A MULHER TRAIDORA E A LITERATURA

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A MULHER TRAIDORA E A LITERATURA
A MULHER TRAIDORA E A LITERATURA
A Literatura tem sido muito cruel com a mulher que trai: mata. Ela não
perdoa. A mulher traidora é eliminada desta vida. Pelo menos na ficção. Um
rápido olhar nas principais obras cujas personagens são mulheres que traíram
seus maridos ou seus parceiros só nos leva a comprovar isso.
Emma, personagem do romance Madame Bovary, é a expressão maior
da trajetória de uma mulher que trai seu marido com vários amantes, mas cujo
final termina em morte. A personagem criada por Flaubert não suporta a
pressão das dívidas contraídas para manter sua segunda vida e sobretudo a
impossibilidade de continuar mentindo. Ao perceber que não dá mais para
ocultar a verdade: para salvar seu patrimônio teria que revelar a verdade ao
marido. Não vendo saída, busca no suicídio o seu fim.
Luísa, personagem do romance Primo Basílio, recentemente adaptado
para o cinema, é também a expressão de uma mulher que trai o marido com o
primo, vive com ele momentos intensos de uma paixão avassaladora e termina
morta. Morrer todos morrem, mas nesse caso a morte parece ser consequência
das atitudes traidoras. Luísa consegue durante um bom tempo ocultar do
marido a relação amorosa. Quando, porém, a verdade vem à tona, ela não
suporta: adoece gravemente e morre.
Capitu, personagem do romance Dom Casmurro, também morre,
embora a morte dessa personagem é mediada pelo olhar de Bentinho. Ao
contrário das obras anteriores, cujo foco narrativo, permite acompanhar de
perto a personagem, nesta obra há uma distanciamento do fato, mas o leitor
acompanha a morte da mulher traidora pelo olhar do narrador.
Lily, personagem do romance recente de Mario Vargas Llosa –
Travessuras da menina má – mulher aventureira, inconformista e pragmática,
vive situações constantes de traições com Ricardo durante várias décadas,
mas termina também em morte da personagem.
A morte em cada uma dessas personagens tem formato diferente. Em
Emma, suicídio. Em Luísa, depressão. Em Capitu, solidão. Em Lily, uma grave
doença. Em todas elas, no entanto, fica evidente este fato: a morte parece
surgir como decorrência das atitudes que elas tiveram.
A grande pergunta que se faz diante dessa constatação: Por que essas
personagens morrem? De imediato, pode-se pensar na morte como um ato de
punição, sobretudo se considerarmos que os autores dessas histórias eram
homens. Mas me parece que pode existir um sentido mais profundo: a morte
como símbolo da anulação de um amor que nunca existiu. Morrer significa a
ausência ou como diz Fernando Pessoa: “Morrer é apenas não ser visto.”
Se você, leitora ou leitor, ainda não leu uma dessas obras ou nenhuma
delas, não deixe de ler. Mesmo sabendo que essas mulheres vão morrer, vale
a pena acompanhar e refletir nos fatos que conduziram a isso.
Para você, mulher, eu não diria para não trair, mas se cuidar para não
cair na pena ou “nas mãos” de um escritor. Se trair, vai morrer. Pelo menos na
história dele.
Hermínio Sargentim
Litoral Norte Magazine
N.o 09 – Ano II - Fev/Mar 2008