Cultura da infância: alguns mapeamentos sobre temas

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Cultura da infância: alguns mapeamentos sobre temas
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
CENTRO DE EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO
MARCELA BOCELLI
“CULTURA DA INFÂNCIA: ALGUNS MAPEAMENTOS SOBRE
TEMAS, ABORDAGENS E CONCEITOS”
SÃO CARLOS
2008
MARCELA BOCELLI
“CULTURA DA INFÂNCIA: ALGUNS MAPEAMENTOS SOBRE
TEMAS, ABORDAGENS E CONCEITOS”
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado no curso de Pedagogia como
exigência parcial para obtenção do grau de
licenciatura, sob orientação da Profª Andréa
Braga Moruzzi, do Departamento de
Metodologia de Ensino, no Centro de
Educação em Ciências Humanas, da
Universidade Federal de São Carlos.
SÃO CARLOS
2008
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
CENTRO DE EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE METODOLOGIA DE ENSINO
MARCELA BOCELLI
“CULTURA DA INFÂNCIA: ALGUNS MAPEAMENTOS SOBRE
TEMAS, ABORDAGENS E CONCEITOS”
Monografia apresentada como pré-requisito para
obtenção do título de Licenciado em Pedagogia da
Universidade Federal de São Carlos, submetida à
aprovação da banca examinadora composta pelos
seguintes membros:
___________________________________
Profª Orientadora: Andréa Braga Moruzzi
Universidade Federal de São Carlos
___________________________________
Profª Cristina Satiê de Oliveira Pátaro
Universidade Federal de São Carlos
___________________________________
Profª Drª Fabiana de Oliveira
Universidade Estadual do Pará
São Carlos, 11 de Dezembro de 2008.
AGRADECIMENTOS
Às Professoras e aos Professores que conheci durante esses quatro anos de graduação, e
que para sempre farão parte da minha vida através de tudo que me ensinaram;
Á professora Andréa Braga Moruzzi especialmente, pela orientação e apoio;
A minha família;
As minhas amigas e amigos do curso que, em suas mais singelas disposições em me
ajudar ou simplesmente me ouvir, acabaram colaborando muito para que esse trabalho
fosse concluído;
A Deus, em quem eu creio e confio, e sei que sempre esteve e estará comigo em toda e
qualquer situação.
RESUMO
Através de um levantamento bibliográfico de pesquisas recentes publicadas no site da
ANPED, objetivo com essa pesquisa verificar e compreender como a temática da
cultura da infância tem sido abordada entre os anos de 2003 e 2007, trazendo elementos
para compreender sua as linhas temáticas, seus conceitos operatórios, quem aborda e
como aborda. Ao longo dessa pesquisa, alicerçada por bases teóricas da sociologia da
infância, aceito a oportunidade de romper com as abordagens clássicas da socialização e
olhar as crianças como atores sociais em cada um dos contextos em que estão inseridas;
e nesse diálogo utilizo como referenciais teóricos principalmente os estudos de autores
como SIROTA (2001) SARMENTO (2004;2005) e PINTO & SARMENTO (1997).
Palavras-chave: Culturas da infância, Sociologia da criança e da infância.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.................................................................................................... 1
CAPÍTULO 1 – SOCIOLOGIA DA CRIANÇA E DA
INFÂNCIA...........................................................................................................
4
1.1 Histórico....................................................................................................
5
1.2 Alguns Conceitos.......................................................................................
7
CAPÍTULO 2 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS.........................
12
CAPÍTULO 3 – CULTURA DA INFÂNCIA.................................................... 14
3.1 Os trabalhos encontrados – Análise das produções acadêmicas
publicadas no GT7 da ANPED entre os anos de 2003 e 2007 ............................. 16
3.2 Contribuições.............................................................................................. 30
CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................. 32
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXO
ANEXO 1
TABELA PARA ORGANIZAÇÃO DOS DADOS
TEXTOS PUBLICADOS NO GT7 DA ANPED
AUTOR
DISCUSSÃO PROPOSTA
QUE CONCEITOS
TRABALHAM?
MÜLLER,
Fernanda. Infâncias
nas vozes das
crianças: culturas
infantis, trabalho e
resistência. 2003
- As manifestações infantis
são compostas pelo
trabalho, cultura e
resistência;
- São elas que distinguem a
infância da idade adulta e
evidenciam o que é
especifico da infância.
- Categoria de
infância plural;
- Cultura infantil:
“constituída por
elementos aceitos da
cultura do adulto e
por elementos
elaborados pelos
próprios
imaturos”(FERNAN
DES, p. 174)
- Criança como ator
social, sujeito de
direitos;
- infância como
construção social;
- crianças enquanto
atores sociais de
pleno direito;
BARBOSA, Silvia
Néli Falcão.
“Corre, vai, vai
mais uma vez! Um
estudo exploratório
sobre o espaço e o
tempo da
brincadeira de
crianças em um
shopping”. 2003
COSTA, Maria de
Fátima
Vasconcelos da.
JOGO
SIMBÓLICO,
DISCURSO E
ESCOLA: UMA
LEITURA
DIALÓGICA DO
LÚDICO. 2003
MULLER,
Fernanda.
CULTURAS
INFANTIS NA
CIDADE:
APROXIMAÇÕES
E DESAFIOS
- Temática do lúdico,
concebendo-o como prática
discursiva que explicita as
significações culturais
apropriadas dentro do
contexto social no qual a
criança se insere/integra;
- Na sua pesquisa,
observou-se crianças de 3 a
5 anos;
- Compreensão do universo
infantil através das
brincadeiras.
- A infância a partir da
problematização do espaço
e das culturas infantis;
- De que forma a produção
de culturas infantis aparece
na cidade?
- Como as crianças
FAZEM
REFERENCIA
A QUE
AUTORES?
Quinteiro (2002)
Florestan
Fernandes (1961)
Pinto e Sarmento
(1997)
Reis (2002)
Sarmento e Pinto
(1997: 20)
- Criança como ator
social, construtor de
cultura, aquele que
tem algo a dizer;
Cita Larrosa
(1998,p.59) para
identificar
“infância”.
Bakhtin
Winnicott
Vygotsky
- Cidade Educadora;
- Infância como
categoria social;
- Criança como
agente ativo que
constrói sua cultura e
contribui na
Áries (1981)
Corsaro (1997)
Pinto e Sarmento
(1997)
Florestan
Fernandes (1961)
PARA
A PESQUISA.
2004
CRUZ, Silvia
Helena Vieira.
OUVINDO
CRIANÇAS:
considerações sobre
o desejo de captar a
perspectiva da
criança acerca da
sua experiência
educativa. 2004
VASCONCELOS,
Fátima. Bonecas:
objeto de conflito
identitário na arena
da dominação
cultural. 2004.
FILHO, Altino
José Martins. A
VEZ DAS
CRIANÇAS: UM
ESTUDO SOBRE
AS CULTURAS
DA INFÂNCIA
NO COTIDIANO
DA CRECHE.
2004
interpretam os espaços
[educadores] da cidade?
produção do mundo
adulto;
- metodologias que
procuram captar o ponto de
vista da criança;
- Como as crianças
percebem a realidade de
uma escola e de uma
creche?
- Criança como
protagonista de suas
experiências;
Zabalza (1998)
Korczac (19862)
Rocha (1999)
Malagguzi
(1999)
Demartini (2002:
8)
- sobre o processo de
constituição da criança no
cenário da cultura
contemporânea;
Benjamim (1984)
ARENHART,
Deise. A
EDUCAÇÃO DA
INFÂNCIA NO
MST: O OLHAR
DAS CRIANÇAS
SOBRE UMA
PEDAGOGIA EM
MOVIMENTO.
2005
FINCO, Daniela.
EDUCAÇÃO
INFANTIL,GÊNE
RO
E
BRINCADEIRAS:
- a relação que as crianças
estabelecem com o
processo educativo
idealizado pelo MST.
- o lúdico em seu
aspecto cultural;
- pedagogização do
lúdico;
- mercantilização do
brincar;
- concepção de
infância segundo a
qual, a criança é
vista como sujeito de
direitos numa
dimensão histórica,
educacional, social e
cultural;
- Criança como ator
social;
- pluralização dos
modos de ser
criança;
- heterogeneidade da
infância enquanto
categoria social;
- crianças como
atores sociais;
- “reprodução
interpretativa” de
Corsaro;
- criança, conforme
define Sirota –
sujeitos produtores
de cultura;
Sirota (2001)
Prado (1999)
- Conhecer, descrever e
analisar as dinâmicas das
relações que as crianças
estabelecem umas com as
outras no espaço/tempo em
que convivem no interior
das instituições de
educação infantil.
- orientação etnográfica.
- a brincadeira é uma das
formas pela qual as
crianças se manifestam
culturalmente;
Qvortrup
(1995:5)
Sarmento &
Pinto (1997)
Montandon
(2001)
Sarmento (1997,
2000)
Sirota (2001)
Ferreira (2002)
SARMENTO e
PINTO (1997)
LANSTED
(1991)
Corsaro (2002)
DAS
NATURALIDADE
S
ÀS
TRANSGRESSÕE
S
2005
DELGADO, Ana
Cristina Coll;
MÜLLER,
Fernanda.
ABORDAGENS
ETNOGRÁFICAS
NAS PESQUISAS
COM CRIANÇAS
E SUAS
CULTURAS. 2005
SANTOS, Núbia
de Oliveira. O
CONSUMO NAS
PRÁTICAS
CULTURAIS
INFANTIS:
CRIANÇAS E
ADULTOS NO
CONTEXTO DE
UMA ESCOLA
PÚBLICA 2005
SANTOS, Solange
Estanislau dos.
CULTURAS
INFANTIS E
SABERES:
CAMINHOS
RECOMPOSTOS.
2005
- tentativa de conectar os
estudos das infâncias na
sociologia e na
antropologia com vistas a
discutir a pesquisa
etnográfica com crianças;
- Cultura da infância
“são sistemas
simbólicos distintos
dos demais, com um
recorte geracional
que mantém
cruzamentos com
recortes de classe,
gênero, raça, entre
outros”(p.5);
- Diversidade de
culturas;
- Alteridade;
- cultura infantil
- cultura: rede de
significados,
conforme Velho;
- infância enquanto
categoria social;
- Culturas infantis;
- apropriações e usos dos
conceitos de
- Identidades
“identidade(s)” e
infantis;
“cultura(s)” que estão
sendo feitos nos estudos
sobre a educação da
criança ou da infância;
- Quais seriam os
significados e fundamentos
teóricos implícitos nos
conceitos de “cultura(s)
infantil(is)” e
“identidade(s) infantil(is)”?
O que propõem para a
prática pedagógica com
crianças de 0 a 6 anos?
- quantificar e identificar
onde, quanto, como e de
que forma os temas criança
Geertz (1989)
Fernandes (1961)
Corsaro (1985,
1997, 2003a,
2003b)
Prout (2004)
Sarmento (2004,
2005)
Velho (1981)
SARMENTO
(2002)
Quinteiro (2002)
Demartini &
Prado (2002)
FILHO, Martins.
Crianças e Adultos
na creche: marcas
de uma relação.
2006
LOPES, Jader.
Produção do
território brasileiro
e produção dos
territórios de
infância: por onde
andam nossas
crianças? 2006
BORBA, Angela
Meyer. AS
CULTURAS DA
INFÂNCIA NOS
ESPAÇOSTEMPOS DO
BRINCAR:
ESTRATÉGIAS
DE
PARTICIPAÇÃO
E CONSTRUÇÃO
DA ORDEM
SOCIAL
EM UM GRUPO
DE CRIANÇAS
DE 4-6 ANOS.
2006
KIEHN, Moema.
A CONCEPÇÃO
DE CRIANÇA E
DE INFÂNCIA
NOS
CURRÍCULOS DE
FORMAÇÃO DE
PROFESSORES
DA EDUCAÇÃO
INFANTIL. 2007
e infância aparecem no
âmbito dos trabalhos
apresentados nos
Congressos da ANPED,
como um todo, e,
particularmente, no GT7.
- pesquisa etnográfica;
- crianças como
atores sociais e
produtoras de
culturas entre si;
-produções/
reproduções das
culturas de pares de
Corsaro;
- como se efetiva a
- para o autor, é na
configuração dos territórios formação das
da infância na atual
culturas infantis que
organização do capital.
ocorre a
configuração das
territorialidades
infantis;
Corsaro (1997)
Sarmento (2002)
- compreender como as
crianças, nas relações que
estabelecem entre si e nas
formas de ação social que
constroem nos espaçostempos do brincar,
constituem suas culturas da
infância e são também por
elas constituídas;
- compreensão do brincar
como um dos pilares das
culturas da infância;
- pesquisa de caráter
etnográfico;
- infância como uma
construção social;
- sociologia da
infância;
- culturas infantis;
- crianças vistas
como grupo social e
atores sociais;
Qvortrup (1994)
James, Jenks e
Prout (1998)
Corsaro (1997,
2003)
Sarmento (2002)
Delalande (2001)
Ferreira (2004)
- investigação sobre a
imagem de criança e
infância e sua educação
imersa nos currículos dos
cursos de pedagogia;
- criança como um
sujeito concreto,
cultural, social e
historicamente
constituído;
Sarmento(1997;2
004)
Ferreira (2000;
2002)
Pinto (1997)
Lopes &
Vasconcellos
(2006)
Santos (2002)
Haesbaert (2004)
Lefevbre (1978)
Sarmento (2004)
BUJES, Maria
Isabel Edelweiss.
ARTES DE
GOVERNAR A
INFÂNCIA: NO
CRUZAMENTO
ENTRE A ÉTICA
E A POLÍTICA.
2007
- proposta de Educacao
Infantil gestada e
desenvolvida na regiao
italiana denominada de
Reggio Emilia;
- mapear como se
organizam e se expressam
os discursos sobre a
infância nos materiais
associados a
formação docente em
“manuais de formação de
professoras para a
educação infantil”;
- os efeitos produtivos do
poder;
- governamento da
infância;
- criança como um
sujeito ativo,
pensante,
autoconfiante;
Zabalza (1999)
Foucault
Ó (2003)
Malaguzzi (1999)
INTRODUÇÃO
A criança é feita de cem...
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubam-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separam a cabeça do corpo...
Dizem-lhe enfim:
Que o cem não existe.
A criança diz:
Ao contrário o cem existe.
(Loris Malaguzzi)
Desde a primeira vez que li o poema de Loris Malaguzzi, denominado “Ao
Contrário, as cem existem” passei a olhar um pouco mais para dentro de mim, meus
pensamentos, concepções e “verdades” que até então eu acreditava acerca das crianças e
seus universos. Com isso minhas práticas também foram submetidas a um novo olhar,
principalmente aquelas que tinha ao lado das crianças que convivem comigo diariamente no
CEMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) onde eu trabalho, com crianças de dois
anos. Depois de confrontar-me, percebi que a verdadeira necessidade era que eu olhasse as
crianças de outra forma, pois só assim passaria a conhecer e perceber essas suas cem
linguagens. Era necessário olhar as crianças a partir da perspectiva delas, e não com os
meus olhos de adulto, com as expectativas que eu tinha sobre elas.
Com esse trecho do poema, faço um convite a todos aqueles que, professores ou
não, convivem com as crianças, para que reflitamos sobre isso, pois elas podem nos
encantar e ensinar (por que não?) com os seus cem modos de agir, pensar, de ser e conceber
o mundo em que vivem.
Penso que esta pesquisa traz contribuições significativas para pensarmos e
refletirmos sobre essa questão – a infância e a criança. E por outro lado, ela vem também
para embasar alguns conceitos e responder a determinadas questões que surgiram ao longo
de minha graduação em Pedagogia, principalmente quando entrei em contato com a
disciplina “Educação Infantil – a criança, a infância e as instituições”.
1
Com o objetivo de investigar as pesquisas que tratam da Infância e da Criança,
tendo em vista a analise de uma categoria particular na área da Sociologia da Criança e da
Infância – As culturas infantis, é primordial compreendermos a infância como uma
construção histórica e social, sendo, portanto impróprio ou inadequado supor a existência
de uma população infantil homogênea, pois o processo histórico nos faz perceber diferentes
populações infantis com diferentes modos de socialização e com isto serão muitas as
definições e manifestações que poderemos encontrar para infância; bem como, serão muitos
os modos de vivenciar e experienciar a infância, para cada criança, dependendo da história,
da geografia e da cultura em que vivem.
Esta percepção é dada pela perspectiva recente da Sociologia da Criança e da
Infância à medida que considera a criança como uma categoria social, responsável por uma
movimentação na cultura. Em outras palavras, nesta perspectiva, as crianças são atores
sociais.
Deste modo, parece importante trazer a sociologia da criança e da infância como
uma perspectiva que valoriza a criança pelo que ela é, e não pelo que ela será, que valoriza
as crianças, contextualizando suas diferenças, e não apenas compreendendo-a como um
corpo físico em desenvolvimento ou mesmo como uma fase da vida humana em
desenvolvimento.
É nesse sentido que ao longo de toda essa pesquisa, alicerçada por bases teóricas da
sociologia da infância, aceito a oportunidade de romper com as abordagens clássicas da
socialização e olhar as crianças como atores sociais em cada um dos contextos em que
estão inseridas.
É neste intuito que esta pesquisa está localizada de tal forma a contribuir, mesmo
que de modo singelo, para a emergência e visibilidade desse novo campo de estudos no
Brasil que é a sociologia da infância, que considera a infância como uma construção social
específica, com uma cultura própria e que merece ser considerada nos seus traços
peculiares.
Como objetivo geral dessa pesquisa está a possibilidade de verificar e compreender
como a temática da cultura da infância tem sido abordada nos últimos cinco anos, tendo
como recorte o GT 7- educação infantil, da ANPED – Associação Nacional de Pesquisas
2
em Educação, trazendo elementos para compreender sua as linhas temáticas, seus conceitos
operatórios, quem aborda e como aborda.
Tendo como pressuposto as idéias apresentadas acima, farei um levantamento
bibliográfico para embasar minhas questões e reflexões, que será desenvolvido em quatro
capítulos teóricos estruturados da seguinte maneira:
No primeiro capitulo tratarei da sociologia da criança e da infância, trazendo um
histórico sobre esse campo de estudo e também alguns dos principais conceitos
relacionados ao mesmo.
No segundo capitulo farei uma discussão mais especifica acerca do meu foco de
estudo – a cultura da criança e da infância, e quais procedimentos metodológicos foram
utilizados nessa pesquisa.
A Cultura da criança e da infância será abordada novamente na primeira parte do
terceiro capitulo, sendo nesse momento localizada dentro do campo da educação. Ainda
nesse terceiro capitulo farei o mapeamento dos trabalhos encontrados no Grupo de
Trabalho nº 7 – educação infantil, da ANPED, entre os anos de 2003 e 2007, seguido por
uma reflexão sobre as contribuições que todos esses trabalhos trazem ao campo da
educação infantil.
Para finalizar meu trabalho organizarei as considerações finais apresentando as
conquistas, analises e conclusões que tive no decorrer deste levantamento bibliográfico que
serviu de base para que este trabalho fosse desenvolvido.
3
CAPÍTULO 1 – SOCIOLOGIA DA CRIANÇA E DA INFÂNCIA
Esse capítulo tem como proposta discutir um dos novos campos de estudos da
sociologia – a criança e a infância. É nessa vertente que encontramos discussões acerca da
evolução do conceito de criança e infância a partir de uma perspectiva sociológica, na qual
tais conceitos são abordados de forma diferente daquela que estamos habituados a
reconhecer em algumas abordagens mais tradicionais ou não da psicologia, pedagogia,
história, da biologia e até mesmo da própria sociologia.
As várias concepções em torno da criança que são propostas pelas áreas acima
citadas a vêem geralmente como um vir a ser, ou ainda, como apenas um corpo físico em
desenvolvimento, cujo amadurecimento depende de fases distintas e pré-determinadas.
Normalmente nos deparamos com tais concepções que desconsideram que os significados
atribuídos à criança dependem de aspectos históricos, culturais, políticos, geográficos, entre
outros, e ainda não tornam relevante o fato de que essa mesma criança contribui para a
formação desses aspectos e novos significados.
Sirota (2001) escreve que os primeiros elementos de uma sociologia da infância
surgem justamente por oposição a essa concepção da infância, a qual é considerada como
um simples objeto passivo de uma socialização pré-determinada. Nessa busca por novas
interpretações e respostas, a autora diz que
“Não se trata aqui de simplesmente opor uma ideologia subjacente
da proteção a uma ideologia da autodeterminação, mas trata-se de
compreender aquilo que a criança faz de si e aquilo que se faz dela,
e não simplesmente aquilo que as instituições inventam para
ela.”(SIROTA, 2001, p. 28).
Percebe-se que a autora traduz uma compreensão na qual a criança pode e deve ser
ouvida e percebida, pois dessa maneira tornar-se-ia possível uma compreensão verdadeira e
plausível acerca de suas construções e interações. É nesse sentido que a sociologia da
criança e da infância procura tomar as crianças como o seu centro de interesse, a partir
delas próprias e não simplesmente da sua dedução através dos quadros instituídos de que
estão dependentes. Essa preocupação tem-se traduzido em modos diferentes de construir
sociologicamente a infância, tanto do ponto de vista teórico como metodológico.
4
1.1 HISTÓRICO
As primeiras discussões acerca dos vários aspectos que envolvem o processo de
socialização da criança aconteceram no ano de 1990, quando os sociólogos da infância
reuniram-se pela primeira vez no Congresso Mundial de Sociologia. A partir daí emergiram
estudos que buscavam fundamentalmente identificar a presença da infância no
desenvolvimento do pensamento sociológico.
Se fizermos um levantamento de tais estudos, encontraremos as principais
contribuições vindas de estudos da língua inglesa1 e francesa2, fazendo a discussão sobre o
surgimento da sociologia da infância, numa perspectiva que recupera a discussão atual
sobre a infância e vê a necessidade da construção dessa nova sociologia.
Tais estudos e pesquisas nacionais e internacionais têm ainda como tema principal a
criança e a infância, a partir desse novo ponto de vista proposto pela sociologia da criança e
da infância já citados anteriormente. São estudos extremamente atuais e novos, pois até há
pouco tempo (cerca de uma década) pouco se dizia acerca da infância e da criança como
objetos de investigação próprios.
Outros estudiosos do campo da sociologia da criança e da infância, como, por
exemplo, Manuel Jacinto Sarmento (2004; 2005), Manuel Pinto (1997) e Jucirema
Quinteiro (2002), trazem como tese principal o fato de que as crianças são sujeitos ativos e
não meramente passivos ao participarem coletivamente na sociedade. Com isso, inicia-se
uma proposta de estudar a criança e a infância reconhecendo a importância social e
histórica pertencente a ambas. A criança é assim um ser capaz de ir além de uma
socialização construída para ela através de outros ou de instituições. Ao passo que nos
dispomos a conhecer realmente as crianças como atores sociais, vamos descobrindo essa
sociologia da qual falamos: a sociologia da criança e da infância.
Sirota (2001), uma referência nos estudos de língua francesa, inicia em seu trabalho
o debate sobre a emergência de uma sociologia da infância e busca contemplar a evolução
do objeto e das perspectivas de análise registradas nos anos 90.
1
2
Esses estudos são identificados principalmente por Cléopâtre Montadon (2001).
Os estudos de língua francesa são abordados principalmente por Régine Sirota (2001).
5
Uma das primeiras rupturas que Sirota encontra ao analisar os estudos atuais sobre
infância, é que os mesmos expressam claramente um afastamento da concepção de infância
durkheimiana, pois
“Trata-se de romper a cegueira das ciências sociais para acabar com
o paradoxo da ausência das crianças na análise científica da
dinâmica social com relação a seu ressurgimento nas práticas
consumidoras e no imaginário social.” (p. 11)
A emergência de uma sociologia da infância viria então a partir do desafio de tomar
como referência a própria criança e suas especificidades, tendo como pressuposto uma nova
perspectiva em relação a esse objeto de estudo.
Para Montadon (2001), outra referência nos estudos sobre a sociologia da infância,
mas agora em língua inglesa, perpassando todos os teóricos que se baseiam na sociologia
da infância e partindo de uma perspectiva da infância como uma construção social
especifica, com uma cultura própria e que por isso merece ser considerada em seus traços
específicos. Em seu estudo, a autora diz que o interesse em se estudar as crianças não é
atual, mas é somente a partir de 1980 que os pesquisadores da área vêm notando a
oportunidade e a necessidade de efetuarem pesquisas com crianças a partir delas próprias,
considerando o ponto de vista das mesmas.
Ao traçarmos esse breve histórico acerca da sociologia da criança e da infância
podemos ressaltar ainda o que diz os pesquisadores portugueses Pinto e Sarmento (1997)
acerca desses estudos atuais que discutem a infância e as crianças. Para tais autores, esses
estudos, principalmente a partir da década de 90, vão ultrapassar os campos tradicionais da
medicina e da psicologia do desenvolvimento para considerar então o fenômeno social da
infância.
Vemos assim que a sociologia da criança e da infância vem sendo construída há
pouco tempo, mas tais discussões já ganharam terreno nas publicações acadêmicas recentes
através de pesquisas, artigos, livros etc.
6
1.2 ALGUNS CONCEITOS
Diversos são os temas de estudo da Sociologia da criança e da infância, os quais
abrangem, por exemplo: a Cultura da Criança e da Infância, a Educação Infantil,
Diversidade, Espaços e Tempos da infância, Identidade Infantil, Imagem da criança e da
infância, entre outros. Em relação a outros campos que estudam a criança e a infância,
podemos dizer que essa sociologia vem nos trazer novas abordagens e estudos acerca das
concepções que permeiam o universo infantil.
Penso que para entendermos alguns dos principais conceitos que permeiam a
criança como sujeito social, inevitavelmente temos que evidenciar aspectos acerca da
infância, que no contexto desse trabalho é concebida e aceita como uma construção social
histórica e dinâmica, que se altera ao longo da história da sociedade.
Atualmente, a produção sobre a Educação Infantil vem considerando a infância
como uma categoria social, graças inicialmente aos estudos do pesquisador francês
Phillippe Áries (1981) que contribuiu para esta concepção. Para Ariès, a idéia da infância
como um período característico de nossas vidas, não se trata de um sentimento natural ou
inerente à condição humana, mas essa concepção e esse olhar diferenciado sobre a criança
teria começado a se formar somente no fim da Idade Média, sendo inexistente até então.
Em outras palavras, o autor aponta que o conceito ou a idéia que se tem da infância
foi sendo historicamente construído e que a criança, por muito tempo, não foi vista como
um ser em desenvolvimento, com características e necessidades próprias, e sim como um
adulto em miniatura.
A infância, enquanto categoria social, só teria emergido a partir de dois sentimentos
constituídos no século XVII: a paparicação e a moralização. A paparicação é explicada
como: “a criança, por sua ingenuidade, gentileza e graça, se tornava uma fonte de
distração e de relaxamento para o adulto”(ARIÈS, 1981, p.100). Já o sentimento de
moralização foi constituído pelos educadores e moralistas, sendo o controle parte essencial
na educação das crianças. Para Áries, somente a partir daí encontram-se evidências que os
adultos
7
“compreenderam a particularidade da infância e a importância tanto
moral como social e metódica das crianças em instituições
especiais, adaptadas a essas finalidades...” (ARIÈS, 1981, p. 193).
Nesse sentido, a história da infância, que tem como um de seus principais
pesquisadores, Phillippe Áries, traz a possibilidade de refletirmos sobre a forma como
entendemos e nos relacionamos atualmente com as crianças.
Com um olhar diferente de Áries, mas também dentro de uma abordagem histórica,
o pesquisador brasileiro Moysés Kuhlmann Jr. (1998) procura pela infância em períodos
anteriores aos citados por Áries e se contrapõe a indicação de que ela só teria aparecido na
Idade Moderna:
“O sentimento de infância não seria inexistente em tempos antigos
ou na Idade Média, como estudos posteriores mostraram. Em livros
escritos pelos historiadores Pierre Riché e Daniele Alexandre-Bidon
(...), fartamente ilustrados com pinturas e objetos, arrolam-se os
mais variados testemunhos da existência de um sentimento da
especificidade da infância naquela época.” (KUHLMANN, 1998, p.
22)
Esse cruzamento de olhares entre autores nos leva a pensar em outras perspectivas
sobre a concepção de infância, e a buscar informações e conhecimentos acerca da criança e
da infância que ao longo do tempo deixamos passar despercebidos.
Especialmente nos estudos vinculados à Sociologia da Infância, como, por exemplo,
o já citado estudo de Sirota (2001), podemos encontrar posicionamentos que superam a
perspectiva de Áries, já que trazem a tona outros elementos, como os da sociologia, que
corroboram esse debate sobre a infância.
Em relação à concepção de infância, Sirota (2001) afirma que na sociologia geral e
na sociologia da educação permaneceu por muito tempo a concepção de infância
durkheimiana, na qual a criança é um vir a ser, sendo então considerada um ser futuro, uma
pessoa em vias de formação, frágil e delicada.
Já na perspectiva de Sarmento (2004), a infância e seus símbolos são construídos
historicamente, sendo então concebida ao longo do tempo de maneiras diversas, mas
promovendo sempre um conjunto de exclusões das crianças da vida em sociedade. Neste
sentido, o autor aponta que, historicamente, a infância veio sempre promovendo um
8
conjunto de exclusões das crianças da vida em sociedade. Defendendo uma ação contrária a
essa, diz que as crianças são também seres sociais, distribuídas em classes sociais, etnias,
raça, gênero etc e por isso devemos atentar para a existência da diversidade dentro desse
grupo.
Considero importante compreender a infância como uma construção histórica e
social, sendo, portanto inadequado afirmar a existência de uma população infantil
homogênea, já que o processo histórico nos faz perceber diferentes populações infantis
com processos diferentes de socialização e com isto serão muitas as definições que
poderemos encontrar para infância, que por conseqüência modifica nossa própria percepção
e nosso olhar em torno da criança e da infância. Sendo assim cada época profere seus
discursos que revelam seus ideais e expectativas acerca das crianças.
Sarmento (2005) analisa a infância à luz de construtos teóricos como Geração e
Alteridade, pois a partir deles há possibilidade de desvendarmos tanto o que as crianças
realmente têm a nos dizer, enquanto adultos, como também fazer com que entendamos
como tais conceitos corroboram a condição de existência da criança e da infância ao longo
dos tempos.
A Geração é encarada como uma categoria estrutural relevante quando nos
propomos a analisar os processos de estratificação social e construção das relações sociais.
Sarmento diz que é fundamental o resgate desse conceito quando objetivamos olhar e
entender as infâncias, pois
“o conceito de geração não só nos permite distinguir o que separa e
o que une, nos planos estrutural e simbólico, as crianças dos
adultos, como as variações dinâmicas que nas relações entre
crianças e entre crianças e adultos vai sendo historicamente
produzido e elaborado.” (SARMENTO, 2005, p. 366)
Sobre o conceito de Alteridade é uma mudança de perspectiva dos estudos da
criança, mais especificamente no campo da sociologia, na qual as infâncias e as crianças
podem e devem ser estudadas pelo valor que têm em si mesmas, e não indiretamente ou
passivamente através de outras categorias da sociedade, como a família ou a escola.
9
Sarmento e Pinto (1997) têm publicações conjuntas sobre o tema da sociologia da
criança e da infância, evidentemente por concordarem em muitos aspectos, dentre os quais
podemos citar o da diversidade de infâncias e culturas infantis.
Ambos os autores, ao coordenarem o livro “As crianças: contextos e identidades”
buscavam, sobretudo, discutir alguns dos principais conceitos que permeiam a sociologia
da criança e da infância. Dentre esses conceitos trabalhados pelos autores, estão: as “idades
da infância”, a questão dos direitos, as culturas da infância, os fatores de homogeneidade e
de heterogeneidade, e a possibilidade de conhecermos as crianças a partir delas mesmas.
Os autores afirmam que a interpretação das culturas infantis “não pode ser
realizada no vazio social, e necessita de se sustentar na análise das condições sociais em
que as crianças vivem, interagem e dão sentido ao que fazem” (PINTO e SARMENTO,
1997, p.22).
Para Pinto (1997), essa nova preocupação com a infância exige uma análise crítica
das imagens criadas sobre as crianças nos discursos e nas práticas sociais, para que se possa
desconstruir o conceito de infância universal, natural e homogêneo. Segundo o autor,
devemos considerar as inúmeras variáveis que interferem em sua configuração, como por
exemplo, fatores econômicos, sociais, culturais, lúdicos etc.
Nesse mesmo sentido, Sarmento (2004) vem afirmar que a infância enquanto
categoria social é uma idéia moderna; e em seus textos o autor tem buscado evidenciar a
presença de uma diversidade de infâncias, recusando uma concepção uniformizadora:
“as crianças são também seres sociais e, como tais, distribuem-se
pelos diversos modos de estratificação social: a classe social, a etnia
a que pertencem, a raça, o gênero, a região do globo onde vivem.
Os diferentes espaços estruturais diferenciam profundamente as
crianças” (SARMENTO, 2004, p.10).
Quando pensamos em olhar a criança e a infância sob esse viés da diversidade,
temos que considerar dois pontos fundamentais: o primeiro ponto é que as crianças de hoje
vivem em contextos sociais diferentes daqueles vividos no passado; isso não quer dizer que
as crianças do passado não viviam em um contexto heterogêneo e não apresentavam seus
modos particulares de serem, mas o fato é que somente nos dias atuais é que avançamos em
considerá-lo como tal e conceber as crianças como sujeitos da diversidade. Devido a isso
10
inevitavelmente existe diversidade entre infâncias; um segundo ponto é que nas concepções
contemporâneas, a criança e a infância são concebidas também de maneira diferente e
inovadora, agora como sujeitos culturais, históricos e de conhecimentos.
Reconhece-se, portanto a criança como protagonista de sua própria vida, agente e
produto da vida social.
Ao longo dessa pesquisa que me disponho a realizar, vejo então a oportunidade de
compreender que crianças são essas, o que elas têm em comum, o que partilham entre si em
várias regiões e em outros países e o que as distingue umas das outras. Vejo que é preciso
romper com as representações hegemônicas existentes até então, pois as crianças se
diferenciam umas das outras nos tempos, nos espaços, nas diversas formas de socialização,
no tempo de escolarização, nos trabalhos, nos tipos de brincadeiras, nos gostos, enfim, nos
modos de ser e estar no mundo. Por isso podemos concordar que existem inúmeras culturas
e infâncias e não uma única.
Penso que a cultura da infância, enquanto categoria estudada pela sociologia da
criança e da infância, é um tema que contribui significativamente para discutirmos tais
conceitos acima citados e refletirmos acerca de novas abordagens e concepções, já que traz
idéias para pensarmos as crianças, a educação e as infâncias dessa forma “diferenciada”3,
como proposta por alguns autores já citados, como Sarmento, Pinto e Sirota.
Cabe ressaltar aqui que tomarei essa categoria, a cultura da criança e da infância,
como foco nos trabalhos que irei analisar.
3
A forma diferenciada pela qual as culturas da criança e da infância podem ser interpretadas se dá através da
questão da diversidade – um eixo central para essa discussão.
11
CAPÍTULO 2 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
A questão inicial que originou este trabalho foi a preocupação em torno de quais
conceitos de “criança” e “infância” estavam sendo veiculados nas pesquisas educacionais, e
a partir dessa questão surgiram outras a ela relacionadas: O que se fala? Quem fala? Para
quem, como e por quê?
Com essa pesquisa há a possibilidade de adentrar no campo das disputas teóricas
atuais, identificando quais são os principais interlocutores de cada autor, com quem se
concorda e de quem se discorda, o que se quer afirmar e o que se quer negar quando se
pensa em infância, criança e culturas infantis.
No que diz respeito a referências teóricas, busco apresentar nessa pesquisa o campo
de estudos da Sociologia da Infância, que toma a criança como uma construção social
específica, que tem cultura própria e merece ser considerada nos seus traços peculiares.
Do ponto de vista metodológico, a presente investigação tem como proposta uma
pesquisa bibliográfica, constituída pela leitura e análise de trabalhos publicados no Grupo
de Trabalho nº 7 – Educação da criança de zero a seis anos – da ANPED (Associação
Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação) entre os anos de 2003 e 2007.
Diante disso, a utilização do conceito de cultura da infância enquanto um conceito
analítico para se analisar os dados da pesquisa se faz necessário, pois a questão inicial que
originou este trabalho foi a preocupação em torno de quais conceitos de “criança” e
“infância” estavam sendo veiculados nas pesquisas educacionais, e a partir dessa questão
surgiram outras a ela relacionadas: O que se fala? Quem fala? Para quem, como e por quê?
Para atender aos objetivos da pesquisa, foram formulados os procedimentos
metodológicos que discutirei logo abaixo.
Desde o início da pesquisa, ainda quando buscava entender e localizar a temática
por mim escolhida, a cultura da criança e da infância, fiz leituras iniciais que me
acompanharam durante a pesquisa. Foram autores como Manuel Jacinto Sarmento (2004;
2005) e Régine Sirota (2001) que me deram suporte teórico para entender outros conceitos
e abordagens que eu encontraria posteriormente com a leitura dos trabalhos.
Em uma das primeiras visitas ao site, encontrei um trabalho de Andréa Alzira de
Moraes que em alguns pontos assemelhava-se à pesquisa que eu me propusera a realizar.
12
MORAES utilizou direcionamentos metodológicos semelhantes aos planejados para
essa minha pesquisa. A autora, em sua pesquisa, investigava as concepções de criança e
infância divulgadas nas produções acadêmicas recentes, também dentro de um recorte
temporal (1997-2002).
Assim como Moraes, eu busquei desvelar ao longo da pesquisa, as discussões que
abordam temas como a sociologia da criança e da infância; a cultura da infância; e os
significados atribuídos, sempre tomando como eixo condutor a criança e seu universo
próprio: as culturas infantis.
Para facilitar a busca por trabalhos que eram condizentes à temática por mim
pesquisada, me orientei por algumas palavras-chaves: sociologia da criança e da infância, e
cultura da infância. Porém, fui percebendo que selecionar trabalhos somente a partir de suas
palavras-chave não era suficiente para contemplar todos aqueles que de alguma forma
abordavam a questão da cultura da criança e da infância, já que alguns autores tratavam do
tema de forma paralela em seus trabalhos, mas a discussão não deixava de existir. Num
momento posterior, passei a ler os trabalhos na íntegra, para detectar a presença da temática
Cultura da infância nas discussões propostas pelos autores e autoras.
Ao passo que os textos eram encontrados, fez-se necessária a formulação de
algumas perguntas norteadoras, as quais acompanharam-me durante o percurso dessa
pesquisa e das leituras. São elas: O que se diz em pesquisas atuais sobre a/as cultura/s da
infância? Quais são as concepções existentes? Quais os autores que abordam esse tema?
Como abordam? Qual a concepção de criança e de infância apresentadas pelos (as) autores
(as)?
Para facilitar o processo de organização metodológica, utilizei-me de uma tabela4
estruturada com os elementos principais que deveriam ser identificados a partir da leitura
dos textos. Esses elementos compreendiam: nome do autor (a), discussão proposta,
principais conceitos trabalhados, bases teóricas (autores citados).
Todos os textos lidos, num total de dezessete, foram submetidos a essa análise e
organização. Esse processo facilitou consideravelmente o procedimento posterior da
pesquisa, o qual consistia numa reflexão sobre os dados obtidos e no encontro das respostas
que eu buscava no inicio dessa pesquisa.
4
A tabela utilizada nessa organização metodológica encontra-se no Anexo 1.
13
CAPITULO 3 – CULTURA DA INFÂNCIA
A idéia de culturas infantis, como já dito anteriormente, está relacionada a um
conceito trazido pela sociologia da infância e que nos possibilita reconhecer nas crianças a
possibilidade que cada uma tem, inseridas em determinados contextos, de produzir uma
cultura própria que é permeada por modos específicos que a criança tem de manifestar-se
ou não, atribuindo significados diversos, pensamentos, desejos, e por isso, ser um sujeito
ativo nas relações sociais e históricas.
Ao longo da pesquisa pude perceber de que forma cada autor define as culturas
infantis ou a cultura infantil, se as têm como ponto central em seus trabalhos e/ou as
relacionam com outros conceitos e contextos que permeiam o universo infantil.
Como dito anteriormente, concordo que as culturas infantis são e devem ser plurais,
pois estando a elas atreladas contextos sócio-culturais mais amplos que estritamente o da
infância (Pinto e Sarmento, 1997), não podemos concluir que basta ser criança para
produzir "uma cultura infantil". Diferentes culturas apresentam diferenças particulares,
relacionadas a gênero, classe, etnia e história, que nos permitem reconhecer que a infância
não é uma categoria universal. Contudo, podemos destacar que diferentes culturas
determinam diferentes formas de ser e pensar a infância, permitindo concluir que há
culturas infantis e que estas devem ser escritas também no plural.
Nesse sentido Sarmento escreve que,
“As crianças, finalmente, possuem modos diferenciados de
interpretação do mundo e de simbolização do real, que são
constitutivos das ‘culturas da infância’, as quais se caracterizam pela
articulação complexa de modos e formas de racionalidade e de ação”
(Sarmento, 2005, p. 371).
Segundo Sarmento (1997) pouco se sabe da cultura infantil porque pouco se ouve e
pouco se pergunta às crianças. Por isso, de acordo com o sociólogo, encontramos na
pesquisa etnográfica uma possível saída para tais questões.
O conceito de cultura se torna complexo quando entendemos que “a linguagem não
é toda a cultura, senão uma das formas pelas quais ela se expressa.” (GUSMÃO, 1999, p.
44 apud QUINTEIRO, 2002). Em outras palavras, Quinteiro (2002) diz que podemos
14
entender a cultura como estruturante do cotidiano de todo grupo social, que se expressa em
modos de agir, pensar, relacionar, interpretar e atribuir sentido ao mundo e às coisas.
Ao concebermos o conceito de cultura dentro dessa abordagem proposta,
inevitavelmente assumimos que as crianças, com seus modos diferenciados de se
expressarem, se relacionarem, e até mesmo de reagirem diante do mundo e no mundo
revelam que cada uma delas são dotadas de cultura, e uma cultura própria, que engloba tais
modos tão diversos do mundo adulto.
Antes de tratar dos dados obtidos com essa pesquisa, penso ser relevante fazer um
breve histórico da ANPED, uma associação de muita importância para o meio acadêmico e
que veio trazer contribuições fundamentais para essa pesquisa que me dispus a realizar.
Um breve histórico
A ANPED foi fundada em 1976 com a finalidade de buscar o desenvolvimento e a
consolidação do ensino de pós-graduação e da pesquisa na área da Educação no Brasil. Ao
longo dos anos, essa Associação tem se projetado nacional e internacionalmente, como um
importante fórum de debates das questões científicas e políticas da área, tendo se tornado
uma referência para acompanhamento da produção brasileira no campo educacional.
Os Grupos de Trabalho (G.T.) que fazem parte dessa Associação congregam
pesquisadores interessados em determinadas áreas de conhecimento da educação, como por
exemplo, Filosofia da Educação, História da Educação, Didática, Formação de professores,
Educação especial, entre outros.
O Grupo de Trabalho escolhido para alicerçar essa pesquisa tem como temática de
estudo a “Educação da criança de zero a seis anos”, no qual encontramos trabalhos que
abordam conceitos como a criança, a infância, a educação infantil e outras temáticas
relacionadas.
Traçando um breve histórico a respeito desse grupo de trabalho, é relevante dizer
que a inclusão da educação infantil como um G.T. da ANPED aconteceu somente em 1981,
expressando o intenso movimento de discussões sobre as políticas sociais e educacionais
que marcaram aquela década. Inicialmente ele foi fundado como G.T. de Educação Pré-
15
escolar, e mais tarde, em 1988, decidiu-se pela atual denominação do grupo: Educação da
criança de zero a seis anos, considerada mais abrangente e mais adequada aos direitos
constitucionais que acabavam de serem conquistados.
3.1
OS
TRABALHOS
ENCONTRADOS
–
ANÁLISE
DAS
PRODUÇÕES ACADÊMICAS PUBLICADAS NO GT7 DA ANPED
ENTRE OS ANOS DE 2003 E 2007
Ao longo desses cinco anos de produções acadêmicas que se relacionam ao tema do
GT nº 7 – Educação da criança de zero a seis anos, pude constatar que são diversas as áreas
concernentes a essa temática e dentre elas estavam vários trabalhos que abordavam e
discutiam o conceito de Cultura(s) da criança e da infância.
A quantidade de trabalhos5 publicados em cada um dos anos pesquisados se
modificou consideravelmente, principalmente se tomarmos como referência os anos de
2003 e 2005, já que o numero de trabalhos publicados nesse primeiro ano dobrou em 2005,
passando de dez trabalhos para vinte.
No ano de 2003, como já dito, foram publicados dez trabalhos; em 2004 foram
onze; em 2005 totalizaram-se vinte trabalhos; em 2006 vinte e duas publicações; e no
ultimo ano pesquisado, 2007, encontramos dezoito trabalhos.
Como já dito anteriormente, no capitulo sobre os procedimentos metodológicos, foi
necessária então uma leitura de tais trabalhos para que pudéssemos então identificar quais
deles tratavam do conceito Cultura(s) da criança e da infância.
Com essa leitura, vimos que ao longo dos cinco anos surgem discussões sobre temas
como: Legislação educacional brasileira para a educação infantil, identidade e cotidiano da
educação infantil, professores(as) de educação infantil, políticas públicas para a educação
infantil, os aspectos do cuidar e do educar, gestão da educação infantil, e as culturas
infantis/da infância.
Se tomarmos então como referência somente os trabalhos que dialogam com a
temática da cultura da criança e da infância, que é o foco dessa pesquisa, a quantidade de
5
Os trabalhos que aqui faço referencia são todos aqueles que se encontram publicados no GT nº 7,
independentemente da temática que abordam.
16
trabalhos diminui consideravelmente, passando a ser de três em 2003, quatro em 2004,
cinco trabalhos em 2005, três em 2006 e dois trabalhos em 2007. Totalizando assim
dezessete trabalhos que foram submetidos a uma análise mais detalhada, buscando temas,
abordagens e conceitos relacionados ao tema dessa pesquisa: as culturas da infância.
Logo abaixo faço uma síntese dos trabalhos encontrados, evidenciando as
discussões propostas por cada autor, bem como os conceitos e abordagens encontrados em
cada um dos trabalhos que se relacionam à temática dessa pesquisa.
2003
Fernanda Muller (2003) em seu trabalho intitulado “Infâncias nas vozes das
crianças: culturas infantis, trabalho e resistência”, propõe uma discussão acerca das
manifestações infantis, as quais, segunda ela, são compostas pelo trabalho, cultura e
resistência. Tendo a visão de que cada uma distingue a infância da idade adulta e evidencia
o que é especifico da infância.
A autora identificou, na fala das próprias crianças, que se tornou comum chamar de
trabalho a toda e qualquer forma de expressão gráfica ou plástica realizada pelas crianças,
especialmente na escola. Mas ela critica essa idéia de que a atividade escolar da criança
possa ser considerada trabalho em nome de esse status ser reconhecido.
Sobre os processos de resistência das crianças, Muller diz que acontecem com
relação às propostas e imposições da professora em vários momentos observados, são eles:
“A resistência em ficar calado/a, sentado/a e eternamente obediente
mostra que algumas crianças romperam com o pacto inicial: a
aceitação ao que lhes era imposto de forma arbitrária. Mesmo sendo
a desobediência e o rompimento das regras entendidos pelas
próprias crianças como incorretos, nos momentos tão opressores
como a roda, essa situação se reverte quando todas se permitem
viver sua infância: conversando, rindo, desejando pegar o animal impossível colocar vinte e cinco crianças a cheirar a parede.” (p.
14)
Discutindo quase que simultaneamente os conceitos acima, a autora também
trabalha em torno de conceitos como a Categoria de infância plural e Cultura infantil, sendo
17
esta “constituída por elementos aceitos da cultura do adulto e por elementos elaborados
pelos próprios imaturos” (FERNANDES, 1961, p. 174, apud MULLER, 2003). Por vários
momentos em seu texto faz referencias a autores como Pinto e Sarmento (1997),
principalmente em discussões sobre o enfoque dado a criança, que é então concebida como
ator social, sujeito de direitos, e não são meras receptoras de cultura.
Barbosa (2003) apresentou nesse mesmo ano um trabalho intitulado “Corre, vai, vai
mais uma vez! Um estudo exploratório sobre o espaço e o tempo da brincadeira de
crianças em um shopping”. Nele a autora teve a idéia de observar as crianças em espaços
que fossem planejados para elas, e buscando um local de fácil acesso e público para a
pesquisa, finalmente escolheu um shopping.
A visão da infância apresentada por essa autora é como uma construção social,
entendendo as crianças enquanto atores sociais de pleno direito. Nesse sentido a autora
concorda com Sarmento e Pinto (1997) quando dizem que isso “implica o reconhecimento
da capacidade de produção simbólica por parte das crianças e a constituição das suas
representações e crenças em sistemas organizados, isto é, em culturas” (Sarmento e Pinto,
1997, p. 20 apud Barbosa, 2003).
Em outras palavras, a autora afirma que não podemos ver a criança sozinha, isolada
desse contexto, pois é nele e a partir das interações que a criança faz, dos sentidos que
produz, que poderemos interpretar as suas produções culturais.
Costa (2003) escreve “Jogo simbólico, discurso e escola: uma leitura dialógica do
lúdico”, no qual a temática do lúdico comparece nesse estudo concebendo-o como uma
prática discursiva, cuja análise explicita o processo de apropriação das significações
culturais circulantes no contexto social no qual a criança está integrada. A concepção da
autora sobre a criança é de um sujeito que tem algo a nos dizer, e como tal impõe uma
inversão no olhar que lançamos sobre ela. Para corroborar seu ponto de vista acerca da
criança e da infância, a autora utiliza os estudos de Larrosa, que diz:
...a infância é o outro: o que, sempre muito além do que
qualquer tentativa de captura, inquieta a segurança de nossos
saberes, que questiona o poder de nossas práticas e abre um vazio
no qual se abisma o edifício bem construído de nossas instituições
de acolhida. (...) À medida que encarna a aparição da alteridade, a
infância não é nunca o que sabemos (é o outro de nossos saberes),
mas igualmente é portadora de uma verdade diante da qual
18
devemos colocar-nos em posição de escuta; não é nunca a presa de
nosso poder (é o outro que não pode ser submetido), mas, ao
mesmo tempo, requer nossa iniciativa; não está nunca no lugar que
lhe damos (é o outro que não pode ser abarcado), mas devemos
abrir um lugar que a receba (Larrosa, J. 1998, P. 59 apud Costa,
2003).
Já na análise dos dados, Costa utiliza o aporte da lingüística da enunciação na
vertente bakhtiniana, a abordagem socioantropológica do jogo e da psicologia do
desenvolvimento na vertente sócio-histórica e Winnicottiana.
Diz a autora que
“O interesse por essas questões se justifica porque a brincadeira
circunscreve um âmbito de atividade definido por um contexto
social ao mesmo tempo em que se relaciona, de um modo muito
particular, com o mundo interno infantil. Neste sentido, enquanto
prática cultural, o seu estudo pode fornecer pistas para a
compreensão do universo infantil e sua educação.” (p. 5)
2004
Muller, autora já citada acima, traz no ano de 2004 um outro trabalho6 que abrange
também a temática das culturas infantis, tentando responder agora perguntas como: De que
forma a produção de culturas infantis aparece na cidade? e, Como as crianças interpretam
os espaços [educadores] da cidade? Nessa discussão, Muller trabalha em torno de conceitos
como Cidade Educadora, Infância como categoria social, e concebe a criança como agente
ativo que constrói sua cultura e contribui na produção do mundo adulto. Novamente a
autora faz algumas referencias a Florestan Fernandes (1961) em seu trabalho, assim como a
Áries (1981), Corsaro (1997), Pinto e Sarmento (1997).
É na cidade de Porto Alegre que a autora desenvolve essa sua pesquisa. Essa cidade
traz uma proposta educativa inspirada no Projeto Educativo de Barcelona, fundamentandose assim na idéia de “cidade educadora”. A cidade é considerada “educadora” a partir do
pensamento de Vintró (2003) que faz essa definição por considerar a cidade como um dos
vários agentes educativos que fazem parte da educação humana, e dessa forma
desconsidera-se que esse papel seja exclusivamente da escola. Nesse sentido, a autora busca
6
“Culturas infantis na cidade: aproximações e desafios para a pesquisa”
19
desvelar como as crianças interpretam essa relação educativa existente na cidade em si, e de
que forma essas crianças interagem com essa cidade, tomando como referencia suas
produções culturais próprias.
Para o desenvolvimento de sua pesquisa, a autora busca procedimentos
metodológicos que considerem a criança como atores sociais plenos, como define Sarmento
e Pinto (1997), e que se manifestam dentro desse emaranhado de relações que se
constituem em vários segmentos da cidade.
Quando Muller discute as culturas infantis, ela traz principalmente os estudos de
Corsaro (1997) para alicerçar seus posicionamentos, o qual define culturas infantis "como
um conjunto estável de atividades ou rotinas, artefatos, valores ou preocupações que
crianças produzem e compartilham em interação com pares".(CORSARO, 1997, p. 95 apud
MULLER, 2004)
Martins Filho7 busca, através de uma orientação etnográfica, conhecer, descrever e
analisar as dinâmicas das relações que as crianças estabelecem umas com as outras no
espaço-tempo em que convivem no interior das instituições de educação infantil.
Esse autor tem também uma concepção de infância segundo a qual, a criança é vista
como sujeito de direitos numa dimensão histórica, educacional, social e cultural, e nesse
sentido ele busca em sua pesquisa adotar o ponto de vista das crianças ou estudá-las por seu
próprio mérito.
Quando o autor se propõe a investigar as crianças por meio de suas produções
culturais, ele busca na Sociologia da Infância um aporte teórico. E dessa forma, diz ele que
busca trilhar caminhos em sua pesquisa como aqueles que tem sido apontados por autores
como Montandon (2001); Sarmento (1997, 2000); Sirota (2001); Ferreira (2002), como
sendo a busca por um novo paradigma para o estudo da infância. Sobre esse novo
paradigma, Martins Filho diz que:
“...tem como base a mudança de uma perspectiva que enfatizava a
lógica da reprodução social8 que colocava as crianças no papel de
destinatários das políticas educativas e das práticas pedagógicas
centradas nos adultos, para uma outra perspectiva, que considera a
categoria social infância como susceptível de ser analisada em si
7
FILHO, Altino José Martins. A vez das crianças: um estudo sobre as culturas da infância no cotidiano da
creche.
8
Essa perspectiva da reprodução social é identificada nos Estudos de Émile Durkheim.
20
mesma, que interpreta as crianças nas suas múltiplas relações
simbólicas estabelecidas entre si e com os adultos.” (p. 3)
Quando Martins Filho inicia sua discussão sobre as culturas da infância, diz ele
primeiramente que é fundamental que tenhamos uma concepção de criança para além da
perspectiva desenvolvimentista. Isso porque, segundo os estudos de Pinto e Sarmento
(1997), o conceito de infância, retratado pela psicologia desenvolvimentista, está longe de
corresponder a uma categoria universal, natural e homogênea.
Para o autor as culturas da infância possuem dimensões relacionais diversas:
“...face às ações das crianças, e permitem pensar que elas,
dependem dos atributos partilhados com o meio social e cultural
que estão convivendo, eles é que vão fornecer, os elementos que
irão estruturar suas vidas sociais, capacitando as crianças à
construírem significados próprios e, contudo, habilitando-as à
tornarem-se atores sociais e culturais.” (p. 3)
Cruz em seu texto “Ouvindo Crianças: considerações sobre o desejo de captar a
perspectiva da criança acerca da sua experiência educativa” propõe uma discussão acerca
de possíveis metodologias que procuram captar o ponto de vista das crianças, tentando
sobretudo compreender como as crianças percebem a realidade em que estão inseridas, no
caso uma escola e uma creche.
Fátima Vasconcelos9, a partir das práticas lúdicas, busca em seu trabalho refletir
sobre o processo de constituição da criança no cenário da cultura contemporânea.
Para a autora,
“...a experiência social da criança, à medida que o capital se
complexifica, passa de uma cultura de transmissão espontânea e
oral entre adultos e crianças, mas também entre crianças, para uma
cultura cada vez mais mediada por agenciamentos
mercadológicos.” (p. 2)
Vendo o lúdico em seu aspecto cultural, Vasconcelos se referencia em Benjamim
(1984) para dizer que o brinquedo e o brincar estão associados e documentam como o
adulto se coloca em relação ao mundo da criança.
9
“Bonecas: objeto de conflito identitário na arena da dominação cultural”.
21
A autora diz que certamente a lógica do capital vem impondo um processo de
expropriação da cultura lúdica infantil, caracterizada pela pedagogização do lúdico e pela
mercantilização do brincar. Para a autora essa mudança nada mais é do que a imposição de
uma outra cultura (adulta) sobre a criança, tentando reformular suas criações e
significações. Em suas palavras, Vasconcelos diz:
“Enquanto os [brinquedos] que são produzidos pela imaginação da
criança refletem a sua leitura do mundo (a cultura lúdica infantil),
aqueles industrializados refletem as projeções dos valores da
cultura adulta (cultura lúdica adulta) endereçados ao mundo
infantil.” (p. 3)
2005
No trabalho intitulado “Abordagens etnográficas nas pesquisas com crianças e suas
culturas”, Delgado e Muller discutem a tentativa de conectar os estudos das infâncias na
sociologia e na antropologia com vistas a discutir a pesquisa etnográfica com crianças.
Nessa discussão, as autoras trazem um conceito de cultura proposto por Geertz
(1989) como sendo de fundamental importância para que compreendamos principalmente a
Etnografia. Esse autor no qual Muller e Delgado embasam sua pesquisa, não trata
especificamente acerca da cultura da infância, mas defende uma concepção na qual a
cultura não é simplesmente costumes, usos, tradições, hábitos, mas sim um conjunto de
mecanismos de controle (planos, receitas, regras, instruções para governar o
comportamento) e ainda enfatiza que o homem depende de tais mecanismos de controle, de
tais programas culturais para ordenar seu comportamento.
Fazendo referência a Sarmento (2005) principalmente, as autoras discutem alguns
conceitos como os de Diversidade, Alteridade, e finalmente o de Cultura, tratando mais
especificamente das culturas da infância, os quais são para elas muito importantes quando
nos propomos a discutir a infância.
No que diz respeito à diversidade, Muller e Delgado dizem que não podemos tratar
a infância como um grupo homogêneo, já que ela é marcada pela heterogeneidade e
diversidade de condições de existência. A alteridade é definida como “um fosso entre o que
22
se é e aquilo que os outros são, principalmente quando o outro tem uma diferença radical”
(p. 5), por isso temos que considerar a possibilidade de construção de um conhecimento que
não reduza o outro nem seus significados, por mais diferentes que sejam dos nossos. Dentro
de um conceito mais amplo, as autoras concebem a cultura como sendo sistemas simbólicos
organizados, ou seja, conjuntos articulados relativamente estáveis de idéias, normas de
comportamento.
Quando abordam a categoria Cultura da infância, dizem que:
“...são sistemas simbólicos distintos dos demais, com um recorte
geracional que mantém cruzamentos com recortes de classe,
gênero, raça, entre outros”(p.5).
E nessa discussão acerca das culturas da infância que é o foco dessa minha pesquisa,
Muller e Delgado expõem os quatro pilares das culturas da infância propostos por Sarmento
(2004;2005): a Interação; a Reiteração; a Ludicidade e a Fantasia.
A Interação é nas culturas da infância se dá através do fato das mesmas serem,
assim como as culturas populares, de autoria coletiva, ou seja, todos participam de sua
formação; a Reiteração diz respeito ao princípio da repetição e da réplica, os quais estão
presentes constantemente no universo infantil e relaciona-se intimamente com o controle do
tempo; a Ludicidade e a Fantasia talvez possam estar mais diretamente ligadas entre si, pois
através delas há a possibilidade de experimentar outras vivências e fazer articulação entre
as culturas da infância e as dos adultos.
Santos10 em seu trabalho faz uma discussão acerca das apropriações e usos dos
conceitos de “identidade(s)” e “cultura(s)” que estão sendo feitos nos estudos sobre a
educação da criança ou da infância, dentre aqueles publicados na ANPED dentro do Grupo
de Trabalho nº 7 – Educação da criança de 0 a 6 anos, se perguntando quais seriam os
significados e fundamentos teóricos implícitos nos conceitos de “cultura(s) infantil(is)” e
“identidade(s) infantil(is)”.
A autora usa de uma metodologia muito parecida a esta que eu me propus a fazer
com minha pesquisa, mas sua questão de pesquisa abrange mais especificamente os
10
SANTOS, Solange Estanislau dos. Culturas infantis e Saberes: Caminhos recompostos.
23
conceitos de “identidade(s)” e “cultura(s)” que se relacionam aos conceitos de “criança” e
“infância”.
Santos identificou com sua pesquisa que recentemente emergem vários estudos
relacionados à temática da “cultura infantil” e entre esses estudos ela destaca alguns autores
principais: Faria et al. (2002); Kramer, Leite (1998); Sarmento (2002, 2003); Cerisara
(2002); Rocha (1999); Quinteiro (2002).
De maneira particular a autora cita Sarmento (2003), já que esse autor traz uma
discussão importante sobre a temática das culturas infantis, ao afirmar que para se estudar
as culturas da infância, é preciso interpretar a sua autonomia em relação aos adultos.
“...seria desajustado compreender as culturas da infância desligadas
das interacções com o mundo dos adultos, essas culturas
transportam as marcas dos tempos, exprimem a sociedade e suas
contradições, nos seus estratos e na sua complexidade [...] realizamse freqüentemente por oposição e numa atitude de contraponto
crítico ao projecto educacional.” (SARMENTO, 2003 apud
SANTOS, 2005).
Santos pôde constatar com sua pesquisa que a incidência do uso dos conceitos
“culturas infantis” e “identidades infantis”, nos estudos apresentados na ANPED, fazem
parte de um debate e de um movimento teórico mais amplo que perpassa os vários campos
do saber no mundo contemporâneo.
Daniela Finco em seu trabalho intitulado “Educação Infantil, Gênero e
Brincadeiras: das naturalidades as transgressões”, teve como principal objetivo observar
as brincadeiras de meninos e meninas, analisando o modo como se relacionam e se
manifestam culturalmente frente às questões de gênero.
Quando a autora discute o conceito de criança, ela faz referência a Sirota (2001),
dizendo que as crianças, meninos e meninas, vêm participando das transformações em
nossa sociedade, como portadores de história, como atores dos processos sociais,
reproduzindo e produzindo a cultura. Nesse sentido, nota-se que a concepção de infância
que permeia seu estudo se opõe à concepção da criança considerada como um simples
objeto passivo de uma socialização regida por instituições. São justamente esses princípios
que dão base aos elementos da Sociologia da Infância.
24
Para captar verdadeiramente as produções culturais das crianças e em quais
condições se dão, a autora usou de procedimentos metodológicos adequados, dentro dos
quais primeiramente há a necessidade de considerar como a criança pensa e concebe o
mundo, como representa o seu próprio universo. Para isso, Finco considera diversos
elementos expressivos da criança:
“Baseando-me numa concepção que procura não reduzir a
capacidade de expressão das crianças somente à fala, mas de se
estar atento aos gestos, movimentos, emoções, sorrisos, choros,
silêncio, olhares, linguagens sonoras e outras linguagens - assim
como mostram as experiências italianas no campo da educação
infantil” (Prado, 1999, p.111 apud FINCO, 2005, p. 3).
Foi na brincadeira das crianças que a autora encontrou uma de suas formas de
expressão, sendo essa a forma como elas se manifestam culturalmente.
Ainda nesse ano Deise Arenhart publicou um trabalho intitulado “A educação da
infância no MST: O olhar das crianças sobre uma pedagogia em movimento”. Em seu
estudo, a autora busca destacar a relação que as crianças estabelecem com o processo
educativo idealizado pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), se
justificando pela necessidade de dar coerência a uma concepção que reconhece as crianças
como atores sociais e, portanto, as mais capazes de nos fornecer informações no que
concerne a elas próprias (SARMENTO e PINTO, 1997; LANSTED, 1991).
Considerações básicas para a autora: a primeira consideração refere-se à concepção
de que as crianças são agentes ativos na construção da cultura; a segunda consideração é
que as crianças, levadas pelo fato de se reconhecerem como um grupo subordinado aos
saberes e domínios dos adultos, geralmente não dizem aquilo que realmente pensam ou
sentem, mas aquilo que elas pressupõem que nós adultos queremos ouvir.
Por isso a autora determinou duas maneiras de aproximação com as crianças da
pesquisa: uma denominada significações e outra denominada produções. Para a autora, as
significações são aquilo que as crianças dizem, ou seja, os significados que as crianças
atribuem por meio de sua fala aos elementos em torno dos quais são questionadas.
Produções é tudo aquilo que as crianças expressam em suas ações, são os modos com que
realizam determinadas atividades.
25
Para a autora essas formas de aproximação das crianças possibilitaria um encontro
mais real e verdadeiro com o que as crianças realmente pensam a respeito de algo, já que
não se consideraria somente suas falas, mas também diversas outras manifestações infantis.
Ao falar sobre a socialização infantil, Arenhart alicerça-se nos estudos de Corsaro
(2002), nos quais se encontra a tese da “reprodução interpretativa” que considera as
crianças como:
“sujeitos e agentes ativos na construção da cultura, no lugar de
assimilar passivamente conteúdos, crenças, valores, costumes, etc.,
as crianças os resignificam e os transformam, contribuindo assim
para as mudanças das formas sociais. Assim, ao mesmo tempo em
que as crianças se apropriam da cultura estabelecida em seu meio,
elaboram também uma interpretação da mesma.” (p. 8)
Justamente nesse sentido é que a autora pôde constatar com sua pesquisa que as
crianças ao mesmo tempo em que são frutos de um contexto social mais amplo, e também
de um contexto específico no qual se inserem, que no caso era o do MST, as crianças
também subvertem certas estruturas sociais e expressam nelas seu modo infantil de ser,
pensar, sentir e produzir a vida.
Núbia de Oliveira Santos em seu trabalho “O consumo nas práticas culturais
infantis: crianças e adultos no contexto de uma escola pública” traz um estudo sobre as
diferentes formas de inserção da criança na cultura do consumo, partindo da observação das
suas práticas culturais entre si e com os adultos.
A autora, logo no inicio de seu trabalho, já faz discussões acerca da cultura infantil,
formulando questões como: Existe uma cultura infantil ou uma cultura da infância? Quais
aportes culturais e sociais servirão para delimitar tais fronteiras? Santos traz então uma
concepção de cultura, formulada por Velho (1981), que é entendida como uma rede de
significados, e por isso a infância, enquanto categoria social, precisa ser percebida não
como unidade autônoma ou independente mas como parte de algo mais vasto e articulado.
26
2006
Ângela Borba11 teve como objetivo compreender como as crianças, nas relações que
estabelecem entre si e nas formas de ação social que constroem nos espaços-tempos do
brincar, constituem suas culturas da infância e são por elas constituídas. Discute também a
noção de culturas da infância, revelando as crianças como participantes ativos nos
processos de construção de regras e valores que regulam suas relações sociais e contribuem
para a constituição da cultura.
A autora aceita a abordagem interpretativa de Corsaro (1997, 2003), na qual as
culturas infantis emergem na medida em que as crianças, interagindo com os adultos e com
seus pares, tentam atribuir sentido ao mundo em que vivem.
Esse mesmo autor ainda afirma que as culturas da infância são integradas tanto
pelos jogos infantis, compreendidos como formas culturais produzidas e fruídas pelas
crianças, como também pelos modos específicos de significação e de comunicação que se
desenvolvem nas relações entre pares. Em suas palavras, Borba diz que
“As culturas da infância podem ser vistas assim como construção
coletiva que se faz através da ação social das crianças frente às
estruturas sociais e institucionais em que estão inseridas. É
engajando-se ativamente nessas estruturas e no esforço de
compreendê-las que as crianças criam formas específicas de ação,
reproduzindo, contornando ou até transformando as estruturas
existentes.” (BORBA, 2006, p. 5)
Jader Lopes, com seu trabalho “Produção do território brasileiro e produção dos
territórios de infância: por onde andam nossas crianças?” busca compreender como os
territórios de infância estão se configurando em tempos de uma nova organização do
capital. Segundo o autor, os territórios de infância são:
“...aqueles espaços de conflitos e embates de diferentes forças
sociais que buscam coabitar as crianças para suas áreas de atuação,
essas interações sofrem rupturas, modificações e novas
aproximações na medida em que ocorrem novos re-arranjos no
espaço-tempo das sociedades.” (LOPES, 2006, p.7)
11
“As culturas da infância nos espaços-tempos do brincar: estratégias de participação e construção da ordem
social em um grupo de crianças de 4-6 anos”.
27
Usando de instrumentos fornecidos pela cartografia tradicional, o autor buscou
localizar as crianças nas diferentes paisagens urbanas, para com isso mapear onde elas mais
vivenciavam suas atividades próprias, dentro dos espaços produzidos pelo mundo adulto.
Essas atividades próprias das crianças as quais o autor se refere, são aquelas em que,
“...as vimos correndo; brincando de pique; pulando corda;
conversando com outras; fazendo alguns jogos de mãos; pulando
“elástico”; brincando de personagens da televisão; subindo e
descendo dos escorregadores, das cabanas; nadando em praias e
piscinas; brincando na areia; estudando; escondendo-se entre
árvores; pulando em camas elásticas e em muitas outras
atividades.” (p. 12)
Para o autor é na formação das culturas infantis que ocorre a configuração das
territorialidades infantis, pois nela está presente as interações entre os lugares destinados às
crianças pelo mundo adulto e suas instituições e das territorialidades de criança.
Martins Filho12 tem como objetivo principal em sua pesquisa descrever, analisar e
interpretar as dinâmicas das relações que adultos e crianças estabelecem entre si nos
espaços-tempos em que convivem no interior de uma creche. Tratou-se de uma pesquisa
etnográfica que buscou apoio teórico na sociologia da infância e por isso teve em vista as
crianças como atores sociais ativos nesses processos de socialização com os adultos.
Para que se fosse atingido esse objetivo principal, o autor traçou também duas
expectativas principais em sua pesquisa: a primeira era conhecer as relações sociais que as
crianças estabelecem umas com as outras, tomando como referência a lógica das
produções/reproduções das culturas de pares elaborada por Corsaro (1997); já a segunda
expectativa do autor era desvelar os papéis, as interferências e as relações dos adultos nos
processos de socialização com o grupo de crianças.
Por vários momentos de sua inserção a campo, Marins Filho diz que vivenciava
tensões no processo de socialização das crianças, já que os posicionamentos dos adultos
frente aos das crianças eram por muitas vezes contraditórios. Em suas palavras, o autor
escreve que,
12
MARTINS FILHO, Altino José. Crianças e Adultos na creche: marcas de uma relação.
28
“Vimos que os adultos A, B e D tratavam as crianças de forma
excessivamente padronizada, buscando enquadrá-las em rituais
cristalizados por um jeito de ser no qual prevalecia a rigidez, a
uniformidade e a homogeneização.” (p. 4, grifos meus)
Ou ainda,
“Fica evidente também a capacidade de alguns profissionais (adulto
C) em compreender e considerar as manifestações das crianças
como solicitações que revelam autonomia em relação às decisões
tomadas por outros profissionais que não consideram o ponto de
vista dos pequenos, preferindo conduzir as relações com as crianças
por uma lógica disciplinar e hierarquizada.” (p. 4, grifos meus)
O autor pôde concordar com o que diz Sarmento (2002) e identificar com sua
pesquisa que as crianças, assim como os adultos, são também produtoras de culturas entre
si. Pois foi na vivência com essas crianças, no interior de uma creche, que o autor pode
identificar que as crianças apresentam seus modos particulares13 de manifestarem seus
desejos, vontades, sentimentos e pensamentos.
O autor defende um processo social e cultural nos quais tanto os adultos como as
crianças sejam atores ativos, e considerados como tais. Essa defesa corrobora a concepção
que o autor tem de que as produções culturais e sociais só ocorrem a partir das relações
com os pares e na interação com um dado contexto.
2007
Moema Kiehn, em seu texto “A concepção de criança e de infância nos currículos
de formação de professores da educação infantil”, diz que com sua pesquisa ela objetiva
identificar as orientações e pressupostos teóricos que permeiam as concepções de criança e
infância e sua educação enunciadas nos currículos das universidades federais do país que
ofereceram cursos de Pedagogia com formação de Professores de Educação Infantil nos
anos de 2005 e 2006.
13
Podemos considerar que esses “modos particulares” das crianças caracterizam as manifestações culturais
infantis.
29
Essa autora reconhece na criança um sujeito concreto, cultural, social e
historicamente constituído que, por sua vez, apresenta formas de processar e de se
relacionar com o mundo diferentemente do adulto. Esse reconhecimento se dá devido ao
fato da autora buscar referenciais teóricos em autores como Sarmento (1997;2004), Ferreira
(2000; 2002) e Pinto (1997). Com sua pesquisa a autora busca então identificar se a
concepção acima é considerada nos currículos dos cursos de pedagogia, ou então, quais
mudanças conceituais a respeito da criança e da infância tem ocorrido ao longo dos anos.
Ainda entre as publicações do ano de 2007, encontrei um texto de Maria Isabel
Edelweiss Bujes14, que discutia proposta de Educação Infantil gestada e desenvolvida na
região italiana denominada de Reggio Emilia, na qual se tem a visão da criança como
portadora de uma cultura específica e singular.
3.2 CONTRIBUIÇÕES
Refletindo acerca dos dados encontrados com a analise dos trabalhos, podemos logo
perceber que os autores, ao tratarem das culturas da criança e da infância, defendem sempre
uma concepção de criança na qual ela é e deve ser considerada como um sujeito ativo,
transformador, participante e produtor de cultura. Nesse sentido, encontramos por diversas
vezes nos trabalhos referências aos estudos de SARMENTO (1997; 2004; 2005; 2007).
Encontramos nos trabalhos publicados a temática da Cultura da criança e da
infância sendo abordada algumas vezes de diferentes maneiras, através do diálogo que cada
autor tem com determinados referenciais teóricos. Uma primeira abordagem encontrada
acerca das culturas infantis foi àquela alicerçada nos estudos de Florestan Fernandes (1961)
que vem afirmar que as crianças são sujeitos ativos produtores de uma “cultura infantil”.
Em outro trabalho pude encontrar referencias aos estudos de Corsaro (1997; 2003;
2002) que aborda as culturas infantis como sendo as “culturas de pares”. Outro conceito
de cultura evidenciado em um dos trabalhos foi aquele que se refere a ela como sendo uma
“rede de significados” como propõe Velho (1981). Nesses estudos que buscam captar a
criança e a produção de uma cultura específica, Geertz (1989) aponta para uma concepção
14
“Artes de Governar a Infância: no cruzamento entre a ética e a política”.
30
de cultura que deve estar atrelada aos conceitos existentes na pesquisa etnográfica com
crianças.
Em relação ao total de trabalhos publicados entre os anos de 2003 e 2007, a
quantidade de trabalhos que abordaram a temática das culturas infantis mais
detalhadamente é relativamente pequena. Porém, se considerarmos que se trata de uma
temática nova e atual, o resultado observado é muito positivo, já que as produções
acadêmicas estão começando a dar uma visibilidade maior a esse campo de estudo tão
importante que é a sociologia da criança e da infância, através da abordagem de suas
diversas temáticas, dentre as quais está as culturas da criança e da infância.
Como professora, penso ser importante que se repense uma educação voltada
realmente para e com as crianças, possibilitando a constituição de um espaço de escuta, de
respeito, de valorização da cultura de cada criança, em suas diferentes realidades, ouvindoas, compreendendo-as para garantir-lhes o direito de ser criança.
Neste momento atual em que os estudos sobre educação infantil ganham ainda mais
visibilidade no Brasil, eles são oportunos para pais, professores e educadores em geral.
Penso que as culturas da criança precisam, com urgência, serem resgatadas pela
educação. O começo deste processo seria que o educador se dispusesse a escutar as
crianças, como já se disse; mas a partir daí o caminho é longo em direção a uma mudança
ampla de perspectiva.
Sarmento (2005) enfatiza que os conceitos de culturas da infância geram
conseqüências pedagógicas como, por exemplo, pensar o trabalho pedagógico a partir das
crianças realmente, como atores sociais e não simplesmente como alunos.
Em termos educacionais, penso que adotar as Culturas da Criança como perspectiva
significa, em primeiro lugar, aceitar a idéia de que a escola não é o lugar por excelência da
aprendizagem. Muitas aprendizagens significativas se dão fora da escola, e muitas crianças
aprendem apesar da escola. Em segundo lugar, e tão importante quanto a primeira idéia, é
adotar uma postura de observação constante, não só da criança, mas de tudo e de todos.
Observando de maneira ativa, participante e interessada.
As crianças, mesmo que não queiramos acreditar, possuem os cem modos de agir
pensar, sentir, se relacionar e conceber o mundo em que vivem que constituem uma
31
multiplicidade e uma simultaneidade irrefutáveis e que a evidenciam com uma produção
cultural a qual nem os educadores e nem a Pedagogia tem tomado como referência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tendo como base o levantamento bibliográfico realizado nessa pesquisa considero
que paralelamente à construção de uma nova perspectiva proposta pela sociologia da
criança e da infância, emergem princípios orientadores para todas as áreas que direta ou
indiretamente se relacionam às crianças. Alguns desses princípios foram localizados no
primeiro capitulo.
Portanto, de acordo com os estudos dos autores analisados ao longo dessa pesquisa
ressalto que é preciso ter como pressuposto na constituição de um novo olhar e novas
práticas, pensar na criança com seu contexto, crítica do tempo histórico em que está
inserida, participante ativa da realidade social, investigadora, elaboradora de hipóteses, e
transformadora do mundo que a cerca.
Compreendo que a formação docente não está acabada ou completa ao final de uma
graduação, mas se faz também a partir do conjunto de experiências sociais e culturais,
individuais e coletivas, que vamos acumulando e modificando ao longo de nossa vida
pessoal e profissional. Por isso, esse processo é inacabado e constituído por constantes
indagações, incertezas e ambigüidades.
32
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