a violência doméstica sob o olhar de mulheres de comunidades

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a violência doméstica sob o olhar de mulheres de comunidades
A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA SOB O OLHAR DE MULHERES DE
COMUNIDADES POPULARES URBANAS
Michelle Miranda Santana1
Karla Maria Damiano Teixeira2
Michele Morais Oliveira3
Priscila Rezende Cardoso Oliveira4
Adriana Mayrink Linhares5
Cristina Teixeira Lelis6
Márcia Cristina de Paiva Freitas7
Ana Paula Nery Rosado8
Luciana Soares de Morais9
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RESUMO
Situações de pobreza e exclusão social estão intimamente ligadas à existência da
violência doméstica, principalmente contra a mulher. Dessa forma, o presente artigo propôsse a analisar as representações sociais da violência doméstica de mulheres de baixa renda. A
amostra foi composta por oito mulheres, residentes em bairros periféricos de Viçosa-MG. A
abordagem qualitativa foi escolhida como perspectiva metodológica e como técnicas de coleta
de dados foram utilizadas o questionário e o grupo focal. Os dados foram categorizados com o
apoio do software MAXqda e submetidos à análise de conteúdo. Constatou-se baixa
1
Graduanda em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa.
Professora Adjunta do Departamento de Economia Doméstica da Universidade Federal de Viçosa. Orientadora
da Pesquisa
3
Mestre em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa, linha de pesquisa ‘Bem estar social e
qualidade de vida’. Bolsista de apoio técnico à pesquisa/ CNPq.
4
Graduanda em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa. Bolsista de iniciação científica
FAPEMIG.
5
Graduanda em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa.
6
Graduanda em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa. Bolsista de iniciação científica CNPq.
7
Graduanda em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa.
8
Bacharel em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa.
9
Bacharel em Economia Doméstica/ Universidade Federal de Viçosa.
2
escolaridade dessas mulheres e o predomínio de famílias nucleares. As representações sociais
dessas mulheres sobre violência doméstica exprimem ações e condutas agressivas vivenciadas
por elas. Neste sentido, o desenvolvimento de ações nas áreas de educação e cultura, em
comunidades de baixa renda, deve objetivar educação para a cidadania e “empoderamento”
dessas famílias, de forma a reduzir a exclusão social e os índices de violência.
Palavras-Chave: Violência Doméstica; Gênero; Exclusão Social.
1. INTRODUÇÃO
A violência doméstica pode ser definida como qualquer tipo de abuso físico, sexual ou
emocional praticado por um parceiro contra o outro ou ainda contra crianças e/ou idosos, no
ambiente doméstico (ZILBERMAN; BLUME, 2005). Apesar de a violência doméstica ser um
fenômeno antigo e persistente, somente passou a fazer parte das estatísticas nacionais no final
do século XX.
Sendo assim, Soares (2006) destaca que, neste período, do total de casos de violência
doméstica, 63% das vítimas eram mulheres. Narvaz e Koller (2006) afirmam que no início do
século XXI, 23% das mulheres brasileiras ainda estão sujeitas à violência doméstica. Mesmo
assim, há carência de estudos populacionais sobre a violência baseada em gênero, o que
impossibilita um melhor conhecimento sobre esse fenômeno (DANTAS-BERGER; GIFFIN,
2005).
Adeodato et al. (2005) afirmam que a violência contra a mulher é um problema social
e de saúde pública. Day et al. (2003) mencionam que, em todo o mundo, pelo menos uma em
cada três mulheres já foi espancada, coagida ao sexo ou sofreu alguma forma de abuso
durante a vida, sendo o agressor, geralmente, um membro de sua própria família.
Para Dias (s.d..), situações de pobreza e exclusão social estão intimamente ligadas à
existência da violência doméstica. Kronbauer e Meneghel (2005) destacam que a pobreza
familiar e o baixo nível masculino de instrução predizem os maus tratos físicos à mulher.
Entre os fatores associados ao risco de violência doméstica contra as mulheres incluem-se os
baixos salários e as pressões econômicas. Além disso, os homens desempregados são mais
violentos com suas esposas e filhos. Dessa forma, os sinais de exclusão social estão
associados a maiores prevalências das agressões.
Apesar de a violência doméstica não ser propriedade característica das classes sociais
mais empobrecidas, é nelas onde sua incidência é mais elevada (FORTES, 2006). Adeodato et
al. (2005) destacam que a mulher agredida, na maioria dos casos, é jovem, apresenta baixa
escolaridade e se situa em classe social mais baixa.
Sendo assim, problematiza-se que, sendo a violência doméstica característica das
classes sociais mais baixas, as mulheres entenderão essas praticas como naturalizadas ou
próprias da sociedade em que vivem.
Essa problemática deu origem ao objetivo geral deste trabalho, que compreendeu em
analisar as representações sociais da violência doméstica de mulheres de baixa renda e
entender as formas como elas elaboram esse conhecimento e como convivem com esse
problema em seu cotidiano.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Para uma melhor compreensão, o referencial teórico está subdividido nos seguintes
temas: violência doméstica, mulheres e pobreza; causas e conseqüências da violência
doméstica e a Teoria das Representações Sociais.
2.1 Violência Doméstica, Mulheres e Pobreza
A violência doméstica é um fenômeno tão antigo quanto a pobreza, apesar de ser
recente seu reconhecimento enquanto problema social (DIAS, s.d.).
Day et al. (2003, p. 10) afirmam que a violência doméstica é um problema complexo e
árido e a definem como:
“Toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física,
psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da
família. Pode ser cometida dentro ou fora de casa, por qualquer integrante da
família que esteja em relação de poder com a pessoa agredida. Inclui também as
pessoas que estejam exercendo as funções de pai ou mãe, mesmo sem laços de
sangue”.
O Ministério da Saúde (2001) destaca quatro formas de violência doméstica: física,
psicológica, negligência e sexual. Para Day et al. (2003), a violência física ocorre quando
alguém causa ou tenta causar lesões por meio de força física ou de algum tipo de arma ou
instrumento. A violência psicológica inclui qualquer ação ou omissão que causa ou visa
causar dano à auto-estima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. A negligência é a
omissão de responsabilidades de um ou mais membros da família em relação a outro,
sobretudo àqueles que precisam de ajuda por questões de idade ou alguma condição física,
permanente ou temporária. Já a violência sexual é toda ação na qual uma pessoa, em situação
de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais, utilizando força física, influência
psicológica, uso de armas e/ou drogas.
Estas formas de violência não ocorrem de forma isolada. Qualquer que seja a forma
assumida pela agressão, a violência psicológica está sempre presente (SAFFIOTI, 1999).
Ainda de acordo com Saffioti (1999), a expressão “violência doméstica” é muito utilizada
como sinônimo de “violência familiar” e, freqüentemente, como “violência de gênero10”, o
que reflete a violência contra a mulher perpetrada por seu parceiro íntimo.
Segundo a Assembléia Geral das Nações Unidas, em 1993, citada por Dantas-Berger e
Giffin (2005), a violência contra a mulher é qualquer ato de violência de gênero que resulte,
ou tenha probabilidade de resultar, em prejuízo físico, sexual ou psicológico, ou ainda
sofrimento para as mulheres, incluindo também a ameaça de praticar tais atos, a coerção e a
privação da liberdade, ocorrendo tanto em público como na vida privada.
A violência de homens contra as mulheres pode ser interpretada como fruto de uma
cultura de dominação masculina. Todas as formas de violência contra a mulher destroem, aos
poucos, o auto-respeito e a auto-estima desta (AMARAL et al., 2001a).
A violência contra as mulheres é diferente da violência interpessoal em geral. Os
homens têm maior probabilidade de serem vítimas de pessoas estranhas ou pouco conhecidas,
enquanto as mulheres têm maior probabilidade se serem vitimas de membros de suas próprias
famílias ou de seus parceiros íntimos (DAY et al., 2003).
Nesse contexto, Amaral et al. (2001b) afirmam que, no Brasil, estima-se que, a cada
quatro minutos, uma mulher seja agredida, sendo que em 85,5% dos casos de violência contra
mulheres, os agressores são seus parceiros.
Kronbauer e Meneghel (2005) ressaltam que, em seus estudos, constataram maior
prevalência de violência doméstica entre as mulheres mais pobres, as quais consultam os
serviços de saúde três vezes mais que as demais e que o número de consultas cresce
proporcionalmente à gravidade das agressões.
Nesse sentido, vale destacar a definição do termo “pobreza”, proposto pela
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO (2007),
que relaciona a violência à pobreza:
10
Gênero é um conceito das Ciências Sociais utilizado para análise e compreensão da desigualdade entre o que é
atribuído à mulher e ao homem. Dessa forma, os papéis de gênero são ensinados a cada pessoa como próprios da
condição de ser homem ou mulher (GOMES, 2002). Dessa forma, é de fundamental importância compreender
que a violência no âmbito doméstico tem íntima relação com questões de gênero, onde há dominação do homem
e inferioridade da mulher (CREPSCHI, 2005).
“Um fenômeno amplo que se refere à estrutura de bem-estar e de participação no
cotidiano social e engloba diversos elementos, não somente relacionados à falta de
recursos como a desigualdade na distribuição de renda, mas também a
vulnerabilidade, a exclusão social, a violência, a discriminação, a ausência de
dignidade, etc.” (grifo nosso).
2.2 Causas e Conseqüências da Violência Doméstica
No que se refere às causas da violência, Santana (2004) destaca que existem opiniões
variadas. Este autor destaca que Durkheim acredita que a violência é um sintoma do
funcionamento ineficiente das instituições sociais, ou falhas nos processos de socialização das
pessoas. Enquanto outros opinam que a violência tem causas difusas, como racismo,
intolerância, desigualdades sociais, processos de exclusão, ineficácias da lei, impunidade,
omissão do Estado entre outras.
E quanto às causas da violência contra a mulher, Day et al. (2003) destacam que
muitos pesquisadores consideram a interação de diversos fatores pessoais, situacionais e
socioculturais que se combinam para provocar o abuso. Como fatores pessoais do agressor,
destacam-se: ser homem; ter presenciado violência conjugal quando criança; ter sofrido abuso
na infância; ser consumidor de bebidas alcoólicas e drogas e ter sintomas depressivos. Quanto
aos fatores situacionais, tem-se: conflito conjugal, controle masculino da renda e da tomada
de decisões na família. No que se refere aos fatores socioculturais, tem-se: pobreza,
desemprego; associação a amigos delinqüentes; normas socioculturais que concedem aos
homens o controle sobre o comportamento feminino; aceitação da violência como forma de
solução de conflitos; conceito de masculinidade ligado à dominação, honra ou agressão e
papéis rígidos para ambos os sexos.
Depois de passarem a ser vítimas de violência doméstica, muitas mulheres iniciam o
uso de medicamentos ansiolíticos e anti-hipertensivos. Dados da Secretaria Municipal de
Saúde de Belo Horizonte, Minas Gerais, mostram que o uso de medicamentos soníferos é
40% maior nas mulheres que vivem em situação de violência conjugal do que nas mulheres
em uniões não violentas (ADEODATO et al., 2004).
Day et al. (2003) menciona que as seqüelas psicológicas da violência doméstica são
ainda mais graves que seus efeitos físicos. Essa experiência destrói a auto-estima da mulher,
expondo-a a um risco mais elevado de sofrer problemas mentais, como depressão, fobia,
estresse pós-traumático, tendência ao suicídio e consumo abusivo de álcool e drogas.
As mulheres, ao sofrerem violência por parte de seus maridos ou companheiros,
expressam descontentamento por se sentirem como objetos ou seres sem autonomia. E quanto
mais elas tentam romper com padrões tradicionais de domesticidade e passividade, mais os
conflitos se agravam, ocasionando em um rompimento da relação, sendo este demorado e
traumático (DANTAS-BERGER; GIFFIN, 2005). Nesse sentido, Day et al. (2003) afirmam
que, infelizmente, após o término da relação, a violência pode continuar ou até se agravar.
2.3 A Teoria das Representações sociais
A Teoria das Representações Sociais centra seu olhar sobre a relação entre sujeitoobjeto, e, ao fazer isso, ela recupera um sujeito que, através de sua atividade e relação com o
objeto-mundo, constrói tanto o mundo quanto a si mesmo. Tanto a cognição como os afetos
que estão presentes nas representações sociais encontram sua base na realidade social
(GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 2002).
As representações sociais são manifestas de acordo com o modo como as pessoas
apreendem a vida cotidiana, ou seja, nos saberes expressos por elas sobre a realidade e sobre
sua interação com os outros (OLIVEIRA; WERBA, 1998).
Moscovici (1978) destaca que as representações sociais são conjuntos dinâmicos, seu
status é o de uma produção de comportamentos e de relações com o meio ambiente, de uma
ação que modifica aqueles e estas, e não de uma reprodução desses comportamentos ou dessas
relações, de uma reação a um dado estímulo exterior.
Para Spink (1995), as representações sociais acontecem em todas as ocasiões e lugares
onde as pessoas se encontram informalmente e se comunicam. Essas representações fazem
parte da vida em sociedade. Minayo (2002) acredita que as representações sociais se
manifestam em palavras, sentimentos e condutas, se institucionalizando. Sua mediação
privilegiada, porém, é a linguagem, tomada como forma de conhecimento e interação social.
Para a autora, a realidade vivida é também representada e, através desta, os atores sociais se
movem, constroem sua vida e explicam-na mediante seu estoque de conhecimentos.
Madeira e Pessoa (2003) destacam a afirmação de Abric (1998), de que o sucesso da
Teoria das Representações Sociais está relacionado a uma nova visão de mundo, renovando o
interesse geral pelos fenômenos e especialmente pelas regras que regem o pensamento social.
Nesse contexto, Monteiro et al. (1999) afirmam que as representações sociais acerca da
violência doméstica são constituídas por aspectos psicossociais, presentes nesse fenômeno
social. Sendo estes: alcoolismo, precárias condições socioeconômicas, baixo nível de
escolaridade, dentre outros.
3. METODOLOGIA
O presente estudo foi realizado na cidade de Viçosa, localizada na região da Zona da
Mata do estado de Minas Gerais. Segundo dados do IBGE (2007), publicados no Diário
Oficial da União em outubro deste mesmo ano, a cidade possui, em média, 70401 habitantes.
Segundo Souza e Pinto (2007), Viçosa possui sérios problemas econômicos e sociais
tais como estagnação econômica, pobreza, desigualdades sociais e altos índices de
desemprego. Possui um índice de exclusão social de 0,565; índice de desigualdade de 0,216; e
índice de desemprego formal de 0,16211 (POCHMAN; AMORIM, 2004).
A população alvo da pesquisa se constituiu de mulheres residentes em três
comunidades populares urbanas de Viçosa-MG, Barrinha, Cidade Nova e Amoras, onde são
desenvolvidas as atividades do Programa CooperAção Social12.
Para compor a amostra, foram convidadas, para participarem da discussão em grupo,
todas as participantes assíduas das oficinas de capacitação oferecidas na comunidade.
Dessa forma, a amostra foi composta por oito (8) mulheres. A idade variou de 25 a 70
anos. Quanto ao estado civil, 5 eram casadas, 2 solteiras e 1 em união estável.
No que se refere à escolaridade, 3 possuíam Ensino Fundamental incompleto; 2 o
Ensino Médio incompleto; 1 o Ensino Médio completo; 1 o Ensino Fundamental; e, 1 o
Ensino Superior. Apenas uma delas freqüentava a escola na época da pesquisa.
Quanto à ocupação, quatro estavam desempregadas, três possuíam trabalho fixo com
carteira assinada e, uma era aposentada. A renda das mulheres que trabalhavam variou de 0,63
a 1 e ½ salários mínimos13, sendo a renda média 1,05 salários mínimos.
A maioria das famílias era nuclear14 (6) e a média de membros por família foi de 3,75.
Dentre as famílias em questão, metade (4) estava em fase de dispersão, ou seja, com os filhos
já adultos; duas em fase de maturação, com filhos pré-adolescentes; e, duas em fase de
formação, ou seja, com filhos ainda crianças ou com a mãe em estado de gestação.
A abordagem qualitativa foi escolhida como perspectiva metodológica para esta
pesquisa, considerando a natureza do estudo, que pressupõe o contado direto do pesquisador
com a realidade estudada.
11
O índice considerado ideal para estes itens seria igual a 1 (POCHMAN; AMORIM, 2004).
O Programa Cooperação Social, em andamento desde 2005 no município de Viçosa-MG, articula projetos de
pesquisa e intervenção social (extensão). Promove ações educativas com vistas ao aumento da escolaridade, da
capacitação e atualização técnica e da geração de trabalho e renda por meio de cooperativas de produção
autogeridas, concorrendo para melhoria da qualidade de vida das famílias atendidas.
13
O salário mínimo vigente à época da pesquisa era de R$ 380,00.
14
Considerou-se neste trabalho família nuclear como sendo a família composta por pai, mãe e filhos.
12
Como técnicas de coleta de dados foram utilizadas o questionário, com perguntas
objetivas e subjetivas e a técnica do grupo focal, com um roteiro semi-estruturado.
Neto et al. (2002) definem Grupo Focal como:
“uma técnica de pesquisa na qual o pesquisador reúne, num mesmo local e durante
um certo período, uma determinada quantidade de pessoas que fazem parte do
público-alvo de suas investigações, tendo como objetivo coletar, a partir do diálogo
e do debate com e entre eles, informações acerca de um tema específico”.
As falas do grupo focal foram gravadas, sob permissão das participantes, com o uso do
aparelho MP3 Player e, posteriormente, transcrito na íntegra, preservando-se o anonimato das
participantes. Depois de transcrito, o texto foi codificado e analisado utilizando-se o software
MAXqda (Software for Qualitative Data Analysis). Para interpretação dos dados utilizou-se a
análise de conteúdo, que para Bauer e Gaskell (2002), “é uma construção social”.
4. REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DAS MULHERES SOBRE A VIOLÊNCIA
DOMÉSTICA
Nas representações que as mulheres têm da violência doméstica, verificou-se um
discurso permeado por atributos físicos e simbólicos. Os atributos físicos foram evidenciados
pelo espancamento e agressão física. Nesse contexto, Day et al. (2003) afirma que a agressão
física é a mais freqüente, e que varia de uma “palmada” a espancamentos e homicídios.
“Eu acho assim, é quando um casal, um agride o outro. Ou, seja o pai ou a mãe
espanca o filho, isso aí é tudo violência doméstica” (Casada, 25 anos, Ensino Médio
Incompleto).
Os atributos simbólicos expressos pelas mulheres referem-se à agressão verbal. Nesse
sentido, Rusche (S.D..) afirma que a violência doméstica não se manifesta apenas por meio de
agressões físicas, pois muitas sofrem com os maus tratos causados pela violência psíquica,
como xingamentos, ofensa à conduta moral e ameaças.
“Mas também não é só bater que é violência. Tem palavras que agridem muito uma
pessoa, o jeito que você fala, o tom de voz que está falando. Quando xinga, um
xingando o outro. Isso tudo é violência” (Solteira, 26 anos, Ensino Superior
Completo).
Day et al. (2003) fazem destaque a esse tipo de agressão e a denominam “violência
psicológica”, sendo esta uma forma subjetiva que deixa profundas marcas, podendo
comprometer toda a vida mental:
“Mas, às vezes, uma pessoa fala uma coisa que a gente não esquece nunca na vida”
(Amigada, 30 anos, Ensino Médio incompleto).
Sobre os motivos que levam à violência doméstica, foi destacado, com maior
freqüência, o uso de bebidas alcoólicas.
“É mais a bebida, bebida que faz brigar (…)” (Casada, 32 anos, Ensino
Fundamental incompleto).
“... o causador mais da confusão é a bebida mesmo (...), porque a pessoa quando
bebe descontrola tudo” (Casada, 25 anos, Ensino Médio incompleto).
Assim, Zilberman e Blume (2005) afirmam que homens violentos possuem índices
mais altos de alcoolismo em comparação àqueles não violentos. Eles mencionam ainda
estudos que identificaram índices alcoolismo de 67% e 93% entre maridos que espancam suas
esposas.
O autoritarismo foi apontado como uma das causas da violência. Porém, é importante
ressaltar que o autoritarismo, por si só, é uma forma de violência, pois retira o espaço do
diálogo e do respeito, ratificando o servilismo e a dominação.
“Eu acho que é falta de diálogo né? (...) Tem gente que já vai batendo, não tem
diálogo” (Solteira, 26 anos, Ensino Superior completo).
Segundo Saffioti (1994), no ano de 1992, ao ser instaurada a Comissão Parlamentar de
Inquérito sobre a violência contra a mulher, foi constatado que a principal causa de sua
ocorrência, no ambiente doméstico era a não disponibilidade cotidiana da mulher para
satisfação dos desejos de sexo do parceiro. Isso foi mencionado por uma participante da
pesquisa como mostra a fala a seguir:
“Eu acho que, às vezes, eles brigam (...) porque o homem você já viu. A parte
sexual do casamento pra ele é tudo, então às vezes, dentro de casa não tem, às vezes
demora, aí ele vai e procura fora e acaba em pancadaria” (Amigada, 30 anos,
Ensino Médio incompleto).
Dantas-Berger e Giffin (2005) também destacam que, em muitos casos, o sexo é um
dos motivos mais freqüentes para instalação da violência doméstica. Sobre a questão da posse
do homem em relação à mulher, Giffin (1994) menciona a declaração de Benjamim (1990) de
que, muitas vezes “a posição do homem é de fazer da mulher um objeto, tanto na sua
violência contra ela como no seu autocontrole racional”.
Em resumo, as representações sociais das mulheres sobre a violência doméstica são
constituídas por aspectos psicossociais, podendo-se destacar: o alcoolismo, a falta de diálogo
e o fato de o homem enxergar a mulher como um objeto sexual.
5. INTERFERÊNCIA DA VIOLÊNCIA NOS RELACIONAMENTOS AFETIVOS
No que tange a interferência da violência nos relacionamentos afetivos, muitas das
mulheres destacaram a separação como forma de escape das agressões por parte dos
parceiros.
“Se acontecesse, eu separaria também. Pancada não. Já tolerei tudo, passar até falta
das coisas (...) Namoro, já tolerei até namoro, quando ele era mais novo, ele gostava
de namorar, né? Agora pancada, de jeito nenhum...” (Casada, 70 anos, Ensino
Fundamental Incompleto).
“Eu ia separar (...) levantou a mão para mim, que seja, as coisas dele no mesmo dia
eu botava para a rua, separaria. Não daria nem uma outra chance” (Casada, 25 anos,
Ensino Médio incompleto).
Day et al. (2003) afirmam que, apesar das dificuldades, muitas mulheres acabam
abandonando os parceiros violentos. E que as mulheres mais jovens são as mais propensas a
abandonar estes relacionamentos mais cedo. Situações como aumento do nível de agressão,
violência afetando os filhos e apoio sociofamiliar são determinantes na decisão de sair do
relacionamento. Nesse período, é comum o abandono e retorno ao relacionamento várias
vezes antes de deixar o companheiro definitivamente. Apesar disso, muitas mulheres
imaginam que romper um relacionamento violento e até colocar o marido na prisão é uma
tarefa simples e rápida, como pode ser visto na seguinte fala:
“Ah, se acontecer um dia, já está sabendo, ele não vai voltar mais pra morar dentro
de casa, não (...) põe na prisão que aí não tenta fazer com mais ninguém (...) porque
quem faz a primeira, faz a segunda, a terceira, e aí vai em frente...” (Casada, 42
anos, Ensino Fundamental completo).
Dantas-Berger e Giffin (2005) destacam que as “mulheres de hoje” não mais se
adequam às representações tradicionais, que colocariam como destino feminino agüentar
situações de objetificação e violência, para que o casamento fosse mantido. Machado (2002)
afirma que esses, são avanços claros, se comparados a resultados de pesquisas sobre violência
doméstica há cerca de vinte anos.
Uma das mulheres, ao ser indagada sobre essa questão, respondeu que também
reagiria com violência caso seu companheiro a agredisse:
“Eu, não, apanhar é que eu não ia, ia era meter o pau” (Amigada, 30 anos, Ensino
Médio incompleto).
Sobre isso, Dantas-Berger e Giffin (2005) ressaltam que as mulheres, ao perpetrarem a
violência contra seus parceiros no âmbito familiar, na maioria dos casos, a fazem com a
intenção de se defenderem de suas agressões físicas.
Quando questionadas sobre casos de violência doméstica vividos ou presenciados,
percebeu-se que as mulheres não se inseriam nesse contexto. O que pode ser visto no discurso
abaixo:
“... porque eu e meu marido nós nunca brigamos não, mas no começo era o negócio
de bebida, era assim, brigar comigo não, só quebrava as coisas lá de casa só, mas aí
era só por causa da bebida, mas nós dois nunca brigamos. Agora lá fora eu acho que
a gente nunca sabe, as pessoas brigam e tudo, às vezes a gente acha que é bebida, é
ciúme é isto tudo às vezes e algo a mais...” (Amigada, 30 anos, Ensino Médio
incompleto).
Schraiber et al. (2003), em pesquisas anteriores, perceberam que as pessoas que
convivem com a violência doméstica, ao falarem sobre os casos vivenciados, atenuam a
situação em seus relatos, demonstrando distância entre a narrativa e o vivido.
No decorrer da análise, é possível verificar a presença de um discurso
predominantemente na terceira pessoa do singular, sendo a representação da vítima da
violência doméstica como sendo o “outro” e não “eu”. Esta pode ser uma estratégia para
distanciar o problema do ambiente familiar ou mesmo a omissão, devido à vergonha de ser
vítima deste tipo de agressão. O agressor é visto como um ser cruel, merecedor de punições
severas.
6. CONSIDERAÇÔES FINAIS
A violência doméstica é um fenômeno que não apresenta barreiras limitantes entre
classes sociais, mas se faz presente em toda a sociedade.
Embora esse estudo tenha sido limitado a uma pequena amostra de mulheres, as
representações sociais dessas mulheres sobre violência doméstica exprimem ações e condutas
agressivas vivenciadas por elas. Não obstante tenham, na maioria das vezes, se referido à
violência doméstica sofrida por “outros”, observou-se que elas expressaram o que estava
inscrito em suas histórias de vida.
A violência doméstica pode ser considerada como oriunda da inabilidade e despreparo
de determinados membros familiares em manejar os conflitos cotidianos e controlar os
acometimentos hostis. É importante, assim, desconstruir os valores individuais que podem
ocasionar os conflitos de interesses, ao invés de continuar considerando os resultados
provenientes desses conflitos.
Neste sentido, ações conjuntas – Governo, Universidade e sociedade – e eficazes,
principalmente, nas áreas de educação e cultura, são imprescindíveis para minimizar a
violência doméstica.
Assim, o Programa CooperAção Social, no qual se inserem as mulheres pesquisadas,
busca melhorar a qualidade de vida das famílias atendidas por meio de ações educativas e de
capacitação, visando a geração de trabalho e renda por meio de cooperativas de produção.
Programas dessa natureza promovem, ainda, a educação para a cidadania e “empoderamento”
das famílias, principalmente das mulheres, reduzindo a exclusão social e os índices de
violência, tanto na comunidade quanto no âmbito doméstico.
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