MENEZES, Francisco Xavier de - Timor Leste – History Anthropology

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MENEZES, Francisco Xavier de - Timor Leste – History Anthropology
L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies HISTORY AND ANTHROPOLOGY OF PORTUGUESE TIMOR ONLINE DICTIONARY OF BIOGRAPHIES * Francisco Xavier Aleixo Santana de Menezes * Lúcio Sousa Universidade Aberta [email protected] You are welcome to cite this biography, but please reference it appropriately – for instance in the following form: Lúcio Sousa, “Francisco Xavier de Menezes”, in Ricardo Roque (org.), History and Anthropology of “Portuguese Timor”, 1850-­‐1975. An Online Dictionary of Biographies, available at http://www.historyanthropologytimor.org/ (downloaded on [date of access]) 1 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies Francisco Xavier de Menezes nasceu a 29 de agosto de 1929 em Curtorim, Goa, e faleceu a 3 de Outubro de 2006 em Portugal, com 77 anos. Conhecido principalmente pela sua obra “Contacto de Culturas em Timor”, de 1968, o autor tem um percurso de vida intimamente relacionado com Timor-­‐Leste. A sua formação académica superior inicia-­‐se na India com a obtenção em 1950 do bacharelato em Comércio na Universidade de Delhi. Em 1954, já em Lisboa, conclui o curso de Administração Ultramarina no Instituto Superior de Estudos Ultramarinos. É neste instituto, entretanto rebaptizado Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas, que conclui em 1968, na qualidade de bolseiro da província de Timor, o Curso Complementar de Estudos Ultramarinos, para o qual elabora a dissertação “Contacto de Culturas em Timor”. Ermera, 1964: Francisco Xavier de Menezes (ao centro) na recepção a Silva Cunha, Subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, acompanhado do Governador José Alberty Correia. À esquerda, na margem da foto, o Liurai Guilherme Gonçalves, de Atsabe. ©Foto de arquivo pessoal de Ângela Massa. A relação de Francisco Xavier de Menezes com Timor-­‐Leste desenrola-­‐se em dois períodos distintos da sua vida: o primeiro entre 1958 e 1971 e o segundo entre 2000 e 2006. Na primeira fase é o jovem licenciado em estudos ultramarinos que até 1965 é administrador, sucessivamente, em Viqueque, Baucau e Ermera. Interrompe a estadia para se deslocar a Lisboa a fim de realizar o Curso Complementar de Estudos 2 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies Ultramarinos, que termina em 1968. Regressa de novo ao território onde assume a presidência da câmara de Díli e, na ausência do juiz da comarca, assegura a sua substituição. A partir de 1969 desempenha, em acumulação, a direcção do Centro de Informação e Turismo1. Teve ainda a incumbência de presidir à Comissão de Festas do II Centenário da Fundação da Cidade de Díli (1769-­‐1969). Entre 1973 e 1975 Francisco Xavier de Menezes vive em Angola onde desempenha funções como adjunto do governador do Distrito de Malange e Chefe Distrital de Administração Civil. De 1974 a 1975 foi encarregado do governo e, de seguida, Governador do Distrito de Cuando-­‐Cubango. Após 1975 regressa a Portugal. Entre 1976 e 1978 lecciona no ensino secundário particular e, entre 1978 e 1995, trabalha para a sociedade de construções Soares da Costa S.A.. Nesta fase, para além da sua actividade profissional, o autor envolve-­‐se em actividades académicas relacionadas com Timor-­‐Leste. Entre as várias conferências em que participa destacam-­‐se as proferidas nas décadas de oitenta e noventa no Museu Nacional de Antropologia (1988), nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto (1989) onde, para além das comunicações proferidas, na qualidade de sociólogo, participa nas representações culturais de práticas rituais e danças timorenses, adquirindo o estatuto de Lian-­‐nain, veia poética que manifesta2. Outras comunicações registam-­‐se no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, na Universidade Nova de Lisboa e na Universidade Católica de Lisboa (1991). É na sequência do referendo de 1999 em Timor-­‐Leste que Francisco Xavier de Menezes, entretanto reformado, regressa ao território. O regresso concretiza-­‐se em 2000, após se ter candidatado a assessor das Nações Unidas. Permaneceu depois em Timor até 2006. Ao longo destes anos desempenhou funções como conselheiro em vários gabinetes das Nações Unidas durante o período de transição e, após 2002, como assessor cultural no Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, assessorando José Ramos Horta. Durante Este período é reeditado o seu trabalho de 1968 com o 1
Onde chefia, entre outros, um jovem timorense: Ramos Horta. 2 A participação nestas jornadas parece ter sido um momento importante para o autor. De facto, tendo sido convidado a participar por um dia acabou por ficar a semana inteira, participando nos trabalhos e, em particular nas actividades culturais que animaram o evento. Assumiu o papel de lian nain (senhor da palavra) para proferir poemas e participar na representação, onde assume o papel de timorense (conforme se pode observar nas fotos). 3 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies nome de “Encontro de culturas em Timor-­‐Leste” (2006). Menos conhecida, a sua obra poética é editada, postumamente, em 2007 com o título “Timor, Uma paixão”, reunindo poemas escritos sobre Timor-­‐Leste entre 1989 e 2002. O percurso de Francisco Xavier de Menezes como funcionário da administração colonial em Timor português foi marcado entre 1958 e 1967 pelo seu papel como administrador em três distritos: Viqueque, Baucau e Ermera3, e a presidência do município de Dili, uma experiência que lhe permite uma visão abrangente da realidade social e cultural timorense. É nesta vivência prolongada, e próxima, que obtém competências linguísticas, sobretudo no Tétum. Como o autor revelou, a sua experiência de vida e a sua ligação afectiva com o território foram determinantes para se candidatar em 2000 e regressar, apesar da idade avançada e das condições existentes, porque “(…) I feel that I have a debt of honour to the people of East Timor (…)”. (CV, versão inglesa). Tendo por base uma formação administrativa, a relação com a academia e a antropologia em particular, adensa-­‐se, sobretudo, com a estadia em Lisboa em 1968. Todavia, Menezes reclama no seu CV a colaboração com a missão de antropologia de Timor coordenada por António de Almeida4. A obra antropológica de Francisco Xavier de Menezes assenta sobretudo no seu trabalho de 1968 “Contacto de Culturas em Timor”, realizado sob a orientação do Professor António de Almeida. Todavia, o autor reconhece o papel que teve na opção, e incentivo, o Professor João Pereira Neto. Apesar de pouco conhecida, a actualidade da obra é destacada no prefácio da edição de 2006 de Contacto de Culturas, redigido pelo Bispo D. Ximenes Belo. A obra, que revela uma perspectiva diacrónica de uma realidade colonial (Hicks 2011) pouco comum na altura, continua a ser pertinente para a compreensão dos processos de mudança em Timor-­‐Leste. Na esteira de trabalhos similares que procuram analisar o processo de contactos de cultura, a obra divide-­‐se em duas partes. A primeira apresenta as 3 . Em Ermera, Francisco Xavier de Menezes conhece a sua mulher, Ângela Massa, com quem se casa em 1962. 4
A “Missão Antropológica de Timor” foi criada a 8 de junho de 1953 e desenrolou-­‐se em três momentos distintos: 1953-­‐1954, 1957 e 1963 (Roque e Marques, 2010). O contacto com a missão, na qualidade de chefe de posto de Ermera, é reportado por António Marques Júnior no seu diário relativo à missão de 1963 (Fonte: Diário de Viagem -­‐ 1963 de António de Almeida Marques Júnior. Agradeço a Rita Poloni esta informação). 4 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies “características da sociedade tradicional timorense” considerando as suas instituições económicas, sociais (onde se incluem as políticas) e religiosas. Estas mesmas instituições são objecto de análise, na segunda parte, em que que são analisadas as “consequências do contacto”. A primeira parte do trabalho assenta numa pesquisa bibliográfica e arquivística com o objectivo de caracterizar a sociedade timorense entre o século XVI e os anos de 1913, ano da “pacificação definitiva” das campanhas de Filomeno da Câmara. A segunda parte do trabalho firma-­‐se na experiência pessoal do autor, em que a sua proficiência do domínio da língua tétum se destaca. O trabalho tem ainda uma dimensão eminentemente aplicada, procurando promover uma administração assente no conhecimento do outro, valorizando o papel que a antropologia, e o antropólogo, podem ter no fornecimento de dados ao “administrador”, abordagem que se inspira em Radcliffe-­‐Brown. O recurso a bibliografia antropológica ecléctica, em que se contam inclusive autores da corrente dinamista francesa, manifesta uma preocupação em problematizar teoricamente os temas, nomeadamente nas componentes económica e política. Embora reconheça erros no comportamento dos portugueses, a tese essencial reside na possibilidade da abordagem lusotropical, na esteira de Gilberto Freyre e Jorge Dias, na promoção de um “humanismo integral” que caracterizaria a forma de estar do português no mundo. Estas mesmas ideias, sobretudo baseadas na vertente da língua e da religião, vão animar o autor ao longo dos anos oitenta e noventa, embora matizadas pela nova realidade pós-­‐colonial. Trabalhos como “Contacto de Culturas no Timor-­‐Leste” (2002), “Abordagem histórica e cultural de Timor” (s.d.) e “Aspectos do processo colonizador de Timor” (s.d.), expressam a continuidade desta linha de pensamento. Observa-­‐se todavia que os textos procuram individualizar a emergência da nova Nação, agora ocupada. É interessante examinar que, neste contexto, a identidade desta nova realidade política não é indistinta da herança colonial portuguesa, que continua a considerar diferente daquela que ocorreu na Indonésia com a Holanda, Embora a sua abordagem metodológica seja de caracter extensivo, emerge no campo etnográfico outro conjunto de textos que manifesta uma preocupação crescente com os Timorenses enquanto actores sociais, defendendo a lógica das realidades locais como legitimadoras das práticas examinadas. É de destacar, entre os 5 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies textos acedidos “O timorense Predador ou Ecologista?”, trabalho em que Menezes analisa a relação entre o homem e o ambiente, tendo a noção de “lulik”, o sagrado, como elemento central no ordenamento e gestão do território. Outro texto, ilustrativo desta abordagem, é “O búfalo na Etnologia de Timor”5 em que é realçado o papel simbólico e económico deste animal na vida socioeconómica do timorense. Se o primeiro grupo de trabalhos se expressa com base em extensa resenha bibliográfica multidisciplinar, o segundo grupo de textos, com nenhuma bibliografia ou com referências a autores com trabalhos predominantemente etnográficos, permitem estabelecer um diálogo com a experiência e convicção pessoal do autor. As participações de Francisco Xavier de Menezes em colóquios e congressos resultam na publicação de alguns dos seus textos. Todavia, a maioria destes contributos não foram publicados e carecem de compilação. A figura do homem, esse “(…) luso-­‐indiano (…) que se inseriu nas Jornadas como se timorense fosse, de tal modo conhecia as línguas e os costumes de Timor (…)” (Magalhães e Fonseca. 1989; 9)6, torna-­‐se num interessante exemplo de história de vida na intersecção das complexas relações entretecidas pela dinâmica colonial portuguesa, bem como pelos seus efeitos pós-­‐coloniais. Nos estudos sobre Timor-­‐
Leste, e em particular no domínio dos processos de contacto de culturas e aculturação, o seu trabalho tem uma pertinência acrescida e necessita de uma maior atenção. Lúcio Sousa Maio 2013 5
Em 2005 pude conversar com Francisco Xavier de Menezes no seu gabinete no Palácio Governamental em Díli. Recordo-­‐me da franca apreciação da situação da realidade de edificação da nova Nação e o seu interesse acrescido na realidade etnográfica timorense. 6
Na lista de participantes das Jornadas está incluído entre os “participantes timorenses”. 6 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies Bibliografia do autor sobre Timor-­‐Leste: * sendo um autor com poucas publicações optou-­‐se por apresentar as comunicações indicadas no CV em versão portuguesa, mas cujo original não foi possível obter durante a preparação deste trabalho, esperando-­‐se que a sua inclusão permita uma eventual pesquisa posterior. Menezes indica igualmente no seu CV, versão portuguesa, que colaborou com o Jornal “A Voz de Timor”, “A Província de Angola”, “Northern Territory News” (Austrália) e o Século. *MENEZES, Francisco Xavier. 1968. Perspectivas de Aculturação no Timor Português. Sociedade de Geografia de Lisboa. Núcleo do Oriente. MENEZES, Francisco Xavier. 1968. Contacto de culturas no Timor Português. Contribuição para o seu estudo. Instituto Superior das Ciências Sociais e Políticas Ultramarinas. Lisboa. * MENEZES, Francisco Xavier. 1981. Timor Leste. Uma expansão Cristocêntrica. II Jornadas na Universidade do Porto. 1981. * MENEZES, Francisco Xavier. 1985. A organização do Trabalho no Timor Oriental. In Actas do V Colóquio Europeu de Estudos sobre a Insulíndia. Edição da Universidade de Évora [citado in Búfalo na Etnologia de Timor] * MENEZES, Francisco Xavier. 1987. O Povo Timorense e Suas Características Lúdicas e Dinâmicas. MENEZES, Francisco Xavier. 1988. O Búfalo na Etnologia de Timor. Museu Nacional de Antropologia [sic]. 8p. [referido igualmente nas Primeiras Jornadas de Timor da Universidade do Porto, 1989]7. MENEZES, Francisco Xavier. 1989. O Timorense Predador ou Ecologista. s.d. 7p. [surge indicado no CV como tendo sido proferido nas III Jornadas, Universidade do Porto]. * MENEZES, Francisco Xavier. 1989. Timor-­‐Leste. Da Utopia para a realidade. III Jornadas, Universidade do Porto. * MENEZES, Francisco Xavier. 1991. A Segurança Social na Sociedade Tradicional Timorense. I Congresso nacional de Antropologia de Timor. Lisboa. * MENEZES, Francisco Xavier. 1991. Timor-­‐ Que perspectivas? Universidade Católica. Lisboa. 1991 7 Este texto deverá ter uma origem anterior. De facto, um exemplar deste trabalho encontra-­‐se no espólio de Ruy Cinatti, falecido em 1986, na Biblioteca Universitária João Paulo II, Pasta Timor`s D II. 7 L. SOUSA http://www.historyanthropologytimor.org/ Dictionary of Biographies MENEZES, Francisco Xavier. s.d.. Abordagem histórica e cultural de Timor. policopiado. 15 p. MENEZES, Francisco Xavier. s.d.. Aspectos do processo colonizador de Timor. policopiado. 16p. MENEZES, Francisco Xavier. 1992. Contacto de Culturas no Timor Leste. Lisboa. Instituto Oriental. pp. 221-­‐234. * MENEZES, Francisco Xavier. 1992. Timor Leste e as Suas Instituições (caracterização geral). Liceu de Oeiras. * MENEZES, Francisco Xavier. 1992. Timor Leste e as Suas Atribulações. Colégio Casapiano D. Maria I e Liceu de Cascais. MENEZES, Francisco Xavier. 2006. Encontro de Culturas em Timor-­‐Leste (Contribuição para o seu estudo). Díli. Crocodilo Azul. 2006 [reedição da obra de 1968] MENEZES, Francisco Xavier. 2007. Timor, Uma Paixão (poemas). Díli. Crocodilo Azul. Fontes citadas: HICKS, David. 2011. “A Pesquisa Etnográfica no Timor Português”. In Kelly Silva e Lúcio Sousa. Ita Maun Alin… o livro do irmão mais novo. Afinidades antropológicas em torno de Timor-­‐Leste. Lisboa. Edições Colibri. MAGALHÃES, A. Barbado e FONSECA, Paula Isabel. 1989. Primeiras Jornadas de Timor da Universidade do Porto. Reitoria. Universidade do Porto. MENEZES, Francisco Xavier. s.d. Curriculum Vitae (versão inglesa). Policopiado. 3p. MENEZES, Francisco Xavier. s.d. Curriculum Vitae (versão portuguesa). Policopiado. 4p. ROQUE, Ana Cristina e MARQUES, Vítor Rosado (2010), “A Missão Antropológica de Timor no contexto das Missões Científicas Portuguesas”, in Viagens e Missões Científicas nos Trópicos 1883-­‐2010. Lisboa: IICT, pp. 73-­‐77. Agradecimentos: A Ângela Massa pela atenção dada, a documentação facultada e a autorização para o seu uso em contexto académico. 8 

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