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HISTÓRIA
A MORTE VOLUNTÁRIA
O jovem Werther, que se suicida por amor!
Kurt Cobain, ícone da música pop, depressivo?
A morte voluntária, ou o suicídio, o que é a mesma coisa, é um tema sempre atual, seja como
discussão de domínio comum, entre pessoas de todas as classes sociais e/ou numa discussão
acadêmica de alto nível. É um choque, e às vezes um mistério, quando alguém que amamos,
ou uma personalidade, ícone ou celebridade qualquer, ou alguém próximo ou distante de nós
se suicida. Mas, perguntamos, como explicar, ou encontrar a verdadeira razão ou causa que
leva alguém a se matar? Bom, no livro que fundamenta este artigo para o blog IC FAMA,
Histoire du Suicide, do doutor em História e membro do Centre International de Recherches
et d’études Transdisciplinaires (CIRET), Georges Minois, são múltiplas as variáveis ou causas,
seja para o suicídio individual, seja para o suicídio coletivo ou de grupo. E há também
múltiplos enfoques: histórico, sociológico, filosófico, psicológico, genético, dentre os mais
abordados. Abaixo, antes de tecer algumas considerações finais sobre o tema, traduzimos um
trecho do livro História do Suicídio (pp.371-2), que reflete mais ou menos as ideias gerais dos
casos elencados pelo autor.
SOCIOLOGIA, PSICANÁLISE, MEDICINA E SUICÍDIO
Ao se tomar a decisão de recorrer ao suicídio, fica um mistério no qual as grandes teorias
apenas esclarecem o contexto, sem chegar às causas. Em 1897, Émile Durkheim publica um
grande estudo sociológico sobre O Suicídio, bastante documentado, fundamentado com as
estatísticas da sua época, na qual as conclusões, ainda que muito criticadas depois, guardam
uma força explicativa considerável. O suicídio tem para ele toda uma causalidade social, que
permite a divisão em três categorias: 1) o suicídio egoísta, que atinge os indivíduos menos
bem integrados nos seus grupos familiares, religiosos ou políticos; 2) o suicídio altruísta, que
concerne às sociedades que praticam um grau de integração excessiva, podendo significar que
alguém seja obrigado a se sacrificar pelo grupo; 3) o suicídio anômico, devido aos
desregramentos dos mecanismos sociais, que não asseguram mais a satisfação de
necessidades elementares (qui n’assurent plus la satisfaction des besoins élémentaires). Esta
teoria sociológica foi complementada em 1930 por Maurice Halbwachs, em As Causas do
Suicídio, livro que estabeleceu como ponto comum de todos os tipos de suicídio a solidão: “O
sentimento de uma solidão definitiva e sem recursos é a causa única do suicídio”.
Em 1905, Sigmund Freud dá sua primeira explicação do suicídio como a ação do retorno da
agressividade contra o Eu, o ego. Se a agressividade do homem, em razão da pressão social,
não pode se exprimir contra seu verdadeiro objeto – como, por exemplo, a pessoa detestada –
ela retorna contra o próprio sujeito. Em 1920, entretanto, Freud anuncia outra teoria, muito
contestada, a da existência em cada homem de um instinto de morte, de destruição, que se
opõe ao instinto de vida e de reprodução, a libido, e que, em certos casos, poderá aumentar se
ele não for sublimado ou substituído, como na renúncia de si mesmo e a devoção aos outros
(Nota minha: o componente sexual, ligado ao prazer, está na base da teoria de Freud,
inclusive nessa explicação sobre o suicídio). A primeira teoria de Freud pode ser ilustrada por
esta frase de Flaubert (Gustave Flaubert, romancista francês do século XIX, autor da famosa
obra Madame Bovary) à Louise Colet em 1853: “Pode-se morrer, já que não se podem fazer
os outros morrerem, e todo suicídio é talvez um assassinato embutido”. Nesta ótica, a taxa
de suicídio é levada a aumentar nas sociedades mais estruturadas, naquelas onde a violência
exterior é a mais regrada ou regulada (Como, por exemplo, no Japão?); nesse sentido, a taxa
de suicídio seria então inversamente proporcional à taxa de homicídio.
O terceiro grande eixo de explicação: a explicação individualista, às vezes genética ou
psicológica, de Jean Baechler em Os Suicidios de 1975. Para ele, como para Jaques Douglas
em The Social Meaning of Suicide, de 1967, a morte voluntária não deve ser entendida a partir
de estatísticas, mas sim a partir de casos individuais. O suicídio é uma conduta exclusivamente
humana e pessoal: o suicídio de animais, bem como as epidemias de suicídios são mitos. O
homem se mata às vezes por razões genéticas ou psicológicas. O patrimônio genético dota
qualquer um de uma certa agressividade e de uma certa capacidade de se adaptar às
provações da existência. Ademais, certas situações são particularmente favoráveis a uma forte
taxa de suicídio: a falta de integração a um grupo, a precisão excessiva do código moral, que
multiplica as ocasiões de fracasso e de desonra, os períodos de paz na sociedade. Por outro
lado, os suicídios são pouco numerosos no período de guerra, entre as pessoas casadas, entre
os católicos solidamente integrados nas suas paróquias em particular. A medicina aporta ou
apresenta, de seu lado, alguns outros elementos de explicação. Assim, é provável que além da
escolha dos meios de suicídio, a maior mortalidade masculina, dominante nos suicídios, seja
devido à secreção de testosterona, hormônio masculino, fator da agressividade.
Todas estas explicações, que se complementam mais do que se contradizem, põem em
destaque ou valorizam a complexidade deste ato, do suicídio. A decisão de por fim aos seus
dias é o resultado de múltiplos fatores, em que muitos são independentes da vontade, para
não falar, evidentemente, dos suicídios conscientes. A escolha última é, portanto, do
indivíduo. Escreveu Henry de Montherlant em O Terceiro César: “Não há nada de mais
misterioso do que o suicídio. Quando eu espero explicar as razões de tal suicídio, tenho
sempre a impressão de ser um sacrilégio. Pois, não há senão os suicídios que conhecemos, e
que estão na medida para a compreensão. Eu não digo: de fazê-lo compreensível; eles são
em geral múltiplos e inextrincáveis, e fora do alcance de um terceiro”.
CONCLUSÃO
Com medo de uma morte terrível o homem primitivo pode ter tido a escolha do suicídio? Na
sociedade greco-romana era preferível a morte à desonra. Na Idade Média o suicídio era
considerado como arte do diabo e terminantemente proibido e punido. E, na sociedade
moderna e contemporânea, se tira a própria vida por causa dos outros, por problemas
psicológicos. São múltiplas as razões que levam alguém a se matar; chega até ser um mistério.
Claro, há questões psicológicas, genéticas ou de saúde e pressões sociais sobre indivíduos
solitários e desesperados envolvidos nesse fenômeno. E parece não haver respostas
definitivas sobre o suicídio em si mesmo, e não para cada suicídio em particular.
No livro de Georges Minois, Histoire du Suicide, que fez uma extensa documentação histórica
de casos de suicídios, desde a sociedade greco-romana, com os suicídios dos filósofos Sócrates
e Sêneca, respectivamente, até a morte voluntária na nossa época, o fenômeno do suicídio
tem algumas características relacionadas com os períodos históricos, pelo menos nos casos
mais emblemáticos, os de maior notoriedade. Não esquecer que há também suicídios junto à
plebe, ao povo, nas camadas pobres da população. Assim, a largos passos, a determinação
filosófica, como a do estoicismo, na Antiguidade, o fator religioso durante a Idade Média, o
idealismo individual na sociedade moderna e contemporânea permeiam a apresentação dos
casos de suicídios apresentados pelo autor.
Desespero, covardia ou coragem? Eu não me arriscaria a indicar qualquer atitude dessas para
explicar o suicídio de alguém, de qualquer um, como causa determinante em última instância,
sob o risco de ser parcial e/ou de tomar partido. Nada disso. A depressão, a solidão, a dor, as
doenças, a falência, o desprezo dos outros, a idolatria, a honra, o tedio, o luto, a tristeza,
enfim, tudo que pode ser uma causa, um motivo para querer se matar, de dar cabo de si
mesmo. Para alguns é um ato desesperado, para outros um ato consciente. Talvez até uma
questão de liberdade maior, de dispor da sua própria vida. Mas, o suicídio é quase sempre um
choque, pois reflete um grande egoísmo, uma solidão absoluta no momento mesmo do ato de
se matar, do ato em si. Acho que a opinião ou o que disse Henry de Montherlant, no
parágrafo final acima, reflete bem o que pensamos sobre a morte voluntária: um mistério!
REFERÊNCIAS:
MINOIS, Georges. Histoire du Suicide. Librairie Arthème Fayard, Paris, 1995.
SOUZA, Antonio. Blog IC FAMA – A Iniciação Científica da FAMA na Web, in 07 de abril de
2014.

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