Stevie Wonder_219.p65

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GIL E STEVIE WONDER EM COPACABANA | CAPA | www.backstage.com.br
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GIL
E
STEVIE
talento no palco e no
Músicos exigentes, bandas
grandes, equipamentos de
ponta, engenheiros de som de
primeira linha: o show em
Copacabana com Stevie
Wonder e Gilberto Gil teve
tudo o que se espera de um
encontro entre dois dos
maiores artistas da
música mundial.
Miguel Sá
[email protected]
Fotos: Ernani Matos /
Internet / Divulgação
À
s 20 horas em ponto, no dia 25 de
dezembro de 2012, as novas JBL
VTX do PA e as Vertec das torres de delay
amplificaram os acordes de Realce, com
Gilberto Gil, para as cerca de 400 mil pessoas presentes na praia de Copacabana.
Exatamente duas horas e 15 minutos depois, seria a vez de Stevie Wonder comemorar o Natal com o público. Tanto um
como o outro compareceram ao palco
apoiados por bandas grandes – fora as
duas estrelas da noite, eram doze com o
baiano e treze com o norte-americano.
Um time de primeira mixou o som que
ia para o público e os músicos. Na
housemix, os dois artistas apostam em
parcerias duradouras: Leco Possolo está
com Gil há dezenove anos. Danny Leake
mixa os mais de 100 canais do input list
de Stevie Wonder há vinte e dois. No
palco, João Ribeiro cuidou das mixagens
do brasileiro. Já o monitor de Stevie e
banda é dividido em duas mesas: uma
para o cantor e os vocalistas de apoio e
outra para os instrumentos. As mixagens
são feitas, respectivamente, por Dwayne
Jones e Vito Tanasi, este há 17 anos trabalhando com Wonder. A Gabisom foi a
empresa escolhida para fornecer o equipamento e dar suporte a esta constelação
de grandes músicos e técnicos brasileiros
e norte-americanos.
SONORIZAÇÃO
Eder Moura foi o técnico da Gabisom
responsável pelo sistema de sonorização
WONDER:
backstage
do evento e pelo suporte aos técnicos no palco. Thiago Furlan e Luis
Blas deram apoio a Leco Possolo e
Danny Leake na housemix. A equipe chegou na sexta-feira anterior ao
evento, que aconteceu em uma terça. Houve um ligeiro atraso na
montagem por conta das adaptações que foram necessárias no palco
preparado, inicialmente, para o ano
novo de Copacabana.
O sistema de sonorização básico
foi montado com 18 caixas VTX
em cada lado do L&R, mais 14
VTX para reforçar a sonorização
na Avenida Atlântica, logo ao
lado do palco, no lado direito da
plateia. Quatro caixas VTX foram
usadas no front fill. A amplificação do sistema foi feita com
os Crown IT HD 12.000. A
configuração da cobertura foi
feita usando o software da JBL,
Array Calculator. O processamento das caixas VTX é interno, como explica Thiago
Furlan. “Tem um processador Omnidrive HD dentro
da caixa. Só estou usando o
Dolby Lake para equalizar e
distribuir o sinal pelo sistema”, comenta.
Os subs usados foram os
4880, do sistema Vertec,
com amplificação da linha
K, da Powersoft. Para co-
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Leco Possolo teve uma Digi Profile
à disposição na house mix. Ele
gostou da sonoridade do sistema
VTX, da JBL
brir o público esperado, de
500 mil pessoas, foram ainda montadas quatro linhas
de delay com 12 caixas JBL
Vertec 4889 – seis no L e
seis no R – em cada uma
delas. A última linha foi
montada a 400 metros do
palco. A amplificação
utilizada foi Lab.gruppen e o processamento
XTA. Os tempos do delay foram ajustados no
Dolby Lake.
Na housemix, foram
montadas uma Digidesign Profile para o
som de Gil e uma Digico SD7 para Stevie
Wonder. No palco, a
mixagem dos brasileiros foi feita em uma Yamaha PM5D.
Duas Digico SD7 foram usadas pela equipe de Wonder para as mixagens de
monitor dos músicos, que se escutavam de diversas
formas: “Tem misto de monitor de chão,
ear sem fio e ear com fio. O sistema side
fill é só para o Gil. Mesmo os músicos
que usam caixa, usam ear também” explica Eder Moura.
O SOM DO GIL
Para Leco Possolo, a maior diferença deste show para os outros de Gil é apenas o
tamanho da banda. “Neste temos uma
sessão de sopros, com Marcelo Martins no
sax, Jessé Sadoc no trompete e Aldivas no
trombone, e mais duas backings”. Os outros músicos da banda são Jorge Gomes
na bateria, Arthur Maia no baixo,
Cláudio Andrade nos teclados, Sérgio
Chiavazzoli e Bem Gil nas guitarras e
Gustavo Di Dalva na percussão.
Leco costuma mixar em estéreo, mas sem
abrir muito o L&R. “É só mesmo para
descongestionar o centro”, justifica. Para
o show em Copacabana, o técnico de som
optou por fazer a mixagem do zero, sem o
uso de presets. “É muito prático ter a cena
pronta, mas é muito legal começar do zero
porque se presta atenção em detalhes que
passam despercebidos. Quando tenho
tempo prefiro partir do zero”.
O técnico de som usou os plug-ins da
mesa da Digidesign para acrescentar
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Eder Moura gerenciou a gig
Thiago Furlan deu suporte aos técnicos na house
efeitos na mixagem. “Normalmente
uso um (reverb) hall nas vozes e flautas e um plate nas harmonias. Também coloco alguns delays pontuais na
voz do Gil, tudo operado em tempo
real”, detalha Possolo. Leco gostou do
sistema JBL VTX, mas fez uma observação com relação à posição da housemix, que não era no centro do L&R.
“Gostei bastante do sistema VTX.
Achei as altas bem mais definidas que
no JBL antigo. O problema é que, co-
mo estamos em frente a apenas um
dos PAs, quando eu vim para o centro, a resposta que eu tive de graves
foi completamente diferente da que
havia na housemix. Estamos trabalhando em tempo real, mixando uma
coisa para o público ouvir. Você tem
que estar no centro, porque se não tiver alguma coisa boa, as pessoas criticam é a mim”, enfatiza.
Para a voz de Gil, além do microfone
AKG C5, Leco usa um compressor
João Ribeiro, monitor de Gilberto Gil e banda, e o console Yamaha PM5D
valvulado Avalon. “Além de dar aquela esquentada bacana, ele consegue ajudar a trazer a voz mais pra cima”, diz Leco Possolo.
João Ribeiro, técnico de monitor, faz
mixagens individuais para cada um dos
músicos. “A única diferença de hoje
para os shows que fazemos normalmente são os sopros e o vocal. Cada músico
tem a sua mixagem individual. Uma
estéreo, outras mono, mas nada misturado. Cada um tem a sua”, explica. Normalmente João mixa sem efeitos e nesse
dia, ele usou apenas um pouco de reverb
na voz de Gil “só para dar um ambiente
para ele”. O único músico que usa
monitores de chão é o baixista Arthur
Maia. Os outros usam sistemas in-ear
da Sennheiser. Gil usa sistema da AKG.
O técnico opera ainda duas pedaleiras
de Gil, uma para o violão, outra para
guitarra. “Eu vou ativando e mexendo
de acordo com a música. É como se fosse
um periférico outboard “, detalha.
STEVIE WONDER: DUAS
CONSOLES PARA O MONITOR
Dwayne Jones, que mixa para Stevie e os
quatro vocais de apoio, procura montar
uma mixagem com cara de CD para
Stevie Wonder. “Ele gosta de ouvir todos os instrumentos, com profundidade, como se estivesse ouvindo uma gravação”, ressalta. Jones usa pouco efeito e
explica que prefere usar o ambiente do
local do show e do público. “Um reverb
natural”, pontua o engenheiro de som.
Vito Tenasi conta que, além de ouvir
bem os próprios instrumentos, os músicos precisam ter os teclados de Stevie
bem presentes na mixagem. A mixagem
é sem efeitos. “Apenas o violão tem um
pouco. O naipe de sopros também tem
Iluminação
Iluminação contou com movings da Robe
Quem forneceu o equipamento para a iluminação do show foi a LPL. A produção durou
cerca de 20 dias. Sérgio Almeida foi quem
fez a interface entre o light designer de
Stevie Wonder e a empresa. “Estamos trabalhando com equipamentos de última geração, como as duas grand MA2, ambas
fullsize. Os movies são da Robe, 2500 spot,
2500 Color Wash e o Elation Beam. De LED
estamos usando o LED 600, usado como luz
de base para cenário e contraluz da banda.
Nos truss, no teto do palco, temos os Robe
Color Spot 2500, os Wash 2500 e os Elation
Platinum Beam5R, que são para efeitos rápidos nos movimentos. Na luz de frente, não
temos PAR nem Fresnel. É tudo moving,
Robe ColorSpot 2500 para fazer gobos no
Backdrop e wash para luz de TV da banda.
Temos luz de plateia também. São 120 lâmpadas PAR 64”, enumera Sérgio. Foram
usados ainda quatro canhões seguidores
Super Trouper.
“
A única diferença
de hoje
para os shows que
fazemos
normalmente são os
sopros e o vocal.
Cada músico
tem a sua mixagem
individual.
Uma estéreo, outras
mono, mas
nada misturado.
Cada um
tem a sua
(João Ribeiro)
”
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Mesa Digico D7
Sistema de amplificação Crown
Sistema de transmissão para microfones sem fio
um reverb só para eles mesmos”. Para
se ouvir, os músicos usam, em sua maioria, in-ear. O baixista usa monitor de
chão, o baterista usa in-ears estéreo
mais monitor de chão mono, além do
subgrave, e o tecladista usa in-ear
estéreo mais uma caixa com mixagem
mono bem atrás dele. “Alguns dos
componentes da banda não gostam de
ter muito vocal em suas mixagens”, finaliza Vito. Dwayne Jones e Vito Tanasi ressaltam a importância de sempre conversar com Danny Leake sobre
os equipamentos a serem usados, como os microfones. “Ele é o que trabalha há mais tempo com Stevie e não
abro mão da expertise dele”, diz Jones.
Leake começou a trabalhar com Stevie Wonder em um show bastante di-
fícil: era um concerto do músico com
banda e orquestra. Mas tudo deu tão
certo que o engenheiro de som está
há 22 anos com o astro. Leake é mais
um fã do analógico que se rendeu às
facilidades do digital. Com o número
de canais com o qual trabalha – 112,
nos quais entram os muitos instrumentos dos treze componentes da
banda, mais os teclados de Stevie –
fica, efetivamente, muito mais razoável fazer o show com as Digico D7 que
com mesas de som analógicas. Com
exceção dos compressores Avalon,
usados para as vozes de Stevie e dos
vocais de apoio, ele usa todo o processamento de áudio – de compressores a
efeitos – da própria mesa. “Às vezes
também uso pré-amplificadores John
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O baixista Nathan Watts toca com Stevie desde os 1970
As Vertec foram usadas para as torres de delay
Hardy M1”, observa Danny Leake.
Stevie usou microfones Shure KSM 9.
O engenheiro de som trabalhou em
dois lugares bem diferentes: um teatro,
o Centro Cultural João Nogueira, an-
tigo Imperator, com capacidade de até
mil pessoas, e a praia de Copacabana,
onde fez som para mais de 400 mil pessoas. “A principal diferença é o fato de
que este foi ao ar livre. Você provavelmente vai se pegar usando mais reverbs
e efeitos do que faria em um lugar fechado ou uma arena. O vento fazendo
as altas “flutuarem” é também um fator,
mas eu realmente não fico pensando
nisso. Apenas reajo ao que eu escuto na
hora, não importando muito que local
é”, explica.
Um dos fatores ao qual Danny reagiu em
Copacabana foi a resposta do sistema
VTX, da JBL. “O Vertec é, para mim, um
sistema mais para rock. Ele é brilhante e
vem ‘na cara’ . Nem sempre você quer
isso. Às vezes, prefiro um som maior,
mais quente. O VTX no qual eu mixei
fez isto por mim. No Vertec, eu tenho
que cortar um monte de coisas para que
ele soe como gosto”, opinou.
Outro fator, sempre presente, são os
músicos que tocam com Stevie. Danny
ressaltou o quanto eles facilitam o trabalho. “São todos grandes músicos”,
Sistema de sub JBL 4880
Caixas JBL do sistema VTX
destaca. Tocaram em Copacabana Chris Johnson na bateria; Nathan Watts, com Stevie desde os
anos 1970 e também diretor musical, tocou o baixo; nas percussões, Munyungo Jackson e Roland Garcia; Roman Johnson e
Victoria Theodore tocaram os
teclados; Errol Cooney & Kyle
Bolden cuidaram dos violões e
guitarras; os sopros foram tocados por Dwight Adams e Ryan
Kilgore e os vocais de apoio são
de Aisha Morris, Judith Smith,
Keith John e Lanesha Baca.
ALEGRIA DE TOCAR
A apresentação de Gil e Stevie
mostra bem como a tecnologia
pode ajudar o talento genuíno. Gil,
velho de guerra de tantas roubadas
por um Brasil onde já foi bem mais
difícil ter um equipamento de qualidade, sente-se bem à vontade
com ferramentas como os in-ears.
“A monitoração com os fones, que
limpa o som e podem ter qualquer
instrumento da banda, ajuda muito. Poupa a voz. Essas mesas digitais: você faz a passagem de som,
grava no cartão digital e quando
você volta (para fazer o show) a
mesa pode até ter sido usada por
outro, mas voltam todos os níveis que você havia deixado, isso
facilita muito”, comemora.
Já Stevie parecer ter uma confiança inabalável tanto no seu taco
como na audiência brasileira. É
preciso coragem para chegar a uma
plateia de centenas de milhares de
pessoas e começar o show com uma
música não tão conhecida do grande público daqui, como foi o caso
de What a Wonderful World This
Would Be, e o show funcionar.
Ainda que os arranjos dos sucessos
sejam bem na cola das gravações
originais, a banda toca relaxada e
há bastante espaço para os improvisos de Stevie Wonder.
No fim, tanto Stevie Wonder como Gil – com a sua muito incrível
banda - lembram que pode haver
vida musical real no pop. Em ambos os shows, a qualidade dos músicos fica ressaltada pelo entrosamento deles e pela qualidade que
Leco Possolo e Dany Leake imprimem ao som. No fim, eles provam
que belas canções, músicos com
um mínimo de liberdade para tocar e um pouquinho de dinâmica
podem sim fazer sucesso, apesar de
ter gente que diga o contrário.
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