Barack Obama - Fundação Liberdade e Cidadania

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Barack Obama - Fundação Liberdade e Cidadania
1 Revista LIBERDADE e CIDADANIA – Ano IV – n. 13 – julho / setembro, 2011 – www.flc.org.br RESENHA
Barack Obama – A AUDÁCIA DA
ESPERANÇA: reflexões sobre a
conquista do sonho americano (2006).
Por João Paulo Peixoto * São Paulo, 2007 Yes, we can. Com essa frase que se
transformou em bordão de campanha, Barack
Hussein
Obama
venceu
as
eleições
norte-
americanas de 2008, tornando-se o 44º presidente
dos Estados Unidos da América e o primeiro afroamericano.
Este livro foi uma das peças de campanha
destinadas a passar ao público uma mensagem de
esperança em meio ao desalento dos últimos anos
do governo Bush. Marcados, embora não causados por ele, por uma profunda
recessão econômica resultante da crise financeira provocada pelos abusos
praticados por Wall Street.
Ironicamente, ocorreu o mesmo fenômeno daquele verificado na eleição
presidencial de 1980, quando Ronald Reagan, o candidato republicano, derrotou
o democrata Jimmy Carter com uma campanha alicerçada justamente no
otimismo, idealismo e na esperança do povo norte-americano ainda abalado pela
recessão e a renúncia de Nixon, no rescaldo da derrota na guerra do Vietnã.
O fenômeno viria se repetir décadas depois, porém com sinais trocados.
Ao declarar que o tempo de mudança havia chegado para a América
(“Change has come to America”), Obama acenou com uma era de júbilo e novas
2 Revista LIBERDADE e CIDADANIA – Ano IV – n. 13 – julho / setembro, 2011 – www.flc.org.br expectativas para os americanos. Todos os americanos. Uma vez que uma
estratégica importante da sua campanha foi evitar sempre, a sua condição racial
como fator diferenciador na disputa. Ao contrário, colocou-se sempre como um
americano a serviço dos americanos de todas as raças e classes sociais. Tal
postura motivou especialmente o eleitorado jovem que depositou nele todo o seu
idealismo e desejo de mudança. Por isso, Obama não venceu exclusivamente por
conta da cor de sua pele e nem por causa dela.
Uma campanha, aliás, extremamente bem planejada, com uso intensivo
das novas tecnologias, e pacientemente executada pelo candidato, reforçada por
sua extraordinária oratória e acentuado carisma. Uma campanha que inaugurou a
prática de captação massiva de recursos via internet.
Frases perfeitas e repetidas sempre que possível, do tipo: “Eu não estou
fazendo história, vocês estão” (“I’m not the one making history. You are”); ou
ainda: “Este é o nosso tempo” (“This is our time”), funcionaram como
verdadeiros motores a turbinar a imaginação popular. Ou seja, a combinação
certa de uma mensagem certa pelo mensageiro certo, na hora certa fez Barack
Obama presidente dos Estados Unidos da América.
O livro, escrito logo após sua eleição em 2004 começa com lembranças de
detalhes do Senado e suas particularidades. Uma breve descrição da rotina diária
dos senadores e algumas considerações sobre o papel do senador e do Senado
norte-americano. Ali, como aqui, se destaca muito mais o trabalho de bastidores
em prejuízo da presença em plenário. Esta reservada naturalmente às votações e
eventuais discursos para um salão quase sempre vazio, segundo o relato do
próprio autor.
Mais adiante lança farpas contra os partidos republicano e democrata nas
suas performances governativas afastadas do verdadeiro pensamento popular.
Fenômeno, aliás, recorrente em várias polis onde as elites governantes tendem a
desenvolver um isolamento envolto pelo poder e pela burocracia. Para ultrapassar
esta disfunção, Obama propõe o retorno às origens da constituição norte-
3 Revista LIBERDADE e CIDADANIA – Ano IV – n. 13 – julho / setembro, 2011 – www.flc.org.br americana. Eivada de idealismo e patriotismo que transcendem as atuações
partidárias, conferindo à manifestação popular o verdadeiro peso no exercício da
democracia e do governo representativo.
A partir desta visão já se poderia imaginar a tônica do que viria ser sua
plataforma de campanha presidencial anos depois. Nela, o candidato buscaria
uma conexão direta com o povo americano baseando sua fala exatamente
naqueles princípios consagrados na Constituição de 1787.
Dois capítulos são dedicados as sensíveis questões relativas à fé e a raça.
Neles o autor discorre sobre suas posições nestes temas de profunda
intimidade para os eleitores e suas famílias, sem omitir sua opinião clara sobre
temas sensíveis. Quanto à questão racial o referido capítulo lembra um trecho do
discurso proferido na Convenção Nacional Democrata de 2004 que, segundo suas
palavras, parece ter causado comoção: “Não existem os Estados Unidos dos
negros, os Estados Unidos dos brancos, os Estados Unidos dos descendentes de
latinos ou os Estados Unidos dos descendentes de asiáticos – existem apenas os
Estados Unidos da América”.
No capítulo 8 são lançadas pistas para o que viria a ser a política externa
dos EUA segundo sua visão de mundo. Desde que lhe fosse possível chegar à
presidência da república em 2008.
No último capítulo defende a importância e a perenidade da instituição
familiar a partir de sua própria experiência. Encarrega-se também de manifestar
ceticismo quanto ao catastrofismo liberal ou conservador que é eventualmente
lançado sobre a família em razão das novas realidades a ela impostas pela
sociedade industrial.
Por fim cabe lembrar as palavras de Robert Kennedy, ao afirmar que a
nação avançava tão rapidamente na questão das relações raciais que um negro
poderia ser presidente em 30 ou 40 anos. Feita em 1961 esta previsão demorou
um pouco mais para se tornar realidade.
4 Revista LIBERDADE e CIDADANIA – Ano IV – n. 13 – julho / setembro, 2011 – www.flc.org.br Não deixa de ser significativo o fato de em menos de 5 décadas os Estados
Unidos terem evoluído de uma situação de segregação racial onde escolas e
ônibus não eram compartilhados por brancos e negros, para uma época em que
um afro-americano pudesse ser eleito presidente da república.
Como gostavam de repetir patrioticamente americanos de todos os lados
no dia da vitória: “somente na América isso seria possível”. Para Barack Obama
o sonho americano começava a ser resgatado com audácia e esperança.
Seja como plataforma eleitoral, seja como difusor de um pensamento
político, a leitura do livro em questão constitui-se em peça importante para todos
que desejem mergulhar na filosofia política e nos mais caros valores que regem
os princípios e fundamentos estruturantes da nação norte-americana. Agora
revividos e discutidos por alguém que se propõe a recuperá-los e renová-los com
coragem e determinação. Boa leitura.
Em tempo, o governo Obama, no entanto, é outra história.
* João Paulo M. Peixoto
João Paulo M. Peixoto, Professor de Ciência
Política
e
Administração
Pública
da
Universidade de Brasília, é professor associado
internacional do VILLA Victoria University of
Wellington, New Zealand. Seu livro mais recente (Org.) é “Governando o
Governo: modernização da administração pública no Brasil”. Ex-Assessor
Parlamentar dos Ministérios da Fazenda e Educação no Brasil, também serviu
como servidor público internacional das
Nações Unidas (DESA) junto ao
Governo de Angola, e como consultor do Banco Mundial para assuntos de
reforma do setor público. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e
Georgetown (EUA) e bolsista do Woodrow Wilson Center (Brazil Programe).
5 Revista LIBERDADE e CIDADANIA – Ano IV – n. 13 – julho / setembro, 2011 – www.flc.org.br Fonte
Revista LIBERDADE e CIDADANIA
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