Trajes Medievais - Mercado Medieval de Óbidos

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Trajes Medievais - Mercado Medieval de Óbidos
Traje Medieval
de animação histórica
A
recriação de traje histórico tem como princípio uma sólida base de investigação
científica mas, por outro lado, tendo uma componente lúdica de animação, pode ter-se
alguma latitude relativamente ao modo de execução e materiais utilizados.
Os princípios da Arqueologia Experimental não devem confundir-se com recriação ou
animação histórica, dado que os objectivos destes dois conceitos são radicalmente
diferentes. A investigação pura da Arqueologia Experimental pouco tem a ver com os
objectivos de divulgação da Animação que, não sendo isenta de uma preocupação
científica acaba por ter uma certa ligeireza sendo aceitável o que é «verosímil» sem se
ter uma profunda preocupação de autenticidade.
Vestir e apetrechar um grupo de animação histórica acarreta um investimento
monetário considerável, sendo impossível recorrer a uma veracidade científica a toda
a prova quando falamos de dezenas de elementos de um grupo de teatro ou dança.
Não seria viável recorrer à execução de trajes em grande número se tivermos de
encomendar tecidos manufacturados, ou se tivermos de recorrer a costureiras que
tenham formação nos pontos característicos desta época, já para não falar do preço
da mão-de-obra que um tal projecto acarretaria.
Assim relativamente ao traje a principal preocupação que devemos é que a silhueta a
aparência e cor sejam adequadas à época que se pretende retratar. Deambulando
pelos muitos mercados medievais e outras recriações históricas que vão surgindo um
pouco por todo o nosso país, somos confrontados com a existência de inúmeros erros
grosseiros em termos históricos, mas somos, sobretudo, obrigados a assistir a um
deprimente espectáculo de tecidos brilhantes e de personagens totalmente
inadequadas no que se constitui como uma espécie de «carnaval garrido» que pouco
faz pelo conhecimento histórico.
Estética geral de um evento de recriação histórica
Relativamente a qualquer evento de animação histórica o principio de autenticidade
tem de verificar-se, devendo toda a cenografia obedecer a uma pesquisa profunda, no
entanto os basicamente podemos falar em três princípios:
1 – Preocupação de autenticidade
Para se elaborar um evento de animação histórica deve recorrer-se sempre às
fontes da época que se pretende retratar, sendo conveniente recorrer aos
serviços de alguém com formação em História para o acompanhamento da
elaboração de toda a estrutura de apoio.
2 – Adequação
A escolha de materiais adequados passa por critérios previstos no ponto
anterior, mas convém sempre ter em consideração que se deve adequar toda a
estética às classes sociais que se deseja representar.
Uma tentação fácil é sempre imaginar que, no que diz respeito a épocas
recuadas, todas as personagens são da nobreza, e que toda a estética dos
eventos de animação histórica é a das classes mais altas.
Assiste-se, por exemplo, a cortejos históricos onde todos os participantes se
encontram vestidos como elementos das classes altas, ou vemos feirantes
trajados ricamente, com fatos que correspondem a uma vivencia palaciana e
não à vivencia popular que procuram retratar.
3 – Simplicidade
Em tudo o que diz respeito à animação histórica o critério de simplicidade é o
mais adequado. Quando se recorre a uma estética simples estamos mais perto
do original e corremos menos riscos de incorrer em erro.
Guia prático de Pesquisa
A elaboração de um traje de recriação histórica passa por diversas fases, e para um
amador surgem as seguintes questões práticas:
1. Onde procurar?
2. O que escolher de entre o material informativo ao meu alcance?
3. Que materiais adquirir?
4. Como confeccionar?
1. Onde procurar
Além de várias histórias do vestuário de acesso relativamente fácil, temos ainda o
grande manancial de informação que nos é fornecida pela Internet (ver Bibliografia).
Os sites em língua estrangeira, sobretudo inglesa, são aqueles onde se encontra mais
informação sobre este tipo de assunto. Convém ter em atenção que há muitos sites de
trajes de Carnaval que apresentam roupas, por regra, bastante estilizadas e
confeccionados com materiais, geralmente sintéticos e inadequados para recriação
histórica.
Para os que não se encontram muito familiarizados com os termos adequados para
procurar incluímos um pequeno glossário que procura listar alguns dos termos chave
me língua inglesa para uma busca na INTERNET:
Pequeno Glossário de Procura
Recriação histórica
- Reenactm ent
Vestuário
- Clothing ou Costum e
Renascimento
- Renaissance
Alfaiate
- Taylor
Alfaiataria
- Tayloring
Vestido de dama
- Lady’s Gown
Cavalheiro
- Gentlem an
Cavaleiro
- Knight
Traje
- Costum e
Tecido
- Fabric ou Material
Combinações de termos sugeridas para uma pesquisa
Traje de recriação histórica Medieval
- Medieval Reenactm ent Costum e
Traje Medieval
- Medieval Costum e
Traje Medieval Masculino
- Masculine Medieval Costum e
- Men Medieval Clothing
Traje Medieval de Cavalheiro
- Gentlem an Medieval Costum e
- Gentlem an Medieval Clothing
Traje Medieval Feminino
- Fem inin Medievbal Costum e
- W om en Medieval Clothing
Traje Medieval de Dama
- Ladies Medieval Costume
- Ladies Medieval Clothing
Feira Medieval
- Medieval Fair
Erros comuns
Tissue
(= lenço de papel e não tecido)
Clothes
(= roupa é um termo mais coloquial geralmente não utilizado
neste contexto, usando-se geralmente o termo «clothing»)
Suits
(= fatos, refere-se aos fatos actuais de homem ou senhora e não à
designação portuguesa mais abrangente - «fato medieval fato de teatro,
etc.»)
Recomendação Importante
Quando encontramos um desenho ou de uma fotografia de uma peça de vestuário
temos de ter em conta que a sua interpretação por costureiras, menos experientes na
execução de traje histórico, geralmente leva a resultados pouco fidedignos.
Os principiantes devem procurar socorrer-se da cópia de trajes fidedignos já
existentes, de sites ou livros que forneçam modelos, desenho técnico ou, idealmente,
os moldes para o corte das peças. Dado que a má interpretação de um desenho ou de
uma fotografia pode ter resultados muito pouco adequados.
3. Que materiais adquirir
Com o advento dos Descobrimentos Portugueses instalou-se uma primeira
«Globalização» com a introdução de uma economia à escala mundial baseada no
comércio. Assim se, por um lado, se verifica uma enorme evolução do comercio e dos
produtos exóticos, sobretudo vindos do Oriente, por outro lado, os modos de produção
europeus não evoluem a um ritmo igual, sendo claro que os produtos medievais
continuaram a ser os produzidos pelos artesãos portugueses.
Assim em termos de tecidos temos uma enorme diferenciação social, tendo as classes
altas (nobreza e a emergente burguesia comercial) acesso a tecidos luxuosos do
Oriente como a seda e o damasco, enquanto as classes populares se tinham de
contentar com as fibras naturais autóctones como a lã e o linho.
Os tecidos populares eram confeccionados à mão, tendo geralmente um aspecto
relativamente «grosseiro» ou artesanal. Na maior parte dos casos hoje em dia o preço
destes tecidos é muito elevado, pelo que temos de nos contentar com outros que
tenham características ou aspecto aproximado. Recomenda-se sempre cuidado na
aquisição de materiais sintéticos, estes para além de não existirem até à
industrialização, são geralmente tecidos que não respiram, logo tornam-se pouco
confortáveis, sobretudo no verão.
Serapilheira e pano-cru são dois dos recursos mais encontrados nos mercados
medievais em Portugal, como se o pano-cru fosse o «substituto oficial» do Linho, e a
serapilheira «o mais medieval dos tecidos populares». Devemos usar estes dois
tecidos com alguma parcimónia, ambos não existiam na época, e porque, ao contrário
do que parece quando vamos a algumas actividades de recriação e animação histórica
no nosso país, uma saca de serapilheira não é um traje medieval adequado.
O Algodão não existia no Ocidente, até aos descobrimentos, e as fibras sintéticas são
obviamente muito recentes, datando quase todas do século XX, pelo que são pouco
apropriadas, excepto quando, pela sua aparência, imitam tecidos naturais a preço
mais baixo.
Relativamente aos tecidos «ricos» como a seda, o veludo, o damasco e o brocado,
estes eram também confeccionados manualmente, o que também lhes dava uma certa
simplicidade, assim devemos ter em conta, ao adquirir estes tecidos os seguintes
princípios:
Seda – A seda deve ter alguma textura, tipo «seda selvagem» devendo evitar-se as
cores mais berrantes e brilhantes, não se devendo em nenhuma hipótese recorrer a
tecidos tipo cetim sintético, dado que o seu brilho, alem de pouco apropriado revela
logo pobreza e falta de rigor na confecção de um traje.
(cores recomendadas de seda selvagem)
Damasco - O damasco de seda seria o mais apropriado, mas o seu preço proibitivo
torna-o pouco prático. Deve ter-se em conta que alguns tecidos sintéticos dão um
efeito bastante aproximado mas, pelo seu preço, o damasco de algodão é um dos
melhores substitutos deste tipo de tecido. Deve ter-se em atenção que o damasco é
um tecido em que o padrão é elaborado com o lavrado do tecido, sendo o padrão
exactamente da mesma cor do resto da peça, assim todos os damascos que
apresentam mais que uma cor devem ser evitados.
Brocado – os brocados actuais atingem preços muito elevados, excepto quando são
imitações sintéticas, que geralmente são demasiado brilhantes e berrantes, pelo que
devem ser evitadas.
Veludo – O veludo é um tecido que pouco evoluiu desde a Idade Média, sendo o
melhor tecido para dar um aspecto rico e verosímil a um traje, mas o seu corte é difícil
para costureiras pouco habituadas. Assim temos de ter de ter em atenção apenas
duas questões: Em primeiro lugar deve ter-se algum cuidado com as cores escolhidas
que devem ser sempre discretas, e não berrantes, e, em segundo lugar, nunca
escolher os veludos sintéticos com Lycra, porque estes não tem o mesmo aspecto, e
para além disso, sendo tecidos sintéticos, não «respiram» o que se torna muito
desconfortável para quem os usa em animações.
Quando se adquirem tecidos para recriação histórica temos de ter atenção aos
seguintes princípios básicos:
- «Se brilha não é adequado!»
Os tecidos utilizados na Idade Média, apesar da importação de muitos tecidos
asiáticos, como as sedas, os brocados, os veludos e os damascos (que, pelo seu
preço, eram apenas utilizados pele alta nobreza e clero), não tinham no entanto o
brilho que actualmente se consegue com os tecidos sintéticos.
- «Se tem cores brilhantes não é adequado!»
As cores brilhantes não eram possíveis de atingir com os corantes naturais, pelo que
as tonalidades adequadas serão sempre as mais simples e sem brilho.
- Os metais quer na forma de jóia quer na forma de passamanarias devem ser
discretos, devendo-se recorrer mais a «ouro mate» ou «ouro velho», sempre que
possível deve dar-se ao traje de recriação histórica um aspecto discreto, dado que
quanto mais simples mais credível se torna.
Nota: Quando se está a vestir um grupo de animadores ou recriadores devemos
sempre tentar diferenciar os trajes. Os grupos (excepto os que recriam personagens
do clero) devem ter uma coerência em termos de modelo, mas as personagens devem
ser individualizadas quer através de tecidos e cores, quer através de detalhes ou
acessórios.
4. Como confeccionar
Sempre que se vai escolher um modelo deve ter-se em conta a sua dificuldade de
execução, sendo sempre preferível a escolha de um traje mais simples do que um
modelo mais elaborado, onde é muito mais fácil surgir dúvidas e erros de execução
que radicam num produto final de má qualidade.
Anteriormente já referimos que, para os menos experientes, é importante que os
modelos escolhidos tenham moldes que orientem a confecção das peças de vestuário
ou acessórios escolhidos.
A simplicidade do traje medieval, quer em termos de corte, quer em termos de
execução, torna simples a confecção de peças básicas adequadas. As classes sociais
distinguem-se não por diferenças essenciais no corte, mas sim, na maior parte dos
casos, pela qualidade dos tecidos e adereços usados.
Assim recomenda-se que, depois de escolhido o modelo, os moldes sejam respeitados
o mais aproximadamente possível. Os acabamentos devem ser sóbrios, recorrendo o
mínimo possível a embelezamentos desnecessários como fitas ou cordões de cetim
ou outros materiais brilhantes.
Devemos ter em mente que na Idade Média a costura era toda manual (as máquinas
de costura são uma invenção do século XIX) pelo que uma certa irregularidade no
ponto, sobretudo no traje das classes populares é, mesmo, desejável.
Recomenda-se ainda um certo cuidado com o comprimento das saias. Na Idade Média
as saias, por convenção social e religiosa eram até ao chão, assim recomenda-se que
o traje feminino seja sempre tão comprido quanto possível.
Galões e passamanarias
Uma das tendências mais frequentes que se verificam na elaboração de trajes para
animações históricas é aplicação mais ou menos abusiva de aplicações com galões e
passamanarias inadequados e demasiado vistosos.
Relativamente a este tipo de aplicações recomenda-se um uso criterioso, sempre que
em dúvida deve optar-se por aplicar menos ou mesmo nenhuns enfeites, dado estes
serem sinais de grande riqueza no traje Medieval.
Sempre que um traje necessite deste tipo de aplicação devem ser escolhidos os
enfeites mais discretos possível, optando sempre, por exemplo no que diz respeito a
dourados, a tonalidades mais dentro do «ouro velho», evitando sempre os materiais
mais brilhantes com um aspecto mais «de plástico».
Lantejoulas e missangas não são aceitáveis para os trajes desta época.
Véus
Os véus e outros tipos de coberturas eram muito usados pelas mulheres medievais,
sobretudo devido a questões de tradição que obrigavam, sobretudo as mulheres
casadas a cobrirem os seus cabelos.
Como, hoje em dia, uma parte significativa das mulheres tem cabelo curto, véus e
chapéus são uma boa opção para cobrir os cabelos curtos.
Relativamente a crianças pode-se, e deve-se, sempre que possível expor os cabelos
longos, recorrendo-se a simples adereços como coroas tiaras ou simples fios de
pérolas, apenas como embelezamento.
Associados a chapéus, «bandeletes» forradas com tecido ou cingidos com um simples
cordão, os são altamente aconselháveis.
Em tom de advertência devemos evitar tecidos tipo tule, ou tecidos transparentes
sintéticos, devemos optar por tecidos finos, sem brilho e opacos.
Peles
O recurso a peles é muito frequente nos agasalhos medievais. Este tipo de material
era muito comum, sobretudo devido à caça que era o desporto, por excelência, dos
nobres
Actualmente as peles são consideradas produto de luxo, atingindo preços muito altos,
incomportáveis para o bolso da maior parte dos intervenientes em animação histórica,
porém com a actual tecnologia é perfeitamente legítimo recorrer a peles sintéticas,
tendo no entanto de se acautelar o grau de realismo destas.
Recomenda-se vivamente que se tenha em atenção o realismo das peles escolhidas
dado que peluche não é um bom substituto para uma pele verdadeira, e peles de tigre,
leopardo, zebra ou vaca também não são um bom exemplo do que era usado neste
período.
Chapéus e capuzes
Para compor personagens Medievais os chapéus e capuzes são essenciais. O homem
medieval usava profusamente este tipo de acessório.
Recomenda-se assim que para cada traje se procure o complemento de um chapéu
ou capuz, que sendo elaborado num tecido de tonalidade contrastante irá ajudar a dar
cor ao traje elaborado.
Cintos
Necessários para definir a silhueta de qualquer traje, os cintos podem ser simples
cordões de fibra ou linha mas, sempre que possível, devem ser de couro.
Nos trajes de damas, os cintos, podem ser substituídos por faixas de tecido
contrastante atados à frente, e eventualmente guarnecidos com borlas decorativas nas
pontas.
Bolsas
As bolsas eram bastante frequentes na Idade média tanto no vestuário masculino
como feminino, dado que os trajes desta época não tinham bolsos, como os da
actualidade.
Pendendo dos cintos, as bolsas podem ser de couro ou de tecido, ajudando a dar cor
e credibilidade a um traje, alem de serem um acessório essencial para esconder os
objectos actuais dos quis não nos conseguimos separar, como carteiras telemóveis,
etc.
A variedade de modelos é quase infinita, recomenda-se, no entanto, como sempre que
se opte pela simplicidade que é sempre um bom ponto de partida.
Sapatos
O calçado é um dos aspectos que mais encarece a elaboração de um traje. Um sapato
bota ou sandália apropriada é um complemento importante para qualquer traje. Hoje
em dia existem em Portugal vários artesãos que percorrem os vários mercados
medievais e outras animações históricas produzidas no nosso país, e que já produzem
sapatos de qualidade, e com preços relativamente acessíveis.
Entrando em contacto com os produtores de um destes eventos será fácil conseguir o
contacto de um destes artesãos, e adquirir sapatos adequados.
Salienta-se que no período medieval os sapatos e botas eram semelhantes para
ambos os sexos.
Devem evitar-se a todo o custo os sapatos de ténis e outro calçado desportivo, e
sempre que for impossível adquirir sapatos de época, devem utilizar-se sapatos
actuais, mas o mais simples possível.
Jóias
A joalharia era apanágio das classes mais altas as classes populares tinham,
geralmente apenas medalhões ou cruzes de metal ou madeira.
O ouro e a prata eram amplamente usados, porém no que diz respeito às pedrarias e
aplicações existem algumas diferenças essenciais.
As pérolas eram bastante conhecidas e apreciadas pelos nobres, esmeraldas e rubis,
pelas suas cores fortes também eram muito comuns, já os diamantes, cuja técnica de
lapidação ainda não era conhecida, eram muito raros. As pedrarias utilizadas eram
geralmente polidas ao estilo «Cabouchon»
NOTA:
Simplicidade
A palavra de ordem em todos os aspectos referidos (escolha de modelos, escolha de
tecidos e cores, e mesmo no modo de confecção dos trajes) deve ser sempre
«SIMPLICIDADE».
Quando se opta por um modelo mais simples tem-se, logo à partida, muito menos
possibilidades de erro. A veracidade de um traje simples é sempre menos
questionável e, mesmo visualmente, a «simplicidade» radica em veracidade.
A riqueza de um traje faz-se pela riqueza de detalhe e pela riqueza dos tecidos, não
pela sobreposição de decorações e embelezamentos inúteis que só destroem o efeito
de autenticidade pretendido.