Sobre sucuris na mídia

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Sobre sucuris na mídia
Opinião
© Wikimedia Commons
Vidal Haddad Junior
Sobre sucuris na mídia
Artigo comenta reportagem do programa Fantástico da TV Globo
© Gui Gomes
S
Vidal Haddad Junior é
professor da Faculdade
de Medicina da Unesp
em Botucatu.
50
UnespCiência
ucuris são grandes serpentes da família
Boidea, que necessitam de animais de
pequeno e médio porte para se alimentarem.
Elas não predam presas de grande envergadura, sendo documentados ataques com ingestão
a bezerros, cervos, porcos e cães e raríssimos
ataques a seres humanos, com NENHUMA
prova de ingestão (o que provavelmente não
ocorre), embora em teoria estas cobras possam
devorar uma criança.
No ano passado, tivemos uma polêmica
devido ao apresentador de um canal de programas sobre a Natureza que anunciou que
seria engolido por uma sucuri. Obviamente,
não conseguiu que a cobra fizesse o que ele
prometeu. Rechaçado pelas críticas recebidas
inclusive nos EUA, desapareceu da mídia (pelo
menos com este tema).
Porém, no programa Fantástico da rede Globo do dia 27/9, as sucuris foram abordadas
novamente por uma matéria extraída justamente de um desses canais. Nesse dia, foram
exibidas imagens do ataque de uma sucuri,
que na verdade corresponde a uma mordida
em um policial no cumprimento de seu dever de captura da serpente (e que aconteceu
vários anos atrás), ao mesmo tempo em que
perguntava qual seria a melhor forma de se
livrar desta mordida para que a vítima não se
tornasse “ração de sucuri”. Frases assim podem “satanizar” o bicho sem razão para tal...
Existem campanhas e esforços no sentido
de que a população não mate estas cobras,
praticamente inofensivas se não provocadas e
que são prejudicadas por estas visões. Embora
seja possível entender o fascínio que despertam
na população e a necessidade de audiência
de um programa de variedades, reportagens
deste teor são questionáveis e necessitam de
melhor assessoria científica de profissionais
que estudam os hábitos da serpente. Sucuris
não devoram humanos, atacam muito raramente e a imensa maioria dos ataques está
ligada a situações de provocação. A sua preservação já é um problema sem que se passe
a falsa imagem de devoradora de homens...