05 Azuis.

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05 Azuis.
novembro/dezembro 2012
CONCEITUAL
#05
azuis
editorial
03
CONCEITUAL
#05
novembro/dezembro 2012
066
biblioteca
Publishers André Poli e Roberta Queiroz
Consultoria Editorial Eduardo Logullo | Marcos Guinoza
ambieNteS PoSSÍVeiS
o a z u l d a c o r d o m a r – e que é também o do planeta terra – corresponde às frequências mais altas entre as ondas eletromagnéticas
que compõem o espectro luminoso visível. isso significa que, de todas as ondas-cor que integram a luz
branca, e que sensibilizam o olho humano, a azul é
aquela que oscila mais rapidamente. ao mesmo tempo, e ao contrário do que se possa concluir, as altas
frequências da cor azul produzem efeito calmante
sobre o corpo humano, favorecendo as atividades intelectuais e de meditação. E talvez não seja à toa que
uma das imagens mais associadas à tranquilidade e
ao relaxamento seja aquela, clássica, da praia paradisíaca – com céu e mar azuis – ou ainda que, para
os amantes da leitura, a praia seja um dos ambientes
mais interessantes à dedicação dessa atividade.
Além do azul, elementos como o silêncio
relativo e o olhar acessível à linha do horizonte compõem esse ambiente que, na medida em que não sobrecarrega os sentidos,
favorece a concentração e a reflexão. Se o
ambiente urbano, onde vive a maior parte da população mundial, apresenta hoje condição caótica aos
cinco sentidos, solicitando-os simultaneamente e de
modo permanente, a casa – célula individual – por
sua vez, acaba configurando um espaço de contraponto a essa saturação. e ainda que imaginemos
uma cidade saudável, onde mesmo os ambientes
de uso coletivo estejam aptos à prática de atividades
que exijam concentração, a existência de espaços
de uso puramente individual, como alternativa ao
coletivo, não deverá ser abolida. Se vibramos em alta
frequência nas ruas, procuramos na casa um reduto
de tranquilidade e, sendo esse um espaço de determinação individual, podemos muni-lo com estímulos que permitam investigar e aprofundar a relação
que estabelecemos com nossos próprios sentidos.
Se até pouco tempo atrás (meados do século 20),
tanto a casa quanto os espaços de uso coletivo respondiam a funções rigidamente estabelecidas, hoje,
a maior facilidade de acesso aos recursos de comunicação e produção de que dispomos relativizou os
programas de uso dos espaços. um café ou uma livraria tornaram-se possíveis ambientes de trabalho; os
espaços de trabalho (escritórios), por outro lado, são
cada vez mais pensados como ambientes de encontro, de troca de ideias e tomada de decisões. Da mes-
Se vibramos em alta frequência nas ruas, procuramos
na casa – célula individual – um reduto de tranquilidade
Conselho Editorial Carolina Szabó, Renata Amaral, Jéthero Cardoso,
texto Marcella aquila
Roberto Negrete e Alex Lipszyc
Diretora Executiva ABD Maria Cecília Giacaglia
Diretora Regional ABD/DF Angela Borsoi
Colaboradores Amer Moussa, Camila Brito Paula, Daiane Ferreira Domingos,
Evelyn Leine (arte), Fabio Galeazzo, Gabriel Marchi,
Gustavo Garcia (Papanapa), Ilana Bessler, Jéthero Cardoso,
Luan Silva, Lucas Magno, Marcella Aquila e Roberto Negrete
abd conceitual nov/dez 2012
Diretora de Arte Cinthia Behr
Editor de Fotografia Renato Elkis
Jornalista Responsável Marcos Guinoza MTB 31683
*
CONCEITUAL
#05
Pesquisa de Imagens Joanna Heliszkowski
design
Poder
Publicidade
Para anunciar [email protected]
VELVET EDITORA LTDA 11 3082 4275
www.velveteditora.com.br
viking
texto Amer moussA
Design escandinavo:
looks futuristas, desenhos
limpos e formas puras
ABD Associação Brasileira dos Designers de Interiores
www.abd.org.br
azuis
CAPA revista ABD Conceitual
terá cinco edições em 2012.
A cada número, a publicação
vai abordar uma cor e as
incontáveis possibilidades
que ela oferece. Na edição 05,
o tema é o azul.
Presidente SP Carolina Szabó, Vice Presidente SP Renata Duarte Amaral,
Diretora Financeira SP Márcia Regina de Souza Kalil, Diretora Nacional SP
Maria Luiza Junqueira da Cunha (Malu), Diretora Nacional RJ Paula Neder de
Lima, Diretora Nacional PR Fabianne Nodari Brandalise, Diretor Nacional MG
Carlos Alexandre Dumont (Carico), Membro Efet. Cons. Delib. SP Alexander
Jonatan Lipszyc, Membro Efet. Cons. Delib. SP Brunete Frahia Fraccaroli,
Membro Efet. Cons. Delib. BA Delma Morais Macedo, Membro Efet. Cons.
Delib. SP Fernando Piva, Membro Efet. Cons. Delib. SP Jhétero Cardoso de
Miranda, Membro Efet. Cons. Delib. RJ Luiz Saldanha Marinho Filho, Membro
Efet. Cons. Delib ES Rita de Cássia Marques da Silva (Garajau), Membro Efet.
Cons. Delib. SP Roberto Daniel Negrete, Suplente Cons. Deliberat. SP Luciana
Teperman, Suplente Cons. Deliberat. SP Maria do Carmo Brandini, Suplente
Cons. Deliberat. SP Terezinha Nigri Basiches, Membro Efet. Cons. Fiscal DF
Denise Fátima de Faria Zuba, Membro Efet. Cons. Fiscal SP Marília Brunetti
de Campos Veiga, Membro Efet. Cons. Fiscal SP Maurício Peres Queiroz dos
Santos, Suplente Cons. Fiscal RJ Ana Maria de Siqueira Índio da Costa,
Suplente Cons. Fiscal BA Eneida Márcia da Silva Alves, Suplente Cons. Fiscal
MG Jaqueline Miranda Frauches
Sugestões
[email protected]
Os artigos assinados são de exclusiva responsabilidade
dos autores e não refletem a opinião da revista.
abd conceitual nov/dez 2012
020
abd conceitual nov/dez 2012
060 azulejos
orA,
pois!
A história do patrimônio
azulejar português
texto Luan SiLva
fotos sHutteRstoCK
novembro/dezembro 2012
Revisão Ana Cecilia Chiesi
Ciclo de cores
Amigos e parceiros,
A primeira edição da revista ABD Conceitual surgiu em
março de 2012. Naquele início, como é comum acontecer em
estréias, tínhamos mais dúvidas que certezas sobre o êxito
deste novo projeto. Será que a revista daria certo? Será que
atingiríamos os objetivos propostos? Será que conseguiríamos agregar valor ao segmento de design de interiores?
As respostas para essas questões vieram com a sequência editorial da publicação. De modo rápido, expandimos
ideias, temas, abordagens e, agora – após esmiuçar a clareza
do branco, o dinamismo do vermelho, a sustentabilidade do
verde e a alegria do amarelo – posso afirmar com convicção:
sim, nós conseguimos!
E para celebrar essa sensação de dever cumprido, nada
mais apropriado que fechar 2012 em azuis.
Azuis que acalmam; azuis que levam à reflexão; azuis que
ajudam a clarear as ideias; azuis do mar, do céu – e da liberdade que move todo ser em movimento.
Ser como Verner Panton ou Eero Saarinen ou Arne Jacobsen e outros “vikings” que transformaram a gelada Escandinávia em referência de design limpo, simples e bonito. Ser
como Eric Cahan, fotógrafo de Nova York que nos apresenta “Sky Series”, conjunto de imagens do nascer e do pôr do
sol que mostram as múltiplas cores do céu.
Tem mais: mergulhamos nas piscinas azuis da Califórnia,
visitamos A Casa Azul de Frida Kahlo, resgatamos a história
dos azulejos portugueses, discutimos a fotografia como obra
de coleção e decoração, analisamos a casa como espaço de
determinação individual, desnudamos os “corpos azuis” do
artista plástico francês Yves Klein.
Com o azul, finalizamos o tema Cores. Em 2013, seguiremos com a nossa proposta de informar, debater, inspirar, provocar, surpreender e levar aos profissionais
de design de interiores uma revista
em sintonia com este novo mundo:
mais dinâmico, colaborativo, impermanente. Até lá!
Carolina Szabó
04
sumário
54
34
50
048 MERCADO ABERTO
068 FOTO CHOQUE
ABD premia novos talentos do
design de interiores
A fotografia como obra de arte
011 O TEOREMA DO AZUL
050 EQUILÍBRIO PSICOFÍSICO
Azul-claro, azul-bebê, azul-marinho,
azul-turquesa. Azuis: epílogo de 2012;
início de outros estudos
Parco Acque: spa e centro de
bem-estar em Gubbio, na Itália
Como nós, designers, queremos
ser lembrados? Panteras ou ratos?
Por Fabio Galeazzo
020 PODER VIKING
054 ORA, POIS!
078 OBSERVADOR DO MUNDO
A história do patrimônio
azulejar português
Jean Royère: um dos últimos decoradores
integrais. Por Roberto Negrete
060 AMBIENTES POSSÍVEIS
080 REDAÇÃO FINAL
Yves Klein e a busca pelo azul perfeito
Se vibramos em alta frequência
nas ruas, procuramos em casa
um reduto de tranquilidade
Evento da ABD debate projeto que
regulamenta profissão de designer
de interiores. Por Jéthero Cardoso
030 NEM TUDO É AZUL
066 “NUNCA PINTEI SONHOS” 082 ENSAIO SOBRE O AZUL
As cores do céu nas imagens
do fotógrafo americano Eric Cahan
A Casa Azul de Frida Kahlo e Diego Rivera
O design que vem do frio da
Escandinávia: looks futuristas, desenhos
limpos, formas puras
026 PINCÉIS VIVOS
034 SPLISH SPLASH
Cultura alternativa surgida na Califórnia
na década de 1960, o skate inspira
ambientes e mobiliário
046 PENSAMENTO-COR
John Gage e a investigação histórica das
motivações humanas que orientam a
escolha de uma determinada cor
abd conceitual nov/dez 2012
O espetáculo de dança contemporânea
da bailarina Mariana Mello
20
Na ensolarada Califórnia, a piscina
é uma instituição. Conheça a história
desse playground aquático que
virou mania mundial
040 SKATE SHAPE
076 ÉTICA & ESTÉTICA
40
CADE RNOINSIDE
texto eduardo logullo
design papanapa
A cor azul traz um chamado distante. Planícies de sonho. O torpor dos primeiros degraus do sono. Existe enigma no azul. Talvez por associar-se a imensas expansões
do mundo natural: céu, mar, ar. O pingo no
olho, a caverna, o buraco submarino, a queda livre, a madrugada calma dos contos de
Christian Andersen, o chuvisco que chapisca, a poça d’água que respinga, o cabelo azul
das velhas de Miami, o halo dos deuses hinduístas. Azul mistura medo e surpresa. Nem sei
bem porquê. Vai, azulão.
O pássaro azulão é tão azul que se torna preto e tão preto
que se torna azul. O canto do azulão é triste quando está na
gaiola. O azulão canta de tristeza e os imbecis acham lindo. A solidão do azulão é um azul atroz. Ao mesmo tempo,
o azulão sabe que a liberdade é azul.
Em inglês, azul é blue. E o termo blue também pode significar triste. E o canto dos blues é triste, triste, triste. O blues
paralisa. Cutuca. Futuca. Machuca. Desalenta. Dói. Billie
Holiday usava sombra azul e engolia calada a sua dor de
azulão urbano. Uma mulher que engoliu o azul para sempre.
E nunca mais morreu, mesmo deixando de existir. Os blues
dela deram essa permanência de intensidade. Azulona pessoa, azulona negona, azulona persona.
Mas podemos pensar ainda no azul-claro, que vem a ser
um primo cara-pálida do azul. O azul-claro é enternecedor
e capaz de levantar semblantes derrubados em questão de
segundos. E se você pintar a parede do escritório de azul-claro, haverá um acesso de sono coletivo: trata-se de um
tom que existe para não provocar, porém acalmar. Iemanjá é
sereia e usa um vestidão azul. Se Iemanjá vestisse vermelho,
o mar nunca serenaria e ela perderia o titulo de sereia para
virar sirigaita. E vamos combinar que orixá de fundo do mar
não pode ser sirigaita nem vestir vermelho. Então deixa
ela lá com o azul-claro dela e pronto. Pra quê discutir
com tonalidades?
Existe também o azul-bebê. Evidentemente vamos pulá-lo e trancafiá-lo numa masmorra para que dali nunca
mais volte, pois bebês ficam bem de cores vivas, ora.
O azul-bebê é invenção de alguma enfermeira de berçário. Neurótica. Pudera: as pessoas acham que quanto
mais fraco o tom do azul, menos intenso será o choro
p e d ra
preciosa
do bebê. Então as mães acreditam e surge a simpatia,
a adoção generalizada, a empatia pelo azul mais sem
A
R
graça do sistema solar, o azul-bebê. Roxo nele.
Agora chamamos ao microfone o azul-turquesa. Palmas,
auditório. Silêncio. Silêncio. Bom, pode voltar ao seu
lugar na platéia, azul-turquesa. Não fique triste, existe
turquia
turquinha muniz
de souza
muita gente que gosta de você. Juro. Você tem um tom
meio esverdeado, diferenciado, sei lá. Algumas pesA que você
R é envolvente, refrescante
soas Mconsideram
e tranquilizante. O problema é que quase ninguém sabe
de onde vem esse nome composto. Turquesa? Mas na
Turquia tudo é vermelho. Olha que procurei, viu. Será
a z u l - t u r q u es a
da pedra preciosa? Nada de explicações. Talvez você,
azul-turquesa, seja invenção da decoradora Turquinha Muniz de Souza, lá nos anos 1960. Satisfeito?
Palmas, auditório.
Bom, assim chegamos ao epílogo do nosso transcendental estudo das cores. Foi
azul, deu a zul, ganhou a zul, ficou a zul.
Qual a aura dessa cor tão popular no planeta? Por que as pessoas se identificam tanto com o azul? Mistérios, enigmas, névoas
da mente humana, brumas do conhecimento, precipícios do desconhecido, vibrações
óticas de Lakshmi, a deusa hindu que vive
cercada de azuis, azulzinhos, azulões, azulaços. O azul flutua no céu da vibração.
Azule-se. Como queríamos demonstrar.
016
design
Poder
viking
texto Amer Moussa
fotos Schnakenburg & Brahl Fotografi | divulgação
Design escandinavo:
looks futuristas, desenhos
limpos e formas puras
abd conceitual nov/dez 2012
Cadeiras Wave, da designer
dinamarquesa Nanna Ditzel;
e poltrona Very Round (2006),
de Louise Campbell
design
fotos Fritz Hansen | Brahl Fotografi | Brahl Fotografi
018
abd conceitual nov/dez 2012
Pesquisas afirmam que fitar o azul puro por determinado tempo diminui o ritmo cardíaco e a respiração. Hibernar. Baixar a frequência. Muita calma para
pensar e ter tempo para projetar – o novo. Em terras
geladas, o desenho dos objetos, o modo de produção e a usabilidade – ou tudo junto: o design – pode
ser decisivo para a sobrevivência humana.
Habitantes de países como Dinamarca, Suécia
e Noruega que o digam. Altamente funcional, o
design escandinavo é eficiente sem demandar elementos pesados. Tem como metas ser facilmente
transportável e ecologicamente produzido. E o mais
importante: acessível ao maior número possível de
consumidores, pois assim se mantém o equilíbrio
social necessário para um desenvolvimento comum.
Apesar da intensa industrialização, que dominou
o modo de produção mundial a partir do início do
século XIX, países como a Suécia conseguiram – diferentemente dos norte-americanos, por exemplo
– manter a independência das associações locais
de artesãos frente à voracidade do grande capital.
Em 1845, cria a Sociedade Sueca de Artesanato e
Desenho Industrial, que visava à evolução dos meios
de produção, porém sem perder o conhecimento
acumulado – ou seja, a tradição – dos pequenos
produtores.
Ao colocar em contato essas duas esferas – artesanato e indústria – fundou as bases de um modelo
progressista, que ficou conhecido como “instrustrial
arts”. Tal movimento acontecia não só no norte da
Europa. Foi uma resposta à brutalidade da Primeira Guerra, que exigiu dos artistas posturas revolucionária e não somente evolucionárias. As escolas
Bauhaus (Alemanha) e Vhkuthemas (União Soviética) foram férteis tentativas no sentido de produzir
uma síntese entre arte, artesanato e indústria.
O termo “design escandinavo” passou a ser difundido a partir dos anos 50, através de uma exposição
de mesmo nome que atravessou a América. Deste
momento em diante, o conceito de “scandinavian
way of living” começa a circular internacionalmente, tendo como base os mesmos princípios que nos
vem à mente até hoje: simplicidade, desenho limpo,
leveza, inspiração na natureza, clima e comportamento nórdicos (reclusão, introspecção), acessibilidade e disponibilidade a todos e, principalmente,
ênfase na alegria do ambiente doméstico.
Um dos grandes nomes desta safra é o dinamarquês Hans Wegner (1914-2007). Caudaloso, o
designer projetou mais de 500 cadeiras diferentes,
das quais 100 foram artigos de produção em massa.
O termo “design
escandinavo” surgiu
nos anos 1950, por meio de
uma exposição de mesmo nome
que atravessou a América
Poltronas Mondial (1978 e 2001),
de Nanna Ditzel; poltrona Bless You,
da dinamarquesa Louise Campbell.
Na página ao lado, Série 7 (1955),
de Arne Jacobsen
020
design
Poltrona The Egg,
modelo 3316,
desenhado por Arne
Jacobsen em 1958.
Abaixo, ambiente
com poltronas
da linha 3300 do
mesmo designer
Outro recordista é o seu conterrâneo Arne Jacobsen
(1902 - 1971). Arquiteto de formação desenhou edifícios, mobiliário, papel de parede e até talheres, mas
foram as cadeiras Ant – também conhecidas como
Formiga (1951) – e a Série 7 (1955) que, além de
ganharem diversos prêmios, se tornaram as cadeiras
de maior sucesso comercial do mundo.
O também dinamarquês Verner Panton (19261998), engenheiro e arquiteto, se enveredou pelo
mundo de cores e formas puras, destacando-se
principalmente pela cadeira Panton (1960) – a primeira peça de plástico executada através de um único ponto. Certa vez, provocou: “a maioria das pessoas passa a vida nas sombras, numa conformidade
abd conceitual nov/dez 2012
fotos Fritz Hansen | Brahl Fotografi | Keystone/Hulton Archive/Getty Images | Andreas von Einsiedel/VIEW/Corbis/Latinstock
Ao lado, poltronas The Icon-Familly, de Nanna Ditzel.
Abaixo, cadeiras suspensas de Verner Panton
“A maioria das pessoas passa a vida numa
conformidade bege. O propósito do meu trabalho é
provocá-las a usar a imaginação.” – Verner Panton
bege, mortalmente com medo de usar cores. O propósito principal do meu trabalho está em provocá-las para usar a imaginação”.
O arquiteto finlandês Eero Saarinen (1910-1961)
também vestiu a camisa da corrente escandinava
de design. Junto com Charles Eames, com quem trabalhou durante os anos em que viveu nos Estados
Unidos, desenvolveu diversos objetos premiados, inclusive aeroportos e monumentos. Espécie de Niemeyer ianque, devido à alta plasticidade e ousadia
no desenho, é o autor da cadeira Tulipa (1955), um
grande hit de elegância do mobiliário moderno.
Designers como Nanna Ditzel (1923–2005) e
Louise Campbell (1970) são outras que aparecem
como fortes representantes da cultura nórdica. A
contribuição desta para a cultura ocidental é indiscutível: inúmeros diretores, cineastas e fotógrafos
ainda utilizam mobiliário escandinavo sempre que
desejam compor um look futurista.
A estética do “objeto de consumo de massa com
um toque de graça” tem o poder de lembrar ao usuário que o criador do produto é humano. n
Ambiente de apartamento em Londres com cadeiras
e mesa criadas pelo designer finlandês Eero Saarinen
022
arte
PINCÉIS VIVOS
Yves Klein: do vazio fez-se o azul
texto Lucas Magno
É b e m ali , e n t r e o céu e a t e r r a ,
diluindo a linha do horizonte e expandindo-se ao
infinito, em um feixe de cor azulada, saturada e luminosa, que encontramos Yves Klein.
Precursor da arte contemporânea, já anunciava
por acaso uma das maiores características dos artistas pós-modernos: a multiplicidade dos suportes
de criação. Conhecido como pintor, mas não por
esse único ofício, experimentou tudo: fotografia,
escultura, literatura, música, performance. Para
Klein, como na série de obras com esponjas, não
havia limites para absorver suas ideias.
O ano é 1928, período de entre guerras. Por aqui,
surgia o Movimento Antropofágico e, em Nice, cidade francesa rodeada pelo azul, nascia Yves Klein,
filho de pintores. Seu pai era paisagista e sua mãe
pertencia à vanguarda parisiense da Art Informel.
Sem formação acadêmica no campo das artes, foi
autodidata e teve seu desenvolvimento intelectual provocado pelas viagens que realizou. Em uma
passagem pelo Japão, torna-se mestre em judô e se
aprofunda nos estudos da teoria zen-budista, que
iria predominar na convergência entre criação e filosofia – eixo central das ideias dos seus trabalhos.
A trajetória de Klein com as cores é marcada por
três momentos: o dourado, o rosa e o azul. Azul IKB
(International Klein Blue) foi a cor que o tornou célebre. Para conseguir o tom exato, passou por um ano
de experimentos, misturando pigmentos ao lado de
seu amigo, o químico Edouard Adam. Assim, após
patentear a sua invenção e começar a usá-la, suas
obras se tornam únicas – tanto em conceito quanto
em técnica, mas especialmente em cor. Foi esse azul
ultramarino que virou o seu maior signo.
A monocromia e a ação da natureza eram duas
constantes nas obras de Klein. Pintou uma série
de quadros seguindo o primeiro conceito. Usava a
ação da chuva e do fogo para criar imagens, esculpiu o ar em sua obra de 1001 balões, obviamente
na cor IKB, que voaram livres por Paris. Elevou seu
trabalho a uma zona pictórica imaterial.
Precursor da arte
contemporânea,
Yves Klein experimentou
tudo: fotografia,
escultura, literatura,
música, performance
Acima, Monique (ANT 57), 1960, 115 x 96 cm. Na página ao lado,
Héléna (ANT 50), 1960, 109 x 75 cm. Ambas: pigmento puro e resina
sintética sobre papel colado sobre tela
abd conceitual nov/dez 2012
arte
fotos Harry Shunk-John Kender | Yves Klein, ADAGP, Paris | Harry Shunk-John Kender | Roy Lichtenstein Foundation
024
abd conceitual nov/dez 2012
Muito antes de 2008, quando, no circuito artístico brasileiro, aconteceu a Bienal do Vazio, gerando protestos e ira, Klein buscava esse mesmo
vazio (uma área livre de referências externas) e já
tinha executado a ideia em 1957. Mas foi três anos
depois, em 1960, que começam suas principais
rupturas com o sistema vigente de fazer arte, oficializando sua busca por novas linguagens e pela
singularidade coletiva. Klein e outros artistas criam
o movimento dos Novos Realistas.
Em março do mesmo ano, fez barulho com a série de obras “Anthropométrie de l›Époque Bleue”.
Em uma exposição-performance, abandonou um
dos materiais-símbolos do pintor: o pincel, e apresentou três modelos nuas se lambuzando de tinta
azul. Na parede e no chão, tiras de papel formavam
grandes telas, e as três mulheres manchadas de
azul se movimentavam sobre as superfícies. Livres
à aleatoriedade do ato, decalcando os corpos com
a fluidez do movimento, eram orquestradas por
Klein e moviam-se no ritmo da Sinfonia Monótona,
criada pelo artista em 1949 e executada por músicos presentes. Eram pinceis vivos. E o resultado são
corpos impressos, figuras que remetem à pintura
rupestre. Mais uma ironia do artista, estética tão arcaica e técnica tão moderna.
Em outubro de 1960, Klein publica “Le Sault dans
Le Vide”, fotomontagem que sintetiza bem sua carreira curta e intensa. Era ele, saltando de um prédio,
rumo ao vazio. Vazio que ultrapassa limites de tempo e espaço. De braços abertos para o risco e para
o futuro, voando em direção à imensidão azul que
o guiou. Klein se jogou em direção ao amanhã. O
amanhã que sempre se faz presente.
Como diria o filósofo francês Bachelard: “No início não há nada / depois um nada profundo / e
depois uma profundidade azul”. A profundidade
azul de Yves Klein. n
www.yveskleinarchives.org
Abaixo, exposição-performance “Anthropométrie de l’Époque Bleue”,
Paris, março de 1960. Na página ao lado, Héléna, (ANT 50), 1960, 218 x 151 cm,
pigmento puro e resina sintética sobre papel colado sobre tela
A trajetória de Klein com
as cores é marcada por três
momentos: o dourado,
o rosa e o azul. Foi o azul IKB
que o tornou célebre
026
fotografia
nem
tudo é
azul
texto marcos guinoza
As cores do céu nas
imagens do fotógrafo
Eric Cahan
abd conceitual nov/dez 2012
028
fotografia
At ra í d o pe l a l u z nat u ra l , a luz solar,
Eric Cahan apontou a lente da sua câmera para o alto
a fim de capturar as ondas de luz que colorem o céu.
A esse conjunto de imagens ele deu o nome de “Sky
Series”. Cahan mora em Nova York. Além de fotógrafo,
é escultor. Para alcançar as cores desejadas, utiliza
filtros de resina e, depois, faz ajustes no Photoshop.
Mas Cahan conta que o processo de encontrar os tons
certos é intuitivo: “No registro, sinto a cor que precisa
ser destacada, que quer aparecer.”
As imagens de “Sky Series” mostram o nascer e o
abd conceitual nov/dez 2012
pôr do sol em lugares como Califórnia, Flórida, Nova
York e Costa Rica. Sobre esses dois momentos de maior
beleza da luz solar, o fotógrafo explica: “O nascer do sol
normalmente tem uma camada marinha e o céu tem
menos nuvens. Se esperar pela hora certa, pode-se ver
um brilho claro antes de o sol nascer. Em um pôr do sol,
as cores são mais saturadas.”
Não é simples fotografar o céu com olhar próprio, sem
cair no lugar-comum dos retratos banais com a luz do sol
ao fundo. Eric Cahan consegue. n
ericcahan.com
030
piscina
SplishSplash
Um histórico das piscinas,
esse playground aquático
que virou mania mundial
fotos Archive Photos/Moviepix/Getty Images | shutterstock
texto Amer Moussa
Na página ao lado, a atriz Esther Williams no filme A Rainha do Mar, de 1952.
Sobre ela, dizem que, seca, era como as outras; molhada, virava uma estrela

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