Resistência armada no Paraguai

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Resistência armada no Paraguai
Revista SURES: https://ojs.unila.edu.br/ojs/index.php/sures, Ano: 2014, jul, Número: 4, pág.: 102-115
Resistência armada no Paraguai: a luta contra a ditadura de Alfredo
Stroessner
Graziano
Uchôa
Resumo:
Baseado em uma política de cunho autoritário, o Paraguai de Stroessner foi precursor no
que seria uma constante em outros governos militares, a sociedade vivendo em um
permanente estado de sítio. Frente a esse contexto, surgiram agrupações armadas
(guerrilhas), tendo como intuito tomar o poder das mãos de Stroessner. Apropriando-se
do discurso anticomunista, o stronato sufocou qualquer oposição, conseguindo manterse no poder durante longos anos.
Palavras-Chave: Ditadura, Stroessner, Guerrilhas.
Abstract:
The Stroessner of Paraguay based on a policy of authoritarian nature was a forerunner in
what would be a constant in other military governments, society living in a permanent
state of siege. Against this context, armed groups have emerged (guerrillas), with the aim
to take power from the hands of Stroessner. Appropriating the anti-Communist discourse,
the stronato suffocated any opposition managing to remain in power for long years.
Keywords: Dictatorship, Stroessner, Guerrillas.
Introdução
No artigo ora apresentado, pretendemos examinar o intento de luta armada no
Paraguai. Em especial, a fase dos anos de 1950 e 1960, quando a Frente Unida de
Liberacion Nacional (FULNA) e o Movimiento 14 de Mayo (M14) organizaram-se para
se opor ao regime do ditador Alfredo Matiuda Stroessner. Analisaremos como o discurso
de segurança nacional intensificou a ideia do inimigo interno e contribuiu de forma
importante para que o regime stronista (como é conhecido o governo de Stroessner)
minimizasse as disputas internas pelo poder no Paraguai, conseguindo, assim, manter-se
no poder pelo longo período de 35 anos (1954-1989).
Assinalamos que este trabalho baseia-se em um levantamento das obras existentes
sobre o tema. Daí sua importância, nesse sentido, pois, além de divulgar uma temática
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Professor da rede estadual e privada do em Mato Grosso. Doutorando no Programa de Pós Graduação
em História na Universidade Federal de Mato Grosso.
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pouco explorada (a luta armada no período Stroessner), contribui com apontamentos
relevantes para as leituras que já foram feitas sobre o assunto. Importante salientar que
pesquisas sobre tal objeto por pesquisadores brasileiros é muito pequena; portanto, a
maior parte das informações são retiradas de autores paraguaios. Mesmo assim,
comparadas com o material que analisa as resistências armadas no Cone Sul, as
experiências ocorridas no Paraguai ainda apresentam pouca projeção.
Para explicar a carência de trabalhos analisando as guerrilhas do período
Stroessner, citamos o autor Andrew Nickson, em uma das obras mais recentes sobre as
guerrilhas no Paraguai de Stroessner. Segundo Nickson:
De entrada, cabe señalar que, hasta ahora, no existe un estudio pormenorizado
sobre esta experiencia subversiva. Debido a la fuerte represión cultural, su
historia real casi no fue divulgada en absoluto durante el la “era stronista”.
Además, por diferentes razones, los mismos líderes de cada movimiento no
tenían interes en que se destapen los errores fundamentales cometidos por si
mismos. Fue solamente desde el inicio de la transición democrática en 1989
que empezó a aparecer un reducido número de testimonios escritos por los
pocos sobrevivientes de la experiencia insurgente. (NICKSON, 2013, p.16).
Para apreender a formação dessas agrupações guerrilheiras, é preciso se atentar
para a conjuntura em que elas surgiram. Indicamos que, por falta de espaço, não nos
aprofundaremos sobre alguns pontos (a relação do regime Stroessner e das guerrilhas com
o passado paraguaio, o papel dos Estados Unidos, Argentina e Brasil). Porém,
entendemos que, mesmo de maneira breve, tais ideias são essenciais para respaldar nossa
proposta.
No período em que Stroessner esteve no poder, o laço político estabelecido com
o Brasil se fortaleceu. Stroessner pôde, assim, aumentar sua área de articulação que antes
estava restrita à relação que mantinha com a Argentina. Ressaltamos que a Argentina,
desde o final do século XIX, apareceu na história do Paraguai como um território propício
para a oposição ao governo stronista.
A Asociación Nacional Republicana, popularmente conhecida como Partido
Colorado, historicamente disputou o espaço político paraguaio com o seu principal rival
o Partido Liberal simpatizante da República Argentina. Durante o período de
consolidação de seu regime, Stroessner primeiro concentrou suas forças para sufocar seus
opositores dentro de seu próprio partido (Colorado). Estabilizadas as condições internas,
iniciou a caça às outras forças políticas. Em uma fase inicial, isso as forçou a deixar o
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Paraguai. Os principais inimigos de Stroessner puderam, então, encontrar guarita na
Argentina. Para reforçar nossa argumentação, citamos a autora Lorena Soler:
De la misma forma que la elite “ilustrada” regresa después de la Guerra de la
Triple Alianza con voluntad de construir el Estado Liberal paraguayo, los
cuadros más importantes de la guerrilla se organizan desde Buenos Aires y la
zona fronteriza con Argentina, ingresando para sus “operaciones” desde las
provincias de Misiones, Corrientes y Formoza. Por otra parte, fuertes lazos
políticos que mantienen las tres organizaciones armadas más importantes M14,
fundada en el Municipio de Lanús (Buenos Aires), FULNA y especialmente,
OPM [...] deben explicarse en la distracción de los gobiernos militares
argentinos con las guerrillas armadas paraguayas, dadas las estrechas pero
efímeras relaciones políticas entre Stroessner y Perón. (SOLER, 2009)
Enfim, o governo argentino apoiava ou não as guerrilhas paraguaias? Era fato que
os maiores opositores ao stronato encontravam-se asilados naquele país. Contudo, a
Argentina negava as acusações e insistia em dizer que não estava dando nenhum apoio
aos exilados para depor Stroessner. Segundo Alfredo da Mota Menezes:
Provavelmente isto era verdade, porém o difícil era convencer os Colorados. É
bem provável que o governo argentino não estivesse dando armas ou outras
coisas aos opositores de Stroessner baseados em seu território, mas algumas
tentativas para depor Stroessner vieram da Argentina e isto parecia mais do
que suficiente para os Colorados olharem o país com certa desconfiança.
(MENEZES, 1987, p.62)
No entanto, Roberto Paredes aponta que:
El gobierno de Stroessner no era bien visto por los militares que lideraron la
‘revolución libertadora’ contra Perón, en primer lugar, debido a que el
Paraguay otorgó asilo político al caudillo argentino y resistió todas las
presiones que se realizaran para evitar su entrega; en segundo lugar, por la
‘marcha hacia el Este’, giro geopolítico que aproximaba fuertemente al
Paraguay del Brasil, cuestión que no era bien vista sobre todo por el que
entonces era considerado mayor estratega geopolítico argentino, Isaac Rojas.
Lo cierto y concreto es que los militares argentinos cooperaron directamente
con sectores de la oposición paraguaya, para armar y entrenar a algunos
guerrilleros (PAREDES, 2004, p.88).
O discurso anticomunista surgiu como um novo elemento para legitimar o
discurso construído por Stroessner para combater qualquer oposição. Durante a Guerra
Fria, todos os que questionaram o stronato foram, em algum momento, qualificados como
comunistas e sofreram com a dura repressão. O automático enquadramento dos opositores
como sendo elementos comunistas foi uma arma empregada pelo regime de Stroessner
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de forma bastante eficaz. O stronismo construiu um mito em que seu governo surgia como
o defensor dos princípios democráticos, enquanto seus oponentes apareciam como
elementos contrários a esses princípios. Conseguiu, com isso, apresentar-se como
alternativa capaz de promover a paz e o progresso e, também, como o único que impediria
que o Paraguai fosse contaminado com esse ideário tão nocivo; o comunismo (MORAES,
2000, p.75-76).
Em 1959, o movimento em armas, que culminou com a Revolução Cubana e a
derrocada do ditador Fulgêncio Batista, marcou um novo capítulo na história mundial.
Um novo fôlego foi dado aos setores de esquerda e aos setores de oposição que
percebiam, nesse movimento, a possibilidade de dar fim às ditaduras militares instauradas
na América Latina.
A repercussão do movimento vitorioso em Cuba não demorou a impactar a
sociedade paraguaia, o que culminou no aparecimento de novas organizações, inclusive
de cunho armado. Segundo Oscar Creydt:
[...] con las luchas estudantiles y la división del Partido Colorado, impulsada
desde agosto de 1958 por la huelga general que paralizó a todo el país, se
produjo en el Paraguay una situación revolucionaria. Esto es lo importante y
esto es lo que no debe ser olvidado (CREYDT, 2007, p.90).
A oposição considerava que aquele era o momento exato para conseguir derrotar
Stroessner. A conjuntura interna paraguaia apontava para isso e o contexto internacional
mostrava que esse era o momento propício para um contra-atraque. A luta armada no
Paraguai aparece dividida por fases na proposta de Roberto Céspede e Roberto Paredes
(CÉSPEDES; PAREDES, 2004,p.08-09)
A fase inicial, descrita como tradicional, ocorreu no início de 1959. Foi
caracterizada pelo caos político e teve como marco principal o pacto das cúpulas dos
Partidos Liberal e Febrerista exiladas na Argentina, organizando-se na Unión Nacional
Paraguaya. Esses levantes armados são intitulados tradicionais porque seus projetos não
detinham uma ideologia e se inseriam numa lógica de disputa local. O Partido Colorado,
o Liberal e o Febrerista encabeçaram, nesse momento, os conflitos e pretendiam com isso
não mais que um novo golpe de estado. A Unión Paraguaya perdeu forças com o
estabelecimento da ala colorada próxima a Stroessner no poder. Essas primeiras tentativas
de ações armadas não se inserem na lógica de guerra de guerrilhas.
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A segunda fase ocorre em um contexto diferente. Nessa fase, a concepção das
agrupações armadas inspira-se na ideia advinda dos acontecimentos que possibilitaram a
Revolução Cubana. O intuito é o de formar pequenos grupos de combatentes que,
organizados desde o território argentino, adentrariam o Paraguai e conseguiriam o apoio
do povo, principalmente dos trabalhadores rurais. Nesse contexto, surgem o 14 de Mayo
e a FULNA.
O 14 de Mayo tem sua origem ligada ao grande número de cidadãos paraguaios
que se viram obrigados a fugir para o exílio durante os anos em que Strossner governou
o Paraguai. A eliminação sumária dos destoantes ao regime, todos os partidos opositores
postos na ilegalidade, impossibilitou que muitos paraguaios continuassem em seu país.
Essa situação fez com que “Aproximadamente 1 milhão de paraguaios procurassem exílio
na Argentina, no Brasil e no Uruguai, segundo o Comitê Católico Mundial de Migrações”
(MARIANO, 2003, p.222).
Alguns militantes dos partidos Liberal e Febrerista começaram a se reorganizar
em território estrangeiro, principalmente em solo argentino. Os que participaram desse
projeto eram pessoas que não concordavam com o que estava acontecendo no Paraguai.
Nesse período (1958), Stroessner tinha autorizado as eleições e “convidara” os partidos
opositores a voltar e participar.
Alguns componentes dos Partidos mais tradicionais do Paraguai, e que nesse
momento encontravam-se no exílio, não acordavam em voltar para o Paraguai e
compactuar com o que julgavam ser uma farsa; o pleito de 1958. Optaram por continuar
em território estrangeiro. Isso não agradou a ala dirigente dos Partidos Liberal e
Febrerista, já que via nessa proposta uma chance de voltar à legalidade. Esse fato causou,
assim, uma divergência de opiniões dentro desses partidos. Os que continuaram em exílio
começaram então a traçar outros planos.
Entre eles, compunha a pauta de esse novo planejamento arregimentar os que
ansiavam pela queda do regime stronista e que não estavam organizados em partidos
políticos. Uma ressalva importante é que muitos paraguaios decidiram deixar o país e,
para que tomassem essa decisão, havia uma gama de ensejos. No entanto, a política
agrária estabelecida no governo Stroessner aparecia como um dos principais motivos pelo
qual a população deixava o Paraguai.
Desse modo, os militantes dos partidos opositores que estavam no exílio
enxergavam nessa massa que migrava para território argentino um “potencial
revolucionário”. Assim, tem início o germe do que seria o Movimiento 14 de Mayo. O
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movimento surge indefinido ideologicamente e com várias incoerências a nível diretivo,
surgem sem um programa estabelecido (CHIAVENATO, 1980, p.121).
A situação dos paraguaios na Argentina não era a das melhores. Muitas pessoas
que migravam para esse país encontravam-se em situação ilegal, o que implicava na
impossibilidade de conseguirem empregos. Nessas condições, eram obrigados a se
dedicar a atividades desgastantes em que eram mal remunerados. A antropóloga Diana
Arellano descreve da seguinte maneira a situação dos exilados paraguaios na Argentina:
Si el exilio es un hecho doloroso por múltiples factores, la situación de una
gran parte de los paraguayos se complicaba aún más. Para muchos el guarani
era su única lengua, solo manejaban el castellano para los “ asuntos con la
autoridad”. En esos casos, trataban por todos medios de asentarse en las
provincias argentinas fronterizas, Misiones, Corrientes, Chaco o Formosa,
empleándose como peones rurales o dedicándose a diversas tareas del sector
‘informal’(ARELLANO, 2004, p.82).
Dito isso, os paraguaios que se encontravam nessas regiões da Argentina
começaram a encontrar dificuldades para sua atuação política. Aspectos culturais como a
língua, a condição ilegal dentro do país, deixavam uma margem quase nula para que
pudessem organizar-se contra o regime de Stroessner.
Famílias inteiras tinham sido forçadas a deixar o Paraguai, uma boa parte por
conta da perseguição política e outra pelo fator econômico. Naquele momento, as práticas
sociais que conseguiram estabelecer em solo argentino foram primordiais para que
pudessem pensar uma forma de voltar ao Paraguai e reaver os direitos de cidadão retirados
pelo regime.
Assim sendo, o Movimiento 14 de Mayo (alusão à independência do Paraguai)
não é um movimento que levantou a bandeira do comunismo. Apresenta-se como um
movimento pluralista. Movimento que contém em suas fileiras militantes dos partidos
Febrerista e Liberal e conta, também, com simpatizantes de outros partidos (a exemplo
dos dissidentes colorados e do Partido Comunista Paraguaio) e de cidadãos que tinham
como único objetivo voltar ao Paraguai.
Viam na luta armada a chance de derrubar o stronismo, entretanto, não constava
em seus planos estabelecer um governo socialista. Seus integrantes queriam, em sua
grande maioria, somente reintegrar-se social e politicamente. Isso explica como esses
diferentes grupos de exilados na Argentina configurariam uma extensão do Paraguai.
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Suas esperanças, nesse momento, confluíam em um alvo único, regressar ao seu país de
origem.
Em 4 de maio de 1959, assinava-se a ata de constituição do Movimiento 14 de
Mayo. Este feito contou com representantes de organizações que combatiam o stronismo
desde o exílio, visando unificar as ações de seus integrantes.
O 14 de Mayo propõe aos setores mais organizados do Paraguai (Exército e
Partido Colorado) que se juntem às fileiras do movimento e, também, que participem da
sublevação contra o regime de Stroessner.
Outro aspecto importante a ser observado nessa comunicação é a necessidade do
14 de Mayo em reafirmar seus princípios cristãos e patrióticos. Para conseguir o apoio do
povo, era necessário desconstruir a ideia de que eram pessoas que estavam tentando voltar
ao Paraguai para disseminar ideias ‘vindas de fora’, regressando ao país transformados
em elementos violentos, perigosos, ateus e, sobretudo, comunistas.
Por sobre nuestras divergencias, nuestro enconos, está el Amor de Dios, de
nuestra Santa Religión; está la sangre de nuestra sangre, que hemos vertido por
culpa de la maldad del tirano [...] está el sentimiento patriótico que nos une a
esa tierra bendita de tantos sacrificios y alegrías; está nuestro destino, que es
el destino de todos los paraguayos (LACHI, 2004,p.216-217).
Podemos, dessa forma, inferir que a composição do Movimiento 14 de Mayo era
bastante pluralista. Em sua estrutura, permitiu-se que ingressassem pessoas com as mais
variadas motivações.
O Partido Comunista Paraguaio (PCP) resolve participar da luta armada no
Paraguai. O PCP tinha conhecimento que o Movimiento 14 de Mayo estava se
estruturando para adentrar o país e, assim, derrubar o stronato. Todavia, identificavam
que a revolução almejada pelo Partido Comunista Paraguaio não viria tão facilmente. O
PCP acordou que essa viria por etapas e que, nesse primeiro momento, deveria articularse com quem visasse à queda do regime de Stroessner, inclusive com esses militantes
‘pequenos burgueses’ que também compunham o 14 de Mayo. Discorreremos, então,
sobre outra sugestão guerrilheira, desta vez com uma influência maior do PCP. Surge a
Frente Unida de Liberación Nacional (FULNA).
O ato de fundação da FULNA aparece nas obras consultadas como tendo se
realizado em fevereiro de 1959. Foi o padre Ramón Talavera, que teve suas licenças
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sacramentais caçadas em 1963, quem lançou a proposta da criação desta frente desde seu
exílio em Montevidéu.
Talavera participou também do planejamento do 14 de mayo. Comparando as atas
de fundação da FULNA e do M14, veremos que a frente foi a primeira tentativa de reunir
toda a oposição em luta. Contudo, começamos a descrever o M14 primeiramente que a
FULNA. Isso tendo em mente as irrupções feitas pelas guerrilhas até o Paraguai e tendo
o M14 como primeiro grupo a tentar tomar o poder pela via armada. Mesmo que a
FULNA tenha sido formada primeiramente, suas ações dependeram das experiências
dessas irrupções iniciais.
Essa efervescência da oposição ao regime gerou as condições propícias para o
desencadeamento da luta guerrilheira. As reivindicações de algumas vozes de destaque,
a exemplo de Ramón Talavera, possibilitaram a criação da FULNA. Em Montevidéu,
representantes dos partidos Comunista, Liberal e Febrerista reuniram-se para começar a
planejar o que viria a ser essa frente.
A FULNA surge, então, como uma proposta de coordenar os vários intentos na
luta pela caída de Stroessner. No entanto, o PCP deu um maior peso a essa frente,
convertendo uma parte importante de suas forças para o levante da FULNA, fazendo um
“giro” de seus quadros mais preparados para dentro dessa frente. Fizeram isso porque
achavam que a margem que sobrava ao partido dentro de outras propostas, a exemplo do
14 de Mayo, não era suficiente. Queria uma organização de frente única juntamente com
o 14 de Mayo e com todos que assim quisessem lutar contra a ditadura de Alfredo
Stroessner. No entanto:
Casi todos los miembros del movimiento conocido como la FULNA (Frente
Unido de Liberación Nacional), formaban parte del PCP (Partido Comunista
Paraguayo). Uno de sus secretarios fue Oscar Creydt, Stalinista. [...] Destacar
que el PCP había constituido una fuerte oposición en la década de 1960, no
teniendo ni los cuadros ni el peso que había alcanzado entre los 1947 y 1948;
operaban en varios frentes y sea político, sindical, militar, campesino y
estudantil; a través de sus simpatizantes realizaban sucesivas manifestaciones
en las calles de Asunción, así como las huelgas en los años 1958 y 1959
(BENITEZ,1998, p.44-45).
Assim sendo, a FULNA aparece composta por militantes de vários partidos,
porém, majoritariamente arranjada por quadros do Partido Comunista Paraguaio. O que
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levou o 14 de mayo a se organizar de forma paralela à frente, colaborando com esta, mas
não se dissolvendo dentro da mesma.
Temos, assim, nesse momento, dois grupos de influência na luta armada
paraguaia, o grupo 14 de Mayo, de composição Liberal e Febrerista em sua maioria, e a
FULNA que tem o PCP como “carro chefe”. As incursões tiveram início desde o território
argentino.
A primeira coluna encontrava-se na região de Posadas e planejava entrar no
Paraguai cruzando o rio Paraná, onde chegariam à cidade de Encarnación; sua missão era
tomar a prefeitura, neutralizar as forças policiais e o grupo de cavalaria. No entanto, para
que esse plano desse certo, contavam com a promessa de que um grupo de pessoas que
estavam em Encarnación no Paraguai se somaria às fileiras do movimento. Para a
infelicidade dos planos do M14, isso não ocorreu.
A segunda coluna com o nome de Mainunby ingressou pela região de Puerto Rico
(Misiones); a terceira Coluna era a de Puerto Iguazú, chamada de Pátria e Libertad. Essas
duas colunas conseguiram avançar bastante em território Paraguaio, inclusive tomando
portos dessa região e dominando as forças policiais das mesmas. As outras duas colunas
entrariam pelas regiões de Puerto Península e Eldorado – regiões de Misiones, Argentina
(ARELLANO, 2004, p.82).
Entretanto, essas invasões coordenadas pelo M14, que tiveram início em 12 de
dezembro de 1959, não conseguiram se sustentar por muito tempo. Algumas das colunas
tombaram rapidamente e seus integrantes foram presos ou mortos. Segundo Fátima Yore:
En realidad las FF.AA, contralaron a situación desde el principio y las acciones
rebeldes fueron todas abortadas y brutalmente reprimidas. Los guerrillheros
que no eran muertos combatiendo, eran tomados prisioneros y ferozmente
torturados y mutilados hasta morir. Ningún rebelde tomado vivo fue
encarcelado ni juzgado. (YORE, 1992, p.227)
Dessa primeira ação do 14 de Mayo, um grupo de combatentes dirigidos por Juan
José Rotela – um dos principais quadros do M14 – conseguiu escapar da repressão
stronista e voltar para reorganizar-se em território argentino. Assim, ocorreria a segunda
tentativa do M14 em derrubar Stroessner (em junho de 1960) e, juntamente com a ação
de Rotela, a FULNA também se inseriria na luta armada paraguaia.
Começaram os enfrentamentos entre o grupo 14 de Mayo e as forças do exército
stronista. O efetivo militar do governo Stroessner, apoiado por milicianos do Partido
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Colorado, impediu que os guerrilheiros ocupassem a localidade. Enquanto isso, Patrício
Colmán, coronel das forças regulares do governo Stroessner, organizou suas tropas e
protagonizou uma perseguição implacável aos guerrilheiros.
O grupo liderado por Rotela foi totalmente massacrado pela repressão e o final
dos intentos do 14 de Mayo é descrito da seguinte forma:
Muchos fueron torturados, echados desde aviones. Las peores cosas han hecho
con la gente de Rotela y él mismo fue muerto, no sé cómo. Después un grupo
que Rotela aisló, lo que fue criminal porque exponerlo a caer em manos del
enemigo, tuvo um choque y fue aniquilado el jefe de este grupo, Aguilera, es
el que fue asesinado en Capitán Meza. [...] Así terminaron las acciones del 14
de Mayo (CREYDT, 2007, p.318)
Ainda sobre o “golpe de misericórdia” ao Movimento 14 de Mayo, ocorrido em
junho de 1960:
Juan José Rotela tentou uma última alternativa: mudar a direção das invasões.
Com os guerrilheiros sobreviventes tentou entrar no Paraguai pela fronteira do
Brasil. A tentativa não deu certo, eles foram cercados. Desistiram da luta e
voltaram ao Brasil, onde se entregaram e pediram asilo político.
O governo brasileiro os entregou a Patrício Cólman e Edgard Insfrán –
secretamente, sem nenhuma publicidade do fato. Trinta guerrilheiros, entre
eles Juan José Rotela, o chefe do 14 de Mayo, foram fuzilados imediatamente,
na fronteira Brasil-Paraguai (CHIAVENATO, 1980,p.126).
A FULNA estava ciente do poderio da ditadura stronista. Por isso, a orientação
aos seus militantes era que colaborassem com os outros grupos de guerrilhas atuantes
naquele momento. A resolução que o PCP tomou foi a de escolher um nome forte no
interior do Paraguai, para, dessa forma, começar a organizar a luta armada partindo do
campo. O homem escolhido para essa missão foi Arturo López, que respondia pelo
codinome de Agapito Valiente.
Assim, surgiu o grupo guerrilheiro Mariscal López, que tinha como objetivo
principal servir como a “ponta da lança” dentro da FULNA. Além dessa parcela que
atuava dentro do Paraguai, o PCP ainda formou outro contingente de apoio à guerrilha
que se organizou desde o território argentino. Este serviria para dar apoio à guerrilha
campesina. E, no final de abril de 1960, adentrou o Paraguai o grupo que compôs essa
coluna chamada de Ytororó.
A coluna Ytororó (saindo de Misiones na Argentina) começou sua jornada rumo
ao morro de Ybyturuzú em Vila Rica. Tinha como intuito estabelecer a central de
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operação da FULNA nessa região. O sistema repressivo de Stroessner não demorou em
tomar ciência dos fatos citados. Primeiro, organizou o isolamento da Coluna Mariscal
López; em seguida, perseguiu de forma intensa a coluna Ytororó, que não demorou a ser
totalmente aniquilada.
La Columna Mariscal López siguió esperando la entrada de la Columna
Ytororó hasta que supo del desenlace de la misma em agosto de 1960. Muchos
fueron los factores que causaran la derrota de la Columna Ytororó, tanto
externos como internos: conocimiento por parte del enemigo de los planes de
ingreso; desinteligencia interna del misma comandancia de la Columna que o
se pudo solucionar antes del ingreso; separación de la columna em grupos por
las causas citadas que facilitaron a las fuerzas militares de Colmán aniquilarla
por pedazos [...] De los 54 integrantes de la Columna Ytororó 52 cayeron y
fueron asesinados. (DURE, Victor V. e SILVA, Agripino, 2004, p.142-143).
O fim da FULNA foi, então, sendo traçado. O episódio que arrematou sua queda
foi a morte de Agapito Valiente em 1970. Patrício Colmán, general de Stroessner, mesmo
depois de conseguir desmantelar toda a organização da FULNA, não poupou esforços
para acabar com esse quadro do PCP, que nesses tempos já havia virado referência dentro
da esquerda paraguaia.
Os primeiros movimentos guerrilheiros foram, desse modo, asfixiados ao longo
de uma década (1959-1970). Segundo Oscar Creydt, a luta armada seria suspendida “até
que se criem melhores condições para esta forma superior de luta em nosso país”
(CREYDT, 2007, p.326). Na verdade, quando alude a essas “condições”, faz referência a
um maior apoio das massas na luta contra o regime. O terror instaurado pela ditadura
amedrontava enormemente o povo.
Na luta guerrilheira paraguaia não houve sobreviventes: pelo menos todos os
lideres foram mortos e a maioria dos combatentes morreu em combate ou
torturas que se efetuavam em plena selva. Os métodos de intimidação não
ficavam apenas para os combatentes da guerrilha: os camponeses da região
eram espancados, torturados e até assassinado preventivamente. Assim que os
guerrilheiros estavam numa determinada zona, era inevitável que os militares
da ditadura matassem alguns camponeses e torturassem outro tanto, como
exemplo para os demais, que não deveriam lhes dar apoio (CHIAVENATO,
1980, p.120).
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Os primeiros grupos guerrilheiros, como já apontamos, organizaram-se desde fora
do território paraguaio; fato este que debilitou seus planos, deixando fragilizada a análise
da conjuntura naquele momento:
Os dirigentes da FULNA, assim como os do Movimento 14 de maio, desde o
exílio em Buenos Aires ou Montevidéu idealizaram a guerrilha imaginando
que a sociedade paraguaia continuava sendo a mesma que eles haviam
conhecido, ou seja, aquela de 1947. No fundo, um Estado frouxamente
constituído, com predomínio dos caudilhos e elites políticas, no qual, os
alçamentos e quarteladas permitiam rápidas mudanças no comando do
governo. A longa instabilidade posterior à guerra civil de 1947 parecia
confirmar que a sociedade paraguaia pouco havia mudado (MORAES e
COLMÁN, 2011).
Em nossas considerações finais, podemos apontar que o regime de Stroessner
obrigou várias pessoas, que não concordavam com a ditadura, a abandonar o Paraguai.
Esses grupos de exilados organizaram-se desde fora para por fim ao governo, sendo a
Frente Unida de Liberación Nacional (FULNA) e o 14 de Mayo as mais expressivas
experiências armadas nesse período. Entretanto, essas primeiras agrupações não
demoraram a ser totalmente dizimadas. O serviço de repressão stronista não parava de se
aprimorar. Todo o modo de fazer política do governo Stroessner baseava-se na coerção.
Além disso, outro fator pesava para que o sucesso dessas agrupações não ocorresse. A
maior parte dos seus quadros vivia em exílio, o que dificultava uma análise mais profunda
do que realmente estava ocorrendo dentro do Paraguai.
O governo paraguaio, baseado, alicerçado no discurso anticomunista, procurou
naturalizar suas ações mesmo que estas fossem contra o interesse da maioria. No campo
das ideias, as disputas entre as ideologias comunista e capitalista serviram para acirrar os
tradicionais conflitos no Paraguai. Na verdade, Stroessner utilizou-se disso para por fim
a qualquer oposição, quando, na realidade, não queria defender o Paraguai de uma ameaça
comunista. Mas, sim, defender seu tradicional e autoritário governo, mantendo o poder
em suas mãos.
Os interesses dessa oposição armada merecem uma melhor análise. Neste
trabalho, fizemos um levantamento das obras que discutem esses insurgentes. Contudo,
ainda existem poucos trabalhos, sendo nossa principal contribuição mostrar que o tema é
bastante rico e merece a devida atenção. No Paraguai, a produção sobre tal temática tem
crescido, em especial, após a abertura de importantes arquivos no país. Todavia, com
relação à produção acadêmica brasileira, os trabalhos voltados à ditadura stronista ainda
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são poucos. Esperamos com nossas discussões suscitar interesse em futuras pesquisas,
colocando em pauta a riqueza de possibilidades sobre trabalhos voltados para a história
recente do Paraguai.
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