorar. O sector feminino é ain- Não posso isso, não posso aquilo, não posso,
da mais fragilizado pela necessidade do sim,
não posso, não posso. e mais uma vez as pes-
pois a moça aprende que precisa dizer sempre soas dizem " Eu não sei dizer Não" e vão sosim para tudo o que o namorado determina pa- frendo, e os filhos vão sofrendo e vão se
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
multiplicando as tragédias no mundo, por falta de consciência e coragem de aprender a dizer
NÃO.
E veja só uma palavra tão pequena e tão simples e tão difícil de se dizer. NÃO. é muito mais
fácil para as pessoas darem uma desculpa ai elas dizem:" Mais eu não sei dizer Não ninguém
me ensinou eu nunca aprendi por isso eu sofro tanto hoje".
E vamos caminhando mais um pouco na nossa evolução e chegamos ao idoso,. Que dificuldade de falar não, pois eles dizem" se eu falar não eu vou ser abandonado em um abrigo para
idoso, vou ficar só, meus filhos vão me abandonar, por isso eu não posso dizer não."
E passa um pouco mais de tempo essa pessoa morre, e ai se percebe que ela veio ao mundo,
passou por aqui e foi embora carregada de tantos medos de estar só e com tantas carências
afetivas que a impediram de viver a vida de uma forma diferente se ela tivesse aprendido desde cedo a dizer Não.
E agora de uma forma solitária ela é enterrada, pois tem um ditado popular que diz assim,
"Nascemos sós e morremos sós", então porque o Ser Humano tem tanta dificuldade em dizer
não?
Penso que esta na hora de darmos um salto quântico em nossa evolução e aprender a dizer
não para tudo o que nos desagrada, nos humilha, nos maltrata. e dizer sim a tudo o que te dá o
poder de Paz, de Liberdade e de Amor por você, mesmo, pois quanto mais você se amar, mais
fortalecido você vai ficar, sua carência e sua solidão vão desaparecer, você perceberá que você
pode ser uma ótima companhia para você mesmo e ai sim, você ira se transformar em um Holofote de Luz e as pessoas vão querer estar naturalmente mais perto de você e você aprendeu
a dar o seu grande passo na vida que é: EU APRENDI A DIZER NÃO.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Embaraço...
Por Maria Socorro de Sousa
Colapso calado em uma página branca
Eu calo suprimindo a fala
As letras embaraçadas calam
Esperança caótica cativa em laços
Silêncio… Marcas em fúrias cafonas
Colírio cabível aos cegos
Em branco cântaro prefiro ficar
Surdo mudo ao rabiscar
Conúbio crucial quase cadente
Sórdido a uma sociedade vil
Sem chance… Imutáveis robôs
Cal calma ilusão sem calor
Suspira cândido cansaço
Papel branco… Que embaraço!
Hachuras no coracão
Por Varenka de Fátima Araújo
Numa folha branca, linhas
entrecruzadas sobrepostas
bem devagar em riscos
traços da mesma cor
Falo apressada, rouca
tão pouco agrada
não te fiz cativeiro
cem mil vezes te amei
Numa folha branca
Hachuras em meu coração
De sangria sem vibração
Silencio, dor sem fim.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
HIDROMAS SAGEM
Por Nina de Lima
Tépido vapor envolve o Box, displicente dispo as roupas
suadas e empoeiradas e as atiro no cesto.
Com elas também me dispo do cansaço e dos problemas.
É tão suave o aroma que se eleva da água
aromada pelos óleos e pelos sais perfumados
que não resisto ao convite e mergulho com prazer.
A espuma forma bolhas diáfanas e coloridas
que eu sopro levemente.
E sorrio qual criança, a criança que já fui, que ainda em mim reside e às vezes, por vergonha,
impeço de aflorar.
Lentamente minhas mãos mornas e ensaboadas
vão percorrendo meu corpo
e os fortes jatos de água me transmitem energia.
Sinto-me então renovada, sem medos e sem incertezas.
Somente a cabeça emerge da espuma relaxante.
Leve, eu semiadormeço e os pensamentos libertos,
não encontrando barreiras, voejam qual borboletas,
livres e sem limites.
Perdida a noção de tempo e a temperatura da água,
um leve tremor no corpo indica o fim do relax.
Aqui estou eu, sozinha. Eu e somente eu.
Bendigo estes instantes de solidão benfazeja,
de reencontro comigo.
morno encontro da água com as marcas de meu corpo,
sinais do tempo passado e muitos anos vividos,
eu com ninguém divido.
Estes momentos são meus. Meus, e de mais ninguém.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
do meu tédio
Por Rafiki Zen
a vida é negra e as nuvens
carregadas de trovoada não
me deixam provas do contrário.
não falei da coruja-marrom
construindo um ninho em cima
da casa, só pra desmanchar
todo o rancor do meu
poema.
AÇAÍ TRANSCENDENTAL
Por Sandra Berg
Açaí é uma cor que absorve
A consistência de uma paixão
Dá o tônus à fé de uma gente
Que labuta contente e não chora em vão
Uma gente que faz de sua lida
Solidez, conciliação,
Bebendo de tua cor o fervor cujo sabor
Dá a vida roxa entonação
É uma luz que norteia e seduz
De o nosso cantar, inspiração,
Eterna estação, açaí, tradição,
Ressurgirá ao povir, criação.
Somos um povo passageiro de uma dor
Gemendo essa poesia
Que transforma em dia a esperança
Que nunca nos abandonou
Não se perde em dar do que se tem
Em abundância
Porque é amor
Natureza que dá a cultura substância
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Por Sheila Ferreira Kuno
Maria Rita – Analista de Mainframe
Maria Rita é uma mulher com mais de 40 anos,
pequena, loira, sorridente e introvertida. Não
era feia, mas desprovida de vaidade, sua beleza ficava escondida atrás dos óculos grandes,
de armação grossa e escura. Seu cabelo sempre preso em um rabo mal feito completava seu
visual.
Maria Rita trabalhava com computadores de
grande porte, os famosos mainframes, atualmente em desuso, mas mantidos por grandes
empresas, principalmente Bancos.
Ela foi contratada por uma empresa de consultoria para atender um grande e conceituado
Banco, onde passaria a maior parte do tempo.
Em sua primeira semana de trabalho, foi-lhe
apresentado detalhes do sistema com o qual
ela iria trabalhar. Durante este tempo, ela sempre foi atenciosa e simpática.
Maria Rita passou vários meses trabalhando no
Banco, tendo pouco contato com a empresa
que a contratara. Ela gostou tanto do ambiente
de trabalho e de suas tarefas, que já se considerava funcionária do Banco. Foi ai que começaram os problemas.
Certo dia, o responsável pelos trabalhos do
Banco ligou para o Julio, que era o gerente na
empresa de consultoria, dizendo que não precisava mais dos serviços de Maria Rita. Diante
desta decisão, Julio ligou para ela.
- Boa tarde Maria Rita.
- Boa tarde. –Ela respondeu.
- Preciso que amanhã cedo você venha até a
empresa para conversarmos.
- Desculpe-me, mas não posso, tenho muito
trabalho para fazer.
Calmamente Julio lhe explicou.
- Eu sei Maria Rita, mas já conversei com o
chefe do departamento ao qual você está prestando consultoria e ele te liberou, pois o que eu
tenho para lhe falar é importante e urgente.
- Não vou, tenho que terminar um trabalho. –
respondeu Maria Rita indignada.
Neste momento, Julio percebeu que teria pro-
blemas.
- Maria Rita, em primeiro lugar você é funcionária desta empresa e não do Banco, portanto se
estou lhe pedindo que venha até aqui, você
precisa vir.
- Já disse que não vou.
E desligou o telefone.
Como já se aproximava o fim do expediente,
Julio optou por resolver este assunto no dia seguinte.
Logo pela manhã, Julio recebeu uma ligação
de uma pessoa do Banco, relatando que Maria
Rita estava nas dependências do Banco e que
eles não precisavam mais dos serviços dela,
conforme já haviam posicionado à empresa, e
que ela deveria se retirar.
Novamente Julio iniciou uma conversa com Maria Rita, que continuou irredutível e o acusou de
estar atrapalhando o seu trabalho.
Sem alternativas, Julio foi até o Banco, conversar pessoalmente com Maria Rita e explicar-lhe
a situação.
Depois de muita conversa, Maria Rita entendeu
que deveria se retirar, mas primeiro se despediu do departamento inteiro, sentou-se e lentamente arrumou suas coisas, comeu seu lanche
pensativamente, enquanto Julio a esperava.
Quando ela levantou-se e decidiu ir embora,
Julio acreditou que o assunto estava resolvido.
Caminharam em direção à saída do Banco. O
prédio era rodeado por um lindo e grande jardim, cheio de árvores, lagos, trilhas para caminhada, um lugar realmente lindo.
Maria Rita não se dirigiu à portaria, pelo contrário, começou a caminhar pelos jardins em silêncio, enquanto Julio a chamava em vão. Mais
uma vez, sem opção, ele resolveu acompanhála durante a caminhada que durou quase uma
hora e só depois, Julio conseguiu encaminhá-la
à empresa a qual ela era funcionária.
Ninguém nunca entendeu o motivo de tal comportamento e Maria Rita também nunca comentou sobre o ocorrido e assim a vida seguiu seu
curso.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
MUSEU PARANOICO
(mar, alma, lugar, reinar)
quero ao mundo salino, voltar,
como areia, espalhar meu destino,
Por Roberto Armorizzi
ser o dia brilhante, reinar,
com razão, sem castelo, nem sino.
Por aqui não se vê mais o mar,
de querer, de molhar, aos meus pés,
veio a mim um museu secular,
como tumba do velho Ramsés,
nesta hora eu não sinto areia,
que outrora coçava meus dedos,
num instante minh’alma falseia,
como pólvora de mudos torpedos,
que lugar infernal, silencio,
onde quadros e almas se velam,
não sou mais, e sem mar, sentencio,
entre pós e as sanções que escalpelam,
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
INFORMAÇÕES SOBRE OS LIVROS DE
JACQUELINE AISENMAN:
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
RUTE MIRANDA
Sou uma eterna apaixonada por Artes, e venho dedicando-me ao
assunto desde 1993 quando iniciei minhas primeiras pinturas.
Em 2008, decidi aperfeiçoar no assunto, concluindo o curso em Artes Plásticas pela Escola Pan-americana de Artes em São Paulo.
COMO UM ALQUIMISTA, PERSEGUINDO O EQUILÍBRIO, TENTA TRANSFORMAR
ELEMENTOS INCRUSTADOS, PERDIDOS, SOTERRADOS, EM ALGO PRECIOSO.
TENTATIVAS DEVERAS ME PERMITEM ATRAVESSAR A BARREIRA DO INATINGÍVEL. DESPERTA O OCIOSO, DESAGREGA COMPOSIÇÕES, CAPTA E ISOLA ENERGIAS, PROVOCA EXPLOSÕES. A ARTE SE REVELA....
GUARDIÃ: DIMENSAO:
45x36cm - TÉCNICA:
ACRÍLICO SOBRE TELA
JUVENTUDE: DIMENSÃO:
34X23 cm - TÉCNICA: ÓLEO
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MOVIMENTOS I—
DIMENSÃO: 23X30 cm TÉCNICA: TEXTURA A
LAPIS SOBRE PAPEL E
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SOBRE PAPEL
Varal do Brasil— julho/agosto 2012
F4
Por Willian Lando Czeikoski
Cada lágrima da mãe terra é tempestade
Cheia de descaso e ódio do humano umbroso,
Que em sua viagem ao sonho material doloroso
Acaba com o sonho do amor de sua posteridade.
Cada suspiro que evidencia sua fragilidade
É um furacão hediondo de meu ato dispendioso
Ou de nossa fome pelo capitalismo pomposo
Que me tira o puro ar da antiga civilidade.
Somos parasitas dividindo a mesma morte,
Fazendo do verde, cinza incandescente,
Expondo a biodiversidade a própria triste sorte.
Somos uma massa manipulada e descontente,
Pois vejo que o ser humano é tão forte,
Que consegue frente à natureza fazer-se demente.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
É tudo que tenho
Por Rozelene Furtado de Lima
Vivo ao pé da montanha.
Desperto com o cantar do galo
e a passarinhada saudando, bom dia!
O café perfumado me abraça gostoso.
Ao som do riacho medito com os peixes.
O barro me molda, eu moldo o barro.
Então, agradeço mais uma manhã.
Cato flores para enfeitar a casa,
cheiro de refogado põe a mesa.
A vida me perfuma e eu aspiro vida.
Doce paladar das frutas recém colhidas.
Sesta na rede embala o livre descansar.
A tarde na companhia de livros.
A forma me busca e eu busco a forma.
Aventura, romance e muita poesia.
No crepúsculo ir devagarzinho
espiar o sol deitando na serra,
ouvir o bater de asas de anjos,
grilos e sapos em serenata.
Os sinos soam e eu caminho,
passeio na via láctea
de mãos dadas com estrelas.
Dentro da imagem da lua
minha alma presa à tua.
O vinho aquece o sangue e a vida.
Do sorriso às risadas aliadas,
O prazer esquenta a cama para o amor
Fim noite, madrugada de chuva
Orvalhada amanhece a luz.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
O ÚLTIMO BEIJO
Por Antonio Fidelis
Contenção de alegrias, tristezas nítidas,
Dores da perda, holocausto d’alma, clausura de sentimentos,
Um último e único beijo
Um adeus súbito.
Medo, pavor, tristezas e a dor...
Como será difícil nunca mais te ver
Dormir e acordar e saber que, nunca mais vou ter você
Posso procurar em todos os lugares do universo
E não te acharei
Ter que conjugar-te só no passado
Que meu presente passou.
E só me restou lembranças. E muita saudade
Às vezes, falei pouco eu te amo,
Dei pouco carinho, a mínima atenção,
Dei-te pouquíssimo de mim
Só eu não percebi. Quanto eu perdi.
Suspiros entalados ao ver-te assim
Na horizontal.
O calor do seu corpo cessou.
Gélido esta seu rosto como esta o aperto do meu coração.
Tocar-te e sentir sua pele dura
Suas mãos sobrepostas unidas ao um terço.
Nem mais um sopro de ar ficou,
Acabou! O fim de uma historia.
Um ponto final.
E o seu existir apenas em minhas memórias.
O beijo mais dolorido da minha existência
É semelhante a um peito dilacerado.
O beijo do adeus.
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Até que ponto se diferenciam e entram em
Particularidade, Universalidade e Singularidade:
conflito os interesses particulares de “uma classe”
definindo conceitos
fundamentais para a Metodologia da Pesquisa social (no caso, a classe trabalhadora, representada
pelo Partido dos Trabalhadores) com os de outros
em Ciências Sociais
segmentos sociais, como as classes médias e altas
(as elites)? E em quais momentos é preciso que uma
classe social, que esteja no poder, abandone seus
André Valério Sales
interesses particularistas de classe, em favor das necessidades universais do conjunto da sociedade brasileira?
Minha intenção aqui não é a de responder a
1. Introdução:
estas perguntas, mas, ajudar ao leitor a refletir sobre
Este ensaio foi escrito no âmbito de meus as respostas possíveis a elas; e o modo melhor que
estudos acerca da Cultura Urbana na sociedade capi- vislumbro, de contribuir para essas reflexões tão
talista contemporânea, área das ciências sociais à fundamentais hoje, é buscando tornar mais inteligíqual venho dedicando-me há alguns anos. Com ele veis os principais conceitos aí envolvidos, ou seja,
busco contribuir para o debate atual acerca de uni- definindo: particularidade, singularidade e universaversalismo e particularismos, intentando esclarecer lidade.
as definições do que vem a ser: particularidade, uniAo se consultar os dicionários mais coversalidade e singularidade, no sentido de ajudar na muns, os mais socializados no país, nota-se que são
reflexão sobre as respostas possíveis que são coloca- bastante sintéticos: por exemplo, o célebre Aurélio
das pelas interrogações presentes no debate dobre (de bolso) conceitua o universal como se referindo
tais definições e seus usos na análise de fatos con- ao universo, ao que é mundial, àquilo que é comum
temporâneos, a base do texto é o tema da metodolo- a todos os homens; ou ainda, “a um grupo dado”; o
gia de pesquisa em Ciências Sociais.
singular, por sua vez, é o que pertence a um, ao núÉ de interesse tanto da Sociologia quanto mero que indica uma só coisa ou pessoa; singularida História, na atualidade, a questão dos conflitos e zar é “tornar singular, particular ou específico”; e o
contradições entre atitudes e movimentos sociais de conceito de particular, é o relativo a apenas certos
caráter particularistas ou universalistas. Principal- seres vivos ou a certa(s) pessoa(s) ou coisa(s), é o
mente no plano político-social do Brasil de hoje relativo a “uma pessoa qualquer” (ver Mini-Aurélio,
(2012), quando um representante da “classe” traba- Ferreira, 2001).
lhadora, e do Partido dos Trabalhadores, ascendeu
Já o Dicionário Houaiss, considerado por muirecentemente ao poder, enquanto Presidente do país, tos como “o melhor” do Brasil, conceitua o univerLuís Inácio Lula da Silva, conseguindo também re- sal enquanto algo que é “comum, relativo ou pertenpassar o maior cargo do Brasil para outra petista, a cente ao universo inteiro”, algo “comum a todos os
atual Presidenta, Dilma Rousseff. Neste contexto, componentes de determinada classe ou gruretomam-se com mais intensidade os debates sobre po” (2009: 1907); o singular refere-se àquilo que
particularismos e universalismos; como já observou “se aplica a um único sujeito”, e também coloca
o célebre historiador francês Jacques Le Goff, a uni- “particularizar” como sinônimo de singularizar (id.:
versalidade é um valor “cuja ressonância política é 1750); e particular é “próprio ou de uso exclusivo
clara” (1990: 193). E nós, os críticos sociais do pre- de alguém; privativo, privado”, sendo sinônimo, insente, não devemos nos ausentar destas polêmicas e clusive, de “um indivíduo qualquer” (id.: 1439).
nem mesmo inserirmo-nos nelas sem um claro entendimento destes conceitos e de suas interligações
com a realidade social.
_________________________________________
Tomando então o exemplo dos dois PresiTem graduação (UECE, 1991) e mestrado (UFPB,
dentes da República citados, utilizo aqui seus papéis 1.
1996) em Serviço Social. Cursa, desde 2000, enquanto
sociais, delegados pela maioria da população que os
aluno especial, disciplinas do doutoramento em Socioelegeu, como pretexto para iniciar a discussão, e inilogia (PPGS/UFPB).
cio perguntando: até onde poderiam ir os desejos e
Ver, por exemplo: Gabriel Cohn, “Introdução”, In:
interesses pessoais (singulares), de Luís Inácio, 2.
COHN, G. (Org.), Weber – Sociologia (2002); e Leoquando ocupou tal cargo, assim como até onde popoldo Waizbort, As aventuras de Georg Simmel (2000).
dem ir as vontades singulares da pessoa de Dilma
Rousseff quando ocupa agora a Presidência da República?
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A princípio, o leitor pode confundir-se inteiramente e até mesmo desistir de entender os esses
três conceitos, pois segundo um dos Dicionários
mais usados no Brasil (Aurélio), assim como de
acordo com aquele geralmente considerado “o melhor” do país (Houaiss): o particular diz respeito a
certas pessoas (grupos, portanto), certas coisas, no
plural, mas também poderia ser relacionado a uma
pessoa qualquer (no singular), um indivíduo. Já o
singular, é o que pertence a um só, a um único sujeito, mas, ao mesmo tempo, singularizar é definido
como o mesmo que “tornar particular”, particularizar. Já o universal seria o que é comum “a todos os
homens”, e ao mesmo tempo, pode ser tido como o
que é comum a todos que pertencem a uma classe ou
“um grupo”.
Na verdade, se sairmos dos Dicionários
comuns e adentrarmos às disquisições filosóficas ou
sociológicas mais aprofundadas, encontraremos justamente essa mesma mistura, essas mesmas contradições, porém, entenderemos também que há, por
fim, uma relação de complementaridade entre o singular e o particular, entre particular e universal, assim como podem ser complementares entre si a singularidade e a universalidade, como veremos a seguir.
categoria da particularidade e, em consequência,
seus complementos obrigatórios, o singular e o universal, Lukács (1978: 76) inicia definindo que o singular é o que é próprio ao indivíduo, ao especificamente pessoal; já o particular refere-se aos
“interesses de classe”; e o universal, aos “interesses
de toda a sociedade”.
Já de outra forma, o autor em questão
exemplifica as relações entre as três categorias teóricas, ligando-as então ao conceito de Trabalho. Segundo ele: considerando-se o trabalho em si mesmo,
pode-se designar a “divisão da produção social em
seus grandes gêneros, agricultura, indústria, etc., como divisão do trabalho em geral”; enquanto divisão
do trabalho em particular, a divisão destas classes de
produção pode ser feita “em espécies e subespécies”;
e, finalmente, de maneira singular, pode-se pensar a
“divisão do trabalho dentro de uma oficina como
divisão do trabalho em detalhe” (id.: 96, grifado no
original).
Continuando seus exemplos, para melhor
explicitar os três conceitos em análise, e ainda referindo-se às relações de trabalho sob o capitalismo,
Lukács observa que entre o capitalista e o operário
há uma terceira coisa (como pode ser o caso da Concorrência), uma coisa particular, portanto, que faz o
intermédio entre dois seres singulares. Ou ainda: es2. As três definições segundo as Ciências Sociais: ta não é, portanto, uma relação de simples indivíduos, puramente pessoal, mas mediatizada por um
No âmbito das Ciências Sociais contemporâneas, o terceiro, que é fruto das relações sociais (id.: 119).
Sendo assim, o que se apreende até aqui, a
pensador múltiplo Georg Lukács, de origem húngara, escreveu em 1957 um livro dedicado inteiramen- partir dos exemplos citados pelo autor, é que as relate à elucidação da categoria da particularidade: In- ções dialéticas (contraditórias, mas também completrodução a uma estética marxista: Sobre a categoria mentares) entre singularidade, particularidade e unida particularidade, e é a partir deste autor que busco versalidade, expressam-se na realidade da vida cotidiana de cada ser social, no dia a dia das nossas relaum esclarecimento melhor acerca da definição dos
três conceitos em questão. Lukács (1885-1971) foi
ções sociais, o que lhes retira a possibilidade de serem considerados como definições apenas abstratas,
amigo dos sociólogos Georg Simmel, Max Weber,
Karl Mannheim, Tönnies, dentre outros (Frederico, pertencentes unicamente aos debates intelectuais de
1998: 9); também participou dos cursos de Georg
economistas, filósofos, sociólogos, etc.
Simmel na Universidade de Berlim, na Alemanha,
Acrescenta ainda o pensador húngaro que
entre 1909-1910, chegando a ser “o aluno favorito apesar do idealismo hegeliano, há que se admitir que
de Simmel e assíduo frequentador da sua cafoi “Hegel quem primeiro colocou o problema do
sa” (Netto, 1981: 11, grifo meu). Todos estes inte__________________________________________
lectuais, na maioria sociólogos e filósofos a um só e
mesmo tempo, participavam de grupos de estudo
3. Apesar de indelevelmente presentes neste texto, não me interessa
(Schiur – seminário particular), aos domingos, vari- discutir aqui nem a perspectiva de classe e nem o método lukacsianos,
mas apenas demonstrar a sua contribuição para o debate acerca das
ando suas presenças nas casas de uns e de outros.
três definições em análise. Este é um texto sobre Metodologia de PesIsto significa que o contato de Georg Lukács com a quisa e Análise, e não sobre as concepções marxistas, ainda que cite
Marx, Lukács, o conceito de “classe social”, etc. Mesmo assim, volto
Sociologia, de modo algum, era superficial.
Em seu livro sobre a categoria da particula- a citar Jacques Le Goff (1990: 192) quando, concordando com o
sociólogo-filósofo francês Raymond Aron (1905-1983), afirma
ridade, o escritor húngaro expõe vários exemplos de que “Marx deu, do dinamismo permanente, constitutivo da
situações que demonstram o que vem a ser o singu- economia capitalista, uma interpretação que ainda hoje contilar, o particular e o universal. No capítulo central de nua válida”.
seu trabalho, no qual ele define detalhadamente a
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particular de maneira correta e multilateral” (Lukács, 1978: 73, grifado por mim), e para fugir àquele modo idealista de conceber tais definições, é preciso ressaltar, de antemão, que as três
“categorias lógicas” aqui em questão dizem respeito
à “situações objetivas” na sociedade, e não no pensamento. Elas são fruto “da realidade que lhes corresponde” (id.: 75), são categorias históricas portanto,
completamente opostas às categorias reflexivas idealistas e puramente subjetivas. As definições de singular, particular e universal somente se tornam históricas porque o intelecto humano consegue “elevar a
conceito o movimento concreto” do real (id.: 88).
Somente desta forma, então, é que tais categorias
podem servir de instrumento para se compreender “o
desenvolvimento vital da realidade em seu movimento, em sua complexidade” (id.: 87): se elas forem representações concretas do próprio mundo objetivo (id.: 75).
Postos esses aspectos diferenciados que
podem assumir as relações entre a tríade em discussão, voltemos agora ao exemplo concreto da particularidade da classe trabalhadora no Brasil, como no
caso citado inicialmente, ao se tratar das vontades
pessoais e dos interesses de classe do ex-Presidente
da República, da atual Presidenta e de seu partido
político (o PT), relacionando-os com as necessidades
universalistas de toda a sociedade brasileira: sobre
este assunto, o ponto de vista lukacsiano é o de que
“Somente em nome dos direitos universais da sociedade pode uma classe particular reivindicar para si
mesma o domínio universal” (Lukács, 1978: 77, grifos meus).
A partir dessa afirmação, lanço outra pergunta para ser refletida: em se considerando a perspectiva de sociedade (socialista?) do Partido dos
Trabalhadores, será que a “classe particular” que se
encontra no poder – já há uma década – vem conseguindo pôr de lado os seus interesses particularistas,
e exercer um “domínio” verdadeiramente em nome
dos “direitos universais” e dos interesses universalistas do conjunto da sociedade brasileira?
Há que se esclarecer que Lukács usa, neste
ponto de seus escritos, exemplos ligados a política,
ao trabalho e às classes sociais, no entanto, toda a
discussão a seguir tem a ver com seu método de estudo e análise, cujos propósitos são universais e referem-se, portanto, às categorias teóricas de singularparticular-universal como instrumentos lógicos de
análise que podem ser utilizados por qualquer pesquisador social, sejam eles ligados à Sociologia, Filosofia, História, etc.
Passo agora à discussão específica acerca
de cada uma das três definições aqui explicitadas,
que são, como já citado, categorias teóricas, porém
lógicas e concretas a um mesmo tempo, que somente
por estarem presentes na realidade cotidiana das relações sociais é que podem ser elevadas ao raciocínio lógico humano, ao nosso pensamento e à nossa
reflexão.
3. A Universalidade:
Entendeu-se, até aqui, que há uma mistura
– dialética – entre as noções de singularidade, particularidade e universalidade, que as relações entre
elas são contraditórias ao mesmo tempo em que são
também complementares. Especificamente sobre a
definição de universalidade, é preciso afirmar que há
perigo à vista quando se faz dela um mero conceito
vazio. O universalismo é necessário, seguindo nosso
exemplo, à classe que esteja no poder, seja ela de
procedência elitista ou operária; a universalidade
deixa de existir, observa Georg Lukács (1978: 88),
quando é uma característica “pensada apenas em
uma forma particular”. Como antes citado, esse problema, apesar de parecer “exclusivamente lógico”,
depois de Hegel passa a ser distinguido enquanto
“um problema da estrutura e do desenvolvimento da
sociedade” (id.: 82).
Sendo assim, as relações entre universalidade e particularidade “têm uma função de grande
monta”, pois o particular representa “a expressão
lógica das categorias de mediação entre os homens
singulares e a sociedade” (id.: 93). E nessa problemática da relação dialética entre universal e particular, lembrando de nosso exemplo sobre a tríade Presidente da República-Partido Político-Conjunto da
Sociedade, é necessário, nas palavras de Lukács,
sempre “esclarecer a forma concreta de sua relação
[universal-particular], caso por caso, em uma determinada situação social, com respeito a uma determinada relação da estrutura econômica”, e mais ainda:
é decisivo que se busque “descobrir em que medida
e em que direção as transformações históricas modificam esta dialética”. Também é necessário “estudar
e descrever, de um modo historicamente concreto
(...) e com exatidão, estas relações e suas transformações”. Somente se cumprindo esta “tarefa importante”, é que se finda descobrindo “que as contradições
concretas assim percebidas devem ser compreendidas, do ponto de vista lógico-metodológico, como
casos concretos e expressões de uma dialética de
universal e particular” (id.: 91-92, grifos meus). E
esta dialética concreta de universal e particular é,
desse modo, uma “arma metodológica”, é um
“instrumento para esclarecer as conexões reais” entre
os fenômenos sociais em análise (id.: 95).
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Para Lukács, a linha fundamental do movimento de pensamento dialético dá-se em um movimento irresistível, em “uma aproximação progressiva que conduz do puramente singular ao universal
através do particular”, o que significa que “todos os
conceitos e processos mentais, têm o seu ponto de
partida na realidade objetiva [social e histórica] independente da consciência” (id.: 102-103).
Ensina o pensador húngaro que a universalidade está sempre “em uma contínua tensão com a
singularidade”, além de estar também em uma
“contínua conversão em particularidade”. Da mesma maneira, e de modo inverso, a particularidade
está sempre em contínua tensão com o universal e
em contínua conversão em singularidade. Ou seja, as
relações entre essa tríade são sempre múltiplas e
contraditórias, e quanto mais autêntica e profundamente os nexos da realidade, suas conexões e contradições, “forem concebidos sob a forma da universalidade”, de forma mais exata e mais concreta
“poderá ser compreendido também o singular” (id.:
104).
Vamos discorrer agora especialmente sobre
a definição filosófica/sociológica de singularidade.
modo, espaço para identidade entre uma e outra, por
serem opostas; contudo, o singular não existe senão
em sua relação com o universal. Segundo Lukács, o
“movimento dialético da realidade, tal como ele se
reflete no pensamento humano, é assim um incontrolável impulso do singular para o universal e deste,
novamente, para aquele”. Sendo assim, a particularidade, a singularidade e a universalidade não são
idênticas, ao contrário, há entre elas uma “nítida e
precisa distinção”, mas isto não exclui que possa
haver “passagens e conversões” dialéticas tanto entre universalidade e particularidade, como entre singularidade e particularidade. Mas nosso pensador
húngaro adverte que essas distinções, ainda que presentes na realidade cotidiana de todo ser humano,
são pouco desenvolvidas “no modo de pensar da vida cotidiana” (id.: 110).
No próximo item, passamos à explicitação
do significado da categoria teórico-metodológica da
particularidade, a mais discutida por Lukács em seu
livro Introdução a uma estética marxista: Sobre a
categoria da particularidade (de 1957), além do auxílio na compreensão do conceito de mediações.
5. A Particularidade – Um Campo de mediações:
4. A Singularidade:
Ainda a partir do trabalho de Lukács,
aprendemos que o conhecimento e a compreensão da
singularidade “não pode ocorrer separadamente das
suas múltiplas relações com a particularidade e com
a universalidade”; estas relações múltiplas já estão
contidas na imediaticidade do singular, “no imediatamente sensível de cada singular”, e tanto a realidade como a essência da singularidade “só pode ser
exatamente compreendida quando estas mediações
(as relativas particularidades e universalidades) ocultas na imediaticidade são postas à luz”, o que significa, também, que “esta aproximação ao singular enquanto tal pressupõe o conhecimento mais desenvolvido possível das relativas universalidades e particularidades”. O singular, portanto, “precisamente como singular, é conhecido tão mais seguramente e de
um modo tão mais conforme à verdade (...) quanto
mais rica e profundamente forem iluminadas as suas
mediações para com o universal e o particular” (1978: 106-107).
O que se apreende então, até esse ponto,
especificamente acerca das relações entre singularidade e universalidade, é que suas ligações na realidade são inseparáveis, apesar de opostas entre si.
Tais categorias lógicas estão presentes no real em
unidade dialética, mas, ao mesmo tempo, há uma
conexão contraditória entre elas, não havendo, desse
Como bem esclarece Lukács, na vida cotidiana, no conjunto das relações sociais, a particularidade “se confunde, em sua determinação e delimitação, ora com o universal ora com o singular”, e é por
isso que “na construção científica e filosófica, os
extremos são desenvolvidos antes do que os meio
mediadores [as particularidades]” (1978: 110, grifos
meus), assim definida, a particularidade é “um membro intermediário com características bastante específicas” (id.: 112).
Por tudo isso, continua o filósofo húngaro,
é que somente pode existir “uma autêntica e verdadeira aproximação à compreensão adequada da realidade”, uma relação verdadeiramente dialética entre
teoria e prática, se houver clareza: dessa “tensão dos
pólos, constantemente em ato”; se houver o entendimento da “constante conversão dialética recíproca
das determinações e dos membros intermediários
que têm função mediadora”; e se for compreendido
que há esta “união entre os pólos”, ainda que seja
uma união tensa e contraditória. Portanto, a tarefa do
intelectual é, tal como assinala Lukács, não julgar a
realidade em análise, e nem descrevê-la ou explicála da forma que o intelectual queria que fosse, ou da
forma que o real deveria ser, mas tentar elevar à
consciência a “exata relação dos homens para com a
realidade objetiva” (id.: 111).
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Ou ainda, o pesquisador deve observar, na
realidade concreta/cotidiana, como as relações sociais se processam, sem que os seus valores pessoais,
seus desejos e interesses influenciem nos tratamento
dos dados observados/coletados por ele. Por exemplo, refletindo sobre a cultura popular, Augusto
Arantes (1987:57) propõe-se a que, neste seu livro
“se projete o foco de atenção sobre o que as culturas
efetivamente são, ou melhor, sobre como elas são
produzidas, sobre os processos através dos quais elas
se constituem e o que elas expressam, e não sobre o
que elas foram, seriam ou deveriam ser” (grifado
em negrito por mim).
Deste modo, Lukács enfatiza que o movimento do singular ao universal, assim como seu contrário: do universal ao singular, “é sempre mediatizado pelo particular”. A particularidade é então “um
membro intermediário real, tanto na realidade objetiva quanto no pensamento que a reflete” (id.:
112).
Não é por acaso, acrescenta o autor, que a
tríade singular-particular-universal se tenha tornado
formalmente dominante, este fato “não é casual, já
que início, meio e conclusão descrevem a estrutura
formal necessária de qualquer operação mental”.
Também, é preciso lembrar que “a relação de forma
e conteúdo é uma relação mais próxima e mais convergente no início e na conclusão do que no meio”, e
este meio, por sua vez, é “uma expressão complexiva e sintética de todo o conjunto de determinações
que mediatizam o início e a conclusão” (id.: 113).
Lukács ressalta que nenhum dos movimentos aludidos acima são “pontos firmes”. Do mesmo
modo que a particularidade – que é na verdade um
“inteiro campo de mediações” –, também “início e
conclusão (universalidade e singularidade) de modo
algum são pontos firmes no sentido estrito da palavra”, pois “o desenvolvimento do pensamento e dos
conhecimentos têm precisamente a tendência a transferi-los cada vez mais”. Todavia, se se leva em consideração corretamente o movimento dialético do
particular ao universal, assim como da universalidade à particularidade, observa-se que “o meio mediador (a particularidade) pode menos ser um ponto
firme, um membro determinado, e tampouco dois
pontos ou dois membros intermediários (...) mas sim
em certa medida, um campo inteiro de mediações” (id.: 113, grifos meus).
A cada passo que a construção do conhecimento vai sendo aperfeiçoado pelo pesquisador, pode-se “alargar este campo [de mediações], inserindo
na conexão momentos dos quais precedentemente se
ignorava que funções tinham na relação entre uma
determinada singularidade e uma determinada universalidade”. Assim como também se pode diminuir
esse campo de mediações, composto pelas particularidades, “na medida em que uma série de determinações mediadoras – que até um dado momento eram
concebidas como sendo independentes uma da outra
e autônomas – são agora subordináveis a uma única
determinação” (Lukács, 1978: 113).
Torna-se claro, desta maneira, que o particular “não é simplesmente o membro pontual da mediação em uma tríade, mas sim uma espécie de campo de mediação para o universal (e, em certos casos
particulares, para o singular)” (id.: 116, grifo meu).
A partir de uma série de pesquisas, cada
uma voltada para o esclarecimento de um novo aspecto particular do problema, em suas características
específicas, pode surgir (graças ao aprofundamento
destes novos aspectos particulares) outra concepção
diferente, que venha a alargar e aprofundar mais ainda o seu conceito, elevando-o a um nível superior de
universalidade; de tal modo que “A cuidadosa análise do particular é apenas um meio para alcançar este
grau superior de universalidade”, buscando-se esta
ampliação da universalidade do conceito (id.: 114115). Isto significa que, através de mediações, em se
conhecendo momentos particulares novos, a universalidade dos conceitos envolvidos no problema é
ampliada e tornada superior ao que antes se conhecia.
Seria enganoso, afirma Lukács (1978: 116),
após todas essas considerações, concluir-se que “o
particular é uma amorfa e inarticulada faixa de ligação entre o universal e o singular (...) as coisas não
são assim”. O campo de mediações tratado aqui é
naturalmente articulado, e cada etapa que o conhecimento leva a compreender em tal campo pode, apenas por aproximação, “ser claramente determinada e
fixada, do mesmo modo que podem ser fixadas a
universalidade e a singularidade”. Também o fato de
que, em muitos casos, “deva-se fixar uma inteira cadeia de membros particulares da mediação, a fim de
ligar corretamente entre si a universalidade e a singularidade”, demonstra que, de modo algum, a particularidade tenha um caráter amorfo.
A partir do prisma da linguagem, continua
o pensador húngaro, são bastante precisos os significados de singular e universal, já a expressão particularidade pode querer dizer muitas coisas: “ela designa tanto o que impressiona, o que salta à vista, o que
se destaca (em sentido positivo ou negativo), como o
que é específico; ela é usada, notadamente em filosofia, como sinônimo de ‘determinado’, etc.” Contudo,
esta oscilação que pode existir no significado do particular “não é casual, mas tampouco ele indica um
amorfismo fugidio; ele diz respeito apenas ao caráter
sobretudo posicional da particularidade”. A particularidade que aqui se busca esclarecer representa,
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com relação ao singular, “uma universalidade relativa, e, com relação ao universal, uma singularidade
relativa”, e esta relatividade posicional “não deve ser
concebida como algo estático, mas sim como um
processo. A própria conversão, por nós assinalada
deste ‘termo médio’ em um dos extremos já implica
este caráter processual” (id.: 117).
A particularidade, desse modo, é um princípio do movimento do conhecimento, e enquanto
“momentos particularidades mediadores”, ela tem,
na sociedade, “uma existência relativamente bem
delimitada, uma figura própria” (id.: 118). Decidindo-se o pesquisador por eliminar a particularidade, e
operar apenas com os extremos (singular e universal), enfatiza Lukács, é “deformante”, assim como o
fizeram, por exemplo, os pré-socráticos, Aristóteles,
a filosofia burguesa, etc. Estes, buscaram “afastar
idealmente da vida dos homens, justamente com o
particular, as determinações sociais”, passando por
cima, como no caso da filosofia burguesa, do caráter
de classe da sociedade capitalista; e esta tendência
afirmava que “o homem deve sempre ser compreendido como singular, excluindo-se todas as mediações
da socialidade de sua existência, afastando-se qualquer particularidade mediadora” (id.: 119-120).
Em se tratando das relações dialéticas e das
mediações
existentes
entre
singularidadeparticularidade-universalidade, a eliminação da
particularidade é, por fim, uma luta contra a objetividade, constata Lukács, desconsiderá-la é lutar contra a concreticidade e contra a apreensão correta da
dialeticidade das relações sociais (1978: 120).
O que importa afinal, é que ao se debater
hoje as definições de particularismos e universalismos, se tenha um pouco mais de segurança sobre o
que significam tais categorias lógicas.
E, principalmente, aprendemos aqui que os
interesses particularistas, em sendo interesses de
apenas uma “classe social” que se encontre no poder
(como no exemplo citado, do Governo do exPresidente Lula e da atual Presidenta Dilma, ambos
filiados ao Partido dos Trabalhadores), poderiam e
deveriam ser convertidos em interesses universalistas, voltados para o bem-estar da maioria da população brasileira. Assim como também, fomos levados
a compreender que, às vezes, um discurso que a
princípio seja universalista pode esconder interesses
eminentemente particularistas, noutras palavras:
pode ocorrer que aquilo que se apresenta como universalismo hoje, venha a converter-se, amanhã, em
interesses particulares de apenas uma classe, um grupo ou segmento social!
7. Referências:
ARANTES, Antonio Augusto. O Que é Cultura Popular. 12ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
COHN, Gabriel. “Introdução”. In: COHN, G.
(Org.). Weber – Sociologia. 7ª ed. São Paulo: Ática,
2002.
FERREIRA, Aurélio B. H. Mini-Aurélio Século XXI:
Escolar. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2001.
FREDERICO, Celso. Lukács: Um clássico do século
XX. São Paulo: Moderna, 1998.
Acredito que o objetivo deste ensaio – o de HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua
contribuir para o esclarecimento das categorias teóri- Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva/Instituto Antôcas de singular, particular e universal – foi atingido. nio Houaiss, 2009.
Como foi visto acima, o nosso conhecimento comum LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo:
acerca de tais conceitos, assim como dos significa- EdUnicamp, 1990. (trad. Bernardo Leitão et. al.).
dos postos pelos Dicionários mais utilizados no país,
não são suficientes para um entendimento mais apro- LUKÁCS, Georg. Introdução a uma estética marxisfundado acerca das relações existentes entre particu- ta: Sobre a categoria da particularidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. (trad. Carlos
laridade, universalidade e singularidade.
Demonstrou-se também, como é rica a de- Nelson Coutinho e Leandro Konder).
finição de particularidade, tão usada pela maioria
PAULO NETTO, José (Org.). Lukács. São Paulo:
das pessoas com o sentido banal de
Ática, 1981.
“individualidade”, o que faz com ela perca quase que
totalmente a sua significância teórico-ontológica; WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simenquanto que, na verdade, o particular abrange um mel. São Paulo: USP/PPGS/Ed. 34, 2000.
campo inteiro de mediações, que se encontram a
meio caminho (mas não em uma posição fixa) entre
o singular e o universal. Deve o pesquisador observar que estas mediações por vezes se aproximam
mais da universalidade e, às vezes, tornam-se mais
próximas ao singular.
6. Conclusão:
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Rocambole de doce de leite
Ingredientes:
3 colheres de sopa de manteiga
3 ovos
1 copo ou xícara de farinha de trigo
1 copo ou xícara de açúcar
1 colher de sopa de fermento em pó
Recheio e cobertura
1 lata de doce de leite
1/2 xícara de açúcar
Modo de fazer: Bater no liquidificador os ovos, o açúcar, a manteiga,
em seguida a farinha e o fermento. Untar uma forma com bastante
manteiga, colocar a massa batida na forma, e levar ao forno préaquecido por 5 a 8 minutos . Tirar a massa do forno e colocar sobre um
pano molhado. Espalhe o doce de leite sobre a massa. Enrole a massa
com o doce de leite, e polvilhe com açúcar.
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HOSPITAL DE LAGUNA
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Ilumine esta ideia! Como você deseja que o Hospital de Laguna seja?
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nos serviços de internação e de urgência/emergência oferecidos pelo
Hospital de Laguna e pela rede de estabelecimentos e profissionais credenciados (visite no site o link do Cartão de Benefícios). Os descontos
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Para tornar-se um associado do hospital, basta preencher o formulário
que se encontra no site e encaminhá-lo à direção do hospital. O valor
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Todo associado poderá usufruir das vantagens do cartão de benefícios
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CEP: 88790-000, Laguna SC
Fones: Central telefônica: (0xx)48 3646-0522 / DPVAT: (0xx)48 3646-1237 / Fax: (0xx)48 3644-0728
Fotos Históricas do Hospital
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Varal do Brasil— julho/agosto 2012
Consulado-Geral do Brasil em Genebra
O Consulado é parte integrante da rede consular do Ministério das Relações Exteriores. Sua função principal é a de
prestar serviços aos cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes na sua jurisdição consular, dentro dos limites estabelecidos pela legislação brasileira, pela legislação suíça e pelos tratados internacionais pertinentes.
O Consulado-Geral do Brasil encontra-se localizado no número 54, Rue de Lausanne, 1202 Genebra.
O atendimento ao público é de segunda à sexta-feira, das
9h00 às 14h00.
O atendimento telefônico é de segunda à sexta-feira, das
13h00 às 17h00. Favor ligar para 022 906 94 20.
Revista Varal do Brasil
A revista Varal do Brasil é uma revista bimensal independente, realizada por Jacqueline Aisenman.
CONSULADO-GERAL DO BRASIL EM
Todos os textos publicados no Varal do Brasil receberam a aprovação dos autores, aos
quais agradecemos a participação.
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