PATRILOCALIDADE PRECARIZADA: PRÁTICAS PARENTAIS E

Transcrição

PATRILOCALIDADE PRECARIZADA: PRÁTICAS PARENTAIS E
PATRILOCALIDADE PRECARIZADA: PRÁTICAS PARENTAIS E GRAVIDEZ NA
ADOLESCÊNCIA NO PORTO DE SUAPE 1
Parry Scott, Dayse Amâncio dos Santos, Rosangela Silva de Souza, Rafael de Freitas Acioly
Programa de Pós-Graduação em Antropologia, FAGES, UFPE
Resumo
Usando entrevistas, questionários e pesquisa de campo, o presente artigo examina o impacto da
chegada de populações atraídas a um polo de desenvolvimento sobre as estratégias patrilocais de
comprometimento parental das populações atingidas. No complexo portuário de Suape, trabalhadores
de lugares distantes se hospedam no entorno das obras, descolados das suas redes de parentesco
originais. A interação com a população local traz promessas e desconfianças referentes ao emprego, ao
futuro e ao abandono. Ao se envolverem afetivamente com estes homens, as jovens dos locais atingidos
podem engravidar sem poder acionar estratégias locais costumeiras de responsabilização parental
masculina para firmar alianças entre jovens que engravidam e os homens parceiros e seus parentes.
Devido à presença de homens com redes de parentes desconhecidas, descompromissados com a
residência local, elaboram-se estratégias novas de aliança no contexto de gravidez.
Introdução
Como parte da pesquisa de Três Polos de Desenvolvimento e a vida sexual e reprodutiva das
mulheres jovens em Pernambuco2, em realização desde novembro de 2010, pelo Núcleo FAGES da
UFPE, este estudo foca o impacto da chegada de populações atraídas ao Complexo Portuário-Industrial de
Suape sobre as estratégias de residência e de sociabilidade de jovens que namoram e engravidam,
realçando o envolvimento de redes associadas aos parceiros, pais e parentes deles e delas. Discute-se
como a gravidez desencadeia um padrão de busca de apoios, autonomia e, sobretudo, comprometimento
parental patrilateral. Tecem-se considerações sobre o impacto da presença de homens migrantes e as
estratégias às quais os jovens e os trabalhadores recorrem para levar a sua vida adiante.
O estado de Pernambuco atravessa um período de enaltecimento do crescimento econômico em
múltiplos polos de desenvolvimento e a pesquisa do FAGES focou os polos de Suape, de Porto de
Galinhas e de Petrolina, que investem, respectivamente, num complexo portuário-industrial, na indústria
1
Trabalho apresentado na XV Encontro Norte e Nordeste de Ciências Sociais-Pré-Alas, Brasil, no GT
Gênero, Política, feminismos e desenvolvimento, de 04 a 07 de setembro, em Teresina. Uma versão
preliminar deste trabalho foi apresentada sob o título de Patrilocalidade e patrilateralidade
precarizadas: Práticas Parentais e Gravidez na Adolescência entre Populações Atingidas pela Construção
do Porto de Suape, em forma de Poster na 28ª Reunião Brasileira de Antropologia (Fórum especial 3),
São Paulo, junho, 2012.
2
Pesquisa APQ0149-7.03/10 financiada através do EDITAL FACEPE 03/2010, Estudos e Pesquisas
para Políticas Públicas Estaduais, Gravidez na Adolescência, FACEPE/SecMulher.
turística e na agricultura irrigada. Como Suape é vizinho a Porto de Galinhas, tratar a articulação entre os
dois polos é inevitável, mesmo que, neste trabalho, a ênfase recaia principalmente sobre o Complexo de
Suape. Petrolina será abordada em outros trabalhos.
Ao estudar polos de desenvolvimento (Ribeiro 1993), o olhar do observador está direcionado para
a cadeia produtiva associada à “vocação” anunciada, seja qual for a profundidade histórica ou a
intensidade dos investimentos recentes. As histórias dos locais impactados não são valorizadas em si,
especialmente quando divergem das novas finalidades dos investimentos. Os responsáveis pelo
desenvolvimento a implantar pinçam atividades que julgam que serão positivamente transformadas pelas
mudanças propostas, e relegam as outras questões a um plano secundário. Para entender a influência do
dinamismo econômico sobre a vida cotidiana no local, é importante identificar quais os pontos na cadeia
de produção e distribuição que incidem sobre a criação de espaços de sociabilidade nestes polos,
diretamente em relação aos ambientes de trabalho, e indiretamente em relação aos espaços residenciais e
de lazer e uso de serviços locais. Enquanto os investimentos andam, vão-se criando pontos de fricção em
referência ao encontro de populações atraídas para trabalhar no complexo, e as populações residentes, que
se tornam impactadas, independentemente da intencionalidade maior dos objetivos declarados e
visualizados pelos responsáveis pelos empreendimentos. Numa dessas vertentes, o que inicialmente está
pautado como um impulsor ao desenvolvimento da região se revela um tensor de relações de gênero nos
locais. A imigração de população em busca de trabalho cria o desafio para populações locais e para
políticas públicas que foi sintetizado em outro local como “Queríamos mão-de-obra, recebemos pessoas”
(Arango 2007)3. As pessoas que chegam interagem com as pessoas que residem nos locais de destino. E
as questões inicialmente relegadas ao plano secundário ganham um novo relevo.
Isto ocorre em relação à vida sexual e reprodutiva das jovens4 residentes dos locais impactados
pelo Complexo Portuário do Suape em diversas instâncias inter-relacionadas, das quais realçamos três. Na
primeira instância, enquanto a nossa equipe iniciava a pesquisa de campo, em maio de 2011, o Diário de
Pernambuco publicou uma série de reportagens sob o título de “Filhos de Suape 5”. As reportagens
delineavam o extraordinário alcance geográfico (11 municípios) dos efeitos econômicos do Complexo, e
apontava o problema de jovens seduzidas por homens recém-chegados que, num ambiente de muita
promessa e expectativa, engravidaram adolescentes e jovens e as abandonaram logo em seguida. O alarme
sobre estes efeitos se espalhou pelo estado, ofuscando, pelo menos um pouco, o brilho do
empreendimento do Complexo de desenvolvimento.
3
A fala é creditada a Max Fritsch, e refere-se ao enorme número de migrantes que chegaram à Espanha no início
dos anos 2000 (Arango 2007).
4
Heilborn et. al.(2006) serve como importante base para discussões em torno da sexualidade juvenil.
5
Série assinada pela jornalista Marcionila Teixeira.
Na segunda instância, estimulada pela reportagem do Diário de Pernambuco – e conduzida pelo
deputado estadual e presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Câmara, e mobilizada
por organizações feministas, organizações populares jurídicas, e outros grupos da sociedade civil – em 29
de julho de 2011, foi realizada uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa com diversas
autoridades do estado, na cidade do Cabo, com convites especiais para políticos e representantes de
Ipojuca também. Na Audiência, o clima foi de denúncia da ampliação da exploração sexual infantil,
prostituição e uso de drogas e da falta de investimento em bom funcionamento de escolas, conselheiros
tutelares, e agentes de segurança, bem como de outras atividades públicas e privadas que poderiam coibir
essas práticas. No diálogo entre políticos e representantes da sociedade civil, transpareceram sentimentos
de ausência de oficiais e políticos importantes na audiência (o governador estava numa reunião sobre a
sustentabilidade de Suape; a Secretaria de Infância e Juventude e diversos oficiais de Ipojuca e Cabo
também tiveram as suas ausências notadas); empolgação com a abertura pública para a discussão de um
tema público tão importante; e uma repetida referência ao fato que há muito para fazer.
Na terceira instância, após longas negociações, as empresas instaladas e em instalação –
incentivadas, sobretudo, por cláusulas legais e contratuais que exigem atenção a questões sociais, e não
apenas econômicas –, organizam-se, para promover, além de algumas pesquisas, muitas aulas e oficinas
cuja finalidade é de educar as jovens e os trabalhadores, com referência à sexualidade nas condições
criadas no Complexo de Suape (cursos e ações sobre equidade de gênero, infância, escola, futuro e
voluntariado da Construtora Camargo Correia no Cabo e, ainda mais diretamente, sobre sexualidade, pelo
projeto Diálogos da Petrobrás, os dois em diversos municípios no entorno de Suape).
Assim, o assunto da vida sexual e reprodutiva das jovens não é silenciado, mas, certamente, é
apequenado pelas enormes dimensões que o projeto de desenvolvimento assume dentro das metas que o
governo do estado anuncia para a região. E, ao refletir sobre as três instâncias, percebe-se que a referência
às populações locais pouco trata delas como desenvolvendo ações próprias associadas às suas
experiências históricas para lidar com a chegada de tantos homens para trabalhar e com tantas
oportunidades de trabalho. Sem deixar de entender que sejam populações impactadas, este trabalho reflete
sobre as práticas costumeiras e as suas transformações diante desta realidade.
A Metodologia
Nos últimos dois meses e primeiros meses de 2010, a equipe (de seis pesquisadores6) leu e
coletou bibliografia e documentos institucionais in loco e em sites, e desde abril de 2011, a equipe realiza
pesquisa de campo no Complexo de Suape. A parte do Complexo realçada pela pesquisa inclui os locais
6
Os quatro autores deste trabalho, Viviane Matias da Silva e Zênia Campos Scott.
habitados mais diretamente impactados. Abrange as sedes dos municípios do Cabo e de Ipojuca, onde
circulamos para fazer entrevistas e observação com os administradores municipais e obervar o impacto da
presença de novas populações nestas sedes em ocasiões diversas.
A maior parte da pesquisa de campo se realizou em quatro locais urbanos nos distritos destes
municípios (Ver Mapa 2 em anexo - Porto de Galinhas/Maracaípe e Nossa Senhora do Ó, em Ipojuca;
Ponte dos Carvalhos e Gaibu, no Cabo). Cada local tem uma historia própria, mas todos reportam a um
período anterior de migração de turistas, de surfistas, de comerciantes e trabalhadores urbanos, de
pescadores, de agricultores rurais e de trabalhadores de cana.
Porto de Galinhas/Maracaípe está com mais de três décadas dedicadas a um intenso investimento
na indústria turística. A população de pescadores e marisqueiros que aí residiam (e continuam) vem se
transformando em parte em jangadeiros e caseiros, assalariados e prestadores de serviço a turistas que
ocupam os hotéis e residências para passarem temporadas de férias, e a surfistas cuja estadia e intensidade
de integração varia mais, e que se concentra principalmente no verão. Agricultores, trabalhadores rurais e
outros trabalhadores migrantes vieram a Porto de Galinhas e se juntaram aos outros residentes,
procurando emprego no comércio, que cresce e oferece trabalho, bastante mal remunerado e sazonal, a
uma população que vive em casas módicas e precárias, segregadas fisicamente a várias quadras do mar
depois das casas, hotéis, pousadas e centro comercial, voltados para os turistas. Uma única unidade da
Estratégia de Saúde da Família (ESF) opera entre as áreas de Maracaípe e Porto de Galinhas.
Nossa Senhora do Ó fica a mais ou menos três quilômetros do mar e dez do centro de Porto de
Galinhas, numa pista nova bastante movimentada, com faixa de bicicletas. Isto facilita o acesso dos
trabalhadores a Porto de Galinhas e à praia mais próxima, que é Muro Alto, onde se concentram os resorts
de turistas de maior poder aquisitivo. Nossa Senhora do Ó se origina como centro administrativo com
uma igreja e outros serviços, mas, recentemente, sobretudo como vila associada à expulsão de
trabalhadores dos engenhos de açúcar e da sua vinda para trabalhar numa usina vizinha. Apresenta
semelhantes condições de trabalho às de Maracaípe/Porto, com menor presença de pescadores e
marisqueiros e maior presença de ex e atuais trabalhadores canavieiros e ex-empregados da usina que
fechou em 2011, depois de um período longo de desaceleração. Aí reside muito mais gente que em
Porto/Maracaípe, e como sede de distrito, dispõe da igreja católica principal e diversas outras igrejas de
variados tamanhos, colégios bons e médios, mercados e lojas, e diversos serviços governamentais. O
comércio é muito mais movimentado e voltado para o consumo de moradores permanentes. São duas
unidades da Estratégia de Saúde da Família (ESF) que operam neste local.
Ponte dos Carvalhos é o bairro mais urbano e com maior quantidade de serviços urbanos entre os
quatro locais, ficando entre a cidade do Cabo e o bairro de Pontezinha, como entreposto a pleno caminho
de toda a Zona da Mata Sul para os municípios de Jaboatão e Recife. Cresceu mais intensivamente a
partir dos anos cinquenta e sessenta, com o êxodo da zona canavieira da Zona da Mata Sul. Muitos se
estabeleceram firmemente em serviços comerciais, de reparo de veículos e de recreação ao longo da
estrada. Hoje o bairro expandiu muito, ocupando uma extensão grande em ambos os lados da estrada com
múltiplas residências individuais de variadas qualidades e uma base econômica mais variada. É um dos
distritos de referência do município do Cabo, e já possui um colégio com ensino muito qualificado e a
principal maternidade de referência do município. Nesta área, operam quatro unidades da ESF.
Gaibu é um aglomerado urbano situado na estrada que leva à vila de Suape (ver Motta 1979),
uma vila de antigos pescadores que fica colada à beira norte do Complexo de Suape, separado por um
braço de mar. Em Gaibu-Suape residem antigos e atuais pescadores e marisqueiros, junto com surfistas, e,
sobretudo, outros trabalhadores do comércio e de serviços que trabalhavam e trabalham no comércio local
ou, cada vez menos, em residências de veranistas. É a área com acesso mais direto a Jaboatão e ao Recife
via uma estrada litorânea com pedágio que passa por um empreendimento imobiliário de alto luxo
implantado em função do desenvolvimento esperado devido ao Complexo. A unidade da ESF que opera
em Gaibu está com a sua equipe reduzida e precisando de ampliação com muitas áreas de novas
residências descobertas.
Passamos vários períodos de residência, de observação e de convivência nestes locais urbanos ao
redor do Complexo, gerando centenas de páginas de diários de campo ao longo de mais que um ano de
pesquisa intermitente com atividades acadêmicas no Recife. Com a ajuda das equipes de ESF, os seis
pesquisadores realizaram 68 entrevistas abertas com roteiros sobre a experiência de gravidez com mães
jovens (44, entre 16 e 24 anos de idade) e avós (24, entre 32 e 65 anos de idade) que foram gravadas,
transcritas e analisadas tematicamente. Novamente com a ajuda de uma equipe da ESF em cada local,
supervisionamos a aplicação de cento e poucos questionários sobre namoros, gravidez, mobilidade e
avaliações de oportunidades de trabalho e efeitos dos projetos de desenvolvimento nos locais, totalizando
418 questionários com mulheres jovens, de entre 16 e 24 anos, desta vez, independentemente de terem
passado pela experiência da gravidez.
Assim, pudemos reconstruir uma multiplicidade de estratégias elaboradas pelas mulheres, pelas
suas mães e pelos homens para escolher namorados e parceiros e para buscar residência, trabalho e
educação, associadas à maneira em que adotaram viver a sua vida sexual e reprodutiva. A elaboração
destas estratégias revela a sua inserção em redes sociais interpessoais e de parentesco nestes locais de
residência de acordo com a interação dos residentes, antigos e recém-chegados, e isto permite uma melhor
compreensão dos reais e potenciais impactos da chegada de uma leva nova e massiva de trabalhadores
nestes cenários.
O Projeto de Desenvolvimento: a criação de vocações e a chegada dos homens trabalhadores
A construção do Complexo Portuário-Industrial de Suape (ver Mapa 1 em anexo), projeto com
mais de três décadas de planejamento no estado de Pernambuco, iniciou uma fase de implantação
intensiva em 2007. No site do Complexo (http://www.suape.pe.gov.pe), em maio de 2012, são veiculadas
informações que circulam publicamente sobre a vocação e a dinamicidade do projeto. Informa que Suape
abarca, além do porto em si, o “maior estaleiro do hemisfério sul”, uma refinaria de petróleo, três plantas
petroquímicas, mais de 100 empresas já instaladas, e ainda tem previsão de pelo menos 50 novas
indústrias a se instalarem. Os promotores do Complexo 7 ressaltam que Suape se insere numa vocação
histórica de comércio estabelecida desde a descoberta do Brasil, remontando à criação de um mito de
origem nacional de comércio internacional. As divisas tradicionalmente ganhas pela exportação de açúcar
são evocadas para realçar a vocação comercial mundial do estado, para, logo em seguida, enaltecer a
capacidade do Complexo de contribuir para superar uma estrutura agroindustrial arcaica que não oferecia
possibilidades iguais para desenvolvimento. Contabiliza o número de containers que já estão chegando
no, e saindo do porto e as consequências positivas deste comércio para a saúde das empresas que se
dedicam a estas atividades. A logística de fazer com que os produtos cheguem aos seus locais de destino,
às vezes acrescidos por um valor agregado que as indústrias que ocupam o Complexo conseguem
contribuir, são os emblemas da vocação que o Complexo está construindo. Indústria naval e indústria
petroquímica são as novas bandeiras para alcançar o desenvolvimento. Mesmo que o ritmo da economia
como um todo esquente diante deste movimento, as vocações em construção têm muito pouco a ver com
pescadores, agricultores, trabalhadores rurais, comerciantes locais, surfistas, turistas, caseiros. São novas
vocações.
Somados à contabilização de 25.000 empregos diretos já existentes, estão previstos mais 15.000.
Para tanto, nesta fase de implantação, há mais de 40.000 trabalhadores atraídos à indústria de construção
civil. Quase todos estes empregos são ocupados por homens, muitos recém-atraídos à região, apenas
alguns provenientes dos locais em torno do Complexo. A população local interage de muitas formas com
estes migrantes, outsiders cuja chegada afeta a vida dos estabelecidos, sobre os quais se costuma elaborar
imagens que refletem tanto desconfiança quanto expectativas positivas.
Mudou. Trazendo muito homem pra aqui, pra estar tirando a gente do sossego.... Eu
mesma não achei boa não. Gaibu tem mais homem do que mulher. Oxe, é tanto do
homem que a gente não sabe de onde vem tanto. É que nem casa de marimbondo de
homem. ... Menina porque a gente procurar uma casa e não tem casa pra a gente alugar
a casa. Não tem mais nada, e os homem tomaram conta de tudo. To pedindo a Deus pra
que Suape acabe logo pra levar logo esses marimbondos pras casas dele. ... era tudo tão
7
Apenas para citar um dos encontros mais sensíveis às preocupações aqui sinalizadas, chama atenção simpósio
sobre SUSTENTABILIDADE SOCIAL INTEGRADA NO DESENVOLVIMENTO DE PERNAMBUCO:
impactos dos Pólos Suape e Zona da Mata Norte realizada em 17 de novembro de 2011 pelo NÚCLEO DE
DIVERSIDADE E IDENTIDADES SOCIAIS – NDIS da Universidade de Pernambuco.
calmo, tão bom, na paz no amor, mas depois que chegou esses marimbondos! Gostam de
se rebolar muito, os baianos (Gildete, avó) 8.
Mas no momento que eu tava separada, é, eu via, as meninas gostava muito dos
trabalhadores dali do alojamento do outro lado da pista. Preferia eles, eles são baianos,
da Bahia, principalmente uns que, preferiam esses que são de longe, esses trabalhadores
que tão vindo agora se alojando aqui são de longe, da Bahia. Tem de São Paulo. Tem até
alguns do Rio, mas a maioria são baianos, ai eu acho que elas preferem porque teve uma
mesma que me disse na opinião dela que elas queriam conhecer a Bahia. Por isso que
tão se juntando, pra conhecer os estados (Carmem, mãe jovem).
Nos questionários, apenas 1% das jovens destes locais trabalha em Suape. Oportunidades de
trabalho não são para elas. São para os homens que chegam, e apenas para alguns homens que são dos
locais mais diretamente impactados. Estes homens precisam ser alojados em algum local, saem para se
divertir, buscam sexo e buscam parceiras, e, como forasteiros, são de famílias distantes cuja real ou
imaginada existência (ou inexistência) e tipo de vínculo são enigmáticas. Exigem estratégias atentas,
mesmo se nem sempre bem sucedidas, por parte das jovens e das suas mães de Porto/Maracaípe, Nossa
Senhora do Ó, Gaibu e Ponte dos Carvalhos.
Escolhendo parceiros, engravidando e construindo redes: os arranjos residenciais
A tradição de estudos antropológicos sobre regras de residência (Murdock 1965; Goodenough
1968) busca coerência estrutural nas práticas de mobilidade residencial pós-casamento dos povos
pesquisados, com base num modelo cíclico (Fortes 1958) de desenvolvimento de grupos domésticos entre
povos que ordenam as suas práticas em grupos de parentesco diferenciados com bastante nitidez. Ao
transpor estas ideias para a compreensão de sociedades globalizadas em constante transformação e com
alta mobilidade, muitos autores (Carsten 2000; Fonseca 2006,2007; Peralva 2008; Parella 2003; Scott et.
al. 2009) percebem muito maior agência de sujeitos para elaborar estratégias cuja referência reporta à
formação de redes de sociabilidade e de segurança material e simbólica em redes que permitem uma
flexibilização das regras. Quando Murdock (1949) quantificou, e Goodenough (1968) ressimbolizou as
exceções estatísticas para confirmar as regras cognitivas, as suas buscas foram de normatização e da
formulação de uma compreensão da montagem de alianças entre grupos de parentesco do lado dos noivos
e das noivas. O que acompanhamos nesta pesquisa não deixa de ser uma continuação destes
questionamentos, acrescida por um reconhecimento da elaboração de estratégias que buscam favorecer os
sujeitos diante de intensas modificações e imprevisibilidades que caracterizam a vida conjugal como
permeada por riscos e incertezas (Giddens 1993; Beck 2004; Bauman 2004). Diante disso, uma gravidez
8
Os nomes são fictícios.
desencadeia a intensificação das relações sociais em redes de pessoas aparentadas e amigas que possam
auxiliar casais e indivíduos a lidar com as novas exigências da sua vida.
O gráfico 1 em anexo refere aos 52,2% das mulheres jovens pesquisadas nos quatro locais que já
engravidaram, e entre elas 41% têm mais que um filho. A acolhida da própria família de origem destas
jovens grávidas é muito significativa. A reação imediata mais frequente é de decepção da avó com a
gravidez, com a alusão à opção de expulsão de casa, que ocorrendo ou não, sublinha a importância da
família da jovem mãe na continuação de cuidados, antes estendidas a ela como filha, e agora a ela e ao
neto (e às vezes ao parceiro dela). Expulsar de casa é uma ação que se assemelha à fuga tradicional (ver
Woortman e Woortmann 1993; Scott 2007; Longhi 2007), no sentido que tal fato provoca uma ação do
parceiro e da rede familiar dele para abrigar a esposa, nora e neto. No meio de uma prática
predominantemente de acolhimento matrilocal e matrilateral, ela amplia a demanda de participação do
lado masculino na responsabilidade paternal. Poderia ser vista como uma aparente autonomização da
jovem mãe provocada pela família, que, como o tempo costuma levar à reaproximação da jovem mãe e
sua família (o que não implica necessariamente em nova co-residência), tem o efeito de ampliar as redes
de apoio de parentes às quais ela pode recorrer. Por essa razão, a diminuição na proporção de jovens mães
que residem “com os pais” (de 68,2% antes, para 49,1% no decorrer da gravidez, e especialmente para
42,5% depois dela), é mais uma evidência de uma estratégia de ampliação de redes de apoio do que uma
evidência de retirada do acolhimento dos pais.
A casa dos sogros não costuma dispor de boa reputação para o estabelecimento de relações
amenas entre nora e sogra, mas oferecer a residência para abrigar a mãe do filho dela pode ser uma ação
muito bem-vinda para todos. Muitas mães jovens informam da solidariedade das suas sogras no apoio à
gravidez e o cuidado dos filhos. Como os dados revelam que apenas 9,2% das jovens mães residiam com
as suas sogras antes de engravidar e que durante a gravidez este arranjo residencial foi mais recorrente
(15,1%) que depois dela (12,7%). Viver com a família do parceiro, além de intensificar a interação no
tempo de maior necessidade, sendo para suprir as aparentes faltas ou responder aos apelos a cooperação
do lado materno do casal, também contribui para uma autonomização do casal, que depois de passar pela
gravidez geralmente sabe que pode contar tanto com os pais dela, quanto dele.
Engravidar não é a razão principal das jovens formarem casais, pois 55,6 % delas residiam com
os seus parceiros antes de engravidar, sendo numa casa independente, sendo na casa dos pais dele ou dela.
Mas engravidar contribui em grande parte para a aproximação dos casais, que totalizam 71,8% residindo
juntos durante a gravidez, porcentagem que é apenas um pouco mais baixa depois do parto (70,6%).
Então, o mais comum é receber acolhimento do parceiro, e, às vezes, da família dele. Lidos por outra
perspectiva, estes dados informam que quase 30% das mães jovens não conseguem ou não querem contar
com a co-residência do pai do seu filho, o que exige mais complexos rearranjos domésticos.
O argumento deste trabalho é que a pratica de acolhimento patrilateral (senão plenamente
patrilocal) se realiza com mais facilidade numa região onde as pessoas se conhecem há mais tempo, e que
a chegada de trabalhadores cujas famílias de origem estejam distantes precariza esta prática. Pode não
inibir a formação de casais, que serão ou neolocais ou matrilocais, mas contará com apoio menos
ampliado do lado paterno, a menos que a intenção seja a de viajar e conhecer lugares distantes, como
falou a jovem Carmen na citação na página 8. É importante apontar dois processos identificados em
Porto/Maracaípe, Nossa Senhora do Ó, Ponte dos Carvalhos e Gaibu, no decorrer da pesquisa: primeiro, a
capacidade das jovens e suas famílias elaborarem estratégias de namoro e de residência próprias para se
precaverem contra o enfraquecimento das redes sociais que poderia resultar de uniões com os migrantes
cujas famílias mal podem ser acionadas para apoiar os novos casais e seus filhos; e, segundo, a gravidade
do impacto da chegada de tantos homens sobre o cotidiano dos locais que exige atenção especial para não
resultar num processo de banalização e mercantilização de namoros e de sexualidade e a estigmatização
de parte da população que interage mais intensivamente com os trabalhadores migrantes. O primeiro
processo é focado com detalhe no trabalho, mas encerra-se com alguns comentários que apontam para a
importância do segundo processo e a articulação entre os dois.
Examinando algumas estratégias de mobilidade residencial as motivações, emoções e condições
são muito variadas, mas a participação ativa da rede do parceiro se torna muito importante nas decisões de
e sobre as jovens. A mobilidade residencial é uma peça chave no processo e focalizando a influencia da
presença de tantos homens de fora nas práticas de namoro e de reprodução das jovens, algumas das
dimensões deste processo podem ser visualizadas.
Uma jovem mãe de Ponte dos Carvalhos explica as pressões que recebeu quando engravidou:
E depois que eu tivesse a menina juntar, morar numa casa. Só que, se não estava morando
quando não tinha Mariana, quando tivesse Mariana ia morar? Não ia, ia não. Aí eu disse; a gente
vai. Você tem que procurar uma casa, a gente vai, você vai trabalhar e eu vou procurar o que
fazer mesmo grávida, vou pintar unha com mainha por aí, vou trabalhar em alguma loja, mas
você vai, a gente vai se juntar. Aí pronto! Aí eu procurei casa, aluguei, pedi a mãe dele o dinheiro
aí a mãe dele disse; ele vai ter que trabalhar Carolina!. Aí ele começou a trabalhar, aí pronto foi
quando... Porque se eu não tivesse feito isso eu não ia morar com ele nunca, não ia não.... Porque
sempre minha mãe dizia: se ficar grávida, você vai embora de casa. Quando eu fiquei grávida, ela
pedia que eu fosse embora com ele apulso, que ele não queria ficar comigo, que ele dizia que o
filho não era dele, que ele nunca ia ficar comigo, de jeito nenhum. Ai... ai mãe queria que eu fosse
morar com ele apulso, brigava comigo (Carolina, jovem mãe, Ponte dos Carvalhos)
Outras relatam com tranquilidade a troca de residências que fazem e como afeta a vida familiar:
Meu marido vivia muito aí na casa do meu primo, que é aqui atrás. A gente se conheceu e foi
namorando. Depois a gente foi morar junto. Fui morar na casa da mãe dele que morava em casa
alugada. Fui morar com ele e pronto. Depois quando meu menino nasceu a gente voltou pra cá [a
casa da mãe] e no ano passado a gente se casou no civil (Carmen, jovem mãe, Ponte dos
Carvalhos).
Um dia a gente não tem que sair da casa dela pra casar? Se a gente voltar, se um dia se separar e
voltar ela fica triste, e na mesma hora fica alegre por que a gente voltou. Se um dia a gente
resolver voltar de novo, ela fica trsite de novo por que perdeu a filha de novo. Eu morava com o
marido numa casa atrás da casa dos meus sogros, e agora eu moro na minha casa (Olívia, jovem
mãe, Nossa Senhora do Ó).
A busca de autonomia, de uma forma ou outra é motivo referido por quase todas, mesmo que nem
sempre seja com a tranquilidade e transparência desejada:
Ela saiu de dentro da minha casa virgem. Ela não teve o que fazer, ai disse que era mulher sem
ser. E eu tinha dito a ela, se você engravidar, ficar mulher, eu boto você pra fora. E ela queria
fazer as coisas que eu não consentia. Ai ela achou assim, que se dissesse que era mulher, ia ter a
vida liberta. Ai foi o que aconteceu. Ela chegou pra mim e disse que era mulher ... que um rapaz
tinha mexido com ela sem ter mexido. Ai depois que ela saiu de dentro de casa, ai foi que o filho
de uma amiga que morava ali, mexeu com ela. E eu só sei isso através da mãe dele. E a mãe dele
foi quem me disse (Cícera, avô, Ponte dos Carvalhos).
Ele morava aqui no Ó. Mas como ele só vinha a passeio. Aí como ele fazia, ele é assim, em cada
lugar que ele vai, ele faz feio. Aí ele vai simbora. Aí aqui ele veio só passar um tempo. A minha
vó fez ele morar comigo. Com o tempo eu fui morar na casa da mãe dele também, antes de vir pra
cá de novo. Lá também ele me maltratava muito. Só não dava mais por causa da mãe dele, que
tomava a frente, e o pai dele também (Ofélia, jovem mãe, Nossa Senhora de Ó).
Uma das mais complicadas trajetórias de mobilidade residencial ocorre com Glória, que reside
em Gaibu, onde a presença de homens trabalhadores migrantes abre leques grandes de opções, fazendo
com que ela recorra a diversos usos de redes de apoio de parentesco e de amigas, com significativa
participação tanto do lado paterno quanto do materno:
Foi meio complicada minha situação, por que eu morava com minha sogra e saí da casa dela. Fui
pra casa do meu pai, mas da casa do meu pai eu não aguentei. Voltei pra casa de minha sogra de
novo, mas não voltei pro marido. O marido saiu, e eu fiquei, porque eu era de menor. Com o
tempo eu fui pro Rio, passar um tempo lá, que eu não queria ficar aqui. Fui trabalhar lá, tentar
alguma coisa diferente. Ela ficou com minha filha, e quando eu voltei do Rio eu voltei pra casa
dela de novo. Ai eu arrumei um namorado e fui dormir em casa com ele. Sai da casa dela, e ela
ficou com minha filha. Depois eu voltei pra casa do meu pai, mas só foi por um tempo por eu não
queria voltar pra casa do meu pai, por que assim, eu sou muito protetora. Cuido muito da minha
filha. Então teve uma vez que eu briguei com minha madrasta por causa disso, por que ela gritou
com minha filha e eu não gostei. Daí, eu saí de lá. Não queria voltar pra lá, mas depois eu voltei,
e passei um tempo. Até o mês passado eu tava lá, depois eu vim dividir casa com as meninas
(Gloria, jovem mãe).
A mobilidade entre casas é estrategicamente articulada com a montagem, por vezes fugaz, de
projetos de vida e percepções de apoios. Esta mobilidade independe da chegada de trabalhadores para
Suape. Devido ao fato de que o influxo de trabalhadores iniciou e vem se intensificando apenas desde
2007, boa parte destas informações se referem aos tempos anteriores à chegada deles, tanto nas
entrevistas, quanto nos questionários. Nem sempre se sabe estimar o quanto os dados possam estar
reportando a “novos casamentos” com trabalhadores migrantes, nos quais o conhecimento da família do
parceiro e, ainda mais, da sua família, é muito mais limitado. Homens de longe, sem família junto a eles,
mal podem ser pressionados a acionar as suas redes familiares para acolher uma menina grávida, e o
mesmo desconhecimento gera desconfianças sobre os resultados da simples prática de namorar e de ficar.
É interessante notar que Ipojuca (80,542 habitantes) e Cabo (185.123 habitantes), como
municípios da Região Metropolitana do Recife com grandes contingentes de moradores urbanos (75% de
Ipojuca, 91% do Cabo), têm histórias que fazem com que as suas populações sejam predominantemente
femininas, como costuma acontecer nas grandes cidades. Porém, quando se compara com o município do
Recife, que tem apenas 46,1% de residentes masculinos, e o estado inteiro, que tem 48,0%, percebem-se
os efeitos do influxo recente de migrantes, pois pelos dados do censo de Pernambuco, em 2010, Ipojuca é
49,1% masculina, e Cabo 49,5%. Isto mostra a presença de muito mais homens, mesmo que eles ainda
não superem o número de mulheres. Fora das sedes, nos distritos onde se localizam as áreas pesquisadas,
a presença de homens é sentida com muita força pelos moradores.
Somente uma em cada cinco jovens continua com o seu primeiro namorado. 41,3 % de todas as
jovens entrevistadas reportaram que o seu primeiro namoro não alcançou um ano completo, e mais 20,4%
não alcançaram dois anos. Os primeiros namorados foram conhecidos na vizinhança, na escola ou como
amigos da família, apenas 14% tendo sido conhecidos numa festa ou num bar. 70% são do mesmo
município, e apenas 7.6% de outros estados. Sobre os namorados atuais na hora da pesquisa, como se
pode esperar, devido à autonomia ganha com a passagem de tempo, o lugar de conhecer os namorados é
mais frequentemente um bar ou uma festa (20,9%), mas, de fato, ainda se percebe uma estratégia bastante
cautelosa na hora de escolher o parceiro para os namoros atuais por três razões: 1) quase a quarta parte
das jovens não estavam namorando, nem em nenhum relacionamento conjugal; 2) aumenta para 73% os
namorados que são do mesmo município, e 3) há um aumento pouco significativo, para 10,3%, dos
namorados provenientes de fora do estado de Pernambuco. A atração dos que são de fora de Pernambuco,
tão alardeada como preocupação, não é tão forte para estas jovens, que parecem sentir mais segurança
com moradores do próprio local, ou pelo menos do município. Muitos destes outsiders (Elias; Scotson
1965) nem recebem o aval das jovens como “ficantes”, muito menos como namorados, como ressaltamos
mais adiante.
As ofertas de trabalho são uma realidade muito prezada por todos. Entre as jovens, 26% dos
companheiros ou namorados atuais estão trabalhando em Suape. As informações sobre a procedência
destes namorados, apresentadas acima, sugerem que entre o influxo de homens sem parentes e a ampliada
oferta de empregos para homens do local, a busca destes namorados se concentra mais fortemente entre o
segundo grupo, as pessoas mais conhecidas na comunidade. Algumas mulheres estão com parceiros que
não são os pais dos seus primeiros filhos, mas o seu status de conhecido o legitima diante das redes de
parentes delas.
Detalhando mais, é possível compreender um pouco da complexidade dos rearranjos residenciais
das jovens mães. Quase dois terços delas estão residindo com parceiros, e um terço estão em arranjos
residenciais que exclui co-residência com parceiros. Entre as que residem com parceiros, o mais comum,
por longe, é estabelecer uma residência independente com ele e com o filho (67.4%). Ainda há algumas
(10,4%) que vivem junto com o parceiro, mas o seu filho reside em outra casa, permitindo maior
autonomia ao casal. Nos outros casos, as mães, parceiros e filhos estão sendo acolhidos na casa dos avós
maternos (14,1%) ou, em bem menor grau, os avós paternos (8,1%). Mais uma vez, o acolhimento
matrilateral é a mais forte, mas o acolhimento patrilateral não é desprezível.
Já entre as que não residem com parceiros, muitas das casas dos avôs oferecem abrigo às suas
filhas e aos netos (47%), mas mais que a metade das mães jovens não contam com arranjos coresidenciais com os seus pais. Assim, 26% das jovens mães vivem sozinhas com os seus filhos, e apenas
3% sozinha sem os seus filhos. 24% encontram outras pessoas para residir com elas e os seus filhos.
Residência independente não pode ser interpretada como isolamento dos seus pais, pois se notou
frequentemente uma convivência muito grande entre avôs e filhas e netos que residiam separadamente.
Considerações sobre a chegada dos outsiders
A articulação da mobilidade residencial com os namoros e a gravidez na adolescência revela uma
população de estabelecidos cautelosos e atentos que aproveitam para preservar e para ampliar as redes de
apoio, seja através das atitudes das mães jovens, das avós, das sogras ou de outras pessoas nas redes de
parentesco e amizade dos dois parceiros. Homens trabalhadores de lugares distantes constituem uma
população nova atraída por projetos de desenvolvimento. Eles estão descolados das suas redes de
parentesco nos locais de origem. A interação com a população local se realiza num ambiente de promessa
e de desconfiança referente ao emprego, à conjugalidade, aos cuidados com os filhos e ao possível
abandono. Neste sentido, as famílias das áreas pesquisadas se preocupam muito com o que estes outsiders
representam. Estas famílias são tão, ou mesmo mais, atentas que a equipe de jornalistas que alardeou
contra Os Filhos de Suape; que os políticos, administradores, feministas e cidadãos que trouxeram o
assunto para uma Audiência Pública; e das empresas que procuram cumprir a legislação organizando e
contratando instituições especializadas para desenvolver ações sociais relacionadas com os impactos das
suas atividades sobre as relações de gênero nas populações impactadas. A satisfação com a oferta de
empregos (pelos menos para os homens) e com os investimentos em estradas e melhoramentos físicos é
evidente, mas isto não esconde a desconfiança sobre os novos moradores. Vale ouvir as jovens mães e as
avós mais uma vez:
Não é confiável uma pessoa que você nunca viu ir passar um final de semana na sua casa? Só
você, a sua colega e o namorado somente? Não sabe o que é que pode aprontar lá! Aqui eu vejo
muitos trabalhadores de Suape, traz mulher de fora, e também fica com as daqui também.
Inclusive eu tenho um vizinho da frente que é dois rapaz que trabalha em Suape e tem quatro
mulheres ai, parece que duas é daqui e duas ele trouxe lá de fora. Ai fica uma coisa muito
absurda ne em relação a isso? Porque é quatro mulheres pra dois homens, ai ne não? ... Inclusive
alguns tem mulheres casadas lá ai vem pra aqui trabalhar e arruma outra mulher aqui, e a
mulher fica lá onde ele deixou. (Carmen, jovem mãe, Ponte dos Carvalhos)
Os baianos são muito violentos, muito brabos. Pelo que eu ouvi, [os] trabalhadores lá de Suape,
são baiano, é muito brabo, muito metido a arroxado, metido a brigão, não são desordeiros de
matar, pegar dinheiro, nem por causa de droga, mas são muito brabo, muito metido a arroxado,
ai morre. O pessoal se revolta, ai faz aquelas coisas horríveis que fizeram com eles, mataram
todos os dois. (Carina, avô, Ponte dos Carvalhos)
Gaibú tem casas mais caras, não tem moradia pra ninguém por que os homens de fora alugaram
tudo, então tudo agora sai mais caro pra agente, eu não vejo mais beneficio de nada, por que
agente agora não pode sair pra se divertir por que tem vários homens da rua que eles não
respeitam você, por isso que eu fico aqui, nem saio. (Glória, jovem mãe, Gaibu)
Eu vejo menininhas que não tem nem 14 anos, fica doida pelos homens, porque elas botam na
cabeça que é de firma. O que é que tem que “é de firma”? Ganha um salário normal, tem mulher
em casa, tem filho, não é dono de empresa, não é nada. Muitas vão ficar com esses homens por
causa de dinheiro, so que eles não são donos de firma porque são assalariados. É uma ilusão.
Muitas “não... eu vou casar com ele”, não sei o que, os homens fala que vai viajar, fala que vai
viajar e fica logo la, deixa elas. Eu não me iludo com isso não. Conheci sim, o pai deles de firma,
não foi procurando homem de firma, ele trabalhava aqui na Firma 1, não foi procurando homem
de firma. Conheci porque tinha que acontecer, tanto é que tenho dois filhos dele. Não foi uma
coisa passageira, uma coisa que foi só pra ficar por ser de firma e hoje ele manda o dinheiro dos
filhos, tudinho. Não é um irresponsável, mas eu sair de casa pra procurar homem de firma, que
vem com doença, que pega doença por ai e sai botando nas mulheres e tudo! Tem uma colega
minha que ta com AIDS que pegou de um rapaz de firma, de um baiano. Que se iludem, que é
bonitinho, porque não sei o que, porque é não sei o que, pensa que mostra no rosto o que a pessoa
tem ou não (Gilvanice, jovem mãe, Gaibu).
Ao se envolverem afetivamente com estes homens, as mais jovens entre a população atingida
intensificam a sua vulnerabilidade, podendo engravidar, o que exige o acionamento de estratégias
residenciais de responsabilização parental masculina e inserção em redes de apoio amplas. Ressalte-se
que 35% das jovens mães não estão vivendo com parceiros, uma prática que faz parte da história dos
arranjos residenciais nos quatro locais, mas que poderia sofrer uma intensificação na medida em que os
outsiders se estabelecem, seja tornando-se mais conhecidos, seja dedicando-se a recreação e farras nas
horas que estão fora do trabalho. Em anos recentes, campanhas contra a exploração sexual e a prostituição
infantil reduziram significativamente os pontos mais ostensivos do mercado de sexo em todos os locais.
Não se pode esquecer que é na proteção da infância contra exploração sexual que o governo e as empresas
legitimam as suas intervenções na região impactada, e essas ações recebem o respaldo das instituições
jurídicas e de assistência social, agindo como mediadores entre as populações locais, o Estado e as firmas.
Mais recentemente, o crescimento de bares e casas de festa para onde convergem muitos dos
trabalhadores migrantes divide a população, algumas jovens sendo atraídas ao movimento, e muitas
outras se acanhando e preferindo limitar os seus espaços de sociabilidade ao comércio local, casas de
conhecidos, locais de trabalho e comércio e igrejas, que estão em plena expansão. Percebe-se um
envolvimento de igrejas evangélicas moralizadoras em candidaturas bem sucedidas para os conselhos
tutelares que atuam na área.
O desafio que se apresenta é que a pressão para medidas governamentais e institucionais para
ações sociais para reduzirem impactos negativos do influxo de migrantes atraídos pelo projeto de
desenvolvimento saiba dirigir as atividades com sensibilidade à existência da complexidade dos padrões
de mobilidade residencial associados a namoros, sexualidade e parentalidade juvenis elaboradas pela
população. Não se pode fechar os olhos à inconveniência da presença de muitos trabalhadores de fora e da
exacerbação das complicações para a elaboração de estratégias próprias para lidar com a vida sexual e
reprodutiva das jovens, mas é preciso valorizar as estratégias de ampliação de redes de apoio às jovens,
aos seus parceiros e aos seus filhos.
Referências citadas
ARANGO, Joaquín. Las migraciones internacionales en un mundo globalizado,” VANGUARDIA Dossier (22)
“Imigrantes: el continente móvil” enero/marzo. 2007, PP. 6-15.
BAUMAN, Zygmunt; MEDEIROS, Carlos Alberto. Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar:
Rio de Janeiro, 2004
BECK, Ulrich. Risk Society, Towards a New Modernity. Sage: London, [1992], 2004.
CARSTEN, Janet. Cultures of relateness: new approaches to the study of kinship. Cambridge, Cambridge
University Press, 2000.
ELIAS, Norbert; SCOTSON. The established and the outsiders: a sociological enquiry into community problems, F.
Cass:London, 1965.
FONSECA, Claudia. Da circulação de crianças à adoção. Internacional:questões de pertencimento e posse.
Cadernos Pagu (26), janeiro-junho de 2006: pp.11-43.
__________. Apresentação: De família, reprodução e parentesco: algumas considerações, Cadernos Pagu (29),
julho-dezembro de 2007:9-35.
FORTES, M. Introduction. IN: GOODY, J. (Ed.). The Developmental Cycle of Domestic Groups.
Cambridge: Cambridge University Press, 1958.
GIDDENS, Anthony. A transformação da intimidade: Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas. São
Paulo: Editora da Unesp, 1993.
GOODENOUGH, Ward. Residence Rules, in KAPLAN, Robert; MANNERS, David. Theory in Anthropology: a
Source Book, Routledge and Keegan Paul: London, 1968. pp. 181-190.
HEILBORN, Maria Luiza; AQUINO, Estela M. L.; BOZON, Michel; KNAUTH, Daniela Riva. O Aprendizado da
Sexualidade: reprodução e trajetória sociais de jovens brasileiros. Garamond/Fiocruz: Rio de Janeiro, 2006.
MOTTA, Roberto. O Povoado de Suape: Economia, Sociedade e Atitudes. Revista Pernambucana de
Desenvolvimento (Recife, Instituto de Desenvolvimento de Pernambuco), Recife, v. 6, n. 2, p. 209-247, 1979.
MURDOCK, George Peter. Social structure. New York: Free Press, [1949] 1965.
PARELLA, Sonia. Mujer, inmigrante y trabajadora: la triple discriminación. Anthropos: Barcelona, 2003.
PERALVA, Angelina. Globalização, migrações transnacionais e identidades nacionais; Projeto Nova
Agenda de Coesão Social para a América Latina, publicação 26, IFHC/CIEPLAN. São Paulo, Brasil, e Santiago de
Chile, 2008.
RIBEIRO, Gustavo. Bichos de Obra: fragmentação e construção de identidades. Revista Brasileira de Ciências
Sociais 18, 1992, PP. 30-40.
SCOTT, Parry. Negociações e resistências persistentes: agricultores e a barragem de Itaparica num contexto de
descaso planejado. Editora universitária, UFPE, Recife, 2009.
__________. Famílias Brasileiras: Poderes, desigualdades e solidariedades. Editora Universitária, UFPE: Recife,
2011.
__________. Morais, religião e sexualidade em contextos urbano, rural e indígena: namoro, aborto e
responsabilidade. In: Parry Scott; Renato Athias; Marion Teodósio de Quadros. (Org.). Saúde, Sexualidade e
Famílias Urbanas, Rurais e Indígenas. Recife: Editora Universitária UFPE, 2007, pp. 13-54.
SCOTT, Parry; Nobrega, Leonardo ; Vicente, Mariama.O. ; Accioly, Rafael. . Identidades Nacionais forjadas em
redes de parentesco: a migração internacional sob a ótica de morais familiares. In: 14 Encontro de Ciências Sociais
do Norte e Nordeste, 2009, Recife. Desigualdade e Justiça Social: regiões, classes e identidades no mundo
globalizado. Recife : FUNDAJ, 2009
WOORTMANN, Klaas; WOORTMANN, Ellen F. Fuga a Três Vozes. Anuário Antropológico 91, Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1993.
Mapa 1: Pernambuco, Municípios impactos e o Complexo de Suape
Mapa 2: Os Locais pesquisados pela equipe de Três Polos de Desenvolvimento e a Vida Sexual e
Reprodutiva de Mulheres Jovens
Gráfico 1: Acolhimento residencial das jovens mães antes, durante e depois da gravidez