Yeshayahu (Isaías) 53 Uma Análise de Variantes

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Yeshayahu (Isaías) 53 Uma Análise de Variantes
Yeshayahu (Isaías) 53
Uma Análise de Variantes Textuais
Por Sha’ul Bentsion
I - Introdução
!
Na palestra sobre profecias supostamente messiânicas de expiação, analisamos a
passagem de Yeshayahu (Isaías) 53:9:
.‫ וְֹלא מְִרמָה ּבְפִיו‬,‫חָמָס עָׂשָה‬-‫עָׁשִיר ּבְמֹתָיו; עַל ֹלא‬-‫ וְאֶת‬,‫ְרׁשָעִים ִקבְרֹו‬-‫וַּיִּתֵן אֶת‬
vayiten et-reshaim kivro ve'et-ashir bemotav al lo-chamas assá velo mirmá befiv
Ele deu aos ímpios a sua sepultura, e com o rico foram as suas mortes [bemotav] porque
nenhuma violência cometeu, e engano não estava nos seus lábios.
!
Nela, foi explicada a tradução tendenciosa tanto de “vayiten” quanto de “bemotav”.
Esta última, inclusive, deve ser traduzida como “mortes” (no plural), e não morte (no
singular).
!
Apesar da alta confiabilidade do processo de cópia do Texto Massorético, cuja
reprodução é extremamente meticulosa ao ponto de ser obsessiva, alguns apontaram para
variantes textuais para tentar indicar que a leitura poderia ser diferente.
!
Analisaremos, portanto, tais variantes.
II - A Omissão da Septuaginta
!
A primeira delas, a variante textual da Septuaginta, curiosamente não costuma ser
apontada nem mesmo pelos cristãos. Afinal, a Septuaginta costuma ser muito invocada para
justificar algumas variantes textuais nas citações que o Novo Testamento faz do Tanach.
!
Por que, então, a Septuaginta não é invocada para dar suporte à questão do servo
sofredor? Há uma boa razão para isso.
!
William Bellinger Jr, acadêmico do Departamento de Religião da Baylor University, e
William R. Farmer, professor emérito de Novo Testamento da Perkins School of Theology e
pesquisador da University of Dallas, afirmam:
!
"A versão grega de Isaías 53 oferece ao exegeta cristão consideravelmente
menos apoio do que as versões hebraicas para a doutrina da expiação do pecado através
da morte e ressurreição de Jesus." (Jesus and the Suffering Servant: Isaiah 53 and Christian
Origins)
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!
Em outras palavras, os teólogos cristãos não são apenas tendenciosos em sua
tradução equivocada do hebraico, mas também omitem o fato de que nem mesmo a
Septuaginta dá suporte às suas teorias.
III - Análise da Septuaginta
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Analisemos, portanto, o texto da Septuaginta. Para não correr o risco de ser
tendencioso, apresentarei aqui duas traduções clássicas do texto grego, bem como este
último na íntegra:
και δωσω τους πονηρους αντι της ταφης αυτου και τους πλουσιους αντι του θανατου
αυτου οτι ανομιαν ουκ εποιησεν ουδε ευρεθη δολος εν τω στοματι αυτου
“E eu darei o ímpio por seu enterro, e o rico por sua morte; pois ele não praticou iniquidade,
nem engano com sua boca.” (Ecmarsh)
"E darei o ímpio por seu enterro e o rico por sua morte, porque ele não cometeu iniquidade,
nem engano foi encontrado em sua boca." (NETS)
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A Septuaginta entende o hebraico como uma referência ao fato de que o iníquo e o
rico morreriam por causa do que foi feito ao servo, e não uma profecia de que o servo seria
morto em meio a iníquos ou enterrado no túmulo de um rico!
!
Aliás, esta não é a única diferença que a Septuaginta traz para com a tradução cristã
típica. Surpreendentemente, a Septuaginta concorda mais com a tradução mais precisa do
hebraico do que com a tradução cristã tradicional.
!
Por exemplo, em nosso material indicamos a tradução mais correta de Yeshayahu
(Isaías) 53:11 como:
.‫ הּוא יִסְּבֹל‬,‫ לַָרּבִים; וַעֲֹונֹתָם‬,‫ּבְַדעְּתֹו יַצְּדִיק צַּדִיק עַבְּדִי‬--‫ יְִראֶה יִׂשְּבָע‬,‫מֵעֲמַל נַפְׁשֹו‬
meamal nafsho hire yisba bedato yatsdik tsadik avdi larabim va'avonotam hu yisbol
E do trabalho da sua alma se satisfará; Pelo seu conhecimento, o meu servo fará justiça ao
justo perante muitos, e suportará suas iniquidades.
!
Para essa mesma passagem, a Septuaginta traz:
και βουλεται κυριος αφελειν απο του πονου της ψυχης αυτου δειξαι αυτω φως και
πλασαι τη συνεσει δικαιωσαι δικαιον ευ δουλευοντα πολλοις και τας αμαρτιας αυτων
αυτος ανοισει
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“O Senhor também se agradou em remover da angústia de sua alma, para mostrar a ela a
luz, e para o formar com entendimento; para justificar ao justo que serve bem a muitos; e ele
suportará os seus pecados.” (Ecmarsh)
“E o Senhor deseja remover da dor da sua alma, para lhe mostrar a luz e o encher de
entendimento, para justificar um justo que é bem sujeito a muitos, e ele próprio suportará os
pecados deles.” (NETS)
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A exemplo da tradução adequada do hebraico, a Septuaginta também não traz
qualquer referência ao servo “justificar a muitos”, nem traz a ideia de que o servo seja
expiação pelo pecado, e sim de que ele terá que suportar os pecados contra ele cometidos!
IV - Análise do Manuscrito de Qum’ran
!
Outra variante textual bastante invocada quando o assunto é Yeshayahu (Isaías) 53:9
é o texto de Qum’ran.
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É comum indicarem que o texto do Grande Manuscrito de Yeshayahu, em Qum’ran,
contém uma variante textual em Yeshayahu (Isaías) 53:9 que indica que “sua morte”, no
singular, ao invés da leitura plural do hebraico.
!
Para compreender melhor, porém, os problemas de se utilizar tal versão, é preciso
que o leitor a observe com seus próprios olhos:
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Observe o leitor que só na primeira linha do 53:9 já existem DUAS RASURAS! Em
uma delas, o escriba chegou a rabiscar o texto e escrever por cima! Na outra, ele emendou a
letra (um tav) ao provavelmente ter errado.
!!!!!!!!!!!O texto possui também um trecho que está ilegível, exatamente antes da palavra
‫בומתו‬. !!!!!!!!!!!Além disso, é possível observar pelo princípio da palavra "vayiten" (‫ )ויתן‬que é
praticamente impossível discernir o Yud (‫ )י‬do Vav (‫ )ו‬neste manuscrito.
!
Só temos condição de minimamente fazer tal distinção porque temos o Texto
Massorético para comparação, bem como algumas regras gramaticais básicas. Não fosse
isso, seria impossível. Porque o vav e o yud são escritos de maneira praticamente idêntica.
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!!!!!!!!!!!De modo que é impossível, por exemplo, discernir se a palavra é "bomoto" ou
"bomoti" (‫ )בומתי‬- e essa última traria duas possibilidades: Uma seria ler como "meu túmulo". !!!!!!!!!!!Há outra possibilidade: Como o Texto Massorético traz yud-vav (‫ )יו‬no final, neste
manuscrito cheio de glosas, rasuras e com trechos ilegíveis esteja simplesmente faltando o
vav final!
!!!!!!!!!!!Isto é, mesmo se considerarmos a letra final como vav (‫)ו‬, por influência de um
paralelismo com "kibro", ou por influência do que se espera de acordo com o Texto
Massorético, ainda assim não há como assegurar que o yud não esteja faltando.
!
E, certamente, não há como privilegiar um manuscrito tão cheio de remendos como o
acima, desprezando o Texto Massorético.
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Se o versículo não fosse alvo de grande importância para o Cristianismo, ninguém
sequer daria importância a tal diferença no texto de Qum’ran e provavelmente atribuiria isso
a erros de copista, como os dois outros que aparecem na mesma linha.
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Ainda assim, o contexto do Grande Manuscrito de Yeshayahu (Isaías), em Qum’ran,
não traz nenhuma grande diferença no contexto dos cânticos do servo para que se possa
afirmar que os cânticos não se refiram a Israel, como é indicado em vários trechos.
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O próprio texto do 53:11, por exemplo, que analisamos na Septuaginta, traz também
algumas glosas e palavras com grafia possivelmente incorreta, mas não traz nenhuma
diferença significativa de sentido, quando comparado ao Texto Massorético
Abaixo, o versículo em questão, no Grande Manuscrito de Yeshayahu (Isaías):
!!!!!!!!!!A única diferença significativa é a presença da palavra “or” (‫)אור‬, luz, que também
aparece na Septuaginta, mas que não está presente no Texto Massorético. Fora isso, a
leitura é bastante semelhante.
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V - Conclusão
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É no mínimo muito curioso que o Cristianismo prefira ignorar a Septuaginta nesse
trecho, considerando que a Septuaginta é amplamente defendida como fonte de uma série
de variantes textuais no Novo Testamento.
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É curioso, mas é compreensível, pois a Septuaginta representa, nesse trecho, um
embaraço muito grande para a teologia cristã.
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A outra tentativa, a de se ater à variante de Qum’ran, não se sustenta à luz de uma
simples análise da qualidade da reprodução textual, bem como da precisão do copista para
com o manuscrito em si.
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Não há como, diante disso, tecer grandes especulações sobre variantes radicais em
Qum’ran, podendo a ausência do “yud” ser uma simples glosa, a exemplo das duas rasuras
que existem na mesma linha do texto
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Já no versículo 53:11, permanecem injustificáveis as tendenciosas traduções cristãs,
pois nada lhes oferece embasamento. Nem mesmo a própria Septuaginta.
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