Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica Ano 2 n.2

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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica Ano 2 n.2
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RevistaMultidisciplinar
Multidisciplinarde
deIniciação
IniciaçãoCientífica
Científica | |
Revista
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Ficha Catalográfica
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica / Centro
Universitário UniSEB – COC. Ano 1. n. 1 (jan. 2009) -.- Ribeirão
Preto, SP : UNICOC, 2009.
Ano 2. n. 2 (dez. 2010)
Anual
ISSN: 2178-1993 (versão impressa)
1. Educação. 2. Pesquisa Científica. 3. Multidisciplinaridade.
4. Ambiente. 5. Comportamento. I. Centro Universitário UniSEBCOC. II. Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
| A SAÚDE E A INTEGRIDADE DO TRABALHADOR COMO UM DIREITO FUNDAMENTAL: UMA REFLEXÃO TEÓRICA |
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| A SAÚDE E A INTEGRIDADE DO TRABALHADOR COMO UM DIREITO FUNDAMENTAL: UMA REFLEXÃO TEÓRICA |
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Um Estudo sobre o Comportamento dos
Clientes de Produtos de Limpeza na Região
de Ribeirão Preto – SP
Lucas Colucci1
Renan Roberto Bardine1
Fernando Scandiuzzi 2
1. RESUMO
O mercado brasileiro de produtos de
limpeza apresenta uma acirrada concorrência entre as empresas nacionais e internacionais, isso se deve principalmente as expectativas de que o setor continuará crescendo
acima do PIB nacional como já vem ocorrendo ao longo dos últimos anos, tal fato é um
grande estímulo para as mesmas, visto que
o Brasil apresenta um baixo consumo desses produtos se comparado a outros países,
mas atualmente apresenta uma demanda em
constante alta. O presente trabalho visa atingir os consumidores de produtos de limpeza
tendo como delimitação a região de Ribeirão
Preto, buscando coletar informações sobre
os hábitos dessas pessoas (principalmente
o público feminino) que estão cada vez mais
exigentes. Foi realizado um levantamento
no qual as pessoas foram selecionadas para
compor uma amostra a ser analisada, totalizando 100 entrevistas com homens e mulheres de diferentes idades e classes sociais com
o objetivo de compreender quais são as variáveis mais importantes no processo de compra de produtos de limpeza para os consumidores dessa região e detectar os fatores mais
influentes e relevantes para satisfazer as suas
necessidades a fim de garantir a sua fidelização, bem como avaliar se estão realmente
satisfeitos com a qualidade dos produtos de
limpeza ofertados pelo mercado. Entre os
resultados mais relevantes do levantamento
realizado, observou-se que a compra de produtos de limpeza é feita principalmente em
supermercados com uma frequência mensal,
o gasto com os mesmos se concentra em uma
faixa de até R$ 100 e que perante as diversas
marcas existentes, uma se destacou como a
mais lembrada pelos entrevistados. Já em
relação às melhorias que poderiam ser feitas,
foram sugeridas que o produto seja menos
agressivo à saúde, possua um dosador, uma
fragrância duradoura, seja biodegradável, tenha uma embalagem mais prática e resistente, renda mais e que seja vendido a um preço
mais acessível. Por fim utilizou-se para o cruzamento dos resultados obtidos a partir dos
dados tabulados no Excel, o programa estatístico denominado SPSS, por meio do qual
se chegou à conclusão de que as variáveis
mais importantes no processo de compra de
produtos de limpeza para a região analisada
por este estudo são a qualidade e o preço que
os mesmos apresentam.
Palavras-chave: Produtos de limpeza,
comportamento dos consumidores, concorrência do setor.
1. ABSTRACT
The Brazilian market for cleaning
products has a fierce competition between domestic and international companies,
this is mainly due to expectations that the
sector will continue growing above the national GDP as has been occurring over the
past years, this fact is a major stimulus for
them, since Brazil has a low consumption of
these products compared to other countries,
1
Aluno do Curso de Administração do Centro Universitário UniSEB-COC
2 Docente do UniSEB COC
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but currently has a constantly high demand.
The present work aims to reach consumers
in cleaning products having as boundary
the region of Ribeirao Preto, seeking to gather information about the habits of those
people (mostly female audience) who are increasingly demanding. We conducted a survey in which people were selected to compose a sample to be analyzed, totaling 100
interviews with men and women of different
ages and social classes in order to understand what variables are most important in
the process of buying cleaning products for
consumers in this region and identify the
factors most influential and relevant to meet
their needs in order to ensure their loyalty,
and assess whether they are satisfied with
the quality of cleaning offered by the market. Among the most relevant results of the
survey, we found that the purchase of cleaning products is mainly done in supermarkets each month, spending on them focuses
on a range of up to $ 100 and that given the
various brands existing one stood out as the
most remembered by the interviewees. With
regard to improvements that could be made,
have been suggested that the product is less
aggressive to health, have a feeder, a lasting
fragrance, is biodegradable packaging has
a more practical and durable, and more income to be sold at a price accessible. Finally
it was used for the crossing of the results
obtained from the data entered in Excel, the
statistical program called SPSS, through
which came to the conclusion that the most
important variables in the process of buying
cleaning products for region analyzed in
this study are the quality and price that they
present.
Keywords: cleaning products, consumer behavior, competition in the industry.
cipalmente o público feminino) frente aos
produtos de limpeza doméstica, as estratégias das empresas do setor em relação às
novas tendências do mundo moderno e as
informações sobre os hábitos desses consumidores que estão cada vez mais exigentes.
O mercado brasileiro de produtos de
limpeza é muito concorrido, e isso se deve
principalmente a enorme variedade de itens
que podem ser escolhidos e a enorme quantidade de categorias existentes. (RBT, 2004).
Neste contexto de grande concorrência, há expectativas de que o setor continue
crescendo acima do PIB, Produto Interno
Bruto, como ocorreu nos últimos cinco anos.
Em 2009, o setor teve um faturamento estimado de R$ 12,2 bilhões registrando 7% de
aumento em relação a 2008 quando faturou R$ 11,4 bilhões. Em relação ao volume
de produtos comercializados, houve um aumento de 8% mesmo com a crise econômica
mundial (ABIPLA, 2009).
Para Kotler e Keller (2006), a satisfação do consumidor depende da sensação
de prazer ou descontentamento obtida após
a compra por meio da comparação entre o
desempenho percebido do produto ofertado
e as expectativas que o cliente alimentava sobre o mesmo.
Em relação ao comportamento de
compra, os autores afirmam que o consumidor sofre influência de fatores culturais, sociais, pessoais e psicológicos. Assim, de acordo com o exposto, fica clara a necessidade de
se conhecer melhor o perfil do consumidor
(principalmente o público feminino) deste
setor, com a finalidade de detectar as variáveis mais influentes e relevantes para satisfazer suas necessidades e garantir sua fidelização, bem como avaliar se este está realmente
satisfeito com a qualidade dos produtos de
limpeza ofertados pelo mercado.
1. Introdução
2. Conceitos Essenciais
O presente trabalho aborda o comportamento do consumidor brasileiro (prin-
O conceito central de Marketing segundo Kotler e Keller (2006) é a troca que
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envolve obter o produto desejado por meio
de alguém oferecendo alguma coisa em troca. Geralmente a troca implica a obtenção
de produtos por meio da oferta de dinheiro. Para que a troca ocorra é necessária a
existência de duas partes no mínimo, que as
mesmas tenham algo de valor para ambas,
que sejam capazes de se comunicar e de realizar entregas, que sejam livres para aceitar
ou recusar aquilo que lhes é ofertado e por
último, que estejam dispostas a participar da
negociação. A troca cria valor porque normalmente deixa as partes envolvidas em melhor situação do que já se encontravam.
Faz-se necessário também definir
alguns conceitos referentes à aplicação de
Marketing dos quais se destacam: os bens
tangíveis ou produtos que representam o
grande esforço de produção e marketing do
mundo atual em que as empresas, a internet
e até mesmos os indivíduos em si os comercializam buscando ser cada vez mais eficazes
nesse processo (KOTLER; KELLER, 2006).
Segundo Kotler e Keller (2006) o conjunto de compradores e vendedores que realizam transações de certos produtos ou classe de produtos denomina-se mercado. Para
Kotler e Armstrong (2007) os compradores
de um produto compartilham um desejo ou
uma necessidade semelhante que podem ser
satisfeitas através de trocas e relacionamentos. De acordo com Ferrell e Hartline (2006),
o termo mercado não mudou quanto a sua
definição, mas sim em relação a sua localização na medida em que os mercados estão
cada vez menos definidos pela geografia.
Faz-se necessário definir também
outros conceitos como: necessidades que
segundo Kotler e Keller (2006) são os requisitos humanos básicos para sobreviver e desejos que são necessidades voltadas a objetos
específicos que podem satisfazer um
Para os autores, os desejos são produtos da sociedade e o conjunto de desejos de
várias pessoas associadas pela capacidade de
compra das mesmas define o que denominase demanda. O Marketing não cria necessida-
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des, ele influencia desejos assim como outros
fatores sociais (KOTLER; KELLER, 2006).
Atualmente é raro uma empresa conseguir satisfazer todos os seus potenciais
clientes em um mercado. Por isso começouse a dividir o mercado em segmentos devido a diferenças demográficas, psicográficas
e comportamentais entre os consumidores.
Com a segmentação do mercado em grupos
distintos, as empresas passaram a decidir
em qual segmento atuar de acordo com as
oportunidades que cada um disponibiliza. O
grupo distinto do mercado que uma empresa
pretende atuar denomina-se mercado-alvo
(KOTLER; KELLER, 2006).
A partir do mercado-alvo definido, a
empresa desenvolve uma oferta de mercado
que seja posicionada para oferecer vários benefícios centrais aos seus compradores-alvo
para atender as necessidades dos mesmos
por meio de uma proposta de valor que pode
ser uma combinação de produtos, serviços,
informações e experiências (KOTLER; KELLER, 2006).
Para Kotler e Keller (2006), a marca
deve ser sólida, exclusiva, forte e favorável,
porque tem uma grande importância ao marketing para que os consumidores fiquem
cientes da existência de determinada organização e dos produtos ofertados pela mesma.
A oferta quando bem-sucedida proporciona
valor e satisfação. Valor segundo Kotler e
Armstrong (2007) demonstra os benefícios e
os custos tangíveis e intangíveis que são percebidos pelos consumidores. Quanto maior a
qualidade e o serviço ofertado maior o valor
percebido. De modo contrário o preço influi
no valor, em que quanto maior o preço menor será a percepção do valor.
Já a satisfação demonstra o julgamento comparativo de uma pessoa de acordo
com o desempenho de um produto ou serviço
por este percebido confrontado com as suas
expectativas. Se o desempenho supera as expectativas do cliente, maior a sua satisfação e
encantamento. Se caso contrário, e o desempenho não superar as expectativas, o cliente
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ficará desapontado e insatisfeito. Se o desempenho e as expectativas se equivalerem
o cliente fica satisfeito (KOTLER; KELLER,
2006).
3. Os Quatro Ps
Para Kotler e Armstrong (2007) a empresa precisa desenvolver um mix de marketing, orientada pela estratégia de marketing,
integrando o composto de fatores sob seu
controle – produto, preço, praça e promoção
conhecidos como os 4 Ps. Para encontrar a
melhor estratégia e seu mix de marketing, a
empresa precisa engajar-se na análise, planejamento, implementação e controle de
marketing, por meio do qual, observa-se a
sua adaptação aos participantes e às forças
do seu ambiente.
Entretanto para Baker (2005), os 4
Ps são basicamente um resumo da função de
marketing que é responsável pelo gerenciamento do mix de marketing. Ele destaca que
a adoção de uma orientação de marketing
não requer que a função de marketing deve
ser vista como a mais importante. A necessidade de uma função especializada de marketing em uma organização é provavelmente muito menor do que as empresas que são
dominadas por vendas ou produção.
3.1 Produto
Kotler e Armstrong (2007) definem
um produto como algo que pode ser oferecido a um mercado para apreciação, uso,
consumo ou aquisição e que pode satisfazer
desejos ou necessidades. Produtos são muito mais que bens tangíveis, além de objetos
físicos, incluem serviços, pessoas, eventos,
lugares, ideias, organizações ou um misto de
todas essas entidades.
Para Silk (2006), produto não é o
que se oferece em si, mas sim todo o conjunto conhecido como pacote total de benefícios
que é disponibilizado ao cliente. Para o autor
o produto deve ser sempre analisado a partir
do valor que o cliente recebe.
Por sua vez, Las Casas (2006) aponta
que o produto é a parte mais importante do
composto de marketing, as várias partes de
uma empresa se justificam pela sua existência. “Produtos podem ser definidos como o
objeto principal das relações de troca que podem ser oferecidos num mercado para pessoas físicas ou jurídicas, visando proporcionar
satisfação a quem os adquire ou consome.”
(LAS CASAS, 2006, p. 164).
3.2 Preço
Kotler e Armstrong (2007) indicam
que é fundamental para o sucesso de uma
empresa encontrar a estratégia certa de determinação de preços e implementá-la, até
mesmo para sua sobrevivência. A determinação de preços permite que a empresa seja
paga pelo valor que cria para os clientes,
essas decisões podem representar o sucesso
ou o fracasso de uma empresa. Já que após
a criação de valor para o cliente, a empresa
pode captar uma parcela do mesmo para ela
com o objetivo de financiar futuras ações
para desenvolver o valor, no caso tal processo representaria uma precificação eficaz
(SILK, 2006).
Kotler e Armstrong (2007) definem
preço de duas formas, no sentido estrito
como sendo a quantia em dinheiro que se
cobra por um produto e/ou serviço e em um
sentido mais amplo como sendo a soma de
todos os valores que os consumidores trocam
pelos benefícios de obter ou utilizar um produto e/ou serviço
Segundo Kotler e Armstrong (2007),
o único elemento do mix de marketing que
produz receita e um dos mais flexíveis é o
preço; todos os outros são custos. Os preços
podem ser alterados rapidamente, diferentemente das características dos produtos e dos
compromissos com os canais de distribuição.
O preço é também um dos maiores problemas que os executivos de marketing enfrentam, sendo que a precificação não é lidada
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muito bem pelas empresas.
Ainda de acordo com Kotler e Armstrong (2007), o teto para o preço de um
produto é estabelecido pelos custos e pelas
percepções que o consumidor tem do valor
do produto. Ele não o comprará se perceber
que o preço é maior que o valor do produto. É
preciso considerar diversos fatores externos
e internos ao estabelecer um preço entre esses dois extremos, incluindo as estratégias e
preços dos concorrentes, natureza do mercado e da demanda como também sua própria
estratégia e mix de marketing.
Las Casas (2006) afirma que quando
os produtos são desejados e aparecem em
pouca quantidade, os preços tendem a subir
para chegar ao equilíbrio entre produção e
consumo, porém, se um produto for muito
ofertado e sua procura for pequena, os preços tendem a diminuir para proporcionar o
desejado equilíbrio.
Para Silk (2006), existem duas estratégias de precificação, sendo estas: a
estratégia de skimming4 e a estratégia de
precificação de penetração. Na estratégia de
skimming, o cliente de alto valor é o foco,
ou seja, “retirar a nata”, a parte superior do
mercado oferecendo um produto diferenciado ou customizado o qual lhe é atribuído um
grande valor. Já na estratégia de precificação
de penetração, há o estabelecimento de um
preço mais baixo com o objetivo de gerar um
grande volume de vendas de maneira rápida
e de modo a antecipar a concorrência ganhando um significativo número de clientes
nos períodos iniciais.
3.3. Praça ou Distribuição
Para Silk (2006), os canais de marketing (praça) são o conjunto de mecanismos
da rede por meio do qual a organização se
dirige ao mercado para contatar seus clientes através de uma série de atividades para
geração de demanda até a entrega física dos
produtos.
4 “ Skimming” - palavra inglesa cujo significado é desnatação.
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Segundo Kotler e Armstrong (2007),
as empresas raramente trabalham sozinhas
na criação de valor para os clientes e no desenvolvimento de relacionamentos lucrativos com eles. Pelo contrário, as empresas
compõe um único elo em um canal de distribuição e uma cadeia de suprimentos mais
amplos. Com isso o sucesso individual de
uma empresa não depende apenas de seu desempenho, mas também da competitividade de todo seu canal de distribuição com os
canais dos concorrentes. Se a empresa quer
ser eficaz na gestão de relacionamento com o
cliente, ela também precisa ser eficaz na administração de relacionamento de parceria.
Las Casas (2006) afirma que somente
um produto e um preço adequado são insuficientes para assegurar as vendas, se faz necessária também uma forma eficiente de conduzir os produtos até os compradores finais,
senão o plano de marketing será deficiente,
pois os consumidores estão acostumados a
comprar em locais que lhes sejam acessíveis,
convenientes e disponíveis quando eles necessitam.
De acordo com o autor é através do
sistema de distribuição que o marketing proporciona utilidade de lugar e de tempo. Os
fabricantes elegem seus distribuidores para
que possam vender seus produtos nos locais
e tempo certos. O que é determinante para o
sucesso de uma estratégia mercadológica é a
colocação de produtos em estabelecimentos
apropriados e em épocas certas, o que nem
sempre é tarefa fácil podendo ser exigido até
mesmo uma reformulação na estratégia geral
de marketing.
Para Kotler e Keller (2006), as empresas utilizam intermediários quando elas
podem ganhar mais fazendo uso desses ou
quando lhes faltam recursos para trabalhar
com marketing direto. É por sua eficiência
em tornar as mercadorias largamente disponíveis e acessíveis aos mercados-alvo que os
intermediários são utilizados.
É preciso analisar as necessidades
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dos clientes para as decisões de qual tipo de
canal utilizar, além de estabelecer os objetivos do canal e identificar e avaliar as principais opções, inclusive os tipos e a quantidade
de intermediários a serem envolvidos no canal. Além disso, é preciso selecionar, treinar
e motivar os intermediários para um gerenciamento eficaz do canal e formar uma parceria duradoura que seja lucrativa para todos
os membros (KOTLER; KELLER, 2006).
3.4 Propaganda ou Comunicação
De acordo com Silk (2006), a propaganda (promoção) se refere ao conjunto de
maneiras de comunicação com os clientes
cuja finalidade é divulgar seu produto, suas
características, aumentar o interesse de compra dos consumidores, a chance de experimentar o produto e/ou repetir a compra.
Para Kotler e Armstrong (2007) a
propaganda envolve comunicar a proposição
de valor da empresa ou da marca utilizando
uma mídia paga para informar, persuadir e
lembrar os consumidores. Assim, de acordo
com os autores, o objetivo geral da propaganda consiste em ajudar a construir relacionamentos com o cliente pela comunicação
do valor para o cliente. É preciso contar com
grandes doses de discernimento e análise
quantitativa por parte dos gerentes para determinar os orçamentos de propaganda.
De acordo com Las Casas (2006) o
termo propaganda no Brasil é confundido
com publicidade, na verdade publicidade
refere-se à divulgação não paga, já a propaganda, segundo a Associação Americana de
Marketing, é qualquer forma paga de apresentação não pessoal de ideias, produtos ou
serviços, levada a efeito por um patrocinador
identificado.
Ainda segundo o autor, pode haver
dois tipos de propaganda, a promocional e
a institucional. A propaganda promocional
é realizada no intuito de estimular a venda
imediata, enquanto que a propaganda institucional visa divulgar marcas de produtos ou
a própria imagem da empresa, com a intenção de venda direta.
4. Comportamento do Consumidor
Segundo Solomon (2008), a percepção é um processo que envolve a seleção, a
organização e a interpretação de sensações
físicas como imagens, sons, odores e etc. que
são estímulos de marketing muito importantes para a avaliação do produto pelo consumidor. Por isso um estímulo deve apresentar
certo grau de intensidade para que possa ser
percebido pelos receptores sensoriais e também possa ser diferenciado por meio de mudanças de embalagem, alteração no tamanho
do produto ou redução de seu preço. Cada
vez mais os clientes buscam produtos que
ofereçam um valor hedônico superior além
do valor funcional, pois a maioria das marcas
apresenta desempenhos semelhantes e com
isso a estética do produto se tornou a alternativa a ser mais avaliada para a tomada de
decisão de compra.
Além disso, os indivíduos frequentemente utilizam a heurística (práticas mentais) para tomar a decisão sobre o que comprar por meio de muitas crenças que estes
desenvolvem ao longo da vida como a que o
preço está relacionado de maneira positiva
com a qualidade, que marcas conhecidas ou
o país de origem de determinado produto indicam qualidade e etc.. Tais fatores demonstram a lealdade das pessoas com certa marca
(produto) ou a inércia em se comprar o que é
mais fácil e prático para os mesmos (SOLOMON, 2008).
Para Churchill Jr. e Peter (2000), o
processo de compra de produtos e serviços se
inicia pelo reconhecimento de uma necessidade que pode vir de uma sensação interna
como a fome, cansaço e etc. ou estímulos
externos como um convite para uma festa. O
impulso interior para atender uma necessidade é denominado de motivação
De acordo com Kotler e Keller (2006),
a avaliação geral que um consumidor realiza
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a respeito de um objeto, comportamento ou
conceito denomina-se atitude, que determina do que este gosta ou não. Para Silk (2006),
atitudes definem-se como avaliações gerais
realizadas pelo indivíduo por meio de sua experiência ou através da busca de informação
de uma determinada marca ou produto.
Para Kotler e Keller (2006), após
o consumidor analisar todas as opções ele
toma a decisão de compra podendo agir
rapidamente se o produto estiver em liquidação, desistir da compra se nenhuma das
opções identificadas de fato não o satisfazer,
ou adiar a compra se o mesmo quiser economizar dinheiro.
As razões do porquê de um produto
ser comprado variam muito e a identificação
dos motivos pelos quais um consumidor realiza uma compra é muito importante para assegurar que um produto satisfará apropriadamente as necessidades e desejos de seus
clientes o que pode até mesmo determinar
com o tempo e com o acúmulo de experiências favoráveis, a lealdade dos mesmos com a
marca.
Para Solomon (2008), o tempo é um
recurso importante que determina quanto
esforço e procura, contribuirá para a tomada de decisão de compra. O ambiente criado
pela loja também afeta o grau de prazer e excitação do cliente por meio da conveniência
percebida, a sofisticação, o conhecimento
da equipe de venda e etc. que muitas vezes
promovem as compras de impulso, em que o
consumidor compra um produto devido uma
súbita necessidade de adquiri-lo. O contexto de uso do produto também serve de base
para a sua segmentação, porque dependendo
de sua destinação os consumidores procuram diferentes atributos para determinar o
que comprar.
A presença de outras pessoas (coconsumidores) e os tipos de pessoas também
influi nas decisões de compra pelo desejo de
serem aceitos pelos outros. Os indivíduos
ou grupos as quais as opiniões ou comportamento são considerados especiais e impor-
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tantes denominam-se grupos de referência.
A conformidade com os desejos dos outros
depende de dois fatores: a influência social
informal em que as pessoas moldam seu
comportamento a partir de outras devido à
ideia de que o comportamento dos outros são
a maneira correta de agir e a influência social
normativa nas quais as pessoas se moldam
para serem aceitas e satisfazer as expectativas do grupo de referência. Os membros do
grupo fundem as suas identidades em uma
identidade única, grupal, tornando os indivíduos desindividualizados. Além dos grupos
de referência, existem também os lideres de
opinião cujas opiniões são altamente consideradas influindo sobre as escolhas de outras
pessoas (SOLOMON, 2008).
O autor ainda afirma que o conhecimento que um indivíduo tem sobre os produtos muitas vezes é aprendido pela comunicação boca a boca e não pela propaganda
formal. Mas apesar da grande utilidade da
comunicação boca a boca para o marketing
de difundir a existência de um produto, ele
também pode lesar as empresas através de
boatos prejudiciais ou propaganda boca a
boca negativa.
Segundo Churchill Jr. e Peter (2000),
uma reação comum do consumidor após efetivar uma compra é ele se perguntar se ele
realmente fez a melhor escolha. Esse sentimento é conhecido como dissonância cognitiva, remorso do comprador, ou dissonância
pós- compra que resulta da dificuldade ou
até mesmo da impossibilidade de se examinar minuciosamente todas as ações possíveis
de modo a assegurar que a decisão tomada
foi realmente a melhor.
Quanto à tomada de decisão geralmente há três tipos: a tomada decisão rotineira que envolve poucas atividades de pesquisa, baixo envolvimento com a compra, a
consideração de poucas marcas, minimização de custos e etc. por se tratar de produtos
simples, baratos e conhecidos. Depois temse a tomada de decisão limitada que envolve
um grau moderado de atividades de pesqui-
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sa, considerando várias marcas, comparando algumas características dos produtos,
buscando informações sobre os mesmos e
gastando certo tempo na busca de um maior
valor, menor custo e esforço. Por fim, há a
tomada de decisão extensiva em que o grau
de envolvimento é considerável, por causa da
comparação de muitas opções analisadas por
meio de várias características, da consulta de
inúmeras fontes de informações, da necessidade de um grande investimento em tempo
e esforço e etc.. Esta tomada de decisão é a
menos comum por se tratar da aquisição de
produtos mais caros (CHURCHILL JR.; PETER, 2000).
5. Fatores que influenciam o processo
de decisão
Para Kotler e Keller (2006), existem
quatro fatores que influenciam o processo de
decisão de compra, sendo estes os: culturais,
sociais, pessoais e psicológicos. Quanto aos
fatores culturais citam-se a cultura, a subcultura e a classe social.
A cultura segundo Churchill Jr. e
Peter (2000) é um conjunto de valores básicos e comportamentos que são aprendidos
e compartilhados por uma sociedade com a
finalidade de assegurar a sua sobrevivência.
A cultura é o grande fator determinante do
comportamento e desejos de uma pessoa e
compõem-se de diversas subculturas que
identificam e socializam de maneira mais específica os seus membros, sendo um segmento dentro da cultura de pessoas que compartilham valores e padrões de comportamentos
distintos. Exemplos de subculturas são: as
nacionalidades, as religiões, os grupos raciais, as regiões geográficas e etc..
Para Kotler e Keller (2006), a maioria
das sociedades humanas apresenta estratificação social, algumas se organizam através
de sistema de castas em que cada indivíduo
é educado por regras específicas sem haver
mobilidade social, outras e mais frequentemente se estratificam por meio de classes
sociais que apresentam divisões homogêneas e duradouras chamadas hierarquias cujos
membros têm valores, interesses e comportamentos semelhantes. De acordo com Cobra (2003), a classe social de um indivíduo
expressa a junção de fatores de renda (renda pessoal ou familiar com a adição de seu
patrimônio) e de atividades sociais (o nível
educacional e a ocupação exercida).
As classes se diferenciam em diversas
características como o vestuário, preferências, padrões de linguagens e etc.. Conforme
a estratificação social, seus membros são dispostos como ocupantes de classes superiores ou inferiores de acordo com as seguintes
variáveis: a ocupação, a renda, grau de instrução e etc., nas quais há mobilidade social.
Além disso, as classes sociais têm diferenças
de preferências por produtos, marcas, meios
de comunicação, tipos de linguagens e etc.
(KOTLER; KELLER, 2006).
O comportamento do consumidor
também é influenciado por fatores sociais
como os grupos de referência que exercem
influência direta ou indireta nas atitudes,
pensamentos, sentimentos e comportamentos do indivíduo (KOTLER; KELLER, 2006).
Segundo Kotler e Armstrong (2007),
tais grupos são de grande importância para
o marketing, porque remetem as pessoas a
comportamentos e estilos de vida novos, influenciando as atitudes pessoais, a autoimagem, entre outros fatores, além de pressionar
as mesmas a escolherem marcas e produtos
que se identificam com o grupo. Há a tendência de que essa influência fique cada vez mais
forte quanto mais visível for o produto em
relação ao grupo que o comprador respeita.
Em relação à posição da pessoa em
cada grupo, esta pode ser definida por meio
dos papéis e status que apresenta. Papel define-se como as atividades que são esperadas
que uma pessoa desempenhe e que acarreta
em um status que indica o quanto a sociedade a estima. Tanto o papel quanto o status
são determinantes de quais produtos adquirir. Por fim há o líder de opinião que é um
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indivíduo que divulga informalmente, oferece conselhos e informações específicas sobre
produtos ao grupo de referência que influencia (KOTLER; KELLER, 2006).
Para Kotler e Armstrong (2007), os
líderes de opinião possuem habilidades, conhecimento, personalidade entre outras características que exercem grande influência
sobre os demais impulsionando tendências,
e consequentemente aumentando e muito
as vendas de determinados produtos disseminando informações sobre o que deve ser
comprado e o que não se deve comprar.
Para Kotler e Keller (2006), a família além de ser o grupo de influência primária mais influente, é também a organização
de compra de produtos de consumo mais
importante em uma sociedade. A família se
distingue em família de orientação formada
pelos pais e irmãos e família de procriação
que inclui o cônjuge e os filhos. Os consumidores são também influenciados por características pessoais, como a idade, o estágio no
ciclo de vida, a ocupação, a personalidade,
a autoimagem, o estilo de vida, os valores e
etc.. Conforme a idade, as pessoas compram
diferentes produtos como roupas, móveis,
e etc. de acordo com as suas necessidades e
desejos. Além disso, existem os estágios de
ciclo de vida psicológicos, as transições ou
mudanças na vida do indivíduo como casamento, nascimento de filhos, viuvez, ocupação, circunstâncias econômicas e etc. que
também influenciam o padrão de compra.
Outros fatores bastantes influentes
são: a personalidade e a autoimagem. Segundo os autores, personalidade são traços psicológicos distintos que tornam coerentes e
contínuas as reações de um indivíduo diante
de um estímulo. Características como autoconfiança, domínio, autonomia, sociabilidade, adaptabilidade entre outras descrevem a
personalidade. Diante disso, as marcas também apresentam uma personalidade própria
que faz com que o cliente escolha aquelas que
combinem com a sua. Daí define-se personalidade da marca como um conjunto de carac-
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
terísticas humanas distintas que são atribuídas a uma marca.
Outro fator muito influente é o estilo de vida que representa o padrão de vida
de certa pessoa por meio de atividades, interesses e opiniões. Os estilos de vida dos
indivíduos são determinados pela restrição
monetária e pela restrição de tempo, que são
determinantes muitos utilizados pelo marketing para produzir produtos com alta praticidade, qualidade e baixo custo para atender
seus consumidores. Os valores centrais do
indivíduo da mesma forma influem na decisão de compra, pois estes são as crenças que
embasam as atitudes e o comportamento da
pessoa determinando suas escolhas e desejos
(KOTLER; KELLER, 2006).
Ainda segundo os autores, estímulos
ambientais de marketing influem no consciente do cliente, que juntamente com os
fatores psicológicos combinados às características do indivíduo acarretam no processo
de decisão de compra. Entre os fatores psicológicos citam-se: a motivação, a percepção, a
aprendizagem e a memória que são bastante
influentes nas reações dos consumidores em
relação aos vários estímulos de marketing.
Para Kotler e Armstrong (2007), uma
pessoa motivada age influenciada pela percepção que ela tem da situação. Ela aprende
por meio de seus cincos sentidos: audição,
paladar, visão, olfato e tato. Porém a recepção, a organização e interpretação destas informações sensoriais ocorrem de maneira individual. Percepção é o processo de seleção,
organização e interpretação das informações
recebidas para que através disso, o indivíduo possa criar uma imagem do mundo. A
percepção depende dos estímulos físicos e
das relações dos mesmos com o ambiente e
as condições internas da pessoa. As percepções dos indivíduos expostos a uma mesma
realidade variam consideravelmente. Para
o Marketing a percepção é o principal fator
que influencia o comportamento de compra
do consumidor (KOTLER; KELLER, 2006).
Outro fator importante é a apren-
Um Estudo sobre o Comportamento dos Clientes de Produtos de Limpeza na Região de Ribeirão Preto – SP
dizagem, que é definida por Kotler e Keller
(2006) como: um processo de mudanças
comportamentais causados em decorrência
de experiências vivenciadas. Para Kotler e
Armstrong (2007), a aprendizagem ocorre
também por meio da aquisição de comportamentos humanos já existentes. Um grande
estímulo que nos motiva a agir chama-se impulso, enquanto que os sinais são estímulos
de baixa intensidade que definem quando,
onde e como o indivíduo irá reagir. Já a generalização se refere ao não reconhecimento
de diferenças em um conjunto de estímulos
semelhantes. Para Las Casas (2006) a generalização é a tendência de a pessoa responder
a uma nova situação de forma semelhante a
situações similares já vivenciadas. Segundo
Kotler e Keller (2006), discriminação é o inverso, pois ela implica na aprendizagem que
permite a distinção de estímulos semelhantes para que a partir disso, a pessoa possa
adaptar suas respostas a essas diferenças.
Para os autores, em relação ao processamento da memória, ela se inicia com a
codificação que determina como e onde a informação será armazenada. Quanto maior a
quantidade e a qualidade do processamento,
melhor a força de associação da informação.
Por fim, há a recuperação que indica como
ocorre a extração da informação da memória. Quanto maior a força de associação de
uma informação, maior será a capacidade de
ela ser lembrada.
6. Metodologia
O presente estudo compõe-se de uma
pesquisa quantitativa que segundo Malhotra
(2006), trata-se de uma pesquisa que busca quantificar dados aplicando alguma forma de análise estatística nos mesmos. Para
Hair Jr. et al. (2005) os dados quantitativos
são números utilizados para representar de
maneira direta as propriedades do objeto de
estudo em questão, sendo a base para a realização de análises estatísticas.
A partir das definições apresenta-
das, tem-se que este estudo foi elaborado
através de uma pesquisa descritiva que segundo Cooper e Schindler (2003), referese a um estudo formal, estruturado sobre
hipóteses ou questões investigativas claras
atendendo a diversos objetivos como: descrições de fenômenos ou associações de características da população-alvo, estimativa das
proporções de uma população que possuem
essas características e descoberta de associações entre variáveis distintas. Um estudo
descritivo pode apresentar vários níveis de
complexidade, mas independentemente disso, o mesmo exigirá muitas habilidades e altos padrões de planejamento e execução.
Este estudo também envolveu um
survey (levantamento) que de acordo com
Hair Jr. et al. (2005), define-se como um
estudo transversal (descreve um panorama
ou elementos administrativos a partir de um
determinado ponto no tempo) o qual investiga uma propriedade com a finalidade de descrever as características distintas da mesma,
devendo-se levar em consideração que estes
elementos são medidos uma única vez no
processo investigativo.
Prosseguindo no que se refere ao
estudo, cabe aos pesquisadores definirem
quem e quantas pessoas entrevistar, quais
eventos analisar e quais registros investigar
(COOPER; SCHINDLER, 2003). Um elemento da população indica uma unidade de
pesquisa, ou seja, uma pessoa selecionada
para que sejam realizadas mensurações, é o
objeto a partir do qual se busca uma determinada informação. Malhotra (2006), denomina população-alvo como a soma ou agregado
de todos os elementos que possuem características comuns e que compreendem o universo do problema de pesquisa de marketing
dos quais serão feitas análises.
A amostra segundo Cooper e Schindler (2003), define-se como uma parcela representativa da população-alvo que deve ser
cuidadosamente selecionada pelo pesquisador.
Toda amostra possui uma composi-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
19
Um Estudo sobre o Comportamento dos Clientes de Produtos de Limpeza na Região de Ribeirão Preto – SP
ção que é uma representação dos elementos
contidos na população-alvo, podendo ser
uma lista ou um conjunto de instruções necessárias para a identificação da populaçãoalvo (MALHOTRA, 2006).
Quanto à classificação das técnicas
de amostragem, tem-se que esta pesquisa
valeu-se de uma amostragem probabilística
na qual para Cooper e Schindler (2003), cada
elemento da população possui uma chance conhecida, fixa e diferente de zero de ser
inserida na amostra, sendo que os pesquisadores realizam uma seleção aleatória de
elementos de modo a reduzir ou até mesmo
eliminar os vieses na amostragem, assim a
amostra selecionada apresenta uma confiança substancial demonstrando ser representativa da população-alvo e reduzindo a chance
de erros amostrais.
Referente às técnicas de amostragem probabilística, o presente estudo utilizou uma amostragem aleatória simples,
a qual de acordo com Cooper e Schindler
(2003), como a sua própria denominação sugere, é a forma mais simples de amostragem
probabilística. Já para Malhotra (2006) é
uma técnica em que cada elemento da população possui uma probabilidade conhecida e
igual de ser selecionado independentemente
de qualquer outro, sendo que a amostra em
questão foi selecionada por um processo aleatório.
A amostragem aleatória simples
possui diversas características convenientes
sendo de fácil compreensão, seus resultados
podem ser projetados para a população-alvo
e a maior parte das abordagens da inferência
estatística admite que os dados sejam realmente oriundos de uma amostragem aleatória simples.
7. Levantamento e Análise dos Resultados
Após a tabulação dos dados realizada
no Excel constatou-se que referente à renda
familiar a amostra analisada apresentou uma
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
renda média alta, concentrada na faixa de 2
a 4 salários mínimos. Referente ao sexo das
pessoas que compuseram a amostra as mulheres se mostraram mais aceptivas à abordagem pessoal e ao tema do levantamento
deste estudo, tal fato comprova-se devido à
maior parte das pessoas entrevistadas (62%)
serem do sexo feminino.
Quanto à escolaridade, a amostra
também se compôs de pessoas de formação
média alta, sendo que 35% apresentaram ensino médio completo e 53% superior incompleto ou completo. Referente à frequência de
compra, constatou-se que na amostra analisada, ninguém realiza compras diárias de
produtos de limpeza e a maioria (65%) faz as
suas compras mensalmente. O gasto mensal
com produtos de limpeza dentro das faixas
analisadas demonstrou um gasto baixo sendo que 76% da amostra gastam até 100 reais.
O supermercado é o principal centro de compras de produtos de limpeza em evidência
(95% da amostra).
Referente ao grau de importância o
preço, a marca, a fragrância, o desempenho,
a proteção ao meio ambiente e o SAC, Serviço de Atendimento ao Consumidor, possuem
grande importância para os produtos de limpeza segundos os entrevistados, enquanto
que a propaganda e a embalagem apresentaram um grau de importância menor em relação às demais características analisadas.
A amostra analisada também demonstrou ser fiel a determinadas marcas
(63%), mas nota-se que é grande a tendência
em se trocar de marcas principalmente devido ao preço praticado pelas mesmas.
Entre os produtos que apresentaram um grande volume de compras, destacase: o sabão em pó, o amaciante, a água sanitária, o detergente e o sabão em barra sendo
estes os mais citados pelos entrevistados.
Devido o sabão em pó ter sido o mais citado
em relação aos produtos mais comprados, a
marca Omo foi a mais lembrada sendo bem
evidente a sua significância entre as demais
marcas citadas.
Um Estudo sobre o Comportamento dos Clientes de Produtos de Limpeza na Região de Ribeirão Preto – SP
apresentar um preço mais acessível para o
consumo.
Referente aos problemas encontrados para fazer a limpeza com o uso dos
produtos, constata-se que o principal problema se encontra no baixo desempenho
destes quanto ao grau de limpeza esperada
pelos entrevistados. Além dessa constatação,
observou-se que uma parcela significativa da
amostra não enfrenta problemas para realizar a limpeza utilizando os produtos analisados e já outra parcela disse que o principal
problema encontrado está na dificuldade de
se usar o produto devido a sua embalagem.
Finalizando a análise dos resultados,
foram realizados cruzamentos de dados por
meio do programa estatístico SPSS, na qual
obteve-se os seguintes resultados:
Os principais fatores evidentes para
se experimentar novos produtos de limpeza
segundo os entrevistados foram: o menor
preço apresentado e a qualidade/rendimento esperado para o uso do produto. Quanto às
sugestões de melhorias aos produtos de limpeza, os entrevistados apresentaram várias
ideias sendo importante citar: produtos que
agridam menos à saúde devido a alergias que
muitos deles causam, apresentar um dosador por causa da dificuldade de se mensurar
o quanto gastar do produto para um desempenho eficiente, apresentar uma fragrância
mais duradoura e ser tanto a embalagem
quanto o produto em si biodegradável. Mas
o que mais foi evidente neste quesito referente a melhorias foi que os produtos devem
apresentar maior qualidade/rendimento, ter
uma embalagem mais prática e resistente e
Tabela 5 - Motivos que estimulam a compra de outras marcas e/ou produtos X Renda familiar
Renda Familiar
(salário mínimo)
Motivos que estimulam a compra de outras marcas e/ou produtos
Nenhum
Qualidade
Preço
Fragrância
Curiosidade/
Conhecer
Falta do
produto
preferido
Propaganda
Total
Até 1
0
1
2
0
2
0
0
5
de 1 a 2
0
8
9
0
2
1
2
22
de 2 a 4
4
15
23
0
9
1
3
55
de 4 a 10
2
8
13
2
2
0
1
28
acima de
10
1
7
6
1
2
1
0
18
Total
7
39
53
3
17
3
6
128
FONTE: Elaborado pelos autores, 2010.
Conforme se observa acima neste cruzamento de resultados entre a renda familiar
dos entrevistados e os motivos que os levam
a comprarem outras marcas e/ou produtos,
tem-se que independentemente da renda, todos os consumidores são motivados a experimentar outros produtos ou marcas devido a
dois principais fatores, sendo estes: o preço e
a qualidade. Quanto menor a renda maior o
estímulo de compra motivado devido ao preço que o produto apresenta e quanto maior
a renda maior é a motivação de se adquirir
um novo produto ou marca por causa de sua
qualidade esperada.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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Um Estudo sobre o Comportamento dos Clientes de Produtos de Limpeza na Região de Ribeirão Preto – SP
Tabela 5 - Motivos que estimulam a compra de outras marcas e/ou produtos X Renda familiar
Você se considera fiel
a alguma marca?
Motivos que estimulam a compra de outras marcas e/ou produtos
Nenhum
Qualidade
Preço
Fragrância
Curiosidade/
Conhecer
Falta do
produto
preferido
Propaganda
Total
Sim e não penso
em trocar
2
10
10
0
2
1
2
27
Sim, mas compro
outra marca quando há promoção
2
15
22
1
8
2
3
53
Não, estou sempre
experimentando
novidades
2
13
18
2
7
0
1
43
Não, cada vez
eu compro um
diferente
1
1
3
0
0
0
0
5
Total
7
39
53
3
17
3
6
128
FONTE: Elaborado pelos autores, 2010.
No cruzamento de resultados acima
apresentado com relação à fidelidade ou não
a determinada marca e entre os motivos que
estimulam a compra de outras marcas e/ou
produtos, torna-se mais evidente ainda que
independentemente de o consumidor ser fiel
ou não, os principais fatores como já constatados no cruzamento anterior já apresentado
e agora novamente reafirmados, para se experimentar outros produtos são: a qualidade
e principalmente o preço conforme diminui o
grau de fidelidade dos consumidores.
Conclusão
Esta pesquisa teve a finalidade de avaliar as variáveis que interferem no comportamento do consumidor de produtos de limpeza
da região de Ribeirão Preto. Em um mercado
muito concorrido, como o de produtos de limpeza, a gestão da qualidade e do preço praticado atualmente é um fator decisivo para desenvolver um diferencial que inclua valor ao
produto e conquiste o consumidor, devido a
isso é grande a importância para que os gestores desenvolvam a qualidade de seus produtos
ofertados e ofereçam um preço mais acessível
para atender as necessidades de seus clientes e
superar as suas expectativas.
Uma vez realizado o instrumento de
coleta de dados e obtido as informações e suas
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
respectivas análises, chegou-se aos resultados
que permitiram aos pesquisadores apresentar
o seguinte conjunto de conclusões:
A satisfação quanto aos produtos baseia-se nas avaliações efetivas nos desejos dos
consumidores. Durante a realização das entrevistas pode-se observar que a maior parte das
pessoas valoriza principalmente a qualidade e
o preço apresentado pelo produto de limpeza.
Referente à importância dos atributos
dos produtos de limpeza, os entrevistados classificaram os principais como: o preço, a marca, a fragrância, o desempenho, a proteção ao
meio ambiente e o SAC, enquanto que a embalagem e a propaganda apresentaram menor
grau de importância.
Outro fator de fundamental importância é que a satisfação do cliente deve ser uma
procura permanente de qualquer tipo de organização ou setor mesmo que haja mudanças das necessidades e desejos das pessoas.
É tarefa das organizações acompanharem as
tendências do mercado e se adequarem a estas
da melhor maneira possível, elas devem focar
sempre o cliente, avaliando seu perfil e o que
ele considera importante.
A cada ano cresce o consumo de produtos de limpeza dentro e fora dos lares brasileiros e entender este consumidor para melhor
atendê-lo torna-se um dos fatores mais importantes para que as empresas do setor tenham
sucesso.
Um Estudo sobre o Comportamento dos Clientes de Produtos de Limpeza na Região de Ribeirão Preto – SP
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
23
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland:
Comparação entre o Setor Público e Privado
na Motivação Organizacional
Kristian Casaquia Domingos¹
Antonio Nardi²
RESUMO
Este artigo tem por objetivo comparar e analisar o comportamento organizacional de funcionários de uma empresa do setor público e privado, por meio da teoria das
três necessidades de David McClelland, bem
como apresentar os conceitos de motivação
de diferentes filósofos de nossa história. A
pesquisa foi realizada de forma empírica,
onde os principais resultados foram apresentados para comprovar que a necessidade depende de quanto a pessoa está motivada ou
satisfeita no seu ambiente de trabalho. Para
demonstrar isto, junto com o desempenho
de cada um que são assuntos que devem ser
estudados sempre com o propósito de que
os colaboradores devem se comprometer ao
máximo na realização de seu trabalho, pois
esta motivação está dentro de cada um nós
e nenhuma organização conseguirá funcionar sem o desempenho de seus funcionários.
Assim não será possível alcançar os objetivos e metas, tanto da organização como os
pessoais, pois a motivação funciona como
um conjunto de elementos ou fatores que influenciam o comportamento do ser humano
tanto na vida pessoal como na profissional,
fazendo com que ele seja impulsionado a realizar determinadas tarefas ou objetivos que
lhe são impostos. E com isso, foi aplicado um
questionário com base em informações sobre
a Realização, Filiação e Poder das pessoas,
dando início a uma pesquisa empírica para
poder chegar aos resultados esperados. Dessa forma, conseguimos identificar se os colaboradores estão motivados, realizados, va¹Bacharelada em Direito pelas Faculdades COC
²Profª. Dra. do curso de Direito das Faculdades COC.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
lorizados, reconhecidos e satisfeitos com seu
ambiente de trabalho e com seus benefícios,
bem como tendo bons relacionamentos com
seus colegas.
Palavras-Chave: Motivação, Comportamento e Realização.
ABSTRACT
This article aims to compare and
analyze the organizational behavior of
employees of a company from public and
private sector, through the theory of the
three necessities of David McClelland, and
introduce the concepts of motivation of different philosophers of our history. The research was carried out empirically, where
key findings were presented to demonstrate
that the need depends on how the person is
motivated or satisfied in their work environment. To demonstrate this, along with
the performance of each of which are issues
that must always be studied in order that
employees must commit themselves to the
utmost in carrying out their work because
this motivation is within each of us and no
organization able function without the performance of their employees. So you can not
achieve the goals and objectives of both the
organization and the personal motivation
for working as a set of elements or factors
that influence human behavior in both personal and in professional, causing it to be
driven to perform certain tasks or goals
that are imposed. And with that, a questionnaire was based on information on the
Achievement, Affiliation and Power of the
people, ushering in an empirical research in
order to achieve the expected results. Thus,
we can identify if employees are motivated,
fulfilled, appreciated, recognized and satisfied with their working environment and benefits, as well as having good relationships
with their colleagues.
Key Words: Motivation, Behavior
and Achievement.
1. Introdução
Todas as informações contidas neste
artigo foram extraídas de leituras realizadas
em livros e sites relacionados ao tema, e do
desenvolvimento de uma pesquisa de campo
para qual mostra o quanto à descoberta da
necessidade e da motivação humana, se torna importante para um bom relacionamento
pessoal e profissional na organização. Além
de mostrar a importância da necessidade
baseado principalmente em suas teorias e
melhores formas de motivar um funcionário,
também será mostrado a seguir o significado
de motivação e outras teorias apresentadas
por diversos filósofos de nossa história.
De acordo com essas teorias, vamos
compreender melhor que toda necessidade
precisa de um incentivo para a satisfação
própria, e esse incentivo vem em forma de
motivação, para que essa dificuldade que
surgiu em forma de necessidade seja saciada,
o indivíduo precisa de uma motivação, que
normalmente está dentro de nós mesmos.
Essa necessidade quando satisfeita faz com
que ele seja levado a sua realização tanto
pessoal como profissional. Agora quando
a necessidade não o satisfaz, faz com que o
comportamento desse indivíduo não mude,
ou seja, sem motivação não há mudanças.
O estudo da motivação de funcionários nas
empresas vem sendo mais observado nos últimos anos por meio do comportamento humano, pois a satisfação envolve a interação
entre o indivíduo e a situação que o envolve
na organização.
Quanto mais se aprofunda no estudo
do comportamento motivacional humano,
mais claramente se percebe que a motivação
de cada um está ligada a um aspecto que diz
respeito à sua própria felicidade pessoal, e
aos poucos vai se percebendo que não é possível motivar quem quer que seja. As pessoas
já trazem dentro de si as expectativas pessoais que ativam determinado tipo de busca
aos seus objetivos e ideais. Porém é sempre
importante levar em consideração a existência de diferenças individuais e culturais
entre as pessoas, quando se fala em tipo de
necessidade e motivação, porque elas estão
em busca de meios para alcançar seus objetivos finais como: dinheiro, benefícios sociais,
promoções ou aceitação do grupo, entre outros. Devido a essa motivação, as necessidades acabam se transformando em realização
de planos ou metas e projetos.
As ideias iniciais fundamentam a definição do objetivo dessa pesquisa que consiste em analisar a necessidade de realização,
filiação e poder dos funcionários de uma
empresa pública e privada, baseado na motivação para com o seu trabalho. A hipótese
foi fundamentada na seguinte consideração;
que a necessidade de realização, filiação e poder estão interligados a motivação em qualquer ambiente de trabalho, no que se associa
para uma maior contribuição no comprometimento e desempenho dos funcionários
em suas atividades e a boa relação pessoal e
profissional de seus colaboradores nas organizações. O primeiro capítulo deste trabalho
apresenta a parte da fundamentação teórica
enfatizando os conceitos e características de
acordo com o que vem a ser apresentado. O
segundo capítulo destaca todos os procedimentos metodológicos, o detalhamento da
pesquisa, junto com o problema encontrado
e o objetivo esperado no campo empírico, os
quais são indispensáveis em um artigo para
conclusão de curso. E ainda descrevendo o
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25
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
resultado e envolvendo a uma análise dos
dados coletados na empresa para qual a pesquisa foi realizada. A conclusão apresenta
uma síntese dos principais pontos da pesquisa, tanto do ponto de vista teórico quanto do
ponto de vista prático.
2. Necessidade e Motivação nas Organizações
Toda necessidade precisa de um incentivo para a satisfação, e esse incentivo
vem em forma de motivação, e para que seja
saciada essa necessidade, o indivíduo precisa de uma motivação. A necessidade é uma
forma de se conseguir atingir um objetivo, ou
seja, ela surge a partir de um estímulo que é
dado por alguém para o cumprimento de alguma atividade, ou também pode vir de uma
necessidade pessoal. Em resumo toda necessidade surge para se alcançar alguma meta
ou objetivo, fazendo com que o indivíduo
busque sua realização tanto pessoal como
também profissional.
2.1. Motivação: o que é?
“Motivação
sf.1.Ato
ou
efeito de motiva.2.Exposição de motivos ou
causas.3.Conjunto de fatores, os quais
agem entre si, e determinam a conduta de um indivíduo.4.V.móbil(2).[Pl.:ções.].”(FERREIRA, 2000, p.473).
A Motivação é um dos fatores intrínsecos que influenciam o comportamento dos
colaboradores, este sentido é fundamental
para entender as pessoas no ambiente de trabalho. O significado de motivação deriva da
palavra latina “movere”, que significa mover.
“A motivação é considerada como um
aspecto intrínseco aos colaboradores, ninguém pode motivar ninguém, sendo que a
motivação específica para o trabalho depende do sentido que se dá a ele.” (BERGAMINI,
1997, p. 24)
A motivação surge de acordo com as
necessidades de cada indivíduo. Qualquer
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
que seja essa necessidade ele sempre vai precisar estar motivado para poder alcançar ou
suprir esse objetivo ou meta. Pode-se dizer
também que a motivação é um conjunto de
fatores psicológicos, conscientes ou não, de
ordens fisiológicas, intelectuais ou afetivas,
que determinam certo tipo de conduta em alguém. Sendo assim motivação está ligada aos
motivos que leva uma pessoa a algum estado
ou atividade.
Para Robbins (2005), a motivação é
como um processo responsável pela intensidade, direção e persistência dos esforços de
uma pessoa para o alcance de uma determinada meta.
A motivação é toda forma encontrada
para impulsionar um indivíduo tanto para
uma tomada de decisão como também para o
seu desenvolvimento pessoal e profissional.
Ela envolve atividades as quais nos levam a
um determinado objetivo. Assim, vamos nos
tornar motivados ou estimulados por necessidades internas e externas que podem ser
de caráter fisiológico ou psicológico. O comportamento motivado tenderá a prosseguir
até que o nosso objetivo seja alcançado, de
forma a reduzir a tensão que sentimos. Compreender a motivação humana tem sido um
grande desafio para muitos administradores.
A motivação é a energia ou força que movimenta o comportamento, tem três propriedades: a)
Direção: o objetivo do comportamento humano motivado ou a direção para qual a motivação leva
o comportamento; b) Intensidade:
magnitude da motivação; c) Permanência: direção da motivação.
(MAXIMIANO, 2007, p.250).
Essa energia situa-se no plano psicológico, nas necessidades satisfeitas, a exemplo de trabalhar no que gosta, de sentir-se
realizado com os resultados atingidos e de
manter bom relacionamento com os colegas
e com os chefes no ambiente de trabalho.
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
2.2. Importância da Motivação
A importância do estudo da motivação para o ambiente de trabalho, mostra as
condições responsáveis pelos seus objetivos
e pela qualidade e intensidade do comportamento humano. Segundo Bergamini (1997),
o estudo da motivação abrange, em última
análise, aquelas tentativas de conhecer como
o comportamento é iniciado, persiste e termina. Assim quando o indivíduo procura
um resultado, está buscando meios para alcançar resultados finais como: dinheiro, benefícios sociais, promoções ou aceitação do
grupo. Graças à motivação, as necessidades
se transformam em objetivos, planos e projetos. Os motivos podem ser definidos como
necessidades, desejos ou impulsos oriundos
do indivíduo e dirigidos para objetivos, que
podem ser conscientes ou subconscientes.
De acordo com Maximiano (2007, p. 251),
“uma pessoa motivada usualmente significa
alguém que demonstra alto grau de disposição para realizar uma tarefa ou atividade
de qualquer natureza”. Ele ainda acrescenta
que o estudo da motivação para o trabalho
desperta grande interesse entre administradores e pesquisadores, dada à importância
de entender e manejar as causas ou os fatores que podem causar o estado de disposição
para realizar tarefas.
energia dessas necessidades e emoções.
A motivação extrínseca envolve os
fatores externos que vêm buscar uma melhor condição na satisfação, tanto na vida
profissional como também na vida pessoal.
Motivações que surgem por meio de um conjunto de benefícios, que, somados ao salário,
formam concretamente a sua remuneração.
De acordo com Bergamini (1997), muitos
teóricos do mundo acadêmico e principalmente administradores fora dele atribuem às
ações condicionadas pelas variáveis do meio
ambiente a denominação de comportamento
motivado.
As necessidades ou motivações intrínsecas podem vir como necessidades sociais,
de relacionamento, de status, e que podem
ser saciadas principalmente pelas empresas
de acordo com suas políticas sociais, culturais, e de acordo com a situação que a empresa vive no momento. Para Bergamini (1997,
p. 32), entende que a motivação “é um impulso que vem de dentro e que tem, portanto, suas fontes de energia no interior de cada
pessoa”. Ninguém consegue motivar outra
pessoa, o que pode ser feito é o estímulo para
a execução de alguma tarefa ou algum outro
tipo de atividade, a motivação é uma força que está dentro de cada um de nós e que
pode estar ligada a uma vontade ou desejo.
2.3. Motivação Extrínseca e Intrínseca
2.4. A Teoria das Três Necessidades de
Mcclelland
Tanto a motivação extrínseca quanto
a motivação intrínseca são fatores importantes no desenvolvimento das necessidades e
na busca de sua superação buscando sempre
alcançar a motivação certa para a conclusão
da atividade que está sendo exercida naquele
momento ou situação. Segundo Bergamini
(1997), as pessoas entram em ação por várias
razões. Há, no entanto, grande diferença entre o movimento que se origina das reações
aos agentes condicionantes extrínsecos ao
indivíduo e a motivação que nasce das necessidades internas e que tiram a sua fonte de
Essa teoria procura mostrar que existem três tipos diferentes de necessidades e
que elas direcionam, impulsionam e selecionam o comportamento humano. As referidas
necessidades são únicas para cada indivíduo,
pois elas possuem objetivos e desejos que são
indispensáveis para o seu direcionamento
frente às situações que surgirão. Chiavenato (2004, p. 173), mostra que as teorias das
necessidades partem do princípio de que os
“motivos do comportamento residem dentro
do próprio indivíduo: sua motivação para
agir e se comportar, deriva das forças que
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
27
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
existem dentro dele próprio. Algumas dessas necessidades são conscientes, enquanto
outras não”. Para isso, McClelland, propõe
três fatores que são especialmente úteis para
entender melhor o comportamento humano
no trabalho. Esses fatores são os seguintes:
realização, filiação e poder.
2.4.1. Necessidade de realização
Essa necessidade é um conjunto de
expectativas de cada indivíduo, em poder realizar seus desejos e em poder crescer dentro
de uma organização. De acordo com Motta e
Vasconcellos (2002), a necessidade de realização “é o desejo inconsciente do indivíduo
de atingir um nível de excelência técnica ou
profissional”, na qual ele obtém o reconhecimento de seus pares. Segundo McClelland
(MAXIMIANO, 2007, p. 253), as pessoas
com necessidades de realização:
Escolhem metas que são desafiadoras, porém viáveis.
Não se arriscam demasiadamente,
preferindo as situações cujos resultados podem controlar.
Dão mais importância à realização
da meta que às possíveis recompensas.
Precisam de feedback específico
sobre seu desempenho.
Dedicam tempo a pensar sobre
realizações de alto nível.
A necessidade de realização, para
Robbins (2005, p. 138), corresponde “ao impulso de buscar a excelência, realizar coisas
com relação a um conjunto de padrões, lutar
para ter sucesso”. Essa necessidade depende
do potencial de cada pessoa e do seu comprometimento em fazer as coisas bem feitas,
investir no seu potencial e tornar-se bem sucedido nas atividades que realiza.
2.4.2. Necessidade de filiação
O indivíduo possui a necessidade de
28
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
se relacionar com outras pessoas, buscando sempre valorizar essas relações pessoais
do que o próprio trabalho. As pessoas com
necessidades de filiação, para McClelland
valorizam as relações humanas, não se preocupam tanto com realizações e preferem atividades que proporcionem muitos contatos
com outras pessoas (MAXIMIANO, 2007).
De acordo com Motta e Vasconcellos
(2002), essa necessidade é o desejo inconsciente de fazer parte de um grupo social acolhedor, no qual se desenvolvam relações interpessoais positivas.
2.4.3. Necessidade de poder
A necessidade de poder é caracterizada pela busca de controle e dominação sobre outros indivíduos. Segundo McClelland
(MAXIMIANO, 2007, p. 257), as pessoas
com uma elevada necessidade de poder procuram cargos que tenham poder e procuram
também influenciar outras pessoas e seu ambiente. Essas pessoas têm duas orientações
distintas: poder pessoal e poder institucional. O poder pessoal é perigoso porque conduz à tentativa de dominação, ao passo que o
poder institucional é benéfico porque enfatiza o desenvolvimento de grupos eficazes, trabalho organizado, recompensas equitativas e
o bem da organização.
Já para Motta e Vasconcellos (2002),
a necessidade de poder é o desejo inconsciente de ter que tomar decisões que tenham
impacto sobre os outros indivíduos e sobre
o grupo organizacional em geral. Indivíduos
voltados para o poder enquanto fatores de
motivação buscam posições de liderança, em
que possam controlar recursos e influenciar
outras pessoas.
Essa necessidade mostra o poder correspondente ao desejo de ser influente e ter
impacto sobre outros indivíduos. São pessoas que gostam de estar no comando, ocupando posições altas dentro de uma organização,
num grau de hierarquia elevado.
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
2.5. Outras Teorias: a Hierarquia de
Maslow
De acordo com Motta e Vasconcelos
(2002), a teoria sobre a hierarquia de necessidades de Abraham H. Maslow (1943) foi
fundamental para os estudos sobre motivação que se voltavam primordialmente para
a teoria da personalidade e do desenvolvimento humano, independente de preocupações com eficiência organizacional. Maslow
mostra que o ser humano tem necessidades
complexas que podem ser hierarquizadas e
que o homem é motivado por necessidades
organizadas numa hierarquia de relativa prepotência. Isto significa que uma necessidade
de ordem superior surge somente quando
a de ordem inferior for relativamente satisfeita. Essas necessidades estão ligadas com
o fato de que o homem procura sempre se
satisfazer, buscando cada dia melhorar suas
condições tanto pessoal como também profissional, e toda vez que uma dessas necessidades é satisfeitas, sempre vai surgir uma
nova, e assim buscar o grau máximo de satisfação para a sua vida. Segundo Maslow (MAXIMIANO, 2007), as necessidades humanas
são divididas em cinco grupos: necessidades
fisiológicas ou básicas, necessidades de segurança, necessidades sociais, necessidades de
estima e necessidades de auto-realização.
As necessidades fisiológicas ou básicas estão ligadas à sobrevivência do indivíduo, como alimento, abrigo (proteção contra
a natureza), repouso, exercício, sexo e outras
necessidades orgânicas. O homem é um animal dotado de necessidades; assim que uma
de suas necessidades é satisfeita, surge outra
em seu lugar. Esse processo não tem fim: é
contínuo, desde o nascimento até a morte. As
necessidades do homem estão organizadas
numa série de níveis, ou numa hierarquia de
valor. O homem só busca o pão quando não
há pão. A menos que as circunstâncias sejam
especiais, suas necessidades de amor, status
e reconhecimento são inoperantes quando
seu estômago está vazio há certo tempo. Mas
quando ele come regularmente e de maneira adequada, a fome deixa de ser motivação
importante. O mesmo ocorre em relação às
outras necessidades fisiológicas do homem:
de descanso, exercício, abrigo, proteção, etc.
Chiavenato (2004) mostra que “as necessidades fisiológicas incluem fome, sede, sono,
sexo, e outras necessidades corporais” e são
as necessidades básicas de sobrevivência biológica.
Figura 1 Pirâmide da hierarquia das necessidades de Maslow
FONTE: Adaptado de Maximiano, 2007.
As necessidades de segurança estão
ligadas à proteção contra ameaças, inclusive
a ameaça de perda do emprego, na proteção
contra o perigo, ou a privação. Quando as
necessidades fisiológicas estão razoavelmente satisfeitas, as necessidades localizadas no
nível superior começam a dominar o comportamento do homem; começam a motiválo. Essas são as chamadas necessidades de
segurança que são necessidades de proteção
contra o perigo, a ameaça, a privação. As sociais estão ligadas ao afeto, interação e a sua
situação perante a sociedade, ou seja, a sua
participação e a sua aceitação por parte dos
seus amigos. Quando as necessidades fisiológicas do homem estão satisfeitas e ele não
está mais temeroso a respeito do seu bem-estar físico, suas necessidades sociais tornam-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
se importante fator de motivação de seu
comportamento; necessidades de participação, de associação, de aceitação por parte dos
companheiros, de troca de amizade e afeto
vêm à tona. A auto-estima envolve a autoapreciação, a autoconfiança, a necessidade
de aprovação social e de respeito, de status,
prestígio e consideração, além de desejo de
força e de adequação, de confiança perante o
mundo, independência e autonomia.
Para Chiavenato (2004, p.175), as
necessidades de estima incluem “fatores
internos de estima, como autorrespeito, autonomia, senso de competência, e fatores
externos de estima, como status, reconhecimento, prestígio, atenção e consideração”.
A auto-realização surge quando todas as necessidades anteriores são saciadas, pois esta
é a mais difícil de ser alcançada, porque depende da boa realização das anteriores. Ela é
a necessidade mais elevada, pela qual pode
ser mostrado todo o seu potencial e o seu
contínuo desenvolvimento, aptidões e habilidades, e a realização pessoal. A teoria de
Maslow , segundo Maximiano (2007, p. 257)
exige algumas premissas básicas.
As necessidades básicas manifestam-se em primeiro lugar, e as
pessoas procuram satisfazê-las
antes de se preocupar com as de
nível mais elevado.
Uma necessidade de uma categoria qualquer precisa ser atendida
antes que a necessidade de uma
categoria seguinte se manifeste.
Uma vez atendida, a necessidade
perde sua força motivadora, e a
pessoa passa a ser motivada pela
ordem seguinte de necessidades.
Quanto mais elevado o nível de
necessidades, mais saudável a
pessoa é.
O comportamento irresponsável é
sintoma de privação das necessidades sociais e de estima. O comportamento negativo é consequência de má administração.
Há técnicas de administração que
satisfazem as necessidades fisio-
30
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
lógicas, de segurança e sociais.
Os gerentes podem trabalhar no
sentido de possibilitar que as outras sejam satisfatoriamente atendidas.
2.5.1 Herzberg e a Teoria dos Dois Fatores
A motivação das pessoas depende de
dois fatores que são essenciais para a busca
da motivação: fatores higiênicos e fatores
motivacionais. Conforme a chamada Teoria
dos Dois Fatores, Herzberg (MAXIMIANO,
2007, p.258), aponta para a ideia de que no
campo motivacional existem dois tipos de fatores: “os que causam, predominantemente,
satisfação e os que causam, predominantemente, insatisfação”.
De acordo Motta e Vasconcelos
(2002, p.184), esses fatores que causam satisfação “estão relacionados ao aprendizado
e à realização do potencial humano no trabalho, às necessidades mais complexas, cuja
busca por satisfação permite a canalização da
energia vital para o trabalho, e geram maior
comprometimento com a organização”.
Os que causam satisfação ou motivação, não necessariamente causam insatisfação ou desmotivação, ou seja, realização ou
sucesso de um trabalho ou tarefa; reconhecimento pela realização de um trabalho bem
feito ou um resultado conseguido; o trabalho
em si, tarefas consideradas agradáveis e que
provocam satisfação; responsabilidade proveniente da realização do próprio trabalho
ou do trabalho de outros; desenvolvimento
pessoal, possibilidade de aumento de status;
possibilidade de crescimento, uma alavanca
dentro da estrutura organizacional, em termos de cargos ou responsabilidade.
Os que causam, predominantemente,
insatisfação referem-se a fatores higiênicos
que são aqueles que não motivam, mas na
sua falta causa insatisfação, ou seja, supervisão a disposição ou a boa vontade de ensinar; políticas empresariais, normas e procedimentos que encerram os valores e crenças
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
da organização; condições ambientais, ambientes físicos e psicológicos que envolvem
as pessoas e os grupos de trabalho; relações
interpessoais, transações pessoais e de trabalho; status, forma pela qual a nossa posição
está sendo vista pelos demais; remuneração,
o valor da contrapartida da prestação de serviço; vida pessoal, aspectos do trabalho que
influenciam a vida pessoal.
Segundo apontam Motta e Vasconcelos (2002), Herzberg argumenta que essas
necessidades devem ser atendidas em um nível mínimo, sem o qual a atividade humana
no trabalho não é possível. Trata-se do que
Herzberg chamou de um nível de higiene mínimo abaixo do qual o homem parar de trabalhar. Os fatores higiênicos referem-se às
condições que rodeiam as pessoas enquanto
trabalham, englobando as condições físicas e
ambientais de trabalho, o salário, os benefícios sociais, a política da empresa, o tipo de
supervisão recebido, o clima de relações entre a direção e os empregados, os regulamentos internos, as oportunidades existentes etc.
Sendo esses dois fatores de suma importância, vale ressaltar que os dois juntos são indispensáveis para um melhor entendimento
e melhoramento da motivação dos colaboradores dentro de uma organização.
3. Metodologia
3.1. Caracterização da Pesquisa
A pesquisa caracterizou-se como descritiva e exploratória (LIMA, 2004).
3.2. Problematização
As teorias comportamentais da administração mostram que motivação, satisfação
no trabalho e desempenho dos funcionários
de uma organização são assuntos que devem
ser estudados com objetivo de demonstrar a
necessidade do comprometimento dos colaboradores com a organização, para que seja
possível alcançar os objetivos e as metas.
Esta pesquisa avalia a realidade dentro de uma organização, procurando analisar
de forma clara e objetiva as necessidades de
realização, filiação e poder, junto com a motivação dos funcionários de uma empresa do
setor público e privado, fazendo com que se
tenha uma melhor convivência dentro desta
organização, e uma melhora na qualidade
de vida pessoal e profissional destes colaboradores. Com esse problema, se inicia toda
uma pesquisa onde foi feito um estudo para
saber: Qual necessidade, segundo a Teoria de
McClelland, predomina mais entre os funcionários do setor público e do setor privado?
3.3. Objetivos
Buscou-se verificar as necessidades
de realização, filiação e poder dos funcionários de uma empresa do setor público e
privado, baseado na teoria das três necessidades de McClelland, comparando assim,
em qual delas podemos encontrar um maior
número de funcionários com esses três tipos
de necessidades.
3.4. Campo Empírico, Universo e
Amostra
Esta pesquisa foi desenvolvida com
dois segmentos distintos: no campo empírico
de um hospital público de Ribeirão Preto-SP
e em uma empresa privada de prestação de
serviços advocatícios de médio porte situado
em Ribeirão Preto-SP.
O universo desta pesquisa foi constituído pelos funcionários diretos que atuam
nas empresas do setor público e privado,
independente da função que exercem. Nessa pesquisa a amostra foi o universo global,
composto por 30 (trinta) funcionários de
cada uma das empresas, e devido ao pequeno numero de amostra, proporcionou uma
coleta de dados mais exata o que facilitou a
busca das informações necessárias para esta
pesquisa.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
31
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
3.5. Instrumento de Coleta e Análise
dos Dados
Os dados desta pesquisa foram coletados através de um questionário sobre
motivação baseado nas necessidades de realização, filiação e poder aplicado aos componentes da amostra. O questionário foi
aplicado a 30 funcionários de cada uma das
empresas do setor público e privado, assim
distribuídos:
Setor Privado
Setor Público
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
7
23
18
12
Foram utilizadas questões fechadas
para evitar dificuldades na elaboração das
respostas, permitindo assim que o entrevistado fizesse uma escolha entre as alternativas
que lhe foram apresentadas, tornando essa
coleta mais rápida. O questionário é composto de 15 (quinze) perguntas objetivas, cada
uma com 5 (cinco) alternativas, sendo 1) Discordo Totalmente; 2)Discordo; 3)Concordo
Parcialmente; 4) Concordo; 5) Concordo Totalmente, para qual são destacados os principais objetivos desta pesquisa. Após ter os
questionários respondidos, foi feita a análise
dos dados coletados para determinar suas
necessidades dominantes, e o que o motiva,
seguindo a metodologia de Robbin (2007),
que coloca números de 1 a 5 que representam
a pontuação para cada frase perto do número
dessa frase.
Totais
32
Realização
Poder
Afiliação
1._____
2._____
3._____
4._____
5._____
6._____
7._____
8._____
9._____
10._____
11._____
12.____
13.____
14.____
15.____
_____
_____
_____
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Posteriormente foi somado o total de
cada coluna para que a soma dos números
sejam entre 5 e 25 pontos. A coluna com a
pontuação mais alta é a que indica qual é sua
necessidade dominante.
Depois de ter os dados analisados, e
feita uma média dos 30 participantes de cada
setor público e privado, os resultados obtidos
foram:
Empresa Privada
Homens
Mulheres
Realização
20
15
Afiliação
16
21
Poder
15
13
Empresa Pública
Homens
Mulheres
Realização
11
11
Afiliação
17
21
Poder
22
18
Gráfico 1 – Homem x Mulher no Setor Privado
FONTE: Pesquisa de Campo, 2010.
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
Gráfico 2 – Homem x Mulher no Setor Público
FONTE: Pesquisa de Campo, 2010.
Além disso, foi feita uma comparação
entre as duas empresas do setor público e
privado, somando todos os participantes da
pesquisa, foi identificado que no setor privado prevalece à necessidade de Afiliação com
37%, contra 35% de Realização e 28% de Poder, talvez devido à quantidade de mulheres
na pesquisa, ser maior que o número de homens. Já no setor público, a necessidade de
Poder dos participantes chega a 40%, contra
38% de Afiliação e 22% de Realização, mas
no mesmo caso de que a quantidade de homens foi maior que o número de mulheres
pesquisadas. Veja o gráfico 3 abaixo:
Gráfico 3 – Setor privado e Setor Público
FONTE: Pesquisa de Campo, 2010.
4. Conclusão
O estudo da teoria das três necessidades de McClelland foi o foco central apresentado nesse artigo sobre a motivação humana
nas organizações. As teorias da motivação e
de necessidades tratam das forças propulsoras de cada indivíduo para o trabalho e estão
normalmente associadas à produtividade e
ao desempenho, despertando o interesse da
organização.
Desta forma, o crescimento dos estudos da motivação para o trabalho se dá pela
possibilidade de atender as necessidades das
empresas de criar um modo que mantenha
o seu funcionário trabalhando, conforme as
expectativas da organização. A empresa gostaria de ver seus funcionários motivados e
integrados com os seus objetivos de forma a
atingir o máximo de produtividade. Os indivíduos se tornam um meio para a busca dos
fins definidos pela organização devido ao uso
de padrões organizacionais de motivação.
A motivação no trabalho está totalmente relacionada ao reconhecimento pelos
esforços dos funcionários, a elaboração de
metas com recompensas bem estabelecidas
e a altura do esforço exercido, realizando
feedback para que os mesmos tenham noção do quanto o seu trabalho está gerando
crescimento para a empresa. As pessoas são
motivadas para agir e obter resultados e pela
vontade de satisfazer seus desejos e suas necessidades próprias. O segredo é identificar
o que motiva o profissional, ou seja, saber
quais são suas aspirações e desejos para então incentivá-lo a alcançar aquele objetivo.
Por isso, é preciso identificar o nível
de motivação de cada pessoa, pois muitos já
estão motivados. Outros estão em busca de
bens e desafios, e precisam de muita motivação. O presente estudo parte agora a se deter em apresentar aquilo que tivemos como
meta a ser atingida e proposta como nosso
objetivo geral: analisar as necessidades de
realização, filiação e poder dos funcionários
das empresas do setor público e privado se-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
gundo as teorias motivacionais nas organizações. Observando sob a ótica da motivação,
as principais conclusões da pesquisa são as
que seguem.
Um dos fatores que influenciam na
motivação dos funcionários, é a necessidade
de realização que é o desejo inconsciente do
indivíduo de atingir um nível de excelência
técnica ou profissional; a necessidade de associação que valorizam as relações humanas,
não se preocupando tanto com realizações e
acabam preferindo as atividades que proporcionem muitos contatos com outras pessoas; e a necessidade de poder que é o desejo
inconsciente de ter que tomar decisões que
tenham impacto sobre as outras pessoas e
sobre o grupo organizacional em geral, o que
os indivíduos voltados para o poder enquanto fatores de motivação buscam posições de
liderança, em que possam controlar recursos
e influenciar outras pessoas.
Conforme os resultados apresentados, no setor privado os homens possuem
maior necessidade de realização e as mulheres de afiliação. Já no setor público os homens maior necessidade de poder, enquanto
as mulheres de afiliação. Comparando em
relação aos setores público e privado, possui
maior necessidade de poder as amostras do
setor público por serem os homens a maior
quantidade dos entrevistados, enquanto o
setor privado possui necessidade de afiliação
por serem as mulheres a maior quantidade
da amostra.
Assim as necessidades dos funcionários estão satisfeitas e a organização obtém
o resultado desejado. A motivação é a melhor fonte potencial de maior produtividade.
Desta forma, as capacidades dos empregados
serão usadas com mais eficácia, o que por
sua vez deve levar a uma melhor satisfação
no trabalho, assim como a maior produtividade. Fala-se de motivação todo o tempo e
cada empresa parece ter sempre alguém desmotivado para trabalhar. Pode-se pensar em
duas abordagens sobre motivação: a própria,
e como motivar pessoas ou terceiros. A mo-
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
tivação é uma das grandes forças impulsionadoras do comportamento humano. É ela
quem determina os níveis de desempenho
pessoal e profissional obtidos.
5. Limitações do Trabalho e Sugestões
Futuras
Este artigo apresentou algumas limitações para ser desenvolvido de acordo com
um cronograma. Isto se exemplifica pelo fato
de ter sido utilizada apenas uma empresa
de cada setor público e privado de diferente
segmentação, sendo que apenas trinta funcionários de cada uma delas foram utilizados
como amostra de pesquisa empírica.
Como sugestão para um próximo
trabalho, poderia ser desenvolvida uma pesquisa com várias empresas de diferentes segmentos dos setores públicos, privados e até
ONGs, para que assim fosse feita uma comparação de duas organizações da mesma área
atuante, apontando para um resultado possivelmente mais preciso, pois o campo utilizado seria maior fazendo com que a pesquisa
fosse mais ampla de acordo com a amostra
dos dados coletados.
A Teoria das Três Necessidades de Mcclelland: Comparação entre o Setor Público e Privado na Motivação Organizacional
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FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI Escolar: O minidicionário
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VERGARA, Sylvia Constant. Gestão de Pessoas. 6ª ed. São Paulo: Atlas, 2007.
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35
O histórico de intervenções no “Quarteirão
Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações
tridimensionais digitais
Antonio Carlos Santos Marques¹
Vera Lúcia Blat Migliorini²
RESUMO
O conjunto arquitetônico denominado “Quarteirão Paulista”, no centro da cidade
de Ribeirão Preto, foi inaugurado na década
de 1920, auge da economia cafeeira na região
ribeirãopretana, por iniciativa da Cia. Cervejaria Paulista. O conjunto é formado por três
edifícios, considerados de estilo Eclético: o
Hotel Central, o Theatro Pedro II e o Palacete Meira Junior. Todos esses edifícios, ao
longo dos anos, sofreram intervenções que
alteraram várias de suas características originais. Essa pesquisa tem como objetivo organizar, e estudar de forma cronológica, todas
as intervenções sofridas pelos três prédios e
relacioná-las aos seus respectivos contextos
históricos, sociais, culturais e artísticos em
Ribeirão Preto. O estudo proposto será feito
valendo-se de imagens e maquetes eletrônicas dos edifícios. Estas representações arquitetônicas, além de constituírem um registro
histórico inédito, são imprescindíveis à memória da cidade, e permitirão interpretar as
alterações espaciais relacionando-as ao contexto que as gerou
ABSTRACT
The architectural ensemble known
as “Quarteirão Paulista” in Ribeirão Preto
downtown has been build at the 20s coffee
economic boom by the Cia. Cervejaria Paulista. This group of three ecletic buildings:
the Hotel Central, the Theatro Pedro II e
and the Palacete Meira Junior has changed
through the years by several architectural
interventions and has lost many of its original characteristics. This research aims to
organize, and cronologicaly study, all the
architectural interventions done and its relations with the historical, social, cultural
and artistic context of Ribeirão Preto. This
study will be done by original images and
electronic models, specially made to allow a
contextual interpretation and an yet inexistent historical documentation.
1. Introdução
O ciclo econômico gerado pela cultura
do café durante os séc. XIX e início do séc.
XX foi de grande importância para economia
brasileira que se tornou a maior exportadora mundial do produto, mas foi a economia
paulista que mais se beneficiou, pois era
onde estava o centro dos acontecimentos
em torno da cultura cafeeira. A região do
Planalto Paulista passou por uma crescente
dinamização e modernização, devido à grande quantidade de capital que circulava pela
região. A dinamização não ocorreu somente
no aspecto econômico, mas também social,
cultural e artístico.
A crescente urbanização, a vinda de
¹Graduado em Arquitetura e Urbanismo pelo Centro Universitário UniSEB-COC e bolsista de Iniciação Científica
pela FAPESP. email: [email protected]
²Professora e Doutora em Arquitetura e Urbanismo, docente do Centro Universitário UniSEB-COC e orientadora
da pesquisa de iniciação científica.
36
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
mão-de-obra assalariada de várias partes
do mundo, a consolidação da classe média,
a construção das ferrovias, surgimento de
grupos industriais, entre outros, foram elementos que contribuíram para criação de um
cenário de modernidade e euforia. A cultura e costumes europeus serviam de ícones à
modernidade que se consolidava, o ecletismo
e o neoclassicismo arquitetônico praticado
nos países europeus foram então incorporados à arquitetura brasileira.
Ficou como importante marco desse período, no centro da cidade de Ribeirão
Preto, o conjunto arquitetônico denominado
como “Quarteirão Paulista” (Fig. 1). Formado por três edifícios considerados de estilo
Eclético, o Hotel Palace, antes chamado de
Central Hotel, o Cine-Theatro Pedro II e o
Palacete Meira Júnior, o conjunto arquitetônico foi projetado pelo engenheiro-arquiteto
Hyppolito Gustavo Pujol Júnior e financiados pela Cia Cervejaria Paulista. Os edifícios foram inaugurados entre os anos 1926 e
1930, época em que a economia em torno da
cultura cafeeira já estava em declínio, devido
a diversas crises no setor e ao crak na Bolsa
de Valores de Nova York em 1929.
Dada a importância desse conjunto
arquitetônico para a história da cidade de
Ribeirão Preto, esta pesquisa tem como objetivo principal apresentar um levantamento
histórico e interpretativo das intervenções
que ocorreram nos edifícios desde a data de
inauguração nas décadas de 1920 e 1930 até
ano de 2007. Estas intervenções serão representadas através de modelos tridimensionais
digitais dos edifícios. Estas representações
arquitetônicas, além de ajudarem na compreensão das intervenções, constituem um
registro imprescindível à memória da cidade.
Além dos levantamentos históricos,
a respeito das intervenções, e a produção de
modelos tridimensionais digitais do conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” esta
pesquisa se propôs realizar um levantamento
histórico e a produção de modelo tridimensional digital de outro edifício de grande importância para a história ribeirãopretana, o
Teatro Carlos Gomes, construído no auge da
economia cafeeira, no ano de 1897, a pedido
dos maiores fazendeiros de café da região de
Ribeirão Preto. Em estilo Neoclássico, é considerado como o primeiro teatro do Estado
de São Paulo e, na época, como um dos mais
importantes do país.
Figura 1:
Conjunto arquitetônico “Quarteirão
Paulista”.
Fonte: Pesquisa
de Campo, 2009.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
37
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
Figura 2: Hotel Palace
Fonte: Pesquisa de Campo, 2009.
O mais antigo dos três edifícios do
conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” é datado do ano de 1926,
projetado pelo engenheiroarquiteto Hyppolito Gustavo
Pujol Júnior (Fig. 2). Este edifício fica localizado na esquina
entre as ruas Álvares Cabral e
Duque de Caxias. Possui três
pavimentos com sistema estrutural em concreto armado.
Vários materiais utilizados no
projeto são importados como,
por exemplo, madeiras, mármores e ferragens.
Segundo o arquiteto
Cláudio Bauso (2008, comunicação oral), o prédio foi
construído a pedido de Adalberto Henrique de Oliveira Roxo, investidor
l ocal (Fig. 3). No ano 1927, a Cia. Cervejaria
Paulista vira proprietária do edifício.
38
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Figura 3:Hotel Palace antes da reforma.
Fonte: MAGGIORI, R., 1930.
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
Em 1930 acontece a primeira grande
intervenção, também projetada pelo arquiteto Hyppolito Gustavo Pujol Jr.. Essa intervenção teve como objetivo principal a incorporação desse edifício ao conjunto formado
pelos dois novos edifícios vizinhos, o CineTheatro Pedro II e o Palacete Meira Junior,
formando assim um conjunto arquitetônico
marcado por uma mesma linguagem ou estilo, Eclético.
No “C entral Hotel”, na Praça
XV de Novembro, inaugurado em
1926(...). Vários elementos apresentados nas fachadas não faziam
parte do projeto original, tendo
sido “aplicados” ao edifício após
sua incorporação ao conjunto arquitetônico denominado “Quarteirão Paulista” (1930). (VALADÃO, 1997, p.132)
Também segundo Bauso (2008, comunicação oral), em 1942 o hotel foi adquirido pela família Sinelle e em 1955 começa a
ser administrado pela Lazzerono, Simões &
Cia. Ltda.. Em 1957, a Cervejaria Antarctica
vira proprietária do prédio.
Na década de 1970 acontece a segunda grande intervenção no edifício. Para
se adequar aos novos padrões exigidos pela
Embratur, são construídos banheiros em
cada quarto, já que antes dessa intervenção
os banheiros eram de uso coletivo. (Fig. 4, 5,
Figura 5: Vista superior do modelo digital do Hotel
Palace, entre 1974 e 2006.
Figura 6: Corte interno no modelo tridimensional
do Hotel Palace, entre 1974 e 2006.
6 e 7). Depois dessa interv enção o hotel continuou em funcionamento até 1992.
Figura 7: Corte longitudinal no modelo digital do
Palace Hotel, entre 1974 e 2006.
Figura 4: Modelo tridimensional digital do Hotel
Palace, período entre 1974 e 2006.
Em 1996, a Prefeitura de Ribeirão
Preto adquiriu o edifício e dez anos mais tarde, em 2006, começa uma nova intervenção
com caráter de requalificação do prédio e de
sua utilização. Foi planejado um Centro Cultural destinado a várias atividades culturais e
artísticas. O projeto foi executado pelo arqui-
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
teto Jeferson Dantas Navolar. (Fig. 8, 9 e 10)
A intervenção de 2006 possui algumas características importantes em relação
ao tratamento com o edifício de valor histórico, uma delas é a intenção de valorizar
as características históricas e monumentais
da edificação, principalmente as fachadas
do edifício, defendidas por leis de proteção
e preservação do patrimônio histórico e arquitetônico, devido à ligação com os outros
edifícios do conjunto.
Está, portanto, delineada a problemática especial da arquitetura
como exterior, no que tange à problemática geral da obra de arte em
relação às eventuais operações de
restauro.
Coloca-se, por isso, em primeiro
lugar, a inalienabilidade do monumento como exterior do sítio
histórico em que foi realizado.
(BRANDI, 2004, p. 133)
Percebemos também que o projeto se
preocupa em diferenciar através das características materiais, materialidade, as novas
construções e intervenções das construções
antigas, procurando dessa maneira valorizar as características históricas originais da
edificação, assim como defendiam alguns
estudiosos e teóricos do patrimônio histórico
como Camilo Boito.
Uma vez admitido o princípio da
restauração, esta deve adquirir
sua legitimidade. Para isso, é necessário e suficiente fazer que seja
reconhecida como tal. O caráter
pertinente, adventício, ortopédico
do trabalho refeito deve ser marcado de forma ostensiva. Ele não
deve por nenhuma hipótese passar por original. É imperioso que
se possa, num relance, distinguir a
inautenticidade da parte restaurada das partes originais do edifício,
(CHOAY, 2006, p. 166)
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Figura 8: Fachada do modelo digital do edifício do
Hotel Palace após a intervenção de 2006.
Figura 9: Corte interno no modelo digital mostrando as estruturas criadas para a nova utilização,
após 2006.
Figura 10: Corte longitudinal do modelo digital
mostrando as novas estruturas, as novas aberturas
e também, em alguns pontos, o aumento do espaço
interno devido a demolição de paredes, após 2006.
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
Figura 11: Theatro Pedro II.
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
O projeto do Cine-Theatro Pedro II é
do ano de 1928, executado pelo engenheiroarquiteto Hyppolito Gustavo Pujol Júnior e
financiado pela Cia. Cervejaria Paulista. O
edifício está localizado na rua Álvares Cabral,
em frente a praça XV de Novembro (Fig. 11).
O edifício foi construído com estrutura em concreto armado e estrutura metálica
na cobertura e na cúpula, o projeto estrutural
foi desenvolvido pela empresa E. Kimmits e
Cia..Várias outras empresas participaram da
empreitada para a construção do Cine-Theatro e do Palacete Meira Jr, entre elas a Guilherme Degen, responsável pela alvenaria de
tijolos; a Ulysses Pelliciotti & Cia., responsável pelos ornatos; a Irmãos Granja responsável pelas esquadrias e a B. Sant’Anna & Cia.
encarregada das instalações elétricas. (MEIRA Jr., 1932).
Segundo publicação do advogado
João Alves Meira Júnior, então responsável
pela Cia Cervejaria Paulista aconteceram,
durante as obras para a construção do Theatro e do Palacete, diversos atritos com o
engenheiro-arquiteto responsável pela obra,
Hyppolito Gustavo Pujol Júnior, devido às
discordâncias entre o projeto original apresentado e a obra final.
E o mais curioso de tudo isso, é
que o Autor fugiu á planta, supprimiu obras previstas como o salão
de chá na confeitaria, quatro salas
e um foyer no theatro, a columnata
ou terraço na frente dos treis edificios; reduziu a lotação do theatro;
não assentou apparelhos, como
telephones, campainhas, e o regulador da intensidade da iluminação do palco scenico; abandonou
o theatro antes de concluil-o e lá
deixou uma serie de defeitos que
não recommendam o seu apregoado renome de architecto... (MEIRA Jr, 1932, p. 12).
Durante a execução da obra foi acrescentado um pavimento no subsolo do Theatro, segundo consta em uma carta enviada
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
pelo engenheiro-arquiteto Hyppolito Gustavo Pujol Júnior ao presidente da Cia Cervejaria Paulista, sugerindo que: “No desenvolvimento do projecto de execução, surgiu-nos
a possibilidade, com pequeno augmento de
despesas, de aproveitar todo o porão do Theatro em um magnifico ‘salão de cabaret’ ou
‘dancing’”. (MEIRA Jr., 1932, p.16).
O projeto do Cine-Theatro Pedro
II é inspirado na Ópera de Paris, projetada
por Charles Garnier (Fig. 12, 13 e 14). Assim como este, outros teatros projetados no
Brasil no início do séc. XX tomaram como
partido de projeto a mesma referência como,
por exemplo, os Theatros Municipais de São
Paulo e do Rio de Janeiro, o primeiro projetado por Ramos de Azevedo e o segundo por
Francisco de Oliveira Passos. Isso mostra de
maneira clara quais eram as referências e
intenções a respeito dos atributos para uma
cidade em processo de modernização.
Figura 14: Corte longitudinal no modelo digital do
edifício do Theatro Pedro II segundo projeto original (1928).
Em 1930, a construção do Theatro
Pedro II e do conjunto “Quarteirão Paulista”
é finalizada. Devido ao crak na Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e aos problemas
que ocorreram durante as obras, já comentados anteriormente, vários padrões de acabamentos foram alterados ou dispensados e
o projeto original sofreu diversas modificações. Mesmo assim, no dia 08 de outubro de
1930, foi inaugurado o Cine-Theatro Pedro
II, com apresentação do filme “Alvoradas do
Amor”. (FUNDAÇÃO D. PEDRO II, 2009)
(Fig. 15)
Figura 12: Desenho de elevação do Theatro Pedro
II (1928).
Figura 15: Evento próximo a data de inauguração
do Theatro.
Fonte: Fundação Pedro II.
Figura 13: Modelo digital do “Quarteirão Paulista”
segundo projeto original (1928).
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Em 1939 acontece a primeira intervenção no edifício do Theatro, para construção e montagem do piso e do assoalho no
subsolo, e foi projetada pelo arquiteto Ernesto Correa. O projeto tinha a intenção de me-
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
lhorar as condições no subterrâneo do Theatro para que fosse mais bem aproveitado.
A partir a década de 1950, devido
principalmente às alterações dos locais de
interesse especulativo do mercado imobiliário, em direção ao vetor de expansão sul
da cidade “(...) na década de 1940 e 1950,
onde residiam camadas de alta renda, atraiu
o comércio de luxo na direção desses novos
bairros” (CALIL Jr., 2003, p. 130), o centro
de Ribeirão Preto começa a presenciar um
processo de degradação, juntamente com
seu patrimônio arquitetônico. Na década seguinte, o Theatro Pedro II sofreu sucessivas
intervenções, tanto na sala de espetáculos
quanto no subsolo, que foram modificados
para atender a novos usos (Fig. 16).
Na década de 60, o prédio passou
por reforma que o descaracterizou. Vários elementos decorativos
foram destruídos, a platéia foi reduzida e placas de madeira encobriram camarotes, frisas e galerias
laterais para transformá-lo em
cinema.
Entre as décadas de 50 e 70, o subsolo do Theatro Pedro II foi transformado em salão de bailes de
carnaval. Fora do período carnavalesco, era transformado em sala
de jogos. O local ficou conhecido
como “Caverna do Diabo” (FUNDAÇÃO D. PEDRO II, 2009).
Figura 16: Tela de projeção do cinema que sobrepôs o palco.
Fonte: CEDOM Theatro Pedro II.
Até que no dia 15 de junho de 1980,
durante a exibição do filme “Os Três Mosqueteiros Trapalhões”, inicia-se um grande
incêndio que destrói parcialmente o Theatro.
Com este episódio a estrutura do edifício foi
abalada e o prédio ficou inutilizado por vários anos.
Em junho de 1982, o Theatro Pedro
II foi tombado como Patrimônio Histórico pelo CONDEPHAAT, e a partir de então
iniciaram-se diversas discussões a respeito
da reforma e requalificação do edifício, que
incluíram a população ribeirãopretana, os
órgãos públicos e a iniciativa privada, até então, proprietária do prédio.
Depois de intensas discussões, em
1989 o Theatro foi desapropriado pelo Governo do Estado de São Paulo e entregue à
Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto. Em
1991, iniciou-se a primeira fase de intervenção no edifício, sendo que a construtora responsável pela obra foi a Jábali Aude Construções Ltda. Essa primeira fase termina
em 1992. Em 1993 são retomadas as obras,
com projetos de arquitetura desenvolvidos
pelo arquiteto Nelson Dupré. A reforma e
restauração do prédio vão até o ano de 1996,
quando o Theatro é reinaugurado, no dia 15
de maio.
As maiores alterações aconteceram:
no subsolo, onde foi criada uma área para
café, um teatro de câmara, camarins individuais e coletivos e salas de apoios aos artistas; na cúpula do Theatro, que foi totalmente
modificada em relação a original, pela artista
plástica Tomie Ohtake; na infra-estrutura
do edifício, onde foram implantados novos
sistemas elétricos e hidráulicos e elementos
para a acessibilidade universal, instalados
aparelhos de ar-condicionado nas salas de
espetáculos e nos camarins; na infra-estrutura cênica, que também foi modernizada
com novos aparelhos de som e iluminação;
na sala principal do Theatro, que ganhou
painéis acústicos e parte do palco funciona
como um elevador para acomodação da orquestra ou para trânsito de instrumentos .
(Fig. 17, 18, 19, 20 e 21).
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
Figura 17: Platéia e palco principal do Theatro.
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Figura 20: Modelo digital do Thaetro Pedro II,
após intervenção de 1996.
Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão
Preto.
Figura 18: Cúpula do Theatro desenhada pela artista plástica Tomie Otahke.
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Figura 21: Corte longitudinal no modelo digital do
Theatro Pedro II, após intervenção de 1996.
Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão
Preto.
Figura 19: Auditório Meira Júnior no subsolo do
Theatro.
Fonte: Pesquisa de campo, 2009.
Figura 22: Palacete Meira Júnior.
Fonte: Pesquisa de Campo, 2008.
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
O palacete ou edifício Meira Júnior
foi projetado no ano 1928, juntamente com o
projeto do Theatro Pedro II pelo engenheiroarquiteto Hyppolito Gustavo Pujol Júnior, e
assim como os demais possui estrutura de
concreto armado (Fig. 22).
Situado na esquina das ruas Álvares
de Cabral e General Osório, “O projeto original do Edifício Meira Júnior apresentava em
seu pavimento térreo as instalações de lojas,
uma confeitaria de luxo. Os dois pavimentos
superiores seriam ocupados por escritórios.”
(Guia Histórico da Cidade de Ribeirão Preto,
2000) (Fig. 23 e 24)
Figura 23: Modelo digital do Edifício Meira Júnior, segundo projeto original de 1928
Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão
Preto.
Figura 24: Corte do modelo digital do Edifício Meira Junior, segundo projeto original de 1928.
Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão
Preto.
O prédio foi inaugurado no ano de
1930. Seis anos depois acontece a primeira
intervenção, projetada pelo arquiteto Baudilio Domingues. O projeto é de uma marquise
na fachada da Rua General Osório em continuação à marquise já existente na fachada da
rua Álvares Cabral.
A partir do ano de 1977, a famosa choperia “Pinguim 2” passa a funcionar no térreo do edifício. Atualmente o edifício inteiro
é alugado para a choperia, o primeiro pavimento é ocupado por um salão de eventos e
o segundo pavimento por diversas salas de
escritórios e a atual proprietária do prédio é
a Santa Casa de Ribeirão Preto.
No ano de 1994 o edifício Meira júnior, juntamente como o conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” e a praça XV
de Novembro, foram tombados como Patrimônio Histórico pelo CONDEPHAAT (SECRETARIA DA CULTURA DO ESTADO DE
SÃO PAULO). Em 2001 aconteceu a última
intervenção no edifício, quando a choperia e
o salão de eventos foram reformados internamente para atender aos seus respectivos
usos, nessa intervenção percebemos novamente a intenção de valorizar as características históricas e monumentais do edifício,
principalmente em relação a fachada, que
possui poucas interferências.
Figura 25: Lateral do Teatro Carlos Gomes.
Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão
Preto.
O Teatro foi projetado pelo arquiteto
Ramos de Azevedo, “Em estilo neoclássico de
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
influência italiana” (VALADÃO, 1997, p. 115)
a pedido dos maiores fazendeiros da região
de Ribeirão Preto na época, “No início do século, a aristocracia fazendária do Café local,
com a ajuda de capitalistas de boa vontade,
fez uma ‘combinação’ bairrista: construir um
teatro moderno que projetasse a cidade. Seria o Teatro Carlos Gomes!” (CIONE, 1997, p.
50). (Fig. 25, 26, 27, 28 e 29)
No dia 7 de dezembro de 1897, com a
apresentação da peça “O Guarany”, do maestro Antonio Carlos Gomes e interpretado
pela Cia. Lírica Italiana DE MATIA o teatro
foi inaugurado.
‘A construção do edifício, o monumental de então, o maior e melhor
teatro do setor sul do país, de melhor acústica, imponente, em plena praça XV de Novembro, constitui um plano arrojado. Escadarias
de mármore de Carrara, candelabros de bronze alemão, madeira
de lei, pinhos de Rigas, portas lavradas e material de proscênio e
da ribalta importados da Europa,
assim como os vitrais italianos e
telhas (ardósia) francesas.’. (VALADÃO, 1997, p.116)
Figura 26: Interior do Teatro Carlos Gomes. Fonte: Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto.
“Podemos assim deduzir que o modelo de ‘modernidade’ européia havia chegado
a Ribeirão Preto através da arquitetura” (VALADÃO, 1997, p.116). O Teatro representava
tanto com sua arquitetura, como com sua
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
função a pujança do capital da economia cafeeira, na arquitetura através da adoção de
diversas características da cultura européia,
tanto nos materiais utilizados como também
na adoção de estilo, no caso neoclássico, que
representavam para a sociedade brasileira,
na época, a sintonia com os estilos modernos das cidades européias, em processo de
industrialização. Já na função do edifício,
como equipamento cultural, percebemos a
consolidação de uma sociedade urbana e que
utiliza esse equipamento como local de encontros sociais.
Durante vários anos o Teatro serviu
com um dos centros das manifestações culturais na cidade de Ribeirão Preto, “o Teatro
Carlos Gomes, foi um teatro realmente famoso. Merecidamente famoso. No Brasil e no
exterior, na Europa especialmente de onde
procediam companhias líricas especialmente
contratadas para as noites de gala do tempo
áureo do café.” (CIONE, 1989, p. 344). Além
das diversas companhias teatrais e musicais,
até algumas novidades para época foram
apresentadas no Teatro, como uma sessão
de cinematógrafo cantante, “o Teatro Carlos
Gomes convida os seus ‘habitués’ no dia 14
de janeiro de 1910 a irem assistir o seu número ‘o cinematógrafo cantante’” (CIONE,
1997, p. 49).
Com o passar dos anos e devido a diversos acontecimentos como a crise financeira na cultura cafeeira gerada pela quebra
da bolsa de valores de Nova York em 1929 e
também por causa da construção de um novo
teatro, o Theatro Pedro II, o Teatro Carlos
começou a perder importância. “Tudo durou
enquanto durou o café. Com a queda do café,
em virtude da crise de 29, a elite foi desaparecendo, dando lugar aos plebeus que ascendiam na sociedade, popularizando a cultura
e lhe dando rumos novos”;“O Teatro Carlos
Gomes foi o primeiro local das manifestações
artísticas da elite de Ribeirão Preto; o Pedro
II o substituiu.” (CIONE, 1997, p. 51). “Depois da construção do Teatro Pedro II, em
1930, o Carlos Gomes perdeu importância
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
e passou a ser considerado de segunda categoria, não obstante sua linha arquitetônica
expressiva e a riqueza do seu interior.” (JORNAL VERDADE)
O edifício do teatro também começou
a sofrer alterações em relações ao uso, “A
partir de 1930, passou a ser sede de entidades políticas ficando em precárias condições”
(CIONE, 1997, p. 51). Devido a esses acontecimentos, parte da sociedade ribeirãopretana começa a ficar insatisfeita com a presença
do Teatro, iniciou-se, então, uma mobilização para que o edifício fosse demolido, “A
demolição do teatro passou a ser defendida
por uma forte corrente sob o argumento de
que havia de transformado em um ‘pardieiro’. (...). O articulista reconhece que o Teatro
Carlos Gomes ‘foi um orgulho de Ribeirão
Preto nos anos 20, acolhendo as mais belas
vozes do mundo’. Mas que a partir dos anos
30, ‘virou um velho cinema’ e ali se instalou
um ringue de patinação, além de ser ocupado
como sede da Escola de Samba ‘Os Bambas’”
(JORNAL VERDADE)
No final da década de 1930 iniciaram
diversas discussões a respeito de que destino
deveria ter o edifício do Teatro Carlos Gomes. Em carta datada do dia 15 de setembro
de 1939 dirigida ao Secretário da Fazenda do
Estado de São Paulo, Sr. Dr. Antonio C. de
Sales Junior, a Caixa Econômica do Estado
de São Paulo dispõe sobre a intenção de se
instalar no edifício, juntamente com o Palácio de Justiça da cidade de Ribeirão Preto,
através de “adaptações necessarias e possiveis” (LEITE, 1939, p. 1), no edifício.
Sabêdores que fômos da boa vontade que há por parte do benemérito Prefeito local em dar á justiça
de Ribeirão Preto agasalho compativel á importancia da nóssa
urbs, para o que está pronto em
promover a desapropriação do
vélho Teatro Carlos Gomes, o que
feito seria o mesmo doado ao Estado para que aproveitado fôsse para
a construção, por adaptação, do
Forum local;. (LEITE, 1939, p. 1)
Durante os primeiros anos da década de 1940 o futuro do Teatro Carlos Gomes
continuou incerto, até que no ano de 1943 a
Prefeitura de Ribeirão Preto desapropriou
o teatro, pagando o valor de doze mil e quinhentos cruzeiros a cada um dos oito dos
herdeiros. No mesmo ano iniciou-se a demolição do edifício e que durou até o ano de
1946.
Depois da demolição não houve a
construção do Palácio da Justiça, nem de
qualquer outro edifício no local do antigo Teatro. Anos mais tarde foi construído na Praça
Carlos Gomes um terminal de ônibus urbanos, tempos depois esse terminal foi desativado e o quarteirão virou praça novamente.
Figura 27: Modelo do Teatro Carlos Gomes.
Figura 28: Vista Lateral do Modelo do Teatro Carlos Gomes.
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O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
Figura 29: Corte longitudinal no modelo do Teatro
Carlos Gomes.
CONSIDERAÇÕES GERAIS
Analisando os levantamentos históricos e os materiais produzidos, percebe-se
de maneira clara que a história do conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” está
relacionada de forma direta com a história
da cidade de Ribeirão Preto, principalmente
com a história de sua área central.
Relacionando a história desses edifícios com da cultura cafeeira, que foi de
fundamental importância para o desenvolvimento da cidade e da região de Ribeirão
Preto, do ponto de vista, econômico, social,
cultural e artístico. Esse período foi marcado
pela construção do Teatro Carlos Gomes, que
representa claramente esse desenvolvimento, sendo considerado um dos teatros mais
importantes do país e que financiava a vinda
de diversas companhias teatrais da Europa
para se apresentarem na cidade.
O conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” reflete o período de início da
industrialização e da modernização urbana
provocada pelo ciclo do café no início do séc.
XX. Financiado por industriais da época, os
edifícios do conjunto, executados com estruturas de concreto armado, um avanço para
época, seguem a mesma influência estética, o
ecletismo, praticado na arquitetura européia.
Assim como a economia das cidades, entre elas Ribeirão Preto, dependentes
das riquezas geradas pela cultura do café,
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
sofreram com o crak da Bolsa de Nova York
no ano de 1929, o conjunto “Quarteirão Paulista” também sofreu diversas modificações
antes da sua inauguração, no ano seguinte. E
o Teatro Carlos Gomes iniciou a sua fase de
decadência.
O “Quarteirão Paulista” também refletiu o processo de degradação ocorrido no
centro da cidade a partir da década de 1950.
Assim como em outras cidades brasileiras,
Ribeirão Preto acompanhou as transformações geradas pelas mudanças dos interesses
financeiros e especulativos que dirigiram
seus investimentos imobiliários para outras
regiões da cidade.
Na década de 1990, o conjunto arquitetônico tornou-se centro de debates e
discussões por parte de vários setores da sociedade ribeirãopretana. Tanto a população
como o poder público e privado debateram
sobre qual seria a melhor solução para a requalificação do conjunto. Isso apresenta uma
nova forma e postura de organização em torno de projetos de interesse da comunidade.
As posturas projetuais das intervenções que ocorreram nos edifícios do conjunto
também revelam diferentes conceitos em relação ao patrimônio histórico arquitetônico.
Até o tombamento dos edifícios, que aconteceu nas décadas de 1980 e 1990, as intervenções tinham como objetivo principal satisfazer as necessidades usuais das edificações,
nos casos em que esses usos eram alterados,
como no caso no Theatro, durante a década
de 1950, a preocupação com as características originais da construção e seu valor artístico e histórico eram desconsideradas.
Após o tombamento dos edifícios,
percebe-se que os projetos de intervenção,
pautados agora por uma legislação específica, tentam respeitar ao máximo as características originais das edificações, sem que
isso impeça que essas construções abriguem
novos usos. Essas intervenções propõem,
quando necessário, a construção de elementos novos ou a demolição de partes do
edifício antigo, e dessa maneira os prédios
O histórico de intervenções no “Quarteirão Paulista” e no Teatro Carlos Gomes em
Ribeirão Preto por meio de representações tridimensionais digitais
ganham flexibilidades para os novos usos.
Porém algumas intervenções, com a introdução elementos novos, ou até com a manutenção das características originais das edificações, em alguns casos, são questionáveis
e fazem parte de diversas discussões atuais
a respeito de como intervir em construções
que possuam um importante significado histórico e artístico.
Dessa maneira, fica mais uma vez evidente que o Teatro Carlos Gomes e o conjunto arquitetônico “Quarteirão Paulista” não representam somente um marco de um período
histórico importante na cidade de Ribeirão
Preto, como foi o final do século XIX e início
do século XX, mas principalmente reflete as
mudanças da sociedade, da cultura e dos conceitos artísticos das diferentes épocas.
Referências bibliográficas
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arquivopublico.ribeiraopreto.sp.gov.br/scultura/arqpublico/i14index.asp>.
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BRANDI, C. Teoria da Restauração. São Paulo: Ateliê Editorial, 2004.
CALIL Jr., O. O Centro de Ribeirão Preto: os processos de expansão e setorização.São Carlos:
EESC-USP, 2003.
CHOAY, F. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Ed. Unesp, 2006.
CIONE, R. História de Ribeirão Preto. v. 5. Ribeirão Preto: Legis Summa LTDA, 1997.
_________. História de Ribeirão Preto. v. 1. Ribeirão Preto: Legis Summa LTD, 1989.
FUNDAÇÃO D. PEDRO II. Disponível em: <http://www.ribeiraopreto.sp.gov.br/FUND
ACAO/teatro/I36PRINCIPAL.php>. Acesso em junho de 2009.
JORNAL VERDADE. Faz 50 anos que o Teatro Carlos Gomes foi demolido. Ribeirão Preto,
22 de janeiro de 1996. Política, História, p.4.
LEITE, R. G. Carta ao Exmo. Sr. Dr. Antonio C. de Sales Junior. São Paulo, 1939.
MEIRA Jr, J. A. Allegações finaes da Ré. Ribeirão Preto, 1932.
SECRETARIA DA CULTURA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Disponível em < http://www.
cultura.sp.gov.br/portal/site/SEC/menuitem.fe8f17d002247c2c53bbcfeae2308ca0/?vgnext
oid=963c6ed1306b0210VgnVCM1000002e03c80aRCRD>. Acesso em julho de 2009.
VALADÃO, V. Memória arquitetônica em Ribeirão Preto: Planejamento Urbano e Política de
Preservação. Franca: UNESP, 1997.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura
de Massa: o Produto Twilight
Juliana Jurkovick Garzon¹
Delson Ferreira²
RESUMO
Este trabalho tem por objetivo a análise do papel da mídia norte-americana na
divulgação da série de livros Twilight e dos
filmes baseados nos mesmos e do impacto
desse objeto de estudo nos fãs destes produtos de entretenimento. A saga conta a
história de um romance proibido entre uma
adolescente humana, Isabella Swan, e um
vampiro, Edward Cullen. Foi escrita por Stephenie Meyer e é composta por quatro livros:
Twilight, New Moon, Eclipse e Breaking
Dawn. Lançados nos EUA em 2005, 2006,
2007 e 2008, respectivamente, os quatro
volumes totalizam mais de 85 milhões de
livros vendidos pelo mundo. Para a análise
da atenção preferencial dada ao “fenômeno Twilight” pela mídia norte-americana,
foi utilizado, como ferramenta metodológica principal, dois fã-sites: Twilighters.org
(http://www.twilighters.org) e Bellaandedward.com (http://bellaandedward.com),
ambos dedicados à divulgação de conteúdos
relacionados à série de livros. O sucesso do
casal ‘Bella e Edward’ chegou aos quatro
cantos do mundo e agrega cada vez mais fãs
dos mais variados perfis. A partir do conceito de Indústria Cultural, desenvolvido por
Adorno e Horkheimer, estudiosos da Escola
de Frankfurt, inferiu-se que a mídia tornou,
ou potencializou, estes livros em mercadoria
cultural a partir da produção dos filmes, tomando-se como referência os dados as informações divulgadas nos fã-sites analisados. E
verificou-se, também, o efeito desse produto
e da sua expansiva divulgação em seu público alvo, constituído principalmente, mas não
somente, por meninas na faixa etária de 13 a
19 anos. As conclusões observadas norteiam
a afirmação da ocorrência, no caso do objeto
analisado, do consumo de produtos de entretenimento, da integração entre os fãs através
da web e, também, da busca pelo prazer no
consumo deste produto cultural.
Palavras-chave: Twilight; cultura de
massa; mídia; capitalismo; prazer e consumo.
ABSTRACT
The following scientific article has
the goal of analyzing the North American
media’s role in the divulgation of the books
series Twilight, the movies based on the
books, and the impact of the series as whole
on fans. The saga tells the story of a forbidden romance between a human teenager,
Isabella Swan, and a vampire, Edward
Cullen. It was written by Stephenie Meyer
and it has four books: Twilight, New Moon,
Eclipse and Breaking Dawn. Released in the
USA in 2005, 2006, 2007 and 2008, the four
volumes totaled more than 86 million copies
sold around the world. To analyze the attention given to the “Twilight phenomenon”
by the North American media two fan-sites
were used as a methodological tool: Twilighters.org
(http://www.twilighters.org)
and Bellaandedward.com (http://bellaandedward.com), both dedicated to publishing
content related to the book series. Edward
¹Aluna de graduação em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo. Bolsista do Programa Institucional de
Iniciação Científica (PIBIC) do UniSEB – COC – Ribeirão Preto-SP
²Professor do UniSEB -COC – Ribeirão Preto- SP, orientador da Iniciação Científica da qual este artigo é fruto.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
and Bella’s popularity has reached the four
corners of the world and aggregates more
fans as time goes by. Using the concept of
Cultural Industry, developed by Theodor
Adorno and Max Horkheimer, theorists
from the Frankfurt School of Critical Theory, this study infers that the media has
turned, the Twilight books into a cultural
product through the movies’ production,
using as reference the data published on
the analyzed fan-sites. And this article also
analyzed the effects of this product, and its
broad marketing on the main public, mostly
consisting of, but not limited to, girls between the ages of 13 and 19 years. The conclusions observed are about the affirmation of
the occurrence, in the case of the analyzed
object, of the consumption of the entertainment products, of the interaction among
fans using the web and, also, the search for
the pleasure derived through the consumption of this cultural product.
Key-words: Twilight; mass culture;
media, capitalism and pleasure.
•••
Os vampiros de Meyer são construídos com grande beleza física, são extremamente rápidos e fortes, brilham ao sol e não
possuem nenhuma aversão a alho, água benta ou ao crucifixo. Seus olhos mudam de cor:
para os vegetarianos um marrom dourado,
quando estão alimentados, e preto, quando
estão famintos. Já os que se alimentam de
sangue humano possuem os olhos vermelhosangue quando saciados e vermelho escuro
quando estão com sede. Apesar de não possuírem presas, os famosos caninos alongados, eles são venenosos e o seu veneno tem
um poder de cura que é o que transforma
uma pessoa, depois de atacada, em vampiro,
após três dias de dor excruciante.
Todas essas características podem
parecer repulsivas para os fãs do estilo clássico neste gênero, mas o objetivo de Meyer
não era agradá-los, uma vez que ela não se
importou com a história tradicional e estabelecida sobre estes personagens. “A única vez
que eu realmente fiz pesquisa sobre vampiros, foi quando Bella pesquisou sobre vampiros. Eu queria saber o que ela encontraria se
ela colocasse o assunto no Google. Porque eu
estava criando o meu próprio mundo, e sabia
que estava quebrando todas as regras. Acho
que não queria descobrir quantas estava quebrando. Parte da diversão de escrever é criar
um mundo. Se você escreve fantasia, porque
se limitar pelo mundo de outra pessoa?³”,
confessa a escritora. Meyer preocupou-se,
exclusivamente, em agradar a si mesma: “eu
não escrevi esses livros para uma audiência
específica. Eu os escrevi para mim”. O que
não impede que a série, direcionada inicialmente a jovens de 13 a 19 anos (teens), pelo
conteúdo da história, tenha fãs de todas as
idades, segundo a própria autora relata4: “eu
tenho vários fãs da minha idade, as mães de
30 e poucos anos. O que eu realmente amo
porque escrevi o livro para mim mesma, então faz sentido para mim que elas também
gostem. Nós temos meninos leitores, eu recebi uma carta de uma vovó de 86 anos, que
estava muito animada sobre as séries. Acho
que essa foi a minha idade máxima, e para
baixo de crianças de oito anos”. Este nivelamento entre adultos e crianças, faz-se importante notar, é algo almejado pelos produtores
de cultura de massa.
Pode-se dizer que a cultura de
massa, em seu setor infantil, leva
precocemente a criança ao alcance do setor adulto, enquanto em
seu setor adulto ela se coloca ao
alcance da criança. Esta cultura
cria uma criança com caracteres
pré-adultos ou um adulto acriançado? A resposta a essa pergunta
não é necessariamente alternati-
³http://www.youtube.com/watch?v=_17kgVcHzy8 (acessado em 16/11/2010)
4
http://www.youtube.com/watch?v=QsoWcRazcIk (acessado em 16/11/2010)
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
51
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
va. Horkheimer vai mais longe,
longe de mais, porém indica uma
tendência: ‘O desenvolvimento
deixou de existir. A criança é adulto desde que sabe andar e o adulto
fica, em princípio, estacionário.’
Assim, uma homogeneização da
produção se prolonga em homogeneização do consumo que tende
a atenuar as barreiras entre as idades. (MORIN, 1989, p. 39)
Tal homogeneização de faixas etárias
facilita o consumo. A criança não precisa
mais pedir para o adulto, que tem o poder de
comprar, adquirir tal objeto de desejo. Não
há discernimento entre o que é destinado ao
público mais maduro e aos que ainda estão
em fase de desenvolvimento. Isso tudo implica na demolição de barreiras que poderiam
impedir o consumo. Se os pais aprovam tal
objeto, ele será consumido por todos.
A Indústria Cultural ainda tenta
minimizar as diferenças culturais, facilitando seu consumo mesmo em países de hábitos
diferentes.
A cultura industrial se desenvolve no plano do mercado mundial.
Daí sua formidável tendência ao
sincretismo-ecletismo e à homogeneização, seu fluxo imaginário,
lúdico, estético, atenta contra as
barreiras locais, étnicas, sociais,
nacionais, de idade, sexo, educação; ela separa dos folclores e das
tradições temas que ela universaliza, ela inventa temas imediatamente universais. (MORIN, 1989,
p. 44)
E ainda,
O cinema de Hollywood visa não
apenas ao público americano, mas
o público mundial, e há mais de
10 anos as agências especializadas
eliminam os temas suscetíveis de
chocarem as platéias européias,
asiáticas ou africanas.” (MORIN,
1989, p. 40)
52
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Provavelmente, esta é a razão de
Bella, no filme, consumir um “veggie burger”
na lanchonete com o pai, ao invés de cozinhar bifes em casa. Vender o último comportamento em um ambiente onde a carne de
vaca é sagrada é impossível. Transformá-la,
portanto, em uma menina com uma alimentação mais natural e saudável surge como
uma simples solução para uma adversidade
que poderia prejudicar a identificação com a
história pelos espectadores que se recusam a
comer carne.
O processo de identificação envolve
a escolha de atores simpáticos ao público,
que poderão encarnar personagens amados
e serem idolatrados por isso. Para o espectador poder se encontrar na história também é
necessário que esta contenha elementos que
agradem os mais diversos gostos.
A procura de um público variado
implica a procura de variedade
na informação ou no imaginário;
a procura de um grande público
implica a procura de um denominador comum. (...) Os filmes-padrão tendem igualmente a oferecer amor, ação, humor, erotismo
em doses variáveis; misturam
os conteúdos viris (agressivos) e
femininos (sentimentais), os temos juvenis e os temas adultos. A
variedade, no seio de um jornal,
de um filme, de um programa de
rádio, visa a satisfazer todos os interesses e gostos de modo a obter
o máximo de consumo. (MORIN,
1989, p. 35)
Assim, um produto que visa agregar
o maior número possível de seguidores deve,
ao mesmo tempo, agrupar tudo e nada. Em
um processo contraditório, é preciso ter tudo
que uma audiência variada vai gostar, ou
seja, amor, ação e humor; e também não ter
nenhum fator de repulsa. Nesta corda bamba
de extremos, resta ao espectador aprovar os
esforços da indústria ou traduzir o fracasso
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
em baixas cifras de arrecadação. Twilight
não é algo bem sucedido o suficiente para
agradar cada pessoa que entra em contato
com o seu universo; mas teve capacidade suficiente para impressionar uma boa parte dos
consumidores, bastante para tornar as séries
em produto muito lucrativo.
A paixão dos fãs por Twilight é comparada a dos Beatles, considerada a maior
banda de rock de todos os tempos. Uma rápida análise nos permite inferir os fundamentos da comparação entre a banda de rock e
o objeto de estudo deste trabalho, uma vez
que na década de 1960 a internet não existia e, consequentemente, não era um meio
de comunicação atuante e de impacto. Podemos considerar o fanatismo pelos Beatles
como um fenômeno de cultura de massa
mais “puro”, no sentido de ter assumido tamanha proporção ao redor de todo o mundo
sem a difusão mediada pela alta tecnologia
comunicacional, que facilita a disseminação
de comportamentos e ideologias.
No documentário lançado em 2009,
“Twilight In Forks: The Saga of a Real
Town”, que descreve o impacto dos livros e
dos filmes na cidade de Forks, certo personagem, que não pôde ser identificado devido a
ausência de créditos na fala, declara:
Some of the women here talk
about how they read the book and
they could do nothing else. They
couldn’t take care of their children, they couldn’t cook meals for
their husbands, they couldn’t go
to work, because they had to read
these books.
Ou seja, a influência desse produto na
vida das pessoas é tamanha, que interfere até
nas tarefas diárias, como cuidar dos filhos,
fazer comida e até trabalhar. Tudo porque
para as fãs, consumir este trabalho literário é
mais importante do que tomar conta da própria vida.
A participação das mães neste universo fica ainda mais clara nos dados da Ad-
ministração da Segurança Social dos EUA,
publicado em artigo do jornal Folha de São
Paulo (ILUSTRADA, 12/05/2010). O órgão
divulgou, em maio deste ano, que o nome
“Cullen”, sobrenome do vampiro Edward, foi
um dos nomes que tiveram o maior uso em
2008, saltando cerca de 300 posições desde
2008. Porém o nome mais popular foi o do
rival, Jacob. Para as meninas, já não mais
uma surpresa: Isabella foi o favorito das
mães para batizar suas meninas.
Em Twilight encontramos, no espaço social cibernético, incontáveis fóruns de
discussões, fã-sites, blogs e todos os tipos
de tecnologia disponíveis. Há incontáveis
vídeos no Youtube demonstrando reações a
qualquer lançamento, comentários, críticas
e choros. Apesar da grande abrangência de
idade, os fãs são praticamente divididos em
dois grupos: Team Edward e Team Jacob.
Tal artifício já era previsto pelos teóricos da
Indústria Cultural:
Para disfarçar a incômoda distância entre indivíduos particulares,
eles se chamam de Bob e Harry,
como elementos intercambiáveis
de teams. Tal prática degrada as
relações pessoais à fraternidade
do público esportivo, que impede a verdadeira fraternidade.
(ADORNO & HORKHEIMER,
1985, p. 154)
É como se fosse impossível se relacionar com o “adversário”. Mesmo não sendo
uma disputa fervorosa como um verdadeiro
esporte, a rivalidade entre os personagens é
transportada para o plano das relações pessoais humanas, criando desconforto e contrariedade onde tal comportamento não deveria existir. Em contrapartida, há simpatia
por parte da platéia pelos personagens protagonistas.
A aceitação do elenco do filme pelos fãs era crucial, Kristen Stewart e Robert
Pattinson receberam, por isso, a missão dar
vida a Bella e Edward. Ambos sofreram com
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
a extrema idealização dos personagens, ninguém parecia ser bom o suficiente para viver
o casal. Mas, com o lançamento do primeiro
teaser do filme, a situação mudou de repulsa
para adoração.
A primeira demonstração do tamanho, e intensidade, da idolatria dos fãs pelos
personagens da série foi na edição 2008 da
Comic-Con, convenção de fantasia e história
em quadrinhos realizada em San Diego. Os
gritos dos fãs eram tão altos que os atores
mal conseguiam responder durante o painel
de perguntas. O elenco é unânime ao dizer
que não sabiam o quão grande e apaixonada
a base de fãs era. Todos achavam que seria
um pequeno filme independente.
A adaptação cinematográfica do
primeiro livro ficou por conta da pequena
e independente produtora Summit Entertainment. Com um orçamento de US$37
milhões, direção de Catherine Hardwicke e
roteiro de Melissa Rosenberg, o filme arrecadou US$69.6 milhões na estréia, em novembro de 2008. O filme encerrou sua apresentação com US$400 milhões, garantindo,
assim, um lugar na edição 2010 do Guinnes
World Records na categoria “Highest-Grossing Movie By A Female Director” (livro que
virou filme dirigido por uma mulher com o
faturamento mais alto).
A trilha sonora também teve um
importante papel na divulgação do filme.
Com maior destaque para a banda Paramore,
o álbum ficou 27 semanas5 seguidas no topo
da Billboard, desbancando o então record de
Cidade dos Anjos, com 20 semanas. O CD
ganhou disco duplo de platina, totalizando
quase dois milhões de discos vendidos.
O segundo filme, New Moon, só se-
ria realizado se o primeiro fizesse sucesso,
ou seja, se vendesse. E foi. Segundo matéria
da revista Exame6, apenas para Twilight são
oito milhões de DVDs vendidos e 350 produtos licenciados, entre eles Barbies de Bella,
Edward e Jacob.
New Moon estreou em novembro
de 2009. Ainda com roteiro de Melissa Rosenberg, desta vez a película teve direção de
Chris Weitz. O filme teve um orçamento de
US$50 milhões, o que permitiu melhores
efeitos especiais e até filmagens na Itália. E o
segmento já deu resultados7 positivos: arrecadou US$140.7 milhões nos três primeiros
dias de exibição nos EUA em 4024 cinemas,
US$72.78 apenas no primeiro dia. O que lhe
dá o terceiro lugar no ranking de maior bilheteria em final de semana de estréia de
todos os tempos. O filme também rendeu
US$258.8 milhões em lançamento mundial.
A trilha sonora também mostrou resultados.
Uma semana após estrear em segundo lugar
na Billboard, o CD9 atingiu o topo com 153
mil cópias vendidas.
Eclipse foi lançado no dia 30 de junho de 2010. O roteiro continuou a encargo de Melissa Rosenberg, e a direção foi de
David Slade. No fim de semana de estréia, o
filme arrecadou mais de US$64.8 milhões10.
Segundo artigo publicado no jornal Folha
de São Paulo (ILUSTRADA, 2/07/2010),
apenas na estréia, às 0h01 foram US$30 milhões, superando o número de New Moon,
nas mesmas condições.
No dia 3 de agosto de 2010 foi oficialmente confirmado que a adaptação cinematográfica de Breaking Dawn será dividida em
duas partes. O lançamento da primeira parte
está previsto para o dia 18 de novembro de
5
http://mtv.uol.com.br/noticias/trilha-sonora-de-crep%C3%BAsculo-faz-hist%C3%B3ria-na-parada-da-billboard
(acessado em 16/11/2010)
6
http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/0955/marketing/noticias/como-criar-febre-508258?page=1
(acessado em 16/11/2010)
7
http://www.pronetworks.org/index.php/independent_films/post/new_moon_opening_weekend_box_office_record_numbers/ (acessado em 16/11/2010)
8
http://hollywoodinsider.ew.com/2009/11/22/new-moon-banks-140-million/#comment-93702 (acessado em
16/11/2010)
9
http://www.sidneyrezende.com/noticia/62074+trilha+sonora+de+lua+nova+sobe+ao+topo+do+billboard+200
(acessado em 16/11/2010)
10
http://boxofficemojo.com/movies/?id=eclipse.htm (acessado em 16/11/2010)
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
2011. A continuação deve chegar às telas de
cinema aproximadamente um ano depois, no
dia 16 de novembro de 2012.
Twilight ganhou espaço na mídia norte-americana quando o filme começou a ser
produzido. Em um curto espaço de tempo, a
novidade não passou a ser o novo longa, mas
sim os atores que nele estrelavam. Com o jovem elenco dos filmes em evidência, incontáveis revistas discutem seu estilo de vestir,
seus hobbies e principalmente, suas relações
pessoais. A proximidade do casal protagonista fora das câmeras alimenta rumores de
um possível relacionamento, estimulando,
assim, o mercado de fotos tiradas por paparazzis.
Palinuro é um microcosmo vivido
da cultura de massa. Nele se distinguem dois grupos: de um lado,
os ‘olimpianos’ ativos, que tomam
os aperitivos no bar, dançam com
destreza, praticam os esportes
aquáticos, flertam, seduzem, e, de
outro lado, aqueles que são antes
espectadores, menos ativos, que
contemplam os ‘olimpianos’. Mas
em Palinuro, o fosso que separa as
duas classes é bem menos profundo, bem mais estreito do que o que
separa as celebridades e vedetes
dos comuns dos mortais; em Palinuro, os contatos são fáceis, a passagem para o Olimpo é possível...
Assim, de modo fragmentário,
temporário, o Olimpo da cultura
de massa toma forma e figura no
que Raymond chama, com muita
propriedade, uma utopia concreta. Isto significa, igualmente, que
o ideal da cultura do lazer, sua
obscura finalidade, é a vida dos
olimpianos modernos, heróis do
espetáculo, do jogo e do esporte.
(MORIN, 1989, p. 74 e 75)
A constante exploração da mídia norte americana sobre a vida particular dos atores estimula não mais apenas a identificação
com os personagens interpretados pelos dois
jovens atores. A partir do que lhes é vendido como verdade, os espectadores passam a
formular as próprias ideias do que seria um
casal ideal na vida real, fora do filme. Logo,
o romance que, hipoteticamente ou não, foi
transportado para o plano concreto torna-se
mais uma ferramenta de identificação dos fãs
e, consequentemente, de manipulação por
parte da indústria cultural.
Esses heróis da cultura de massa
foram promovidos a vedete em
detrimento das antigas celebridades (comparando os artigos consagrados em 1904 e em 1941 às
personalidades eminentes do Saturday Evening Post, Léo Lowenthal constata que os animadores,
dentre os quais emergiram astros
de cinema e campeões esportivos,
aumentaram em 50%, em detrimento dos homens de negócios ou
políticos). A imprensa, o rádio, a
televisão, nos informam sem cessar sobre sua vida privada, verídica ou fictícia. Eles vivem de amores, de festivais, de viagens. Sua
existência está livre da necessidade. Ela se efetua no prazer e no
jogo. Sua personalidade desabrocha sobre a dupla face do sonho e
do imaginário. Até mesmo seu trabalho é uma espécie de grande divertimento, votado à glorificação
de sua própria imagem, ao culto
de seu próprio ‘doublé’ (duplo).
(MORIN, 1989, p. 74 e 75)
Os atores envolvidos neste projeto
passaram a ser vangloriados principalmente pelo trabalho desenvolvido, e não pelo o
que são como pessoas, fato que já é clássico
na indústria cinematográfica e televisiva. A
mídia mascara, ou pelo menos tenta fazêlo, as características de cada indivíduo para
aproximá-los dos próprios personagens, que
já são simpáticos ao público. Desta forma
não há mais diferenciação do que é a pessoa
privada e a sua fachada pública.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
55
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
Esses olimpianos propõem o modelo ideal de vida de lazer, sua suprema aspiração. Vivem segundo
a ética da felicidade e do prazer,
do jogo e do espetáculo. Essa exaltação simultânea da vida privada,
do espetáculo, do jogo é aquela
mesma do lazer, e aquela mesma
da cultura de massa. Assim se esboçam as correlações complexas
entre o lazer, a cultura de massa,
os valores privados, o jogo-espetáculo, as férias, os olimpianos modernos. (MORIN, 1989, p. 74-75)
Logo, para a mídia, o suposto envolvimento entre Kristen Stewart e Robert Pattinson tornou-se um assunto muito mais interessante a ser explorado do que as aventuras
de Bella e Edward. Desta forma, a imprensa,
principalmente por meio das revistas de fofocas, estimula o consumo de uma suposta
realidade que, independentemente de ser
verdade ou não, aliena a população. A alienação aqui não chega a ser sugerida em aspectos políticos, ou de importância social. O
sujeito fica separado até do que inicialmente
o provocou: a história em si.
A emissora MTV fez uma série de entrevistas com todo o elenco no set de filmagens e, a cada terça-feira, um trecho dessas
entrevistas eram disponibilizadas no site da
rede televisiva. Esse segmento ficou conhecido como MTV Twilight Tuesday, e o repórter
Larry Carroll acompanha o desdobramento
do frenesi até hoje.
No documentário “Twilight In Forks:
The Saga of a Real Town”, Larry Carroll, desta vez fazendo as vezes de entrevistado, declara:
The Twilight fan base is still gonna be very powerfull 40, 50, 60
years from now. You’re gonna
have old ladies who are gonna remember their first crush was on
Robert Pattinson, and they will
be 70 years old. So, I hope, sincerely, that 50, 60, 70 years from
now this fan base is still as pure
56
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
and sweet and welcoming as it is
right now. That’s my hope. (LARRY CARROLL, 2009)
Ora, já que o jornalista experimentou
um contato tão próximo com tais fãs, ele tem
créditos para atribuir-lhes tais créditos. Mas
o próprio se contradiz quando a questão é a
efemeridade do produto. Primeiramente ele
afirma que os fãs continuaram fiéis e dedicados mesmo depois de cerca de meio século.
Depois o discurso muda para a esperança do
jornalista de que isso ocorra.
A loja Hot Topic, que produz diversos
artigos relacionados à série, carregou a tour
pelo país, com o objetivo de apresentar os
novos atores aos jovens americanos. A Hot
Topic Tour contou com 13 expedições, com
shows das bandas presentes na trilha sonora,
e sessão de autógrafo com o elenco. Segundo matéria da revista Exame, citada acima, a
Summit firmou uma parceria com o canal de
TV Reelzchannel para exibir semanalmente
um programa centrado nos bastidores da
produção de New Moon. Todas as iniciativas
foram estrategicamente montadas para apresentar o relativamente desconhecido elenco
ao público, aproximá-los da audiência. A
parceria, do ponto de vista empreendedor
funciona para os dois lados: o estúdio garante maior lucro, já que mais pessoas irão assistir; e as marcas vinculadas ao produto considerado principal pegam “carona” no sucesso.
Qualquer segmento televisivo, virtual, ou impresso, é postado nos fã-sites. Para
comprovar a importância dessas comunidades na divulgação da série, a Summit convidou alguns proprietários para participarem das entrevistas do tapete vermelho, na
estréia dos filmes. Assim, os fãs ficam mais
pertos de seus ídolos. Na premiere de New
Moon, Michelle, do site Bellaandedward.
com, e Geo, do site Twilighters.org, usados
como ferramentas de verificação midiática
desse estudo, juntaram-se nas entrevistas, e
os vídeos podem ser conferidos nos sites.
A Revolução Industrial, no século
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
XVIII é a condição básica para o surgimento
da chamada Indústria Cultural, aquela que
vende cultura massificada e padronizada,
termo primeiramente definido, tal como hoje
aceito, por Adorno e Horkheimer na década
de 1940. Para divulgar esta nova ideologia
também são necessários os meios de comunicação de massa, cujo marco é a invenção
dos tipos móveis por Gutenberg, no século
XV. Mas, a esse fator é preciso acrescentar a
presença de uma economia de mercado forte, ou seja, uma economia estimulada pela
compra e venda de bens, e esta sociedade
de consumo pode ser percebida apenas na
segunda metade do século XIX. Essa cultura instala-se definitivamente no século XX,
quando o capitalismo assume os contornos
atuais do nosso modo de organização social
e cria condições objetivas para o desenvolvimento, e reforço, de tal ideologia consumista. Portanto, os países de Primeiro Mundo
(EUA, Alemanha, Japão, Inglaterra, etc.) são
os primeiros a adotar este modelo.
Esta exaustiva busca pela posse do
bem resulta na coisificação, ou reificação, e
na alienação. O homem reificado, o homem
produto, torna-se alienado ao trocar seu trabalho por um valor em moeda menor, o qual
ele mesmo não é capaz de pagar. Nesta visão,
a cultura também tem intuito estritamente
comercial, e, ao invés de ser uma ferramenta
de expressão, conhecimento e crítica, tornase um produto a ser consumido em troca
de dinheiro. Outro aspecto essencial para a
existência da indústria cultural é a recusa do
questionamento aos valores impostos, existente na maior parte da produção pop.
Verifica-se em Twilight, ao contrário
do esperado, uma rede de discussões. Ao
longo do desenvolvimento deste estudo, foi
observado, por meio de pesquisa sistemática
nos fã-sites, que os questionamentos surgiram na fase inicial de divulgação do projeto.
Hoje, por outro lado, a frequência desses artigos que discutem a qualidade da obra tor11
12
nou-se muito pequena.
O trabalho de recolhimento de informações para estudo e análise deste objeto foi
iniciado no final de 2008. Alguns dos sites
selecionados (provenientes de links dos dois
fã-sites de partida) não possuem base de dados consistente, ou seja, uma área destinada
ao armazenamento organizado de todo o
material publicado. Portanto, partes do material separado, principalmente os do início
do processo, não puderam ser recuperadas.
Durante a elaboração do texto deste trabalho
não foi verificada nenhuma perda de informação dessas fontes que mereça relevância,
mesmo que tais porções tenham sido separadas para inspeção.
Ainda quanto ao questionamento, durante todo o primeiro semestre de 2010 não
foi recolhida uma única amostra de conteúdo
que pusesse os valores vendidos por Twilight
a prova. No dia 8 de agosto deste ano o site
Helium.com11 abre espaço para que pessoas
possam escrever suas respostas para a pergunta: “Por que a série Twilight, de Stephenie Meyer, se tornou tão bem sucedida?” As
conclusões vão da exploração de sentimentos, como o amor, até a necessidade de escapar dos problemas do dia a dia. Independentemente das conclusões escritas, que, nesse
caso, não possuem embasamento científico,
o espaço no site revela que, ainda que mais
escasso do que no começo, o status-quo, tão
almejado pelos interesses mercadológicos,
não é totalmente aceito por aqueles que, de
alguma forma, entram em contato com o
mundo de Twilight.
Dessa forma, os questionamentos,
ao alcançarem os fã-sites, alcançam também os fãs. O assunto deixa de ser quem é
Team Edward, quem é Team Jacob, e passa
a abordar pontos desse trabalho teórico. Por
exemplo, no livro Strange Horizons, a autora
Karen Healey12 analisa as transformações físicas de personagens de livros adolescentes e
uma das análises inclui a personagem Bella.
http://www.helium.com/knowledge/214652-why-twilight-became-a-success (acessado em 16/11/2010)
http://io9.com/5413038/twilights-bella-is-the-sexual-aggressor (acessado em 16/11/2010)
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
Healey afirma que a personagem é “agressora sexual e instigadora da mudança em seu
relacionamento”. Os fãs não deixam uma declaração como essa passar despercebidamente. Há também a famosa, para quem acompanha as notícias sobre a saga, discussão sobre
as atitudes de Edward. Ele é um maníaco
perseguidor ou apenas um romântico? Um
vídeo13 que mostra Buffy, a famosa caçadora
de vampiros da TV, matando Edward ganhou
espaço na mídia, justamente por questionar
o pedestal onde o “bom vampiro” foi colocado. O questionamento vem ainda da fonte
mais improvável: a mídia de entretenimento. Se ela é a responsável pela divulgação de
produtos culturais alienadores, por que se
preocuparia em acusar14 Twilight de estar em
todos os lugares? É o que faz o artigo do site
E! Online, mídia online do canal de entretenimento norte-americano E!.
Dawight MacDonald divide as manifestações culturais em três categorias:
superior, média, ou midcult, e de massa,
ou masscult. A primeira é aquela aclamada
pela crítica erudita. A segunda é a que utiliza
elementos da cultura superior, “uma falsificação utilizada pela indústria cultural para
fazer tilintar suas caixas registradoras” (COELHO, 1981, p. 16), e que remete aos valores
pequeno-burgueses. E a última, é definida
pela maioria de teóricos como cultura inferior e “debochada”, na verdade, uma cultura
da elite para a massa.
Toda a saga é repleta de referências
da alta cultura clássica. Bella ouve uma coleção de Chopin, reconhece Debussy como som
de fundo do carro de Edward e, em seu casamento, toca Canon In D de Pachelbel. Mas a
maior influência vem da literatura. Os livros
favoritos de Bella são O Morro dos Ventos
Uivantes, de Emily Brontë, e também Romeu
e Julieta de Shakespeare. Estas referências
não estão apenas presentes nos gostos da
personagem, mas também no desenvolvimento da narrativa. Meyer afirma15 que, para
Twilight, sua inspiração clássica foi Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Em New
Moon, Romeo e Julieta. Em Eclipse, o Morro
dos Ventos Uivantes. E, em Breaking Dawn,
Sonho de Uma Noite de Verão e O Mercador
de Veneza, ambos também de Shakespeare.
Tais referências classificam a saga não como
uma cultura de massa, ou para a massa, mas
sim uma cultura média, uma midcult. Para
desfrutar da série e sua exposição midiática,
é necessário ter internet, assinar canais de
TV pagos e freqüentar livrarias e cinemas.
Sabe-se que a chamada massa não possui esses comportamentos de consumo, portanto,
o produto permanece na mesma classe social
de origem ou sobe, mas muito dificilmente,
difícil precisar sem um estudo paralelo não
realizado aqui, atinge a massa.
Observa MacDonald que, da distinção entre os níveis culturais,
não se devia concluir por uma moção de censura contra a cultura de
massa e a indústria cultural pelo
fato de serem responsáveis por
produtos de pouco ou nenhum valor cultural. Devia-se era reprovar
essa mesma indústria cultural e a
midcult por explorarem propostas
originárias da cultura superior,
apresentando-as de modo a fazer
com que o público acredite estar
consumindo obras de grande valor
cultural, como ocorre com filmes
como Love Story, ou com a pasteurização da música dita clássica
ou com os romances tipo classe
média. (COELHO, 1981, p.18)
Dessa forma, inserido no contexto
da Indústria Cultural, pode-se efetivamente
considerar o objeto estudado como um produto de cultura média, por reproduzir valores
da aclamada alta cultura. Porém tal reprodução não deve ser encarada como negativa em
sua totalidade. Segundo Walter Benjamin, a
arte, desde seu primórdios, sempre permitiu
http://www.wimnonline.org/WIMNsVoicesBlog/?p=1272 (acessado em 16/11/2010)
http://www.eonline.com/uberblog/b139281_vampires_jump_shark_thanks_twilight.html (acessado em 16/11/2010)
15
http://www.youtube.com/watch?v=UVEvEtF08S8 (acessado em 16/11/2010)
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
a imitação:
Mesmo por princípio, a obra de
arte sempre foi suscetível de reprodução. O que uns homens haviam feito, outros podiam refazer.
Em todas as épocas discípulos
copiaram obras de arte a título de
exercício; mestres as reproduziam
para assegurar-lhes difusão; falsários as imitaram para assim obter
um ganho material. (LIMA, 2005,
p. 222)
Analisando a problemática deste ponto de vista, é possível admitir que, por mais
que esta reprodução implique na diminuição da qualidade, ela também possibilita o
conhecimento de um maior número de pessoas. Logo há uma popularização de valores
que ficariam restritos ao âmbito da elite. No
caso de Twilight, a mera menção de artistas
clássicos não deprecia o valor de tais obras,
pelo contrário, enaltece o trabalho e estimula
a admiração estética.
A reprodução é óbvia na prática de
se imprimir diferentes capas para o mesmo
conteúdo. Assim, quem é Team Jacob, compra a capa do Jacob, quem é Team Edward
compra a capa do Edward, e quem não consegue decidir compra os dois e mais a capa da
Bella. O exemplo é a Entertainment Weekly,
lançada no dia 4 de dezembro.
[...] Partindo do pressuposto
(aceito a título de argumentação)
de que a cultura de massa aliena,
forçando o indivíduo a perder
ou a não formar uma imagem de
si mesmo diante da sociedade
uma das primeiras funções por
ela exercida seria a narcotizante, obtida através da ênfase ao
divertimento em seus produtos.
Procurando a diversão, a indústria
cultural estaria mascarando realidades intoleráveis e fornecendo
ocasiões de fuga da realidade. […].
(COELHO, 1981, p. 23 e 24)
nenhum produto da Indústria Cultural promove qualquer tipo de contestação ou esclarecimento. Essa premissa nega a diversão como
uma forma descontraída de conhecimento.
Por outro lado, com seus produtos a indústria cultural pratica o
reforço das normas sociais, repetidas até a exaustão e sem discussão. Em conseqüência, uma outra
função: a de promover o conformismo social. E a esses aspectos
centrais do funcionamento da indústria cultural viriam somar-se
outros, consequência ou subprodutos dos primeiros: a indústria
cultural fabrica produtos cuja
finalidade é a de serem trocados
por moeda; promove a deturpação
e a degradação do gosto popular;
simplifica ao máximo seus produtos, de modo a obter uma atitude
sempre passiva do consumidor;
assume uma atitude paternalista,
dirigindo o consumidor ao invés
de colocar-se à sua disposição.
(COELHO, 1981, p. 23 e 24)
Apoiado na teoria da aldeia global, o
mundo como uma grande aldeia interligada
pela tecnologia, de Marshall McLuhan, Teixeira Coelho afirma que “é possível, de fato,
que o mundo todo venha a adotar os mesmo
valores, a mesma ideologia, graças às chamadas “multinacionais da cultura”, que tendem
a difundir por toda a parte, particularmente
pela TV, uma mesma estrutura de pensamento, um mesmo comportamento, gerados
num ou em alguns poucos centros de decisão. No caso, e por enquanto, os EUA. Mas
dizer, a partir daí, que o mundo todo estaria
participando desse processo vai uma grande
distância”. (COELHO, 1981, p. 45)
[...] A TV estende ao máximo um
traço da imprensa: assim como a
imprensa homogeneizou grupos
diversos, fazendo com que superassem o espírito de clã e desembocassem na nação, a TV homoge-
O conceito parte do pressuposto que
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
neíza as nações, globalizando-as.
O próprio Marx já havia previsto
que, graças ao desenvolvimento
da tecnologia, as culturas nacionais acabariam por apresentar um
número cada vez maior de traços
em comum, a caminho de uma
eventual cultura universal. (COELHO, 1981, p. 48)
A saga é, originalmente, dos Estados
Unidos, mas é como se não fosse. As emoções
e os sentimentos não estão restritos àqueles
norte-americanos que leram os livros e viram
os filmes, está em todos os cantos do mundo. A web potencializa este agrupamento, já
que um fã do Japão pode se comunicar com
um do Brasil, que se comunica com outro dos
EUA. Ou seja, para os fãs da série, há a efetivação de uma forma de convergência cultural. O termo sugere a relação de grupos que
interagem em um sistema on-line, conectados a pessoas de qualquer lugar do planeta.
Eles não são limitados por barreiras geográficas e, instantaneamente, trocam opiniões e
experiências sobre o mesmo assunto. A tecnologia possibilita a agilidade, estimulando
o surgimento de uma nova identidade para
estas pessoas, principalmente para os jovens.
As experiências de uma vida conectada encorajam os jovens a
passar de abordagens e vivências
locais ou nacionais para outras
multiculturais e globais. E esse
parece ser cada vez mais o modo
de vida da juventude dos centros
urbanos em tempos de conexões e
vida on-line. (DA SILVA E COUTO, 2008, p. 13)
Antes de Twilight ser lançado, a série Harry Potter era o assunto preferido dos
adolescentes e da mídia. Agora, com exceção
dos fã-sites, do ocasional lançamento de algum dos últimos filmes e das comparações
de Stephenie Meyer com J. K. Rowling, o
bruxinho inglês não é mais comentado. Esses fenômenos teens têm como regra a carac-
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
terística da efemeridade. Edgar Morin define
que “isso só durará algum tempo: as novas
aspirações, as novas necessidades continuarão a fermentar.” (1989, p. 164). Portanto,
o desejo do jornalista Larry Carroll, exposto
no início, dificilmente irá se realizar. Em 50,
60, 70 anos, só quem teve tal experiência,
talvez, se lembre de que algum dia um filme sobre vampiros fez parte da sua vida. O
mesmo curto prazo de vida vale para os atores envolvidos na produção. George Clooney
era o solteiro mais desejado do mundo, até
Robert Pattinson ser lançado. E este vai perdurar nas revistas adolescentes até que outro
jovem, tido como “bonitão”, estrele um filme
de sucesso.
O indivíduo e o desenvolvimento da personalidade viram-se
marginalizados no processo de
desenvolvimento do capitalismoprodutor, acima de tudo, da reificação e alienação das pessoas.
Nesse caso, a saída está na criação
de condições para que o indivíduo
(e o pequeno grupo de que participa) desenvolva sua personalidade
e tenha condições de constituir
um coletivo que não o esmague.
A saída está na organização ou reorganização da vida privada e não
na alienação dessa vida na massa
ou no coletivo. (COELHO, 1981,
p. 91)
O fã-site é um local onde os fãs, sempre quando há oportunidade, se encontram
para dividir informações e opiniões. É como
encontrar um grupo de amigos para ir ao cinema e depois tomar um sorvete. A conversa
sobre o filme flui conforme cada um dá seu
veredito e relaciona a história com outros fatos. Se for ‘permitido’ comprar um sorvete,
por que não é ‘permitido’ comprar uma revista com o Taylor Lautner na capa? Uma adolescente pode considerar, naquele momento,
muito mais prazeroso comprar a revista do
que tomar o sorvete.
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
[...] Se acredita ainda que a busca
ou admissão do prazer é indício
de um comportamento grosseiro,
consumista, e indício da adesão
aos princípios de uma ideologia
burguesa, reacionária. [...] Roland
Barthes observou a existência [...]
de toda uma mitologia dirigida
no sentido de apresentar o prazer
como sendo um objetivo e uma
proposta da direita. Mitologia que,
praticamente identificando o prazer com a indecência, tratava de
espalhar a idéia segundo a qual o
prazer se opunha ao conhecimento, ao compromisso, ao combatecom isso renegando-se a hipótese
de que estes possam ser alguns aspectos desse mesmo prazer. (COELHO, 1981, p. 30, 32, 33 e 34)
Ou seja, o consumidor de produtos
culturais massificados e o de alta cultura não
seriam capazes de manter um diálogo. Do
ponto de vista deste aspecto teórico, o esclarecimento não traz prazer ao indivíduo e a
massificação não permite nenhuma captação
de conhecimento.
[...] Quer dizer: quando o negócio
é com a cultura dita superior, tudo
é permitido; da cultura inferior, da
masscult, exige-se seriedade. Este
é um índice claro da existência de
um preconceito contra a cultura
pop, contra o povo. [...] Hoje está
mais que demonstrado o papel
essencial desempenhado pela catarse [“liberação imaginária das
tensões psíquicas individuais”] no
bom funcionamento psíquico do
indivíduo- e o prazer tem sua função nesse processo de catarse. Não
há, portanto, por que condenar a
indústria cultural sob a alegação
de que ela é uma prática do entretenimento, da diversão, do prazer.
O prazer é, sempre, uma forma do
saber. (COELHO, 1981, p. 30, 32,
33 e 34)
Para Edgar Morin, o lazer segue a
ideologia capitalista e institui o tempo livre
como a hora para se gastar o dinheiro ganho
com o trabalho.
O lazer moderno não é apenas o
acesso democrático a um tempo
livre que era o privilégio das classes dominantes. Ele saiu da própria organização do trabalho burocrático e industrial. O tempo de
trabalho enquadrado em horários
fixos, permanentes, independentemente das estações, se retraiu
sob o impulso do movimento sindical e segundo a lógica de uma
economia que, englobando lentamente os trabalhadores em seu
mercado, encontra-se obrigada a
lhes fornecer não mais apenas um
tempo de repouso e de recuperação, mas um tempo de consumo.
(MORIN, 1989, p. 67)
Já de acordo com Walter Benjamin, o
cinema possibilita uma nova forma de percepção, que estimula a rapidez e que populariza a habilidade de formar uma opinião
sobre algo.
Ora, o homem que se diverte também pode adquirir hábitos; ou
mais precisamente: é óbvio que
ele não pode realizar certas tarefas, no estado de distração, senão quando elas se lhe tornaram
habituais. Mediante essa espécie
de divertimento, que tem por finalidade nos proporcionar, a arte
nos confirma, implicitamente, que
nosso modo de percepção é hoje
capaz de responder a novas tarefas. Outrossim, dado que o indivíduo conserva a tentação de recusar tais tarefas, a arte enfrentará
as mais importantes a partir de
quando puder mobilizar as massas. (LIMA, 2005, p. 251 e 252)
Logo, os filmes são capazes de transmitir conhecimento, mesmo que aliado à diversão. O ambiente e a velocidade das mensagens transmitidas podem contribuir para a
lentidão da assimilação ou questionamento,
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
mas eventualmente, e ainda que brevemente,
há este tipo de percepção. Particularmente,
no caso de Twilight, a contraposição de opiniões sobre o conteúdo da história já estimula um debate, que é alimentado por hipóteses, premissas e contestações. Então, ainda
que de forma primária e precária, a mobilização criada pelo produto não é imune aos
contrapontos.
É o que faz atualmente por meio
do cinema. Essa forma de recepção mediante o divertimento, cada
vez mais evidente hoje em todos
os domínios da arte, e que é em
si mesma um sintoma de importantes modificações nos modos de
percepção, encontrou no cinema
seu melhor campo de experiência.
Por seu efeito de choque, o filme
corresponde a essa forma de recepção. Se ele rejeita basicamente o valor cultural da arte, não é
apenas porque transforma cada
espectador em especialista, mas
porque a atitude desse especialista
não exige de si nenhum esforço de
atenção. O público da sala escura
é indubitavelmente um examinador, mas um examinador que se
distrai. (LIMA, 2005, p. 251 - 252)
Em considerações finais, o produto
Twilight permite ao espectador uma fuga da
realidade, que não exclui a capacidade deste
de analisar o que lhe é mostrado. Para desfrutar de tal lazer é necessário pagar, portanto há consumo durante o descanso. Mas
esta folga não implica, necessariamente, em
uma blindagem do exercício do pensamento
esclarecido. O cinema propõe, ao espectador
atento, um novo tópico de reflexão. Ao que
se deixa levar pela história, resta um momento vazio de passividade, o que não é algo
catastrófico. Pelo contrário, para suportar as
dificuldades impostas pelas tarefas diárias,
às vezes o vazio se torna um mal necessário.
Portanto, o aproveitamento de Twilight, obra
devidamente classificada no contexto dos
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
produtos da Indústria Cultural, por parte dos
fãs e de pessoas indiretamente influenciadas,
depende do objetivo e da capacidade de seleção do indivíduo.
Conclusão
Este estudo conclui que a saga Twilight pode ser caracterizada como um produto de cultura média, ou midcult, já que
utiliza referências da alta cultura clássica
para transmitir valores de forma genérica e
reproduzida.
O objeto de estudo foi, e ainda é, explorado pela mídia norte-america, que induz
o consumo de itens relacionados à série por
meio da identificação do público. Foi verificado que a simpatia dos fãs é estimulada pela
imprensa que, além de expor a história fictícia dos livros, também aborda com freqüência e de forma questionável a vida particular
dos atores. Os intérpretes, principalmente
no caso dos protagonistas Kristen Stewart
e Robert Pattinson, são transformados em
semideuses, cujo estilo de vida deve servir
de modelo aos fãs. Logo, a alienação vem do
pressuposto de que se o indivíduo segue o estilo de vida imposto pela mídia, ele perde as
próprias características e já não se encontra
mais no ambiente em que está inserido. Este
é o esforço da mídia, o que não significa que
todos os fãs e outras pessoas influenciadas
indiretamente pela série são suscetíveis a tal
controle. Assim como a passividade ou ação
diante de um problema é uma questão individual, a submissão aos valores impostos pela
Indústria Cultural também é. Como revelam
os próprios idealizadores da teoria de Indústria Cultura, Adorno & Horkheimer: “a arte
‘leve’ como tal, a diversão, não é uma forma
decadente. Quem lastima como traição do
ideal da expressão pura está alimentando
ilusões sobre a sociedade” (1985, p. 126-127).
Esta pesquisa percebe que é possível
compreender pontos positivos no produto. Foi observado e documentado exemplos
de discussões sobre os temas abordados na
Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
saga, o que descaracteriza, em parte, a indução da alienação por parte da mídia, sendo
que esta também fornece material para alimentar tais questionamentos. Vale ressaltar
que não é toda a base de fãs que participa das
indagações, mas mesmo assim, a iniciativa
clarifica que identificar os livros e os filmes
como totalmente inúteis do ponto de vista
intelectual é errôneo, visto que este próprio
estudo analisa cientificamente o produto.
Outro aspecto pertinente verificado é
a integração de pessoas de diversas culturas,
dos mais diferentes lugares do mundo, onde
a série também conseguiu fãs, pela internet.
A web aproxima essas pessoas por meio de
uma interação on-line. A ferramenta tecnológica é capaz de manter as características
nativas dos usuários no ambiente real, mas
ainda permitir a adição de elementos de outras culturas. Assim, há um intercâmbio cultural que proporciona divertimento e eventuais análises. Como diz Lima (2005, p. 244),
A característica de um comportamento progressista reside no
fato de o prazer do espetáculo e a
experiência vivida correspondente ligaram-se, de modo direto e
íntimo, à atitude do conhecedor.
Esta ligação tem uma importância
social. (...) No cinema, o público
não separa a crítica da fruição.
O elemento decisivo, aqui, é que,
mais do que em qualquer outra
parte, as reações individuais, cujo
conjunto constitui a reação maciça
do público, são aí determinadas,
desde o início, pela imediata virtualidade de seu caráter coletivo.
Ao mesmo tempo em que se manifestam, tais reações controlam-se
mutuamente.
O pensamento de Walter Benjamin é
válido ao mencionar a integração do público,
que parte de um sentimento individual. Assim, o espectador que identifica os próprios
anseios e dúvidas, consegue expor e contrapor a experiência com outros indivíduos. A
interação desses fãs é tão importante que a
produtora dos filmes, Summit Entertaiment,
e outras empresas envolvidas da franquia,
percebem a importância desse movimento,
estimulando-o com patrocínio de eventos
destinados aos fãs e apoiando, inclusive, a
participação de fãs em eventos oficiais.
O prazer de sentar-se na cadeira e ver
um filme sobre vampiros e lobisomens, e se
emocionar com isso, não pode, na conclusão deste trabalho, ser condenado pelo fato
de proporcionar uma fuga da realidade. Na
verdade, os filmes podem transmitir alguma forma de conhecimento ao espectador,
mesmo que este processo intelectual esteja
aliado à diversão. O caráter das mensagens
transmitidas é diferente de uma análise teórica, pois em uma sala de cinema não há tempo para analisar cena por cena ou para tecer
uma linha de raciocínio enquanto a cena já
foi alterada. Uma observação mais cuidadosa
dos fatos que acontecem na história pode ser
analisada na versão literária. Logo, mesmo
a demora do entendimento ou da inquietação, esses sentimentos, mesmo que breves,
podem ser percebidos. Especificamente em
Twilight, este estudo mostra que há debates
sobre o conteúdo da história, que são alimentados por meio de cada pessoa participante,
que fundamenta seu ponto de vista e contesta, ou apóia o de outro indivíduo. Mostrando,
mais uma vez, que o modelo passivo imposto pela mídia norte-americana não pode ser
generalizado. Mesmo que informalmente e
precariamente, há uma mobilização que visa
o questionamento.
O estudo finalmente conclui que a
apreciação dos livros e dos filmes, de forma a
não prejudicar o intelecto, e, ao contrário, estimular o desenvolvimento, cabe ao uso feito
individualmente deles. O sujeito pode escolher aceitar a imposição de valores da mídia
e não questioná-los, como também pode,
mesmo admirando o produto, perceber que
há espaço para discussões, tanto em nível de
enredo, como a do que lhe está sendo oferecido como informação.
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
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CHAUÍ, Marilena de Souza. O que é Ideologia. 38ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1994.
COELHO, Teixeira. O que é indústria Cultural. 4ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1981.
COSTA, Rosa Maria C. D.; MACHADO, Rafael C. e SIQUEIRA, Daniele. Teoria da
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MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX - Volume I Neurose. 9ª ed., São
Paulo: Forense Universitária, 1989.
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Indústria Cultural, Mídia e Cultura de Massa: o Produto Twilight
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O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa
Empírica sobre sua Prática nas Escolas
Jaqueline Bim Boaretto¹
Elizabete David Novaes²
RESUMO
Este artigo busca apresentar uma
análise acerca do fenômeno do bullying, evidenciando os resultados da pesquisa que enfocou sua prática no ambiente escolar, bem
como as formas de combate a tal fenômeno.
A pesquisa empírica deu-se por meio da realização de entrevistas semi-diretivas com
professores e diretores do ensino infantil,
verificando a perspectiva desses sujeitos que,
assim como as crianças, convivem diretamente com prática do Bullying. Constata-se
a necessidade de práticas restaurativas, focadas numa forma reconstrutiva das relações sociais, capazes de preparar um futuro
convívio respeitoso que supere esta forma de
agressão moral.
Palavras-chave: bullying; agentes escolares; combate ao bullying; pesquisa empírica.
ABSTRACT
This article seeks to present an analysis concerning the phenomenon of bullying,
showing the results of empirical research
that has focused his practice in the school
environment, as well as ways to combat
such phenomena. The empirical research
took place through conducting semi-directive with teachers and principals of teaching
children, making sure the perspective of
those guys who, like children, living directly
with the practice of bullying. There is a need
for restorative practices, focusing on reconstructive form of social relations, able to
prepare a future respectful coexistence that
overcomes this form of moral aggression.
Keywords: bullying, school, school
agents, anti-bullying; empirical research.
1. Introdução
Buscou-se neste artigo apresentar
uma análise acerca do fenômeno do bullying,
evidenciando parte dos resultados da pesquisa empírica realizada, a qual enfocou sua
prática e as formas de combate. Embora este
tema venha sendo estudado sob o foco de
todas as idades e em vários ambientes sociais, devido à sua relevância historicamente
constatada na vida social mais ampla, neste
trabalho, de forma específica, o fenômeno
foi investigado numa perspectiva que aborda exclusivamente crianças, circunscritas ao
ambiente escolar.
A relevância deste tema justifica-se
pelo fato de que, a cada ano, o fenômeno do
bullying se torna cada vez mais constante e
presente no ambiente escolar infantil, acarretando diversas conseqüências físicas e/ou
psíquicas, o que é, sem dúvida, prejudicial
para as crianças, tanto no presente quanto
em sua vida futura. Observa-se que essas
conseqüências vêm prejudicando o crescimento, o desenvolvimento intelectual, social
e principalmente emocional das crianças envolvidas (RUOTTI, ALVES e CUBAS, 2007
p.176).
¹Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Centro Universitário UniSEB – COC.
² Doutora em Sociologia; Docente da UniSEB – COC, orientadora da pesquisa realizada.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Na esfera do direito brasileiro, tanto
na Constituição Federal, como nas leis infraconstitucionais, existem diversas normas
de proteção à criança, especialmente o ECA
– Estatuto da criança e do adolescente, que
traz em seu conteúdo uma série de regras
que visam tal proteção, em defesa do desenvolvimento digno de crianças e adolescentes.
Além dessas, existem diversos tratados e
acordos internacionais de proteção a criança.
Portanto, a justificativa dessa pesquisa pautou-se na necessidade de que sejam
encontradas possíveis maneiras de conter ou
eliminar o bullying entre crianças; formas de
se evitar que essas práticas ocorram e, num
primeiro e imediato momento, identificar
maneiras de se minimizar os efeitos que essas condutas acarretam. Para tanto, como recorte deste trabalho de pesquisa, buscou-se
verificar a problemática a partir do levantamento acerca das visão dos agentes escolares
acerca do fenômeno. Para tanto, a pesquisa
empírica deu-se por meio da realização de
entrevistas semi-diretivas com professores
do ensino infantil, verificando a perspectiva
desses sujeitos que, assim como as crianças,
possivelmente convivem diretamente com
prática do Bullying.
Além dos professores, foram entrevistados diretores de escolas, a fim de se descobrir se essas práticas infantis, muitas vezes
tidas como “brincadeiras de criança” apresentam repercussão no ambiente escolar, se
chegam ao conhecimento da diretoria a sua
ocorrência, e quais as medidas tomadas pelo
professor e pela direção a este respeito.
Vale esclarecer que por uma preocupação ética, os nomes de todos os envolvidos
nas entrevistas foram omitidos, a fim de preservar suas identidades.
Além das entrevistas, foi também realizada a pesquisa teórica acerca do tema,
por meio do levantamento bibliográfico,
buscando uma melhor compreensão sobre o
fenômeno Bullying. Complementarmente ao
material bibliográfico, optou-se pelo levantamento e acompanhamento de projetos de lei
que tratem da problemática, analisando suas
propostas e viabilidade jurídica.
1.1. Metodologia e Delimitação do Universo Da Pesquisa
Segundo Duarte (2002), a opção metodológica e a definição do objeto de pesquisa
constituem um processo tão importante para
o pesquisador quanto o texto que ele elabora
ao final. É nesta linha que ressalta Brandão
(apud DUARTE, 2002, P. 140):
... se nossas conclusões somente
são possíveis em razão dos instrumentos que utilizamos e da
interpretação dos resultados a que
o uso dos instrumentos permite
chegar, relatar procedimentos de
pesquisa, mais do que cumprir
uma formalidade, oferece a outros
a possibilidade de refazer o caminho e, desse modo, avaliar com
mais segurança as afirmações que
fazemos.
Na construção desta pesquisa, optouse pela abordagem qualitativa, caracterizada
pelo interpretacionismo, entendendo que o
homem não é um ser passivo, mas um ser
que interpreta o mundo em que vive continuamente. Nesse posicionamento metodológico, a vida humana é vista como uma atividade interativa e interpretativa, realizada
pelo contato das pessoas (OLIVEIRA, 2010)
Conforme explica Neves (1996):
Pesquisa qualitativa compreende
um conjunto de diferentes técnicas interpretativas que visam a
descrever e a decodificar os componentes de um sistema complexo
de significados. Tem por objetivo
traduzir e expressar o sentido dos
fenômenos do mundo social.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
No mesmo sentido, vale salientar que
a pesquisa qualitativa, por ter características exploratórias, estimula os entrevistados
a pensarem livremente sobre algum tema,
objeto ou conceito, fazendo emergir aspectos
subjetivos e atingem motivações não explícitas, ou não conscientes, de maneira espontânea.
Conforme aponta Minayo (2003) a
pesquisa qualitativa coloca-se como essencial no estudo de determinados fenômenos.
A pesquisa qualitativa, (...), tratase de uma atividade da ciência,
que visa a construção da realidade, mas que se preocupa com as
ciências sociais em um nível de realidade que não pode ser quantificado, trabalhando com o universo
de crenças, valores, significados
e outros construto profundos das
relações que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
Dentro da abordagem qualitativa,
trabalhou-se nesta pesquisa com a entrevista
semi-estruturada, com momentos de não diretividade. Vale ressaltar que:
Entende-se por entrevista estruturada aquela que contem perguntas
fechadas, semelhantes a formulários, sem apresentar flexibilidade;
semi-estruturada a direcionada
por um roteiro previamente elaborado, composto geralmente por
questões abertas; não-estruturada
aquela que oferece ampla liberdade na formulação e na intervenção
da fala do entrevistado. (BELEI,
PASCHOAL, NASCIMENTO e
MATSUMOTO, 2008, p. 189)
Importante considerar que na pesquisa qualitativa não há como se determinar
a priori o número de sujeitos que irão participar das entrevistas, tendo em vista que
a estipulação desse número dependerá da
68
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
qualidade das informações obtidas em cada
depoimento, assim como o grau e a profundidade de informações similares e divergentes que serão obtidas. Portanto, pressupôs-se
que:
Esse tipo de trabalho de campo
tem como objetivo “compreender
as redes de significado a partir do
ponto de vista do ‘outro’, operando com a lógica e não apenas com
a sistematização de suas categorias” e não deve ser interrompido
enquanto essa lógica não puder
ser, minimamente, compreendida
(DAUSTER, 1999, apud DUARTE,
2002).
Tomando por base tais elementos,
o presente trabalho foi realizado com base
em pesquisa pesquisa de campo, de caráter
qualitativo, pela qual buscou-se conhecer a
realidade concreta do tema em questão, sua
ocorrência, manifestações, sintomas, conseqüências e possíveis soluções, sob o ângulo
daqueles que convivem diariamente com
essa problemática.
Para tanto, foram entrevistados diretores de escola e professores, bem como
um promotor público, profissionais que, de
alguma forma, direta ou indireta, estão relacionados com a questão do bullying, uma vez
que tratam da problemática da criança e do
adolescente.
Dessa forma foi possível buscar elementos que evidenciem o que realmente
acontece em relação ao fenômeno estudado,
e quais as formas ou tentativas de combate
ao Bullying dentro das escolas. Do mesmo
modo, foi possível verificar se essa prática já
chegou ao conhecimento do poder judiciário,
e conseqüentemente se o judiciário está conseguindo solucionar o problema.
2. Sobre o Bullying
A vida moderna manifesta-se por
meio de inúmeras contradições. Por um
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
lado, proporcionou tecnologia, conforto,
avanços científicos, acesso às informações
entre outros benefícios para a humanidade;
porém, em contrapartida, permitiu o surgimento de inúmeras formas de violação aos
direitos da personalidade, como ocorre com
a violação ao direito de privacidade por meio
da internet, com a possibilidade de roubo de
material genético, formas virtuais de abuso
ou assédio, enfim, inúmeras possibilidades
anteriormente não imaginadas.
Dentre estas, o Bullying pode ser considerado uma forma de violação aos direitos
de personalidade, que juridicamente implica
na aptidão da pessoa para adquirir direitos
e contrair obrigações, implicando no direito
subjetivo da pessoa defender o que lhe é próprio (VENOSA, 2004).
O fenômeno do Bullying diz respeito à reiteradas práticas realizadas por parte
de uma criança socialmente percebida como
“mais forte, mais inteligente, mais popular”,
contra outras vistas como “menores, mais
fracas e anti-sociais”. Essas práticas envolvem formas daquilo que pode ser também
denominado de violência moral, implicando
em xingamentos, ofensas, apelidos, entre outros, bem como violência física, como chutes
e empurrões. (RUOTTI, ALVES e CUBAS,
2007, p. 176).
Observa-se que este fenômeno não é
recente, pois ocorre das mais diversas formas
e nos mais diversos ambientes sociais, marcando a própria vida em sociedade. Embora
tenha sido nos anos 80 que surgiram as primeiras menções a respeito do Bullying, essa
prática é mais antiga e nem sempre possuiu
essa denominação.
Anteriormente, tal prática chamavase “mobbing”, referindo-se à violência de
um grupo contra uma pessoa considerada
“diferente”. Com o passar do tempo, mais
países de dedicaram a pesquisas acerca deste fenômeno, e tendo em vista a dificuldade
de se traduzir algumas palavras em outras
línguas, esse fenômeno ficou conhecido por
diferentes termos como: “victimization (viti-
mização)”, “peer rejection (rejeição pelos colegas)”, “violência moral”, “comportamento
agressivo entre estudantes”, entre outros.
Portanto, o que pode se considerar
recente é a importância que este tema conquistou, pois foi a partir da década de 1980
que vários países começaram a estudar esta
prática com mais afinco. Atualmente, as pesquisas mais avançadas sobre o tema acontecem na Noruega, Estados Unidos, Portugal e
Espanha (ALBINO e TERÊNCIO, 2010). Tais
países passaram a se importar mais diretamente com o Bullying quando perceberam
haver uma relação deste fenômeno com certos acontecimentos, como o que ocorreu na
Noruega em 1983, quando três adolescentes
que sofriam severo Bullying dos colegas acabaram cometendo suicídio.
A pesquisa sobre Bullying teve Peter
Paul Heinemann, médico sueco e Heiz Leynemann, psicólogo alemão como precursores
nos anos 80, e foi nessa época que surgiu o
termo “mobbing”, - do inglês to mob, que
significa maltratar, atacar, perseguir. Heinemann descreve como a violência de um
grupo contra uma pessoa diferente; violência
essa que se inicia e se finaliza de forma inesperada.
Em seguida, Dan Olweus, professor
da universidade de Bergen (Noruega) também deu início a pesquisas sobre o fenômeno, utilizando a nomenclatura de Heineman,
porém, incluindo no conceito os ataques sistemáticos, pessoa a pessoa, de uma criança
mais forte contra a criança mais fraca.
Outras nomenclaturas foram surgindo ao longo do tempo por causa do envolvimento de mais países pelo assunto, como por
exemplo, “victimization”, “peer rejection”,
entre outras. Tendo em vista a dificuldade de
se encontrar um termo comum ou de encontrar traduções de mesmo significado nas diferentes línguas, adotou-se a explicação elaborada por Olweus, definindo genericamente
Bullying como “comportamento agressivo ou
de uma ofensa intencional; ocorre repetidamente e durante muito tempo; ocorre em
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
relações interpessoais caracterizadas por um
desequilíbrio de poder.” (RUOTTI, ALVES e
CUBAS, 2007, p. 177).
Dessa forma, Olweus distingue o
Bullying de qualquer outra agressão momentânea e eventual, fixando apenas a atenção
para práticas reiteradas dessa conduta agressiva.
O termo bullying não possui tradução
literal para o português. Bully é o termo, em
inglês, para “valentão”. A palavra Bullying
deriva da expressão to bully, que significa
tratar com desumanidade, com grosseria.
Assim, bullying pode ser traduzido por “intimidação”, o que permite a compreensão deste complexo fenômeno como sendo, em uma
das suas múltiplas formas de manifestação,
um comportamento de ameaças e intimidações.
O termo bullying nos parece de
acepção mais ampla do que o termo mobbing. Vai de chacotas e
isolamento até condutas abusivas
de conotação sexual ou agressões
físicas. Referem-se mais a ofensas
ou violência individual do que a
violência organizacional. Em estudo comparativo entre o mobbing e
o bullying, Dieter Zapf considera
que o bullying é originário majoritariamente de superiores hierárquicos, enquanto o mobbing é
muito mais um fenômeno de grupo (HIRIGOYEN, 2002, p. 80)
Hirigoyen (2002, p. 85) entende ser
o termo mobbing relacionado a perseguições
coletivas ou à violência ligada a organizações, incluindo desvios que podem acabar
em violência física. Enquanto isso aponta o
termo bullying como mais amplo, no sentido de abranger chacotas e isolamentos até
condutas abusivas com conotações sexuais
ou agressões físicas. Observa ainda, que o
bullying está mais ligado a ofensas individuais do que à violência organizacional ou
coletiva.
Além das terminologias científicas,
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
podemos encontrar no dia-a-dia menções ao
Bullying nos filmes e nos desenhos animados
direcionados as crianças e adolescentes, que
trazem cenas de violência infantil, e se referem aos autores dessa violência como “pit
boys” (relacionando a raça de cachorro pit
Bull, conhecida por sua extrema violência);
como “pit aluno” (como acontece em “Bart
the General” – da série americana The Simpsons), entre outras.
De forma a sintetizar tal questão, entendem Barreto e Santos (2006) que:
... em todas as hipóteses, fica cabalmente caracterizado um dano a
integridade psíquica do indivíduo,
muitas vezes com conseqüências
biológicas e físicas, tais como
stresse, depressão profunda, estomatites, doenças dermatológicas,
etc., ou seja, uma série de distúrbios diretamente ligados ao estado
psíquico da pessoa humana.
3. A visão dos Agentes Pesquisados
3.1. Depoimentos dos Professores
Como indicado anteriormente, foram
entrevistados Professores de escolas públicas
e particulares, a respeito do tema Bullying, a
fim de obtermos informações daqueles que
estão perto e presenciam diariamente a ocorrência dessa violência dentro do ambiente
escolar. As entrevistas foram direcionadas
para a ocorrência, intensidade, especificidade, medidas de combates e prevenção utilizadas pelas escolas, entre outros aspectos.
Conforme anteriormente mencionado, a prática da Bullying nas escolas vem
aumentando, e dessa forma, cada vez mais,
a atitude de uma criança em relação à outra
pode ser perigosa e trazer conseqüências danosas e irreversíveis.
Por meio das entrevistas, foi possível confirmar que o Bullying já faz parte do
convívio entre as crianças, como destacam os
depoimentos a seguir:
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
“Cada vez mais estão crescendo as
atitudes que levam à situações de
bullying nas escolas”. (PROFESSOR 1 – ESCOLA PÚBLICA)
“Sim, é comum casos de bullying
dentro da sala de aula, isso ocorre
com muita freqüência”. (PROFESSOR 4 – ESCOLA PÚBLICA)
“Todo adolescente tem uma tendência a discriminar aquele que
ele considera mais fraco ou vulnerável. Tento coibir sempre que
percebo”. (PROFESSOR 3 – ESCOLA PÚBLICA)
Vale ressaltar, porém, que a questão
da desigualdade econômica se mostra como
aspecto diferenciador. Como mencionado
acima, os professores das escolas públicas
deixaram clara a ocorrência e freqüência
do Bullying de forma bastante intensa. Em
contrapartida, os entrevistados da escola
particular contrariaram tal afirmativa, respondendo à pergunta “É comum casos de
bullying dentro da sala de aula?”:
“Não é comum, mas existem”.
(PROFESSOR 1 – ESCOLA PARTICULAR)
“Não de forma corriqueira, mas
ocorre sim”. (PROFESSOR 2 –
ESCOLA PARTICULAR)
“Não, não na nossa escola”. (PROFESSOR 3 – ESCOLA PARTICULAR)
Independentemente da quantidade
da ocorrência do fenômeno, é importante
frisar que, a percepção dos professores é fundamental para seu combate, e deste modo, ao
presenciarem qualquer tipo de violência entre os alunos, os professores devem, imediatamente, tomar alguma atitude, no sentido
de orientar e principalmente deixar claro que
tal comportamento não será aceito. Dessa
forma, a criança passa a conhecer e obedecer aos limites, construindo um caminho que
as levará a se tornar um adulto consciente
de suas responsabilidades e principalmente,
uma pessoa que respeita o espaço e a diferença das outras pessoas.
Com relação a esta percepção, perguntamos aos professores entrevistados
“Quando acontece, qual a atitude do senhor
(a) em relação à agressão?”, ao que obtivemos os seguintes depoimentos:
“Acolho os envolvidos, esclareço a
situação e, dependendo da gravidade e da incidência de fatos parecidos, tento trabalhar mais com
a temática nas aulas”. (PROFESSOR 1 – ESCOLA PÚBLICA)
“Normalmente converso com o
agressor, sempre falando sobre
respeito ao próximo e o direito de
todos ocuparem um mesmo espaço com igualdade”. (PROFESSOR
3 – ESCOLA PÚBLICA)
“Converso, ouço as partes, peço
que se respeitem, pois só respeitando é que somos respeitados”.
(PROFESSOR 4 – ESCOLA PÚBLICA)
Com relação à mesma questão, os
professores das escolas particulares apresentaram respostas bastante semelhantes:
“Repreendo instantaneamente e
se acontece novamente encaminho o problema à coordenação”.
(PROFESSOR 1 – ESCOLA PARTICULAR)
“Eu repreendo o aluno que cometeu o ato, se for o caso colocandoo para fora, e sempre comunico o
caso à direção”. (PROFESSOR 2 –
ESCOLA PARTICULAR)
“A um primeiro sinal de um “possível bullying”, o aluno(s) agressor
deve ser orientado imediatamente
para que não repita o ato e cons-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
71
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
cientizá-lo para a não-violência”.
(PROFESSOR 3 – ESCOLA PARTICULAR)
“Primeiro a conscientização; depois a observação. Em caso de
continuidade, comunicação aos
superiores”. (PROFESSOR 5 –
ESCOLA PARTICULAR)
“Minha primeira atitude é conversar com os envolvidos e caso a
situação não mude, levo o caso a
coordenação e direção. Na reunião
de pais, procuro “sondar” o fato
com eles”. (PROFESSOR 6 – ESCOLA PARTICULAR)
Importante considerar que um dos
principais aspectos a ser esclarecido referese à participação dos pais nos problemas
ocorridos dentro do ambiente escolar. A
participação dos pais é essencial na vida das
crianças, tendo em vista que estão formando
seu caráter, que estão se desenvolvendo, e
os pais representam o maior e mais próximo
modelo a ser seguido.
Assim, dirigimo-nos aos professores
indagando “Quanto aos pais dos alunos, eles
estão cientes quanto à gravidade do bullying?
Eles sabem o que significa, sabem como agir
se o filho sofrer algum tipo de agressão, ou o
senhor (a) percebe que os responsáveis ainda
estão desinformados quanto ao assunto?”
Acerca desta questão, obtivemos os
seguintes depoimentos:
“Certamente os pais estão desinformados acerca desse tema, assim como a maior parte da sociedade.” (PROFESSOR 1 – ESCOLA
PÚBLICA)
“A grande maioria está por fora do
assunto e da sua gravidade. Muitos nem se dão conta do desempenho da vida escolar do seu filho,
quanto mais se ele é o agressor
ou o agredido em caso como o de
bullying.” (PROFESSOR 2 – ES-
72
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
COLA PÚBLICA)
“Não sabem, e na grande maioria,
não querem saber, e entendem
isso como um problema a ser resolvido na escola e pela a escola”.
(PROFESSOR 3 – ESCOLA PÚBLICA)
“Eles conhecem mais ou menos,
muitos desconhecem as conseqüências do bullying. Só se revoltam os pais do agredido, os pais
dos agressores nem aparecem. E
quando aparecem, tem a coragem
de falar que instruem os filhos a
agredirem.” (PROFESSOR 4 – ESCOLA PÚBLICA)
Percebemos pelas respostas fornecidas que os professores apontam um certo
distanciamento entre os pais e as crianças,
uma certa falta de conhecimento sobre o
próprio filho, especialmente a falta de atenção em sintomas, muitas vezes, nítidos, que
as crianças que sofrem e que praticam o
Bullying apresentam.
Da mesma forma, essa percepção não
foi diferente na escola particular, na qual os
professores também se queixaram da displicência dos pais dos alunos:
“Acho que os responsáveis sabem
pouco sobre o assunto pois quando acontece o bullying a criança
tenta esconder”. (PROFESSOR 1
– ESCOLA PARTICULAR)
“Acredito que a maioria não está
devidamente informada sobre o
assunto”. (PROFESSOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
“Percebemos que alguns pais estão cientes e se preocupam com
este assunto, outros não, são ausentes”. (PROFESSOR 4 – ESCOLA PARTICULAR)
“Alguns sim pois percebo a preocupação com o filho. Alguns são
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
ausentes”. (PROFESSOR 6 – ESCOLA PARTICULAR)
Por fim, buscamos entender, na visão
dos professores, quais os fatores de maior influência sobre as crianças, a ponto de incentivá-las a ter uma postura agressiva e violenta
perante seus colegas, tanto em gestos como
em palavras e atitudes. Frente à pergunta:
“Para o senhor (a), quais são os aspectos que
mais influenciam no comportamento das
crianças, para que elas pratiquem o bullying,
por exemplo?”, obtivemos os depoimentos
que seguem:
“A falta de educação que existe na
sociedade como um todo, a falta
de amor ao próximo, a falta de limite na família, no sentido de respeito.” (PROFESSOR 3 – ESCOLA
PÚBLICA)
“É o retrato da vida familiar. O que
eles aprendem em casa, cometem
na rua e na escola.” (PROFESSOR
4 – ESCOLA PÚBLICA)
“Falta de estrutura familiar, interferência da mídia, crianças sem
limites”. (PROFESSOR 2 – ESCOLA PÚBLICA)
“Acredito que é a mídia, em todas
as suas formas, e a falta de punição para estes casos”. (PROFESSOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
“Aspectos socias, culturais e econômicas (...)”. (PROFESSOR 3 –
ESCOLA PARTICULAR)
Mas afinal, como os professores interpretam este fenômeno, no sentido de entender suas causas? Perguntamos aos entrevistados “De que maneira o senhor (a) acha
que as formas de entretenimento do mundo
moderno (vídeo-game, computador, filmes,
novela, desenhos) podem influenciar uma
criança, fazendo com que ela se torne agressiva ou submissa?”. Algumas das respostas
são abaixo indicadas:
“O adolescente ou criança que
passa muito tempo nessas atividades desenvolvem um comportamento que não condiz com a realidade de sua vida, vive contextos
que não fazem parte de sua vida,
dando uma noção errada da realidade. Muitos fantasiam e almejam o que não lhes pertencem. E
fora este comportamento , alguns
ainda desenvolvem comportamento agressivo, discriminatório
e tomam como exemplos ídolos
criados pela sua imaginação (apologia ao crime, aos milionários,
aos vândalos, etc.”(PROFESSOR
3 – ESCOLA PÚBLICA)
“Já vi em vários programas televisivos atitudes incorretas como
apelidar pejorativamente alguém,
tratar de formar preconceituosa
pessoas obesas, impor padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis,
games altamente violentos e exposição a pornografia”. (PROFESSOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
“A televisão é o maior mediador.
Os pais perderam as rédeas da
educação de seus filhos. Há situações graves... Relato um ocorrido
na escola no começo deste ano:
um aluno da 3ª série (de 11 anos)
foi ao banheiro e agrediu um aluno
da 2ª série ( de 7 anos) colocando
o rosto do menino dentro do vaso
sanitário, onde ele tinha feito as
necessidades, e deu descarga. ‘Lameou’ o menino de fezes. A criança agredida ficou traumatizada.
A Direção tomou as providências
cabíveis, mas para o agressor nada
aconteceu”. (PROFESSOR 4 – ESCOLA PÚBLICA)
“Para o adolescente, na internet
ele não tem rosto, e fica mais fácil
falar aquilo que quer, sem encarar
o outro, e isso cresce como uma
bola de neve”. (PROFESSOR 5 –
ESCOLA PARTICULAR)
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
73
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
“Algumas crianças são muito influenciáveis; a falta de limites, de
censura, de orientação podem ser
essenciais para essa transformação. Os pais precisam preparar os
filhos para esse tanto de informação”. (PROFESSOR 6 – ESCOLA
PARTICULAR)
Resta claro que os professores que
convivem diariamente com as crianças, que
participam e acompanham o desenvolvimento dessas crianças, confirmam a existência do
Bullying na sala de aula, e na escola em geral. Frente a isto, tentam ajudar, conversando e orientando os alunos envolvidos, assim
como explicando a todos os alunos a gravidade da rejeição e da violência. Percebem que
os pais não estão devidamente informados e
principalmente não estão devidamente atentos à seus filhos, a ponto de não perceberem
os sintomas que apresentam, deixando dessa
forma de socorrer aqueles que precisam de
ajuda e de educar aqueles que estão sem limites.
Além disso, evidenciam que as formas
modernas de entretenimento tem grande
parcela de culpa, ao insinuarem naturalmente e constantemente situações de violência,
confundindo as crianças sobre os princípios
e parâmetros a serem seguidos, misturando
o que é permitido do que é proibido, o que é
certo do que é errado.
3.2. Depoimentos dos Diretores de Escolas
Dando continuidade à pesquisa de
campo, da mesma forma, foram entrevistados os diretores das escolas pesquisadas,
buscando identificar a que grau de competência chegam as informações sobre os casos
de bullying, qual a atitude da escola em relação aos envolvidos, assim como quais são,
na visão dos diretores, as maiores influências
externas sobre as crianças que praticam essa
violência.
74
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Deste modo, indagamos “Quando há
um caso de bullying na sua escola, ele chega
ao conhecimento da diretoria? Como?”. As
respostas que se apresentaram foram:
“Sim, chega à direção, através do
professor, da inspetora de alunos
e do próprio aluno”. (DIRETOR
1 – ESCOLA PÚBLICA)
“Chega sim, pelos próprios alunos,
pelos professores e inspetores de
alunos”. (DIRETOR 2 – ESCOLA
PÚBLICA)
“Sim. Esses casos chegam à diretoria através da própria manifestação do aluno que recebe a
agressão ou através do contato da
família quando o aluno se manifesta em casa também, em casos
perceptíveis pelos professores e
coordenação”. (DIRETOR 1 – ESCOLA PARTICULAR)
“Alguns chegam por denuncia do
próprio aluno que esta sofrendo
de bullying, outros são os pais que
denunciam e existem casos que os
colegas denunciam”. (DIRETOR 2
– ESCOLA PARTICULAR)
Fator positivo ocorreu em relação a
este quesito, onde a unanimidade dos diretores respondeu que sempre toma conhecimento dos casos de Bullying que ocorre no
interior da escola.
Importante agora destacar, qual atitude tomam os diretores em relação a essa situação. Para tanto, perguntamos aos diretores entrevistados: “Quando toma ciência da
situação, de que um aluno foi agredido por
outro, seja por violência verbal ou física, qual
a atitude da escola em relação a isso?”. Os
depoimentos obtidos são expostos a seguir:
Primeiro passo conversar com os
alunos envolvidos, em seguida
conversar com os responsáveis,
observando a evolução do caso.
(DIRETOR 1 – ESCOLA PÚBLI-
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
CA)
Chamamos os alunos e apuramos
os fatos, no caso de realmente ter
acontecido, registramos a ocorrência, repreendemos verbalmente os agressores e comunicamos as
famílias. (DIRETOR 2 – ESCOLA
PÚBLICA)
São aplicadas as normas de convivência da escola.
Sempre há uma orientação no
sentido de inibir e conscientizar,
e as famílias são comunicados
dos fatos. (DIRETOR 1 – ESCOLA
PARTICULAR)
Primeiramente os envolvidos são
chamados para conversar e constatado a violência, seja verbal ou
física, concluímos com a suspensão das atividades dos alunos.
(DIRETOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
Assim como os professores, a primeira atitude dos diretores é tentar resolver o
conflito entre os alunos com base na conversa, buscando orientação e educação. Porém,
resta saber se essa atitude está trazendo resultados.
Frente à pergunta: “Na opinião do senhor (a), o que mais influencia a criança ou
o adolescente a cometer esse tipo de agressão?”, outra coincidência de respostas ocorreu:
“É um reflexo do meio em que vive
e falta de participação da família
em seu cotidiano.” (DIRETOR 1 –
ESCOLA PÚBLICA)
“Falta de valores transmitidos
pela família. Na maioria dos casos observamos que as famílias
dos agressores são displicentes e
desestruturadas”. (DIRETOR 2 –
ESCOLA PÚBLICA)
“A deficiência de uma boa educação em casa, e um acompa-
nhamento maior por parte da
família”. (DIRETOR 1 – ESCOLA
PARTICULAR)
“Normalmente é a impunidade. A
partir dos casos que ocorreram e
houve suspensão, houve também
uma redução nas denúncias”. (DIRETOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
Por sua vez, em relação à pergunta:
“O senhor acredita que as formas de entretenimento modernas (filmes, musicas, novelas, desenhos e jogos de vídeo-game), podem
influenciar de alguma maneira as crianças a
se tornarem mais agressivas com outras pessoas? Por quê?”, as respostas obtidas foram:
“Sim, porque passa a ser normal
esse tipo de comportamento por
fazer parte do seu dia a dia”. (DIRETOR 1 – ESCOLA PÚBLICA)
“Sim. A televisão é sensacionalista
e coloca as situações a sua maneira, muitos programas tiram vantagem da ignorância do povo pra
manipular opiniões.” (DIRETOR
2 – ESCOLA PÚBLICA)
“Certamente todas essas formas
de entretenimento contribuem
de uma forma negativa para essa
mudança de comportamento. Outro fator que eu colocaria também
é a carência de bons exemplos,
do bom modelo para ser copiado.
Infelizmente está havendo uma
inversão de valores na nossa sociedade.” (DIRETOR 1 – ESCOLA
PARTICULAR)
“A Agressividade já é um atributo
de algumas pessoas e essas formas
de entretenimento podem, muitas
vezes, estimular essa agressividade. Aqueles que não possuem este
atributo, não têm esses entretenimentos como estímulos.” (DIRETOR 2 – ESCOLA PARTICULAR)
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
75
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
Podemos constatar que a escola,
como um todo, preocupa-se com o aumento dos casos de Bullying entre crianças, porém, possuem apenas instrumentos como a
conversa, e regras internas da própria escola
para tentar combater o problema. Percebe-se
que a falta de um instrumento efetivo, a falta
de programas e até mesmo de instrução dos
profissionais é grande colaboradora para que
a violência se expanda e não diminua.
4. Formas de Combate
As pesquisas têm comprovado aquilo
que os estudiosos do tema têm sustentado
há muitos anos: o Bullying é prática cotidiana e os seus efeitos podem ser devastadores
(ROSA e PRUDENTE, 2010).
Não só no Brasil, mas por todo o
mundo os países estão sofrendo com a prática de Bullying entre as crianças, e tentam de
todas as formas combater este mal. Em geral,
a grande maioria dos países trabalha, principalmente, com a informação e conscientização sobre o Bullying, através de palestras,
folhetos informativos, além da implementação de políticas públicas pelos órgãos responsáveis pela educação. Em alguns países
da Europa, como por exemplo, a Finlândia,
Suíça, França e Inglaterra, já existem exigências específicas legais contra o Bullying.
Esses programas têm como premissa o direito de todas as crianças de estudarem em um
ambiente seguro e o dever dos professores de
garantir a integridade física e moral de seus
alunos. (RUOTTI, ALVES e CUBAS, 2007, p.
188).
O primeiro programa de intervenção, aplicado em escolas da Noruega, foi desenvolvido nos anos 80 pelo professor Dan
Olweus. Tal programa consistia em três níveis: aplicado individualmente, aplicado a
toda sala de aula e aplicado a toda a escola.
Olweus ensina que a escola que pretende lidar com os problemas de Bullying
deve trabalhar com os agressores de forma
ativa e firme, deixando claro que alguns com-
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
portamentos não são permitidos e principalmente deixando claros os limites que devem
ser respeitados. Além disso, explica que o
projeto de intervenção só terá sucesso num
ambiente em que as pessoas reconheçam que
o Bullying deve ser eliminado e no qual haja
total comprometimento e dedicação dos professores (RUOTTI, ALVES e CUBAS, 2007,
p. 189-191).
É certo e unânime entre especialistas
do mundo inteiro que os pais dos alunos envolvidos (agressores e agredidos) têm papel
fundamental para combater a violência moral nas escolas, e para isso, precisam saber
lidar com a situação. No caso de pais dos
agressores, por exemplo, é preciso que convençam seus filhos que esse comportamento
é prejudicial a eles.
Lopes Neto e Saavedra (2003) entendem que a única maneira de combater esse
tipo de prática é a cooperação por parte de
todos os envolvidos: professores, funcionários, alunos e pais.
Todos devem estar de acordo com
o compromisso de que o Bullying
não será mais tolerado. As estratégias utilizadas devem ser definidas em cada escola, observando
suas características e as de sua
população. O incentivo ao protagonismo dos alunos, permitindo
sua participação nas decisões e
no desenvolvimento do projeto, é
uma garantia ainda maior de sucesso. Não há, geralmente, necessidade de atuação de profissionais
especializados; a própria comunidade escolar pode identificar seus
problemas e apontar as melhores
soluções. (...) Enfim, é fundamental que se construa uma escola que
não se restrinja a ensinar apenas o
conteúdo programático, mas também onde eduquem as crianças e
os adolescentes para a prática de
uma cidadania justa.
Os conhecimentos adquiridos através
de todos os estudos aumentaram a visibilida-
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
de do fenômeno, e devem ser utilizados para
orientar, direcionar e para delinear técnicas
de identificação e enfrentamento do problema, para formulação de políticas públicas, a
fim de buscar respostas adequadas e eficazes
para reduzir e futuramente acabar com o
problema (ROSA e PRUDENTE, 2010). Estes
autores entendem que as respostas repressoras (como a expulsão de alunos ou recorrer
ao judiciário) são válidas, mas nem sempre
são as mais adequadas, e por isso devem ser
evitadas, devendo-se privilegiar os mecanismos alternativos ou complementares, como
por exemplo, a justiça restaurativa.
As práticas restaurativas estão focadas numa forma reconstrutiva das relações
e preparativas de um futuro convívio respeitoso. A mediação, conferências familiares
ou círculos fazem parte dessa modalidade, e
proporcionam a vítima, ao agressor e a outros interessados a oportunidade de se reunirem, exporem os fatos, falarem sobre os
motivos e conseqüência do ato, ouvirem o
outro, visando identificar as necessidades e
obrigações de ambos. Dessa forma, firma-se
um compromisso entre as partes.
Rosa e Prudente (2010) concluem
dizendo que, com a justiça restaurativa, as
escolas aprendem que em vez de punir, é melhor dialogar para resolver os conflitos.
4.1. Formas de Combate ao Bullying no
Brasil
No Brasil, o principal programa de
combate ao Bullying é feito pela ABRAPIA
– Associação Brasileira Multiprofissional de
proteção à Infância e a Juventude.
Este programa foi criado para redução do comportamento agressivo entre estudantes, com patrocínio da Petrobrás, o auxílio da Secretaria Municipal de Educação da
Cidade do Rio de Janeiro, do IBOPE, e das 11
escolas que participaram do projeto.
Além do grupo ABRAPIA, existem
outros programas sendo aplicados e testados
nas escolas a fim de diminuir e futuramente
acabar com a problemática do Bullying entre
crianças. Dentre estes projetos, encontra-se
o da professora Marta Canfield, que também
utilizando-se de uma adaptação do questionário de Olweus, procura observar o comportamento agressivo das crianças de quatro escolas de ensino público de Santa Maria (Rio
Grande do Sul).
Ainda em busca do mesmo objetivo,
qual seja reduzir a ocorrência de violência
moral entre as crianças, existe no Brasil o
programa chamado “Programa educar para
a paz”, presidido pela professora doutora em
ciências da educação, Cleodelice Aparecida
Zonato Fante (2010).
Tramitam no Congresso Nacional
projetos especificamente voltados para proteção ao Bullying. Deste modo, observa-se
que alguns parlamentares pretendem criar
uma lei federal específica contra essa prática,
tendo alguns projetos a intenção até mesmo
de tipificar e criminalizar tais condutas. Contudo, resta apenas saber se essa lei vai ajudar
a amenizar ou mesmo acabar com o problema, ou se poderá colocar-se como uma medida que superdimensiona a pena e não se efetiva no combate ao problema propriamente.
Os projetos de Lei com tal proposta
são, em suma, muito parecidos, visando a
criação de programas nacionais, estaduais e
municipais de combate a essa forma de violência, prevendo destinação de verbas públicas direcionadas a esses programas, entre
outras propostas. Esses projetos são também
muito parecidos com a Lei 14.651 de 12 de Janeiro de 2009, que trata do mesmo assunto e
já está vigente no Estado de Santa Catarina.
5. Considerações Finais
Constatou-se nas entrevistas realizadas que no ambiente escolar, entre crianças,
a prática do bullying aumenta e se intensifica
a cada dia. Os professores e a própria escola, até hoje, possuem apenas instrumentos
como o diálogo e regras internas para tentar
controlar, amenizar e acabar com a violência
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77
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
entre os alunos; além disso, percebe-se que
falta a participação efetiva dos pais na vida
dos alunos prejudica ainda mais seu desenvolvimento e a capacidade de discernimento
entre o que é certo e o que é errado.
Não há ainda no ordenamento jurídico federal uma Lei específica sobre o
Bullying, embora tramitem no Congresso
Nacional alguns projetos que tratam deste tema, nos quais fica prevista a criação de
programas antibullying, a conceituação e informação da sociedade, entre outras medidas
específicas.
Tendo em vista que este fenômeno é
antigo e vem apenas aumentando, e que essas normas de proteção existem e podem ser
usadas há muito tempo, conclui-se primeiramente que a ocorrência deste fenômeno não
está ligada a inexistência de uma Lei específica. Considera-se, de fato, que tal ocorrência
está ligada à falta de informação e participação da sociedade, principalmente no que diz
respeito à ação das escolas e à instrução dos
profissionais que convivem com as crianças
para lidar com a questão. Além disto, está
fortemente ligada à participação dos pais na
vida dos filhos, na postura voltada a obter
informação quanto aos sintomas que apresentam os envolvidos em casos de Bullying
(vítimas e agressores), e em como lidar com
a questão.
Além disto, o fenômeno está ligado
também com a atitude da mídia em geral,
que libera o acesso de crianças às cenas de
violência, tortura, abusos, que cria e impõe
parâmetros de beleza, de atitude, de bens
materiais, sendo que, aquele que não se encaixar nesses parâmetros, pode ser considerado excluído do circulo principal da sociedade, ou seja, não é considerado igual aos
demais.
Apóiam-se as práticas restaurativas
focadas numa forma reconstrutiva das relações sociais, que possam preparar uma
coexistência pautada no respeito. Assim, a
mediação, conferências familiares ou círculos fazem parte dessa modalidade, e pro-
78
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
porcionam à vítima, ao agressor e a outros
interessados a oportunidade de se reunirem,
exporem os fatos, falarem sobre os motivos e
conseqüência do ato, ouvirem o outro, visando identificar as necessidades e obrigações
de ambos.
Portanto, num primeiro momento,
a necessidade maior parece ser a promoção
de informação e formação social, no sentido
de explicar, mostrar a diferença entre brincadeiras de criança e violência moral entre
crianças, dar publicidade aos sintomas mais
comuns que apresentam os envolvidos, instruir sobre como devem agir ao se deparar
com a situação, portanto, abrir os olhos da
sociedade para essa prática que vem trazendo cada vez mais conseqüências terríveis e
irreversíveis nas crianças e nos adultos que
se tornarão.
O Fenômeno Bullying: Resultado de Pesquisa Empírica sobre sua Prática nas Escolas
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O Discurso do Presidente: Efeitos
de Sentido e Argumentação
Santo de Almeida Vieira¹
Sérgio Gustavo Perego Zavatti²
Rodrigo César Vulcano dos Santos³
RESUMO
Este estudo aborda os discursos do
atual Presidente da República Luiz Inácio
Lula da Silva. Seguindo o dispositivo teórico da Análise do Discurso de Linha Francesa, objetiva-se investigar os sentidos que
são construídos pelo discurso e sua historicidade, procurando identificar a ideologia do
candidato e, depois, presidente da república.
Palavras-chaves: discurso; ideologia;
sentido.
ABSTRACT
This study approach the speeches of
the current President of the Republic Luiz
Inácio Lula da Silva. Following the theoretical device of the Analysis of the Speech of
French Line, objectify to investigate the directions that are constructed by the speech
and its sense in time, looking for to identify
the ideology of the candidate and, later, president of the republic.
Keywords: speech; ideology; sense.
1. Introdução
O estudo tratará dos discursos do
Presidente da República Luiz Inácio Lula da
Silva. Através da análise dos discursos no
tempo, de sindicalista à presidente da repú-
blica, discutirá os processos discursivos. Os
discursos preparados são, em sua maioria,
fáceis de encontrar na mídia impressa, mas
os improvisados geralmente ficam apenas na
oralidade e poucos foram transcritos na íntegra.
Uma carreira política não se faz ao
acaso. Quando se depara com um candidato
ou figura pública, não se está à frente apenas
de um cidadão com vontade de exercer mudanças. Há um grande trabalho de imagem e
conduta ideológica que acercam e norteiam
os passos e palavras de cada grupo social.
É perceptível que uma má conduta ou descuido às vésperas de um pleito pode mudar
os rumos de ou decidir uma eleição. Não há
eleição vencida na véspera, mas um passo em
falso, uma palavra mal colocada ou desvios
sérios de conduta ajudam a definir distâncias e esclarecerem indecisos. Para análise,
precisa-se, porém, dividir a carreira política
de Lula em algumas fases, que possibilitaram
amadurecimento, experiências e mudanças
de posição ideológica:
1. Extrema esquerda: sindicalista,
fundador do Partido dos Trabalhadores
(PT). Nessa fase foi eleito Deputado Federal
em 1986 e concorreu a primeira eleição presidencial em 1989.
2. Transição: presidente e líder do PT
(Partido dos Trabalhadores); candidato derrotado nas eleições presidenciais de 1994 e
1998.
3. Centro-Esquerda: eleito presidente
¹ Letras - Curso de Letras do Centro Universitário UniSEB Interativo; Araraquara; São Paulo; Brasil; [email protected]
² Letras - Curso de Letras do Centro Universitário UniSEB Interativo; Araraquara; São Paulo; Brasil; [email protected]
³ Letras - Curso de Letras do Centro Universitário UniSEB Interativo; Araraquara; São Paulo; Brasil; [email protected]
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
da República em 2002 e reeleito em 2006
com mandato até 2010, não podendo concorrer à reeleição.
O marketing político é um verdadeiro
formador de opiniões, principalmente entre
os mais desinteressados eleitores. Entre as
mais importantes técnicas marqueteiras está
o discurso político. Um candidato ao mais
alto cargo de uma nação chega a fazer mais
de um discurso por dia e deve estar bem assessorado e atualizado sobre os assuntos de
suas explanações. Não há espaço para erros.
Durante uma campanha, também são alvos
de ataques os discursos feitos nos inícios de
carreira. Se lá atrás houve um deslize significativo ou comprometimento com alguma
ideologia ou promessa, isso, com certeza,
será utilizado a favor do adversário. Os candidatos são definidos cada vez mais cedo
para possibilitar um trabalho de imagem e
postura política pertinentes ao cargo pretendido. Mudam feições, atitudes, retórica, afinidades, parcerias, e o que mais for preciso
para formar uma figura em que valha a pena
investir tempo e dinheiro.
2. O Discurso
A Análise do Discurso aparece no final dos anos 1960 com o lançamento, em
1969, por Michel Pêcheux, do livro Análise
Automática do Discurso, que representa a
fundação dessa disciplina. Segundo Orlandi
(2005, p. 26), “A análise do discurso visa a
compreensão de como um objeto simbólico
produz sentidos, como ele está investido de
significância para e por sujeitos”. A AD considera a produção de sentido dos sujeitos
de uma sociedade, determinada por fatores
históricos e sociais. Dos conceitos pertencentes à AD destaca-se a Memória Discursiva, a
Formação Discursiva, a Formação Ideológica e o Interdiscurso. A memória discursiva
permite que todo discurso enunciado resgate
formulações anteriores pertencentes e posicionadas na história. Orlandi (1993) diz que
o sujeito toma como suas as palavras de uma
voz anônima que se produz no interdiscurso,
apropriando-se da memória que se manifestará de diferentes formas em discursos distintos. Sobre Formação Discursiva, Foucault
diz que:
Sempre que se puder descrever,
entre certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão e se puder definir uma
regularidade (uma ordem, correlações, posições, funcionamentos,
transformações) entre os objetos,
os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, teremos uma formação discursiva.
(1997, p. 43)
Falando sobre Formação Ideológica,
Pêcheux diz que a ideologia adquire materialidade no discurso. Se o discurso é relação de
sentidos, a formação ideológica é um conjunto de atitudes e representações ligado mais
ou menos diretamente a determinada classe.
A formação ideológica tem como um de seus
componentes uma ou várias formações discursivas interligadas. Orlandi (1992, p. 8990) diz:
O interdiscurso é o conjunto do
dizível, histórica e linguisticamente definido. Pelo conceito de
interdiscurso, Pêcheux nos indica
que sempre já há discurso, ou seja,
que o enunciável (o dizível) já está
aí e é exterior ao sujeito enunciador. Ele se apresenta como séries
de formulações que derivam de
enunciações distintas e dispersas
que formam em seu conjunto o
domínio da memória. Esse domínio constitui a exterioridade discursiva para o sujeito do discurso.
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O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
3. Análise do Discurso e o Poder
Historicamente pode-se perceber que
bons discursos4, entendidos como enunciados linguísticos cujos sentidos são determinados por suas inscrições ideológicas, que
conseguem resgatar sentidos pré-existentes
tornando possível e interpretável o dizer dos
interlocutores, fazem parte da manutenção
do poder, tanto nas ditaduras como nas democracias. Grandes ditadores, como Hitler
e Fidel Castro, têm, em seus currículos, discursos arrebatadores. Na história recente da
democracia brasileira, também se tem exemplos claros de eleições que foram decididas
nos discursos: a disputa Collor x Lula, na
primeira eleição democrática do país pós-ditadura militar foi uma delas. Enquanto Lula
mantinha uma posição de esquerda, bem
próxima aos princípios socialistas, um tanto quanto radical, Collor mantinha a cara de
“bom moço” mantendo os dois pés em cima
do muro, com uma tendência à direita. A democracia era uma coisa nova e o radicalismo
de podermos votar já era o bastante. Uma
mudança radical extrema, representada por
Lula e seus ideais socialistas, não foi bem
aceita pelos eleitores. Mas tudo a seu tempo,
a democracia foi consolidada com a direita
no poder por vários mandatos e abrindose as portas para mais uma mudança: a esquerda no poder, um país liderado por um
ex-representante sindical com pouco estudo,
mas com grande capacidade de persuasão e
já nem tanto radical.
Pode-se, todos os dias, perder ou ganhar eleitores. Convencer as pessoas e manter a opinião pública a uma distância confortável faz parte da manutenção dos cargos.
Ganha-se poder com as palavras e há uma
clara diferença entre oralidade e escrita, o
tom da voz, a ênfase, os gestos, expressões
faciais, permeadas pelo local e diretamente
associadas ao público alvo dos discursos. To-
dos esses elementos devem ser considerados,
pois modificam e norteiam as análises. Para
isso, as análises de discursos precisam ser
profundas, todos os aspectos que envolvem
o discurso, tanto externos como internos devem ser considerados. Um discurso feito na
época eleitoral é diferente de um discurso
feito durante o mandato. Um discurso perante jornalistas é diferente de um discurso
feito para a população menos informada: são
diferentes tipos de persuasão, linguagens diferentes, efeitos e sentidos diferentes. Segundo diz Orlandi:
Pela ideologia se naturaliza o que é
produzido pela história; há transposição de certas formas materiais
em outras. Há simulação (e não
ocultação de conteúdos) em que
são construídas transparências
(como se a linguagem não tivesse
sua materialidade, sua opacidade) para serem interpretadas por
determinações históricas que aparecem como evidências empíricas.
(1994, p. 57)
4. Condições de Produção do Discurso
de Lula
Aborda-se primeiro aqui as Condições de Produção do Discurso do Presidente
Lula, sua Ideologia, Formação Discursiva e
Lula como sujeito de seu discurso. Devem-se
levar em conta as condições sócio-históricas
em que se formou o atual presidente, quando
ainda metalúrgico e sindicalista. Lula, nordestino, retirante, trouxe em sua formação
psicológica as agruras de um brasileiro nascido na extrema pobreza, vítima da concentração de riquezas, que o marginalizou e sua
classe. Quando em São Paulo, sentindo-se
talvez pela primeira vez, como sindicalista,
na condição de lutar por si e por sua classe,
conseguiu, através da persuasão e mobiliza-
4
Refere-se aqui ao “discurso político”, gênero textual que cumpre sua função na situação comunicativa
específica de uma disputa política, atendendo seu propósito comunicativo. Difere do “Discurso”, objeto
teórico da “Análise do Discurso”, de onde se observa as relações entre Língua e Ideologia na produção de
sentidos.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
ção de seus companheiros, lutar contra os
símbolos que representavam suas agruras:
a concentração de riquezas nas mãos dos
patrões, que impedia que trabalhadores tivessem moradia, comida, educação e saúde,
tudo o que lhe faltou em sua infância. É este
contexto sócio-histórico, carregado de privações e desencantos com o poder público,
que traz as condições de produção de seus
discursos.
5. A Formação Ideológica de Lula
A Formação Ideológica de Lula vem
de sua interpretação da realidade histórica.
Sua realidade histórica corresponde às suas
práticas, ações e maneiras com que se relacionou com essa realidade histórica, principalmente a sua atuação como sindicalista e
candidato a presidente da república. Se for
analisada mais profundamente, a maioria
dos discursos de Lula remete, de alguma forma, seja por alguma consideração ou análise,
a ele próprio. Sobre qualquer tema, do MeioAmbiente ao FMI, ele inclui e faz questão de
incluir, ainda que implícitas, considerações
sobre o “trabalhador”, a “nação”, a “fome”,
etc.. Lula puxa, a todo o momento, a memória de quem o elegeu, como se estivesse
dizendo “olha, agora que estou aqui, mais
uma vez estou lutando por nós”, já que ele
se incluiu no conceito de “povo” e usa a linguagem do povo. Se sua ideologia foi formada por sua vivência de luta contra a exploração patronal, o desemprego e a fome, o seu
convencimento da opinião pública deve-se
à fidelidade de suas propostas, formalizadas
através de linguagem apropriada, que corroborasse sua identidade com seu “povo”.
6. A Formação Discursiva de Lula
Considerando-se que Lula veio do
“povo”, nada mais claro que sua formação
discursiva viesse da visão de mundo contida
em sua ideologia. Boa parte de seus enunciados provêm de já-ditos presentes na lin-
guagem sindical, nos bordões utilizados por
sem-tetos, sem-terras e sem-empregos. Em
discurso do Presidente da República, na cerimônia de inauguração da fábrica de pneus,
de mineração e terraplanagem da Michelin –
América do Sul - Bairro Campo Grande – Rio
de Janeiro, em 26 de fevereiro de 2008, Lula
disse:
Somente quem está dentro de uma
fábrica, ou quem está em casa esperando que o companheiro ou a
companheira chegue, ao final do
mês, com o salário para ajudar a
família sobreviver, tem noção do
que é o desemprego, tem noção do
que é um trabalhador ir marcar o
seu cartão, chegar lá e o cartão não
está, vai ao departamento de pessoal e recebe o comunicado de que
foi dispensado. (http://www.info.
planalto.gov.br)
Lula usou termos que costumava usar
nos tempos de sindicato, como “companheiro, “companheira” e “marcar ponto”. Ele se
utiliza de palavras resgatadas de sua história,
que dão um sentido a seu discurso e gravam
sua marca que é o uso, às vezes exagerado, de
poucas e mesmas palavras. Dá-se, por muitas
vezes, a impressão de que seu vocabulário é
limitado às mesmas palavras que usava há
vinte anos. Mas, analisando que hoje, simplesmente por ocupar a presidência e, ainda
mais, pela vontade natural de superação e
pela estrutura institucional da Presidência
da República que, forçosamente, levou-o a
estruturar melhor seus discursos em situações que a correção gramatical fosse imperiosa, desfaz-se qualquer consideração de
que o presidente, por ignorância, ainda use
palavras fora de contexto. Lula usa a linguagem que convém ao momento e ao público
que o ouve.
7. Sujeito do Discurso
Não se pode deixar de considerar de
onde o sujeito do discurso enuncia, qual sua
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O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
função no ato da enunciação e em quais condições este foi produzido. Orlandi diz:
O sentido não existe em si, mas é
determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no
processo sócio-histórico em que
as palavras são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo
as posições daqueles que as empregam. Elas “tiram” seu sentido
dessas posições, isto é, em relação às formações ideológicas nas
quais essas posições se inscrevem.
(1999, p. 42-43. Aspas do original)
Lula, como sujeito de seu discurso,
traz exemplos de equívocos e fuga do controle consciente de suas palavras e pensamentos
em seus discursos. Em 10/03/03, em discurso, disse que “antes que Napoleão Bonaparte
ter visitado a China, o hino brasileiro já falava que somos um gigante.” Evidente equívoco, pois Napoleão nunca esteve na China.
Lula nunca obteve informação de qualquer
fonte de que tal viagem teria ocorrido. Dotado de um inconsciente, expressou algo que
lhe escapou, sem que tivesse tido tempo ou
condições de analisar o sentido do que proferiu. Também clara é a ilusão de ser a origem
de seu discurso. Tem-se sempre a impressão
de que, quando Lula discursa, ele tem a ilusão de que está dizendo algo totalmente inédito, principalmente em suas considerações
sobre Pobreza, Desenvolvimento, Trabalho,
Educação, Justiça e Fome. Sobre Pobreza,
em 09/05/08, em Salvador-BA, ao discursar
disse: “... mas a parte mais pobre tem que ter
a nossa preferência para deixar de ser mais
pobre. Quando ela deixar de ser pobre vai
virar consumidora, ela vai comprar, a empresa vai produzir, o mercado vai vender, vai
ter mais emprego, mais um salário, mais um
consumidor”. Quem ouve Lula em um discurso como este sabe que ele discursa como
se estivesse esclarecendo um fato ou uma dinâmica que não era perceptível ou entendida
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
por outros seres. Percebe-se em seu tom de
voz e em sua satisfação por conseguir dizer
algo que pretendia expressar, aquela ilusão
de ser a origem de seu discurso. Tal fenômeno é chamado por Pêcheux de esquecimento
número um.
Mas esses fenômenos, em Lula, funcionaram como qualidade, pois seu eleitorado, composto inicialmente por pessoas mais
humildes, viu, nessas atitudes, demonstrações de superação pessoal do presidente.
O eleitorado de Lula vê no Presidente a si
próprio, ditando regras e conceitos a uma
nação. Lula, afinal, sabe do poder da linguagem e a usa da maneira que julga apropriada para “seu povo”, seus “companheiros e
companheiras”. Em discurso, proferido em
04/12/08, ao usar um exemplo, rebatendo
críticas de que ele tentava passar otimismo
para a população, de modo a não retrair o
consumo, o que pioraria ainda mais a crise
econômica, ele disse:
“Imaginem vocês, se um de vocês
fosse médico e atendesse um paciente doente, o que vocês falariam para ele? “Olha, companheiro, o senhor tem um problema,
mas a medicina já avançou demais, nós vamos dar tal remédio e
você vai recuperar.” Ou você diria:
“Meu, ‘sifu’.” Vocês falariam isso
para um paciente de vocês? Vocês
não falariam”.
Fica-se pensando nos aplausos e nas
considerações, de seus “companheiros”, de
que isto foi um ato de coragem em falar a
“língua do povo” sem constrangimento. Lula
atenuou, usando “sifu”, um eufemismo para
“se fodeu”, mas para o povo, Lula falou sem
ser “difícil”. Lula, realmente, fala, quando
lhe convém, como costumava falar em tempos de sindicalista e candidato à presidente
da república, usando e abusando de figuras
de linguagem, usando principalmente seus
métodos preferidos, a metáfora e a comparação. Na formatura de alunos do SESI, RJ,
O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
disse: “é como se esse palco fosse um grande
ovo cheio de pintinhos dentro, que até então
não sabiam como era o mundo. Esse curso,
na verdade, fez vocês quebrarem a casca do
ovo e aparecerem para o mundo em que vocês vão viver daqui pra frente.”
8. O Corpus
O corpus é composto do discurso de
Lula em 17 de abril de 1980, dirigindo-se
aos sindicalistas e metalúrgicos em greve,
no Sindicato dos Metalúrgicos, da transcrição de vídeos usados na propaganda eleitoral gratuita na televisão, sendo um texto da
propaganda do primeiro turno das eleições
de 1994, quando foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, outro texto da propaganda do primeiro turno de das eleições de
1998, quando, novamente, foi derrotado por
Fernando Henrique Cardoso e o terceiro da
propaganda do primeiro turno da Eleição de
2002, quando foi eleito no segundo turno,
derrotando José Serra. Finalmente tem-se
o primeiro discurso como presidente eleito,
proferido no dia 27 de outubro de 2002.
8.1 Análise do Corpus
Lula elegeu-se, em abril de 1975, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema e foi reeleito
em 1978. Em seu primeiro mandato ia para as
portas das fábricas, liderando comícios onde
convocava os trabalhadores a participarem
de assembléias. Naquela época a maioria dos
discursos era improvisada, o que já dava aos
metalúrgicos a noção do grande poder comunicativo de Lula. A rapidez com que resgatava jargões e frases de efeito, constitutivas da
formação discursiva dos trabalhadores, que
reconheciam tais chamamentos, permitia a
interação entre enunciador e enunciatário.
No discurso aos metalúrgicos, em abril de
1980, disse:
“Pessoal, vamos bater um papo
aqui como nós sempre fizemos.
Vocês sabem tanto quanto eu sei
que, mais dia menos dia, isto viria
a acontecer. [...] Se a gente continuasse em greve, com o esquema
de massacre que estava montado,
a greve continuaria mais dois ou
três dias. E a gente voltava a trabalhar, quem sabe, embaixo de
porrada. Vocês sabem o quanto
custou pra eu pedir pra vocês voltarem a trabalhar. Quantos dos
companheiros que estão aqui hoje,
quantos de vocês foram vanguarda naquela greve e são vanguarda
agora - e por isso estão aqui dentro
- me chamaram de filho da puta.
Quantos companheiros chegavam
aqui no sindicato e falavam: Lula,
a barra está pesada.”
Vê-se a colocação do líder, por ele próprio, no mesmo patamar de seus liderados ao
chamá-los para “bater um papo”, numa relação que permite compreender diálogo e não
ordens diretas. Lula interagia com seus interlocutores sempre se utilizando de recursos
lingüísticos, como a utilização de expressões
que incluíam o emissor na ação proposta
por ele. Quando diz “Se a gente continuasse
em greve...”, entende-se “Se nós continuássemos em greve...”, mesmo se sabendo que,
como presidente de um sindicato poderoso,
Lula já não mais trabalhava no “chão da fábrica”. O enunciador ora assume seu papel
de sujeito do discurso, ora assume o papel
de enunciatário, já que, quando assume valores que acredita ser importante transmitir
ao enunciatário, pretende também mostrar a
este que tal conceito é também importante e
extensivo a quem enuncia, dando credibilidade de que é uma ação cujo efeito é aplicado
a ambos, como se vê no trecho abaixo:
“Cada um de nós aqui, cada um de
nós, o Lula, o Ratinho, o jornalista, o metalúrgico, individualmente não vale porra nenhuma. Não
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O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
vale. A categoria como um todo
vale muito. E o que nós precisamos preservar é a categoria. O que
nós precisamos preservar é todo
o trabalho que foi montado desde o dia primeiro de abril. É por
isso que eu vou fazer um pedido
pra vocês. Durante 15 dias, eu pedi
pelo microfone que os companheiros viessem para o sindicato.
O pedido que eu faço hoje é o contrário. E eu gostaria que vocês entendessem que nem é um pedido,
é uma súplica.”
Na fase de transição, quando candidato nas eleições de 1994 e 1998, no horário
eleitoral gratuito, Lula, numa mesma frase,
usa deste mesmo recurso quando diz “... Os
mesmos que falavam que eu ia acabar com
a poupança, acabaram com a poupança. [...]
Vocês estão lembrados que diziam que nós
não tínhamos experiência”. Há, ainda que
subtendida, a abrangência da palavra “nós”
aos eleitores que desejavam Lula no poder.
Na propaganda eleitoral do primeiro turno,
há uma clara divisão de responsabilidades
na frase “... Temos que encontrar novas soluções para nossos velhos problemas”, frase
esta dita quando já adequava seu discurso à
posição centro-esquerda, procurando novos
eleitores. Nesta fase de sindicalista, Lula impôs sua marca discursiva, utilizando-se de
recursos lingüísticos como a repetição e a
metáfora. Tais recursos são usados para fixação, principalmente em discursos políticos,
como no trecho abaixo em que são repetidas
palavras chaves que evocam da formação
discursiva dos enunciatários o significado
pretendido. Observa-se a repetição das palavras ‘greve’, ‘consciência’ e ‘vitória’.
“É por isso que eu apelo aos companheiros. Meditem! Meditem! A
minha opinião pessoal é que nós
temos que decidir o que é mais importante. Nós temos que decidir o
que é mais importante. Para mim
86
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
o mais importante é os trabalhadores ficarem em greve e voltarem
a trabalhar com uma vitória. Porque, se voltarem a trabalhar com
uma vitória, no ano que vem teremos outra vitória. Eu não estou
precisando de proteção. Eu acho
que Deus protege cada um de nós.
Entretanto, existem alguns milhares de trabalhadores aí na rua que
precisam de proteção daqueles
que tem consciência. E vocês têm
consciência e têm que ir lá fora dar
consciência para esse pessoal. A
vitória da nossa greve, a vitória do
nosso movimento será a capacidade de decisão que vocês tiverem.”
Quando Lula diz “... Não sei se todo
mundo me ouviu bem, porque a minha voz
está como duas folhas de lixa grossa raspando uma na outra”, nada mais natural para
um metalúrgico resgatar o significado, pois,
Lula, para justificar sua rouquidão, provocada, talvez, muitas horas de discurso, usa uma
comparação, tentando associar o som de sua
voz ao som de lixas raspando uma na outra, o
que provoca um som desagradável, conhecido por quem trabalha em metalúrgicas. Para
Foucault (1997, pág. 135), o discurso é um
conjunto de enunciados apoiados na mesma
formação discursiva. Entendendo-se que a
formação discursiva contém a formação ideológica, o discurso político de Lula reflete e
encontra amparo primeiramente na classe
social de onde adveio sua formação ideológica.
Lula, na campanha eleitoral de 2002,
já representando, também, os interesses de
uma classe dominante economicamente,
também interessada no processo de mudança política que agora prometia sua inclusão
nas discussões sobre as decisões de governo, teve que adequar o tom de seu discurso
político. Procurando o apoio e voto também
dos empresários e da classe economicamente mais elevada, teria que ter seu discurso
também reconhecido por estas novas clas-
O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
ses incluídas no apoio político que buscava.
O discurso não teria que ser dirigido apenas
aos trabalhadores. Cada grupo social tem seu
repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. A inclusão de novos
grupos sociais teria que abarcar uma abrangência maior até mesmo do léxico. A justificativa da adequação da prática discursiva
aparece na propaganda eleitoral gratuita na
televisão:
“Tenho conversado com muito
empresários e com sindicatos de
trabalhadores e todos estão convencidos que a única solução é o
Brasil voltar a crescer [...] É por
isso que a minha proposta de fazer
um grande pacto social entre governos, empresários e trabalhadores é cada vez mais aceita, cada vez
mais compreendida por todos. [...]
Temos que encontrar novas soluções para nossos velhos problemas.” (10 de setembro – primeiro
turno das eleições de 2002)
Percebe-se uma justificativa implícita, destinada aos trabalhadores, já que a
partir dali seriam incluídas reivindicações e
propostas também dos empresários. No trecho “Temos que encontrar novas soluções
para nossos velhos problemas”, o verbo “temos” tem como sujeito Lula e os trabalhadores e “novas soluções” implicaria mudanças,
com a inclusão de mais categorias no poder.
O discurso radical, inflamado e de caráter
anti-elitista é amenizado. Os discursos em
grandes comícios, destinados apenas a trabalhadores foram substituídos por discursos
que suscitavam a idéia de promover o enunciatário, incluídas aí outras classes aderidas à
campanha, a tomada de decisões na estrutura política. A palavra constituía aí o produto
de interação de indivíduos socialmente organizados. Característica importante do discurso político é a imagem que o enunciatário
tem do enunciador político. Lula se ajusta à
imagem do homem público, assumindo um
papel mais abrangente, correspondente ao
que pressupunham seus enunciatários. No
discurso como presidente eleito, além de ser
identificado pela sua formação discursiva,
está evidente o alargamento desta formação,
adquirida do relacionamento mais amplo.
Está presente o conceito de interdiscurso
quando, apesar de a chegada ao poder ser um
uma situação inédita, Lula faz agradecimentos e chamamentos para toda a sociedade,
incluída a elite, governar junta. Lula retoma
sentidos já existentes, ele não é a fonte de seu
próprio discurso.
“Eu e minha equipe iremos governar esse país, mas não seria
exagero dizer pra vocês que apenas um presidente, o seu vice e a
nossa equipe não será suficiente
para que a gente governe o Brasil
com os seus problemas, portanto
nós vamos convocar toda a sociedade brasileira, todos os homens e
mulheres de bem desse país, todos
os empresários, todos os sindicalistas, todos os intelectuais, todos
os trabalhadores rurais, toda a sociedade brasileira, enfim, para que
a gente possa construir um país
mais justo, mais fraterno e mais
solidário.” (discurso como presidente eleito)
Todo discurso é determinado pelo interdiscurso. Lula retoma discursos, já-ditos
de sua própria formação discursiva, que já
foram formados de sentidos já criados, já
existentes na sociedade, nas estratégias lingüísticas e no contexto do conhecimento humano. Falar, discursar, nunca foi um gesto
despretensioso e ingênuo. Segundo Foucault:
Basta-me referir que, nos dias que
correm, as regiões onde a grelha
mais se aperta, onde os quadrados
negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política:
longe de ser um elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pa-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
87
O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
cifica, é como se o discurso fosse
um dos lugares onde estas regiões
exercem, de maneira privilegiada,
alguns dos seus mais temíveis poderes. O discurso, aparentemente,
pode até nem ser nada de por aí
além, mas, no entanto, os interditos que o atingem, revelam, cedo,
de imediato, o seu vínculo ao desejo e o poder. E com isso não há
com que admirarmo-nos: uma
vez que o discurso — a psicanálise
mostrou-o —, não é simplesmente o que manifesta (ou esconde)
o desejo; é também aquilo que é
objecto do desejo; e porque — e
isso a história desde sempre o ensinou — o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas
ou os sistemas de dominação, mas
é aquilo pelo qual e com o qual
se luta, é o próprio poder de que
procuramos assenhorear-nos. (A
Ordem do Discurso – Michel Foucault - Espaço Michel Foucault www.filoesco.unb.br/foucault).
Há uma escolha do repertório a ser
utilizado, pois o enunciatário não é apenas
uma classe social. Lula continua usando termos como “companheiro” e “companheira”,
mas outros temas, além dos principais que
eram reconhecidos em seus discursos, são
incorporados ao discurso. Salienta a importância de uma negra, Benedita da Silva, assumir o governo do Estado do Rio de Janeiro.
A política internacional também é destacada
no trecho “E farei o que estiver ao alcance do
presidente da República do Brasil para que
a paz seja uma conquista definitiva do nosso
continente”. Lula, eleito presidente, representa agora não mais os interesses de uma
classe, mas os interesses de uma nação. Seu
discurso tem agora que engajar uma nação a
apoiá-lo.
“... portanto nós vamos convocar
toda a sociedade brasileira, todos
os homens e mulheres de bem
desse país, todos os empresários,
88
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
todos os sindicalistas, todos os intelectuais, todos os trabalhadores
rurais, toda a sociedade brasileira, enfim, para que a gente possa
construir um país mais justo, mais
fraterno e mais solidário”. (discurso como presidente eleito).
O sujeito, que é afetado pela língua se
significa pela sua inscrição em determinada
formação discursiva, abarcada por sua ideologia. “O indivíduo é interpelado em sujeito
pela ideologia para que se produza o dizer.”
(ORLANDI, 2003, p.46)
9. Conclusão
O discurso é composto de mensagens
a serem decodificadas pelo receptor. O sentido, assim, não depende somente da intenção
do emissor. Como todo discurso se relaciona
a outros discursos, todo sentido se relaciona a
outros sentidos. Para fundamentar um dizer,
o emissor resgata da sua memória discursiva dizeres que são disponibilizados e constituem sentido de acordo com sua formação
discursiva e sua ideologia. Como as palavras
não tem sentido vinculado à sua literalidade,
o emissor as usa levando-se em conta a interpretação do receptor, conseguindo o sentido
pretendido. São as estratégias linguísticas
que materializam, através do discurso, as intenções ideológicas, obtendo assim afinidades com o público. Um candidato, no decorrer de sua vida política não muda, no sentido
de tomar um rumo totalmente diferente, sua
ideologia ou discurso. Usa, observando erros
que são cometidos ao se dirigir somente a
determinadas classes, o acréscimo de outras
classes que eram preteridas ou atacadas em
seus discursos, adaptando e reformulando
seu discurso. É a palavra que possibilita, primeiro, uma pré-disposição de eleitores que
não faziam parte de seu eleitorado tradicional a levar em consideração suas propostas
e, depois, ocupar o cargo almejado. Essa
mudança só é possível através da adaptação
do discurso, do diálogo e da negociação para
que o resultado seja crível e duradouro.
O Discurso do Presidente: Efeitos de Sentido e Argumentação
Referências bibliográficas
FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
GREGOLIN, M. R. Discurso e Mídia: a cultura do espetáculo. São Carlos: Claraluz, 2003.
KOCH, Ingedore G. Villaça. As Tramas do Texto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
ORLANDI, E. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. 2ª Ed. Campinas: Pontes, 2005.
______ Análise de discurso. Campinas: Pontes, 2003.
______ As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas: Editora da Unicamp,
1992.
PÊCHEUX, M. Semântica e Discurso - uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas, Editora
da Unicamp, 1995.
REBOUL, Olivier. Introdução à Retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2004. Tradução de Ivone Castilho Benedetti.
http://www.info.planalto.gov.br, site acessado dia 12 de Novembro de 2009, às 16:00 horas.
http://www.filoesco.unb.br/foucault, site acessado em 14 de abril de 2010 ás 18:00 horas.
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Reflexões sobre o Estágio Obrigatório
para Formar Professores1
Adriana Souza Rodrigues
Catia Daniel de Azevedo
Eloisa Gonçalves Schermann
Evandra Soares Mascarenhas Bernardes
Marina Caprio²
RESUMO
dificuldades que envolviam o estágio obrigatório para alunos do curso de pedagogia.
Abalizamos como um equívoco perturbador,
a obrigatoriedade do estágio para professores
com experiência em sala de aula, assim como
a imposição de se fazer o estágio em instituições diferentes da que já trabalham,uma
regra que desconsidera todo o saber acumulado de um profissional da educação, além
de diminuir o número de vagas para os estudantes sem experiência em instituições
escolares.
Consideramos também a dificuldade para encontrar uma escola disposta a
aceitar alunos da faculdade de pedagogia
como estagiários, já que não existe obrigatoriedade legal para que as escolas recebam
um determinado número de estagiários por
ano. Supomos que o desinteresse das escolas
ocorra pela ausência de estímulo financeiro, profissional ou classificatório para esse
sobre-trabalho, além de se tornar extremamente inconveniente para a rotina escolar a
presença de pessoas estranhas, que podem
vir a prejudicar o bom andamento das aulas,
ou ter atitudes conflitantes com a filosofia de
trabalho da instituição.
Diante de tantas constatações negativas, passamos a pensar em novas soluções,
pois não há a menor dúvida de que algum
tipo de vivência e aprendizado real é fundamental para os alunos de pedagogia. Analisando a formação de profissionais em outras
áreas e relembrando a proposta de nosso Secretário da Educação, Prof. Paulo Renato de
Souza, que visa tornar o curso de pedagogia
O presente artigo tem o intuito de
desvendar a realidade dos estágios supervisionados, obrigatórios para os alunos de graduação em pedagogia, buscando respostas
para as dificuldades na realização de estágios
eficientes e as limitações de seus resultados, para finalmente esquadrinhar soluções
inovadoras, capazes de formar profissionais
transformadores da educação em nosso país.
Palavras-chave: estágio, formação,
profissionalização, teoria, prática reflexiva.
ABSTRACT
This article aims at unfolding the
reality about mandatory supervised internship for undergraduate students of Pedagogy. It searches answers for the difficulties in performing effective training and the
limitations of their results in order to eventually scan innovative solutions that enable
the formation of transforming professionals
of education in our country.
Key words: internship, formation,
training, theory, reflective practice.
Introdução
O projeto de uma nova versão de
processo de formação de professores surgiu
quando nosso grupo acadêmico discutia as
¹ Artigo oriundo de Trabalho de Conclusão de Curso – TCC – realizado como requisito
para conclusão do curso em Licenciatura em Pedagogia do UNISEB Interativo.
2 Professora orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
mais prático de que teórico, idealizamos a
Escola-escola.
Se para a formação de um médico se
faz um estágio curricular e um estágio profissional na forma de residência em hospitaisescola, para formação em hotelaria, se faz
residência em hotéis-escola, por que não se
criar as escolas-escola, com condições de
proporcionar o exercício profissional de professores no Brasil?
Esta proposta nos trouxe questionamentos motivadores para uma pesquisa detalhada da realidade dos estágios que, possivelmente, nos indicaria os subsídios teóricos
para confirmar a aplicabilidade de nosso intento.
1. Estágio obrigatório: lei e contradição
O Estágio deveria permitir a integração da teoria e da prática, objetivando
o surgimento de professores cada vez mais
preparados, aproximando a realidade escolar e a prática da reflexão. O artigo 65 da Lei
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
9394/96 tornou o estágio obrigatório para
todos os alunos do curso superior de Pedagogia com um mínimo de 300 horas e parecia
garantir a qualidade de formação de professores. Mas como na prática a teoria é outra,
fomos buscar na lei os motivos dessa premissa não ser efetiva.
Em primeiro lugar existe a obrigatoriedade do aluno de realizar o estágio, mas
nenhum artigo garante a obrigatoriedade das
escolas públicas ou particulares de receberem esses alunos.
Art. 1º - A distribuição das trezentas horas mínimas, referidas no
Art. 65 da Lei nº 9.394/96, será
feita nos termos da Indicação CEE
nº 11/97.
Art. 2º - A regência de classe e
os estágios sempre ocorrerão em
escolas, públicas ou particulares,
previamente escolhidas e indicadas, mediante acordo entre os res-
ponsáveis pelos cursos de licenciatura e as autoridades competentes
das escolas.
§ 1º - A critério da Secretaria de
Estado da Educação, as escolas
referidas neste artigo poderão
ser credenciadas como “escolas
de aplicação”, por período determinado, sem ônus para o Estado.
(grifo nosso)
Este é o único artigo que fala sobre
o papel das escolas nos estágios, mas junto
à possibilidade da criação de uma escola de
aplicação, vem o descomprometimento financeiro do Estado para com essas instituições. O artigo 2º desestimula as instituições
escolares e isenta a responsabilidade da Secretaria de Estado de Educação na execução
da lei de estágio, explicando a dificuldade dos
alunos de Pedagogia para encontrar uma escola disposta a recebê-los e disposta a participar de sua formação.
Como se pode imaginar que as escolas tenham qualquer interesse em manter
alunos de graduação em pedagogia invadindo seu espaço de trabalho, com teorias que
atrapalham as velhas rotinas e convicções,
além de interromperem o vicioso jogo de se
perpetuar o estabelecido?
Nesse sentido, Piconez (1991, p.29)
aponta:
Há necessidade de se reverterem
legalmente as determinações sobre os estágios, no sentido de recuperar a sua realização, impedindo o velho teatro: alunos fingindo
que aprendem, professores fingindo que ensinam, todos aplaudindo
sem saber qual o ator da peça.As
bilheterias estão se esvaziando, e
a peça insiste em ficar em cartaz,
sem as devidas reformulações.
Como se pode supor o envolvimento
de mestres e diretores na formação de novos
professores sem nenhuma recompensa financeira ou benefício no plano de carreira?
É pedir demais ao quesito amor à arte. Existe
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
91
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
uma repetição em vários setores públicos de
se delegar ao cidadão comum a responsabilidade por mudanças, sem se comprometer
com a mínima condição para a execução
dessa tarefa e na área de Educação não é diferente. Nem se cogita a contratação de supervisores ou coordenadores de estágio para
as escolas públicas, o que poderia fazer toda
a diferença.
Segundo Andrade (2004, p.2)
Aqui surge um problema grave:
as escolas de ensino, público ou
privado, não tem sido lugar de
formação para os alunos de licenciatura nos termos em que
as diretrizes supõem. As escolas
privadas não se interessam por
estagiários supervisionados. As
escolas públicas, embora sejam a
parte principal do mercado de trabalho do profissional da educação,
não participam desse esforço de
formação com uma política que
defina, junto com as agências formadoras, o perfil do professor do
ensino básico e que ofereça espaço para os estágios de formação e,
para os professores, isso é um sobre- trabalho para o qual não foi
preparado, que exige dedicação, o
expõe à críticas e, finalmente,não
é recompensado.
Outra incoerência na lei de estágio é
a obrigatoriedade do estágio para professores com experiência em sala de aula, além da
necessidade de que o estágio seja realizado
em instituições diferentes das que já trabalham. Um disparate, pois desconsidera todo
o saber acumulado de um profissional da
educação e pressupõe que qualquer outro
profissional ou instituição escolar é melhor
que a sua própria experiência. Mas em contrapartida, esse mesmo professor é capaz de
receber estagiários e zelar por sua formação.
Essa questão é abordada no parecer
CNE/CP9/2001
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
1.1 Desconsideração do repertório de
conhecimento dos professores em formação
Aqui, o problema é o fato de o
repertório de conhecimentos prévios dos professores em formação
nem sempre ser considerado no
planejamento e desenvolvimento
das ações pedagógicas. Esse problema se apresenta de forma diferenciada. Uma delas diz respeito
aos conhecimentos que esses alunos possuem, em função de suas
experiências anteriores de vida
cotidiana e escolar. A outra forma
ocorre quando os alunos dos cursos de formação, por circunstâncias diversas, já têm experiência
como professores e, portanto, já
construíram conhecimentos profissionais na prática e, mesmo assim, estes conhecimentos acabam
não sendo considerados/tematizados em seu processo de formação. (ANDRADE, 2004, p.2)
É urgente a revisão das leis de estágio
e a retomada das discussões para que ela se
torne mais do que uma obrigatoriedade burocrática e passe a ser um dos recursos para
uma efetiva mudança educacional. A primeira medida deveria ser mudança de postura:
do governo, se comprometendo com os dois
lados da moeda, exigindo o estágio, mas
criando condições financeiras e técnicas para
que os resultados sejam bem mais amplos
do que preenchimentos de papelada inútil e
dos professores e dirigentes das escolas públicas e particulares comprometendo-se com
o projeto de se mudar o perfil da educação
brasileira. Não basta obrigar que se cumpra
uma lei que está repleta de incoerências, de
unilateralidade e baseada na boa vontade do
profissional da educação para se conseguir
resultados que vão além de um documento
bem redigido. ”Vale dizer, somente uma ação
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
conjunta entre quem forma e quem paga,
pode encaminhar a questão do profissional
da educação” (GUERRA, 1999)
2. Realidade dos Estágios
A função primordial do estágio para
alunos de graduação em pedagogia é a aproximação da teoria com a prática pedagógica,
gerando conhecimento da realidade escolar
e reflexão sobre uma prática criativa e transformadora, permitindo a reconstrução das
teorias aprendidas durante o curso. Maravilhoso no papel, mas nebuloso e caótico em
sua realidade, já que não existe o envolvimento das escolas contratantes, impossibilitando a realização daquilo que as universidades pedem, gerando descontentamento e
desconfiança em relação ao estagiário. “Havia um distanciamento muito grande entre
o que a Escola queria que o aluno fizesse e
o que realmente fazia. O que provocava uma
reação contrária ao estagiário que nunca era
bem vindo” (CAVALCANTI, 1992).
A aspiração de intercâmbio entre a
universidade e a escola fundamental através
do estágio supervisionado não se mostra eficiente, pois só assim seria, se fosse bilateral,
uma via de mão dupla, onde todos estariam
se beneficiando, sobretudo o exercício do
magistério. Nem o estagiário encontra espaço para uma formação comprometida com
um projeto político, social e pedagógico pela
democratização do saber, nem os professores
cooperantes do estágio se valem da presença
do pedagogo em formação, no auge de suas
descobertas teóricas, para utilizar esse encontro como uma troca propiciadora de formação continuada.
Na pesquisa realizada por Pimenta
para o livro O Estágio na Formação dos Professores (1993), ela transcreveu o depoimento da Profª Margarida Jardim Cavalcante,
técnica do Ministério da Educação em Habilitação para o magistério, que é um dos retratos mais fiéis da realidade do estágio.
Muitas vezes a sua participação
consistia em levar crianças ao
banheiro, à sopa. Às vezes fazia
recreio dirigido. Outras vezes auxiliar de regente de classe corrigindo cadernos e mesmo levandoos para casa!Ficava então, como
ajudante do professor, preparava
algum material didático (comprando ele mesmo cartolina, papel, etc.), pintava fichinhas para as
atividades de cálculo, colecionava
palitos de picolé.
Como esses estágios não acrescentavam nada às aulas, que, por sua
vez, já não estavam muito interessadas, instaurava-se a burla: se na
escola houvesse uma professora
que era amiga da mãe, etc., esta
conseguia as assinaturas necessárias para comprovar a realização
do estágio_ inventavam-se fichas
de observação, de participação.
E conclui: “não havia nenhum trabalho conjunto dos professores, nenhuma interdisciplinaridade, nem discussão de pólos
temáticos”.
Felizmente essa não é uma inquietação de uma minoria idealista. Vários educadores, estudiosos e órgãos do governo se
debruçam sobre a questão do estágio supervisionado e cabe reproduzir uma pesquisa
feita pela Secretaria da Educação do Paraná,
realizada durante o projeto “Avaliação Curricular de Habilitação Magistério” em 1989,
antes mesmo da elaboração da LDB, que tem
resultados totalmente pertinentes à realidade atual, conforme transcrição abaixo:
• Número insuficiente de
escolas de 1º grau (atualmente Ensino Fundamental) interessadas em
receber estagiários;
• Dificuldade de acompanhamento do estágio devido ao grande número de alunos, à diversidade
de escolas onde se estagia, e à falta de
coordenador de estágios em alguns
cursos;
• Estagiários, em sua maioria, não são bem recebidos pelos pro-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
93
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
fessores;
• Distorções nas atividades
de estágio;
• Falta de comprometimento dos professores do curso com o estágio; a responsabilidade pelo estágio
é exclusiva do professor de Didática;
• Estágio visto como “pólo
prático” do curso e como atividade
terminal:
• Dificuldade de garantir a
relação teoria/prática;
• Divisão do estágio em etapas fixas e estanques: observação,
participação e regência
• Restrição à etapa de observação, ficando o aluno apenas
como visitante;
• Transformação do estágio
em atividades burocráticas de preenchimento de fichas, correções de cadernos, etc.;
• Falta de integração entre a
escola de magistério e a escola de 1º
grau (atualmente Ensino Fundamental);
• Ausência de um plano de
estágio integrado e integrante nos diversos níveis de sua execução
Esse resultado, encontrado pela Secretaria de Educação do Estado do Paraná,
foi o mesmo encontrado por nosso grupo
para realizar o nosso estágio e provavelmente por muitos outros, embora mais de 20
anos tenham se passado.
Por quanto tempo mais deveremos
nos curvar às imposições da pedagogia de gabinete e realmente buscar a superação dessa
dissociação no estágio?
É preciso pensar num projeto coletivo de trabalho, desenvolvido
de forma articulada, de construção
de conhecimento através da ação
concreta que possibilite preparar
o futuro profissional para compreender as estruturas de ensino e os
determinantes mais profundos de
sua prática. (GUERRA, 1999)
94
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
3. EXPERIÊNCIAS INOVADORAS DE
ESTÁGIOS
A vivência do cumprimento das etapas de estágio e as discussões decorrentes sobre as dificuldades e incoerências dessa atividade, nos fez num primeiro momento, supor
sermos as únicas pessoas preocupadas com
a dissociação entre a prática e a teoria, além
de constatar a impossibilidade de se tornar
um profissional da educação capaz de contribuir para a mudança da realidade escolar,
através do estágio supervisionado. Porém,
nossas pesquisas nos revelaram um exército
de pesquisadores e estudiosos envolvidos na
questão do estágio supervisionado, concordantes ou não, mas preocupados em alterar
o quadro de precariedade na formação de
professores.
Os educadores brasileiros não
estão assistindo passivamente à
deterioração do magistério. Bem
como não estão apenas diagnosticando os problemas. Desde o
início dos anos 80 vêm gestando
um movimento de pesquisas, estudos e propostas, denunciando,
analisando e encaminhando superações. (PIMENTA 1991)
Nossa pesquisa apontou vários caminhos e tentativas de se promover estágios
integradores e formadores e foram elencados
alguns para contextualizar nossas conclusões.
3.1 Habilitação Pré-Escola E Séries
Iniciais de 1º Grau e Magistério 2º
Grau do Centro Universitário 3 Lagoas
(CEUL) sob a forma de estágio supervisionado (1995)
Essa experiência relatada e desenvolvida pela PRFª MSc Miriam Darlete Seade
Guerra é peculiar, porém não desvinculada
de um contexto social e político.Seu resultado se transformou na dissertação de mestrado da professora, dado os seus resultados.
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
A proposta de um estágio diferenciado foi feita a uma turma de alunos que
já havia superado a concepção tecnicista de
estágio e entendiam o estágio como uma unidade indissociável entre ensino e pesquisa.
Apostava na idéia do estágio como uma “via
de mão dupla.” O estagiário precisa da escola, mas ao mesmo tempo esse estagiário tem
que se perguntar qual a sua possível contribuição para a escola de ensino fundamental.
O primeiro grande passo dado em direção ao sucesso desse empreendimento foi o
acordo prévio entre os Ceul (Centro Universitário Três Lagoas. MS) e a coordenação de
estágio. Parceria essa que eliminou muitas
das dificuldades dos alunos usufruírem dos
efeitos do estágio supervisionado, propiciando oportunidade de vivenciar o cotidiano de
uma escola pública e buscar uma formação
política, através de uma informação crítica,
além de produzir saberes a respeito da prática pedagógica.
A opção metodológica assumida foi
a intenção política e pedagógica de transformações de práticas docentes e todo o seu
desenvolvimento foi formulado pelo grupo
de acadêmicos, em conjunto com o corpo docente.
Como resultado da observação da
prática, os estagiários produziram relatórios
com os dados coletados e refletindo sobre
esses dados organizaram mini-cursos para
as professoras cooperantes. Essa era a via
de mão dupla escolhida. Sem dúvida, muito
proveitosa para os acadêmicos, mas ficou o
questionamento sobre o efeito dessa atividade nos professores dos Ceuls, pois somente
depois de uma avaliação final se constatou
que em nenhum momento esses professores
mencionaram precisar ou aceitar a necessidade de uma formação complementar e continuada. Em contrapartida esses professores
descrevem outra função para os estagiários.
“... Os estagiários da Prática de ensino do 1º
grau, assim como da Pré-escola, estarão atuando como monitores dos professores, servindo com o ponto de apoio na pesquisa de
conteúdos , assim como, das metodologias.
Corrigindo cadernos, planejando e confeccionando material, num trabalho de parceria”. (doc. 7.12, proposta de ação)
A experiência acabou demonstrando
que a via de mão dupla esperada falhou em
um dos sentidos, gerando uma contradição
teórica a respeito da função do estágio. Para
que essa bilateralidade exista, é necessário
que estagiário e estágio entrem no programa
da escola e não só a sua direção, “senão acaba se assumindo que nós, que somos da universidade, temos toda a sabedoria e vamos
transmitir essa sabedoria “àqueles pobres
mortais” (GUERRA, 1999)
4.2. Estágio e Prática de Ensino de 1º
Grau, no Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Unicamp
Desenvolvido pela doutora em metodologia de ensino pela faculdade de educação da Unicamp, Vani Moreira Kenski, essa
proposta de estágio surgiu da preocupação
em relação à formação de um professor consciente de que sua prática envolve um comportamento de observação, reflexão crítica
e reorganização de suas ações. Seu ponto
de partida foi a recuperação da vivência escolar dos estagiários, através de atividades
diversas, fazendo-os mergulhar em suas memórias e a partir daí criar uma identidade
de professor, não a herdada de seus antigos
professores, mas a sua própria identidade de
mestre.
O mesmo processo foi repetido com
os professores das turmas de estágio, incluindo um pedido de que eles especulassem
como achavam que seriam lembrados pelos
seus atuais alunos.
Em seguida, os estagiários pediram
aos alunos que, anonimamente, representassem seus professores através de desenhos e
frases, deixando clara a discrepância entre a
opinião dos alunos e a suposição de imagem
dos professores.
Essa proposição de estágio baseou-se
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
95
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
em determinantes psíquicos existentes no
inconsciente e que atuam sobre o comportamento dos professores. Assim surgiu uma
nova proposta de estágio, realmente comprometida com um novo caminho teóricoprático ainda não explorado e que está se
firmando como uma das estratégias de desenvolvimento de um projeto em Estágio e
Prática de Ensino
5-Proposta Escola-escola
A pesquisa e análise dos problemas e
soluções na execução do Estágio Supervisionado para os estudantes de Pedagogia, sua
realidade, suas exigências legais e as poucas
tentativas de projetos inovadores nos encaminhou para a idealização da Escola-escola.
Nossa pesquisa aponta e não deixa
dúvidas de que o estágio é indispensável na
formação do professor competente e comprometido, assim como a formação continuada dos professores em exercício.
O estágio é o suporte essencial do
desenvolvimento da competência
técnica necessária ao futuro professor. Embora os dados de pesquisa mostrem que o estágio tem
se desenvolvido de forma “atópica”, desvinculado da Didática e do
currículo do curso de formação.
(MEDIANO, 1987).
Como vincular didática, prática, responsabilidade social e comprometimento
com a educação democrática? Como aproximar as universidades das escolas públicas e torná-las participantes do processo
de formação de perfil do profissional da
educação?Como planejar em conjunto com
as escolas públicas e particulares espaços, rotinas e planejamento pedagógico articulados
com o planejamento de estágios? Impossível!
O universo é enorme, as práticas diferenciadas e os governos se alternam e mudam parâmetros constantemente.
Grandes mudanças iniciam-se com
96
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
pequenos passos que podem se tornar definitivos e amplos se alcançar a solução de
problemas reconhecidos, porém circunstancialmente insolúveis.
A Escola-escola teria o perfil muito
parecido com o que se tem hoje nas escolas de
Aplicação das Universidades Federais, como
a Escola de Aplicação da USP, da Universidade Federal do Pará, de Pernambuco ou do
Amapá. Todas elas se destinam aos filhos
de seus funcionários e recebe os estagiários
com uma estrutura tecnicamente perfeita. O
programa de estágio da Escola de Aplicação
da USP é um programa modelo, totalmente
inserido dentro das novas proposições para o
cumprimento de estágio.
São das informações para inclusão no
programa de estágio da EAUPS as instruções
transcritas a seguir.
11 - FORMAS DE INSERÇÃO
NA ESCOLA EA USP
A inserção do estagiário na escola
pode se dar de várias formas, conforme seus interesses e possibilidades, respeitadas as normas que
regem a prática de estágios na EA.
Como orientação comum aos estagiários, propõe-se que participem
e acompanhem atividades que lhe
dêem uma visão da vida institucional da escola e que se engajem
em modalidades de ação mais específicas.
O cotidiano de uma escola não se
reduz às aulas, e a diversidade de
situações que ocorrem na instituição escolar interfere no trabalho
do professor. Por isso, é importante que todo estagiário, não só
os interessados na administração
escolar, vivencie algumas destas
situações, observando-as ou assumindo algum outro.
a) Reuniões para planejamento e
avaliação de atividades pedagógicas.
b) Reuniões para discussão de
temáticas amplas concernentes a
proposta pedagógica da escola.
c) Reuniões para avaliação do
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
aproveitamento escolar dos alunos e da prática pedagógica (Conselhos de Série).
d) Reuniões com pais.
e) Reuniões do Conselho de Escola
(Informar-se sobre o dia na Secretaria da EA).
Incluem-se nesse âmbito, o acompanhamento a atividades eventuais como estudos do meio, excursões, mostras culturais e
outras apresentações. Além de acompanhar
situações que dêem uma visão global da instituição, é importante que o estagiário se
insira em modalidades de estágio mais específicas, voltadas para as aulas regulares ou
para outros projetos desenvolvidos na escola. Aconselha-se, sempre que possível, a participação em mais de uma modalidade, para
enriquecimento da experiência.
As demais universidades citadas têm
o mesmo tipo de proposta e também estão
abertas para os alunos dos funcionários e
com campo de estágio voltado para a experimentação pedagógica dos alunos de suas
faculdades.
Já em nosso projeto, a Escola-escola
seria um campo de vivência profissional. Não
seria um privilégio para filhos de funcionários das universidades, mas um privilégio
para os filhos de famílias que buscam uma
educação de qualidade e que se comprometam com o projeto político-social da escola.
Nossa primeira meta seria a de seguir
a proposição da Profª Maria A Lequerica que
o último ano curso seja inteiramente voltado
para a prática de estágio. O aluno do último
ano do curso de Pedagogia assumiria uma
classe pelo período de um semestre, supervisionado por uma equipe estável de coordenadores de áreas e séries e no segundo semestre
se candidataria a uma vaga dentro de diversas funções de gestão e de trabalhos com a
comunidade escolar.
Seguindo o exemplo da Faculdade de
Medicina que exige um estágio curricular e
um profissionalizante, a Escola-escola propi-
ciaria o estágio profissionalizante, uma “residência” assistida por profissionais voltados
para o ensino de qualidade, compromissados
com a democratização do saber, com a formação da cidadania e a formação de profissionais competentes e prontos para entrar no
mundo da Educação com identidade de professor atuante e transformador da sociedade
brasileira.
Conclusão
Nossa pesquisa foi uma busca para
determinar o papel do estágio na formação
do professor e quanto mais nos aprofundamos no assunto, mais questionamentos
surgiram, porém muitas respostas já foram
encontradas.
Concluímos que o estágio supervisionado não consegue atingir os objetivos esperados porque não existe um compromisso
real de que ele se torne efetivo e útil. De nada
adianta o compromisso das escolas formadoras em exigir e elaborar roteiros completos
e abrangentes, nem o aluno almejar pôr em
prática as teorias aprendidas, se as escolas
contratantes não desempenharem o seu papel. Também não se pode supor que elas o
cumpram sem preparo, sem remuneração e
sem estrutura. As escolas que recebem estagiários são soberanas no êxito ou no fracasso
dos objetivos de tal empreendimento, mas
como demonstramos, através da pesquisa e
elaboração desse artigo, a prática do estágio
acabou se tornando um jogo de favores para
derrotar uma burocracia imposta por uma lei
incompleta e omissa.
Como estudantes e educadoras somos
ainda idealistas e acreditamos que a disseminação de Escolas de Aplicação seria a resposta para nossa inquietação em relação aos caminhos da educação em nosso país e assim,
ousamos mais, e idealizamos a Escola-escola.
Durante o tempo que estivemos elaborando esse artigo, a Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo) lançou o Programa de
Residência em Pedagogia, em moldes muito
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
97
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
semelhantes ao que ambicionávamos. O programa se dá por meio de um convênio entre
a Unifesp, a Prefeitura de Guarulhos e o governo do Estado.
Esse programa é a confirmação de
que nossa crença em que os estágios supervisionados se tornem um dos instrumentos
mais importantes na formação do professor
não se reduz a um mero sonho impossível.
98
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Reflexões sobre o Estágio Obrigatório para Formar Professores
Referências bibliográficas
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www.educ.ufrn.br/Arnon Acesso em: 29 março 2010
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PICONEZ, Stela C.B. A Prática de Ensino e o Estágio Supervisionado. Campinas, SP: Papirus,1991.
PIMENTA, Selma G. O Estágio na Formação do Professor: Unidade,Teoria e Prática?.São
Paulo: Cortez Editora, 1995.
MEC. Lei de diretrizes e bases da Educação Nacional nº 9394/96 Disponível em: htpp //
www.espaçoacademico.com.br/073/73silva.htm Acesso em: 29 março 2010.
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www.ea.fe.usp/br/paginas/estagios/estagios.html Acesso em: 7 set 2010.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
99
O Uso da Educação a Distância em
Ambientes Corporativos1
Crislene de Castro Oliveira
Jean Valter Caris
Ronaldo Boscolo
Marina Caprio²
RESUMO
Atualmente as empresas têm dificuldades em treinar seus funcionários para
executar suas atividades de forma eficaz. Os
maiores obstáculos para a formação dos trabalhadores são: custo e tempo. Com o objetivo de atender as demandas é analisada neste
trabalho a Educação Corporativa a Distância.
Educação à Distância é uma forma de educação em que professores e alunos estão separados espacialmente, utilizando diferentes
tecnologias de informação e comunicação,
o que requer planejamento das instituições.
Este tipo de educação ganhou destaque com
a expansão e popularização da Internet no
início do século XXI. Considera-se como
Educação Corporativa qualquer curso que
vise preparar o trabalhador de uma empresa
para executar algum tipo de função. Esperava-se alcançar resultados positivos em relação à aprendizagem e à relação custo-eficácia
para comprovar a eficiência de um curso na
modalidade à distância, quando devidamente planejado e desenvolvido, usando a intersecção entre educação e tecnologia.
Palavras-chave: educação corporativa; eduacação à distância; planejamento.
ABSTRACT
Currently companies have difficulties
in training their employees to perform their
activities effectively. The biggest obstacles
to employee training are: cost and time. Ai-
ming to meet the demands above quotations
studied in this work the Corporate Distance
Education. Distance education is a form of
education in which teachers and students
are separated spatially, but it requires planning institutions and using different technologies and information and communication.
This type of education has gained prominence with the expansion and popularization of the Internet in the early twenty-first
century. Any course that aims to prepare
the employee for a company to perform any
function can be called Corporate Education.
Using the tool developed a Moodle course,
with lectures with media resources and video lessons. We expected to achieve positive results in relation to learning and costeffective to prove the efficiency of a course
in distance mode, when properly planned
and developed with the intersection between
education and technology.
Key words: corporate education, distance education; planning.
1. Introdução
Este artigo tem como objetivo apresentar as possibilidades da aplicação da
Educação a Distância em ambientes corporativos. Mostramos as vantagens de um
treinamento nessa modalidade, com relação
ao treinamento presencial. Enfatizamos a
importância da troca de conhecimentos entre os funcionários da empresa, que acaba
influenciando na evolução do colaborador
e conseqüentemente, da corporação. Final-
¹ Artigo oriundo do Trabalho de Conclusão de Curso desenvolvido como requisito para conclusão do curso em
Licenciatura em Computação Curso de Licenciatura em Computação do Centro Universitário UniSEB-COC.
² Professora orientadora do Trabalho de Conclusão de Curso.
100
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
mente, destacamos a aplicação de um Ambiente Virtual de Aprendizagem, utilizando
a ferramenta Moodle em uma corporação,
contendo um curso básico de manutenção
preventiva de Windows e ameaças oriundas
da internet.
2. O que é Educação a Distância
2.1. Um Pouco da História da Educação a Distância
Os primeiros registros de Educação
a Distância se deram por volta de 1728, por
Caulleb Philips, que anunciava em classificados de jornais que lecionava por correspondência o curso de Taquigrafia. Em seguida,
de acordo com Nunes (2009), “por volta de
1840, na Grã Bretanha, Isaac Pitman também oferece curso de taquigrafia por correspondência”.
Essas ações isoladas culminaram
também em ações institucionalizadas. As
primeiras universidades que começaram a
se destacar na Educação a Distância foram
Open University em Londres que foi fundada
em 1969, além das Universidades abertas da
Espanha fundada em 1972 e Venezuela fundada em 1976 (NUNES, 2009).
Em 1928 a BBC (British Broadcasting Corporation), uma emissora de rádio e
televisão pública britânica promoveu cursos
para a educação de adultos, usando o rádio.
Essa tecnologia de comunicação foi usada em
vários países, com os mesmos propósitos, inclusive, no Brasil, desde 1930.
De acordo com Nunes (2009), para
suprir as necessidades educacionais após a
2º Guerra Mundial, principalmente a alfabetização, o modelo de Educação a Distância,
fundamentada nos recursos radiofônicos, foi
adotado em grande parte da Europa e Estados Unidos, onde eram e são disponibilizados cursos que vão desde alfabetização, profissionalizantes, graduação e extensão.
Na Europa a Educação a Distância
ganhou força, após o término da 2º Guerra
Mundial, pois o continente estava em ruí-
nas e precisava de mão de obra qualificada
para a sua reconstrução. Assim, a alternativa encontrada para educar massivamente a
população foi a educação intermediada pelas
tecnologias de comunicação existentes no
período.
Neste momento pós-guerra, inicia-se
a expansão da Educação a Distância, que foi
um dos principais avanços na educação no
século XX. Considera-se que a Educação a
Distância tem como objetivo atender o maior
número de pessoas com qualidade e chegar
a locais remotos, no qual o modelo de educação presencial não alcança, em razão da
distância ou problemas relacionados à infraestrutura.
Já no século XXI a Educação a Distância vem ganhando força, pois ela consegue reduzir a defasagem das classes sociais
menos favorecidas na educação. Essa inclusão se dá devido à flexibilidade de horários,
diversas opções de cursos, modelos de estudos, inclusão digital e preços acessíveis.
Com a modalidade de Educação a
Distância, atualmente com diferentes modelos pedagógicos que se fundamentam em várias mídias e recursos tecnológicos é preciso
compreender que é bem diferente dos cursos
pós Guerra Mundial. Antes os cursos eram
feitos através de correspondência ou rádio e
televisão (tecnologias disponíveis no período), além do aluno estudar por conta própria
e não ter nenhum suporte pedagógico. Atualmente e graças às tecnologias, fundamentadas principalmente pela internet, o aluno
de um curso na modalidade de Educação a
Distância, tem acesso a todo conteúdo online
através do Ambiente Virtual de Aprendizagem. Nesse ambiente é possível disponibilizar textos, vídeos, áudios, animações, chat,
fóruns de discussão com outros alunos do
mesmo curso sobre o tema abordado, além
de tutoria.
Para que um curso em Educação a
Distância tenha êxito, é importante explorar
as várias formas que a tecnologia possibilita,
como por exemplo: vídeos, imagens, áudio,
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
101
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
metodologia de aprendizagem, técnicas de
ensino, tutoria etc. “Atualmente mais de 80
países utilizam a Educação a Distância em
todos os níveis de educação, em sistema formal e não-formal” (NUNES, 2009).
Ainda que de forma tímida a Educação a Distância vem sendo utilizada em ambientes corporativos, visando capacitar seus
colaboradores para realizar suas atividades
profissionais.
2.2. Surgimento da Educação a Distância no Brasil
De acordo com Alves (2009), há registros que no ano de 1900 professores particulares ofereciam cursos profissionalizantes
de datilografia por correspondência. Mas foi
só em 1923 que essa modalidade de educação se tornou mais sólida com a fundação da
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que tinha
como objetivo ensinar seus ouvintes através
da sua programação.
Mas o rádio despertou a preocupação
dos governantes daquela época, pois consideravam o seu conteúdo subversivo. Por
conta disso o governo tomou várias medidas,
visando dificultar o funcionamento da rádio.
Já no ano de 1937 foi criado o serviço
de Radiodifusão Educativa do Ministério da
Educação. Através desse serviço, surgiram
vários programas de Educação a Distância.
“O Mobral, Movimento Brasileiro de Alfabetização, programa de alfabetização vinculado
ao governo federal, também teve uma grande
abrangência, pois utilizava o rádio” (ALVES,
2009).
“Com o golpe militar em 1969, teve
início a censura. E isto foi um grande golpe
para a Educação a Distância no Brasil que ficou estagnada desde a década de 70, voltando a ganhar espaço no início do século XXI”
(ALVES, 2009).
Conforme foi dito anteriormente a
ditadura no Brasil, fez com que a Educação
a Distância ficasse estagnada até o início do
século XXI. O avanço da internet no Brasil,
102
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
com a popularização da banda larga contribuiu para a consolidação da Educação a Distância no país.
Porém, ainda existem alguns pontos
que precisam ser superados e um dos principais para que aconteça sua expansão, é o
alto custo de transmissão para fins sociais.
No Brasil é cobrada a mesma taxa para quem
faz uso da Internet para fins educacionais ou
para acessar conteúdos impróprios na rede.
No processo de Educação a Distância
no Brasil tivemos instituições que desempenharam um papel importante no desenvolvimento desse modelo de educação. Podemos
dividir a história da Educação a Distância no
Brasil em três fases:
Inicialmente com o surgimento das
escolas internacionais em 1904, e o surgimento em 1923 da Rádio Sociedade do Rio
de Janeiro.
Já na fase intermediária, tivemos
duas instituições importantes na área de cursos profissionalizantes o Instituto Monitor
e o Instituto Universal Brasileiro. Quanto à
parte universitária podemos citar a Universidade de Brasília.
Na fase moderna, não podemos deixar de citar três organizações: ABT (Associação Brasileira de Teleducação), IPAE e ABED
(Associação Brasileira de Ensino a Distância). Até o ano de 2008 o Brasil contava com
175 instituições credenciadas pelo governo
federal para ministrar cursos de graduação
e pós-graduação lato sensu. Havia também
por volta de 100 instituições que atuam na
educação básica, com atos de permissão expedidos pelos sistemas de ensino dos estados
e do distrito federal.
“Além disso, há um número significativo de cursos livres e programas de capacitação de funcionários, denominado universidade corporativa”. (ALVES, 2009).
Segundo a ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância) no ano de
2010 há 2.100 instituições que utilizam a
Educação a Distância em sua metodologia de
aprendizagem.
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
3. O Uso Da Tecnologia Na Educação
Segundo o dicionário Aurélio, educação diz respeito ao “processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e
moral da criança e do ser humano em geral,
visando a sua melhor integração individual
e social.” Para que ocorra essa integração, é
necessário que se utilize a educação para ensinar sobre a tecnologia constante na base da
identidade e da ação do grupo e que se usufrua delas, para ensinar as bases da educação. Porém, para serem utilizadas pelas pessoas, além do seu criador, deve ser ensinada
a forma de utilização da inovação, seja ela – a
tecnologia, um tipo novo de processo, produto, serviço ou comportamento.
A partir do momento em que somos
informados sobre a inovação, ela se incorpora ao nosso universo de conhecimentos e habilidades e a utilizamos na medida de nossas
possibilidades e necessidades.
Para McLuhan (1970), teórico da
comunicação, “as tecnologias tornam-se
invisíveis à medida que se tornam mais familiares”. Podemos verificar que existe uma
relação direta entre educação e tecnologia,
pois muitas pessoas que passaram por processo de inovações em suas vidas, hoje não
conseguem mais viver sem elas. E o processo
educativo segue essa tendência, em que são
constantemente utilizadas as tecnologias em
todos os momentos do processo pedagógico,
desde o planejamento das disciplinas, a elaboração da proposta curricular, até a certificação dos alunos que concluíram o curso.
A utilização da tecnologia pode influenciar na maneira de organizar o ensino.
Um exemplo é o ensino de um idioma na modalidade à distância, baseando-se em livros
didáticos e na pronuncia da professora em
aulas expositivas. Ela será mais bem aproveitada, se realizada com apoio docente, com
possibilidade de diálogos, conversas e troca
de comunicações entre os alunos, o uso de
vídeos e laboratórios interativos.
A escolha de determinada tecnolo-
gia, altera consideravelmente a natureza do
processo educacional. Uma aula dada em
anfiteatro, com a sala cheia de alunos, exige
alguns recursos tecnológicos, como microfones, projetores, etc., a aula pode se tornar
cansativa e desinteressante para os alunos,
se esses recursos tecnológicos não estiverem
sendo utilizados.
As novas tecnologias de informação
e de comunicação, sobretudo a televisão e
o computador, criaram um grande impacto
na educação alterando as medições entre a
abordagem do professor, a compreensão do
aluno e o conteúdo veiculado. “A tecnologia
utilizada em forma de imagem, som e movimento, se dão de forma mais realista ao que
está sendo ensinado, e se bem utilizadas, os
professores e alunos demonstram obter uma
melhor qualidade no conhecimento passado
e adquirido” (KENSKI, 2007).
Os vídeos, os programas educativos
na televisão e no computador, os sites educacionais e softwares diferenciados transformam a aula tradicional, dinamizando o espaço de ensino-aprendizagem, onde, há pouco
tempo atrás, predominava a lousa, o giz, o
livro e a voz do professor. Porém, não basta
utilizar a televisão ou o computador.
De acordo com Kenski (2007),
É preciso saber usá-los de forma
pedagogicamente correta, aplicando a motivação para a aprendizagem e adequando o processo
educacional aos objetivos que
levarão os usuários ao encontro
desse desafio de aprender, sendo
essas as diferenças qualitativas do
uso das tecnologias [...]
Destaca-se assim que nenhum recurso em si é educativo ou pedagógico, mas sim
o uso que professores e instituições educacionais fazem da tecnologia é que pode ser
pedagógico.
O avanço das redes digitais, por meio
da internet, permite uma interação entre profissionais de várias áreas de conhecimento,
trazendo novas possibilidades para o apren-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
103
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
dizado. Porém, com a amplitude do mercado
de trabalho e a subjetividade de cada profissional em busca de conhecimentos em sua
área específica, se torna mais difícil a criação
de um curso que consiga atender a todos os
requisitos particulares. Ainda assim, as experiências virtuais podem ser compartilhadas
por várias pessoas ao mesmo tempo, mesmo
que estejam em locais diferentes. Isso é possível através das tecnologias digitais, como
simulações, tele-presença, realidade virtual e
inteligência artificial.
Ainda para kenski (2007),
Com toda a interação de informações entre profissionais e usuários,
o sistema educacional evidência a
necessidade de uma reformulação na sua estrutura, que deverá
ser mais flexível e acontecer de
maneira horizontal, procurando
atender às necessidades particulares de cada profissional [...].
Dentre todas as vantagem e facilidades apresentadas com uso das tecnologias,
elas não se resumem apenas em maravilhas,
vendo que as ferramentas tecnológicas surgiram para possibilitar a melhoria no processo
educacional, temos que estar cientes aos cuidados que precisamos tomar. Cada vez mais
nos tornamos “dependentes” de equipamentos que estão sujeitos a problemas técnicos
que causam a perda de dados e horas de trabalho. Independente dos problemas técnicos
existe também os problemas dos softwares
que não atendem ou não são adequados às
necessidades dos usuários e instituições,
além do alto investimento. Há o lado, também da internet que possibilita a facilidade
de cópias de pesquisas, compra e venda de
trabalhos escolares prontos, permite que o
aluno se distraia com conteúdos não pertinentes ao assunto abordado na sala de aula.
Já não sendo suficientes as dificuldades citadas acima, há os casos em que os
erros vêm por parte dos mantenedores dos
cursos. Não basta conhecer a tecnologia a ser
utilizada. É extremamente importante, que o
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
profissional saiba como utilizá-la de maneira
correta. Conforme afirma Kenski (2007), em
geral ocorrem problemas no uso das tecnologias na educação porque as pessoas que estão
envolvidas no processo de sua utilização com
fins educacionais não consideram a complexidade que esta envolve. Assim, é importante
considerarmos o uso da tecnologia em sua
forma adequada, mas é muito importante
também, nos atentarmos a parte pedagógica.
Essa relação, tecnologia pedagogia, pode determinar o sucesso ou o fracasso de um curso
a distância. Muitos profissionais da tecnologia se dispõem a criar cursos de Educação a
Distância, se esquecendo das exigências pedagógicas que um curso necessita.
Os docentes têm uma ampla fonte de
recursos dentro da tecnologia para ensinar, e
cada um precisa se adequar para poder utilizar esses recursos a fim de propiciar uma
melhor educação para seus alunos.
Com a integração da tecnologia e o
ensino, não podemos esquecer que a qualidade é fundamental. Os docentes devem atingir
o objetivo de aplicar as diversas áreas de conhecimentos aos seus alunos, levando estes
para uma formação integral na vida pessoal,
social e profissional. Esta é a educação de
qualidade, no qual deve ter bases inovadoras,
dinâmicas, com projeto pedagógico coerente, aberto, participativo, com infra-estrutura
adequada e tecnologias acessíveis. Deve haver também, docentes com características de
qualidade e alunos motivados e preparados
para adquirir esta educação.
Com todas as mudanças que precisam ser feitas para uma constante melhora
na educação, nos deparamos com muitas
dificuldades. Nem todos estão aptos a aceitar suas mudanças ou ajudar a melhorar a
educação, principalmente porque a teoria e
a prática não estão integradas. Também, dependem dos alunos que precisam estar abertos as mudanças para facilitar todo processo.
Essas mudanças podem facilitar os caminhos
para a aprendizagem, tendo uma ligação direta em seu sucesso. E a aprendizagem se
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
dá de muitas formas e meios, sendo vasto o
campo do aprender, podendo ser por: experiências, vivências, relacionamentos, interação
com o mundo, interesse, necessidade, desejo, motivação, prazer, teoria e prática, dentre
outros.
Com as inovações da Educação a Distância e sua transição, a concepção de individual está se transformando em mais participativa e em grupos. Da comunicação off-line
para a off e on-line. Utilizando mídias interativas. “Haverá combinações de cursos
presenciais e virtuais. Porém essas mudanças são lentas e é recebida com resistência
por muitas pessoas” (MORAN; MASETTO;
BEHRENS, 2007). A comodidade e o costume são peças importantes para a resistência
às mudanças.
Antes de a criança ingressar na vida
escolar, ela já passou por processos de educação, por intermédio dos familiares e mídias eletrônicas. Sendo que essas mídias têm
um grande poder para entreter e passar informações de forma clara ou subliminar para
cada um, como é o caso da TV, no qual ela
facilmente seduz com falas e imagens envolventes a fim de prender a total atenção do
espectador. A educação precisa compreender
e incorporar essas informações para incentivar e estimular a aprendizagem. Tanto a TV
como o vídeo traz grandes oportunidades
para o desenvolvimento do aluno, e deve ser
utilizado coerentemente com que se deve ser
ensinado e se será realmente aprendido pelos alunos.
A internet, também, sendo uma das
principais protagonista do uso das Tecnologias de Informação e Comunicação dentro
da educação, trás grandes possibilidades de
aprendizagem no meio acadêmico, tendo
visto um aumento significativo de pessoas
conectadas, pode-se fazê-la uma extensão da
sala de aula. O professor tem a possibilidade
de criar uma relação presencial e virtual com
seus alunos, utilizando ferramentas voltadas
para esse fim na educação. As aulas, discussões e pesquisas virtuais estão cada vez mais
presentes nas escolas e são adotados alguns
recursos tais como: Lista eletrônica ou fórum, em que a comunicação e interação entre
professor-aluno e aluno-aluno se dão de forma rica para orientação, dúvidas, discussões,
trabalhos.
Autores como Moran, Massetto,
Behrens (2007) afirmam que
As aulas-pesquisa são uma forma
de adquirir conhecimento pela
própria experiência tornando-a
muito mais definitiva, sendo que o
professor sugere, coordena e dirige pesquisas dos alunos fazendo a
interação entre eles e seus resultados, usando a internet como fonte, a descoberta do conhecimento
pela pesquisa se dá de uma forma
muita mais interessante [...].
Já a construção cooperativa traz a
vantagem de combinar o que se faz na sala de
aula e com o que pode ser feito virtualmente
entre alunos e professor. “O conhecimento quebra a barreira do espaço e do tempo
e pode envolver todos de forma cooperada
em um meio na internet para a interação
do conhecimento” (MORAN; MASETTO;
BEHRENS, 2007).
Antes de tudo deve-se tornar possível
o acesso freqüente dos professores na internet. As escolas menos favorecidas precisam
ter disponibilidade da tecnologia adequada
para que o professor ingresse nessa tecnologia educacional. Além disto, o professor deve
ser capacitado para a utilização da tecnologia, e isso se deve de forma gradativa, tendo
níveis básicos, avançados e por fim auxiliar a
utilização da ferramenta para pesquisas.
A utilização da internet coloca ao professor questões de bom senso, em que ele
saiba selecionar conteúdos. Ter intuição, em
que através da experiência de acerto e erro
ele traça caminhos que pode levá-lo ao seu
objetivo. E o gosto estético, em que ajuda
para a adesão e o interesse dos alunos.
Com tantas informações e páginas
visualmente distintas, os alunos acabam fo-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
cando seu interesse naquelas que lhes agradam visualmente, e podem deixar de fora
conteúdos importantes pelo seu visual menos atrativo. Contudo, a internet pode trazer vários problemas no ensino. Temos que
filtrar a informação para ela se tornar fonte
de conhecimento, e esse trabalho cabe ao
professor. O mesmo também deve se atentar
para a dispersão dos alunos, que pode haver
no trabalho com a internet, já que há aqueles
menos motivados e ativos para o desenvolvimento do conhecimento.
4. A Educação a Distância no Ambiente Corporativo
4.1. Universidades Corporativas
A partir da década de 80, as empresas
perceberam que muitos dos paradigmas que
sustentaram a era industrial haviam chegado
ao fim. Então foi observado que o treinamento e desenvolvimento (T&D) não eram mais
suficientes para a formação de talentos humanos. Com isso surgiu o termo educação
corporativa, por meio das universidades corporativas.
Para Bayama (2004, p.25),
A educação corporativa constituiu um avanço em relação aos
tradicionais programas de treinamento em que busca desenvolver
competências em sintonia com as
estratégias das empresas. Seu foco
reside na organização que aprende, que estimula o aprendizado,
principalmente, no que se refere
às competências essenciais da empresa [...]
Mesmo com o advento das universidades corporativas, o treinamento e desenvolvimento ainda são necessários para as
empresas. A principal diferença entre universidades corporativas e treinamento e desenvolvimento é que as universidades corporativas têm uma postura comprometida com
a educação continuada e firmemente arrai-
106
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
gada aos objetivos de negócios da empresa.
Já o treinamento e desenvolvimento são utilizados de maneira corretiva e utilizado fora
do contexto das necessidades das empresas e
colaboradores.
Outra diferença é que as empresas
que adotam as universidades corporativas
procuram fornecer aos seus colaboradores
conhecimentos amplos e beneficiados por
todos os elementos que compõem o sistema
social, econômico e político vigente. Assim
tem-se a possibilidade de que todos compartilhem de uma visão estratégica mais ampla
sobre o contexto de negócios da empresa.
Conforme a empregabilidade passou
a requerer novos padrões, tornaram-se imprescindíveis as ações que visassem a aquisição de conhecimentos para: aprender a se
comunicar e a colaborar; utilizar o raciocínio
criativo; lidar com as tecnologias; exercer liderança e promover o autogerenciamento da
carreira. No entanto ainda são raros os casos
de escolas de nível básico ou superior, que se
preocupam com a ligação entre seus currículos e o mercado de trabalho.
As empresas notaram que era preciso
investir em algo mais sólido, a partir disso
criou-se o conceito de competências essenciais.
Competências essenciais é um conjunto de conhecimentos, habilidades, atitudes que suportam e justificam um alto
desempenho, ou seja, estamos falando de
atributos humanos.
O e-learning surgiu no momento em
que as habilidades humanas passaram a ser
consideradas como sustentação e diferencial
estratégico das empresas.
Então foi modificado o cenário. A
concorrência entre as empresas deixou de
acontecer nos quesitos preço versus desempenho do produto e passou a focar em desenvolver produtos a custos mais baixos versus
menor tempo que a concorrência. Com isso
o mercado de gestão de pessoas, especificamente na área de educação empresarial teve
um aumento significativo, na segunda me-
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
tade da década de 90, bem diferente da primeira metade do mesmo período em que os
investimentos ficaram estagnados por volta
de US$ 55 bilhões de dólares no ano.
A globalização que podemos resumir
em encurtamento das distâncias, entre seus
muitos efeitos, propiciou uma competitividade entre as empresas e indivíduos nunca
vista. E a tecnologia que antes era de difícil
acesso, passou a estar ao alcance de todos,
desde que se possa pagar por ela.
Em condições iguais de tecnologia,
sobreviverá aquele que detiver o conhecimento e for mais competente, os quais são
recursos oriundos dos seres humanos.
4.2. Educação Corporativa: Presencial
Ou A Distância?
A educação corporativa e Educação
a Distância possuem relações muito estreitas. O percentual de crescimento de ambas
as modalidades são semelhantes. É nas empresas que a Educação a Distância encontrou
espaço para seu crescimento, por sua vez por
intermédio da Educação a Distância que a
educação corporativa encontrou condições
para sua expansão. Atendendo muito mais
pessoas do que seria possível se os processos educacionais fossem presenciais. Apesar
do crescimento que a Educação a Distância
vem alcançando nos campos acadêmicos e
escolares, são nas empresas que as grandes
mudanças e saltos qualitativos encontram os
campos mais férteis.
As duas últimas décadas foram importantes para o fortalecimento dessa relação, em virtude do crescimento da educação
on-line. Nesse contexto o avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação foi fundamental. Analisar o quanto as tecnologias e
as mídias que elas transportam influenciam
a educação sempre foi importante, uma vez
que as invenções humanas transformam os
métodos, os conteúdos e as metodologias por
ela utilizados. Hoje as Tecnologias de Informação e Comunicação trazem à tona uma
possibilidade de que comunicação, diálogo
e a troca possam efetivamente fazer parte
dos processos educacionais, o que implica a
necessidade de reavaliar o papel das instituições educacionais.
As tecnologias de informação e comunicação cada vez mais, fazem com que a
distinção entre ensino presencial e a distância desapareça. Exemplo dessa constatação é
que em ambas as modalidades são adotadas
práticas comuns a modalidade oposta.
O novo contexto educacional, seja ele
formal ou empresarial, é impulsionado pela
digitalização, que por ser inovadora faz com
que as práticas pedagógicas sejam repensadas, pois o conhecimento e aprendizagem
acontecem o tempo todo. Nesse novo contexto as Tecnologias de Informação e Comunicação, com destaque a Internet passa a ser
uma base estruturante para a produção coletiva do conhecimento. Temos como exemplo
as salas de bate-papo, fóruns, bibliotecas virtuais, glossários e simulações que permitem
aos estudantes configurar e gerenciar sua
busca pela informação e a transformação em
conhecimento.
Adotar as Tecnologias de Informação e Comunicação não significa obrigatoriamente a adoção da Internet. Os gestores
das Universidades Corporativas sabem dessas possibilidades e as exploram de diversas
maneiras. Tendo em vista que 90 por cento
das Universidades Corporativas utilizam
material impresso em seus cursos. Portanto, mediante a tantos recursos disponíveis,
escolher as Tecnologias de Informação e Comunicação que serão adotadas faz parte do
planejamento estratégico das Universidades
Corporativas.
As redes constituídas pela Internet
e seu aprimoramento por meio da convergência digital de mídias e Tecnologias de
Informação e Comunicação fazem da Web
uma nova fronteira, onde novas demandas
surgem constantemente. O e-learning é o
maior desafio para a educação, pois requer
uma nova forma de pensar a pedagogia e a
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
107
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
criação de condições para que a virtualização
possa ser utilizada corretamente, permitindo
a criação de ambientes nos quais a aprendizagem e a liberdade de escolha por parte daquele que aprende sejam o grande foco.
Os termos Educação on-line, Educação a Distância e e-learning são utilizados
como sinônimos. Mas há diferenças conceituais que não podem ser ignoradas, conforme Almeida (apud PADRO e VALENTE,
2003, p. 239):
... a Educação a Distância pode
se realizar pelo uso de diferentes
meios (correspondência postal ou
eletrônica, rádio, televisão, telefone, fax, computador, Internet
etc.), técnicas que possibilitem a
comunicação e abordagens educacionais; baseia-se tanto na noção
de distância física entre o aluno e
o professor como na flexibilidade
do tempo e na localização do aluno em qualquer espaço (...). Educação on-line é uma modalidade
de Educação a Distância realizada
via Internet, cuja comunicação
ocorre de formas sincrônicas ou
assincrônicas. Tanto pode utilizar
a Internet para distribuir rapidamente as informações como pode
fazer uso da interatividade propiciada pela Internet para concretizar a interação entre as pessoas,
cuja comunicação pode se dar de
acordo com as distintas modalidades comunicativas.
Segundo Rosenberg (2002, p. 25),
“e-learning refere-se à utilização das tecnologias da Internet para fornecer um conjunto
de soluções que melhoram o conhecimento e
o desempenho”.
Para Almeida (2003, p. 239), os ambientes virtuais de aprendizagem são:
... sistemas computacionais disponíveis na Internet destinados
ao suporte de atividades mediadas
pelas tecnologias de informação e
comunicação. Permitem integrar
várias mídias, linguagens e recursos, apresentar informações de
108
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
maneira organizada, desenvolver
interações entre pessoas e objetos
de conhecimento, elaborar e socializar produções tendo em vista
atingir determinados objetivos.
O que distingue os Ambientes Virtuais de Aprendizagem de outros sistemas, é a
forma como organiza e faz a gestão de ferramentas existentes, pois sua essência reside
em inúmeras características pedagógicas.
Seu objetivo é permitir que processos de
ensino-aprendizagem se processem não apenas por meio da interatividade, mas, principalmente pela interação, privilegiando a
construção e reconstrução do conhecimento,
a autoria, a produção de conhecimento em
colaboração com os pares e a aprendizagem
significativa do aluno.
Os Ambientes Virtuais de Aprendizagem estão fortalecendo e ampliando as
melhores práticas nas Universidades Corporativas.
Os benefícios oriundos do e-learning
são: cursos on-line e disponibilizados em
Ambientes Virtuais de Aprendizagem quando devidamente elaborados, aguçam a curiosidade e o desejo de saber mais, facilitando
assim a pesquisa, o autodesenvolvimento e
o comprometimento com os objetivos dos
programas; a prática por meio da simulação
aumenta a capacidade perceptiva, diminuindo as margens de erro na prática cotidiana; o
aprendizado em grupo e a gestão do conhecimento diminuem barreiras, aproximam as
pessoas e abrem caminhos para a busca de
soluções.
Vale salientar que a possibilidade do
feedback diminui as eventuais barreiras causadas pela distância e pelo tempo.
5. Educação A Distância e as Tecnologias de Informação e Comunicação
Como vimos anteriormente e ainda
de acordo com Cardoso (2001), “a Educação a Distância, pressupõe a separação física
entre o aluno e seu professor, em tempo ou
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
espaço”. Suas características são: baixo custo de investimento e o processo educacional
centrado no aluno.
Autores como Nova e Alves (2003,
p.3), conceituaram a Educação a Distância
como sendo “uma das modalidades de ensino-aprendizagem, possibilitada pela mediação dos suportes tecnológicos digitais e de
rede, seja esta inserida em sistemas de ensino presenciais, mistos ou completamente
realizada por meio da distância física.”
O conceito de Educação a Distância
está sendo transformado pelas Tecnologias
de Informação e Comunicação, pois as suas
introduções em programas de Educação a
Distância e o avanço em pesquisas sobre o
uso desses recursos contribuem a cada dia
para que haja uma superação da distância e
do tempo, tornando um processo educacional sem distância. O uso de Ambientes Virtuais de Aprendizagem é um exemplo disso,
pois permitem atividades síncronas e assíncronas. As atividades síncronas são vantajosas pelo fato de permitir o contato instantâneo, com ferramentas como chat, onde os
alunos podem interagir e discutir em grupos
com a mediação do tutor. Outra vantagem
dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem é
a capacidade de armazenamento de diálogos e atividades em seu banco de dados. O
avanço da tecnologia possibilitou a criação
de um histórico nesses bancos de dados em
Ambientes Virtuais de Aprendizagem e processos de aprendizagem, o que não era possível no início da sua criação, pois não coletava
e armazenava as informações nele contidas.
Os registros ali armazenados auxiliam
nas informações para pesquisas posteriores,
revisão de estratégias de aprendizagem e feedback. De acordo com essas vantagens, as
empresas passam por mudanças em seus
programas de Educação Corporativa (EC),
beneficiando-se cada vez mais.
As práticas educativas à distância
avançam a cada inclusão de uma nova solução tecnológica. A Educação a Distância
obteve formas de interação e superação de
barreiras, desde o telefone até a internet,
aperfeiçoou a entrega de conteúdos e possibilitou maior interatividade entre os membros
de comunidades de aprendizagem. Essas tecnologias possibilitaram o auxílio nas práticas
interativas de aprendizagem e permitem o
registro de aulas, como por exemplo. A videoconferência e a teleconferência.
Essas tecnologias possibilitaram
também, um feedback entre alunos, tutores e equipes pedagógicas, permitindo uma
integração maior de cada segmento e a estruturação do material didático e do planejamento de ensino. As Tecnologias de Informação e Comunicação ainda permitem que
o Designer Instrucional³ (DI) de um curso
adote novas soluções e novas rotas no transcorrer do processo. Filatro (2003) denomina de “Design Instrucional Contextualizado
(DIC)”. Ainda Filatro (2003, p. 19) diz que o
DIC
... não dispensa a identificação de
necessidades de aprendizagem, a
definição de objetivos instrucionais, a caracterização de alunos,
o levantamento de restrições que
fazem parte do modelo tradicional de design instrucional. No
entanto, essas atividades não são
realizadas a priori ou de modo definitivo, mas estabelecem um foco
inicial para posterior aprimoramento; [...]
A partir das Tecnologias de Informação e Comunicação, é notória a transformação do ponto de vista dos cursos à distância e
ao mesmo tempo, a transformação comunicacional entre alunos, professores/tutores e
equipe pedagógica em ambientes interativos.
Silva (2002) define a interatividade
como mais “comunicacional, em que as relações entre receptor e emissor saem do padrão linear unidirecional deslocando-se para
um padrão bidimensional”. A relevância do
conceito de interatividade está na quebra do
³ ”Designer Instrucional” é um especialista em didática e linguagem para Educação a Distância, responsável por qualquer modificação no conteúdo a fim de facilitar o entendimento por parte do aluno.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
109
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
paradigma comunicacional, onde o receptor
recebia mensagens sem possibilidade de manipulação/alteração da mesma. Ao contrário
disso, em uma situação de comunicação interativa, todos podem ser emissores e receptores, podendo manipular, modificar, intervir
e transformar a mensagem, possibilitando a
participação concreta.
A interatividade na Educação a Distância trouxe reflexões consideradas enriquecedoras, pois o processo educacional em
Ambiente Virtual de Aprendizagem pode ser
interativo, propondo a participação ativa,
além de textos e leituras. O aluno tem autonomia para traçar seu próprio percurso de
aprendizagem, realizando pesquisas, modificando conteúdos, tornando-os mais atrativos. A interatividade deve ser estimulada.
Um projeto em Educação a Distância pode
acontecer com diálogo, espaço para troca de
informações, críticas, sugestões e confrontos.
“No espaço corporativo, a interatividade auxilia no desenvolvimento de uma
aprendizagem organizacional pautada na
participação coletiva da construção do conhecimento, em que os membros da comunidade dialogam e compõem estratégias e metas para ações pontuais”. (CARDOSO, 2001)
6. Educação a Distância: um Recurso
Estratégico da Educação Corporativa
De acordo com Ricardo (2005),
Empresas de médio e de grande
porte, objetivando melhores resultados na formação/ (re) qualificação de seus colaboradores/
funcionários
e
fornecedores,
implantaram programas de Educação a Distância associados às
Tecnologias de Informação e Comunicação. Exemplo disto são
empresas como: Embratel, Petrobras, CAIXA, Banco do Brasil,
Vale e Banco Santander; [...].
Com a existência de escolas corporativas virtuais, as empresas lançam suas estra-
110
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
tégias e cultura com maior agilidade e os seus
trabalhadores lidam com o mundo digital no
seu dia-a-dia, obtendo uma aprendizagem
contínua, adaptada à realidade e urgência de
atualização.
Para Ricardo (2005),
Os programas de Educação a Distância baseados nas Tecnologias
de Informação e Comunicação
favorecem: a formação de redes
de conhecimento; a troca colaborativa entre seus usuários; a
distribuição de conteúdos a um
número maior de participantes;
alcance territorial em diferentes pontos; maior possibilidade
de interatividade; auto-gestão
do estudo e controle do próprio
ritmo de aprendizagem. Outras
vantagens na oferta de cursos a
distância são destacados por Silva
e Zabot (2002), como: a diminuição do afastamento do servidor
no horário de expediente; acesso
ao quadro de professores numa
dimensão maior do que o ensino
presencial e otimização da difusão
da cultura de aprendizagem na
corporação; [...].
A Educação corporativa em Educação a Distância, além de compor seu próprio banco de conteúdos e possuir melhor
desempenho mercadológico, possui outras
vantagens como: redução de custos com deslocamentos e estadias desnecessárias de seus
colaboradores, desenvolvimento tecnológico, colaboradores mais flexivos e adaptados
ao ambiente tecnológico.
Percebemos que as escolas e universidades corporativas lucram com a oferta de
cursos a distância, porém, para estruturar
um bom projeto de Educação a Distância baseado em TIC, devemos iniciar o projeto com
um estudo da sua real necessidade e viabilidade, compor uma boa equipe de produção
e capacitá-los para que realizem um bom
planejamento e seleção adequada de recursos tecnológicos. Muitas vezes, um projeto de
Educação a Distância requisita um planeja-
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
mento minucioso e cuidadoso, devido às suas
peculiaridades.
Ainda para Ricardo (2005), algumas
ações para a implementação de um programa de Educação a Distância são: análise e
diagnóstico da necessidade de um programa
de Educação a Distância na corporação; estudo da viabilidade técnica e orçamentária
de implementação; adequação dos objetivos
do projeto às diretrizes estratégicas da corporação; seleção dos recursos humanos para
composição de equipe de produção; divisão
das tarefas da equipe de acordo com as competências e habilidades de cada um; capacitação da equipe de produção; planejamento
das ações da equipe; escolha dos recursos
tecnológicos a serem adotados pela Universidades Corporativas; [...]
As ações acima elencadas permitem
uma base sólida à estruturação de um projeto de Educação a Distância, permitindo que
a empresa tenha autonomia e gerenciamento
das suas práticas de aprendizagem. Porém,
a composição da equipe de produção que
no início é multidisciplinar e atua de forma
integrada é quem marca o diferencial competitivo da empresa, pois é a equipe que irá
estruturar os cursos da empresa, selecionar
fornecedores, viabilizar a logística do curso.
Apesar de cada um ter seu papel e função, o
objetivo da equipe é trabalhar compartilhando as responsabilidades para que colham
frutos de uma autoria coletiva.
A equipe deve conter pessoas com
conhecimentos em Educação a Distância,
diversos tipos de mídia, educadores com
prática em educação de adultos (andragogia), precisam conhecer a cultura da empresa, estratégias de ação e expectativas. De
acordo com Ricardo (2005), uma equipe de
produção deve contar com uma composição
mínima, envolvendo: Gestor do projeto; Especialista em desenho pedagógico (design
instrucional); Webdesigner; Programador
web; Revisor gramatical; Revisor pedagógico; [...]. Além de pessoas com tais funções,
a equipe deve conter um pedagogo. Existem
casos em que esses são substituídos por um
programador web ou por um administrador,
que conhecem a área de atuação, mas não
possuem um quadro teórico da educação, o
que é fundamental.
7. Estratégias para Desenvolvimento
de um Curso a Distância em uma Empresa
Em Agosto de 2010, decidimos aplicar um programa de capacitação utilizando o
Moodle, e então buscamos uma empresa com
o perfil desejado para a aplicação de um treinamento básico em segurança e manutenção
preventiva de computadores com o sistema
operacional Windows XP. Em seguida, escolhemos o conteúdo que deveria ser aplicado
no curso, tendo como escopo dois módulos,
sendo um de segurança, onde existiriam textos e vídeos explicando ameaças encontradas
no mundo da informática, vídeos explicativos
sobre como utilizar programas para remover
itens maliciosos do computador e posteriormente, exercícios para fixar o conteúdo. O
segundo módulo seria sobre manutenção do
Windows XP, com vídeos explicativos ensinando a usar programas que melhoram o
desempenho do sistema operacional e exercícios para fixar o conteúdo.
O próximo passo foi marcar uma reunião com o responsável pela empresa, doravante denominaremos de empresa X, foi
proposto o programa de capacitação para
seus funcionários. Explicamos os temas
abordados assuntos sobre a funcionalidade
do programa de capacitação. Explicamos que
a proposta do curso é totalmente online, com
conteúdos teóricos, vídeos explicativos e avaliações dos módulos. Esclarecemos também,
que o programa de capacitação não haveria
custos para a empresa e que tínhamos o propósito de avaliar a aplicação do curso online,
para fins acadêmicos. Ao final da reunião,
após todas as dúvidas esclarecidas, o responsável pela empresa X aceitou a proposta e delegou poderes a um funcionário do departa-
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
111
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
mento administrativo para tratar de todos os
assuntos que fossem necessários para o bom
andamento da capacitação. A partir deste
momento, deu-se início ao desenvolvimento
do programa de capacitação através do questionário elaborado para tomarmos ciência
sobre o grau de conhecimento técnico que
os funcionários possuíam e a partir das informações coletadas, aplicarmos o conteúdo.
7.1. O Moodle
Segundo Nardin, Oliveira e Bastos
(2009 apud DOUGIAMAS e TAYLOR et al,
2002),
A ferramenta Moodle, é uma ferramenta construtivista, desenvolvida por Dougiamas (2001), para
servir de ambiente virtual para a
aprendizagem colaborativa, pois
apresenta uma perspectiva construtivista. Ele foi desenhado para
promover a integração entre pessoas interessadas em desenvolver
ambientes de aprendizagem centrados no aluno; [...]
O Moodle é um ambiente dinâmico
que possui recursos para disponibilizar os
materiais didáticos em formato de texto, imagens, vídeos, simulações, páginas web, etc.
Também possui funcionalidade para fóruns,
chat, tarefas e wikis; e aceita objetos unificados, por meio de conteúdos Web, agregados
com o padrão dos objetos de aprendizagem,
como páginas, gráficos, programas, apresentações.
Os aspectos pedagógicos, em acordo
com a metodologia construtivista, destaca
que o docente deve se concentrar sobre experiências significativas para a aprendizagem
do aluno, ao invés de apenas avaliar a informação que julgam que eles devem saber.
Já os aspectos tecnológicos defendem a capacidade da mídia para o aumento
da aprendizagem no ambiente. O Ambiente
Virtual de Aprendizagem deve oferecer uma
estrutura de módulos que possibilitam con-
112
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
trolar a apresentação do material. Deve ser
possível também, monitorar e disponibilizar
o histórico das páginas visitadas e permitir
que sejam adicionados aplicativos para atender as necessidades individuais e coletivas.
São destacados por Antonenko et al.
(2004) os aspectos culturais que envolvem
as comunidades de aprendizagens. No caso
específico da comunidade Moodle, as idéias
centrais são colaboração, compartilhamento
e comunidade. A comunidade é construída
pelos co-desenvolvedores que visam aperfeiçoar o sistema, como contribuição e disponibilizá-lo.
O aspecto paradigmático verifica
como o Moodle atende às necessidades do
grupo, se há limitações e potencialidades.
8. Avaliação Dos Resultados
Conforme apresentado, o propósito
do curso foi capacitar os colaboradores da
empresa, visando que estes obtivessem condições de efetuar manutenções preventivas
em seus computadores e detectar possíveis
ameaças provenientes da Internet. Durante o
decorrer do curso foram ministrados os conteúdos discriminados anteriormente, divididos por módulos. Ao final de cada módulo
o colaborador foi submetido a exercícios de
fixação. Os resultados dos exercícios ficaram
disponíveis para os gestores do curso e com
os resultados foi possível fazer a análise de
desempenho individual de cada colaborador.
Para o curso em questão não há critérios para aprovação, pois o curso é uma
ferramenta para auxílio do colaborador, o
aproveitamento de cada colaborador deveria
ser feito pelos seus encarregados. Posteriormente foi procurada a empresa para nos dar
um feedback do resultado do treinamento no
dia-a-dia dos colaboradores.
Como resposta, constatou-se que a
empresa obteve a redução da manutenção
terceirizada, permitindo concluir que os próprios colaboradores estão mantendo seus
computadores mais seguros e organizados.
O Uso da Educação a Distância em Ambientes Corporativos
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
113
Caracterização Ambiental e Avaliação
da Qualidade da Água da Bacia
Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Fernando Fricher Boesso¹
Julio Cesar de Souza Inácio Gonçalves2
RESUMO
Entre os recursos naturais que o homem dispõe, a água aparece como um dos
mais importantes, sendo indispensável para
a sua sobrevivência. A água é um recurso finito e com o volume praticamente constante
durante os últimos 500 milhões de anos. Do
volume total 1.386 milhões de km3 de água
na Terra, 97,75% são de água salgada e os
2,25% restantes são de água doce. Baseandose no contexto da disponibilidade da água,
este estudo tem como objetivo realizar a
caracterização ambiental e avaliar a quantidade e qualidade presente da água da bacia
hidrográfica do rio Jaú (SP), visando fornecer subsídios para o gerenciamento da bacia.
Atividades como o levantamento de dados
secundários e primários foram elaboradas
para realização da caracterização ambiental. Os resultados da avaliação da qualidade
da água foram trabalhados estatisticamente
com o uso da ferramenta análise de variância
(ANOVA). Esta ferramenta foi de suma importância para a interpretação dos resultados
obtidos, pois com base na ANOVA pôde-se
concluir as possíveis e reais interferências
antrópicas no sistema lótico. A bacia do rio
Jaú apresenta um crescente processo de degradação ambiental devido à monocultura
em expansão (cana-de-açúcar) na área rural
e atividades humanas em centros urbanos. O
levantamento preliminar indica a necessidade de estudos nas áreas de poluição aos cursos d´água e caracterização da disponibilidade hídrica. Estes estudos poderão ter início a
partir deste trabalho.
Palavras-chave: caracterização ambiental, ANOVA , poluição.
ABSTRACT
Among the human natural resources,
water is one of the most important, and it is
essential to the civilization’s survival. Water is
finite and practically constant during the last
500 million years. Between the total amount
of water in the Earth, which is 1.386 millions
of km3, 97,75% correspond to salt water and
2,25% to fresh water. Considering the water
availability, this survey aim to make an environmental characterization and to evaluate
the quantity and quality of the Jaú River’s
watershed water at the same time it objectifies to give support to the watershed’s management. Activities like the collection of primary and secondary data were fundamental
to make the environmental characterization.
The results were statistically analyzed using
the Variance examine implement (ANOVA).
This appliance was very important to interpret the results, because based on ANOVA it
was easy to conclude the possible and real
human beings interferences in the lotic system. The Jaú River’s watershed has a growing environmental degradation process
due to the sugar cane expansion in the countryside and the human activities in the urban
centers. The preliminary analysis suggests
the necessity of water pollution’s surveys and
water availability characterization. Other
works could start based on this survey.
Key words: environmental characterization, ANOVA, pollution.
¹ Acadêmico do curso de Engenharia Ambiental pelo UniSEB – COC. Bolsista de IC do PIBIC – UniSEB-COC.
² Prof. Orientador, docente da UniSEB – COC.
114
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
1. Introdução
Uma bacia hidrográfica ou fluvial é
o conjunto de terras drenadas por um rio e
seus afluentes. Seu contorno é limitado pela
partes mais altas do relevo, chamadas de divisores de água. As águas das chuvas escoam e superficialmente formando os riachos
e rios, ou infiltram no solo para a formação
de nascentes e do lençol freático. Em condições naturais as cabeceiras são formadas por
riachos que brotam em terrenos de maior
declividade. À medida que as águas destes
riachos descem, juntam-se com as águas de
outros riachos. Estes pequenos rios continuam seus trajetos recebendo água de outros
tributários, formando rios cada vez maiores
até desembocar nos oceanos (BARRELA
et.al. 2001).
A disponibilidade de água significa que ela estará presente não somente em
quantidade, mas também que sua qualidade
seja satisfatória para suprir as necessidades
de um determinado conjunto de seres vivos
(biota), podendo ainda ser utilizada para gerar energia elétrica, assimilar resíduos e uma
variedade de outros propósitos.
Os usos e as atividades desenvolvidas
em toda bacia hidrográfica causam interferências negativas na qualidade e quantidade
das águas de um corpo hídrico. Nos programas de planejamento e gerenciamento dos
recursos hídricos é de fundamental importância à escolha da bacia hidrográfica como
unidade de estudo, considerando, a integração dos recursos hídricos entre si e com os
aspectos fisiográficos da bacia.
De acordo com Santos (2004), o uso
da bacia hidrográfica como área de estudo
é comumente empregado porque constituiu
um sistema natural bem delimitado no espaço, composto por um conjunto de terras
topograficamente drenadas por um cursos
d’água e seus afluentes, onde as interações,
pelo menos físicas, são integradas e assim
mais facilmente interpretadas.
De acordo com Tundisi (2005), a utilização da bacia hidrográfica como unidade
de estudo é essencial devido as suas características, as quais possibilitam a integração
multidisciplinar entre diferentes sistemas de
gerenciamento, estudo, atividades ambientais e aplicações adequadas de tecnologias
avançadas.
Na adoção da bacia hidrográfica como
unidade de estudo, a fase do diagnóstico ambiental assume elevada importância, pois
é nesta etapa que é identificada a dinâmica
ambiental atual da área, os processos relacionados, os principais problemas e os conflitos
de uso da água.
De acordo com Jesus (2006), modelos de simulação têm um papel importante
na gestão dos recursos naturais, pois permitem aumentar o entendimento da bacia através da soma dos impactos de todas as fontes
sobre um dado parâmetro ou indicador de
qualidade da água, de modo que as fontes
com maior impacto possam ser identificadas
e classificadas. O mesmo autor lembra que,
cenários alternativos podem ser avaliados
pelos modelos de simulação, para testar a
influência de distintas estratégias de gestão
ou do futuro crescimento de um determinado setor econômico. Os modelos auxiliam
também os gestores de recursos hídricos na
tomada de decisão, que, através da modelagem da bacia e dos corpos d’água, simulam
vazões, cargas e efeitos resultantes nos corpos d’água.
Desta forma, o presente trabalho tem
como principal diretriz estudar a bacia hidrográfica do rio Jaú (SP), utilizando uma
abordagem que integra diversos elementos
do meio físico e da qualidade da água.
2. Objetivo
Este estudo teve como objetivo realizar a caracterização ambiental e avaliar a
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
115
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
qualidade da água da bacia hidrográfica do
rio Jaú (SP), visando fornecer subsídios para
o gerenciamento da bacia. Como atividades
específicas realizadas para o cumprimento deste objetivo, buscou-se: caracterizar
os aspectos fisiográficos da bacia do rio Jaú
com geração de banco de dados tabulares e
georreferenciado; caracterizar a qualidade e
quantidade das águas superficiais na bacia
em seu gradiente espacial e temporal; integrar as variáveis de qualidade da água com
os aspectos fiosiográficos da bacia (geologia,
pedologia, uso do solo, fontes poluidoras);
3. Materiais e métodos
3.1 Caracterização Geral da Área de
Estudo
A bacia do rio Jaú abrange os municípios de Brotas, Dois Córregos, Dourado,
Bariri e Jaú com uma área total de 752 km2
e um perímetro de 154 km. Ela está localizada na porção central do Estado de São Paulo,
entre os paralelos 2209’ e 2228’ de latitude
sul e os meridianos 4816’ e 4847’ de longitude oeste. Segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do Tietê/Jacaré a
bacia do rio Jaú está localizada na (UGRHI-13).
De acordo com o
DECRETO Nº 10.755 - DE
22 DE NOVEMBRO DE
1977, o rio Jaú é considerado como classe IV desde a
confluência com o Córrego
do Pires, até a confluência com o Ribeirão Pouso
Alegre, no Município de
Jaú. O rio Jaú é formado
pela junção dos córregos
do Bugio e Lageado dentro
dos limites do município
de Dois Córregos, a uma
cota aproximada de 640
metros.A rede de drenagem abrange as áreas ur-
116
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
banas das cidades de Dois Córregos, Mineiros do Tietê e Jaú, sendo que Bariri, Itapuí,
Bocaina e Torrinha também têm seus limites
inseridos nesta bacia.
O rio Jaú possui 10 sub-bacias na margem direta e 12 na margem esquerda (Figura
1). Além da sub-bacia do ribeirão do Peixe e
da sub-bacia do ribeirão do Bugio, onde está
a nascente mais elevada do Rio Jaú, na Serra do Tabuleiro a quase 850 m de altitude. A
rede de drenagem dos ribeirões formadores
do rio Jaú é do tipo dendritica, lembrando o
desenho dos ramos de uma árvore e a rede
de drenagem do rio Jaú é em treliça, ou seja,
seus afluentes deságuam formando ângulos
próximos de a 90o.
Grande parte da água consumida na
bacia hidrográfica do rio Jaú vem de mananciais superficiais. A água para abastecimento
público é captada em pequenos córregos e
nascentes ao longo de toda a bacia e somam
aproximadamente 850 l/s. São 7 sub-bacias
utilizadas como mananciais pelos municípios de Jaú, Mineiros do Tiete e Dois córregos, além da sub-bacia do córrego Dos Pires
utilizada eventualmente.
Figura 1. Sub-bacias do rio Jaú
Fonte: Rezende, 2009.
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
3.2 Caracterização Ambiental
3.2.5 Fontes Poluidoras
A metodologia empregada para a
realização da caracterização ambiental da
bacia hidrográfica do rio Jaú (SP), foi constituída basicamente no levantamento e sistematização de dados secundários, geração de
dados primários e na criação de cartas geográficas da bacia em estudo.
As cartas temáticas foram produzidas
através do software AutoCAD Map. O levantamento de campo para a tomada de coordenadas geográficas foi feito utilizando equipamento GPS (Global Positioning System).
As fontes poluidoras relacionadas aos
corpos hídricos são: fontes industriais e domésticas, sendo identificadas e quantificadas
em termos de kgDBO/dia. Ambas as fontes
são coletadas pelo mesmo sistema de esgotamento sanitário e posteriormente tratadas.
A empresa SANEJ (Saneamento de
Jaú) é responsável pelo tratamento do esgoto. As coordenadas geográficas do ponto de
lançamento do efluente tratado são respectivamente: 7.534,51 N e 749,63 E.
O tratamento utilizado pela empresa
é do tipo lodo ativado por batelada, sendo
tratados 24.650 m3/dia de efluente com uma
eficiência de 98% de remoção de DBO.
3.2.2 Meio Físico
3.3 Avaliação da Qualidade da Água
Foi realizado o levantamento de dados secundários sobre a bacia em estudo dos
seguintes aspectos: clima, geologia e pedologia. Este levantamento foi baseado nos estudos desenvolvidos por IPT (1999), Souza e
Cremonese (2002) e Rezende (2009).
A avaliação da qualidade da água foi
realizada em dois períodos do ano hidrológico, cheia e estiagem. As amostras, utilizadas
para caracterizar o período de cheia, foram
coletadas durante quatro dias consecutivos
no mês de março; já para caracterizar o período de estiagem, foram coletadas no final do
mês de setembro e inicio do mês de outubro.
Estes meses foram escolhidos em função dos
seus índices pluviométricos.
Os pontos de coleta foram escolhidos
em função das características físicas do corpo hídrico e das fontes poluidoras existentes. As informações usadas para essa seleção
foram obtidas através de visitas técnicas de
reconhecimento e os pontos de coleta estão
descritos na Tabela 1. A localização dos pontos de coleta está apresentada na Figura 2.
A água foi coletada superficialmente
(cerca de 30 cm de profundidade) com balde
de plástico e frascos de polietileno, preferencialmente no centro da seção transversal.
3.2.1 Cartas Temáticas Básicas
3.2.3 Meio Sócio-Econômico
O levantamento sobre o meio sócioeconômico foi realizado através de dados
secundários baseado nos estudos desenvolvidos por IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas 1999), IBGE, SEADE (Fundação
Sistema Estadual de Análise de Dados) , SEBRAE (Serviço Brasileiro de apoio as Micro e
Pequenas Empresas), Prefeitura Municipal e
Comitê da Bacia Hidrográfica do Tietê/Jacaré (UGRHI-13).
3.2.4 Uso de Recursos Hídricos
O levantamento sobre o uso de recursos hídricos foi realizado através de dados
secundários baseados nos estudos desenvolvidos por IPT (1999).
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
117
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 1. Pontos de coleta para avaliação da qualidade da água na bacia do rio Jaú
Pontos de
Coleta
Longitude
Latitude
Altitude
(m)
Caracterização especial
J1
7531313
753705
512
Rio Jaú, montante do lançamento de emissários
doméstico-industriais do município de Jaú, Serviço de
Água e Esgoto do Município de Jaú (SAEMJA).
J2
750481
7534415
493
Rio Jaú, jusante do lançamento de emissários doméstico-industriais.Secretaria do Meio Ambiente(SEMEIA)
J3
749628
7534472
475
Rio Jaú, Jusante da contribuição urbana do município e
antes da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE)
J4
748321
753440
468
Rio Jaú, Jusante da contribuição urbana do município e
após a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE)
As variáveis temperatura, oxigênio
dissolvido e condutividade elétrica foram
realizadas in situ. Para a análise das outras
variáveis, as amostras foram levadas ao laboratório para serem analisadas. Na Tabela 2
são apresentadas as variáveis medidas, seus
métodos de análise e unidades de medidas.
Tabela 2 Variáveis físicas e químicas da
água na bacia do rio Jaú
118
A vazão do rio Jaú foi estimada por
meio do programa SIGRH (Sistema de Informações para o Gerenciamento de Recursos
Hídricos). Este programa é disponibilizado
gratuitamente pelo departamento
de água e energia elétrica do estado de São
Paulo (DAEE), no website: http://www.sigrh.sp.gov.br. Para a estimativa da vazão é
necessário fornecer ao programa as coorde-
Variáveis
Método de Análise
Unidades
Temperatura
Termômetro
ºC
Condutividade
Analisador Multiparâmetros VERNIER
mS/cm
Turbidez
Analisador Multiparâmetros VERNIER
NTU
Cloreto
Analisador Multiparâmetros VERNIER
(mg/L)
Oxigênio Dissolvido
Analisador Multiparâmetros VERNIER
(mg/L)
Sólidos Suspensos Totais
Gravimetria (APHA, 1995)
(mg/L)
pH
pHmetro de bancada
–
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Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
nadas geográficas do ponto onde se deseja
determinar a vazão, além da área drenada e a
longitude do mediano central.
Os resultados da avaliação foram
explorados estatisticamente utilizando-se
a análise de variância bifatorial (ANOVA),
com o objetivo de testar diferentes fontes de
variação que atuam sobre a bacia estudada.
Para a análise de variância (ANOVA), foram
fixados como fontes de variação: 1) as estações de amostragem e 2) as épocas de coleta.
4.1.2 Geologia e Geomorfologia
A bacia hidrográfica do rio Jaú está situada nas Cuestas Basálticas, que são formas
de relevo tubulares, onde escarpas íngremes
limitam um topo plano, formado por terra de
maiores altitudes, que se contrapõem as terras mais baixas e de vertentes suaves (Oliveira, 1992). O relevo da bacia segundo Palanca
& Koffler (1996), é representado por dois
tipos de modalidades conhecidas como
“Colinas Médias” e
“Morrotes Alongados e Espigões”.
Do ponto de
vista geológico, a bacia hidrográfica do
rio Jaú está inserida
na bacia sedimentar
do rio Paraná pertencente ao Grupo
São Bento e Grupo
Bauru.
4.1.3 Pedologia
Figura 2. Pontos de coleta de dados para análise na bacia do rio Jaú-SP
4 Resultados
4.1 Meio Físico
4.1.1 Clima
De acordo com a classificação de Koppen, o clima da bacia hidrográfica do Rio
jaú é do tipo Cwa, mesotérmico, também
chamado de Tropical de Altitude, que é caracterizado por possuir um inverno seco e
verão chuvoso, com uma temperatura média
superior a 22 ºC.
Segundo Palanca & Koffler (1996), a
precipitação pluviométrica anual apresenta
média de 1.428 mm. O período chuvoso é de
outubro a março e o período seco é de abril
a setembro. A umidade relativa do ar é alta,
com uma média de 70%.
Foram identificados nos 75200 ha da bacia hidrográfica
em questão, 7 unidades de solos, que pertencem aos grupos: Latossolo (Latossolo), Argiloso (Podzólico), Nitossolo Vermelho (Terra
Roxa Estruturada), Neossolo Quartzarênico (Areias Quartzosas) e Neossolo Litólico
(Litólico). Esses tipos de solos estão com a
nomenclatura atual, e no interior dos parêntesis, os nomes antigos que ainda são utilizados. Os Latossolos constituem a grande
maioria da bacia, sendo aproximadamente
56900 ha ou 75% da área total. Em seguida,
vem o Nitossolo Vermelho, com 10860 ha ou
19%. Os Argissolos são em torno de 4800 ha
ou 5,6%, seguidos pelo Neossolo Quartzarênico com 175 ha ou 0,20% e pelo Neossolo
Litólico com 37 ha ou 0,04%.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
119
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
4.1.4 Biodiversidade
4.4 Uso dos Recursos Hídricos
Segundo Souza & Cremonese (2002),
a biodiversidade da bacia do rio Jaú foi reduzida a quase zero por causa do sistema
exploratório da agricultura. Com extensas
plantações das monoculturas do café e, posteriormente da cana-de-açúcar, os habitat
da bacia foram destruídos. Restaram poucos
fragmentos florestais nativos onde se abrigam os exemplares da diversidade da fauna e
da flora que suportaram essa agressão.
4.4.1 Captações Superficiais e Subterrâneas nos Municípios da Bacia.
4.3 Meio Sócio Econômico
4.3.1 População Residente
Na Tabela 3 é mostrada a população
municipal residente na bacia hidrográfica do
rio Jaú, destacando o município de Jaú com
125.469 habitantes.
Tabela 3. População residente nos municípios da bacia do rio Jaú
Municípios
Número de
habitantes
Jaú
125.469
Dois Córregos
24.384
Mineiros do Tietê
11.760
Itapuí
11.605
Torrinha
8.918
Total
182.136
A Tabela 4 apresenta os dados relativos ao tipo de captação de água para o abastecimento público. Os municípios de Jaú e
Dois Córregos apresentam fontes predominantemente superficiais, enquanto Mineiros
do Tietê utiliza 90% da água proveniente de
mananciais subterrâneos.
Tabela 4. Mananciais de abastecimento de
água superficiais e subterrâneos na bacia do
rio Jaú
Municípios
Dois
Córregos
Jaú
Mineiros
do Tiete
Operação
SAAEDOCO
SAEMJA
SANECISTE
Manancial
Subterrâneo(%)
37,0
72,3
90,0
Manancial
Superficial(%)
63,0
27,7
10,0
Número
Poços
4
17
4
Número
Captações
2
3
1
Fonte: IPT, 1999.
Fonte: Fundação SEADE, 2007.
Observa-se que o município de Jaú
representa a maior influência populacional
sobre a bacia. Quanto à área, Jaú também
apresenta o maior percentual (47,40%) no
interior da bacia.
120
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
4.5 Vazão estimada para a bacia hidrográfica do rio Jaú
Dentre os vários pontos possíveis localizados ao longo do rio Jaú -, foi escolhido o ponto de coleta 1 para a estimativa da
vazão. A área de drenagem foi obtida pela somatória das áreas das sub-bacias localizadas
a montante do Ponto 1.
A visualização das sub-bacias e do
ponto 1 é possível a partir da Figura 3. A
soma das áreas resultou no valor de 344,16
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
km2. Já a tomada de coordenadas geográficas foi realizada utilizando equipamento
GPS (Global Positioning System). A Tabela 5
mostra os valores de vazão para vários períodos de retorno.
Análise de Variância bifatorial (ANOVA) foi aplicada para todas as variáveis medidas com o intuito de verificar as diferenças
temporais (estações climáticas) e espaciais
(pontos de coleta).
O cálculo da variabilidade das amostras, de forma geral, pode ser dividido em
duas partes ou fontes de variação. A primei-
Tabela 4. Mananciais de abastecimento de água superficiais e subterrâneos na bacia do rio Jaú
T (anos)
10
15
20
25
50
100
Q (m³/s)
1,151
1,111
1,087
1,07
1,026
0,991
Fonte: SIGRH 2010
Figura 3. Área das sub-bacias utilizada para o calculo da vazão
Fonte: Adaptada de Rezende, 2009.
5. Avaliação da Qualidade da Água
5.1 Aplicação da ferramenta análise de
variância ou ANOVA bifatorial usando
o Excel
ra parte de variabilidade é proveniente das
populações serem diferentes, denominada
variabilidade entre. Quanto maior for a variabilidade entre, mais forte é a evidência de
as médias das populações serem diferentes.
A segunda parte de variabilidade é causada
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
121
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
pelas diferenças dentro de cada amostra,
denominada variabilidade dentro. Quanto
maior for a variabilidade dentro, maior será
a dificuldade para concluir se as médias das
populações são diferentes (LAPPONI, 2005).
O roteiro de cálculo para a determinação da variância entre e variância dentro,
bem como dos outros parâmetros usados
para a aplicação da análise da variância é
bem descrito por (LAPPONI, 2005). Neste trabalho é mostrado apenas como que a
ANOVA pode ser realizada com o uso do EXCEL.
Para a aplicação da ferramenta ANOVA, os dados das Tabelas 8 a 13 foram organizados em planilhas do Excel. A aplicação
da ANOVA para a variável OD é mostrada
como exemplo na Figura 4.
Pode ser observado nesta figura que,
o fator pontos de coleta com quatro níveis e o
fator estações climáticas com dois níveis são
apresentados, na planilha, com a cor vermelha. Esses dois fatores formam 4 grupos de
resultados com duas observações cada um,
para cada ponto de amostragem.
Figura 4. Dados organizados na planilha Excel
para Estiagem e Cheia.
122
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Para construir a tabela de análise da
variância no Excel, deve-se escolher a ferramenta Anova: fator duplo com repetição que
está localizada na caixa de diálogo análise de
dados. Na Figura 5 é apresentada a janela
exibida pelo Excel para a entrada dos dados
mostrados na Figura 4.
Figura 5. Janela para a entrada dos dados referente à Estiagem e Cheia
Na opção intervalo de entrada, devem estar incluídos os nomes e os níveis dos
dois fatores de análise. Na opção alfa, deve-se
informar o nível de significância alfa do teste de hipóteses, nesse caso 0,05. No quadro
opções de saída, deve ser obrigatoriamente
informado um endereço a partir do qual a
ferramenta análise de variância registrará os
resultados, neste caso F16. Vale destacar que
o procedimento descrito acima foi repetido
cada variável de qualidade da água.
Os resultados da análise da variância são apresentados nas Tabelas 8 a 13.
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 8. Resultados da análise da variância para o OD
Fonte da variação
SS
df³
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
0,355938
3
0,118646
0,860922
0,474781
3,008787
Colunas
5,865313
1
5,865313
42,56009
9,54E-07
4,259677
Interações
1,893437
3
0,631146
4,579743
0,011314
3,008787
Dentro
3,3075
24
0,137813
Total
11,42219
31
Tabela 9. Resultados da análise da variância para a Condutividade
Fonte da variação
SS
df
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
24,49125
3
8,16375
1,01282
0,404291
3,008787
Colunas
9961,661
1
9961,661
1235,874
3,71E-22
4,259677
Interações
19,81625
3
6,605417
0,819488
0,495859
3,008787
Dentro
193,45
24
8,060417
Total
10199,42
31
Tabela 10. Resultados da análise da variância para o Nitrato
Fonte da variação
SS
df
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
0,55125
3
0,18375
1,577818
0,220707
3,008787
Colunas
1,125
1
1,125
9,660107
0,004794
4,259677
Interações
0,0075
3
0,0025
0,021467
0,995615
3,008787
Dentro
2,795
24
0,116458
Total
4,47875
31
³ df registra os graus de liberdade de cada grupo de resultados; SS é a soma dos quadrados dos desvios das amostras;
MS registra o resultado da divisão da soma dos quadrados dos desvios da coluna SS pelo número de graus de liberdade
correspondente da coluna DF e F representa o F observado, o qual é o resultado da divisão entre cada valor da coluna
MS pelo SS da linha dentro.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
123
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 11. Resultados da análise da variância para o pH
Fonte da variação
SS
df³
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
0,0988625
3
0,032954
3,299541
0,03753
3,008787
Colunas
2,4753125
1
2,475313
247,8411
3,8E-14
4,259677
Interações
0,0058125
3
0,001937
0,193992
0,89945
3,008787
Dentro
0,2397
24
0,009987
Total
2,8196875
31
Tabela 12. Resultados da análise da variância para a Turbidez
Fonte da
variação
SS
df
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
97,07125
3
32,35708333
4,236491094
0,015448286
3,008787
Colunas
1679,1013
1
1679,10125
219,843594
1,39702E-13
4,259677
Interações
21,08125
3
7,027083333
0,920051281
0,446095454
3,008787
Dentro
183,305
24
7,637708333
Total
1980,5588
31
Tabela 13. Resultados da análise da variância para o STS
124
Fonte da
variação
SS
df
MS
F
valor-P
F crítico
Amostra
0,006143375
3
0,0020478
0,803298
0,504317
3,0087866
Colunas
0,0006845
1
0,0006845
0,268513
0,6090758
4,2596772
Interações
0,0005865
3
0,0001955
0,07669
0,9719809
3,0087866
Dentro
0,0611815
24
0,0025492
Total
0,068595875
31
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Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Optou-se, neste trabalho, por apresentar os dados integralmente conforme eles
foram gerados, por isso a quantidade de números significativos dos parâmetros analisados não foi modificada.
O ponto de partida, para a interpretação das tabelas, é a análise dos resultados das
linhas amostra e colunas.
O título amostra refere-se ao fator
pontos de coleta. Quando o F é maior do que
o F crítico, a hipótese nula não pode ser aceita. Isto significa que, com 95% de confiança,
as concentrações médias são significativamente diferentes nos quatro diferentes pontos de amostragem. Vale destacar que esta situação só ocorreu para as variáveis Turbidez
e pH, ou seja, não há variação da qualidade
da água ao longo do trecho monitorado para
as outras variáveis avaliadas.
O título colunas refere-se aos resultados do fator estações climática. Quando o F
é menor do que o F crítico, a hipótese nula
pode ser aceita. A aceitação da hipótese nula
indica que não há variabilidade da qualidade da água ao longo das estações do ano, ou
seja, não ocorreu nenhuma alteração significativa nas concentrações médias nas estações amostradas. A partir da observação das
Tabelas 8 a 13 pode-se concluir que a única
variável que não se alterou, em relação às estações climáticas, foi o STS.
Os resultados das medidas físicas e
químicas da água realizadas na bacia em estudo durante o período de cheia (março de
2010) estão apresentados nas Tabelas 14 a
20. Já Os resultados das medidas realizadas
na estiagem (setembro/outubro) estão representados nas Tabelas 21 a 27.
Tabela 14. Análise da Turbidez realizada na cheia
Pontos
Turbinez (UNT)
J1
53,7
J2
J3
Mínimo
Media
Máximo
54,5
48,9
54,4
60,5
53,7
50
49,3
52,5
57
56
55,7
52,9
55,725
58,3
59
60
60,5
57
59,125
60,5
05/04/10
06/04/10
07/04/10
Mínimo
Media
Máximo
25
33,5
51
60,5
48,9
49,3
57
52,9
58,3
J4
57
Dias
04/03/10
Tabela 15. Análise de Cloreto realizada na cheia
Pontos
Cloreto (mg/L)
J1
51
28
25
30
J2
38
J3
45
20
29
34
20
30,25
38
46
40
47
40
44,5
47
35
42
48
Mínimo
Media
Máximo
J4
35
47
48
38
Dias
04/03/10
05/04/10
06/04/10
07/04/10
Tabela 16. Análise do pH realizada na cheia
Pontos
Ph
J1
7,6
7,59
7,44
7,54
7,44
7,5425
7,6
J2
7,4
7,66
7,4
7,46
7,4
7,48
7,66
J3
7,43
7,4
7,36
7,34
7,34
7,3825
7,43
J4
7,47
7,4
7,63
7,48
7,4
7,495
7,63
Dias
04/03/10
05/04/10
06/04/10
07/04/10
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
125
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 17. Análise da Condutividade realizada na cheia
Pontos
J1
Condutividade (μs/cm)
43,1
46,2
48,2
53,2
Mínimo
Media
Máximo
43,1
47,675
53,2
J2
42,3
45,3
47,3
50,3
42,3
46,3
50,3
J3
46,9
47,8
49,8
49,1
46,9
48,4
49,8
45,1
47,675
49,3
Mínimo
Media
Máximo
J4
47,8
45,1
48,5
49,3
Dias
04/03/10
05/03/10
06/03/10
07/03/10
Tabela 18. Análise do Oxigênio Dissolvido (OD) realizada na cheia
Pontos
OD (mg/L)
J1
5,7
6,7
6,3
5,9
5,7
6,15
6,7
J2
5,2
6,5
6,1
5,9
5,2
5,925
6,5
J3
5,4
5,9
5,9
5,7
5,4
5,725
5,9
J4
5
5,7
5,7
5,4
5
5,45
5,7
Dias
04/03/10
05/03/10
06/03/10
07/03/10
Mínimo
Media
Máximo
1,9
2,225
2,6
Tabela 19. Análise do Nitrato realizada na cheia
Pontos
J1
Nitrato (mg/L)
2,3
1,9
2,6
2,1
J2
2,5
1,7
2,1
2
1,7
2,075
2,5
J3
2,8
2,3
2,3
2,3
2,3
2,425
2,8
J4
2,9
2,1
2,3
2,3
2,1
2,4
2,9
Dias
04/03/10
05/03/10
06/03/10
07/03/10
Mínimo
Media
Máximo
Tabela 20. Análise dos Sólidos Totais em Suspensão realizada na cheia
Pontos
STS (g/L)
J1
0,065
0,125
0,195
0,23
0,065
0,15375
0,23
J2
0,195
0,16
0,2
0,265
0,16
0,195
0,265
J3
0,115
0,16
0,215
0,195
0,115
0,17125
0,215
J4
0,14
0,17
0,21
0,185
0,14
0,17625
0,21
Dias
04/03/10
05/03/10
06/03/10
07/03/10
Mínimo
Media
Máximo
38,9
39,775
40,5
Tabela 21. Análise da Turbidez realizada na estiagem
Pontos
J1
126
Turbidez (UNT)
40,5
39,6
38,9
40,1
J2
40
38,4
43,7
40,6
38,4
40,675
43,7
J3
42,9
38,8
40
39,6
38,8
40,325
42,9
J4
47,6
41,2
42,5
40,8
40,8
43,025
47,6
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 22. Análise de Cloreto realizada na estiagem
Pontos
Cloreto (mg/L)
J1
44,7
J2
J3
Mínimo
Media
Máximo
51,5
44,7
50,15
55,5
55,6
50
40,3
49,225
55,6
56
53,6
46,9
51,45
56
48
51,125
55,5
Mínimo
Media
Máximo
55,5
48,9
40,3
51
46,9
49,3
J4
49,5
48
51,5
55,5
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
Tabela 23. Análise do pH realizada na estiagem
Pontos
Ph
J1
7,02
7,04
6,9
7,04
6,9
7
7,04
J2
6,88
7
6,94
6,92
6,88
6,935
7
J3
6,9
6,91
6,58
7
6,58
6,8475
7
J4
6,95
6,97
6,87
6,78
6,78
6,8925
6,97
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
Mínimo
Media
Máximo
81,8
81,9
85,4
Tabela 24 Análise da Condutividade realizada na estiagem
Pontos
J1
Condutividade (μs/cm)
85,4
81,9
81,8
82,8
J2
78,9
J3
86,5
85,6
80,2
81,9
80,2
85,6
78,9
78,3
80,9
80
80,9
78,3
86,5
J4
86,7
81,5
85,5
86,9
85,5
81,5
86,7
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
Mínimo
Media
Máximo
Tabela 25. Análise do Oxigênio Dissolvido (OD) realizada na estiagem
Pontos
OD (mg/L)
J1
4,9
4,7
4,4
5,3
4,4
4,7
4,9
J2
5,1
4,7
4,4
4,1
4,4
4,7
5,1
J3
5,4
4,9
4,3
5,1
4,3
4,9
5,4
J4
5
5,3
5,3
5,1
5,3
5,3
5
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
Mínimo
Media
Máximo
1,8
1,3
2,1
Tabela 26. Análise do Nitrato realizada na estiagem
Pontos
J1
Nitrato (mg/L)
1,8
1,3
2,1
2,1
J2
2
1,7
1,3
2
1,3
1,7
2
J3
2,5
1,9
1,4
2,3
1,4
1,9
2,5
J4
2,1
2
1,7
2,3
1,7
2
2,1
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
127
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Tabela 27. Análise dos Sólidos Totais em Suspensão realizada na estiagem
Pontos
J1
STS (g/L)
Media
Máximo
0,095
0,15675
0,21
0,129
0,193
0,21
J2
0,195
0,145
0,203
0,215
0,145
0,1895
0,215
J3
0,102
0,112
0,205
0,2
0,102
0,15475
0,205
0,1
0,15825
0,225
J4
0,1
0,1
0,208
0,225
Dias
30/09/10
01/10/10
02/10/10
03/10/10
6. Discussão
Ressaltando o conceito defendido
por Tundisi (2005), a utilização da bacia hidrográfica como unidade de planejamento
de estudo é essencial devido as suas características, as quais possibilitam a integração
multidisciplinar entre diferentes sistemas de
gerenciamento, estudo, atividades ambientais e aplicações adequadas de tecnologias
avançadas.
A progressiva deterioração da qualidade da água tem despertado a necessidade
do desenvolvimento de ações integradas de
gerenciamento e monitoramento deste recurso, que visam à diminuição dos conflitos
de uso.
O gerenciamento apresenta ser uma
ferramenta muito eficaz na mitigação de impactos causados na bacia. De acordo com o
conceito adotado por Lanna (1999) e Mota
(1997) o gerenciamento deve incluir um conjunto de ações destinado à regular na prática
operacional o uso, controle, proteção e conservação do ambiente, e avaliar a conformidade da situação corrente com os princípios
doutrinários estabelecidos pela política ambiental. O gerenciamento dos recursos hídricos é um conjunto de ações que garante às
populações e às atividades econômicas uma
utilização otimizada da água, tanto em termos qualitativos como quantitativos.
A utilização das análises estatísticas
relativamente simples, com a aplicação de
conceitos básicos, permitiu a determinação
de indicadores para avaliar a bacia do rio
Jaú. Desta maneira foi possível verificar as
128
Mínimo
0,095
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
relações existentes entre as estações climáticas e os pontos de análises.
É importante destacar o eficiente
uso da modelagem matemática para avaliar
possíveis alterações na qualidade ambiental
e “prever” situações futuras através da construção de cenários.
Os resultados da avaliação da qualidade da água na bacia do rio Jaú demonstraram variações espaço-temporais que refletem sobremaneira as atividades humanas
e ocupação do solo existente.
Com os resultados da ANOVA é possível compreender que, dentre as duas estações climáticas as condições do corpo hídrico sofrem alterações, ou seja, o aumento
da vazão ocasionado pela elevação do índice
pluviométrico melhorou de forma significativa as condições de autodepuração do corpo hídrico. Por exemplo, a concentração de
oxigênio dissolvido é alterada durante o ano
hidrológico.
O levantamento preliminar indica a
necessidade de estudos nas áreas de poluição
aos cursos d´água e caracterização da disponibilidade hídrica, estes estudos poderão ter
início a partir deste trabalho.
Caracterização Ambiental e Avaliação da Qualidade da Água da Bacia Hidrográfica do Rio Jaú (SP)
Referências Bibliográficas
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JESUS, J. A. O. Utilização de modelagem matemática 3D na gestão da qualidade da água
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TUNDISI, J. G. Água no Século XXI: Enfrentando a Escassez. 2 ed. São Carlos: Rima,
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
129
Avaliação de Aspectos Ambientais, Técnicos e
Econômicos Ocasionados pelo Reaproveitamento
do Subproduto “Areia De Fundição” na Produção
de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto
pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
Fernando Girardi de Abreu¹
Ricardo Adriano Martoni Pereira Gomes²
RESUMO
ABSTRACT
O processo de fundição de metais
envolve o uso de um molde, cujos materiais
são argila, areia de base, areia de retorno e
aditivos. A areia tem a possibilidade de ser
reutilizada algumas vezes, através de técnicas
de reutilização específicas; porém, o seu uso
contínuo ao longo do tempo não é possível,
devendo assim o material ser descartado.
Esse sub-produto despendido em larga escala
pelas indústrias no processo de fundição de
metais é então destinado a aterros sanitários,
onerando a empresa geradora do resíduo com
os custos do transporte, caracterizando-o
como um passivo ambiental a ser gerenciado
adequadamente. Testes elaborados com
a areia de fundição residual demonstram
a viabilidade de utilizá-lo no processo de
produção de concreto asfáltico e outros
artefatos de concreto, reinserindo esse subproduto novamente na cadeia produtiva.
Esta pesquisa visa elaborar uma revisão
bibliográfica dos processos já utilizados no
reaproveitamento desse resíduo, a análise
sistemática das normas de órgãos públicos
referentes ao seu uso ambientalmente
responsável e a análise de dados de empresas
regionais de fundição que utilizam tais
procedimentos no processo de descarte
desse sub-produto.
The process of metal casting involves
the use of a mold, whose materials are clay,
sand (base and return) and additives. The
sand has the possibility to be reused a few
times through specific reuse techniques,
but their continued use over time is not
possible, so the material must be discarded.
This sub-product spent on large-scale
industries in the process of casting metal is
then designed to landfills, overburdening
the company generating the waste with
the shipping costs, characterizing it as an
environmental damage to be managed
properly. Tests made with the foundry sand
waste demonstrate the feasibility of using it
in production of asphalt concrete and other
concrete artifacts, reinserting it again in
the sub-product supply chain. This research
had the purpose of developing a literature
review of the processes already used in the
reuse of such waste, the systematic analysis
of the standards of government agencies
regarding their use, environmentally
responsible and analysis of regional casting
using such procedures in the disposal of this
sub-product.
¹ Aluno do Curso de Engenharia Ambiental – Bolsista do Programa de Iniciação Científica do UniSEB – COC.
[email protected]
² Professor Doutor, orientador do Programa de Iniciação Científica do UniSEB – COC [email protected]
130
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
1. Introdução
A geração de resíduos pela
humanidade torna-se uma constante a
partir da sua transformação da condição de
nômade para sedentário, consolidando-se
em um local determinado e estabelecendo
esse como território. Soma-se a isso o
crescimento exponencial da população,
através da história, devido ao aumento da
expectativa de vida e ao declínio das taxas
de mortalidade, e obtém-se como produto o
agravamento do problema da disposição dos
resíduos gerados.
Tal
crescimento
populacional,
juntamente com as demandas geradas
pela cultura consumista na qual estamos
inseridos, fez com que a humanidade
passasse a pressionar a natureza quanto
à sua capacidade de absorver os impactos
gerados pelas atividades humanas. Assim,
é urgente a necessidade de se buscar formas
alternativas e menos impactantes de se
utilizar os recursos naturais, sob pena de
esgotamento dos ativos ambientais e de
graves conseqüências ecológicas.
De acordo com Pablos (apud BONET,
2002),
... uma das questões de fundamental importância para a sociedade é
a necessidade de reciclar ou reaproveitar lixos, rejeitos e resíduos
por ela gerados, como forma de
recuperar matéria e energia, preservando recursos naturais, oferecendo uma menor degradação do
meio ambiente e proporcionando
melhorias nas condições de vida
das comunidades.
As indústrias de fundição têm
significativa participação na história da
sociedade desde a antiguidade, dado que
a descoberta da fundição (5000 a.C.) é um
marco histórico da humanidade, que passa
a denominar essa época como Idade dos
Metais. Os primeiros objetos foram fundidos
em cobre, ao qual se acrescentou depois o
estanho – originando o bronze. Há 3500
anos, iniciou-se a fundição do ferro, que
substituiu a pedra na confecção de armas. A
partir daí, as cidades cresceram em regiões
do Egito e do Oriente e começaram a surgir
os primeiros registros escritos – marcos
da passagem para a História. (Panorama
adaptado de Arruda, J.J de Andrade História Antiga e Medieval, São Paulo,
Ática, 1976 - pp. 39 - 40). Atualmente,
são inúmeros os campos de atuação das
indústrias fundições, com destaque aos
ramos automotivo, agroindustrial, doméstico
e bélico. A disposição dos resíduos gerados
por esse ramo industrial, principalmente a
areia de fundição, é extremamente oneroso
aos empresários do ramo. Estudos apontam
que sua disposição final em células de
aterros industriais classe II pode custar
aproximadamente R$ 70,00/ton. (setenta
reais), significando no caso da geração de
2000 ton/mês um custo adicional de R$
140.000,00 (cento e quarenta mil reais)
por mês para a indústria (MARIOTTO apud
BONET, 2002).
As empresas de fundição de metais
são conceituadas como de baixo desempenho
ambiental devido ao fato de consumirem
grandes quantidades de recursos naturais e
de gerarem grandes volumes de poluentes.
De acordo com Marioto & Bonin (1996, apud
MATOS & SCALTCH, 2000)
... o custo da geração de tais resíduos já afeta a economia destas
empresas no Brasil e a situação
tende a agravar-se devido a fatores como o aumento dos custos
de disposição dos resíduos, a progressiva carência de áreas adequadas para depositá-los e a eminente
exigência de adequação às normas
ambientais internacionais.
No processo de fundição, a areia é
utilizada como produto na elaboração de
um molde, composto basicamente por areia
e substâncias fenólicas, onde é derramado
o metal fundido que dará origem ao metal
sólido, como pode ser observado na Figura 1.1.
A resina fenólica é obtida através da reação
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
131
Avaliação de Aspectos Ambientais, Técnicos e Econômicos Ocasionados pelo Reaproveitamento do Subproduto
“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
de condensação e polimerização entre fenol
e aldeído. Normalmente, utiliza-se o aldeído
fórmico (também chamado de “Formol”)
e o hidroxibenzeno (ou “Fenol comum”).
As resinas fenólicas podem apresentar-se
na forma líquida ou sólida, de acordo com
a proporção de cada reagente e do tempo
de polimerização e são solúveis em álcool,
éteres e cetonas. A areia tem a possibilidade
de ser reutilizada algumas vezes, através de
técnicas de reutilização específicas; porém,
o seu uso contínuo ao longo do tempo não
é possível, devendo assim o material ser
descartado. Esse material descartado, pode
se enquadrar na categoria de resíduo classe II
(não perigoso - NBR 10004/2004) ou ainda
ser considerado resíduo classe I (perigoso NBR10004/2004), dependendo do processo
de moldagem e das características químicas
do resíduo.
novos espaços para essa finalidade, além
da diminuição de custos para a empresa
geradora do resíduo e de adequação as
normas ambientais vigentes.
O concreto asfáltico, também
chamado de Concreto Betuminoso Usinado
a Quente (CBUQ), é um revestimento
flexível, resultante da mistura a quente,
em usina apropriada, de agregado mineral
graduado (areia principalmente), material
de enchimento (filer) e material betuminoso,
espalhada e comprimida a quente.
De acordo com a decisão de
diretoria CETESB nº 152/2007, “o resíduo
industrial areia de fundição tem apresentado
viabilidade ambiental para a sua reutilização
na produção de concreto asfáltico e
artefatos de cimento ou de concreto,
desde que observados critérios específicos
estabelecidos”. Dessa maneira, compreender
melhor os processos e as normas necessários
para o reaproveitamento desse resíduo é
fundamental para que se melhor gerencie a
destinação final desse passivo.
2. Processo de Fundição
Figura 1.1 – Processo de moldagem de peças
fundidas através da utilização de macho em molde
de areia
Fonte: ENCARTA, 2006.
Segundo Mariotto (2001), em todo
o país, as empresas de fundição de metais
geram na ordem de 1.700 mil toneladas por
mês de areias contaminadas. Devido a esse
grande volume de areia residual decorrente
do processo de fundição e da necessidade de
se diminuir a carga de resíduos destinados
aos aterros, a reutilização desse subproduto
em outras atividades é uma necessidade que
atende as premissas da sustentabilidade,
pois promove o aumento de sua vida útil e
conseqüente postergação da ocupação de
132
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
A história da fundição no Brasil
remonta aos anos de sua ocupação, datada
entre 1530 e 1640, na qual juntamente
com colonos, alguns mestres e artesãos
conhecedores da técnica da fundição
foram trazidos para cá para trabalhar na p
rodução de enxadas. “Esses artífices tinham
por incumbência atender às necessidades
de fornecimento de instrumentos para o
trabalho na lavoura de subsistência e de
peças necessárias aos estabelecimentos dos
primeiros (...). No início do século XVIII, o
ferro já começava a se tornar imprescindível
aos povoadores para a fabricação de utensílios
como fechaduras, ferrolhos, pregos, cravos,
enxadas, foices, facões, pás, armas e cunhas
para o aprisionamento de índios e negros”
(ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE METAIS,
1989).
O conhecimento da fundição de
Avaliação de Aspectos Ambientais, Técnicos e Econômicos Ocasionados pelo Reaproveitamento do Subproduto
“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
metais cresceu devido a experiências de
como melhor fazer os moldes e verter metais,
que foi passado de geração a geração, e
aperfeiçoada continuamente, sendo que hoje
esta prática é um elemento essencial para a
qualidade das atividades de fundição. Em
2001, segundo a ABIFA, o Brasil era o 11º
produtor mundial de fundidos, produzindo
quase 1.600.000 toneladas/ano, em cerca de
1000 empresas de pequeno e médio porte,
empregando cerca de 40.000 trabalhadores
(BONET, 2002).
O processo de fundição de metais
consiste na realização das seguintes etapas,
conforme demonstrado pelo fluxograma da
Figura 2.2:
- Modelação: São todos os requisitos
necessários para a confecção de um modelo
em que será reproduzida a peça fundida.
O modelo pode ser fabricado em madeira,
metal, resinas ou outros materiais (PERINI,
1986).
- Machos: Para que se produzam as
superfícies internas em certas peças fundidas,
colocam-se, no interior dos moldes de areia,
peças sólidas conformadas
ou machos feitos de uma
mistura compatível com o
metal a ser vazado e com o
tamanho da peça fundida.
Após o vazamento, o macho
é removido do interior da
peça, deixando a forma
interna desejada. (KONDIC,
1973)
- Fusão: Nesta etapa,
é obtido o metal no estado
líquido com a utilização
de fornos de fusão, como
forno de cadinho, rotativo
a óleo, cubilô, entre outros
(MORAES, 1978).
- Enchimento do
molde com metal líquido
(vazamento). De acordo
com Maciel (2005), “após
o
processo
de
fusão,
o metal no estado líquido é vazado no
molde à temperatura adequada e, quando
possível, com vazão controlada. A técnica de
vazamento consiste na colocação da borda do
cadinho ou da panela o mais próximo possível
do canal de entrada do molde, diminuindo a
distância de queda do metal através do ar.”
- Desmoldagem – Depois que o
material é vazado, a peça sofre processo
de solidificação no molde e, após período
de resfriamento (que depende do tipo de
peça, do tipo de molde e de metal), ocorre
o processo de desmoldagem, que tem por
finalidade separar a areia dos fundidos
(TEIXEIRA, 1993)
- Limpeza, quebra de canais e
rebarbas (limpeza e rebarbação) – consiste
na separação (quebra ou corte) entre a peça
e os canais de alimentação e massalotes.
Os massalotes retornam ao forno para
uma próxima fusão, sendo denominada
retorno. Também se realizam operações de
rebarbação e jateamento de areia na etapa de
acabamento (MACIEL, 2005).
Figura 2.2 - Fluxograma das etapas de operação de
uma fundição.
Fonte: SHULZ, S.A.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
133
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“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
3. Estudo de Caso: Utilização de Areia
de Fundição Residual para uso em
Argamassa
Armange et al (2005) apresentam
o s resultados dos testes realizados sobre
argamassas fabricadas com dois resíduos
da indústria de fundição: areia de exaustão
e areia de retorno. Foram
elaboradas
análises
de
caracterização
de
argamassas
com
diferentes concentrações
de resíduos, inserindo
tais resíduos ao agregado
e
verificando
suas
peculiaridades.
Foram
elaborados
ensaios
de
granulometria,
morfológica e estrutural,
mecânicos, de moldagem
e cura dos corpos-deprova, de lixiviação e de
solubilização. O estudo
avalia duas espécies do
mesmo resíduo, originados de diferentes
etapas do processo produtivo, e caracterizaos de acordo com suas peculiaridades físicoquímicas amostrais.
O fluxograma da figura 3.1 estabelece
as entradas e saídas de materiais no decorrer
do processo:
Com relação à resistência de
compressão axial, foram elaboradas análises
com diferentes concentrações de agregados
para os resíduos de exaustão (A) e de retorno
(B). O resíduo da exaustão apresentou
resistência mecânica constante, enquanto
o resíduo da areia de retorno demonstrou
queda progressiva de sua resistência:
Figura 3.2 - Valores médios de resistência
mecânica em compressão de argamassas
elaboradas com resíduos A e B.
Fonte: ARMANGE et al, 2005.
Quanto à lixiviação e a solubilização,
ambas as amostras apresentaram excesso de
alumínio e a areia de exaustão apresentou
excesso
de
fluoretos.
Dessa maneira, pode-se
indicar que diminuindo a
concentração do resíduo
proveniente da areia de
exaustão pode-se eliminar
o excesso de fluoretos
para que a amostra se
torne adequada às normas
vigente:
Figura 3.1 - Fluxograma sucinto do processo de fundição e geração de resíduos
Fonte:ARMANGE et al, 2005.
134
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“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
Tabela 3.1 – Resultados de ensaios de
lixiviação dos resíduos.
Fonte: ARMANGE et al, 2005.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
135
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“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
Tabela 3.2 – Resultados do ensaio de solubilização
Fonte: ARMANGE et al, 2005.
A decisão de Diretoria CETSB nº.
152/2007, que dispõe sobre procedimentos
para gerenciamento de areia de fundição para
uso em concreto asfáltico e outros artefatos
de concreto, estabelece que para o reuso da
areia originária dos processos de fundição
em concreto asfáltico e artefatos de concreto,
o material analisado necessita apresentar os
seguintes limites de concentração:
Tabela 3.3 – Concentração máxima de poluentes no lixiviado. (Decisão de Diretoria CETESB Nº. 152/2007)
136
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“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
Tabela 3.4 - Concentração máxima de poluentes no lixiviado neutro.
Fonte: Decisão de Diretoria CETESB Nº. 152/2007.
Dessa forma, a partir dos resultados
das análises do material residual e
comparando-os com os padrões da decisão
CETESB 152/2007, conclui-se não haver
óbice ao uso dessa areia no incremento do
agregado utilizado na fabricação, devendo
haver adequações quanto a concentração dos
resíduos provenientes da areia de fundição
para que esta se torne adequado ao reuso de
acordo com as normas técnicas da construção
civil e as normas vigentes para o reuso em
concreto asfáltico.
4. Conclusões
A exaustão dos recursos naturais
têm sido uma constante em nossa sociedade
devido ao consumo desenfreado e a cultura
utilitarista dos re cursos naturais. A escassez
de tais recursos finitos se dará em um
dado momento e, dessa maneira, formas
alternativas de reutilização de resíduos e
a sua transformação em subproduto para
retorno a cadeia produtiva.
O presente trabalho utilizou-se
de dados da região de Ribeirão Preto,
referentes às indústrias de fundição, para
determinar parâmetros econômicos e
ambientais
relativos
ao
reaproveitamento
do subproduto areia
de fundição nos usos
descritos anteriormente.
Além disso, caracterizou
os benefícios ambientais
e econômicos potencias
para a região de Ribeirão
Preto através de gráficos e
tabelas, e demonstrando
a
necessidade
de
políticas públicas mais
auspiciosas para o seu
reaproveitamento,
coletando dados de demanda por região
e convênios com empresas que sejam
potenciais utilizadoras desse subproduto.
Análises particulares para cada
amostra de areia são necessárias para que
se demonstre a sua real capacidade de uso
sem impactar outras instâncias do ambiente,
principalmente referente à solubilização do
composto e seu potencial de lixiviação no
solo. Outras formas de reaproveitamento
também têm potencial de serem empregadas,
como a utilizada por Mariotto (2001) com
sua máquina regeneradora de areia de
fundição, que garante o tratamento do fenol
e de outros potenciais contaminantes da
areia de fundição.
Em adição, pode-se concluir através
desta pesquisa que aspectos técnicos
referentes à sua reutilização têm o potencial
de ser economicamente viáveis já no
curto prazo. Porém, aspectos políticos e
empresariais tendem a frear o sucesso dessa
atividade, tendo em vista que a destinação
final desse subproduto é duplamente
lucrativa às empresas administradoras de
aterros sanitários. Lucra-se tanto com a sua
deposição junto a o aterro, quanto com a
sua utilização na cobertura final do aterro,
o que traz economia de imensos volumes
que teriam de ser retirados de zonas de
empréstimo.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
137
Avaliação de Aspectos Ambientais, Técnicos e Econômicos Ocasionados pelo Reaproveitamento do Subproduto
“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
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“Areia De Fundição” na Produção de Concreto Asfáltico e Artefatos de Concreto pelas Empresas da Região de Ribeirão Preto
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
139
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação
para um Ambiente de Grade Computacional
Ricardo Pina de Vassimon Brandão¹
Patrícia Magna²
Henrique Fabrício Gagliardi3
RESUMO
ABSTRACT
A criação de ambientes de grades
computacionais é uma opção interessante
que permite disponibilizar recursos tanto
de armazenamento de dados quanto de
processamento. Este trabalho concentrase na utilização do ambiente de uma grade
com o propósito serem utilizados por
serviços de simulação que podem dispor de
bases de dados distribuídas e de recursos
de processamento. Especificamente, este
trabalho tem como objetivo a criação de uma
interface que realize a validação dos dados
antes da submissão da tarefa, tornando a
submissão mais simples e padronizada,
facilitando a forma como o usuário deste
serviço realiza a interação com o simulador.
Para tanto são criados metadados XML para
descrever os parâmetros de um simulador e
através da interface é realizada a validação
destes, usando o que está definido em um
XML schema. Apenas a depois da verificação
e validação dos valores passados como
parâmetros é feita a submissão de tarefas
numa grade por diferentes módulos. Para
elaboração do projeto foi utilizado para
a criação do ambiente de grade Globus
Toolkit versão 4. Para realização dos testes
foi utilizado módulo de simulação da dengue
IntegraModel que realiza simulações para
realizar a previsão de epidemias de doenças
infecto-contagiosas, em particular a dengue.
This work focuses on the use of
a grid environment with the purpose to
be used for simulation services that may
have distributed databases and processing
resources. Specifically, this work aims to
create an interface that performs data
validation prior to submission of the task,
making the submission more simple and
standardized, facilitating the way the
user interact to with the simulator. For
this purpose, we created XML metadata
to describe the parameters of a simulator
and using the developed interface is
performed to validate these using what is
defined in an XML schema. Only after the
verification and validation of the values
passed as parameters, these are passed
to the submission of a simulation grid of
different modules. The methodology defined
for the development of this project was to
conduct studies on the grid environment,
its infrastructure and components that
implement them. More specifically, the
middleware Globus Toolkit version 4. To
perform the tests was used IntegraModel
simulation
module
that
performs
simulations to make the prediction of
epidemics of infectious diseases, particularly
dengue fever.
1.Introdução
De acordo com Ian Foster (FOSTER,
2002) uma grade computacional é um sistema
¹ Graduando em Ciência da Computação – Bolsista do Programa de Iniciação Científica do UniSEB- COC.
Ribeirão Preto- SP.
² Doutora em Física Computacional IFSC/USP- Professora e Orientadora de Iniciação Científica – UniSEBCOC. Ribeirão Preto- SP
³ Mestre em Ciência da Computação Universidade Católica de Santos – Professor e Co-orientador Iniciação
Científica – UniSEB- COC – Ribeirão Preto -SP.
140
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
que coordena recursos que não estão sujeitos
a um controle centralizado, utilizando
protocolos e interfaces padronizados, abertos
e não específicos para oferecer qualidades
de serviços não triviais. Para se utilizar
estes recursos compartilhados é necessário
que existam padrões e uma infra-estrutura
implementados, que gerenciam e controlam
as tarefas e os recursos disponíveis.
É necessário também que exista
um determinado conjunto de políticas
de
compartilhamento
dos
recursos
entre as entidades, formando uma ou
mais organizações virtuais (VO). E s s a s
organizações virtuais são responsáveis pelo
compartilhamento de recursos existente em
um ambiente de grade.
Conforme o conceito de grade
computacional se desenvolvia, foram
necessários o desenvolvimento de padrões,
ambientes, bibliotecas e middlewares que
possibilitassem a construção da mesma,
voltadas para a segurança, gerência de dados
e de execução e serviços. Da necessidade da
formalização dos padrões foi desenvolvida
a OGSA (Open Grid Services Architecture),
definindo um conjunto de capacidades e
comportamentos fundamentais em um
sistema em grade. Esta padronização foi
definida pelo Open Grid Forum4, uma
comunidade de usuários e desenvolvedores
visando padronizar a arquitetura de uma
grade.
No ambiente de computação em
grade, devem existir ferramentas para
gerenciamento e controle das tarefas e
dos recursos disponíveis em um ambiente
distribuído. Um conjunto de ferramentas
muito utilizado para gerenciar domínios
distintos é o Globus Toolkit5. O Globus
Toolkit versão 4 (GT4) (FOSTER, 2005)
é uma ferramenta bastante estudada e
utilizada em vários projetos, dentre eles o
projeto IntegraEpi (SILVA et al, 2007).
O objetivo do projeto IntegraEpi
4
5
é auxiliar os estudos de doenças
epidemiológicas como a dengue. Este projeto
teve em seu início o objetivo auxiliar os
estudos de doenças epidemiológicas como
a dengue usando as bases de dados das
secretarias de saúde e que usando uma
modelagem simular cenários que pudessem
ser usados para inferir, por exemplo,
como ocorreria o avanço da doença nas
várias regiões de uma cidade. Esse projeto
desenvolvido por um grupo de pesquisadores
de diferentes instituições originou uma
linha de pesquisa dentro das faculdades
COC (ANDRADE, 2008) (PESSOA, 2008)
(SILVA, 2008) (SOUZA, 2008) (THOMAZ,
2008).
Utilizando os componentes do GT4
foi desenvolvido como projeto o serviço de
simulação IntegraModel. O objetivo desse
serviço de simulação (GAGLIARDI, 2007)
foi desenvolver uma primeira versão do
mecanismo de previsão de epidemias do
sistema IntegraEPI baseando-se em modelos
epidêmicos para efetuar simulações a partir
de dados reais disponíveis (GAGLIARDI,
2006). Essas simulações, realizadas dentro
de um ambiente de grades computacionais,
tem por objetivo maior oferecer aos agentes
de saúde a capacidade de testar a eficácia
de diferentes reações antes que surtos reais
aconteçam ou mesmo decidir sobre um
conjunto de contramedidas possíveis que
podem ser estudadas previamente em uma
população virtual modelada a partir de dados
reais.
Este trabalho deu continuidade a um
particular serviço do IntegraEpi, o serviço de
simulação. Sendo assim, este trabalho teve
como objetivo criar uma forma de submeter
tarefas para o serviço de simulação dentro
de um ambiente de computação em grade de
forma mais simples, facilitando a maneira
como o usuário deste serviço realiza essa
tarefa hoje. Esse serviço deve apresentar uma
lista para a escolha de vários simuladores
www.gridforum.org/
www.globus.org
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
141
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
existentes no ambiente e, através da
criação de metadados que descrevem a
interface de comandos disponível para cada
módulo, escolher parâmetros e cenários
a serem simulados. Em seguida, o serviço
de simulação deve submeter essa tarefa ao
ambiente de grade, sempre fazendo uso
de escalonadores de tarefas previamente
configurados para distribuir tarefas aos
vários nós que compõem a grade.
Neste trabalho foi desenvolvida uma
interface do serviço de simulação utilizando
o conceito de web services. Em seguida, foi
utilizado para realização dos testes o módulo
de simulação da dengue IntegraModel que
realiza simulações para realizar a previsão de
epidemias de doenças infecto-contagiosas,
em particular a dengue.
Este artigo está organizado da
seguinte forma: na seção 2 são apresentados
as características principais de simuladores
que utilizam um ambiente de computação
em grade, em particular é descrito o serviço
de simulação IntegraModel do projeto
IntegraEpi que foi utilizado para a fase de
teste. Na seção 3 é apresentada a descrição do
desenvolvimento da interface desenvolvida
neste trabalho. Finalmente, os resultados,
as conclusões e propostas para continuidade
deste trabalho são apresentadas na seção 4.
2. Simulação Utilizando Serviços de
Computação Paralela e Distribuída
Em computação, simulação consiste
em empregar técnicas matemáticas com o
auxílio de computadores para imitar um
processo ou operação no mundo real. Em
uma simulação é possível estudar um sistema
modelado, verificando o seu funcionamento
e o seu comportamento.
A modelagem é feita utilizando um
modelo matemático, que tenta encontrar
soluções analíticas que permitam a previsão
do comportamento do sistema a partir de um
conjunto de parâmetros e condições iniciais.
Por depender da entrada de variáveis
142
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
para prever os estados da simulação, este ramo
de atividade exige uma grande capacidade
de processamento e armazenamento para
concluir seus cálculos. Este requisito se
encaixa perfeitamente na necessidade de se
utilizar um ambiente de grade computacional
para o processamento destes cálculos, assim
como para o compartilhamento do resultado.
Um dos projetos desenvolvidos para
se utilizar da estrutura de grade para realizar
simulações é o IntegraEPI, um sistema de
previsão e analise de epidemias que será
abordado no próxima subseção.
2.1. IntegraEPI
Por fazer parte do objetivo deste
trabalho, nesta seção será descrito o sistema
IntegraEPI. O IntegraEPI [SILVA et al,
2007] foi um projeto em conjunto entre os
programas de pós-graduação em Informática
e pós-graduação em Saúde Coletiva da
Universidade Católica de Santos e atualmente
abrange outras instituições como a Unifesp,
Faculdades COC de Ribeirão Preto, Secretaria
Municipal de Santos, Secretaria Municipal
de Saúde de São Paulo e a Superintendência
de Controle de Epidemias (SUCEN).
Seu objetivo é o desenvolvimento de
um sistema distribuído em larga escala de
tempo-espaço de integração, visualização,
monitoramento, modelagem e análise
de dados epidemiológicos com base na
tecnologia de Grade.
Dentro deste projeto, o serviço de
simulação do IntegraEPI, denominado
IntegraModel. Este módulo de simulação,
IntegraModel, vem sendo construído para
agir como um mecanismo de execução de
simulações que servirão para a previsão
do comportamento de doenças infectocontagiosas tendo como aplicações modelos
epidêmicos.
A Figura 1 apresenta um esquema
simplificado da arquitetura do IntegraEPI.
É dado foco principalmente em três
componentes: o serviço de dados e integração
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
no grid GISE (Grid Integration Service)
(GALLO, 2007), o serviço de simulação
IntegraModel, e o serviço de Análise
IntegraAnalysis (REZENDE et al, 2006).
indicadores capazes de determinar o risco de
alguma doença se transformar em epidemia.
O IntegraModel é o módulo
responsável pelas simulações dentro do
Figura 1: Arquitetura do Sistema IntegraEPI
simplificada
Fonte: CAVICCHIOLI, GAGLIARDI et al, 2006
(apud GAGLIARDI, 2007).
IntegraEPI, sendo ele dividido em duas
partes: um simulador do modelo da
dengue desenvolvido na linguagem C de
programação, e o serviço de simulação capaz
de receber as requisições de clientes para
processar tarefas submetidas pelos clientes.
Para
fazer
uso
do
serviço
IntegraModel, o cliente deverá informar três
parâmetros em um arquivo de configuração
ao método que desejar, sendo eles: a
máquina onde se pretende submeter a tarefa
(que pode ser tanto a máquina que hospeda
o serviço em si ou um front end), a cidade
em que se deseja simular e os parâmetros do
modelo desejado, respectivamente.
O serviço de simulação realiza as
transferências dos arquivos necessários para
a simulação (como os mapas das cidades
entre outros) utilizando uma classe cliente
do GridFTP.
O GISE é um serviço de integração de
dados que através de mediadores, wrappers
e modelos de dados canônicos, é capaz
de realizar consultas de dados em fontes
heterogêneas e distribuídas, de maneira
integrada. Ele mapeia todas as fontes de
dados envolvidas em um modelo comum,
encapsulando as diferenças sintáticas e
estruturais, através de um arquivo XML.
Desta forma, ele interage com os serviços do
OGSA-DAI para realizar consultas, inserções
e atualizações nos dados presentes no Banco
de Dados.
O Módulo de Análise é o componente
responsável em analisar os dados da
simulação,
gerando
informações
e
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
143
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
2.1.1.Descrição da Simulação
Serviço IntegraModel
no
O primeiro evento que ocorre da
interação do cliente com o serviço de
simulação é a autenticação dele através
do Serviço de Delegação, responsável pela
delegação das credenciais necessárias
durante o processo de stage in e stage out.
O serviço de simulação, após o
recebimento da mensagem do cliente, busca
os dados necessários para a configuração
da rede na qual a simulação deverá
ocorrer. Estes dados configurarão o Modelo
Comum de Dados (MDC), que apresenta
dados referentes à
região na qual se
está executando a
simulação.
Com
os
dados
necessários
para executar uma
simulação na cidade
desejada,
uma
instância de um
cliente WS-GRAM
(Web Service Grid
Resource Allocation
and Management)
é criada com a
definição
das
tarefas
que
se
pretende executar.
Esta instância é
responsável
pela
submissão
deste
conjunto de tarefas
ao adaptador do
serviço GRAM, que
se encarrega de
distribuir as requisições aos escalonadores de
tarefas locais que se encontrarem disponíveis.
A Figura 2 representa esquematicamente
a forma como uma execução do serviço
IntegraModel é realizada. Nesta figura é
representada a ordem em que ocorre cada
evento através de numeração.
144
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Os parâmetros do simulador são
passados para a instância da classe GRAM
através de um vetor de string contendo seus
valores. Desta forma, eles são armazenados
como os parâmetros da simulação na
instância JDT (Job Description Type), que
contém a descrição dos parâmetros para a
simulação (tais como o executável, a saída
padrão e o erro padrão).
Os parâmetros do simulador referemse a propriedades para a configuração da
população de humanos e mosquitos, no
caso do IntegraModel. Esses parâmetros
configuram as regras de interação adequadas
para se efetuar a simulação.
Figura 2: A execução do serviço IntegraModel
Fonte: GAGLIARDI, 2007.
A simulação é então executada e seus
resultados, que contém informações sobre
o número de pessoas em cada estado a cada
dia da simulação para cada realização e
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
dados referentes à posição no espaço de cada
novo humano infectado que surge durante
a simulação, são registrados no serviço de
réplica RLS (Replica Location Service).
O serviço retorna um nome lógico
LFN (Logical File Name) para a aplicação
recuperar o conjunto de resultados que
foram obtidos. Na seqüência o cliente então
passa a recuperar os arquivos que podem
estar distribuídos por toda a grade através
do serviço GridFTP. A partir disto, o cliente
trata as informações recuperadas conforme
achar necessário.
3. Desenvolvimento da Interface de
Submissão
Tendo apresentado como são
submetidas tarefas para realização de
simulação pelo serviço IntegraModel em um
ambiente de computação em grade usando
o GT4, agora será apresentado o trabalho
desenvolvido neste projeto.
Para serem feitas as simulações
através
do
módulo
de
simulação
epidemiológica IntegraModel é necessário
passar os dados para construir a entrada que
irá descrever a configuração da rede para o
cenário da dengue.
Com a utilização de metadados
necessários para descrever os parâmetros
dos simuladores que o IntegraModel utiliza,
é criado uma parametrização da submissão
de tarefas para o simulador. Cada modelo de
simulador tem seu conjunto de parâmetros,
sendo que cada documento contendo os
parâmetros são diferentes uns dos outros.
Desta forma, mesmo mudando o documento,
o simulador consegue se adaptar a ele através
de sua sintaxe.
O IntegraModel funciona como um
mediador entre a requisição de um cliente que
deseja fazer uma simulação de algum modelo
epidemiológico e os sistemas que executarão
as simulações que forem enviadas a ele. Ele
faz a interação com o simulador através de
um documento denominado IntegraModel
Definition Document, que contém o modelo
de dados da doença a ser simulada e as
informações básicas necessárias para cada
simulador ser implantado como um recurso
da grade (GALLO et al, 2007).
Para que esses dados sejam utilizados
corretamente como parâmetros de uma
simulação, se faz necessário realizar uma
validação deles para executar uma simulação.
A proposta de desenvolvimento se
refere à criação de uma interface de validação
dos parâmetros, fornecendo os meios para se
verificar os valores fornecidos pelo cliente a
fim de facilitar e padronizar a submissão de
tarefas para a grade computacional.
Para que seja efetuada uma simulação
de um cenário de epidemias, é necessário
que o cliente passe ao simulador alguns
parâmetros de configuração. Como exemplo
de parâmetros para executar a simulação,
no caso do IntegraModel, pode-se citar
o número de realizações da simulação,
a largura da rede dos humanos e dos
mosquitos, a altura da rede dos humanos e
dos mosquitos, probabilidade de mobilidade
global dos humanos e dos mosquitos, tempo
de vida dos mosquitos, entre outros.
Em um ambiente de grade
computacional que estivesse disponível
um conjunto de vários simuladores, cada
simulador teria seus próprios parâmetros
de execução para simulações, não sendo
necessariamente os mesmos.
Atualmente esses parâmetros são
configurados no cliente do serviço e passados
como um vetor de string na classe do
ClientGram para a execução da simulação.
Desta forma, é possível que se passem
parâmetros fora da especificação ou até
mesmo inconsistentes com os esperados pelo
serviço, fazendo com que a simulação seja
executada com esses parâmetros, obviamente
levando a erros detectados apenas durante a
execução do simulador. Este cenário causaria
uma perda de tempo e recursos que seriam
alocados para a submissão da simulação.
Portanto, utilizando o modelo
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
145
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
comum de dados para a simulação faz com
que o serviço de simulação seja capaz de
validar qualquer conjunto de parâmetros
informados a partir das regras descritas
no documento XML daquele simulador,
deixando de ser particular de cada modelo,
passando a se moldar ao contexto de cada
simulador.
Através da criação de metadados
XML (eXtensible Markup Language) que
descrevem os parâmetros do simulador e do
desenvolvimento de uma interface que valida
esses parâmetros, é possível se verificar os
parâmetros antes de mandar a simulação ser
executada.
A Figura 3 mostra o diagrama de classe
para o validador. Através deste diagrama
podemos observar que o validador possui
dois atributos: o esquema, do tipo Schema,
contendo as definições para os parâmetros, e
o documento, do tipo Document, que possui
o XML com os parâmetros.
Figura 3: Diagrama de Classes do Validador
Pode-se observar também que o
validador possui três métodos. O primeiro
método, loadSchema, carrega o arquivo
contendo o schema, cujo o caminho é passado
através da string, retornando o documento
Schema.
O método parseXMLDom é utilizado
para gerar um documento descrevendo
a estrutura em árvore do arquivo XML
informado.
O método validarXML, através de
um schema e um documento contendo a
estrutura do XML, confronta os valores
descritos no XML com os definidos no
146
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
schema. Caso os dados contidos no XML
estejam de acordo com o schema, a instância
do validador retorna um valor lógico true.
Em caso onde os valores não forem válidos,
será retornado false e uma mensagem será
mostrada indicando o parâmetro inválido e
o motivo.
Figura 4: Diagrama de Classes do Serviço
IntegraModel
O cliente do serviço envia ao
simulador o arquivo XML contendo os
parâmetros a serem simulados. Nele são
passados parâmetros que descrevem a
entrada, a descrição da população de
humanos e mosquitos, e o arquivo de saída.
Através do componente parse, o
objeto da classe validadora verifica os
valores de acordo com o esquema. Caso os
valores estejam de acordo com os esperados
pelo simulador, uma resposta positiva é
enviada ao cliente, confirmando a submissão
da simulação pelo GRAM e o início da sua
execução. Caso algum parâmetro estiver fora
da especificação, a resposta do validador ao
cliente será uma mensagem informando qual
parâmetro está inválido e o seu valor.
Na Figura 4 é mostrado o diagrama
de classes do serviço IntegraModel,
mostrando como o serviço utiliza as classes
que implementam o ambiente de grade
computacional.
Podemos verificar a utilização da
classe validadora pelo serviço. O serviço
utiliza uma instância da classe para verificar
os parâmetros, submetendo a tarefa. Com
isso, é possível generalizar a submissão para
qualquer simulador disponível. A partir de
um XML escrito através de um esquema
que descreve quaisquer parâmetros, se
consegue que cada requisição seja validada
antes de mandar iniciar a simulação,
evitando-se assim o desperdício de recursos
computacionais caso a simulação fosse
iniciada com parâmetros inválidos.
Com a utilização de metadados,
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
o cliente passa a interagir melhor com o
serviço. É possível, por exemplo, adaptar
a sua interface para criar a requisição de
acordo com os documentos XML. Para
os parâmetros e seus respectivos tipos e
intervalos aceitos, a interface desenvolvida
neste trabalho permitiu ao cliente de um
simulador de doenças epidemiológicas
Figura 4: Diagrama de Classes do Serviço IntegraModel
cada simulador, seriam mostrados quais
parâmetros são necessários, de acordo com
os metadados.
4. Resultados e Conclusões
Através da utilização de metadados
descritivos dos parâmetros, indicando
fazer uma validação dos dados antes da
submissão da tarefa. Demonstrou-se que é
possível evitar que recursos computacionais
pertencentes à grade computacional fossem
desperdiçados. Também se tornou possível
uma forma mais simples e padronizada para
o cliente submeter tarefas da simulação,
facilitando como o usuário deste serviço
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
147
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
realiza a interação com o simulador.
Foi possível uma interoperabilidade
proporcionada pelo uso de XML, trazendo
benefícios ao sistema. A interação entre
os módulos ficou padronizada, facilitando
o desenvolvimento de novos simuladores,
não sendo necessário mudar o cliente ou o
serviço.
Sendo assim a modularização dos
simuladores a partir de uma interface
de simulação unificada faz com que o
IntegraModel torne-se um serviço de
simulação de uso geral.
A interface desenvolvida neste
trabalho focou apenas o módulo de previsão
da dengue do IntegraModel. Para que todos
os módulos de previsão de doenças possam
se utilizar desta implementação é necessário
generalizar os metadados dos parâmetros,
tornando possível que todos os módulos se
utilizem desta interface. O schema trata de
definir o que cada campo do XML representa
em termos de parâmetros, de acordo com a
necessidade de cada simulador.
A partir disto, torna-se interessante
o desenvolvimento da interface do cliente se
adaptando aos documentos, facilitando a sua
interação com o usuário. O cliente, a partir
do esquema XML, mostraria os parâmetros
esperados e as suas restrições.
Como continuação deste trabalho
o schema poderia se tornar ainda mais
geral, podendo servir para qualquer tipo
de simulação. Não seria especificado para
nenhum tipo de simulação, descrevendo
os parâmetros de acordo com o simulador
especificado.
Com base no serviço de simulação,
pode-se criar um mecanismo para lidar
com as requisições do cliente diante dos
valores informados, considerando-se a
disponibilidade de recursos, consumo de
memória e processamento, tornando assim o
serviço mais eficiente para o cliente.
148
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Desenvolvimento de um Serviço de Simulação para um Ambiente de Grade Computacional
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
149
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
Diego R. Moraes¹
Jean-Jacques De Groote²
RESUMO
Neste trabalho é apresentado um
sistema para automatização do procedimento
de identificação e classificação de defeitos
em superfícies metálicas, utilizando técnicas
de Processamento Digital de Imagens e
Inteligência Artificial. Peças metálicas
desenvolvidas com o propósito de oferecer
superfícies de contato para equipamentos
industriais são submetidas a testes para
identificar defeitos que podem comprometer
seu desempenho. Uma norma de qualidade
específica, PT 70-3, que estabelece os padrões
de classificação destes defeitos, é utilizada
como base por inspetores de qualidade na
seleção de peças que podem ser aproveitadas,
ou que devem ser reparadas. Este processo,
que exige precisão, é realizado por meio
de processos manuais por inspetores de
qualidade. O aplicativo desenvolvido neste
trabalho recebe como entrada a imagem da
superfície da peça a ser analisada e, por meio
de algoritmos de segmentação, ajusta sua
escala (pixel/mm) e identifica os defeitos,
permitindo ao operador a realização de
medições de área, largura, altura e distâncias
entre os defeitos. Baseado nas restrições
da norma e, de acordo com as medições
realizadas, o sistema é capaz de classificar os
defeitos de forma rápida e precisa.
ABSTRACT
This paper presents a system for
automatic identification and classification
of defects on metal surfaces using digital
image processing techniques and artificial
intelligence. Metal parts developed to
provide contact surfaces for industrial
equipment are subjected to tests to
identify defects that may compromise
their performance. A specific quality
standard, PT 70-3, which establishes defects
classification standards, is used by quality
inspectors to select pieces that can be used,
or have to be repaired. This process, which
requires precision, is accomplished through
manual processes by quality inspectors.
The application developed in this work
takes as input the surface image of the part
to be examined and, through algorithm
segmentation, adjusts its scale (pixels /
mm) and identifies the defects, allowing
the operator to perform area, width, height
and distances measurements between
them. Based on the standard constraints
and, according to measurements made, the
system is capable of quickly and accurately
classify defects .
1. Introdução
O processo de análise da superfície de
peças metálicas industriais hoje é realizado
manualmente por inspetores de qualidade.
A área de inspeção de qualidade tem muita
importância nas empresas que cumprem
normas nacionais e internacionais. Este
trabalho baseia-se na norma PT 70-3,
referente à inspeção de qualidade com
líquido penetrante, processo por meio
do qual se identifica e classifica defeitos
na superfície de peças industriais, sem
¹ Bolsista do Programa de Iniciação Científica do UniSEB- COC. Ribeirão Preto- SP. diego[email protected]
² Docente do UniSEB- COC. Ribeirão Preto- SP.
150
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
limitações de tipo de material, tamanho ou
forma da peça, exceto para materiais porosos
(ANDREUCCI, 2008).
Considerando que a classificação da
norma PT 70-3 baseia-se em critérios de
dimensões milimétricas, o processo torna-se
vulnerável ao erro do operador na análise de
fotos, que pode ser agravado pela repetição,
baixa qualidade da imagem, iluminação,
brilho, distorção, entre outros.
O produto utilizado como teste no
desenvolvimento deste trabalho é o casquilho
de bronze, também conhecido como bucha
de bronze, que também deve seguir as
especificações da norma. Os casquilhos são,
em geral, corpos cilíndricos que envolvem os
eixos, permitindo-lhes uma melhor rotação.
São feitos de materiais macios, como o
bronze e ligas de metais leves (BIGATON,
2007).
O uso de casquilhos e de lubrificantes
permite a redução do atrito, melhorando
a rotação do eixo. Por isso, dá-se muita
importância ao processo de inspeção de
qualidade de sua fabricação, onde qualquer
imperfeição pode aumentar o esforço, o
que causa maior atrito e ocasiona um maior
desgaste do eixo.
A proposta deste trabalho envolve
a utilização de técnicas de Processamento
Digital de Imagens (PDI) e Inteligência
Artificial (IA), na elaboração de um software,
desenvolvido para auxiliar os inspetores de
qualidade na identificação e classificação
de defeitos na superfície de peças metálicas
industriais, com base na norma de qualidade
PT 70-3, automatizando o processo de
análise.
2. Metodologia
A técnica de identificação de defeitos
em estruturas metálicas por líquido
penetrante pode ser descrita em seis etapas,
-Preparação da superfície: limpeza
da superfície;
- Aplicação do penetrante: aplicação
do liquido na superfície, geralmente de cor
avermelhada;
- Remoção do excesso do penetrante;
- Revelação: aplica-se um revelador,
usualmente pó ou aerosol de cor branca;
-Avaliação e inspeção: é realizada
visualmente pelo inspetor de qualidade e
classificada de acordo com a norma. No final
é preparado um relatório técnico;
- Limpeza pós ensaio.
Para classificar os defeitos em uma
imagem digital de acordo com a norma
padrão, é necessário inicialmente realizar
um processo de segmentação.
Uma investigação da aplicação
das técnicas de PDI mostrou que, embora
sejam aplicadas a diferentes objetos,
problemas de segmentação em estruturas
de formas semelhantes são encontrados
em áreas como medicina (CALDAS, 2005)
(AZEVEDO-MARQUES, 2001), agricultura
(TEIXEIRA, CICERO, NETO, 2006)
(KHATCHATOURIAN; PADILHA, 2008)
(LINO, SANCHES, FABBRO, 2008) e
industrial (CONCI, SEGENREICH, 1999)
(ALMEIDA; CORSO; JUNIOR, 2009)
(JUNIOR, et al, 2005) (GOMES et al, 2008).
A pesquisa foi dividida em duas fases,
a primeira foi a implementação de técnicas
de PDI e IA para teste e análise de diferentes
algoritmos de segmentação (GONZALEZ;
WOODS, 2008) (FILHO; NETO, 1999)
(KOVÁCS, 2006), utilizados como entrada
para a segunda fase, responsável pela
identificação e classificação dos defeitos em
superfícies metálicas industriais.
Em paralelo, foi realizado o estudo
detalhado da norma de qualidade PT 703, que é dividida em cinco classes, melhor
compreendida na Tabela 1, sendo que para
diferi-las, é necessário analisar cinco critérios
de dimensão com precisão milimétrica:
limiaridade, arredondamento, linearidade,
alinhamento e área total de defeitos na
superfície (ANDREUCCI, 2008).
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
151
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
Tabela 1: critérios das classes da norma PT 70-3.
Para o desenvolvimento do sistema
foi utilizado o IDE Delphi, produzido
pela Borland Software Corporation, que
utiliza a linguagem de programação Object
Pascal. Esta escolha foi baseada na grande
versatilidade desta plataforma, que permite
a aquisição eficiente das imagens de
câmeras digitais e o processamento destas
em tempo real. Os algoritmos de PDI e IA
foram desenvolvidos ao longo da pesquisa,
o que permitiu um maior controle sobre os
resultados obtidos, e sobre as variações nos
algoritmos.
As
imagens
utilizadas
foram
adquiridas por meio de uma câmera digital
HP PhotoSmart R727, com resolução 6.2
megapixel e armazenadas no formato JPEG.
Um exemplo é apresentado na Fig. 1.
Parametrização, que é fundamental para o
processo de classificação, pois é a responsável
pela segmentação da imagem e pela definição
da escala de pixel/mm (quantos pixels
correspondem a um milímetro). Foi dividida
em três passos, são eles,
- Escala pixel/mm: como referência
foi utilizado um marcador quadrado de
papel impresso na cor verde, com 10 mm de
largura por 10 mm de altura, ou seja, uma
área de 100 mm2. Neste passo, o aplicativo
segmenta a imagem deixando apenas os
pixels com valor de R/G próximos a 0.4, ou
seja, os pixels correspondentes à referência
(cor verde ). Após a segmentação, faz-se uma
contagem desses pixels (QtP) e calcula-se o
fator de a escala f linear como,
(1)
e de área, fa como,
(2)
Estes valores são armazenados em
variáveis globais para cálculos futuros de
largura, altura e área dos defeitos.
Figura 1: amostra de imagem com dimensões de
1792x1312, no formato de cores RGB de 24 bits.
3. Desenvolvimento
A primeira etapa para execução deste
trabalho é a aquisição das imagens que serão
processadas pelo aplicativo desenvolvido
com as ferramentas de segmentação e
classificação.
Dentre
as
ferramentas
implementadas, utiliza-se inicialmente a
152
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
- Segmentação dos defeitos: permitese a escolha de dois algoritmos, segmentação
com relação à razão de R/G ou por Rede
Neural. A razão R/G agora limita os valores
de interesse para a faixa entre 1.5 e 2.0 (Fig.
2), valores que representam os defeitos
(tom avermelhado). Esta segmentação foi
possível, pois o fundo da imagem tem valores
de R/G próximos a 1.0. Para a Rede Neural,
técnica de Inteligência Artificial, foi utilizado
Perceptron de camada simples.
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
dimensões, o algoritmo libera o processo de
classificação, que é realizado de acordo com a
norma. A saída pode ser observada na barra
de status (Fig. 3).
Figura 2: processo de segmentação dos defeitos.
Figura 3: barra de status do processo de
classificação.
- Binarização: binariza a imagem
em preto (0) e branco (255), sendo que a
imagem é facilmente
segmentada devido
ao contraste entre o
fundo e os defeitos.
A
binarização
é
um elemento facilitador para os próximos
algoritmos, como por exemplo o Flood.
Após o processo de parametrização,
o aplicativo disponibiliza um processo
para determinação de dimensões. Para
comprimento, a cada dois cliques simples
do mouse é traçada uma reta e calculado
seu comprimento por meio da distância
euclidiana, ou seja,
Após o processo de classificação, o
sistema permite a execução de um relatório
(Fig. 4), que tem a função de documentar
toda a análise realizada pelo aplicativo.
Muito utilizado no dia-a-dia dos inspetores,
estes relatórios devem ser apresentados para
seus supervisores e posteriormente para seus
clientes.
A largura e a altura de estruturas
podem ser identificadas por meio deste
processo. Para determinação da área, um
clique duplo marca e calcula a área do defeito
selecionado, por meio da técnica de PDI
flood, onde os vizinhos ao pixel selecionado
são marcados até a borda do defeito, como
em um processo de inundação.
Após o processo de aquisição das
Figura 4: exemplo de relatório após análise do
aplicativo.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
153
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
4. Resultados
Com o desenvolvimento deste
sistema, foi possível alcançar diversos
resultados, são eles:
- Tempo para Análise e Registro:
Considerando que o teste de líquido
penetrante consiste no resultado de reações
químicas e físicas, existe um tempo limite
para o ensaio ser considerado confiável.
Nos casos em que existe uma quantidade
significativa a ser analisada, o processo de
registro dos defeitos deve ser feito de forma
mais rápida, o que pode comprometer a
integridade do ensaio.
Utilizando o aplicativo, as imagens
podem ser capturadas imediatamente e
investigadas posteriormente, incluindo a
geração de relatórios. No caso de perda
desses relatórios, é suficiente a realização
de uma nova análise pelo software, sem a
necessidade de repetir o ensaio de líquido
penetrante, ou seja, sem aumento de custos
e perda de tempo.
- Área do Defeito: Atualmente não
é possível calcular manualmente a área
precisa de cada defeito e conseqüentemente
a área total na superfície analisada; isto
ocorre porque os defeitos são de formas
indefinidas. Sendo assim, estes valores
precisam ser estimados por meio de formas
definidas (enquadramento), o que influencia
negativamente no item cinco da norma, que
compara a área total dos defeitos analisados
com um valor limitado pela sua classe,
podendo reprovar defeitos que estariam
aprovados.
Com o auxílio do aplicativo, esta área
é estimada com melhor precisão, pois quanto
mais precisa a escala (pixel/mm), mais
precisa será a área.
- Agilidade na Comparação com as
Classes da Norma: Depois de encontradas
e registradas as características dos defeitos,
faz-se necessário comparar com as classes da
norma PT 70-3, processo também custoso
dependendo do número de defeitos a ser
154
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
analisado, ou ainda, passível de falhas nas
comparações.
Portanto,
outra
vantagem
do
aplicativo é a velocidade na comparação com
tais classes da norma, pois os valores além
de não poderem ser alterados, o processo
computacional é bem mais rápido do que o
humano.
- Estimativa de Precisão: Neste
trabalho, a precisão é dependente do
processo de escala, ou seja, quantos pixels
representam um milímetro. Quanto mais
preciso for esta referência, melhores serão os
resultados.
Portanto, devem-se tomar alguns
cuidados na aquisição das imagens, como
por exemplo, a posição da câmera com a
referência (marcador quadrado verde). Esta
posição deve ser normal (90º) à superfície
analisada. Para qualquer outro ângulo
diferente deste, não será possível manter
a escala cartesiana uniforme (x, y), o que
diminuiria a precisão da análise.
Neste trabalho, fica difícil calcular
a sua precisão, pois, para encontrar uma
taxa de erro mais apurada, se faz necessário
calcular a média de várias contagens
manuais, por humanos diferentes. Em
contrapartida, para estimar esta precisão,
foi adicionada uma trena (fita métrica), no
momento da aquisição das imagens.
Os
valores
encontrados
pelo
aplicativo são comparados com os valores
analisados visualmente com a ajuda da
trena. Entretanto, serão comparados apenas
os valores referentes à largura e altura
dos defeitos, pois conforme mencionado
anteriormente, na prática, o cálculo manual
das áreas é aproximado devido às formas
serem indefinidas. A Tabela 2 apresenta esta
comparação.
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
Tabela 2: comparação dos valores: Manuais
(trena/metro) x Algoritmo R/G x Rede Neural
(Perceptron 1 camada).
5. Conclusão
Neste trabalho foi desenvolvido um
aplicativo baseado em técnicas de PDI, para
auxiliar a identificação e a classificação de
defeitos em superfícies metálicas industriais,
de acordo com a norma de qualidade PT 703.
Foi realizada uma pesquisa e
interpretação desta, e também uma pesquisa
em PDI, onde a mesma deu origem a um
aplicativo capaz de permitir a utilização de
algoritmos adaptados ao sistema analisado.
Um estudo mais aprofundado nesta área
somado ao aplicativo inicial deu origem ao
processamento das imagens para a extração
de informações, por meio de algoritmos
de segmentação, removendo o fundo e
destacando os defeitos, técnicas como razão
R/G e Rede Neural com Perceptron de 1
camada.
Outros
algoritmos
foram
implementados, como Flood, técnica
responsável pela detecção e contagem do
número de pixels da área dos defeitos, e
também um algoritmo para o cálculo da
distância entre os pixels. Para este, foi
tomada como base a distância euclidiana,
o que aumenta ainda mais a precisão das
análises.
Por último, foi desenvolvido um
protocolo para comparar as características
encontradas dos defeitos com as classes da
norma, informando como saída a aprovação
ou reprovação individual do defeito
analisado. Com todos os resultados obtidos
pelo diagnóstico, foi possível gerar um
relatório composto por dados e imagem dos
defeitos.
Com o auxílio deste aplicativo, além
de automatizar o processo, reduzindo tempo
e custo, pode-se melhorar a qualidade da
imagem e ainda aumentar a precisão das
análises e classificações, quando comparado
ao processo de análise convencional que é
realizado manualmente e a olho nu.
6. Agradecimentos
Agradecemos ao apoio, incentivo
e
financiamento
a
esta
pesquisa
proporcionados pelo Programa Institucional
de Iniciação Científica do UniSEB-COC de
Ribeirão Preto.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
155
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Identificação e classificação automática de defeitos em superfícies metálicas industriais
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
157
Classificação e segmentação de pêssegos
utilizando imagens digitais
Tiago F. Valério¹
Paulo César de C. Dias²
Lúcio André de Castro Jorge³
RESUMO
O pêssego ainda é uma cultura
muito recente no mercado brasileiro e o seu
consumo ainda é bastante pequeno. A fruta
precisa de uma referência de qualidade única
no país para poder competir igualmente
no mercado internacional. O objetivo
desse trabalho é propor uma solução para
automatizar a metodologia de classificação
proposta pelo Programa Brasileiro para a
Modernização da Horticultura (CEAGESP,
2004) através do protótipo de um sistema
de visão computacional que classifica a fruta
de acordo com sua cor e forma utilizando-se
da linguagem Java para o desenvolvimento
do protótipo e das bibliotecas JAI e ImageJ
para o armazenamento e manipulação da
imagem, além da API WEKA (Waikato
Environment for Knowledge Analysis) para
implementação da rede neural utilizada
nesse trabalho. O protótipo do sistema
desenvolvido mostrou-se efetivo, efetuando a
classificação de imagem de pêssego de forma
satisfatória após um treinamento correto da
rede neural.
ABSTRACT
The peach is a new culture in the
Brazilian market and its consumption is
still quite small. The fruit needs a single
reference for quality in the country to
compete in the international market. The
aim of this study is to propose a solution
to automate the classification methodology
proposed by the Brazilian Program for the
Modernization of Horticulture (CEAGESP,
2004) through the prototype of a computer
vision system that classifies fruit according
to its color and shape using Java language
for prototype development and JAI and
ImageJ libraries for image manipulation
and storage, plus the API WEKA (Waikato
Environment for Knowledge Analysis) for
implementation of neural network used in
this work. The prototype system developed
was effective, making the classification of an
image of peach satisfactorily after a proper
training of the neural network.
1. Introdução
As exportações de produtos agrícolas
representam um montante significativo da
economia brasileira e a melhora da qualidade
desses produtos torna-se fator vital para
aumentar a qualidade na competitividade
nesse setor. No Brasil, especificamente
no caso de produtos da Horticultura, há o
Programa Brasileiro para a Modernização
da Horticultura (CEAGESP, 2004) que
desde 1997 busca a melhoria da qualidade
por meio da padronização dos preços de
comercialização e a adoção de normas de
classificação.
O pêssego e a nectarina (uma
mutação do pêssego com epiderme glabra,
sem pilosidade) são frutos com um modesto
consumo entre os brasileiros (apenas um
¹ Academico do Curso de Ciência da Computação UniSEB-Coc, bolsista do PIBIC [email protected];
² Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade de São Paulo Docente e coordenador de curso da UniSEB-COC
[email protected];
³ Pesquisador Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Docente do UNISEB –Coc. [email protected]
158
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
quilograma per capita ao ano é consumido
em média, somando-se a quantidade do
fruto fresco e processado (CEAGESP; PBMH
& PIF, 2008)). A produção de pêssego no
Brasil, em 2005, superou a marca de 235 mil
toneladas distribuída em 22.435 hectares,
sendo o estado de São Paulo o segundo maior
produtor da fruta no país perdendo apenas
para o Rio Grande do Sul (CEAGESP; PBMH
& PIF, 2008).
O protótipo proposto por este
trabalho foi criado com base em algumas
características em que o pêssego pode ser
classificado, em conformidade com a carte
de apresentação da CEAGESP.
Devido à importância dessa área
em nosso país, os estudos para aumentar
a qualidade desses produtos tornam-se
um fator estratégico. Várias empresas pelo
mundo utilizam o PDI (Processamento
digital de imagens) para obter maior
qualidade nos processos e em seus produtos,
como é o caso de (STIVANELLO, 200), onde
foram utilizados descritores de Fourier como
descritor de forma em conjunto com redes
neurais para inspeção industrial.
De acordo com as normas de
classificação, definidas graças à iniciativa da
CEAGESP em conjunto com a EMBRAPA
Clima Temperado e Uva e Vinho, existem
Figura 1 – Grupo pêssego e nectarina.
Fonte: CEAGESP; PBMH & PIF, 2008.
O agrupamento por classe que a fruta
em questão pode pertencer está diretamente
ligado ao calibre ou ao peso da fruta. O
agrupamento por classe é utilizado para
definir um tamanho semelhante por lote. Se
o calibre for utilizado como medida, utilizamse as medidas apresentadas na Figura 2
definidas pela norma de classificação. Há
também uma tolerância entre as classes,
como ilustra a figura. Porém, se a medida de
classe utilizada for o peso, faz-se necessário o
cálculo do peso médio das frutas e informar o
tipo que significa o número de frutos em uma
camada da caixa, não importando quantas
camadas existam em uma caixa.
certas c aracterísticas em que pode ser
agrupada a fruta como: grupo, sua coloração
de polpa (subgrupo), tamanho (classe), e sua
categoria (qualidade) (CEAGESP; PBMH &
PIF, 2008). Na Figura 1 pode-se ver o grupo
(cultivares com características parecidas) em
que se enquadra o pêssego e a nectarina, que
são da espécie Prumus pérsica (L.).
Figura 2 – Medidas para classificação
por calibre do pêssego e nectarina.
Fonte: CEAGESP; PBMH & PIF, 2008
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
159
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
Relacionado com a classe, existe
ainda a característica de subclasse, que
agrupa a fruta pelo estado de maturidade, um
fator muito importante para evitar defeitos
na fruta, estados esses que dependem da
coloração da fruta no momento da coleta,
definidos como Creme esverdeado, Amarelo
creme, Amarelo e Alaranjado.
Por fim, um dos mais importantes
critérios para avaliar o pêssego é a sua
categoria (qualidade). O fator que se
relaciona diretamente à categoria é o defeito
da fruta que, de acordo com a (CEAGESP;
PBMH & PIF, 2008), pode ser categorizado
como grave, leve ou variável, podendo ser
causado por diversos fatores como alteração
interna por frio, rompimento da epiderme
do fruto, perda de água dos tecidos do fruto,
fruto colhido antes de alcançar o estágio
ideal, etc. A norma de classificação define
ainda que o fruto que contenha algum defeito
grave deve ser eliminado antes que o mesmo
seja embalado.
A Figura 3 ilustra os defeitos graves
que inviabilizam o consumo do pêssego e
pode ou não contaminar outros frutos. Esse
tipo de dano causa grande perda no valor
da fruta e as causas desses defeitos vão
desde condições climáticas até a ação de
microorganismos.
Figura 3 – Ilustração dos Defeitos graves da fruta.
Fonte: CEAGESP; PBMH & PIF, 2008
Também há os defeitos variáveis que
podem ser graves, leves ou desconsiderados
e são medidos em função da intensidade
em que ocorrem. Na Figura 4 podem-se
fitar os tipos de defeitos variáveis e como
são classificados de acordo com intensidade
ocorrida.
160
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
2. Metodologia
As imagens utilizadas para testes
foram disponibilizadas pela EMBRAPA
(Empresa
Brasileira
de
Pesquisa
Agropecuária)
e
foram
previamente
tratadas retirando-se o fundo da imagem e
diminuindo-se a resolução da mesma para
diminuir o tempo de processamento.
A classificação dos frutos foi realizada
utilizando-se de técnicas de PDI (GONZALEZ,
2010) juntamente com a criação de uma rede
neural artificial (BRAGA, 2007). O protótipo
fora desenvolvido na linguagem Java,
utilizando-se das bibliotecas ImageJ e JAI
para manipulação da imagem e da API do
Weka para a criação e manipulação da rede
neural.
2.1 Técnicas de PDI
2.1.1 Cor
Figura 4 – Ilustração dos Defeitos variáveis da
fruta.
Fonte: CEAGESP; PBMH & PIF, 2008
A pesquisa de novas tecnologias para
acentuar a qualidade vem a ser um fator
estratégico. Várias empresas pelo mundo já
utilizam técnicas para inspeção de qualidade
e classificação dos produtos na linha de
produção. O PDI é bastante utilizado para
classificar produtos como, por exemplo,
em Stivanello (2004) foram utilizados
descritores de Fourier como descritor de
forma em conjunto com redes neurais para
inspeção industrial.
A utilização de cores no proces
samento de imagens digitais tem uma grande
importância de acordo com Gonzalez (2010).
A representação de cores utiliza
modelos matemáticos. Um dos modelos
mais conhecidos é o modelo RGB. Este
modelo, baseando-se num sistema de
coordenadas cartesianas, é constituído pela
adição da mistura de três cores primárias:
Red (vermelho), Green (verde) e Blue (azul).
As cores primárias desse modelo são na
maioria das vezes utilizadas como referência
por dispositivos, pois formam a base de
um vetor ortogonal tridimensional onde o
vetor zero (ou origem, também conhecido
como “black point”) representa o preto.
Conseqüentemente, qualquer cor pode ser
encontrada por uma combinação linear
do vetor base no espaço RGB (KOSCHAN,
2008).
Embora o modelo RGB seja muito
utilizado por hardwares (monitores, câmeras
fotográficas, impressoras, etc.) e seja
fundamental para gerar imagens coloridas,
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
161
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
esse modelo pecam quando se trata de
descrever as cores para a interpretação
humana. Apesar de o olho humano adaptarse muito bem às cores primárias utilizadas
pelo modelo RGB, nós não enxergamos um
objeto imaginando qual é a porcentagem
de cada cor presente em um determinado
objeto e sim pensando em termos de matiz
(utilizado para descrever uma cor pura como,
por exemplo, o amarelo, o laranja, etc.), de
saturação (noção de diluição de uma cor pura
por luz branca) e brilho.
Sob esses princípios foi criado o
modelo HSI, hue (H), saturation (S) e
intensity (I), que utilizada exatamente a
idéia de percepção humana de cor e separa
a intensidade das informações de cor numa
imagem colorida. Tais características do
modelo HSI tornam-no um excelente modelo
para o desenvolvimento de algoritmos de
processamento de imagens (GONZALEZ,
2010).
Todos os modelos apresentados
até então são orientados ao hardware e,
em alguns casos, podem não satisfazer
as exigências requeridas. Por exemplo,
um modelo que representa uma cor em
um monitor, pode, após ser impresso,
representar uma cor diferente no papel. Isso
pode ocorrer por diversas razões e uma delas
é pelo simples fato de que o modelo não
esteja representando a cor corretamente, da
maneira que fora capturada pelo dispositivo
de entrada.
Para resolver esse problema, é
necessário que se faça da utilização de um
modelo independente de hardware que
represente todas as cores uniformemente,
como o modelo CIE La*b* ou Cielab
(GONZALEZ, 2010).
Neste trabalho as imagens foram
obtidas no modelo RGB e convertidas para
o modelo La*b*, cujas componentes podem
ser obtidas das equações 1 , 2 e 3, conforme
descrito por Gonzalez (2010):
162
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Sendo
2.1.2 Segmentação de Otsu
Neste trabalho foi utilizada a
operação de limiarização, ou segmentação,
utilizando o método de Otsu, um dos métodos
automáticos mais usados para definir um
limiar ótimo para identificar os objetos
numa imagem e classificá-lo corretamente.
Gonzalez (2010) afirma inclusive, que esse
método baseia-se inteiramente em cálculos
efetuados com base no histograma de uma
imagem.
Nas equações de 5 a 12 é apresentado
o cálculo da probabilidade de um pixel
pertencer a uma classe C1, a probabilidade de
um pixel pertencer a uma classe C2, o valor
da intensidade média dos pixels pertencentes
à classe C1 e a intensidade média dos pixels
pertences à classe C2, a intensidade média
de toda a imagem (dita intensidade global),
utilizados para avaliar a qualidade do
limiar em um nível k e a variância global de
intensidade e a variância entre classes, de
acordo com Gonzalez (2010) no método de
Otsu:
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
Ainda segundo Gonzalez (2010), a
idéia geral é transformar a representação da
fronteira 2-D numa função 1-D, tornando-a
mais fácil de descrever.
Nesse trabalho, a assinatura é
calculada tomando-se a distância euclidiana
do centro até o pixel de borda, variando-se
de 10o em 10o até totalizar 360o, obtendo-se
36 valores de distâncias. A representação da
aplicação do método descrito pode ser vista
na Figura 6, a qual representa a borda de um
pêssego.
2.1.3 Determinação da Forma pela
Assinatura
A assinatura, segundo Gonzalez
(2010), é uma função 1-D de uma fronteira
determinada na imagem e pode ser gerada
de várias formas. Umas das maneiras
mais simples e utilizada nesse trabalho, é
representada na Figura 5 abaixo.
Figura 6 – Aplicação do método assinatura em
uma imagem de pêssego.
2.2 Redes neurais
Figura 5 – Assinatura de distância em função do
ângulo.
Fonte: Gonzalez, 2010.
Redes neurais podem ser consideradas
como sistemas paralelos distribuídos e
podem ser compostas por uma ou várias
unidades de processamento (também
denominada de nodo ou neurônio) (Braga,
2000). Segundo Braga, quando se trata de
mais de uma unidade de processamento,
estas são dispostas em uma ou mais
camadas interligadas por meio de vários
números de conexões e associadas a pesos.
Tais pesos armazenam o conhecimento da
rede e servem também para balancear a(s)
entrada(s) recebida(s) por cada um dos
neurônios da rede. Braga afirma, inclusive,
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163
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
que as redes neurais são uma tentativa de
imitar o funcionamento do cérebro humano
e cada neurônio corresponde a um neurônio
do cérebro humano.
Para este trabalho foi utilizada uma
rede chamada de Multilayer Perceptron
(MLP), cuja representação pode ser vista na
Figura 7.
3.Os resultados da saída da rede são
comparados com os valores esperados para
as entradas utilizadas e o erro também é
calculado.
Fase backward:
1.Os pesos da última camada são
atualizados de acordo com o erro encontrado.
2.Os erros encontrados nos nodos da
última camada são propagados para a camada
anterior através dos pesos das conexões
entre as duas camadas, multiplicando o erro
pelo peso correspondente criando assim uma
estimativa do erro para cada nodo da camada
intermediária em questão.
3.Os erros encontrados para a camada
intermediária são utilizados para atualizar os
pesos dos nodos nessa camada.
4.O processo do passo 2 se repete,
até que todas as camadas tenham seus pesos
ajustados.
3. Arquitetura do sistema
Figura 7 – Representação de uma MLP.
Fonte: Russel 2004.
Esta rede possui duas fases: fase
forward, utilizada para calcular a saída da
rede, e a fase backward que utiliza a saída
obtida e a saída desejada para atualizar os
pesos da rede, utilizando a função de retro
propagação descrita por Braga (2007).
Fase forward:
1.
Os valores de entrada são
apresentados às respectivas camadas de
entrada da rede e as saídas da primeira
camada intermediária são calculadas.
2.
As saídas da primeira camada
intermediária irão prover as entradas da
segunda camada intermediária. A segunda
cama intermediária por sua vez, terá suas
saídas calculadas. Esse passo é efetuado até
que a última camada seja alcançada.
164
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Na Figura 8 tem-se um diagrama que
representa os passos implementados para
classificar uma imagem por cor ou por forma
utilizando a MLP proposta.
Figura 8 – Diagrama da estrutura do sistema.
Na abartura da imagem já são
convertidas as componentes de cor
posteriormente utilizadas na rede neural
para classificação por cor, é calculado o
limiar de Otsu para extração das bordas e
determinação da assinatura e posteriormente
utilizada na rede neural para análise por
forma.
Na Figura 9 podem ser vistos os
principais menus do sistema.
Figura 9 – Representação dos menus do
aplicativo.
O menu é constituído de dois itens:
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
Figura 8 – Diagrama da
estrutura do sistema.
Arquivo e Processamento. O menu Arquivo
contêm apenas os itens de menu Abrir... e
Sair, responsáveis por abrir uma imagem
e fechar o programa, respectivamente. Já
de maneira bastante simples. Na Figura
10 encontra-se os passos utilizados na
segmentação por cor.
Os passos descritos no fluxograma
Figura 9
Representação
dos menus do
aplicativo.
o menu Processamento contêm todas as
opções relativas às operações efetuadas na
imagem para segmentá-la e classificá-la.
A segmentação por cor é efetuada
são facilmente executados no aplicativo.
Primeiramente, é necessário abrir uma
imagem, criar as classes de padrões de cores
que se deseja segmentar na imagem para
Figura 10 –
Fluxograma
que representa
a classificação
por cor.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
165
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
efetuar o treinamento da rede neural. Na
Figura 11 pode ser vista a interface de entrada
das classes por cor.
Figura 11 – Tela Nome da classe.
Uma vez criadas as classes, o
próximo passo, de acordo com o fluxograma
apresentado anteriormente, é editar a classe
recém-criada para definir quais padrões
de pixels pertencem à classe criada e,
posteriormente, treinar a rede neural com
esses padrões que nada mais são do que os
componentes RGB da região selecionada na
imagem que se deseja classificar. Tal classe
é simplesmente um arquivo físico no disco
que armazena os valores RGB de cada pixel
da área selecionada da imagem, convertidos
posteriormente em valores CIELa*b*.
Uma vez criadas e editadas as
classes, cria-se a rede neural com topologia
prédefinida com 3 camadas, entrada RGB
ou CIE-La*b*, e saída as classes desejadas.
A taxa de aprendizado estabelecida na rede
neural foi de 0,4 e o treinamento é realizando
com número fixo de ciclos igual a 1000.
Ao final do treinamento da MLP,
esta rede pode ser utilizada para classificar
a imagem por cor. Também a mesma
classe desenvolvida para a MLP é utilizada
para análise por forma, sendo que, neste
caso, possui 36 entradas representando a
assinatura calculada do contorno da fruta.
A rede neural é criada pelo conjunto
de classes da biblioteca WEKA, a qual
automaticamente seta todas as propriedades
da rede neural, como taxa de aprendizado,
topologia da rede, número de épocas de
treinamento, etc.
Um exemplo de segmentação para
identificação do que é pessego pode ser
observado na Figura 11.
Figura 11 – Tela de classificação por cor.
A tela de classificação mostra as
porcentagens de cada classe, além da
imagem propriamente dita com a técnica de
inundação aplicada, de acordo com as cores
selecionadas na tela de criação de classes.
A classificação por forma é realizada de
uma maneira parecida, com apenas algumas
Figura 12 –
Fluxograma que
representa a
classificação por
forma.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
alterações. O esquema da Figura 12 apresenta
os passos necessários para classificar uma
imagem por forma, semelhante ao esquema
da classificação por cor.
A extração da assinatura apresentada
no fluxograma é feita através do item de menu
Otsu do aplicativo o qual binariza a imagem,
conforme apresentado na Figura 13.. Além de
binarizar a imagem, há um tratamento que
extrai a assinatura da imagem, utilizando
a técnica de assinatura. A assinatura é
formada por um vetor de 36 posições (que
representa os 360o percorridos na imagem)
e cada posição armazena o valor da distância
calculada através da distância euclidiana.
A assinatura é utilizada da mesma
forma para criar uma rede neural para
classificação por forma e a saída resultante é
apresentada num janela conforme Figura 14.
Figura 13 – Tela de binarização da imagem.
4. Resultados e discussões:
4.1 Classificação por cor
O principal desafio encontrado na
classificação por cor utilizando o pêssego
está no fato de que a variedade de cores que
um pêssego pode assumir, devido a diversos
fatores, é muito grande. Devido a esse fator,
deve-se ter muita atenção ao treinar a rede
neural, pois o seu treinamento é um fator
crucial para o sucesso da classificação.
Para exemplificar essa dificuldade
relacionada às diferentes cores que um
pêssego pode assumir, a seguir encontramse testes realizados, testes estes gradativos
de treinamento da rede neural, aumentando
a quantidade de classes para o treinamento
a cada classificação. Foi separado um total
de doze imagens de pêssego previamente
tratadas, das quais dez dessas imagens
podem ser utilizadas para treinamento e
duas para o teste de classificação. A resolução
dessas imagens foi reduzida e não passa
de 612 x 567 para que o processamento da
imagem não fique muito sobrecarregado.
Uma rede neural MLP fora criada
e treinada com apenas duas classes
denominadas “COR-SADIO” e “fundo”.
A classe “fundo” contêm pixels brancos
selecionados para treinar a rede enquanto a
classe “COR-SADIO” contêm pixels amarelos
de um primeiro pêssego, que pode ser
observado na Figura 15, para o treinamento
da rede.
Figura 15 – Primeira imagem utilizada no
treinamento da rede de cor.
Figura 14 – Tela de classificação por forma.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
167
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
O resultado da classificação de
um segundo pêssego, este com algumas
tonalidades diferentes da cor dos pixels
utilizados para treinamento, pode ser
observado na Figura 16.
Percebe-se que houve uma melhora
considerável na classificação após a adição da
nova classe. Para efetuar um novo teste, uma
nova classe chamada “COR-MADURO” fora
adicionada com pixels de tons avermelhados
pertencentes a um quarto pêssego (Figura
19).
Figura 16 - Resultado da classificação por cor
utilizando uma classe.
Nota-se que a classificação não se
deu de forma adequada, pois os diferentes
tons foram classificados na mesma classe,
segundo a análise feita sem a ajuda do
software. A seguir, fora efetuado um novo
teste, com uma rede neural criada a partir
das classes especificadas anteriormente e
a adição de uma nova classe denominada
“COR-MANCHA”, com pixels de tons
marrons, pertencentes a um terceiro pêssego
que pode ser visualizado na Figura 17.
Figura 19 – Terceira imagem utilizada no
treinamento da rede de cor.
A classificação pode ser vista na
Figura 20.
Figura 20 – Resultado da classificação por cor
utilizando três classes.
Figura 17 – Segunda imagem utilizada no
treinamento da rede de cor.
O resultado da classificação pode ser
observado na Figura 18 a seguir.
Nota-se novamente uma melhora
na classificação onde pequenas áreas foram
identificadas como a classe recém-criada.
Conclui-se a partir desses resultados
que a classificação por cor atingiu um
resultado consideravelmente satisfatório e
que o resultado está intimamente ligado ao
treinamento da rede neural.
4.2 Classificação por forma
Figura 18 – Resultado da classificação por cor
utilizando duas classes.
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| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Uma abordagem semelhante à
aplicada na classificação por cor foi adotada
para obter os resultados da classificação
por forma. A rede neural fora criada,
sendo gradativamente treinada, cada vez
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
com mais assinaturas de imagens, para
observar o resultado das classificações.
Como a quantidade de imagens para testes
foi demasiada pequena, poucas assinaturas
foram utilizadas para efetuar o treinamento.
Infelizmente também não foi possível
conseguir imagens de pêssegos naturalmente
deformados, sendo necessário editar as doze
imagens disponíveis, simulando deformações
nos pêssegos.
Como anteriormente, dez imagens
ficaram disponíveis para o treinamento da
rede e duas imagens foram poupadas para
testes de classificação. Após a criação da classe
“ASS-SADIO” extraindo-se a assinatura de
um pêssego com a forma saudável (Figura
21), efetuou-se a classificação de um segundo
pêssego, também saudável.
Na primeira tentativa obteve-se
sucesso, com uma probabilidade de 100%
na classificação. No próximo teste, uma
nova classe chamada “ASS-DEFORMADO”
foi criada, utilizando um terceiro pêssego,
esse modificado para simular um pêssego
deformado (Figura 23). Outra rede neural
também foi criada, adicionando-se essa
nova classe para o treinamento. Novamente,
efetuou-se a classificação, dessa vez utilizando
a mesma imagem classificada anteriormente,
porém modificada pelo Photoshop para
simular um pêssego deformado.
Figura 23 – Segunda imagem utilizada no
treinamento da rede de forma.
Figura 21– Primeira imagem
treinamento da rede de forma.
utilizada
no
O resultado da classificação pode ser
visto na Figura 23 a seguir.
O resultado pode ser observado na
Figura 22.
Figura 23 – Resultado da classificação por forma
utilizando duas classes.
Figura 22 – Resultado da classificação por forma
utilizando uma classe.
Outra classificação foi bem sucedida
com 98% de probabilidade de acerto. Podese, portanto concluir que a classificação por
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169
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
forma é propícia a ser mais bem sucedida,
pois as mudanças das entradas na rede
neural são radicalmente diferentes. Outro
ponto a ser considerado, é que a forma de
um pêssego saudável geralmente segue um
padrão bem definido e qualquer mudança na
forma é facilmente reconhecida.
5. Conclusões
O objetivo desse trabalho foi criar
um protótipo de um sistema de visão
computacional que, por meio de técnicas
específicas de segmentação tais como a
técnica para extração de assinatura de
imagem, binarização utilizando o método de
Otsu e também utilizando uma rede neural
MLP para classificação das imagens, pudesse
classificar imagens de pêssegos de acordo
com sua cor e forma.
Tal sistema foi elaborado utilizandose a linguagem Java e o ambiente NetBeans
para o desenvolvimento, utilizando as
bibliotecas JAI e ImageJ para manipulação
da imagem além das bibliotecas do WEKA
para a criação da rede neural artificial.
As principais dificuldades encontradas
na criação desse protótipo foi a integração
das diferentes tecnologias, principalmente
das bibliotecas de manipulação de imagem
JAI e ImageJ que trabalham de uma maneira
ligeiramente diferente.
Os resultados da aplicação foram
satisfatórios, classificando as imagens de
forma satisfatória com uma interface simples
e manipulação também nada complicada,
demonstrando que o fator crucial para o
sucesso na classificação das imagens é o
treinamento adequado da rede neural.
No futuro, pode-se aperfeiçoar esse
protótipo, utilizando-o para reconhecer não
só pêssegos, mas também outros frutos,
utilizando as técnicas mais adequadas para
cada fruto, dependendo de sua natureza de
forma e cor. Além disso, diferentes técnicas
de classificação poderiam ser utilizadas para
realizar comparações entre essas técnicas.
170
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Também
pode-se
melhorar
o
protótipo atual, tornando-o completamente
apto para classificar o fruto utilizado nesse
trabalho seguindo a risca os padrões da
CEAGESP, classificando-o de acordo com
as características detalhadas na introdução
deste trabalho.
Classificação e segmentação de pêssegos utilizando imagens digitais
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
171
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo
Sobre A Força De Preensão Manual – Um
Estudo Preliminar
Daniel Ferreira Moreira Lobato¹
Cristiane Soncino Silva²
Juliana Moraes Santos³
Larissa Oliveira Lopes4
RESUMO
Os exercícios de alongamento
muscular encontram-se entre os mais
utilizados na reabilitação e na prática
esportiva. Entretanto, ainda existem
divergências importantes sobre os seus reais
efeitos em relação à ocorrência de lesões
esportivas e ao desempenho físico. Alguns
estudos apontam que o alongamento agudo,
ou seja, aquele realizado imediatamente
anterior à atividade esportiva, além de
não auxiliar na prevenção de lesões, pode
repercutir em uma redução da capacidade
de realizar movimentos que envolvam força
e potência muscular, causando prejuízos
ao desempenho esportivo. Desta forma, o
objetivo deste estudo preliminar foi avaliar
o efeito do alongamento agudo sobre a força
de preensão manual. Doze pessoas ativas
(21,64±2,97 anos; 58,54±4,95 kg; 1,66±0,07
m), de ambos os gêneros (sendo 9 mulheres
e 3 homens), participaram do presente
estudo. Os voluntários foram avaliados
quanto à força de preensão manual em um
dinamômetro manual Saehan (Snedleytype), por meio de três contrações máximas
de preensão manual, com duração média
de 5 segundos e intervalo médio entre as
contrações de 15 segundos (para evitar a
fadiga muscular). Em seguida, os voluntários
realizaram o alongamento ativo dos músculos
flexores e extensores do punho por meio de
3 séries de 30 segundos para cada grupo
muscular e foram reavaliados, conforme
a avaliação inicial. O teste t-Student para
amostras dependentes (considerando um
nível de significância de 5%) revelou que a
realização do alongamento agudo não levou
a uma redução significativa do desempenho
no teste de preensão manual (p= 0,09),
com redução média de 4,4% nos valores
de torque (pré-alongamento= 31,4±1,8
N; pós-alongamento= 30,1±1,7 N). Para
o membro controle, não houve diferença
significativa (p=0,55) em relação às duas
avaliações realizadas (1ª avaliação= 31,0±2,2
N; 2ª avaliação= 30,6±1,2 N), com redução
percentual de 1,2%. Deste modo, o presente
estudo verificou que o alongamento agudo
parece não alterar de forma significativa
a força muscular para a preensão manual.
Entretanto, destaca-se o seu caráter ainda
preliminar que, associado a uma amostra
de maior representatividade e ao estudo de
outras variáveis do desempenho muscular,
poderá levar a resultados mais conclusivos
sobre este tema.
Palavras-chave: Alongamento, força
muscular, preensão manual, dinamometria.
1,2 Docentes do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário UNISEB-COC
3,4 Discentes do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário UNISEB-COC
172
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
ABSTRACT
Stretching exercises are among the
most widely used in rehabilitation and
sports practice. However, there are still
important controversies about its real
effects on the occurrence of sports injuries
and physical performance. Some studies
indicate that acute stretching (the one
performed immediately prior to sports
activity) does not aid in the prevention of
injury and may still reflect a reduction in
the ability to perform movements involving
muscle strength and power, causing
damage to the sports performance. Thus,
the purpose of this study was to evaluate the
effect of acute stretching on the handgrip.
Twelve active people (21.64±2.97 years;
58.54±4.95 kg; 1.66±0.07 m) of both genders
(9 women and 3 men) participated in this
study. The volunteers were tested for grip
strength in a Saehan (Snedley-type) hand
dynamometer, performing three maximal
contractions of handgrip with a 5 seconds of
average duration and a 15 seconds average
rest interval between contractions (to
avoid muscle fatigue). Then, the volunteers
underwent active stretching of the wrist
flexors and extensors muscles through 3
sets of 30 seconds for each muscle group
and were evaluated again, according to the
initial assessment. The Student t-test for
dependent samples (considering an alpha
level of 5%) revealed that the completion of
acute stretching did not lead to a significant
reduction in the handgrip performance
(p = 0.09), with an average reduction of
4.4% in the torque values (pre-stretching
= 31.4±1.8 N; post-stretching = 30.1±1.7
N). For the control limb, there was no
significant difference (p = 0.55) between
the two assessments (1st assessment =
31.0±2.2 N; 2nd assessment = 30.6±1.2
N), with a percentage reduction of 1.2%.
Thus, this study found that acute stretching
does not seem to significantly alter muscle
grip strength. However, considering its
preliminary characteristics, the need of a
more representative sample and the study
of other variables of muscle performance
we could lead to more conclusive results on
this topic.
Keywords:
Stretching,
muscle
strength, handgrip, dynamometry.
1. Introdução
Os exercícios de alongamento
muscular encontram-se entre os mais
utilizados na reabilitação e na prática
esportiva (HALL & BRODY, 2007). Esses
exercícios usualmente compõem parte do
programa de aquecimento e visam o aumento
da extensibilidade músculo-tendínea e do
tecido conjuntivo muscular e periarticular,
contribuindo desta forma para o aumento da
flexibilidade (MAREK et al., 2005).
Durante décadas, o alongamento
agudo (aquele realizado imediatamente
antes do exercício físico) tem sido uma
prática intensamente recomendada em todos
os níveis do desporto, visando à prevenção
de lesões músculo-esqueléticas (AMAKO et
al., 2003; MAREK et al., 2005). Contudo,
tem-se demonstrado que essa modalidade
de alongamento não reduz necessariamente
as taxas de lesões e, em alguns casos, pode
até mesmo predispor à ocorrência de lesões
(POPE et al., 2000; HERBERT & GABRIEL,
2002; MCHUGH & COSGRAVE, 2010).
A literatura científica tem indicado
ainda que o alongamento agudo pode
comprometer a capacidade muscular em
produzir força (MAREK et al., 2005) e gerar
potência para a contração (CONWELL et al.,
2001; YOUNG & BEHM, 2003), prejudicando
o desempenho funcional (Ramos et al.,
2007). Tais achados contribuíram para
o surgimento do termo “perda de força
muscular induzida pelo alongamento” e
foram inicialmente verificados nos músculos
flexores e extensores do joelho, bem como
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
173
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
nos músculos flexores plantares do tornozelo
(MCHUGH & COSGRAVE, 2010).
Deste modo, supõe-se que sessões
de alongamentos estáticos, efetuados
antes de atividades que envolvam força
dinâmica, possuem a capacidade de alterar
negativamente
o
desempenho
dessa
qualidade física (ENDLICH et al., 2009).
Postula-se que mecanismos neurais,
tais como a redução no recrutamento de
unidades motoras, bem como a ativação dos
órgãos tendinosos de Golgi e de nociceptores
(FOWLES et al., 2000), estejam envolvidos
nesse processo (AVELA et al., 1999), inibindo
a produção de força.
Adicionalmente,
questões
mecânicas, representadas por alterações
nas propriedades visco-elásticas da unidade
músculo-tendão (reduzindo a tensão e a
“rigidez” da unidade motora), bem como
por modificações na relação comprimentotensão dos sarcômeros (com alteração da
sobreposição fisiológica entre os filamentos
de actina e miosina), também participariam
desse processo (FOWLES et al., 2000;
AVELA et al., 1999). Como resultado,
ambas as alterações musculares (neurais
e mecânicas), decorrentes da realização
do alongamento agudo, influenciariam
negativamente o mecanismo de contração
muscular.
Entretanto, ainda há controvérsia
quanto aos efeitos decorrentes da realização
do alongamento agudo uma vez que,
enquanto diversos estudos demonstram
uma redução no rendimento quando se
aplica um alongamento prévio ao exercício
resistido (YOUNG & BEHM, 2003; SHRIER,
2004; ENDLICH et al., 2009), outros não
verificaram interferência do alongamento
na produção de força (YAMAGUCHI & ISHI,
2005; Ribeiro et al., 2007). Os diferentes
protocolos de avaliação e de intervenção
utilizados nos experimentos são apontados
como uma das possíveis causas para a
divergência entre esses resultados (RAMOS
et al., 2007).
174
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Diante do exposto, verifica-se que
a relação entre o alongamento muscular e
a capacidade de produzir força muscular,
bem como a relação entre o alongamento
muscular e o desempenho funcional e/ou
esportivo, ainda é objeto de questionamento
e de necessidade de elucidações. Deste modo,
o objetivo do presente estudo foi analisar o
efeito do alongamento agudo na força de
preensão manual em homens e mulheres
saudáveis.
2. Metodologia
2.1. Sujeitos
Doze pessoas ativas (21,64±2,97 anos;
58,54±4,95 kg; 1,66±0,07 m), de ambos os
gêneros (sendo 9 mulheres e 3 homens), com
idade entre 18 e 26 anos, normais ativos (não
praticantes de atividades físicas regulares),
participaram do presente estudo. Foram
considerados como critérios de exclusão
dos voluntários: a) idade inferior a 18 anos e
superior a 26 anos; b) ser atleta ou apresentar
participação regular em atividades físicas
(mínimo de 3 vezes por semana, durante 30
minutos por treino); c) presença de dores
ou disfunções relacionadas aos complexos
articulares do membro superior; d) presença
de disfunções cárdio-respiratórias que
limitassem a realização da atividade.
2.2. Instrumentação
Os voluntários foram avaliados
quanto à força de preensão manual
por meio de um dinamômetro manual
Saehan (Snedley-type) – Figura 1. Esse
tipo de equipamento funciona através de
dispositivos que operam segundo o princípio
da compressão. Quando uma força externa é
aplicada ao dinamômetro, uma mola de aço
é comprimida e movimenta um ponteiro.
Sabendo-se a quantidade de força necessária
para deslocar o ponteiro através de uma
determinada distância, pode-se determinar
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
com exatidão a quantidade de força
“estática” externa aplicada ao dinamômetro
(McARDLE, 1991).
Figura 2 – Posicionamento da voluntária durante a
realização do teste de preensão manual
Figura 1 – Dinamômetro manual Saeyan (Snedley
type) utilizado para avaliação da força de preensão
manual
2.3. Procedimentos
Os voluntários foram posicionados
sentados
confortavelmente
em
uma
cadeira, com o cotovelo do membro a ser
avaliado mantido em flexão de 90º (0
– extensão completa) e com o quadril e
joelhos flexionados a aproximadamente
90º (0 – extensão completa), segundo as
recomendações de Kendall et al. (1995) para
a avaliação da função muscular de preensão
manual – Figura 2.
Previamente
à
avaliação,
os
voluntários realizaram uma familiarização
com o equipamento e com a metodologia
do teste, por meio de 3 esforços máximos
de preensão manual no aparelho, com cada
membro superior a ser avaliado. Ainda, foi
sorteado qual membro (dominante ou nãodominante) seria submetido ao exercício de
alongamento e qual seria o membro controle
(não submetido a qualquer intervenção), bem
como a ordem de avaliação dos membros,
para cada voluntário.
Após a avaliação inicial, que consistiu
de três contrações máximas de preensão
manual, com duração média de 5 segundos
e intervalo médio entre as contrações de 15
segundos (para evitar a fadiga muscular),
os voluntários realizaram o alongamento
ativo dos músculos flexores e extensores do
punho por meio de 3 séries de 30 segundos
para cada grupo muscular. Embora a
preensão manual envolva primariamente
a ação dos músculos flexores superficiais
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
175
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
e profundos dos dedos, flexor longo do
polegar, flexor curto do polegar e flexor do
dedo mínimo, considerou-se também o papel
da musculatura extensora do punho para a
estabilização articular durante essa ação
manual para o delineamento do programa de
alongamento muscular.
Em seguida ao exercício de
alongamento, ambos os membros foram
reavaliados, conforme a avaliação inicial.
Cada contração máxima de preensão manual
foi verbalmente estimulada pelo mesmo
examinador, a fim de padronizar o comando
verbal para que os voluntários obtivessem
o máximo desempenho na atividade. Os
resultados de torque de preensão manual (em
N) foram revelados aos voluntários somente
após a completa realização dos testes, a fim
de se evitar efeitos de interferência durante
a avaliação.
avaliações realizadas (1ª avaliação= 31,0±2,2
N; 2ª avaliação= 30,6±1,2 N), com redução
percentual de 1,2%. – Figura 3.
Figura 3 – Média dos valores de torque (em
N) dos voluntários durante o teste de preensão
manual, antes e após a realização do alongamento
(ALONGAMENTO) e na primeira e segunda
avaliação (CONTROLE) – n=12
2.4. Análise dos dados
4. Discussão
Os dados de preensão manual foram
analisados por meio do software STATISTICA
5.0 for Windows (StatSoft, Inc, Tulsa, USA).
Os testes de Shapiro-Wilks e de KolmogorovSmirnov foram utilizados para testar a
normalidade dos conjuntos de dados e, uma
vez tais critérios foram satisfeitos, utilizou-se
o teste t-Student para amostras dependentes
para a comparação do desempenho entre
os membros submetidos e não-submetidos
ao alongamento, considerando um nível de
significância de 5%
3. Resultados
A realização do alongamento agudo
não levou a uma redução significativa do
desempenho no teste de preensão manual
(p= 0,09), embora tenha sido observada
uma redução média de 4,4% nos valores
de torque (pré-alongamento= 31,4±1,8
N; pós-alongamento= 30,1±1,7 N). Para
o membro controle, não houve diferença
significativa (p=0,55) em relação às duas
176
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
O efeito do alongamento agudo sobre
a força muscular e, conseqüentemente, sobre
o desempenho esportivo, tem sido alvo de
inúmeros questionamentos e controvérsias.
Tendo esta situação em mente, o objetivo
deste estudo foi avaliar o efeito dessa
modalidade de exercício sobre a força de
preensão manual, por meio de um estudo
preliminar, que apresentará continuidade
futura.
Neste contexto, os resultados
deste estudo indicam até o momento que
a realização do alongamento agudo não
interfere de forma significativa na capacidade
contrátil do músculo, ou seja, em sua
capacidade de gerar força para o trabalho.
Tais achados apresentam discordância
direta ou indireta com diversos estudos que
já se dedicaram a esse tema, as quais são
discutidas a seguir. Como ponto de partida,
verifica-se que as informações envolvendo
alongamento e treinamento de força
apresentam grande contradição entre os
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
diferentes estudos, sendo as características
dos protocolos utilizados nos experimentos
(formas de avaliação e características da
intervenção) uma das possíveis causas para
a divergência entre os resultados.
Em comparação direta, os resultados
do presente estudo discordam parcialmente
de Knudson & Nofall (2005), que verificaram
uma redução significativa (88,8%) na força
isométrica de preensão manual após a
realização de 100 segundos de alongamento
da musculatura responsável por essa ação,
sendo essa redução significativa a partir de
40 segundos de alongamento.
Uma possível explicação para essa
divergência de resultados pode ser atribuída
ao baixo volume do alongamento utilizado
no presente estudo (30 segundos), uma vez
que existem suposições de que exercícios
de alongamento com baixo volume não
interferem no desempenho do exercício de
força (RIBEIRO et al., 1997). Desta forma,
apesar das diferenças metodológicas, nossos
resultados se aproximam dos achados
de Siatras et al. (2008), que verificaram
redução 16% no pico de torque extensor de
joelho após a realização de 60 segundos de
alongamento agudo do músculo quadríceps,
sem contudo verificar efeitos negativos dessa
prática quando os tempos de manutenção
do alongamento foram reduzidos para 20
segundos e 10 segundos.
Em relação a trabalhos que
verificaram o efeito do alongamento agudo
sobre a força e a performance, Shrier (2004)
revela que o alongamento agudo não é
benéfico para o desempenho em eventos
relacionados à força e ao salto. Além disso,
outras pesquisas realizadas para verificar a
influência do alongamento agudo no salto
vertical constataram que este tinha sua
performance diminuída (YOUNG & BEHM,
2003; CHURCH et al., 2001; KNUDSON
et al., 2001; YOUNG & ELLIOTT, 2001;
SIATRAS et al., 2008). Um desses estudos
(YOUNG & BEHM, 2003) comparou os
efeitos de diversas formas de aquecimento
sobre a força explosiva e sobre o desempenho
em atividades de salto, constatando que a
corrida submáxima e a realização de saltos
apresentaram efeitos positivos, enquanto o
alongamento estático apresentou influência
negativa nestas variáveis.
Comparando diversas formas de
aquecimento na performance do sprint de 20
metros em atletas de rugby, Fletcher & Jones
(2004) verificaram que os alongamentos
estáticos aumentaram o tempo do sprint, ou
seja, prejudicaram o desempenho para essa
atividade. Esta diminuição da performance
foi atribuída a um aumento na flexibilidade
da unidade musculotendínea, diminuindo
sua capacidade de absorver energia na fase
excêntrica do movimento.
Contrariando os resultados acima
apresentados, mas em acordo indireto
com o presente estudo, outros trabalhos
(YAMAGUCHI & ISHI, 2005; UNICK
et al., 2005; KNUDSON et al., 2004;
RIBEIRO et al., 1997) demonstraram que o
alongamento agudo não ocasiona alterações
na performance muscular. Yamaguchi &
Ishi (2005) verificaram que o alongamento
estático de 30 segundos não influencia a
performance na extensão de joelho em préadolescentes, enquanto Unick et al. (2005)
não identificaram influência negativa da
realização de alongamentos balísticos de 15
ou 30 minutos no teste de salto vertical, em
mulheres treinadas.
Com resultados de mesma tendência,
Knudson et al. (2004) não observaram
redução na performance do serviço
do tênis (velocidade e precisão) com a
realização de alongamento adicionado a
5 minutos de aquecimento, independente
do nível de habilidade, idade ou sexo dos
atletas, enquanto Ribeiro et al. (1997) não
encontraram diferença significativa no teste
de 10 RM realizado no exercício leg-press
após a realização de alongamento agudo de
30 segundos.
Deste modo, um fator importante
a ser considerado pelos profissionais
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
177
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
envolvidos em treinamento esportivo parece
ser o volume dos protocolos de prática de
alongamento. Estudos têm demonstrado
que, quanto maior for o volume (tempo)
de alongamento, maior a probabilidade de
se encontrar uma influência negativa na
produção de força (KOKKONEN et al., 1998;
GREGO NETO & MANFFRA, 2009). Neste
sentido, recomendações para abandonar
os exercícios de alongamento pré-esforço
físico parecem prematuras, uma vez que a
maioria dos estudos que verificaram efeitos
negativos dessa prática utilizam protocolos
prolongados de alongamento, portanto
não representativos das rotinas clínicas e
esportivas mais utilizadas.
Estudos anteriores (FOWLES et
al., 2000; AVELA et al., 1999; YOUNG &
ELLIOTT, 2001; YOUNG & BEHM, 2003)
têm sugerido que os mecanismos que causam
a diminuição na performance muscular após
a realização do alongamento agudo são de
natureza neural e mecânica. As alterações
neurais, ou seja, a redução no nível de
atividade neuromuscular, ocorrem durante
o alongamento estático de 30 segundos,
mas são restauradas imediatamente após o
alongamento (GUISSARD et al., 1988). Por
sua vez, sabe-se que as alterações mecânicas,
ou seja, a diminuição das propriedades
visco-elásticas das estruturas músculotendinosas, também ocorrem durante o
alongamento estático de 30 segundos.
Entretanto, Magnusson et al. (1993) já
determinaram que o tempo decorrido para a
recuperação dessas propriedades é inferior a
um minuto, após a realização de manobras
de alongamento de 45 segundos. Em outras
palavras, tanto as alterações neurais quanto
mecânicas parecem não ser contínuas e
prolongadas a um exercício de alongamento
de baixa duração, como o proposto pelo
presente estudo. Desta forma, a ausência
dessas alterações (em protocolos de baixo
volume) poderiam explicar a ausência de
alterações (negativas) relevantes na força
muscular.
178
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Embora não seja possível descartar
que os efeitos agudos do alongamento
possam resultar em diminuição da força e
velocidade de contração muscular (o que
não foi verificado no presente estudo), é
importante enfatizar que a realização crônica
desse tipo de exercício pode levar à melhora
dessas características em longo prazo
(SHRIER, 2004).
Ross et al. (2007) verificaram aumento
da flexibilidade e da performance no salto
em distância em cadetes submetidos a um
protocolo de 15 dias de alongamentos para
os músculos flexores do joelho, enquanto em
outro estudo (KOKKONEN et al., 2007) foi
constatado que a realização de alongamento
para membros inferiores durante o período
de 10 semanas foi suficiente para aumentar
a flexibilidade (18,1%), o desempenho no
salto vertical (6,7%) e no salto em distância
(2,3%), bem como reduzir o tempo para
realizar o sprint de 20 metros (1,3%). Além
disso, foi verificado aumento na força
muscular nos testes de 1 RM (30,4%) e de
60% RM (32,4%). Desta forma, recomendase que o alongamento seja realizado após
a prática de exercícios ou em uma sessão à
parte, como componente de um programa de
treinamento (alongamento crônico).
Vale considerar que, a exemplo de
outros estudos, há alguns elementos que
correspondem a fatores de limitação deste
trabalho preliminar. Em primeiro lugar,
o reduzido tamanho amostral implica em
cuidado ao extrapolar essas informações
a uma população geral. Ainda, considerase que os sujeitos deste estudo são pessoas
normais ativas, e que nossos resultados
podem não ser diretamente aplicáveis a
outras populações, como a de atletas ou
praticantes de atividades esportivas, ou até
mesmo a indivíduos normais ativos de outras
faixas etárias. Tal fato destaca a necessidade
de futuros trabalhos que investiguem como
essas diferentes populações respondem a
esse tipo de exercício.
Por fim, fatores de cunho psicológico,
Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
como o estado de motivação dos voluntários
para a execução dos testes e o fenômeno da
habituação com os mesmos, sempre devem
ser considerados como relevantes ao se
avaliar o desempenho muscular. Entretanto,
a padronização do comando verbal, a
utilização de apenas um examinador para
conduzir as avaliações, bem como a devida
familiarização dos voluntários com todas
as etapas do teste foram adotadas como
estratégias experimentais para reduzir a
possibilidade de interferência desses fatores.
5. Conclusão
O presente estudo verificou que o
alongamento agudo parece não alterar de
forma significativa a força muscular para a
preensão manual. Entretanto, destaca-se o
seu caráter ainda preliminar que, associado a
uma amostra de maior representatividade e
ao estudo de outras variáveis do desempenho
muscular, poderá levar a resultados mais
conclusivos sobre este tema.
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
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Efeito Do Alongamento Muscular Agudo Sobre A Força De Preensão Manual – Um Estudo Preliminar
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
181
Percepção de Estudantes de Fisioterapia Versus
Educação Física Quanto a Enfermidades Tratadas
e Tratáveis com Acupuntura
Cristiane Soncino Silva¹
Flaviana Regina Pimenta¹
Daniel Ferreira Moreira Lobato¹
Guilherme Rodrigues Barbosa¹
Mayara Emy Yamamoto²
RESUMO
foram: tensão pré menstrual, enxaqueca,
ansiedade, dor (muscular, membros, costas)
e tendinite. Para os alunos que não se
trataram observamos que 93,3% (GF) e 68,1%
(GEF) se tratariam. As finalidades citadas
para ambos os grupos foram: dor (cabeça,
muscular, coluna), estresse, ansiedade,
tabagismo, tensão pré-menstrual. E por
fim, as sugestões de enfermidades tratáveis
pela acupuntura foram além das citadas
nas tratadas: problemas com o intestino,
circulação e estômago, hipertensão, artrite,
pós-operatório, nervosismo, epicondilite,
diabetes, causas psicológicas e microlesões.
Na análise comparativa dos grupos é possível
observar que o GF foi o que mais recebeu e
estava propenso a receber este tratamento.
Os dados nos levam a entender que pouco
se sabe a respeito desta técnica mesmo em
estudantes da área da saúde. Para ambos
os grupos o espectro de enfermidades
tratáveis e tratadas foram limitados diante
da capacidade de tratamento da técnica, pois
distúrbios dermatológicos, respiratórios,
reumáticos, estéticos e tabagismo não foram
citados. Outro aspecto notado na análise
de ambos os grupos é que o conhecimento
da técnica permeia o âmbito curativo e não
preventivo. A prevenção deve ser incluída
na rotina dos profissionais de saúde e
as funções preventivas da acupuntura
devem ser reforçadas no processo de
ensino aprendizado. Diante do exposto
conclui-se que é fundamental a divulgação
A acupuntura é uma técnica milenar
de origem chinesa, que faz parte do contexto
da Medicina Tradicional Chinesa (MTC),
tem seu uso recomendado pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) e no Brasil foi
incorporada no Sistema Único de Saúde
(SUS). É uma terapia de intervenção
em saúde que aborda de modo integral
e dinâmico o processo saúde-doença no
ser humano, podendo ser usada de forma
isolada ou integrada com outros recursos
terapêuticos tradicionais. O objetivo deste
trabalho é identificar e analisar as percepções
dos estudantes de fisioterapia e educação
física acerca da acupuntura referente às
enfermidades tratadas e tratáveis por esta
técnica. Trata-se de um estudo exploratório,
realizado com 71 estudantes sendo 24 do curso
de Fisioterapia-Grupo Fisioterapia (GF) e
47 de Educação Fisica- Grupo Educação
Ficia (GEF) de um Centro Universitário de
Ribeirão Preto (São Paulo). Foi aplicado um
questionário semi-estrurado. O instrumento
de coleta de dados consistiu de 3 questões:
(1) você já se tratou com acupuntura? Se
sim para qual finalidade? (2) Para quem
não se tratou, você se trataria? Para qual
finalidade?; (3) Sugestões de enfermidades
sugeridas para tratamento com acupuntura.
Foi constatado que 37,5% (GF) e 6,3%
(GEF) já foram tratados com a técnica. As
enfermidades tratadas no (GF) e (GEF)
¹ Docentes do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário UNISEB-COC
² Discentes do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário UNISEB-COC
182
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
e esclarecimento da acupuntura aos
acadêmicos da área da saúde feito por meio
dos docentes e na disciplina especifica,
enfatizando além dos aspectos curativos e
preventivos as diferentes possibilidades de
disfunções abordadas.
Palavras-chave:
Acupuntura,
fisioterapia, educação física.
ABSTRACT
Acupuncture is an ancient technique
of Chinese origin, which is part of the
context of Traditional Chinese Medicine
(TCM), its use has been recommended by
the World Health Organization (WHO)
and Brazil was incorporated into the
Unified Health System (SUS). Therapy is
a health intervention that addresses the
way comprehensive and dynamic healthdisease process in humans and may be used
alone or integrated with other traditional
therapeutic resources. The objective of the
present estudy is to identify and analyze the
students’ perceptions of physiotherapy and
physical education on acupuncture relating
to diseases that are treated by this technique.
This is an exploratory study, conducted
with 71 students and 24-of Physiotherapy
Course - Physiotherapy Group (FG) and
47 of Physical Education Course- Physical
Education Group (GEF) of a University
Center of Ribeirão Preto (São Paulo). We
applied a semi-structured questionnaire.
The data collection instrument consisted of
three questions: (1) you have been treated
with acupuncture? If so for what purpose?
(2) For those who have treated you, if you
treat? For what purpose?, (3) Tips for
diseases suggested acupuncture treatment.
It was found that 37.5% (GF) and 6.3% (GFE)
have been treated with the technique. The
disorders treated in (GF) and (GFE) were:
premenstrual tension, migraine, anxiety,
pain (muscular limbs, back) and tendonitis.
For students who are not treated we observed
that 93.3% (GF) and 68.1% (GFE) would
treat. The purposes cited for both groups
were pain (head, muscle, spine), stress,
anxiety, smoking, pre-menstrual tension.
Finally, the suggestions of diseases treatable
by acupuncture were treated than those
cited in: problems with the bowel, stomach
and circulation, hypertension, arthritis,
postoperative, nervousness, epicondylitis,
diabetes,
psychological
causes
and
microdamage. The comparative analysis of
the groups is observed that the GF was the
most received treatment and was prone to
receive this treatment case. The data lead us
to understand that little is known about this
technique even students in the health field.
For both groups the spectrum of treatable
disorders were treated and given the
limited treatment capacity of the technique,
for dermatological disorders, respiratory,
rheumatic, aesthetic, and smoking were not
cited. Another aspect noted in the analysis
of both groups is that knowledge permeates
the scope of the technique is not curative and
preventive. Prevention should be included in
routine health care and preventive functions
of acupuncture should be reinforced in the
teaching learning. As a conclusion that it
is essential disclosure and explanation of
acupuncture to academic health care made
by the discipline of teachers and specifies,
in addition to emphasizing preventive and
curative aspects of the different possibilities
of disorders addressed.
Keywords:
Acupuncture,
Physiotherapy and Physical Education
1. Introdução
A Organização Mundial da Saúde
(OMS) sugeriu oferecimento da acupuntura
como medicina complementar e criou
um movimento de abertura legal para a
prática desta especialidade por diversos
profissionais da saúde com formação em
nível superior: Fisioterapia, Odontologia,
Psicologia,
Medicina,
Fonoaudiologia,
Biomedicina e Enfermagem. A resolução
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
183
Percepção de Estudantes de Fisioterapia Versus Educação Física Quanto a Enfermidades Tratadas e Tratáveis com Acupuntura
N. 201/1999 do Conselho Federal de
Fisioterapia
e
Terapia
Ocupacional
dispõe sobre a prática de acupuntura pelo
fisioterapeuta e no seu Art. 5º é reconhecida
a legitimidade ao Fisioterapeuta de aplicar,
complementarmente,
os
métodos
e
técnicas de acupuntura nas suas atividades
profissionais (COFFITO- Resolução- N.
201/1999).
Atualmente
há
interesse
e
reconhecimento do Ministério da Saúde
(portarias 971, 853, 154) em sedimentar
a inserção de vários profissionais da
saúde, incluindo o fisioterapeuta como
acupunturista no SUS (Ministério da Saúde,
2006; Secretaria de Atenção à Saúde, 2006;
Ministério da Saúde 2008).
No que diz respeito às evidências
científicas do método, a Organização
Mundial de Saúde publicou um manuscrito
que apresenta uma gama de possibilidades
terapêuticas da acupuntura incluindo
doenças agudas e crônicas, para todas as
faixas etárias. Ela pode ser sugerida em
todos os níveis de atenção com alto grau de
resolutividade e eficiência (World Health
Organization, 2003).
A
literatura
científica
ligada
à fisioterapia e educação física tem
demonstrado que acupuntura associada
à outros recursos promove benefícios
significativos. Como exemplo está o estudo
de Kazumi et al. (2009), que comprova os
efeitos da associação entre massagem e
acupuntura na síndrome do piriforme de
corredores. Os autores concluíram que as
duas técnicas associadas proporcionaram
aos corredores melhora da dor e flexibilidade
restabelecendo a função muscular.
Em outro estudo, cujo objetivo foi
avaliar os efeitos da acupuntura associada
à reeducação postural em pacientes com
hérnia de disco foi observado que houve
melhora nos seguintes parâmetros: nivel de
dor, amplitude de movimento, medida dedochao, atividades de vida diaria e padrão
enérgetico (FERRACIOALI et al., 2006).
184
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
Por fim, vários são os efeitos da
acupuntura encontrados nos estudos
científicos:
potencializa
a
ação
da
cinesioterapia, aumenta a incidência de
partos vaginais, reduz a dor lombar, diminui
a dor e melhora o sono em indivíduos com
fibromialgia dentre outros (FERNADES,
2003; BIO, 2005; WITT, 2006; LIN, 2010).
Diante do exposto há preocupação
das Instituições de Ensino Superior em
oferecer formação crítica e científica neste
recurso complementar, além de orientar
quanto à legislação relacionada à utilização
da técnica. Para este processo pedagógico
é fundamental conhecer a percepção dos
estudantes quanto às doenças tratáveis e
tratadas pela a acupuntura. Assim, o objetivo
deste trabalho é identificar e analisar as
percepções dos estudantes de fisioterapia
e educação física acerca da acupuntura
referente às enfermidades tratadas e tratáveis
por esta técnica.
2. Metodologia
2.1. Sujeitos
Trata-se de um estudo exploratório,
realizado com 71 estudantes sendo 24 do
curso de Fisioterapia-Grupo Fisioterapia
(GF) e 47 de Educação Fisica- Grupo
Educação Ficia (GEF) de um Centro
Universitário de Ribeirão Preto (São Paulo).
2.2. Procedimentos
Foi aplicado um breve questionário
semi-estrurado auto responsivo contendo 3
questões. Este questionário foi respondido
de forma anônima, na sala de aula e
posteriormente recolhido.
O instrumento de coleta de dados
consistiu de 3 questões: (1) você já se
tratou com acupuntura? Se sim para qual
finalidade? (2) Para quem não se tratou
você se trataria? Para qual finalidade?; (3)
Sugestões de enfermidades sugeridas para
Percepção de Estudantes de Fisioterapia Versus Educação Física Quanto a Enfermidades Tratadas e Tratáveis com Acupuntura
tratamento com acupuntura. Posteriormente
foi realizada análise qualitativa descritiva
dos dados.
3. Resultados
Foi constatado que 37,5% (GF) e
6,3% (GEF) já foram tratados com a técnica.
As enfermidades tratadas no (GF) e (GEF)
foram: tensão pré-menstrual, enxaqueca,
ansiedade, dor (muscular, membros, costas)
e tendinite. Para os alunos que não se
trataram observamos que 93,3% (GF) e 68,1%
(GEF) se tratariam. As finalidades citadas
para ambos os grupos foram: dor (cabeça,
muscular, coluna), estresse, ansiedade,
tabagismo, tensão pré-menstrual. E por
fim, as sugestões de enfermidades tratáveis
pela acupuntura foram além das citadas
nas tratadas: problemas com o intestino,
circulação e estômago, hipertensão, artrite,
pós-operatório, nervosismo, epicondilite,
diabetes, causas psicológicas e microlesões.
Na análise comparativa dos grupos é possível
observar que o GF foi o que mais recebeu
tratamento e estava propenso a receber este
tratamento.
4. Discussão
Há uma forte tendência de utilizar
a acupuntura como recurso terapêutico
complementar, em especial por profissionais
não médicos (Santos, 2009). Isso faz com que
os estudantes de fisioterapia demonstrem
cada vez mais interesse no aprendizado
da técnica, predispondo as Instituições de
Ensino a fornecerem noções gerais para
que o futuro profissional possa optar após
a conclusão da graduação pela formação
específica.
Neste contexto, as possibilidades
de tratamento de acupuntura devem ser
conhecidas pelos profissionais da saúde.
Neste estudo, foi observado que 37,5%
(GF) e 6,3% (GEF) já foram tratados com a
técnica. Quando analisadas as enfermidades
tratadas por ambos os grupos com maior
freqüência
observou-se:
tensão
prémenstrual, enxaqueca, ansiedade, dor
(muscular, membros, costas) e tendinite.
Diante destes dados pode-se reforçar que
as afecções dolorosas são as mais citadas
e consequentemente conhecidas pelos
estudantes. Entretanto, eles devem ser
orientados quanto à lista gerada na pesquisa
da Organização Mundial de Saúde que
inclui afecções físicas, mentais e emocionais
(World Health Organization, 2003), pois
se observou que menos da metade dos
estudantes de ambos os grupos receberam
este tratamento.
Poucos estudantes do grupo GEF
foram tratados com a técnica, este fato pode
estar relacionado à desinformação ou medo.
Os usuários dos sistemas de saúde acreditam
que a acupuntura é aplicada utilizandose somente agulhas o que não é verdade.
Outros métodos podem ser utilizados como
moxabustão, laser, magnetos, acupressão
dentre outras. Demonstrando esta mesma
dinâmica, Silva (2001), encontrou em seu
estudo uma desvantagem da utilização
da acupuntura: o medo. Respaldando
estas informações, no estudo de Ferreira
(2010), sobre conhecimento e utilização da
acupuntura em Tangará da Serra MT, foi
observado que 67% da população têm medo
da acupuntura o que pode ser justificado
segundo a autora, pelo pânico por agulhas
sendo este o instrumento mais utilizado
nesta terapia complementar.
Quando avaliamos os alunos que não
se trataram, foi observado que 93,3% (GF) e
68,1% (GEF) se tratariam. Isso demonstra
posicionamento favorável por parte dos
estudantes em receber esta técnica e um
provável preconceito reduzido com a mesma.
Nestes grupos as finalidades citadas para
utilização da técnica foram: dor (cabeça,
muscular, coluna), estresse, ansiedade,
tabagismo, tensão pré-menstrual. Na análise
comparativa dos grupos é possível observar
que o GF foi o que mais recebeu e estava
Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
185
Percepção de Estudantes de Fisioterapia Versus Educação Física Quanto a Enfermidades Tratadas e Tratáveis com Acupuntura
propenso a receber este tratamento.
Em comparação direta, os resultados
do presente estudo estão de acordo com
Kurebayashi et al. (2009), que ao analisar
a percepção de enfermeiras de 11 Unidades
de Saúde Pública da Região Sudeste do
Município de São Paulo, sobre doenças
tratadas e tratáveis por acupuntura
verificaram que foram mais sugeridas para
tratamento doenças músculo-esqueléticas
(41,5%) e doenças crônico-degenerativas
(10%).
E por fim, as sugestões gerais de
enfermidades tratáveis pela acupuntura
foram além das citadas nas tratadas:
problemas com o intestino, circulação
e estômago, hipertensão, artrite, pósoperatório,
nervosismo,
epicondilite,
diabetes, causas psicológicas e microlesões.
Estas informações nos levam a crer que
uma discussão aprofundada sobre doenças
tratáveis pela acupuntura deva ocorrer na
formação destes estudantes. A completa
listagem organizada pela Organização
Mundial de Saúde deve ser o documento
básico para estas discussões. Posteriormente
sugere-se aprofundamento na literatura
que demonstra evidências científica e
outras aplicações na área da Fisioterapia e
Educação Física. Temas como, acupuntura
na performance de atletas, na fibromialgia,
nas disfunções temporomandibulares, no
acidente vascular encefálico, no câncer,
na esclerose múltipla dentre outros estão
indicados (BRUM et al., 2009; BRANCO et
al., 2005; LUNA & FERNANDES FILHO,
2005).
Não foi apresentada pelos estudantes
a utilização da acupuntura na prevenção
de disfunções orgânicas. A literatura
traz poucos estudos neste tema devido à
dificuldade metodológica. Um exemplo é o
estudo realizado por Assumpção et al. (1996)
que demonstrou em bebês de alto risco, o
estímulo dos pontos de acupuntura Ting
como eficaz na prevenção de hipoglicemia
neonatal. Esta abordagem preventiva pode
186
| Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica
ser discutida em todas as disciplinas da
formação do fisioterapeuta como aspecto de
promoção de saúde. Além disso, a fisioterapia
laboral também pode usufruir desta terapia
complementar tanto no aspecto preventivo
como curativo.
A pesquisa aponta, ainda, para a
necessidade de concientizar a população
usuária dos serviços de saúde sobre a
importância, utilização e técnicas da
acupuntura,
sendo
fundamentais
as
ações dos alunos, do corpo docente e dos
funcionários destes serviços.
5. Conclusão
Apesar de se tratar de amostragem
intencional, não representativa do coletivo
de estudantes de fisioterapia e educação
física conclui-se que é fundamental a
divulgação e esclarecimento da acupuntura
aos acadêmicos da área da saúde feito por
meio dos docentes, na disciplina específica
ou generalista, enfatizando além dos
aspectos curativos e preventivos as diferentes
possibilidades de disfunções tratáveis pela
acupuntura.
Percepção de Estudantes de Fisioterapia Versus Educação Física Quanto a Enfermidades Tratadas e Tratáveis com Acupuntura
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Revista Multidisciplinar de Iniciação Científica |
187
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