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 Data:06 -08-2014
Tipo: jornal
Origem: Portugal
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O que a vida da videira diz do vinho
As dez maiores importadoras do País abriram espaço para eles. Os três principais
restaurantes da cidade também – D.O.M., Maní e Fasano têm vinhos ecológicos em suas
cartas. E esses são apenas alguns casos. Tintos, brancos e espumantes biodinâmicos,
orgânicos e naturais estão ganhando importância no cenário brasileiro.
Na próxima semana, a Enoteca Saint Vinsaint fará a segunda edição de sua Feira de
Vinhos Naturebas. É um evento pequeno, que reúne produtores e importadores e um
público de pouco mais de 150 pessoas, bem menos que os quase mil convidados que se
encontraram em 2010 na Casa da Fazenda para o Renaissance des Appellations,
ciceroneado por Nicolas Joly, um dos líderes do biodinamismo na vitivinicultura.
Mas o interesse que despertou não deixa dúvidas de que a relevância dos vinhos
ecológicos está aumentando – em ritmo lento, como pedem os naturebas, que fique claro,
mas crescendo, sem dúvida.
Em outras palavras: aproveite o bom momento para entender, de uma vez por todas, o
que há dentro de uma garrafa de vinho ecológico. Nem que seja mais pelo prazer de
retórica, já que para ver o clima esquentar em uma mesa de enófilos basta lançar o
tema que as bandeiras se agitam, acompanhadas do festival de chavões: “orgânicos são
bons, mas muito caros”; “vinho natural é avinagrado”; “biodinâmica é mais fé que
ciência”.
Antes de levar a sério qualquer comentário disparatado, lembre-se que alguns dos
mais cultuados nomes no mundo do vinho (como Romanée-Conti, Leflaive, Selosse,
Coulée de Serrant e Pacalet) fazem parte do grupo de produtores de bandeira verde.
É difícil encontrar números concretos sobre esse mercado. Mesmo os vinhos
orgânicos, um pouco mais populares, ganharam status oficial (normativas) só em 2012
na Europa. Definições sobre biodinâmicos e naturais ainda são raras e conflitantes em
todo o mundo. E mais ainda no Brasil.
É arriscado dizer que dá para reconhecer no primeiro gole a maneira como um vinho
foi elaborado, por mais experiente que seja o bebedor. Mas há características evidentes
nos rótulos verdes – explicadas em detalhe nesta e na próxima página.
De maneira geral, biodinâmicos e naturais costumam ser menos concentrados e
alcoólicos, e exibem maior frescor. Nos casos mais radicais, em que não há adição de
SO2 e há teores mínimos de conservante, espere por menor potencial de guarda e
tenha todo o cuidado ao armazenar a garrafa. São vinhos que pedem uma mente
aberta ao serem degustados – não agradam a qualquer um. Mas, como prêmio,
entregam autenticidade e consciência tranquila de consumir um produto com menos
químicos, que causou menos danos ao ambiente.
Há um traço comum aos vinhos ecológicos: eles muitas vezes são túrbidos, o que não é
defeito – a falta de transparência indica que a bebida foi pouco manipulada. Quando o
assunto são vinhos de bandeira verde, portanto, impera a máxima do não julgue pela
aparência.
De toda maneira, as bandeiras dos produtores não significam que o resultado seja
bom. Orgânico, biodinâmico, natural ou convencional apenas definem o modo de
produção.
Mesmo com essa turbidez no cenário, digna dos vinhos naturais, é certo que os vinhos
ecológicos têm ganhado importância. E como a oferta é motivada pelo interesse dos
consumidores, cada vez maior, o surgimento de novos rótulos é questão de tempo.
ORGÂNICO
O conceito está definido por normas que estabelecem os processos que devem ser
adotados para que um vinho exiba a classificação de orgânico no mercado. Por
exemplo, o vinho deve ser produzido apenas com uvas cultivadas sem nenhum insumo
químico – e nada de organismos geneticamente modificados (OGM).
Conceito. Vinhos orgânicos exigem uvas cultivadas sem insumos químicos
eorganismos geneticamente modificados.
Há, no entanto, algumas concessões no uso do sulfato de cobre (antifúngico), sulfitos
(conservantes) e adição de leveduras selecionadas. Como curiosidade, o Brasil não
reconhece a certificação orgânica feita em outros países. Portanto, vinhos de fora do
País devem certificar-se novamente no Brasil caso queiram trazer no rótulo a
mensagem de vinho orgânico.
Na taça, ele é o mais próximo do vinho convencional entre todos os vinhos de bandeira
verde. E isso quer dizer que, como qualquer tinto ou branco comum, pode ir do
extremo de elegância ao extremo de rusticidade. Em outras palavras: na boca, não se
percebe que é orgânico. A diferença é que seria feito de modo limpo, sustentável.
Covela Branco Ed. Nacional Avesso 2012
Minho / Portugal – R$ 85 (Vino)
Esqueça os vinhos verdes ácidos e diluídos. Claro que há frescor, mas acompanhado
de notas florais e cítricas com alguma estrutura e textura delicada. Nitidez e estrutura
são os destaques aqui.
Tarima Orgânico 2012
Alicante / Espanha – R$ 49 (Grand Cru)
A variedade Monastrell mostra seu lado mediterrâneo de forma cristalina. A fruta é
madura, com toques terrosos e taninos que pedem por comida. Mérito por não tentar
mascarar a expressão da casta com notas de barricas de carvalho.
NATURAL
Provavelmente o mais extremo entre os vinhos ecológicos, o vinho natural não exclui
práticas de cultivo orgânico e biodinâmico, pois também a ele repugna o uso de
químicos de forma absoluta e novidades tecnológicas. O vinho é produzido com o
mínimo de maquinário possível, conforme métodos ancestrais e sem controle de
temperatura.
Barris envelhecidos em vinho. Produtores de vinhos naturais preferem tudo à
moda antiga e usam tanques de fermentação de madeira.
As uvas, normalmente espécies autóctones ou adaptadas naturalmente à região, são
vinificadas sem adição de sulfitos. Muitas vezes são pisadas em vez de maceradas, e as
fermentações são espontâneas. Esses vinhos são túrbidos, pois não passam por
filtragem ou clarificação. Ao contrário dos orgânicos e biodinâmicos, os naturais não
possuem uma certificação: normalmente, os produtores se reúnem sob um estatuto
próprio de práticas produtivas dos vinhos naturais.
Na boca, esses vinhos são mais delicados e normalmente exibem aromas florais, de
frutas frescas e da levedura e têm a turbidez bastante evidente. Também costumam ser
menos alcoólicos.
Louis Antoine Luyt Huasa de Pilén Alto 2010
Maule / Chile – R$ 98 (World Wine)
A variedade País pode ser bastante rústica se colhida e vinificada com pouco cuidado.
Nas mãos de um bom produtor, a expressão da casta lembra um Cru de Beaujolais,
sutil, mineral e versátil.
SP 68 Rosso Occhipinti 2012
Sicília / Itália – R$ 146 (Casa Europa)
A Sicília é a queridinha da vez de muitos críticos e especialistas. Os vinhos
demasiadamente alcoólicos e pesados começam a dar lugar a expressões mais frescas e
menos concentradas, como nesta mescla de Nero d’Avola e Frappato sem passagem
por barricas.
BIODINÂMICO
A forma mais simples de entender a biodinâmica é pensar o vinhedo como um ser vivo
autossuficiente. Daí decorre a importância da biodiversidade para manter o equilíbrio
da propriedade e evitar o ataque de doenças, que seriam fruto de um desequilíbrio
naquele ambiente.
Fora dos padrões. Nem o tonel de vinho biodinâmico é convencional; este, por
exemplo, tem o suposto formato de útero.
Os ciclos lunares guiam os trabalhos nos vinhedos e adega, e alguns preparados de
minerais podem ser aplicados nas videiras ou enterrados no solo dentro de chifres
bovinos. Esses compostos atuam como ativadores do metabolismo e sistema
imunológico da planta, segundo a filosofia. Na vinícola, as leveduras são apenas as que
estão nas uvas e no ambiente e nenhum tratamento com produtos comerciais pode ser
aplicado. A certificação é emitida pelo instituto Demeter, mas muitos produtores
dizem que é mais uma questão ideológica que comercial e preferem não se submeter
ao certificado.
Não por acaso, tem gente que gosta de definir a agricultura biodinâmica como uma
mistura de astrologia, homeopatia e fé.
Os melhores biodinâmicos são vinhos mais complexos e profundos, com acidez que os
faz parecer vivos na boca. Costumam ter a textura mais delicada e alguma turbidez, e
em geral possuem mineralidade. O grande berço dos produtores biodinâmicos é a
França, especialmente Jura, Champagne, Loire e Borgonha.
Domaine Tissot Trousseau Singulier 2012
Jura / França – R$ 110 (De la Croix)
Um dos produtores que é referência na região e entre vinícolas biodinâmicas. A
Trousseau lembra a Pinot Noir pela coloração delicada e aromas florais e de frutas
vermelhas frescas. Apenas os taninos mostram maior vigor que a casta borgonhesa.
Domaine Sainte Claire Chablis 2012
Chablis / França- R$ 160 (Zahil)
Mesmo nesse nível de entrada é possível a marca mineral dos grandes vinhos de
Chablis. A fruta aparece de forma contida e elegante (pera e jambo), pouco lembrando
exemplares do Novo Mundo.
CONVENCIONAL
A vinicultura de larga escala permite diversas práticas. A começar pelo vinhedo, podese escolher uma videira considerada superior às outras e propagá-la de forma clonal
(todas as plantas terão o mesmo DNA). Para evitar ataques de fungos, pragas e outras
plantas concorrentes, aplicam-se herbicidas, pesticidas e fertilizantes sintéticos de
forma preventiva. A aplicação dos produtos e a colheita da uva é feita com máquinas e
tratores pesados, que compactam o solo e dificultam a vida embaixo da terra. Ao
chegar à vinícola, as uvas recebem dose de anidrido sulfuroso (SO2) para inibir a ação
de bactérias ou leveduras que possam interferir no vinho final. O enólogo pode corrigir
taninos, acidez, álcool, concentrar o mosto, escolher leveduras específicas para
desenvolver certos aromas e adicionar enzimas para chegar à textura desejada.
Embora pouco romântico, conforme o preço, o volume produzido e a proposta da
bebida algumas etapas listadas são necessárias. A conversão de um vinhedo
convencional para orgânico ou biodinâmico só é considerada completa pelos
certificadores a partir do terceiro ano.
URL: http://blogs.estadao.com.br/paladar/o-­‐que-­‐a-­‐vida-­‐da-­‐videira-­‐diz-­‐do-­‐vinho/ 

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