Jardins Circulares

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Jardins Circulares
Jardins Circulares
Regina Johas
A fotografia aponta para o passado. Pode-se entender a relação da fotografia com o passado como
um registro de perda, de algo que não existe mais, ou como um índice de vida, de uma pulsação a
ser preservada. Ou a fotografia registra o que passou -- a criança que já virou adolescente, o salto da
baleia que tornou a mergulhar -- ou ela congela o passado, para que um dia ele seja quiça reativado.
A criança ainda está naquele adolescente, e o salto continua na baleia. A imagem do passado está
na imagem do presente.
E a imagem do presente? Estaria já na imagem do passado? A erva daninha que cresce no jardim já
estava incubada no meio das flores? O jardim já continha no passado a semente dessa erva-daninha
que se manifesta no presente? Ou, colocando a questão de forma menos biológica, a história futura,
contada em imagens, do jardim perfeito, já não contém a inevitável erva-daninha? O presente está
no passado e o passado está no presente. A erva-daninha presente está no passado de jardim perfeito
e o passado de jardim perfeito está no presente do jardim invadido. A imagem atual, do presente,
coexiste com a imagem virtual, seu “passado contemporâneo”1.
A exposição “Jardins Circulares” de Regina Johas rodopia e se estremece com questões da
fotografia como memória de um tempo que se desdobra em muitos tempos simultâneos, fotografia
como imagem-cristal, na definição de Deleuze, aquela que é “o ponto de indiscernibilidade da
imagem atual e virtual”2.
A série de 7 fotografias intitulada “Jardins Circulares” apresenta imagens espelhadas de um jardim
afogado por mato. Os arbustos que já foram bem podados e os canteiros que em algum tempo
estiveram limpos apresentam-se tragados por ervas-daninhas. O espelhamento cristaliza a ideia
deleuziana do duplo atual e virtual da imagem. Não há cor nessas fotografias cinzas, que tendem ao
preto, como se o tempo não-linear fosse um espaço vizinho à memória, ambos parte de uma região
pouco iluminada da nossa experiência. Experiência com a imagem-cristal, na qual passado e
presente ainda não se desgrudaram, as fotografias de “Jardins Circulares” são imagens de nãodescolamento, imagens da semente do presente no passado e da ativação do passado no presente.
Na simetria siamesa dessas imagens, tem-se o instante constante em que o tempo desdobra-se em
passado e presente, como que refratado por um cristal.
As ervas-daninhas aparecem também nas duas fotografias da série “Pós-paisagem”, e aqui estão
evidenciadas por um texto sobreposto à imagem, que cita nomes dos matos que tremem durante o
acesso de febre de Argemiro, personagem de Guimarães Rosa no conto “Sarapalha”. Argemiro vê a
natureza oscilar quando é ele quem treme de malária ao mesmo tempo em que se deleita com a
beleza do frêmito da erva-­‐de-­‐sapo, da erva-­‐de-­‐anum, dos ramos da vassourinha e do galho da mamona. Vida é febre da matéria, como diz a citação que Regina Johas colheu em Thomas Mann para a
série de gravuras “Luminosi", pequenas pontas-secas com excertos também de Guimarães Rosa e
Anne Cauquelin, frases que aparecem duas vezes, espelhadas no papel. Na gravura em metal, a
imagem final é naturalmente espelhada, então nessa obra de Regina Johas o que lemos na direção
convencional foi na verdade escrito de trás para frente. E vice-versa. Esse jogo com espelhamentos
cria um ambiente de vertigem na video-instalação que projeta num círculo o conto “Sarapalha”
inteiro, frase por frase. A imagem projetada é rebatida duas vezes por espelhos instalados na sala,
1
2
Gilles Deleuze, A Imagem-tempo, São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 99.
ibid., p. 103
que giram, deixando-nos num estado de deliciosa tontura, como a que Argemiro experimenta
durante a febre.
A exposição apresenta ainda um álbum de fotografias do céu, “Ut Pictura Poiesis”, cujas páginas
vão aos poucos construindo a frase que pode ser traduzida como “pintura como poesia, poesia como
pintura”. De novo, o espelho, o palíndromo de conceitos. Presente como passado e passado como
presente. Pintura como poesia e poesia como pintura. Fotografia como gravura e gravura como
fotografia. Fotografia como perda e fotografia como reencontro. Imagem-cristal, febre de vida.
Paula Braga, 2011.
(02 08 11)

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