AMOR DE PAI - Rabbi Sacks

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AMOR DE PAI - Rabbi Sacks
PARASHÁ TOLEDOT
Shabat de 14 de Novembro de 2015 (2 de Kislev de 5776)
AMOR DE PAI
Uma parceria da Sinagoga Edmond J. Safra - Ipanema com o escritório do
Rabino Jonathan Sacks (The Office of Rabbi Sacks)
“Os meninos cresceram. Esaú tornou-se um caçador habilidoso, homem do campo;
mas Jacob era um homem meigo que ficava nas tendas. Isaac, que tinha um gosto
especial pela caça, amava a Esaú, mas Rebeca amava a Jacob” (Gen. 25:27-28).
Nós não temos nenhuma dificuldade em compreender por que Rebeca amava Jacob.
Ela havia recebido um oráculo de D-s que lhe disse: “Há duas nações no teu ventre, e
dois povos de dentro de você irão se separar; um povo será mais forte do que o
outro, e o mais velho servirá ao mais jovem” (25:23).
Jacob era o mais jovem. Rebeca parece ter inferido, corretamente, como se viu, que
seria ele quem iria continuar a aliança, quem iria permanecer fiel à herança de
Abraão, e quem iria ensiná-la a seus filhos, levando a história adiante no futuro.
A verdadeira questão é por que Isaac amou Esaú? Ele não conseguia ver que esse filho
era um homem do campo, um caçador e não uma pessoa contemplativa ou um
homem de D-s? É concebível que ele amasse Esaú meramente porque tinha um gosto
especial pela caça selvagem? Será que o seu apetite governava sua mente e seu
coração? Será que Isaac não soube que Esaú vendeu seu direito de primogenitura por
um prato de sopa e como, posteriormente, havia “desprezado” o próprio direito de
primogenitura (Gen. 25:29-34)? Esse seria alguém a quem se poderia confiar o
patrimônio espiritual de Abraão?
Isaac certamente sabia que seu filho mais velho era um homem temperamental e de
modos exacerbados que vivia das emoções do momento. Mesmo que isso não o
perturbasse, o próximo episódio envolvendo Esaú o perturbou: “Quando Esaú tinha
quarenta anos, ele se casou com Judith filha de Beeri, o hitita, e também Basemath
filha de Elon, o hitita. Elas eram uma fonte de tristeza para Isaac e Rebeca” (Gen.
26:34-35). Esaú ficou à vontade entre os hititas. Ele havia se casado com duas de
suas mulheres. Ele não era um homem para levar adiante a aliança abraâmica, que
envolvia distanciamento dos hititas e cananeus e tudo que eles representavam em
termos de religião, cultura e moralidade.
Ainda assim Isaac claramente amava Esaú. Isso não é dito somente no versículo com o
qual começamos. Mas esse amor permaneceu assim. Gênesis 27 - com a sua história
moralmente desafiadora de como Jacob, vestido como Esaú, recebeu a bênção que
tinha sido prevista para Esaú - é notável para a percepção da genuína e profunda
afeição entre Isaac e Esaú. Sentimos isso no início quando Isaac pede a Esaú:
“Prepare-me o tipo de comida saborosa que eu gosto e traga para que eu a coma, de
forma que eu possa dar-lhe a minha bênção antes de morrer”. Não se trata aqui do
apetite físico de Isaac falando. É o seu desejo de ser preenchido com o cheiro e o
gosto que ele associa com seu filho mais velho, de forma que ele pudesse abençoá-lo
em um clima de amor mais nítido, mais focado.
É o fim da história, no entanto, que realmente transmite a profundidade dos
sentimentos entre eles. Esaú entra com a comida que ele preparou. Lentamente
Isaac e em seguida Esaú percebem a natureza do engano que havia sido cometido
contra eles. Isaac “tremeu violentamente”. Esaú “explodiu com um grito estridente e
amargo”. É difícil transmitir em português o poder dessas descrições. A Torá
geralmente diz pouco sobre as emoções das pessoas. Durante todo o teste do
sacrifício de Isaac não nos é dada a menor indicação do que Abraão ou Isaac sentiram
num dos episódios mais perturbadores em Gênesis. O texto é, como disse Erich
Auerbach, “angustiante pela experiência”, querendo dizer que existem mais coisas
“não ditas” do que “ditas”. A profundidade de sentimentos com que a Torá descreve
quando fala de Isaac e Esaú nesse momento é, portanto, rara e quase esmagadora.
Pai e filho compartilham seu sentimento de traição, Esaú buscando apaixonadamente
alguma bênção de seu pai, Isaac inspirando-se para fazê-lo. O vínculo de amor entre
eles é intenso. Portanto, a questão retorna com força inalterada: por que Isaac
amava Esaú, apesar de tudo - sua selvageria, sua instabilidade e sua exogamia?
Os sábios deram uma explicação. Eles interpretaram a frase “hábil caçador” no
sentido de que Esaú capturou e enganou Isaac. Ele fingiu ser mais religioso do que
era (1). Há, porém, uma explicação bastante diferente, mais próxima do sentido
literal do texto, e muito comovente. Isaac amava a Esaú, porque Esaú era seu filho,
e é isso o que fazem os pais. Eles amam seus filhos incondicionalmente. Isso não
significa que Isaac não podia ver os defeitos de caráter de Esaú. Isso não acarreta,
como consequência, ele ter pensado que Esaú seria a pessoa certa para continuar a
aliança. Também não quer dizer que ele não sofreu quando Esaú se casou com
mulheres hititas. O texto diz explicitamente que ele sofreu. Mas isso significa que
Isaac sabia que um pai deve amar seu filho porque ele é seu filho. Isso não é
incompatível com a crítica sobre o que ele faz. Mas um pai não renega seu filho,
mesmo quando ele desaponta suas expectativas. Isaac estava nos ensinando uma
lição fundamental sobre paternidade.
Por que Isaac? Porque ele sabia que Abraão tinha enviado seu filho Ismael embora.
Ele deve ter sabido o quanto isso doeu a Abraão e ferido Ismael. Existe uma notável
série de midrashim que sugerem que Abraão visitou Ismael mesmo depois que ele o
mandou embora, e outros que dizem que foi Isaac quem fez a reconciliação (2). Ele
estava determinado a não infligir o mesmo destino a Esaú.
Da mesma forma ele conhecia, nas profundezas de seu ser, o custo psicológico de
ambos, seu pai e ele mesmo, sobre o teste do sacrifício. No início do capítulo que
trata de Jacob, Esaú e a bênção, a Torá nos diz que Isaac estava cego. Há um
midrash que sugere que foram lágrimas derramadas pelos anjos, enquanto eles
assistiram Abraão amarrar seu filho e levantar a faca, que caíram sobre os olhos de
Isaac, levando-o a ficar cego em sua velhice (3). O teste foi certamente necessário,
caso contrário, D-s não o teria ordenado. Mas deixou feridas, cicatrizes psicológicas,
e deixou Isaac determinado a não ter que sacrificar Esaú, seu próprio filho. De
alguma forma, então, o amor incondicional de Isaac por Esaú era um tikun pela
ruptura na relação pai-filho provocada pelo episódio do sacrifício.
Assim, embora o caminho de Esaú não fosse o do pacto, a dádiva do amor paternal de
Isaac ajudou a preparar o caminho para a próxima geração, em que todos os filhos de
Jacob permaneceram vinculados.
Há uma discussão fascinante entre dois sábios da mishná que têm uma relevância
nesse assunto. Há um versículo em Deuteronômio (14:1) que diz sobre o povo judeu:
“Vocês são filhos do Senhor teu D-s”. Rabi Judá considerou que isso se aplica
somente quando os judeus se comportam de uma maneira digna como filhos de D-s.
Rabi Meir disse que é incondicional: Caso os judeus se comportem como filhos de D-s
ou não, eles ainda assim são chamados de filhos de D-s (4).
Rabi Meir, que acreditava no amor incondicional, agiu de acordo com seu ponto de
vista. Seu próprio professor, Elisha ben Abuya, acabou perdendo sua fé e se tornando
um herege. Mesmo assim Rabi Meir continuou a estudar com ele e a respeitá-lo,
alegando que no último momento de sua vida ele haveria de se arrepender e voltar
para D-s (5).
Levar a sério a ideia, que é central no judaísmo, de Avinu Malkenu, que o nosso Rei é
antes de tudo o nosso Pai, é investir nosso relacionamento com D-s com as emoções
mais profundas. D-s luta conosco como faz um pai com seu filho. Nós lutamos com
Ele como um filho faz com seus pais. A relação às vezes é tensa, conflituosa, até
dolorosa, mas o que lhe confere sua profundidade é o conhecimento de que não pode
ser rompida. Aconteça o que acontecer, um pai ainda é um pai e um filho ainda é um
filho. A ligação pode ser profundamente danificada, mas sempre há possibilidade de
reparo.
Talvez seja isso que Isaac estivesse sinalizando a todas as gerações com seu amor
incessante por Esaú, tão diferente dele em caráter e destino. Ainda assim nunca o
rejeitou - assim como o midrash diz que Abraão nunca rejeitou Ismael e encontrou
formas de comunicar seu amor.
O amor incondicional não é desprovido de senso crítico, mas é inquebrável. É assim
que devemos amar os nossos filhos - pois é assim que D-s nos ama.
NOTAS:
(1) Ele fazia perguntas tais como, “Pai, como é que vamos dar o dízimo sobre o sal e
a palha?” Sabendo que na verdade esses elementos estavam isentos de dízimo.
Isaac pensou que isso significava que ele era escrupuloso na sua observância dos
mandamentos (Rashi para Gen. 25:27; Tanchumá, Toledot, 8).
(2) Veja Jonathan Sacks, Not in God’s Name, 107-124.
(3) Genesis Rabá 65:10.
(4) Kidushin 36a
(5) Yerushalmi Haguigá 2:1.
Texto original: “A FATHER’S LOVE” por Rabino Jonathan Sacks.
Tradução Rachel Klinger Azulay para a Sinagoga Edmond J. Safra - Ipanema