GOLPE_antologia-manifesto

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GOLPE_antologia-manifesto
golpe ANTOLOG
ANTOLOGIA-M
LOGIA-MANIF
MANIFESTO g
ESTO golpe
go
organizadores
ana rüsche
carla kinzo
lilian aquino
stefanni marion
-MA
olpe
ANTOLOGIA-
ANIFESTO
Prefácio por Marcia Tiburi | Antologia–manifesto | adriano de almeida | ale safra
| alessa menezes | alessandra e verônica
cestac | alexandre willer melo | alfredo
fresia | ana elisa ribeiro | ana estaregui
| ana rüsche | andré dahmer | andré vallias
| andréa catrópa | andrea del fuego | anita
deak | annita costa malufe | beatriz seigner
| bruna beber | bruno zeni | caco ishak
| caco pontes | caetano gotardo | caetano
grippo | carla kinzo | carol rodrigues |
charles marlon | claudinei vieira | claudio
daniel | dan nakagawa | daniel minchoni |
denise bottmann | denise sintani | diana de
hollanda | diego carvalho sá | diego vinhas
| dirceu villa | donny correia | edson cruz
| edson valente | eduardo lacerda | ellen
maria | elvira vigna | eric novello | fabiana
faleiros | flávio caamaña | francesca cricelli
| frederico barbosa | gabriela amaral almeida
| gregório duvivier | gustavo nagib | heitor
ferraz | helena ignez | isabela noronha |
jéssica balbino | joão gomes | joão paulo
cuenca | jr. bellé | julián fuks | juliana
calderón | juliana cordaro | karine kelly
pereira | laerte | leonardo costa | leonardo
mathias | letícia novaes | lilian aquino
| lineker | luana vignon | lubi prates |
luiz ruffato | luiza romão | maeve jinkings |
maiara gouveia | maíra mendes galvão | manoel
herzog | manoel quitério | manu maltez |
marcelino freire | marcelo ariel | márcia
denser | marcia tiburi | marcílio godoi |
marco dutra | marcos gomes | marcos siscar |
maria clara escobar | maria giulia pinheiro
| mariano marovatto | mei oliveira | mel
duarte | michele santos | micheliny verunschk
| nicolas behr | noemi jaffe | odyr | pádua
fernandes | paula fábrio | paulo ferraz
| pedro tierra | pedro tostes | priscila
gontijo | rafael rocha daud | regina azevedo |
renan nuernberger | renan quinalha | reynaldo
damazio | ricardo escudeiro | ricardo lisias
| ronaldo bressane | sheyla smanioto | shiko
| stefanni marion | tarso de melo | tatá
aeroplano | tatiana salem levy | thelma
guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | veronica stigger
Prefácio por Marcia Tiburi | Antologia-
Não existe poesia depois do golpe. Não existe poesia atrás do
golpe. Não há poesia que vá à frente do golpe. Não há poesia que
nos proteja do golpe.
A poesia não entra na fila do golpe como um pagador de contas atrasadas, a poesia não carrega o caixão da democracia num
féretro infeliz puxado pelo golpe. A poesia não é uma oração pelo
golpe. A poesia não é o cortejo, não é como flores no velório para
tornar menos feia a morte. Não é ostentação, não é choro, não é
conforto, não é jeito. E o golpe não é a morte.
Porque a morte é mais digna que o golpe.
A poesia não é sobre o golpe. A poesia não é sob o golpe. A poesia não faz explicar o golpe. Não é para suportar o golpe. A poesia
não é o bálsamo que conforta os pés queimados do golpe sobre
as brasas apagadas da democracia.
Não existe poesia que ligue um cidadão ao golpe. Não existe
poesia que permita pensar o golpe. Não há poesia para dialogar
com o golpe. O golpe não é mensurável, o golpe não é incomensurável. A poesia não é uma medida do golpe.
Nenhuma teoria da poesia é capaz de dar conta do golpe. Não
é possível uma teoria do conhecimento do golpe. Uma filosofia
política do golpe. Uma estética do golpe. O golpe não se explica
na ciência, na medicina ou na botânica, na antropologia ou na
psicologia, na geologia ou na física quântica, na cartomancia ou
na leitura das mãos dos golpeados ou dos golpistas. A poesia não
é a expressão que sobrevive ao golpe porque a ciência falhou em
impedir o infarto, em ver a anatomia do golpe.
É que a poesia não tem nada a ver com o golpe. O golpe não vê
a poesia. O golpe aparece quando a poesia desaparece.
O golpe está onde a poesia não se deu.
É onde não há nudez.
Não há poesia onde há golpe. A poesia não conversa com o
golpe, a poesia não concorda, a poesia não sucumbe. A poesia
não se perde, não se entrega, não se impõe, não entra em trabalho de parto pelo golpe. Não dá a mão em cumprimento amigável com o golpe. A poesia não morre por um golpe. Por quantos
7
golpes o golpe seja capaz de produzir. A poesia persiste e nos dá
a mão com que escrevemos o texto, um texto que se lança como
pedra contra as vidraças transparentes do golpe sempre pronto
a impedir a vida para dar lugar a espectros.
Não existe uma poética do golpe. Nenhuma elaboração do
golpe é suficiente, nunca entenderemos o golpe, por mais que
o golpe seja contra todos, seja contra nós, seja contra cada um.
Sentimos o golpe sem saber onde ele se deu. Em que parte de
nosso corpo a picada venenosa, que parede, a encosta, a pedra,
que teto, que coice, que facada, que tiro, que soco intransponível.
O golpe é grande, o golpe pode ser gigante. O tamanho do
golpe é o da tristeza que ele causa. Mesmo que o golpe venha de
fora, venha de baixo, venha de cima, venha pelas costas, o golpe
atinge é dentro de cada um. No lugar onde somos, onde corpo e
espírito nunca foram diferentes. A poesia pode ter apenas uma
relação com o golpe. Não importa o tempo, não importa como, a
relação que a poesia tem com o golpe é única: a poesia é contra
o golpe.
Não existe poesia depois do golpe. O que existe é a poesia contra o golpe. O golpe surge, a poesia se insurge. A poesia contra o
golpe é o cuspe, a pedrada, o soco, o pontapé, o pneu em chamas,
as vias impedidas, a greve geral.
A poesia é o fora do texto para onde o texto olha a abrir com as
armas perigosas da palavra a passagem para a vida revolucionária.
8
Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora
em filosofia (UFRGS, 1999). Publicou diversos livros de filosofia,
entre eles As mulheres e a filosofia” (Ed. Unisinos, 2002); Filosofia
cinza: a melancolia e o corpo nas dobras da escrita (Escritos, 2004);
Mulheres, filosofia ou coisas do gênero (EDUNISC, 2008); Filosofia
em comum (Record, 2008); Filosofia brincante (Record, 2010); Olho
de vidro (Record, 2011); Filosofia pop (Bregantini, 2011); Sociedade
fissurada (Record, 2013); Filosofia prática: ética, vida cotidiana, vida
virtual (Record, 2014). Publicou também romances: Magnólia
(2005); A mulher de costas (2006); O manto (2009) e Era meu esse
rosto (Record, 2012). É autora ainda dos livros Diálogo/desenho
(2010), Diálogo/dança (2011), Diálogo/fotografia (2011), Diálogo/cinema (2013) e Diálogo/educação (2014), todos publicados pela editora Senac-SP. Em 2015 publicou Como conversar com um fascista:
reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record, 2015). É
colunista da revista Cult.
9
ao estêvão ferraz e a todos os pequenos que nasceram durante
a idealização e fechamento da antologia-manifesto. por certo,
um dia serão grandes e irão se orgulhar de terem nascido numa
época de lutas.
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| alessa menezes | alessandra e verônica
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fresia | ana elisa ribeiro | ana estaregui
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deak | annita costa malufe | beatriz seigner
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grippo | carla kinzo | carol rodrigues |
charles marlon | claudinei vieira | claudio
daniel | dan nakagawa | daniel minchoni |
denise bottmann | denise sintani | diana de
hollanda | diego carvalho sá | diego vinhas
| dirceu villa | donny correia | edson cruz
| edson valente | eduardo lacerda | ellen
maria | elvira vigna | eric novello | fabiana
faleiros |flávio caamana | francesca cricelli
| frederico barbosa | gabriela amaral almeida
| gregório duvivier | gustavo nagib | heitor
ferraz | helena ignez | isabela noronha |
jéssica balbino | joão gomes | joão paulo
todos sabem
as pessoas
como todos os dias
jantam
guardam a louça, tomam café
fumam
conversam sob a lua
urinam, transam, contam piadas
falam sobre autopeças
ou um lateral-direito de um time
as pessoas escrevem artigos, publicam poemas, produzem chips
e pneus
fazem planos de viajar, tomar sol, mudar os móveis da casa
as pessoas cuidam de seus filhos, prosperam, brigam pelo
direito a uma vaga no estacionamento do shopping
as pessoas se previnem, ou não, contra o HIV, o H1N1 e o aedes
aegypti
vejo
daqui da janela
os prédios em seus lugares, as casas em seus lugares
os pés e as cabeças das pessoas nos seus mesmos respectivos
lugares
e alguém assobia na rua enquanto leva um cão para passear
hoje e amanhã
como dias quaisquer
nascendo naturalmente de noites, madrugadas
com a sacudida do sol ou a lufada gelada do vento
as pessoas
–
mas
maquinaram um golpe
e o país
vive
neste exato momento
12
em estado de exceção
os homens e as mulheres que eu vejo daqui não se espantam
não cerram os dentes atônitos
não sangram pelos olhos, não gritam
continuam empurrando seu dia, saboreando seu silêncio
ressonando o sono cínico
(os sonsos essenciais de Clarice
o que somos)
na sala do apartamento esperando
–
a infâmia abateu o país?
estamos vivos, inabaláveis, inamovíveis na firme rotina
–
a nação foi usurpada?
o usurpador dorme tranquilo
ou toma chope em Ipanema
seguindo liso seu caminho
o riso escarninho
dos que maquinam golpes
e golpeiam
sorrindo
sem nenhum ruído
–
a voz dos pobres dos pretos dos índios
é divertida
a voz do usurpado, banguela, mal fala
divertida
a voz do peão nordestino puta bicha bandido drogado sapata
traveco morador de rua
divertidos
quando horrorizada, essa voz
é divertida
o ditador ri
apanha o riso no ar
é aplaudido
13
o ditador é esperto, sério, reto, engraçado
divertido
o salário mínimo do peão, a carteira de trabalho da empregada
doméstica
divertidos
ingênuos, ridículos
conduzindo jegues, pronunciando “conzinha”
eles são, todos sabem disso, divertidos pra caramba
o mundo não pode ter perdido toda sua graça, vejam só, o
ditador comenta
e ri
é aplaudido
ladrões craqueiros pedreiros favelados sapatas bichas lésbicas
não são exatamente gente
é diferente ser gente
todo mundo sabe disso, está no ar
ele ri
o ditador fala em tortura
é aplaudido
fala em defesa da família
da moralidade, do brasão com seu nome
sobram aplausos
“eles não são exatamente gente”
afinal gente
não se deixa levar
gente não deixa barato
olha isso: gente é menos engraçada
desses aí, ó – dá dó
mal sabem pegar elevador, escada rolante
e obrigar-lhes a andar por bibliotecas, pegar avião, trem
noturno na Europa
é lamentável
um desperdício
dá dó, vergonha
índio preto pobre
14
comem paçoca
farinha
feijão
mandioca
são acostumados
todos sabem
imploram esmolas
são também espertos
inventam traquitanas
dão corres
mas
as mudanças se aproximam
Hoje é
um novo
dia
de
um novo
tempo
que
começou
alvissareiros dias
tudo se encaixando novamente em seu
perfeito
lugar de origem
coisa sagrada isso, gente:
a sagrada família romana protegida da conversa encachaçada
dos bolivianos
a sagrada família livre da promiscuidade de mulheres que
falam em direito
e sabem que não são nem um pouco
direitas
todos sabem
os índios os pretos
as bichas
os travecos
15
todos sabem
não há golpe,
nunca houve
é só a vontade do mais forte.
Adriano de Almeida é professor e pesquisador em literatura, autor do livro Entulhos e do blog não basta. Quer usar todas as letras
possíveis para denunciar o GOLPE.
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ferraz | helena ignez | isabela noronha |
jéssica balbino | joão gomes | joão paulo c
Jornal do Brasil, 11 de maio de 2036.
Por Alessandra Safra, São Paulo, 23h13
Vinte anos do manifesto A Greve do Ventre Encerraram-se há pouco os atos nas capitais do país sobre os
vinte anos do manifesto A Greve do Ventre. Os movimentos
sociais culminaram, nesta noite, na representação central das
Mulheres em Luta e fizeram um balanço geral do que aconteceu
nesses vinte anos pós-golpe de 2016. Embora tenham apurado os
índices e impactos significativos do apoio positivo das mulheres
à greve, não houve absolutamente nenhuma comemoração. As autoridades já buscam insistentemente dialogar, no entanto a
decisão foi unânime: não haverá diálogo, o manifesto é inegociável. A questão central de A Greve do Ventre objetiva basicamente
não gerar “escravos modernos”, de acordo com a inferência de
que o sistema vigente transformou os seres humanos, e propõe
assim uma nova ordem mundial com “direitos universais e ética
prática no respeito à vida e ao meio ambiente, em toda plenitude
e complexidade que isso implica”.
O golpe das eleições “teocráticas” – e alguns estudiosos afirmam ter sido este o objetivo inicial da tomada de poder em 2016
– contou com a seguinte e bem-sucedida estrutura: 1) A mídia
nativa engendrava os fatos, fazia uso de psicologia de manipulação das massas e repetia mentiras até torná-las verdades; 2)
Grupos financiados inflamavam a população e falavam em nome
dela; havia mercenários em todas as instituições. Além disso,
políticos corrompidos e empresários corruptos geravam crimes
implantando provas contra quem se opusesse à conspiração; 3)
E, para finalizar o golpe, anunciavam processos jurídicos, via
sentenças graves em que o oponente do regime era punido com
prisão quase perpétua; sem defesa, já que não havia justiça. Tudo
era vendido como natural e legal. 18
Neste cenário, o primeiro pastor foi eleito presidente. Desde
então, o horror se sucedeu.
A história registra desde a brutalidade nos campos de tratamento da sexualidade, que eram mantidos pelo governo teocrático com a finalidade de tratar os “distúrbios do pecado” – como
informavam as propagandas estatais, a igualmente terrível legalização do “estupro dos maridos”, obrigados a seguir as leis de
Deus e gerar muitos filhos em suas esposas, afinal “toda mulher
com 18 anos ou mais precisa cumprir sua missão genitora, de
forma ininterrupta, segundo a Vontade de Deus”. O inominável
ocorreu também nos presídios femininos – muitos e lotados –,
em que as primeiras a aderirem à Greve do Venw tre foram submetidas ao estupro para que a “lei de Deus fosse respeitada”.
Após os atos das Mulheres em Fúria, que há cinco anos queimaram os meios de comunicação a serviço da ditadura teocrática capitalista, o manifesto A Greve do Ventre tornou-se o mais
inquestionavelmente revolucionário ato da história, não só brasileira, mas de toda a humanidade, visto que diversas nações
opressoras se afligem hoje com a possibilidade de o manifesto
ser incorporado por mulheres insurgentes.
Ale Safra (São Paulo/SP) é escritora, publicou Dedos não brocham (Draco, 2012). Participa de algumas antologias, como Geração em 140 caracteres (microcontos, Geração Editorial). Tem textos
publicados em várias revistas eletrônicas e mantém sua página,
Dedos Não brocham, ativa no Facebook. [[email protected]
gmail.com]
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fabiana faleiros |flávio caamana | francesca
cricelli | frederico barbosa | gabriela amaral
almeida | gregório duvivier | gustavo nagib
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noronha | jéssica balbino | joão gomes |
joão paulo cuenca | jr. bellé | julián fuks |
Alessa Menezes é pernambucana, artista-educadora. Costuma
sorrir quando é chamada de Maria Bonita. Pronta pra luta em
tempos de golpe, acredita que o “ideal seria se não precisássemos
lutar todos os dias pela causa feminina”.
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“…Y asi van destruyendo el mundo, matando toda esperanza.
Como estan secos y huecos, y ya no se acuerdan de cuando eran
humanos, aniquilan todo sentimiento real con el cual se encuentren, todo latido de vida los molesta…” (Performer: Alessandra Cestac / Foto: Pedro Bigali)
Los vampiros existen.
Como hace mucho tiempo que están en este mundo, vida tras
vida, han aprendido a mimetizarse con los hombres. Han aprendido a parecerse buenos y confiables. Han aprendido a disfrazarse de hombres casi a la perfección, casi porque cuando la luz
del dia desaparace ellos no pueden evitar mostrarse tal como son.
Sombrios, frios y sin corazón. Huyen de la oscuridad porque es
ahi donde son desenmascarados, no porque ella los disguste. La
oscuridad es su habitat, es donde se vuelven cada vez mas fuertes, mas cínicos, mas mónstruos. Se aprendieron muchos artilúgios para poder pasar como hombres de bien. Mienten porque
no podrían decir la verdad, y como mienten dicen que otros nos
mienten y si uno anda distraido les cree. Se aprendieron todas
las palabras acertadas y empezaron a dar otros nombres a las situaciones, seduciendo con su oralidad, escondiendo sus intenciones. Y si uno anda dolido, desesperanzado, les cree ciegamente.
Ellos no se alimentan de sangre como se piensa, se alimentan
de la dignidad humana, chupan el alma, las ganas y la vida. Matan indirectamente, detras de leyes, de mandatos, de contratos
y firmas. Los vampiros ocupan muchos cargos de poder, asi que
tienen muchas maneras para que no los descubran y asi puedan
seguir alimentandose libremente. Hay que reconocer que entre
ellos hay un codigo muy fuerte y se cuidan entre ellos. Como precisan mucho mucho dinero para esconder su jodida condición de
vampiro y su hambre insaciable no les importa de donde venga
el billete, lo que importa es que venga. Y asi van destruyendo el
mundo, matando toda esperanza. Como estan secos y huecos, y
ya no se acuerdan de cuando eran humanos, aniquilan todo sentimiento real con el cual se encuentren, todo latido de vida los
molesta. Los vampiros no van a parar hasta que el mundo deje de
existir, porque saben que ya no pueden volver a ser humanos, les
es imposible volver atrás, quieren que todos sufran porque estan
arrepentidos y su deseo desmedido y su terrible envidia por volver a estar vivos los tortura dia a dia. (Veronica Cestac 13/05/16)
24
Alessandra e Veronica Cestac, irmãs, argentino/brasileiras, mimetizadas e construídas nessas duas culturas. Netas de artesãos,
filhas de artistas plásticos, não são capazes de viver e enxergar o
mundo fora de uma visão cheia de arte. Através da escritura, das
fotos, do tear, vão fabricando e propondo um melhor lugar para
se viver, sem pressa e com muita fé.
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cruz | edson valente | eduardo lacerda |
ellen maria | elvira vigna | eric novello |
fabiana faleiros |flávio caamana | francesca
cricelli | frederico barbosa | gabriela amaral
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noronha | jéssica balbino | joão gomes | joão
paulo cuenca | jr. bellé | julián fuks | j
Bom dia, Brasil
Acordei com vontade de esfregar na sua cara minha viadagem,
mas agora a polícia pega pesado e como entre o hospital e a cadeia nenhum é boa opção, desisti.
Fui espiar a net e assim que conectei acionei o cronômetro, não
dá pra ver de tudo ou acaba a franquia. Comecei com um pornô
em baixa resolução (HD nem pensar!) aliás, tão baixa que não
sabia se eram pessoas trepando ou um teste Rorschach. Depois,
Face, estava tudo lindo, paz, amor e trechos do evangelho.
Chamei um amigo no inbox e pedi que ligasse no fixo, whatsapp
e celular nem pensar e as operadoras andam mais rápidas no
corte do que a Revolução Francesa. Desliguei o note e olhei para
o cronômetro, ainda rola uns dez minutos de Netflix, mas não
direto, divididos até o fim do mês. O telefone tocou em seguida e
temos um esquema, cada um fala cerca de três minutos, desliga
e liga para o outro, assim o valor fica razoável para ambos.
Ele me contou que andava subindo pelas paredes, mas com os
novos planos, os aplicativos ficaram inviáveis e chat então nem
pensar, cinemão e boite é coisa do passado, todos viraram templos, choramos nossas mágoas e nos despedimos. Precisava ir ao
mercado e separei o dinheiro, cartões só para morte ou acidente.
Vesti a roupa mais discreta e seguro de que nada estava afrontando, peguei a sacola e fui.
Esperando o elevador encontro uma vizinha, mulher jovem que
abandonou a carreira para cuidar do marido e filhos, pois agora
mulher só trabalha mesmo como diarista, enfermeira, caixa e
essas profissões em que um toque feminino é essencial, fora isso
tem de ser recatada, cuidar do lar e ser a mulher literalmente
atrás do homem. Ficamos num silêncio amargo, acho que mentalmente trocamos confissões. No elevador, descemos olhando
27
os números em contagem regressiva que para nós acabou há
tempos.
Nos separamos à rua. O mercado estava lotado e as filas quilométricas, compro meia dúzia de produtos que o dinheiro permite e
vou pra fila, quarenta minutos depois saio do mercado com um
sacolinha, sem troco, suor escorrendo pela testa e a certeza de
que amanhã será um dia muito pior.
Alexandre Willer Melo – Pode ser fantasia e deveria mesmo
ser, caso não fosse algo tão próximo de nossa realidade atual, a
eterna vigilância pegou há tempos no sono...
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charles marlon | claudinei vieira | claudio
daniel | dan nakagawa | daniel minchoni |
denise bottmann | denise sintani | diana de
hollanda | diego carvalho sá | diego vinhas
| dirceu villa | donny correia | edson cruz
| edson valente | eduardo lacerda | ellen
maria | elvira vigna | eric novello | fabiana
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Parque Trianon
essa sexta-feira henrique Montes saiu contente da faculdade.
Foi andando pela Avenida Paulista com dois colegas – conversas, piadas, uma cerveja, o alívio de ter deixado para trás horas
e dias em estado de seriedade, e aqui fora o céu azul das tardes
majestosas de setembro, as bancas de revista, pessoas sorrindo.
Demorou-se nas despedidas com os colegas, e, quando ficou só,
caminhou um instante com o rosto meio tonto de quem não sabe
bem o que fazer. Dezoito anos, a tarde azul e alheia, Henrique
sentia o tempo apenas passar: era liberdade demais dentro dele,
pois acreditava ter aprendido a viver sem sofrer ditaduras e golpes que ferissem sua juventude.
– Foi um crime sem importância, um travesti assassinado. Mas o
senhor desculpe a demora, detivemos muita gente.
Henrique atravessou a Alameda Casabranca e não soube se continuava até a Rua Augusta ou se entrava no Parque Trianon. Gostava do parque por causa do silêncio repentino que se instala na
Avenida Paulista, como se desafiasse à cidade. Estava bem concorrido nessa hora, não era o melhor momento, mas sempre haverá mais aventura no parque que nas galerias da avenida. Seria
mais fácil uma boa conversa e um papo já era uma aventura, ver
os caras na hora de afrouxar a gravata e descontrair-se já é aceder a aventuras minúsculas, no outro lado dessas vidas que Henrique via ao redor dele e nas quais sempre valerá a pena penetrar.
– Cercamos todo o parque. Trouxemos seu filho porque ele não
apresentou documentos. Não devia estar fazendo nada de bom
naquele lugar, a juventude anda perdida.
Henrique entrou pela aleia principal. Olhava para os homens,
todos com caras escondidas atrás do rosto, caras ocultas que
Henrique gostava de descobrir, as que se filtram pelas fissuras
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frágeis do rosto: um olhar, um leve movimento do nariz, um
lábio apertado, as caras que Henrique, aos dezoito anos, precisava possuir de alguma maneira. Passou frente ao Fauno e,
como sempre, desviou o olhar: aquela estátua trazia azar, um
rosto de pedra. Encontrou lugar num dos bancos antes da Alameda Santos. Sentou-se e aconteceu o que o irritava, que o jogo
se invertesse e fossem os outros os que penetrassem pelas fissuras do seu rosto. Levantou-se e não hesitou: iria ao banheiro,
o banheiro público – não era a primeira vez que o frequentava
- que será sempre o lugar mais propício para essa espécie de magia que torna as caras brandas e inocultáveis depois de algum
manuseio na braguilha, durante o qual o rosto ainda é de pedra,
como o Fauno.
– Sim, foi assassinado com uma navalha, atrás do colégio Dante
Alighieri. Pensamos que seu filho era menor, por isso intimamos o
senhor em Santos. Veja com que companhias anda seu filho.
A coisa não demorou. O Indivíduo, de aliança no dedo e pasta
na mão, fez o gesto – a cara ainda de Fauno – para que Henrique
entrasse com ele na cabine. Quando saíram, tinham os rostos
outra vez pétreos depois da viagem por caras transfiguradas, e
da viagem só ficava o suor. Foi então quando Henrique viu o
guarda do banheiro fazendo para os Faunos presentes o gesto
solidário – pensava em dinheiro? – de avisar que saíssem rápido.
“Sujou, chegou polícia”, disse um jovem, meio experiente, meio
assustado.
– Claro que seu filho não tem nada com o crime. Já sabemos que ele
é estudante. Por isso o colocamos nessa sala com aquele outro que
parece que é professor. Veremos que aulas vai dar a ele.
Presos no camburão, além de Henrique Montes, iam duas travestis e um rapaz de vinte e cinco ou vinte e seis anos, músico
de profissão, nascido no Uruguai. Ninguém falou. O silêncio das
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travestis era um silencio profissional. O silêncio de Henrique era
de surpresa. No rosto do quarto homem estava estampada a cara
da humilhação.
Alfredo Fressia é brasileiro e nasceu há 326 anos em Montevidéu,
no Uruguai. Sempre foi torto, igual aqueles anjos de mediana
elegância que viviam dentro dos poemas. Queimou incunábulos
em Santos e folheou histórias da democracia de Péricles sentado
na ágora de Éfeso.
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Mesó-crise
consertá-lo-ei
(não temos compromisso –
com o erro)
encantem-se com
meu português castiço,
esse mesmo:
tão distante de vocês
quanto a dignidade.
apavorem-se
com estas palavras
feitas de hífens
bem no meio:
ninguém está aqui
para esclarecer
a que veio.
Ana Elisa Ribeiro é mineira de Belo Horizonte, 40 anos, descontente com um país em que cultura e educação são sempre os primeiros pilares a serem golpeados.
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dos fogos, a faca
1. essas águas tão mínimas,
ainda sim,
não cabem nesses dias;
2. amanhã não haverá lenha
de todas as manhãs que ainda podemos ter
é apenas hoje esse fogaréu;
3. estamos entre cavalos cegos
é tudo o que há para ver: galopes galopes
mesmo que nos digam que abaixo
há somente pedais;
4. ternos cinzas, ternos azul petróleo, gravatas, gravatas;
5. escondam os rostos, não há mais mulheres
escondam as sombras debaixo da tapeçaria
disfarcem com lenços, há ratos em toda parte;
6. girar, girar, até desinfetar;
7. as primaveras estão encubadas nas retinas,
à revelia elas
erguem-se transparentes – pelo contágio;
8. nódoa, flancos, junho, carne solar;
9. só as flores e os incêndios podem ser legítimos
e os sapatos
sangue, só por sangue;
10.que tem escarpa; cortado a prumo
à golpe frio como disse o Herberto,
é amargo o coração do poema.
Ana Estaregui vive e trabalha em São Paulo. Em tempos mais
sombrios, tenta sempre se lembrar de que “a arte é garantia de sanidade” / “a arte é garantia de sanidade” / “a arte é garantia de sanidade.”
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sobre o céu que agora cai em nossas cabeças
te digo, um golpe não abolirá o acaso
não abolirá a sorte, a má fortuna e as flores
tamo aqui na mágica do embuste
de ficar em pé como pedra de gelo ao sol
de sacudir a poeira, de segurar a água com a peneira
te digo, aqui não é lugar pra principiante
se não guenta, não desce
não assanha o formigueiro
se o céu cai
a gente fica
Ana Rüsche sempre tenta estar nas ruas escutando. Nem sempre
dá certo. Tem dias em que o assombro é tanto que se refugia nos
fones de ouvido. Sonhos bonitos também dão medo.
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André Dahmer é carioca do ano de 1974. Republicano, aprecia
golpes em campeonatos de judô.
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André Vallias é poeta, foi contra o desmonte da gestão Gilberto
Gil no MinC e é contra qualquer governo que construa Belo
Monte.
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Muralha
A hora mais difícil era às cinco da tarde. A luz ainda entrava pelas paredes de vidro, mas já começávamos a espalhar os tatames
pelo chão da casa. O tempo, então, ganhava uma estrutura metálica. Cada minuto se fincava no chão como uma grade, que se
fechava às sete em ponto. Quando a fachada do condomínio era
trancada, ficávamos deitados.
– Mãe, a gente precisa mesmo desligar a luz agora? Ainda não
tô ouvindo nada.
– E eu não terminei de fazer as tarefas... O gestor de conhecimento avisou: se eu falhar em outra meta, vou ser rebaixado.
Era absolutamente cansativo ouvir a argumentação dos dois
todos os dias. Eu já havia transitado por uma gama de sensações
diante do mesmo episódio. Nos primeiros meses, eu me sentia
culpada. Talvez um pouco como a poeta americana, que há mais
de um século tinha escrito algo sobre como uma criança mereceria mais do que um teto escuro e sem estrela. O fracasso dessa
aspiração a tinha feito desistir da vida. Naquela época em que as
pessoas escreviam e se matavam (Hoje não há mais tempo para
o suicídio).
Depois, o cansaço foi destruindo minha empatia. Eu respondia aos protestos como uma atriz que sabe eficientemente desempenhar seu papel. Dizia o que mais rapidamente fizesse acabar a conversa. E tentava dormir, antes que os disparos de balas
e explosões, lá pela meia-noite, atingissem seu auge.
Mesmo que com algumas interrupções – uma bomba que caia
mais perto, um invasor que usava o megafone para ampliar seus
grunhidos de ordem para a turba – os meninos dormiam. Eu não,
o que restringia a minha possibilidade de sono ao período das
oito às onze. No resto da noite, adormecer e acordar em intervalos curtos me deixavam não só fisicamente desfigurada, mas
moralmente fraca.
Diante do espelho, uma estranha ia surgindo. Pálpebras roxas,
íris pardacentas transformavam os olhos – antes janelas – em
45
abismo escuro. E pouco a pouco fui odiando cada vez mais tudo o
que me sobressaltasse. As perguntas impertinentes das crianças.
Os risos ocasionais dos vizinhos. A população que diariamente
insistia em atacar e saquear o condomínio, relinchando agudamente quando encontrava a morte diante dos nossos muros.
Eu precisava reencontrar algo que rompesse com essa sensação de aprisionamento. Talvez voltar a sonhar. Mas nesses dias
difíceis, meu único alento era A Guarda Unificada com seus cantos de guerra e pés marchando ordenadamente.
Andréa Catrópa, desde sua primeira foto oficial, quando fez três
anos, estava brava. A cara feia só piorou nos últimos meses, mas,
sozinha, não assusta. Acredita que é preciso união para levantar
uma enorme carranca contra quem dá como certa a vitória das
leis de mercado sobre os direitos humanos.
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– Deixa ver tua boca.
Nico abriu e revelou uma amígdala inflamada.
– Tizica, pega um mato pra chá que ele tá com dor de garganta.
Amanhã ele começa no café – ordenou Geraldo.
Tizica cuidava da casa e tirava o que podia de uma espiga de
milho: angu, fogo, papel de tabaco, óleo, curau. Tratou de Nico
com uma erva qualquer, fingiu dar a ele o unguento certo. Deixou que a garganta inflamasse até um limite possível, assim ele
não trabalharia debaixo de sol. Tizica levava bolo para o quarto
e especulava Nico.
– Como ficou o corpo da tua mãe?
A empregada não descansava desde a chegada do menino,
numa manhã foi ter com o patrão.
– Vou ficar com o Nico.
– Ser teu filho vai mudar nada, boto ele pra trabalhar do
mesmo jeito. Amanhã ele vai ajudar Osório pentear o café no
terreiro.
Dia seguinte, Tizica veio dizer que o garoto estava febril, que
daquele jeito não ia render, nem adiantava, ia dar mais trabalho.
– Nico já perdeu uma mãe. Na tua idade, não demora ele perde
outra – respondeu Geraldo.
Os dias correram, Nico levava para o cafezal o almoço dos
trabalhadores. A febre se mantinha, vestígios do raio ficaram nos
olhos, cintilando. Numa madrugada, levantou-se e foi à cozinha,
a lenha em brasa deu um halo vermelho ao menino, os sabugos
de milho estalavam no calor do fogão, o filtro de barro era seco
e vazio.
– Vai deitar, moleque – disse Tizica de camisola.
Ao encostar nele percebeu a febre, mais um pouco matava as
enzimas que transformam farinha de trigo em célula humana.
Foi à cisterna puxar um balde com água. Levou com ela o garoto,
que sorveu o frio madrigal. Molhou a nuca, os braços, testa, por
fim todo o balde pelo corpo magro. Levantou a camisa dele, deixando o pulmão tomar raios lunares.
– Vai te esfriar.
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Tizica ouviu barulho no mato, podia ser lobo indo sondar galinhas. Fosse, Geraldo sairia com a espingarda. Questão de minuto
e o patrão engatilhou no alpendre. Não viu os dois no terreiro,
Nico adormeceu no colo de Tizica, ela estava sentada, imóvel. O
barulho se aproximou, Nico gritou com o tiro. O lobo caiu perto
das cebolinhas.
Trecho de Os Malaquias, romance vencedor do Prêmio Saramago,
publicado em Israel, França, Itália, Alemanha, Romênia, Portugal, Suécia e Argentina.
Andréa del Fuego nasceu em São Paulo. A literatura foi a maior
descoberta da sua vida, pois tem por certo que ela é um software
que gera paisagens, mapas, direções. Mais ainda, acredita que
literatura é resistência porque ela mesma não se conforma com
a gramática, e, mesmo quando se conforma, afronta e revela.
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Tô morrendo de vergonha do Brasil
Acabei de ver aquele apartamento da Odebrecht, amor! Acho
que dá pra pagar em 20 anos.
Eu não apoiei o golpe.
Ah, não vamos no mercadinho, não... Bora num supermercado maior... tem mais opções de marcas.
Eu não apoiei o golpe.
Não dá pra colocar ele na escola pública, baby. Que tipo de
formação ele vai ter?
Eu não apoiei o golpe.
Não esquece de pagar o plano de saúde, amor.
Eu não apoiei o golpe.
No whatsapp: linda, compra óleo de soja, por favor.
Eu não apoiei o golpe.
Como esse povo tem coragem de apoiar este golpe? Pelo amor
de Deus, que gente burra! Será que eles não estudam?
Pois, é. O povo brasileiro é muito ignorante, e a direita só
pensa no lucro. Aliás, você viu meu post sobre isso no Facebook?
Anita Deak acha que no fundo, bem no fundo, pode ser uma golpista por tabela. Cuidado com ela!
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minhas palavras batem nas paredes
alguém em casa?
quais são as dúvidas maiores diante da porta fechada
diante de um muro só teríamos de
perguntar como abatê-lo como
fazê-lo esses cacos ruínas de uma velha divisão
hoje nada é partido ao meio nada além de
uma mesma ordem mesma história de todos
alguém em casa? alguém que nos ouça quando gritamos
descalços no corredor com os cabelos molhados
alguém nos ouvindo?
minhas palavras batem nas paredes vazias ouço
o eco das minhas palavras o golpe no vazio as
dúvidas maiores diante de um muro a única coisa a fazer
abatê-lo mas as palavras ecoam no vazio elas mesmas
vazias
golpes sem sentido
se o sentido é aquilo que importa elas perdem isto:
aquilo que importa perdem se perdem sem sentido
em um mundo tornado único em um mundo que
contempla ruínas mas alguma coisa havia antes
abater um muro arrombar a porta fechada
um mundo esperava por detrás
hoje as palavras batem nas paredes batem
golpeiam o oco das paredes
e alguém ainda
poderia ouvir?
Que peut-on contre um mur sinon l’abattre?
Edmond Jabès
Annita Costa Malufe, poeta e professora, nasceu em São Paulo
em 1975. Tem medo das ditaduras silenciosas e dos microfascismos. Só vê saída na educação. 53
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Sem chão
A faca nas costas
Sem crime
A faca nas costas
Sem constituição
A faca nas costas
Sem presidenta
A faca nas costas
Sem legitimidade
A faca nas costas
Sem mulheres nos ministérios
A faca nas costas
Sem negros nos ministérios
A faca nas costas
Sem LGBTT
a faca nas costas
Sem MinC, sem direitos humanos, sem desenvolvimento agrário
A faca nas costas
Sem ganhar eleições
A faca nas costas
Sem plano de governo aprovado nas urnas
A faca nas costas
Sem direitos constitucionais inalienáveis
A faca nas costas
Sem investigações
A faca nas costas
Sem previdência
A faca nas costas
Sem SUS
A faca nas costas
Sem farmácia popular
A faca nas costas
Sem cotas, sem Prouni, sem Fies,
a faca nas costas
Sem Bolsa Família
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A faca nas costas
Sem comida na mesa
a faca nas costas
Sem fundo de garantia para trabalhadores domésticos
A faca nas costas
Sem pré-sal
A faca nas costas
Sem BRICS, sem Mercosul
A faca nas costas
Sem autonomia do FMI
a faca nas costas
Sem Reforma Política
A faca nas costas
Sem auditoria da divida pública
A faca nas costas
Sem reforma agrária
A faca nas costas
Sem democratização da mídia:
A faca nas costas.
Beatriz Seigner é cineasta e não consegue acreditar naquilo
que estamos vivendo.
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Bruna Beber nasceu em 1984, em Duque de Caxias (RJ), e vive em
São Paulo. É poeta, publicou alguns livros e, claro, não reconhece
Michel Temer como presidente.
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Blasfêmia de vermelho
As cores, aquelas, que não se vestem mais. As cores, que não representam mais. As palavras, que são outras. As palavras agora
são outras. Blasfemas. Blasfêmias. As palavras que lemos, as palavras vestidas de ordem e progresso, que não valem mais, nem
valiam, nem nunca. As palavras que hoje. As palavras, que tomara
sejam outras. Levante, contragolpe, ocupação, baderna, blasfêmia,
canto, dança, artista, vagabundo, mulher. As palavras em uma
bandeira, que devem ser outras, que deve ser outra. Uma bandeira
que hoje. Uma bandeira que hoje é pano sujo, pano roto, pano
puído e pútrido. Não da limpeza, não da terra, não do suor ou do
gozo, mas da máscara, das máscaras, desses aí. Vocês sabem quem.
Máscara mortuária, vestida em vida, vertida em privado. As bandeiras agora são outras, as que sempre foram, deveriam ter sido,
voltarão a ser, já são, sempre. As bandeiras, nós as brandimos e
estendemos com nossos corpos. As bandeiras, bandalheiras, blasfemas, elas são de sete tons, de mil e uma cores, elas têm estrelas
e ferramentas e caveiras dos que morreram. Nossas bandeiras da
dor e da luta. Nossas palavras de luta e de dor. A dor, que não dói,
a dor que alimenta. A dor da tortura não dói no útero, a dor da
doença não dói no corpo, a dor da injustiça não dói na pele. A dor
do golpe dói na alma. Menos aos que venderam a alma, menos
aos que não têm corpo. Menos aos que odeiam o corpo, menos aos
que não sabem o que é o corpo, o corpo solto, o corpo sem nada, o
corpo que dança. Agora, nada a temer. Nada a temer a quem não
tem nada. Quem tem é que tem a temer. Quem tem a temer são
eles, instalados no cadafalso, reinando no patíbulo, vivendo no
purgatório, acuados pelo vomitório da geral. Mas eles não podem
dizer a que vêm, eles estão sem palavras e eles as procuram em
bandeiras rotas, puídas e pútridas. Eles não são capazes de dizer,
eles não sabem dizer. Não sabem o que amam, não sabem dizer o
que amam, não sabem dizer o que temem, mas eu sei. Eu sei o que
eles temem. O que eles temem mesmo. O que eles temem mesmo
é aquela mulher de vermelho.
60
Bruno Zeni, 41, tem uma filha de um 1 ano e meio, a Clara, e
ama a Sílvia, com quem está há uma década. Este texto prosaico,
inspirado em poesia (salve Angélica Freitas e Ricardo Aleixo!), é
dedicado à presidenta de vermelho.
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Camarada Don’Otoni,
Já não sei mais o que fazer com nossa esquerda. A
gente fala, fala, não é de hoje, mas quem quer
parar de falar um pouco pra escutar? Lembra do que
a Ana C. disse pra M. Cecília Fonseca? “Teve época
que eu piamente acreditei que bastava ter opiniões
de esquerda pra ser de esquerda. A ideologia vinha
primeiro. É a política alucinatória”. Em março
minha TL estava num surto coletivo, dividida
entre 1937 e 1964. Ninguém parecia se dar conta de
que não, estamos em 2016. Economia? Desonestidade
intelectual é hoje nossa pior crise: assolando
(dicunforça) o país desde junho de 2013. O que me
faz lembrar do que o Mailer disse, que se “esses
movimentos vão conseguir algum efeito político
imediato (...) pode ser um efeito negativo”. No
caso, acabou dando na eleição do Bush. OK, ele
disse isso no século passado. Pelo visto ainda
vale. Com certeza valeu em 2013. Espero que deixe
de valer o quanto antes. Fato é: após o golpe
constitucionalista não tivemos outra opção. O que
não quer dizer que não possa piorar. Sabe, eu sei
o que esperar da Globo. Eu sei o que esperar dos
políticos. O que esperar do judiciário, da PM.
Venho aprendendo o que esperar da esquerda com
o passar dos anos, tendo sempre em mente: todo
ser humano é um monstro em potencial. Vê bem, não
se trata de picuinha com A ou B, esquerda caviar
ou esquerda avatar, nem é hora de picuinha. Só
acho que outras questões tão fundamentais pra
além do iMediatismo das hashtags acabam ficando
de lado. Fazer-se compreender a sutil diferença
entre “coup” e “putsch” por exemplo. Pra talvez
conseguir entender de vez no que aquela tormenta
63
polarizada pré-Temer deu: tanto direita quanto
esquerda foram responsáveis pelo golpe. Judas deu
seu beijo. Enforcou-se de tanto remorso na cadeia.
Até quando vamos pensar que a direita é burra?
Não é. Há quem confunda política com intelligenza.
Há quem não tenha entendido nada sobre o Bessias,
jogada estratégica de gênio. Não à toa, os cem
anos de reclusão. Questão da mais pura lógica
analítica. Dilma sabia estar sendo gravada.
Não se trata de apelar pro método hipotéticodedutivo, ao contrário: maior oportunidade pro
direito enfim largar mão de vez do positivismo.
Onde já se viu, ordem? Importa, quando muito,
o progresso. A questão primordial no entanto
é: frente a esse Frankenstein sfeziano, “como
recuperar a humildade sem cair na inferioridade?
E como recuperar as pessoas que eu pisei nessa
cavalgada das valquírias?” Como reverter essa
onda reaça a tempo das eleições em outubro?
Porque sim, temos “eleições” em outubro e outubro
é logo ali. Nem quero pensar no desfecho desse
desfile da Independência depois das não-Olimpíadas
nesse Vermelho Agosto que mal começou. Até quando
vamos rir dos Bolsonaro como rimos do Trump? O
meme acordou. Já não nos bastava o gigante nessa
terra sem João nem pé de feijão? Lembro da vez
em que a gente viu aquele filme, “Contos da era
de ouro”, sobre o regime do Ceausescu na Romênia,
no quanto tu te empolgou com o que chamou de
esquerda brinquedão. Talvez esteja na hora, Otoni,
de assumirmos cada qual seu brinquedo chapéu
mexicano. Atearmos fogo na aldeia espanhola do
Tio Nelson e nos embrenharmos pelo que ainda
sobra de floresta América Latina adentro sem pedir
licença pra malária nem milico.
64
E que venham, porque hão de vir, os loucos anos 20.
Atento y fuerte. Foco e risco. Porro y suerte.
Nos vemos em breve,
G. Ishak
PS: O casamento segue nos vagões da
clandestinidade, mas em bons trilhos. Beijos na
Ninoca.
Caco Ishak é escritor e pai da Malu, terrorista segundo o Estado
e redige suas notas esteganográficas dos subterrâneos em http://
ciaocretini.org
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verdamarelista
ou a voz do comprimido
xega de corrupisão!
a Gente sente ódio
da iguinorançia
sabe que as polícias
são pra defender o povo
- e descer cacete nos vandalos que uma mulher no plan’Alto
mesmo sem roubar, não presta
a Gente sabe
há mais de kinhentos anos
que preto e pobre não tem vez
num é, Gente?
vamos lutar pelo nossos direitos
em time que tá sempre ganhando
não se méxi!
Caco Pontes / é poeta brasilêro / sem ser ufanista / não dialoga /
com (des)governo / golpista / nem teme(r) quem te adora / a própria morte. Site: http://www.cacopontes.net/
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uma certa distância no tempo simplifica as coisas
permite que quase todo mundo diga o estado nazista cometeu
crimes terríveis
por exemplo
embora
numa sociedade mergulhada no regime nazista
na máquina de propaganda nazista
no projeto econômico nazista
em 1938
digamos
a frase o estado nazista comete crimes terríveis
provavelmente fosse amplamente contestada
a despeito das evidências
*
é claro que os nazistas foram derrotados
o que simplifica as coisas
o estado brasileiro cometeu crimes terríveis durante a guerra
do paraguai
digamos
mas não há muito por que repetir por aí essa frase
a despeito das evidências
foi uma guerra menor
somos um povo pacífico
quem perdeu foi o paraguai
*
não é preciso pensar muito sobre o nazi-fascismo
69
para dizer o estado nazista cometeu crimes terríveis
o que simplifica as coisas
podemos reproduzir práticas do estado nazista
digamos
e
a despeito das evidências
seguir repetindo essa frase
sem constrangimento
*
a ditadura militar brasileira cometeu crimes terríveis
isso podemos repetir sem tanta contestação
digamos
mas seria melhor não falar muito mais do que isso
a distância no tempo não é tão grande assim
não é preciso esmiuçar esses crimes
ou que ideias os alimentavam
ou o que disso permanece
- a despeito das evidências
apenas essa frase já é plenamente satisfatória
o que simplifica as coisas
*
não nos apressemos
somos um povo pacífico
talvez em alguns anos se possa repetir
houve um golpe parlamentar-jurídico-midiático no brasil em 2016
sem que a frase cause incômodo a ninguém
70
digamos
uma certa distância no tempo simplifica as coisas
vamos evitar os verbos conjugados no presente
a despeito das evidências
Caetano Gotardo é cineasta, escreve e tenta cotidianamente
olhar para as coisas sem negar nelas suas contradições e complexidades.
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Minha melhor amiga é uma mulher. Uma mulher me ensinou
a meditar e a minha guia espiritual é uma mulher. Minha referência intelectual é uma mulher. Minha cineasta favorita é uma
mulher. A pessoa que me ensinou a duvidar e não ter certezas de
nada é uma mulher, assim como meu maior exemplo de quem
muitas vezes transformou o mundo é uma mulher. Minhas melhores professoras foram e são mulheres. E estou atualmente
perdidamente apaixonado por uma mulher.
Não somente para mim, um país regido por homens ricos,
brancos e criminosos é o cenário do maior pesadelo possível,
pois não me identifico com esse universo, não me identifico com
a cultura que proliferam - com seus sonhos, desejos e motivações.
Não consigo nem ao menos estar próximo de seres como esses,
covardes, que fogem da sua sombra como uma criança que não
tem dimensão de nada e buscam através de um golpe acobertar
a verdade que escancara suas misérias. Estou a cada dia tentando destruir os resquícios dessa educação que me assola por todos os lados e ao ver esse cenário político e lidar com um sentimento de derrota terrível.
Terrível.
Converso neste instante como uma mulher que me diz efusivamente que não devemos desistir e nem ao menos nos sentirmos culpados diante dessa situação, já que estamos em constante processo de luta por acreditar em mil formas de mudar o
mundo. E para continuarmos a lutar, acreditar e tentar mudar o
que for possível. Então, só me resta ouvir e erguer a cabeça.
Caetano Grippo, cineasta, fotógrafo, montador. Busca desesperadamente formas de dizer que não compactua com esse horror.
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grito
a palavra como coisa
dura cheia de pontas
estatelada na parede
tantas vezes atirada ao chão
pisada a palavra seca
partida ao meio cacos
indecifráveis miúdos
sílabas trincadas rascunhos
tentando dizer desse tempo
ou do que não há de durar
como ela
Carla Kinzo acredita, ainda, que a palavra possa refundar o
mundo.
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Glosa
catanada bordoada cutilada mossa
pisadura cortadura incisão gume corte intersecção ablação abscisão paço palácio poda pugilato pulsação taça tapona zurbada
bernarda
esborralhada
délabrement débâcle
bouleversement
viravolta giravolta soçobro
ura-naguê
cambadela cambalhota
sismo cataclismo
varinha de fada
quid pro quo
recambó
satrapismo
cesarismo
vexação
77
Mote
“Potestatem volant, aesthetica manent”
(O poder voa, a estética permanece.)
Carol Rodrigues vive em São Paulo na urgência de um encantamento ágil, irrestrito e pós-racional.
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Guia da semana.
Marchar. Manchas
que só saem com
muito alvejante
(mentira).
Go.
Marcar. Mancar
passos em aços
batidas de ódios
(em óleos)
antigos.
Go!
Selecionar. A culpa
que cabe a cada cu
cura quem ataca e
(programa)
impedimento ou
linha-burra:
Gol
Vídeo Show
Sessão da Tarde
Vale a pena ver de novo
Malhação: seu lugar no mundo
Êta mundo Bom!
Golpe
80
– É tarde, te deitas, aquietas
aprenda, antes do sono-justoo silêncio dos inocentes.
Charles Marlon: belo (há controvérsias), recatado (às vezes, dormindo) e do bar (informação inconteste). Poeta de Osasco, de esquerda, acha que o PT não é de esquerda, mas votou nele, pensa
que golpe é golpe e é contra e não aceita o governo de Temer, que
teme, mas não compactua.
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a força das ruas
sente esse tremor?
é o ribombar do peso
das pisadas determinadas
a mudar o mundo,
é a rua a reclamar, a chacoalhar
ouve esse som?
são os gritos de indignação
das vozes abertas,
é a rua a reclamar, a bradar
percebe esse sol?
é o reflexo do brilho da força
da rua que acordou
e que não parará de crescer
os pés marcam o ritmo
as gargantas retomam o ritmo
e de nada valerão as baixezas
pois nada é maior que a rua
de nada adiantará a escuridão
pois nada brilha mais do que a rua
de nada adiantará a força
ah, pois que força mais poderosa
que o grito das ruas
dizendo BASTA?
Claudinei Vieira acredita que as palavras têm força e que a Poesia é uma tremenda arma. Considera-se um poeta armado que
fornece as balas-poemas. Mas são as ruas que têm o poder.
83
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três poemas dos cadernos bestiais
hino à polícia
Toca o terror –
cabeças de arimãs
reverberam féretros
assanha-se histérica
turba de behemoths
damballas beherits
capacetes visores
escudos tonfas
vidro moído ferro
esturricado pneus
incendiados entre
balas de borracha
rasgando rasgando
vielas entrevértebras
fantoches toscos
fantoches-ferrabrás
com fuzis automáticos
de mira telescópica
escarnecidos espectros
em carros blindados
para a contrainsurgência
nas avenidas furiosas
de meu próprio país.
hino ao congresso nacional
Cabeças à venda –
corvos corcundas
traficam trevas.
antimídia vii
(macumba poética)
O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de terríveis
dores estomacais.
Tosse.
É impotente.
E peida muito.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem dispneia paroxística noturna.
É cardíaco.
Asmático.
Psicótico.
O Apresentador do Grande Telejornal
foi acometido
de taquicardia supraventricular
ou taquicardia patológica
(há divergência
entre os especialistas).
É obeso.
Diabético.
Tem tremores nas mãos.
O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de erisipela,
86
eritema ab igne,
pênfigo
e dermatite herpetiforme.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem câncer no reto.
Claudio Daniel, poeta e militante político, publicou, entre outros
livros, os Cadernos bestiais volumes i e ii (Lumme Editor, 2015),
nos quais faz uma alegoria crítico-poética do golpe de estado em
curso no país, apresentando retratos satíricos de juízes, senadores, deputados, jornalistas, policiais, humoristas e outros setores
envolvidos na deposição do governo legítimo e democrático da
presidenta Dilma Rousseff.
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VOU COMER SEU CORAÇÃO
Porque seguimos sorrindo
quando não está bom
Porque continuamos fingindo
com as luzes apagadas
com as trilhas abafadas
Porque ainda nos seguimos
Deixa ser bonito
Deixa ser mistério
Deixa ser possível
Passarinho não morre na janela
Amarildo não dorme no chão
A neguinha não dança na boleia
Carnaval de gigante exportação
Ostentação
Deixa ser bonito
Deixa ser mistério
Deixa ser possível
Dan Nakagawa é diretor da Cia Àtropical, cantor e compositor.
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esses dias de guerra
sangram meus olhos.
essa fumaça.
esse pecado.
esse projeto de país.
esse projétil.
e tantas mãos
projetam amarguras.
esses dias de sangue
molham meus olhos.
nenhum ombro amigo.
nenhum ombro,
amigo.
nenhum amigo.
nenhum.
ogum proteja, ogum.
esses dias de barulho
desafiam não meus sambas.
bambeiam pecados.
cuicam ideias.
desritmia.
meu coração tolo
soluça em vão,
ledo engano.
es.s.es. d.ia.s d.e p.ro.tes.t.o.s
e.sta.mp.ido.s p.or. to.d.os l.ad.os.
silenciam júris
silenciam justos.
se lei ciam.
poros há, pimentam,
a falta que
rosa faz.
91
**
acredite.
não é de mudanças
que falam os coros.
acredite não.
são de ecos
que falam os hinos.
jamais do canto dos nossos passos,
jamais dos braços que se perdem
e das vozes tortas destoadas.
acredite não.
são de enxofre
esses slogans.
acredite.
não importa
o que faz você feliz.
é de flor e de sol, de estouro e carne,
que se faz o vento a luz e até a tempestade
e as ranhuras os rancinzas rezas
e também os corvos e rancores.
é de todo osso
que me diz
o silên cio.
Daniel Minchoni não é ninguém até que se restabeleça a democracia. ou ao menos a anarquia. não acredita nessa cleptocracia.
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Curso avançado de filosofia política.
Tema de hoje: “O poder e as massas”.
– Você nos enganou, você nos enganou!
– Eu? Vocês é que se enganaram.
– Não, nós acreditamos em você!
– Mas eu não estava falando com vocês.
Denise Bottmann, que acredita na ideia de bem e julga que defender o bem, hoje, é lutar contra o golpe em nosso país.
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colheita
Zalila, banco de praça, café em copo de plástico do Starbucks –
queria sentir que a cidade era sua, que a praça era sua. Pensava.
Naquele dia se dispôs a implicar com a palavra: e as palavras têm
força mesmo? Começava a duvidar, toda vez que lia notícias bárbaras. Imaginava as últimas palavras que aquelas pessoas – e
eram tantas – poderiam ter dito e de nada adiantaram: parem,
por favor, não me machuquem! me deixem viver! eu tenho esse direito!
fora, canalhas! roubaram meu dinheiro! eu te amo, não me deixe...
Machucaram. Mataram. Tiraram direitos. Canalhas permanecem. O dinheiro, não mais viu. O amor foi embora, não mais voltou.
Por que essas palavras gritadas, expectoradas nunca adiantaram? Zalila pensava. Pensava em hortaliças loiras, morenas, gorduchas ou magricelas, tristes hortaliças que ficavam contentes
com alguns copos de cerveja, algumas fotos patéticas, com crianças para cuidar, com a missa no domingo, com o lar, a beleza e o
recato. Divas das couves de flores brancas, Zalila as culpava – e se
fechar às palavras poderia ser uma escolha? E escolher palavras
como os japoneses chegaram ao país para inventar o pastel era uma
escolha? Elas fugiam do interior da palavra. Escolhiam somente
as prontas, aquelas. O que importava era a ordem e a segurança,
com uma pitadinha de tristeza pelos maus tratos contra os animais. Pensava.
Então se sentaram juntas, ao banco, uma garota e uma senhora miúda e frágil, mas de gestos enérgicos, de cabelos brancos e bem curtinhos; a menina, magra, cabelos longos, adolescente bonitinha, que poderia dizer minha mãe é uma hortaliça;
meu pai é um pé de milho. A garota tinha no máximo quinze e a
senhora, no mínimo setenta.
A jovem abriu um tablet. Puseram-se a ler juntas um texto
enorme, ocupava toda a tela do aparelho.
Dói, sabia, vó? Pensar dói e ler essas coisas também, mas
me sinto tão feliz por entender tudo, mesmo que doa... porque,
quando dói e a gente entende, algo muda; nem sei explicar direito,
96
mas a professora disse que, se eu quiser, logo aprendo também a
explicar. Você entende agora como eu, vovozinha, entende?
A senhora fez que sim com os lábios finos, assim como toda
ela se fazia fina e enérgica, embora agora compreendesse. A garota olhou-a como se fosse mais sábia que a velhice, mas com
amor, aquele amor que muitos adolescentes sabem sentir com
a vida toda.
Zalila experimentou certa ternura; aquela cena de passado e
futuro debruçando-se sobre palavras presentes começou a significar alguma coisa que podia chamar de esperança.
Denise Sintani é professora e escritora. Formada pela Universidade de São Paulo, tem mestrado em literatura brasileira. Seu
caminho é árduo e sua maior luta, como professora e escritora
– e que lhe traz grandes e produtivos conflitos –, é justamente
criar meios de fazer da palavra ferramenta do pensamento responsável, crítico, justo e humano.
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a beleza
ela não podia ter dado mole assim. de santa não tem nada. anda
quase pelada depois reclama. pediu pra ser estuprada. se joana
se tainá se priscila se vanessa se daiane, se uma dessas mulheres, que integram um corpo coletivo e feminino um corpo a cada
onze minutos invadido e abusado, recuperar a voz e transformá-la em denúncia, talvez venha a se deparar com o número
5069/2013. maria era espancada por vinícius mas ouviu na fila
do supermercado sobre um caso semelhante ao seu ouviu que a
mulher é culpada sem dúvida a mulher tem culpa provoca o marido. aline ouviu joão contar bem alto aos amigos sobre o nojo do
gosto do cheiro sobre o enorme nojo de chupar sua buceta mas
leu que um terço dos homens é como joão e culpa a mulher tem
culpa por não estar aparadinha. por não estar apertadinha não
estar molhadinha por ser ou não ser mais novinha. a mulher é
culpada sem dúvida tem culpa mas isso não vem ao caso, o golpe
teve pouco a ver com aquela vaca que nem bolsonaro nem frota
encarariam, aquela que joão luiz qualificou como uma insone
sem erotismo, o golpe teve muito pouco a ver com dilmanta ser
mulher. além do mais. o adesivo de dilma com pernas abertas
colado nos tanques de gasolina dos carros o adesivo que remetia
à nossa primeira presidenta sendo perfurada foi ideia de uma
mulher. além do mais. a capa da revista na qual dilma aparenta
ser louca, mais uma diagnosticada histérica mais uma desequilibrada, foi ideia de uma mulher. além do mais. para cada feminista há um espelho feminino em forma e idade batendo panela
no prédio em frente ou gritando no cortiço ao lado que aquela é
mal comida aquela é mal amada e não tem a menor condição de
governar um país. a voz da mulher que confeccionou o adesivo a
voz da idealizadora da capa da revista a voz de um espelho feminino que papagaia “dilma mal comida dilma mal amada” é uma
voz que estupra mas antes uma voz que no berço uma voz que no
útero foi estuprada. desde que nascem mulheres sofrem golpes
são golpeadas às vezes só sobrevivem golpeando outras mulhe-
99
res que golpeiam novas mulheres que seguem se arrastando sob
o peso de terem a culpa são as culpadas. toda joana toda tainá
toda priscila toda vanessa toda daiane sente que o estupro antecedeu o coito, toda mulher que foi ou não a uma DEAM sente a
violação da própria voz. não há beleza no ato de a pequena sereia
sacrificar sua voz para estar ao lado do homem-príncipe, não há
beleza na banditocracia dos homens brancos que sitiaram a câmara e os ministérios; conhecer o golpe pela rede globo é conhecer o conto de andersen pela disney. há beleza em se desgrenhar
na batalha pela restituição da própria voz e as das pequenas sereias ao nosso lado, há beleza em se desgrenhar na batalha pela
sororidade com mulheres cujas vozes estupram por terem sido
estupradas; há beleza em se desgrenhar para combater o golpe
ao começar por combater um golpe muito mais primitivo de que
a-mulher-tem culpa-a-mulher-é-a-culpada.
Diana de Hollanda, escritora e diretora teatral, enxerga o ilegítimo governo de temer como a mais realista versão dos 120 dias
de sodoma, de marquês de sade. quando o tema é política, diana
pensa em representatividade igualitária de gênero e raça.
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dia sim, tinha esperança
dia não, desacreditava
dia sim, tinha paciência para ser eloquente
dia não, não havia paciência que chegasse
dia sim, ignorava o que acontecia
dia não, transbordava de tristeza
dia sim, achou força nas ruas
dia não, tinha dúvidas entre realidade e ficção
dia não, em casa sentia derrota
dia não, sua forma de andar não era a mesma
dia sim, se achou novamente nas ruas dia sim, democracia
dia não, sem ela
dia sim e dia não, trazia no coração
na mente
na alma
no corpo as marcas do golpe que deram nela
dia sim e dia não, foi às ruas
dia sim e dia não, se fortaleceu
dia sim e dia não, estava pronto para lutar pelo que acredita
102
corações vermelhos
amam sem temer
Diego Carvalho Sá expressa o que sente, o que pensa e o que
procura entender em letras, cinema e outras artes.
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duplo cego
i
estes prédios
crescem por tropismo
caçando buracos nas nuvens feito
buracos de bala
sob o sol
nenhuma reza fura
a asfixia
nunca termina de matar
uma vela de pano, garrafa e gasolina
um murmúrio:
j’accuse!
ii
é quando no sangue das cobaias
também as cápsulas de placebo
vertem veneno
(e)
não se distingue o urro dos coturnos
da tropa de choque e os
jornais moídos onde
o rei está posto
o rato está nu
106
e você também
acusa
o golpe
Diego Vinhas nasceu em Fortaleza (CE) em 1980. Publicou Primeiro as coisas morrem (2004), Nenhum nome onde morar (2014),
ambos pela 7Letras (RJ). Acredita em microrrevoluções, e não
muito mais.
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“ratos brotando dos bueiros” foi escrito em 15 de março de 2015,
quando já se notava nas multidões verdamarelas de Integralistas,
exumados de suas tumbas, o perigo anunciado de um Golpe de
Estado: & uma vez que tudo o que vem de uma boa bola de cristal
não tem prazo de validade, o poema de ação segue abaixo, até
porque agora se aplica àqueles que assaltaram o poder imitando
o exemplo de 1964, & já fazem a destruição milagrosa de 30 anos
de democracia em 7 dias de Golpe.
Gaudete, D.
ratos brotando dos bueiros
você sabe bem que eles são roedores,
e que também são infectos: os ratos,
eles se escondem até que então saem,
ratos dos grandes, com muita energia
nervosa, cheios de peste nas presas,
furtivos não mais, animais regressivos,
os sempre velhos covardes de esgoto na espessa violência de gangue: a sujeira
em suas línguas de ralo ergue os ratos
do escuro e antigo buraco; não vivem
de resto ou rasteiro: reis na ratice,
nos golpes, & ditam as regras de ratos
pra todo mundo que seja um bom rato
como eles — às vezes, num país inteiro,
& às vezes depois de fugir por uns bons
30 anos. quem não é rato, cuidado:
pois há ratos brotando dos bueiros.
Dirceu Villa é poeta, tradutor &, segundo o Ministro da Injustiça,
um terrorista, porque está se manifestando, por escrito & nas ruas,
contra o Golpe de Estado que pôs o golpista Michel Temer no poder.
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este gostoso beijo da faca
I scratch your back
And you’ll knife mine
(J. L)
i.
De minha parte,
já beijei todas as bocas
de Judas que pude
com a mesma lascívia
de novo e no novo
E cada saliva me pareceu
um voto de amor
à causa
Qual causa,
qual nada
Ninguém te ama
quando se está
acima /ou/
muito debaixo
[Cold turkey
has got me
on the run]
Pra que crer?
No que ser?
Babel fala ora
a mesma língua
111
Nheegatu esperanta,
Língua falha,
procissão
Walking deadengajada
Voto sim
Voto não
Pelo leite das tetas /pus de filhotes/,
pela porra dos paus:
Voto sim[...]
Voto não [...]
Pelesbór
ni
amálgama
Pelo fim [...]
Voto enfim:
Digo sim,
quero sim,
quero não.
ii.
Que tudo se foda disse ela e se fodeu toda disse o poeta que artistalgum vai atrás por medo ou prudência por medo ou cautela por
medo ou medo de o medo cristalizar no fundo da dita-cuja que
sela a corda vocal condena forte e condena morte demo
iii.
Nem onde se cava liberdade
se livra do estribo:
Cobra comendo cobra
112
Poeta fodendo
poesia
Boicote de democrata:
Falange,
burocracia
Duvito
Ergo sum
Édito, (diga-se):
Titã sou
Sentido
a quem cipreste
Não sou poeta,
não sou eleitor.
Meu nulo ser
exaspera /-/
te
iv.
Nadapologia
Tudofôda
Cerosão
Terrengula
Qualseja
Ifim
v.
Desta terra,
donde canta um sabiá
113
morto,
quero um machado
na raiz
carcomida
em cupim.
Na base duma palmeira
putrefeita, no contorno
do mapa,
de Uruguaiana
a Rio Branco
vi.
Mostra-me tua cara cazuza,
latrina musa
vii.
Todas as ilusões
me caibam no peito
Todas as ilusões
currem o pleito
Bandidos sodomizem
minha segunda-feira
que a mim e ao meu povo
urge o grito da mais baixa
capitulação.
Que é mentira a máxima:
“Plantando, tudo dá”
Que a falência vem de dentro,
que mesquinha é a pátria chã.
viii.
Que apolítica é a paragem
114
final
onde devo repousar
meu intelectuálibintransigênte
que, de traidor,
basta-me existir.
E vou me vestir com o desvelo
do pouco que me traz
o fenômeno vida
ix.
Carótida rota em meio
aos votos
por esse ou aquele [...]
prefiro extinção:
Mais segura e preventiva
x.
De mais a
mais:
Dor não se veta
A legítima defesa
Da morte almejada
Meu sonho feliz
Meu porto seguro
Meu golpe certeiro
Meu último alento
Donny Correia é um poeta e cineasta desgostoso com tudo e que
desconfia que o mundo acabou mesmo em 2012 e o que vemos
são os escombros. Apolítico, mas não ingênuo, acreditou num
novo pleito, que não veio.
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kólaphos
As palavras já não significam
nada.
Isso é duro para um poeta.
Concreto para as pessoas
em geral.
As palavras que interessam
derivam do grego.
Politeia é o papel dos cidadãos no Estado.
Qual Estado?
Quais cidadãos?
Anacronismo é nossa vivência
cotidiana.
Economia já não significa
‘administração da casa’.
O sentido original dos vocábulos
foram estuprados.
São milhares a cada segundo.
Os princípios das melhores ações,
ignorados.
Eliminados do horizonte
a cada não reflexão.
O cinismo gera mais sofrimento
aos que já sofrem.
Bofetadas nos restos mortais
de algum sentido,
de alguma dignidade.
Todos são ignorados.
O corpo é ignorado.
O ser é ignorado.
O futuro é ignorado.
E assim, por sermos ignorados
nos tornamos ignorantes.
Alienação é uma palavra
117
chique demais para o momento.
Há milhares de acepções para o estado
das coisas.
Choque.
Pancada.
Incisão.
Lesão.
Murro.
Ardil.
Trama.
Rombo.
Abalo.
Rasgo.
Lance.
Desgraça.
Mas somos sobreviventes.
Nos acostumamos com as bombas
e com Auschwitz.
Somos piores do que as baratas,
porque somos mortais.
Elas parecem estar mais bem equipadas
do que nós.
Conseguem ficar até um mês sem comer nada,
semanas sem ingerir água.
E ainda são capazes de sobreviver
por até outro mês sem a cabeça.
As estruturas vitais ficam espalhadas
pelo abdômen,
incluindo as da respiração.
Caso percam a cabeça,
no sentido literal,
um gânglio nervoso no tórax coordena
seus movimentos,
permitindo que fujam das ameaças.
Como o seu corpo tem um revestimento
118
de células sensíveis à luz,
elas ainda podem localizar e correr
para as sombras
a fim de se proteger.
Nós, nem isso. Pois já estamos
na sombra.
E nada, nem mais as palavras
nos protegerão.
Mas, ainda sim,
somos piores do que as baratas.
E sobreviveremos porque somos
mortais.
Pobres mortais.
Edson Cruz é poeta e budista. Acredita na vida e, apesar de tudo,
no ser humano. Acreditar também é uma escolha e exerce-a, às
vezes, com muita convicção.
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tudo é perigoso
Era uma vez um tanque, muitos tanques, uma, tantas praças
atravessadas.
Esses tanques atropelaram o pato que, quatro anos antes, em
1960, cantava alegremente pelas cordas de João Gilberto.
E suscitaram outro tipo de estrofe. Em 1969, cinco anos depois
do golpe, Gal pedia atenção para as janelas no alto e o sangue
sobre o chão em “Divino, Maravilhoso”, canção de Caetano e Gil.
Divino, maravilhoso era estar atento e forte, sem tempo de
temer a morte.
A sangue quente.
O sangue que correu nos porões do Dops. E parece que ainda
não estancou.
Muitos que envergam a bandeira da “Ordem e Progresso” não
devem ainda saber pra que serviam os alicates.
Mais de 50 anos depois, muita coisa que era da rua virou cenário de novela e maquete de plenário. E história não passa de
matéria nada exata no irrespirável fundo da classe.
As classes que não respiram.
Caetano e Gil exilados em 1969, quando não havia mais “Alegria, Alegria”. Nessa música, de 1968, caras de presidentes e grandes beijos de amor na mesma estrofe e o sol ainda nas bancas de
revista.
Por que não seguir vivendo, amor?
Porque a criança feia e morta de “Tropicália”, também de 1968,
estende de novo a mão.
Porque mesmo essa canção virou trilha sonora de novela.
Em um país de exilados em seus próprios quintais.
Brincam com patos de borracha que revoam sem João Gilberto,
sem bossa alguma. “Sobre a cabeça os aviões.” Olhos em forma de
x, os olhos dos mortos, zumbis da cor da camisa de futebol.
Esses patos estampam anúncios nas revistas que enchem as
bancas de escuridão e de caras de presidente sem beijos de amor
para legitimá-las.
121
Tudo é perigoso, como cantava a Gal. Das janelas no alto ouvimos a artilharia das panelas. O que ecoa no Planalto é artilharia
pesada.
A sangue frio.
Mas ainda há estudantes, como em 1968. Há os olhos firmes
desses jovens ocupando escolas. O sangue nos olhos desses jovens. “Você vem? Quantos anos você tem?” Vem. “Não temos
tempo de temer a morte.”
Temer. A morte.
A simbologia além da mera coincidência.
Não há coincidências.
É preciso ferver todo sangue de barata. Negar o sangue ao
vampiro.
Se era uma vez, que não seja de novo, mais de 50 anos, muitas
canções e tanto sangue derramado depois.
Edson Valente escutou “Divino, Maravilhoso” pela primeira vez
aos 8 anos. Não parou mais de ouvir a música e hoje tem vontade
de pintar as ruas com o batom vermelho da Gal.
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Para L.
Ouço dizer que há tiroteio
ao alcance do nosso corpo.
É a revolução? o amor?
(Drummond)
conquanto seja ano
do golpe, a galope
vem meu plano: amo
é claro que choro, no entanto
e pergunto:
– o que pode
o amor contra o poder?
– o amor, este gesto mínimo,
mas único movimento
legítimo –
Eduardo Lacerda realmente acredita que poderemos mudar o
mundo (para melhor).
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Às vezes um botão.
O barro ainda não se dissolveu e, no entanto, já vemos outra
cor se misturar à correnteza. Sangue. As paredes, desta vez, não
caem. Vemos os usurpadores tomarem o castelo, hastearem
bandeira feita com velhos trapos, enquanto a mulher ainda está
presa na torre mais alta. Ela não é uma princesa, mas também
está acorrentada. As torres não caem. Já vimos isso antes na tv.
Dias depois, furacões revelam a masmorra escondida no Ministério. E uma cela de tortura é exibida pelo Canal7, enquanto uma
testemunha anônima relata os detalhes. Chove prata em seus
bolsos. No congresso, uma nuvem de gafanhotos tenta deslegitimar a lista de delações como documento histórico. Alguns juízes
prometem pensar com carinho sobre o assunto. Um jogo de boliche é televisionado. E o vencedor patrocinado por uma marca
de inseticida, injeta frases da bíblia em sua página web, antes de
estender os braços na janela. Outra bomba é lançada. O chorume
produzido é enterrado em hectares de soja. Em poucos instantes,
para encobrir a notícia, jornais mostram com exclusividade o espólio do rosto do atual governante. Litros de botox são colocados
às pressas e inauguram um novo jardim vertical. Frigideiras de
inox aplaudem desde seus armários de madeira envelhecida no
óleo de peroba. Após a quebra do grampeador, e do envio de 16G
de material tóxico aos bancos suíços, algumas toalhas brancas
são estiradas à lona. Camaleões e percevejos se unem aos gafanhotos. Em assembleia, decidem colar chicletes em seus olhos,
mesmo a poucos dias das olimpíadas. Um sacrifício diante das
últimas emissões. Bem longe das câmeras, barricadas escolares
se armam de artefatos culturais. Indígenas se dirigem ao castelo,
determinados a tecer com suas próprias mãos o amanhã. A comunidade negra se assenhoreia do que sempre lhe pertenceu.
Uma pilha de livros é montada pela brigada LGBT, que resgata a
mulher da torre, mais viva do que nunca. Diante da conjuntura,
as minorias que, somadas, suspeitam ser mais de 80% da população, desabitam a metanarrativa ficcional e a transformam em
fuzis de aniquilamento da ignorância. Cílios bastardos e peda-
126
ços de pastas tutti-frutti caem constrangidos. Trabalhadores que,
desde a madrugada, economizam até o ar que respiram, inflam o
peito, alvissareiros. Nomeados os bois, é instaurada, finalmente,
a construção coletiva da democracia dos sonhos.
Ellen Maria acredita, assim como Alberto Laiseca, que um
poema serve para não estar só. Apesar da seriedade posta, suas
palavras favoritas são rio e ria.
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Vera de Freitas (fragmento)
A mão da diretora de escola pública de favela que, tantas vezes,
meteu o balde embaixo da torneira, o mau-humor na cara, a
faxineira com o menorzinho doente outra vez e alguém tem de
dar um jeito nos banheiros dos meninos. Então se revezavam, os
professores. E o masculino no substantivo aqui é um pudor da
língua. As professoras. Não que não tivesse homem, porque tinha.
Mas não que se dispusessem a ajudar.
Mas ela então limpa. Nos rótulos e na memória estão o amarelo cromo, o jaune transparent vert, o ivory black. Cada um
dizendo: é só apertar e a beleza vem. Vera teve uma bolsa do governo, estudou depois de velha por causa dessa bolsa o que sempre quis estudar, a pintura.
Mas passou e ela limpa os tubos já quase secos. E depois torna
a guardar na caixa de madeira que o marido fez para ela. E que é
onde está também a faquinha do tableau aux fromages da época
da bolsa, da galeria de arte, da vernissage, e mais uma chave
de fenda, duas espátulas, umas forminhas de empada - quem
faz empada hoje em dia? - e que ela usa, uma só, embora sejam
uma dúzia, para juntar o bleu phtalo vert com o óleo de linhaça,
quando então ele fica tão transparente e tão lindo que dá vontade de cobrir o mundo com ele.
Ela ainda deve fazer isso de vez em quando. Pega a forminha,
mistura e cobre o mundo. Depois vê, acha falso, limpa com o paninho, deixando só a promessa, o que poderia ser, caso não houvesse
o corte cinza, esse sempre lá, o do Viaduto da Mangueira, o corte
cortando tudo e ela do lado de cá. Mas ela faz. Olha por uns dias,
uma vontade enorme de a qualquer hora do dia só olhar. Depois
apaga para tornar a cobri-la, objetos grandes difíceis de guardar,
e para quê? Mas põe. Primeiro a base, um branco sujo. Depois um
azul cobalto, uma siena queimada. Para que, outra vez, mesmo que
por só uns dias, as manchas tornem a falar de uma possibilidade.
E aí ela para, guarda tudo, vai cuidar da vizinha, limpar a calçada, tomar o café que o marido faz. Vai olhar o viaduto, o corte
129
de tudo, e os carros. E ela olha com a indiferença de quem os
conhece muito bem.
E isso era o que eu queria aprender. Como não acreditar completamente, mesmo enquanto está bom.
Elvira Vigna não gosta de gente esperta há 68 anos. Foi passada
pra trás em vários concursos e programas culturais. PhD em semiótica de rua: acredita que pedido de ‘paz’ é medo de levar troco.
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Um segundo antes do fim
Ele para, atento, à beira do precipício. Para um segundo antes
do fim, em tempo de ver a manada caindo. Os animais desabam
uns sobre os outros. Empurram uns aos outros. Agridem uns aos
outros, e uns com os outros vão caindo. Despencam como peças
interligadas a formar um animal maior, irracional, histriônico
e indefinido. Barrigas rasgadas dos chifres, pés quebrados dos
coices, olhos cegos do ódio vazio, vão caindo.
Mas ele para.
Não sabe dizer o que o levou a parar, mas para. Primeiro um
pé, depois o outro. Tenta se firmar contra a terra, quebrar o fluxo
que o empurra em direção à morte. Tenta gritar à manada que
foi dali que eles vieram, muito tempo atrás, e que só há dor e tristeza no abismo. Grita até que a garganta inche e a voz desapareça,
até que os chifres lhe doam na cabeça.
Mas o barulho é alto demais.
Se sente fraco. Sente vontade de fechar os olhos e se deixar
levar, o corpo arrastado pelos outros animais que sequer o enxergam no caminho. Talvez fosse mais fácil, enfim, encerrar a luta e
se jogar no precipício. Mas esse é um talvez que se recusa a aceitar.
Assim, passado o instante de fraqueza, ele para.
Com a força que lhe resta, se joga para o lado, aos encontrões.
Acerta um ombro, aproveita uma nesga de espaço, limpa do rosto
o suor e recomeça tudo outra vez. Manobra como pode e como
não pode, sabendo que sua vida depende disso, e consegue escapar daquele caudal de morte.
Ofegante, ele para.
As pernas tremem, o corpo dói, mas está vivo.
Se pergunta o que o fez parar, ajoelhado, exaurido, um resto
de si.
A percepção do abismo, talvez. Talvez o cheiro de sangue, de
barro, de bosta. Talvez o inverso disso. O traço de ar puro acima
das cabeças, dos cornos retorcidos, lembrando que sim, existe
outro caminho.
132
E por desejar esse caminho, ele para.
Fica de pé, se vira para trás. Sem voz, se limita a olhá-los nos
fundos dos olhos. Pode ser que convença um deles, quem sabe
dois, dez. Ou talvez ninguém.
O importante é que ele para, atento, à beira do precipício. Para
um segundo antes do fim, em tempo de ver a manada caindo.
Eric Novello é autor e tradutor. Não bate palma pra maluco dançar, nem dá audiência pra close errado. Acredita que, apesar de
tudo, ainda temos solução. E que o mundo pode ser um lugar
menos babaca e careta.
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Eu sou a Lady Incentivo. Falo sobre amor e dinheiro. Tenho
dito que mulher também tem cu demais, mulher também tem
cu atrás e que quero todo o meu dinheiro de volta. O dinheiro
é público e a buceta é minha. Não sou da lei. Estou na rua, em
palcos que não existem. Não trouxemos o projeto e nem somos
o proponente. Você me ouve. Eu falo muito. Eu escuto. Eu sou o
tempo. Sou as horas que ganhei, o sono. Gosto de usar o microfone para sair do corpo. Gosto de usar o microfone para ter outra
voz. Para fazer sair do corpo dxs outrxs o que elxs dizem. Elxs
dizem: JE SUIS jesus, JE SUIS você, JE SUIS meu corpo. Sou o que
se ouve. E repito. A minha voz. E a sua. Não caio mais no buraco
que se abre entre o palco e o público. As coisas são dos outrxs.
Me levanto. Minhas mãos sustentam o corpo que estava no chão.
Vou até o chão porque eu quero. Para ficar mais perto da terra
que tem ferro. Assim como o sangue.
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Os criadores de baratas
os criadores de baratas amam limpeza
amam água sanitária pura ou diluída
amam o cheiro das próprias mãos limpas
os criadores de baratas detestam mau cheiro
odores estranhos a sua íntima geografia
jogam o desinfetante sobre o liso ladrilho
os criadores de baratas amam as baratas
adoram suas patas esculturais e delicadas
idolatram as finas asas de fios em relevo
os criadores de baratas vivem pelas baratas
acocoram-se dia e noite pelas baratas
adormecem e sonham com gordas baratas
os criadores de baratas homens opiados
com rostos petrificados e dedos untados
no caldo que expele do sexo das baratas
os criadores de baratas alimentam as baratas
com a gordura de suas peles e das vísceras
com o torrão ainda morno de suas fezes
os criadores de baratas não têm nenhum lucro
nenhum centavo do governo nem credenciais
os criadores de baratas morrem sem perdão
Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em
Tamboril, desertão do Ceará. Vivenciou o auge da ditadura, a infâmia e a injustiça. No início dos anos noventa participou como
voluntário em campanhas de apoio às vítimas da Aids. É autor
do livro de poemas Aquedutos (Patuá, 2016).
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ossos partidos
Para Z. G.
Cantá seja lá cumu fô
Si a dô fô mais grandi qui o peito
Cantá bem mais forte qui a dô
[Gildes Bezerra]
lança que atravessa o peito
nessa terra não se canta
são os olhos que no leito
anoitecem a visão
aqui tudo corre
o sangue escorre
mas o tempo não anda
pássaro ferido
sobre o peito emudecido
faz-se rasgo e clarão
vem a morte e não se vê,
de ossos partidos,
é mais uma vida na lida
que não vale a ascensão
faz escuro, eu já não canto
só ouço uma viola
dedilhar o coração
que lá fora
só
a escuridão
Francesca Cricelli nasceu no Brasil, ainda sob a ditadura, viveu na
Itália durante as duas tragédias berlusconianas e a insurgência do
movimento separatista e xenófobo lega-nord. Votou pela primeira
vez aos 16 na Malásia, na embaixada do Brasil. Continua lutando
pela democracia, é contra o retrocesso dos direitos civis e trabalhistas, luta e resiste, todos os dias, pelos direitos das mulheres.
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O Dezesseis
Os golpes são vários,
sórdidos, diários.
Cochichos, calúnias,
conchavos, difamação.
O estado é de denúncia:
vazias, premiadas,
denúncias em promoção.
Os golpes são muitos,
rápidos, injustos.
Desprezo, patíbulo,
cadafalso, demissão.
O estado é de alerta:
todo cuidado, pouco
cada vizinho, um espião.
Os golpes são tantos
ávidos, espantos.
Desamor, desacordo,
divórcio, derrisão.
O estado é desespero:
todo grito é mudo
todo gesto, uma ilusão.
São vários, muitos, tantos,
mas o mais sórdido,
rápido, ávido,
é o golpe de estado.
Frederico Barbosa, aos três anos, em 1964, viu sua casa no Recife
cercada e invadida pelo exército, que buscava opositores ao golpe
de 31 de março. Guarda marcas e medos.
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De onde Fujo
Para onde volto
Últimas palavras
De uma boca
Escancarada:
“Dói!”
Na superfície
Da folha em branco:
Sangue
No canto
Do olho
Roxo:
Pranto
Do fundo do poço
Onde ela está:
Tic tac tic tac
O tempo é bomba
Para quem vive
Na sombra
Tic tac tic tac
Dentro dela
O sangue
Congela
Tic tac tic tac
Últimas palavras
De uma boca
Amordaçada:
(não deu para entender
- um grito abafado
é mesmo uma coisa pavorosa)
Tic tac tic tac
Que dia é hoje?
Que ano é hoje?
Que tempo é hoje?
145
Ninguém mais vem
Para ver
Como ela está
O coração ainda bate
- Quase para
Mas torna a bater
Últimas palavras
De uma boca
Ressecada:
(é um sopro quente
E vivo!
Realmente uma coisa curiosa)
Taparam o poço
Porque “vai que...”
As pessoas andam
Despreocupadas
Ao redor da tumba
As pessoas riem
As pessoas gritam
As pessoas bradam
Mas quando aquietam
Quando quase-morrem
No sono-desespero
À noite
Em suas camas
De espuma e bruma
Elas ouvem
Baixinho
Entrando pelas frestas das janelas
O sopro
De uma boca
Que nunca se cala:
“De onde foges
É para onde voltarás”
E quando o sol nasce
146
Prometendo vida,
Margarina
E uma ponte
Para o futuro
Convém olhar para trás
E ver as flores
Pisoteadas
Que ficaram no caminho
E o corpo
Que persiste
Dentro do poço
E que sopra
O sopro
Que ainda agita:
Os lençóis
As bandeiras
As folhas
As roupas
Os papeis
Os cabelos
As árvores
As casas
E as bigornas de mil toneladas
Gabriela Amaral Almeida é cineasta e reside em São Paulo.
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depois de quinhentos anos
de sinistra exploração
a multidão começava a
aprender a dizer não
o patrão teve uma ideia
pra tentar silenciá-la
a chave da casa-grande
fica agora com a senzala
desde que não atrapalhe
os negócios da fazenda
não divida minha terra
nem tribute minha renda
que justiça não fizesse
o salário não aumentasse
por acaso não cismasse
em fazer luta de classe
a senzala prometeu
que não ia comer nada
ficaria trancadinha
lá no quarto de empregada
só que tinha aprendido
a mentir com o patrão
bastou chegar ao poder
pra mudar a situação
dentre os pobres os mais pobres
ganharam uma ajudada
quem antes não tinha nada
tinha agora quase nada
e o patrão até gostou
de ver pobre no mercado
comprando televisão
tablet ar-condicionado
mas o pobre tem mania
de querer o que não tem
bastou ter um dinheirinho
149
já quis estudar também
quando viu queria tudo
saúde salário terra
o patrão ficou cabreiro
mas assim você me ferra
o chofer queria subir
de elevador social
as mulheres vejam só
queriam ganhar igual
a justiça investigava
não importava quem fosse
tua conta na suíça
acabou-se o que era doce
era só o que faltava
puta falta de noção
botar pobre na escola e
milionário na prisão
desse jeito, pessoal
o país não vai pra frente
não dá pra fazer justiça
desse jeito impunemente
o rico tomou de volta
o que era seu de direito
mulheres mandou pro lar
negros tirou do pleito
e cada qual no seu canto
em cada canto uma dor
tudo tomou seu lugar
depois que o golpe passou
mas o que eles ignoravam
e o que o patrão esquecia
é que a tal da liberdade
é um negócio que vicia
mas o que ninguém sabia
e quem sabia estava mudo
150
é que o povo ganharia
o morro o asfalto tudo
agarrado no poder
viciado igual crackudo
Gregorio Duvivier tem a idade da democracia no Brasil e não
quer morrer junto com ela.
151
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daniel | dan nakagawa | daniel minchoni |
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hollanda | diego carvalho sá | diego vinhas
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maria | elvira vigna | eric novello | fabiana
faleiros | flávio caamana | francesca cricelli
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cuenca | jr. bellé | julián fuks | julia
sobre golpes e galopes
i. o espaço
o chão do outro
é o mesmo chão
do outro que também
é o nosso mesmo chão
apesar d’eu estar
sem chão
posso usar o chão
do outro que é
o nosso mesmo
chão para expressar
dramaticamente
meu presente estado
de estar sem chão
ii. o tempo
ao tempo, faço-me
futuro
mas presente me prende
e restabeleço o laço
com a terra: minha terra
por ora, não queria que fosse
mas é preciso estar presente
e resistir aos mesmos erros
pretéritos
Gustavo Nagib não criou a luta. É apenas mais um que luta para
que a vida deixe de ser uma luta injusta
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Domingo
Hoje
é um dia estranho
Na varanda
onde sento
para fumar um cigarro
e ler alguns poemas
o sol do outono
bate fresco
no lado esquerdo
do meu rosto
e me aquece um pouco
enquanto ouço
no ar invadido
e subtraído
o ruído aterrador
de helicópteros
o alarido de crianças brincando
em salões de festa
uma histeria angustiante
que se alastra
contra as pilastras
mais radiantes
do sol
17/04/2016
Heitor Ferraz nasceu em 1964. Cresceu num país retrógrado, violento e perverso. De injustiças enormes. A literatura ajudou-o
a entender o lugar privilegiado que ocupa nessa sociedade e a
brigar por um país igualitário, sem a presença asquerosa dessa
elite, que nunca se afastou do poder e agora quer novamente nos
impor sua política antidemocrática e fascista.
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[fala da personagem do filme Ralé interpretada pela atriz Barbara Vida]
Enquanto na sociedade machista algumas mulheres forem invadidas, humilhadas por serem consideradas vadias, somos todas
vadias, somos todas santas, somos todas livres, somos todas fortes. Se ser vadia é ser livre somos todas vadias. E fora traidores
golpistas!
Helena Ignez, com mais de 50 anos de produção nos vários campos das artes cênicas e cinematográficas, já foi homenageada
na Ásia e na Europa, como no 20º Fribourg International Film
Festival, na Suíça, com a Mostra «La Femme du Bandit» com 25
de seus filmes e no 17º Festival of Kerala, na Índia, com a exibição
de 6 filmes em que trabalhou como atriz ou diretora. Ela dirigiu
os filmes Reinvenção da Rua, A Miss e o Dinossauro – Bastidores da
Belair, Canção de Baal, Luz nas trevas, Feio, eu? e Poder dos Afetos,
selecionado para o 67º Festival del Film Locarno em 2014, e Ralé.
157
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O nome do cão
Eram tantas e tão desconexas vozes que ela não ouvia, apenas
se deixava, e deixando-se estava atônita e anoitecida, ainda que
fosse pouco antes das sete, não, muito antes das sete da manhã
– não eram dias de precisão. Caminhava pelo bairro, perto do metrô, sozinha com as vozes que vinham e não vinham do homem
baixo de gravata azul que abria a porta do quatro por quatro preto,
da mulher de branco que empurrava um carrinho com um bebê
choraminguento, da senhora de moletom e tênis esportivo que,
de cabeça baixa, tentava atravessar a rua, da mulher que corria
de short, com fios vindo de algo que lhe tapava os ouvidos. Necessidade, eram dias de necessidade. Do quê? As vozes não cessavam:
diziam uns, diziam outros, palavras de 1992, palavras de 1964, palavras reinventadas e feias, bichos, patos e feras, e coxinha e mortadela não eram comida; verde e amarelo e vermelho não eram
cores. Cansada do vozerio, ela decidiu se calar. Não chamaria de,
nem de. Não diria: é! Ou: não é! Não diria nada. Sumiria. Sumida,
seguiu caminhando e não chamou de ônibus o ônibus, nem de
calçada a calçada, nem de semáforo o semáforo, nem de prédio
o prédio. Até que o cão. O cão mudou tudo. O cão que caiu do
14o andar do prédio que ela não disse. O cão que caiu quase em
cima dela. Ela parou, e rua, pessoas e prédio também pararam.
Um pouquinho. Silêncio! Ela rompeu com um berro que escapou
para chegar perto do horror. E seu grito chamou de suicídio o
pulo do animal, de corpo o resto dele no chão, de muito sangue o
sangue que escorria e fez poça, de tudo-pra-fora as vísceras que
se mostravam, desalojadas, nojentas, brilhantes à luz do sol das
quase sete da manhã. Ela avisou o porteiro. O porteiro demorou
a sair da cabine, pois estava ao telefone, pois pediu que antes de
qualquer coisa ela se identificasse. Quando ele veio, foi sereno:
este cão, sim, do 14º andar, sim, um pastor, não, outra raça, não
importa: eles o chamavam de Pássaro, disse. E por que ele pulou?,
ela chorava. Ele não pulou, respondeu o homem, passou a acreditar no nome que lhe deram. Foi por isso que aconteceu.
159
Isabela Noronha é escritora e jornalista, acredita em Educação e
Cultura, em pessoas que gritam por horror, por paixão, e em dar
a cada coisa o seu nome.
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33 × 1
Uma mulher torturada na ditadura foi vaiada em plena abertura da Copa do Mundo em 2014. 1 × 0. é golpe. uma mulher torturada na ditadura e vaiada na abertura da Copa do Mundo é
eleita pela segunda vez a presidente do país. 1 × 1. uma mulher
torturada na ditadura e eleita democraticamente duas vezes tomou posse e todas as notícias eram sobre a roupa que ela vestia.
2 × 1. é golpe. uma mulher torturada na ditadura, eleita democraticamente duas vezes e com propostas de educação para todos
não conseguiu governar um dia sequer do seu segundo mandato
como presidente do país. 3 × 1. é golpe. o ‘povo’ foi às ruas pedir
o ‘impeachment’ desta mesma mulher, sem qualquer crime cometido. 4 × 1. é golpe. uma mulher torturada na ditadura, eleita
democraticamente duas vezes, com propostas de educação para
todos recebe uma carta do vice que se considera decorativo e
ministra um golpe. 5 × 0. é golpe. uma mulher torturada na ditadura, eleita democraticamente duas vezes, com propostas de
educação para todos e uma carta do vice decorativo é estampada
na capa de uma revista com ‘acessos de raiva’. 6 × 1. é golpe. uma
mulher torturada na ditadura, eleita democraticamente duas vezes, com propostas de educação para todos e uma carta do vice
decorativo recebe a maioria dos votos favoráveis ao seu impeachment por um congresso e um senado que... 7 × 1. é golpe. é
golpe. é golpe. é golpe. é golpe. é golpe. é golpe. é 7 × 1 todo dia.
todo santo dia. todo dia santo. é golpe. sem gole. engole. enfiado
goela abaixo. é golpe. é 30 × 1. é 33 × 1. é uma mulher torturada na
ditadura que teve um rato enfiado em sua vagina. é golpe. é duro.
é uma menina. 33 × 1. é uma garota. é uma mulher. poderia ser
você. é uma menina torturada na ditadura de um golpe. é uma
menina de 16 anos. é golpe. ela tem só 16 anos. e uma menina
torturada. 33 vezes. por 33 homens. trinta e três contra uma. uma
menina. de um golpe só. sem luta. de luto. uma menina torturada,
violada, violentada. silenciada. é 7 × 1 todo dia. é 33 × 1 todo dia.
uma mulher torturada na ditadura. uma menina torturada por
162
33 homens. é golpe. dói. é desvio de merenda. é golpe. é bela. é
recatada. é do lar. é uma menina. torturada. trinta e três vezes.
sangra. é bela. é uma luta. punho em riste. poderia ser sua filha.
um rato na vagina. a mão pra cima. é recatada. é uma menina.
sem alma. perfurada. arde. em silêncio. ouve. escuta. no lar. uma
escola ocupada. pá. um tiro. polícia. uma menina torturada na
ditadura. uma mulher violentada por 367 homens que disseram
sim. não. 7 × 1. 30 × 1. a alma sangra. o punho em riste. a luta é
nula. muda. só por hoje. é golpe. e a culpa não é dela.
Jéssica Balbino é jornalista, produtora cultural, pesquisa literatura feita por mulheres e luta contra o golpe e o estupro no Brasil.
163
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Não é que eu goste
“Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.”
Hilda Hilst
Não é que eu goste
ser viúvo de um Brasil
na trama porque ocultam
fatos entre almofadas
e o caixão aberto na tv
em comitiva histórica
não se solta da Globo.
Não é que eu goste
do que estava incidindo
e hoje aguardo escândalos
como quem sofre baleado
nas periferias parecendo
estar na ditadura crua
do poder autoafirmado.
Não é que eu goste
do tempo como estava
e quis crer na previsão
de um falso método
sinônimo de emboscada
no final de um tempo
que não chovia pingado.
Não é que eu goste
de um que não foi eleito
165
e por isso nego-lhe posto
que apenas os seus ajeitou
no jeito brasileiro senhor
presidente somos olímpicos
e recatadamente pelo lar.
Não é que eu goste
da incerteza que estava
e ainda assim preferia
que deixassem o governo
fazer ou não seu marketing
por trás antes das eleições
que o povo vive maquete.
Não é que eu goste
da saúde tão sem defesa
da educação sem repasses
pra municípios pequenos
e impostos pra assegurar
salário dos que ocuparam
aquela sessão centrada.
Não é que eu goste
que o Brasil se afunde
porque acredito morrer
o quanto antes trucidado
pelo ódio da não escolha
jamais secreta se corpo
vai à urna poucas vezes.
Não é que eu goste
da palavra golpe assim
como a do homem
que amo e não o deixo
mesmo com sussurros
166
do que fazer pro golpe
não avançar por traição.
Não é que eu goste
de recomendar o óbvio
na palavra democracia
ainda traz antonímia
com ditadura tirania
e em seis meses o sol
pode nascer quadrado.
Não é que eu goste
de preparar um poema
que cita meus desgostos
confirmando que cultura
pro comando golpista
não passa de desperdício
pois é poeta o Temer.
Não é que eu goste
de ocultar o pensamento
às panelas emborcadas
há uma divisão com erro
e desprazer como crime
da democracia ser mulher
e golpe artigo pra história.
João Gomes é editor do selo virtual Vida Secreta e se espanta
diariamente com a sabotagem da história brasileira, quando a
antipatia parece ter mais valor que o respeito.
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Estava tudo lá, em 2013: Michel Temer, Marta Suplicy, Feira de
Frankfurt, MinC, abaixo-assinado, Educação, Globonews, rua,
golpe, pesadelo
1
A notícia de que o MinC seria eliminado pelo presidente interino
Temer, me levou imediatamente a outubro de 2013, quando o
Brasil foi país-convidado da Feira de Frankfurt e o vice lá estava,
ao lado de Marta Suplicy, então Ministra da Cultura.
Na época, a hipótese de que ela apoiasse um golpe ao lado de
Temer e o desaparecimento da pasta nos pareceria um delírio.
Pareceria? Preciso construir alguma narrativa com isso para organizar o pensamento. E lembrar de 2013. Tudo em 2013 foi decisivo para o que vivemos agora. Difícil era imaginar tamanho
retrocesso. O pesadelo de agora.
Em 2013, o governo do PT, o PMDB, a oposição do PSDB e a
grande imprensa estavam todos unidos em criminalizar as manifestações de rua.
Diversas vezes apontei a manipulação dessa narrativa pela mídia e o absurdo da violência policial, em debates, em textos e
inclusive ao vivo na Globonews (https://youtu.be/p4UM5VsfidE?t=3m24s), dando um contraponto imediato ao que exibiam – o
que hoje em dia, sinal dos tempos, me parece algo absolutamente
impossível. (A impressão é que agora o massacre precisa ser total,
sem nada que possa contradizer a narrativa hegemônica, nem
mesmo por um minuto num canal a cabo.)
Na época eu andava bastante desgostoso com isso (https://www.
facebook.com/jpcuenca/posts/10152293115768289) e resolvi levar
o tema aos colegas em Frankfurt (https://www.facebook.com/jpcuenca/posts/10152295475288289).
169
Idealizei um abaixo-assinado apoiando professores em greve e
denunciando a violência policial em manifestações:https://www.
facebook.com/photo.php?fbid=10152303042528289&set=a.681378
73288.79443.685748288&type=3&theater.
Mandei traduzir o texto, redigido numa viagem de trem entre
Colônia e Frankfurt com o Luiz Ruffato e o Paulo Lins. A Raquel
Cozer, que na época trabalhava na Folha e hoje edita meu livro
na Planeta, me ajudou clandestinamente a fazer cópias na sala
de imprensa.
Distribuí os papéis na cerimônia de abertura da feira e do stand
brasileiro. (Há um vídeo curioso disso aqui: http://www.srf.ch/…/
video/brasilien-an-der-frankfurter-buch…)
Uns funcionários do cerimonial do Planalto, com medo de algum
tipo de confusão, me procuraram oferecendo encontros com o
vice-presidente Temer e com a então Ministra da Cultura, Marta
Suplicy. Eles queriam a foto. E eu não queria sujar minha mão.
Apenas mandei entregar o abaixo-assinado.
Na abertura da feira, o sempre repugnante Michel Temer nos
presenteou com um discurso constrangedor que recebeu sonora
vaia. Não lembro das platitudes que Marta disse quando inaugurou o stand brasileiro, apenas da cara de profundo desprezo
que fez quando deparou-se com o abaixo-assinado que deixei no
púlpito de onde ela discursaria.
2
2013. 2016. O El País publicou que Dilma passou seus últimos momentos no Planalto cercada pelos movimentos sociais e longe dos
políticos (http://brasil.elpais.com/…/…/politica/1462926904_504785.
html).
171
Demorou demais. As costas que o seu governo deu aos movimentos populares em 2013, preferindo criminalizá-los e ecoar o discurso do “vandalismo” ao lado da imprensa que depois a rifaria,
foi decisiva para o que acontece agora. Com popularidade ainda
em alta, Dilma poderia ter aberto um caminho de reformas e diálogo direto com o povo brasileiro. Era o momento decisivo para
estender essa ponte e buscar apoio nas ruas. Mas ela não o fez.
E hoje o Ministro da Educação e Cultura é um representante do
DEM, partido que entrou no STF contra cotas nas universidades
públicas. A pasta é de Mendonça Filho, um investigado na Lava
Jato que definiu, em recente entrevista, universidades como “guetos esquerdopatas e esquerdoides”.
Entre 2013 e agora, esse frustrado abaixo assinado mostra o que
falhou, e o que amanhã falhará pior: nosso sistema de educação
básica, a repressão policial apoiada pelo governo federal. Um
projeto de cidadania que nos parece cada vez mais distante com
o Ministério da Educação nas mãos desse sacripanta. A democracia que nos foi cassada.
E uma repressão ainda mais severa dos direitos de expressão e manifestação por um Ministro da Justiça, Alexandre de Morais, autoritário e antagonista das liberdades civis. Um sujeito que manda
sua polícia bater em crianças e mulheres. E que terá como mais
um instrumento para criminalizar movimentos e organizações sociais uma vaga lei antiterrorismo sancionada pela própria Dilma.
(Volto ao vídeo de 2013: https://youtu.be/p4UM5VsfidE?t=3m24s)
O Brasil dormiu e teve um pesadelo. Acordou num pior ainda.
J.P. Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978, e desde então é um
inconformista.
172
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jéssica balbino | joão gomes | joão paulo
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no lombo
a chibata
do abatimento
operário
sem alma
sem
cabimento
labuta
sem luta
é
esquecimento
operário
no lombo
do abatimento
a chibata
sem alma
sem cabimento
sem luta
labuta
é
esquecimento
sem luta
é esquecimento
Jr. Bellé é poeta e sonha biografar Buenaventura Durruti. Seu livro mais recente, Trato de Levante (Patuá), é uma ode à revolução.
Fora Temer! Viva a anarquia!
174
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Desembarque
Embarquei na tua nau, a nau que dizias sem rumo, a nau que
cruzaria ao futuro. Acabado de chegar, vi homens brancos velhos
pregando ordem e progresso, vociferando em uníssono contra
a cultura. Dominavam todo o convés, com poder concedido a si
mesmos. Soberbos em seus ternos, gritavam mesóclises equívocas, Acabá-la-emos a roubalheira, enquanto enchiam os bolsos
de papéis das empreiteiras. Pregavam medidas austeras em prol
do equilíbrio do barco. Queriam os poucos gordos de um lado, a
engordar quanto pudessem, e os magros todos do outro, acumulando apenas magreza. Resolvi descer ao porão, não conseguia ficar ali em cima. Vi homens mais magros ainda, sobretudo jovens
negros, padecendo a aspereza dos remos. Vi mulheres de olhos
ferinos, tramando a revolta certeira. Na tua nau o salário era mínimo: quem não aceitasse, afogar-se-ia. Na tua nau se dormia
ao relento e sem nenhum cuidado médico. A tua nau garantia a
certeza de que todo direito era excesso. Cogitei um instante me
jogar no mar, mas não quis te dar esse prazer. Me juntarei agora
às mulheres, ocuparei com elas o convés, beberei suas palavras
tão firmes, me embriagarei de sua resistência. Antes te escrevo
esta mensagem, sobre o passado que habita o futuro. Antes te
escrevo esta carta com rimas, esta carta que emula o teu pobre
poema. Antes te digo o óbvio, o que tão logo dirá o tempo. A tua
nau, meu caro Temer, é um navio negreiro.
Julián Fuks nasceu ao despontar de duas democracias, a brasileira
e a argentina. Não imaginava ver uma delas morrer tão cedo.
Prefácio por Marcia Tiburi | Antologiajuliana calderón
–manifesto | adriano de almeida | ale safra
| alessa menezes | alessandra e verônica
cestac | alexandre willer melo | alfredo
fresia | ana elisa ribeiro | ana estaregui
| ana rüsche | andré dahmer | andré vallias
| andréa catrópa | andrea del fuego | anita
deak | annita costa malufe | beatriz seigner
| bruna beber | bruno zeni | caco ishak
| caco pontes | caetano gotardo | caetano
grippo | carla kinzo | carol rodrigues |
charles marlon | claudinei vieira | claudio
daniel | dan nakagawa | daniel minchoni |
denise bottmann | denise sintani | diana de
hollanda | diego carvalho sá | diego vinhas
| dirceu villa | donny correia | edson cruz
| edson valente | eduardo lacerda | ellen
maria | elvira vigna | eric novello | fabiana
faleiros | flávio caamana | francesca cricelli
| frederico barbosa | gabriela amaral almeida
| gregório duvivier | gustavo nagib | heitor
ferraz | helena ignez | isabela noronha |
jéssica balbino | joão gomes | joão paulo
cuenca | jr. bellé | julián fuks | juliana
calderón | juliana cordaro | karine kelly
pereira | laerte | leonardo costa | leonardo
mathias | letícia novaes | lilian aquino
| lineker | luana vignon | lubi prates |
luiz ruffato | luiza romão | maeve jinkings |
maiara gouveia | maíra mendes galvão | manoel
herzog | manoel quitério | manu maltez |
marcelino freire | marcelo ariel | márcia
denser | marcia tiburi | marcílio godoi |
marco dutra | marcos gomes | marcos siscar |
maria clara escobar | maria giulia pinheiro
| mariano marovatto | meire oliveira | mel
duarte | michele santos | micheliny verunschk
| nicolas behr | noemi jaffe | odyr | pádua
fernandes | paula fábrio | paulo ferraz
| pedro tierra | pedro tostes | priscila
gontijo | rafael rocha daud | regina azevedo |
renan nuernberger | renan quinalha | reynaldo
damazio | ricardo escudeiro | ricardo lisias
| ronaldo bressane | sheyla smanioto | shiko
| stefanni marion | tarso de melo | tatá
aeroplano | tatiana salem levy | thelma
guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
Nós
Um dia ele nasceu.
Ou era ela.
Ele/ela não sabia
o que era.
Era, apenas e,
apenas sendo,
não sabia se era
rico, pobre,
homo, hetero,
muçulmano, ateu,
branco, preto,
verde, amarelo,
ou vermelho.
Aliás, não era
mesmo
nada disso.
Era
antes do nome,
antes do templo,
antes do julgamento,
um trovão
uma rajada de vento.
Era o tempo
em que a diferença
ainda não havia sido.
Era o Infinito
alento
Era Vênus
a expandir
universos
de fora
pra dentro.
Eu × Você
Quero transparência na política. E você?
Quero me sentir representado pelo congresso nacional. E você?
Quero que meus impostos sejam revertidos em saúde, cultura,
educação e transporte PÚBLICO de qualidade. E você?
Quero que políticos trabalhem para o bem da sociedade e não
para atender aos interesses privados das mega corporações que
pagaram por suas campanhas. E você?
Quero o fim das ‘Doações’ milionárias a políticos. E você?
Quero que o Estado Laico seja Laico. E você?
Quero ver todos os políticos e não políticos corruptos na cadeia.
E você?
Quero que os jornais façam jornalismo e não incitação ao ódio.
E você?
Quero que meu voto tenha valor. E você?
Quero que as regras democráticas valham para TODOS. E você?
Quero respeitar e me sentir respeitada. E você?
Puxa. Talvez queiramos a mesma coisa.
Por que estamos brigando mesmo?
Juliana Calderón é atriz, comunicadora, canto-autora, humanista e idealista incurável. Preza pela defesa e constante aprimoramento do Estado Democrático de Direito e, portanto, é veementemente contra o governo ilegítimo de Michel Temer.
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resistência
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Juliana Cordaro reafirma-se como mulher, artista e educadora,
um tipo de pescadora e costureira de possibilidades e pessoas.
Torce para que caiba mais do povo no mundo, e para que caiba
mais do mundo no povo. Viver coletivamente é revolucionário.
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Estação
Cuidado: veículos
Para a sua segurança este veículo possui dispositivo que só
permite a sua movimentação de portas fechadas
Atenção: mudança de linha
Acesso não permitido
Mind the gap
(Não são as palavras se formando aqui e agora que constroem o
espaço. Mesmo que os teus olhos, a tua boca, o teu nariz, os teus
ouvidos, as tuas mãos sobre esse meu corpo, fossem meus olhos,
minha boca, meu nariz, meus ouvidos, minhas mãos. É o espaço.
Upu que mora entre o meu umbigo e o meu sexo, que forma as
palavras – estado democrático de direito – passos em busca da
Terra sem Mal.)
Deixe a esquerda livre
1 - Puxe a alavanca
2 - Empurre a janela
Karine Kelly Pereira é feminista e poeta. Na sua primeira participação eleitoral não teve seu voto respeitado, mas insiste em
lutar para amar e mudar as coisas.
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Laerte é autora de quadrinhos, cartuns e charges. Nasceu em São
Paulo, em 1951 – fez alguns cursos livres de pintura, desenho e
teatro; entrou na USP, em Comunicações, pra fazer Música e depois Jornalismo – não se formou. É uma das criadoras da revista
Balão (quadrinhos) e da empresa Oboré (assessoria de comunicação para sindicatos). Publicou seu trabalho n’O Pasquim, n’O
Bicho, no Estado de São Paulo, na Folha de São Paulo, em várias
revistas. Foi autora da revista Piratas do Tietê – também o nome
da tira diária que produz. Participou da redação de programas de
tevê da Rede Globo: TV Pirata, TV Colosso, Sai de Baixo. Apresentou o programa Transando com Laerte, no Canal Brasil.
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Leonardo Costa é astronauta e acredita que só a democracia é o
caminho. Diariamente combate bestas extraterrenas, pois sabe
que o governo é quem deve temer o povo. 191
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Letícia Novaes é atriz, escritora, cantora e compositora da banda
Letuce. Escreveu o livro Zaralha - abri minha pasta, já lançou 3
álbuns com sua banda e em breve sai em projeto solo.
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No fogo inimigo
cozinhar, antes,
emanava era um cheiro bom
daquilo que mataria a fome
o fogo preparando um futuro
– mas não agora
não neste país –
aqui cozinharam
meses a fio uma tramoia
em banho-maria
em fogo baixo
e esse repasto saído da panela
resulta podre, fétido
e à força empurram
goela abaixo
- disfarçado de aviãozinho
manobrado com
todo tipo de pirueta
picareta.
mas o fogão segue aceso
e a boca vai cuspir
devolver à cozinha
sua missão
de alimentar
saciar a sede
sem temer.
Lilian Aquino nasceu em São Paulo em 1979, quando finalmente
o irmão do Henfil pôde voltar ao Brasil. Acredita na força da ação
coletiva, da palavra e da arte como forma de enfrentamento contra o golpe em curso no país.
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golpe
Um gosto amargo,
um nó na garganta,
irrompe em meu peito
um fogo que inflama
a dor da batalha,
o contar dos corpos
dentro da sala
Entra na noite
a brisa do medo,
a temer o açoite,
o sim ao degredo,
o lodo que escorre
esconde o sorriso
ao cunhado golpe
Seguem dormindo
aqueles que outrora
abriram caminho
aos homens que agora
são seus algozes
silenciando
o coro das vozes
Correm os loucos,
as putas,
os roucos,
Certos da morte,
talham seus ventres,
negam a sorte
199
Lineker é bailarino, cantor e diretor. Mineiro de Bambuí, reside
em São Paulo desde 2013. Esta é a letra da canção “Golpe”, que
estará presente em seu próximo disco, a ser lançado em novembro de 2016.
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A Murilo e aos revolucionários
Junto com o outono
vieram os vikings
os marujos
toda sorte de bárbaros
e piratas
As ruas estão um tanto em pânico
um tanto em festa
Busco semblantes familiares
entre os escombros de medo e alegria
Uma estrutura de concreto armado
sustenta meu coração no alto
Vejo corpos translúcidos, lindos
carregados por guindastes
alguns estão mortos
Os vivos celebram a ignorância
de seus grilhões
com adoráveis bolas de ferro
atadas aos tornozelos
Meus olhos são duas granadas
meus pulmões são artefatos de guerra
palavras são como projéteis que se enchem de pólvora
antes de explodirem em chamas sobre a cidade
Atravesso o elevado Costa e Silva
um senhor tira confetes do cabelo de sua namorada
Na República uma criança chora
suas bolas de gude confundiram-se com estilhaços
Mendigos, putas, traficantes, poetas, operários,
estudantes, bêbados, atrizes e filósofos
todos foram convocados para essa formidável festa de despedida
os demais permanecerão em suas trincheiras
buscando a sorte em jogos de azar
colecionando peças amputadas da realidade
dobrando a esquina enquanto uma horda de revolucionários
escreve o poema do século em plena praça pública.
Luana Vignon nasceu nos anos 80 e ouviu algumas histórias sobre censura, subversão e exílio, não são boas histórias. Acredita
no poder transformador da arte. Arrisca dizer que se você não
está do lado do oprimido, você é o opressor. O mundo precisa
de mais poesia, mais música, mais dança, mais amor; essa é a
verdadeira revolução que está em curso.
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há insegurança
no ar.
uma névoa cinza
cobre a cidade
não é sobre poluição
não é sobre o outono
é sobre uma noite
que insiste
ao meio-dia
é sobre uma noite
que insiste
dentro do que dizem:
democracia
dentro do que dizem:
democracia
queimaram nossos votos
é essa fumaça que sobe
diante dos olhos:
há insegurança
no ar.
Lubi Prates acredita na democracia como única forma de construir um país com igualdade social, assim como acredita na arte
como forma de manifestação e resistência.
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Os mortos vivos
1. A mãe
Minha mãe sepultou as parcas alegrias
em uma lata colorida de biscoitos,
que diziam de origem dinamarquesa:
três filhos que vingaram, um que não,
sombria matemática de outros tempos;
a água fresca da mina em seu rosto;
uma viagem de carro à praia longínqua,
quando enfim estabeleceu dessemelhanças
entre areia e ondas, entre ruínas e posse;
o mugido de vacas tangendo a alvorada;
um cachorro de nome Peri, outro, Veludo;
vizinhas engraçadas, vizinhas sisudas;
a comadre que se foi para São Paulo.
Suas mãos queimadas de água-sanitária
jamais colecionaram retratos ou sorrisos.
Guardavam imagens, que se extraviaram
incendiando as nuvens desta tarde clara,
que a tudo ignora, eterna em seu mutismo.
2. O pai
Nasceu meu pai do ar e com os ventos se criou.
Foi tempestade, aragem, borrasca, placidez, estio.
Ninguém o ouvia, sua voz rouca pregava o livro santo
para insetos e pássaros que inundavam as matas
calcinadas da minha infância mais que obscura.
Seus passos miúdos vasculhavam a cidade
e, às horas mortas, exausto, compreendia
a invisibilidade de seu corpo inútil e vazio.
207
3. O irmão
O rádio chovia a noite toda ondas curtas
que meu irmão insone sintonizava.
As estrelas chuleadas no azul escuro
fascinavam bocas cobiçosas de idades.
Ronronavam as horas quietas em seu colo
e formigas escalavam a parede pacientes
carreando fragmentos de conversas do quintal.
Meu irmão acreditava em galinhas e alfaces,
e mantinha, sob a cama, agrilhoado,
um deus feroz, vingativo e rancoroso.
Ignorava relógios e ampulhetas, imerso
o corpo nas águas límpidas do presente.
Por inveja, ciúme ou ingratidão, explodiu
numa cinzelada manhã de gatos baldios,
cicatrizes a envenenar estes dias vulgares
que se abatem como látegos em meu dorso.
4. A avó
Amortalhada em seu quarto, minha avó enxaguava
os longos cabelos grisalhos em bacias de estanho,
aspirando com sofreguidão o fim inevitável.
Mirava-me perplexa, como se eu, e não ela, o fantasma,
murmurando sentenças a ninguém mais compreensíveis.
Seu corpo frágil desconhecia sombra e, secretamente,
cultivava antúrios, margaridas e rosas de plástico.
Nas madrugadas, excomungava os pesadelos,
agarrando-se a rosários, fiando promessas incumpridas.
Nunca conheceu a felicidade, minha avó, e a alegria,
substantiva, acariciou-a certa feita, quando, inerte,
208
na cama, primavera entrada, balbuciou o nome
daquele pássaro que, erradio, debatia-se com vigor
contra as paredes e as telhas que o asfixiavam.
Luiz Ruffato é um cidadão brasileiro, enojado com a conspiração
encabeçada por Michel Temer e apoiada pelo que há de pior na política brasileira para derrubar uma presidente legitimamente eleita.
209
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| stefanni marion | tarso de melo | tatá
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guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
eram tempos de ódio
e ferrugem antiga
de muito grito
e pouca voz
tempos de ritalina
amnésia aspirina
eram tempos de roleta russa
guerra fria requentada
como se miami fosse terra prometida
e cuba, a praga infestada
eram tempos repetidos
história como farsa
história como força história como falsa
história como forca
estouro com memória e faca
e continuo nessa jornada
enquanto falar não seja denúncia
nem renúncia perante a barbárie
entenda:
sua panela de teflon não conhece a
fome
seu milagre faz crescer o bolo
mas não multiplica os pães
de que adianta ir pra rua, se você nunca sai de casa?
tão importante quanto a bandeira
é com quem tu caminha
qual sua gente-parceira
eu estou do lado
211
do acarajé
da diversidade de fé
do direito ao corpo da mulher
qualé?
se diz homem de bem
mas discrimina
quem vem de assaré
qualé?
quer um país que preste
mas agride alguém
pela cor que veste
qualé?
conclama justiça
mas compactua
com deputado racista
qualé?
quer melhorar o brasil
mas qual humanidade
se constrói
na mira de um fuzil
contradição tamanha
só vi na alemanha
antro de besteira
versão atualizada
do ensaio da cegueira
pode até dizer que a intenção é pura
mas não há justificativa pra ditadura
que venham os touros furiosos
continuarei erguendo minha bandeira vermelha
porque meu sangue é rubro
e não azul
212
(muito menos amarelo)
se pinta sua cara de verde
na mão, carrego martelo
e isso é mais que tomar partido
é tomar coragem
de enfrentar a cruz e a bala
da sua bancada milionária
se for preciso teremos guerra
ressuscitaremos marighella
essa é nossa conduta
contra o golpe
vai ter luta
Luiza Romão é poeta, atriz e diretora de teatro. Em 2014, publicou o livro Coquetel Motolove e participou de inúmeros saraus/
slams (sendo campeã do Slam do 13, Slam da Guilhermina e vicecampeã nacional via Slam BR). Atualmente é atriz convidada no
Núcleo Bartolomeu de Depoimentos; e integrante do coletivo de
performance da palavra Literatura Ostentação.
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Cannes começa em ny
Fazer arte tem uma aura de emergência difícil de descrever.
Diante da eternidade do cinema, nada é mais importante do que
buscar a alma do momento presente, falar além desse tempo/espaço para gerações futuras quando já não estaremos aqui. Talvez
isso explique a paixão que mobilizou mais de 30 pessoas, entre
equipe e amigos do filme, a tirar dinheiro de seus próprios bolsos
pra pagar passagem, hospedagem, comida, tudo pra estar juntos
na première mundial de Aquarius no Festival de Cannes.
Enquanto corríamos de um lado pro outro escolhendo vestidos
e smokings para o festival, assistimos perplexos a uma série de
acontecimentos políticos no Brasil, dignos de uma narrativa de
ficção. E o roteiro parecia duvidoso. Saí do Brasil com uma presidenta da república sendo afastada de seu cargo sob gritos de
“chega de corrupção”. Voltei vinte dias depois com áudios vazados
na imprensa escancarando o óbvio: o impeachment foi um plano
pra estancar a Lava Jato e livrar políticos da cadeia. Segundo eles
próprios, a presidenta deixa a investigação correr solta demais.
Estar em competição no Festival de Cannes foi uma experiência
pessoal e profissional de proporções avassaladoras, mas nada me
tocou tanto como assistir ao filme que fizemos e me dar conta
da assustadora sincronicidade do filme com o Brasil de hoje. Tal
paralelo não foi proposital, o roteiro de Kleber Mendonça é uma
antena poderosa que capta a sensibilidade de uma sociedade
dividida, que despreza sua memória recente em nome da manutenção de privilégios de uma minoria. Nesse aspecto, não me
surpreende que hoje a cultura seja uma ameaça para certos setores a ponto de alguns defenderem o fim do seu subsídio.
Mas a personagem de Sonia Braga em Aquarius é acima de tudo
resistente. E, se a câmera tem o poder de captar o além tempo,
para mim nada faz mais sentido do que minha memória em loo-
215
ping recordando o instante em que, sobre o tapete vermelho, levantamos um papel a4 pra dizer que, sim, vivemos um golpe. Foi
um pequeno e simbólico gesto, mas a julgar pela atual juventude
nas escolas que nos ensina como se apropriar dos espaços e multiplicar vozes, certamente esse gesto é eterno.
Maeve Jinkings é uma atriz brasiliense formada pela EAD/USP.
Em maio de 2016 esteve no Festival de Cannes representando o
filme Aquarius, segundo longa-metragem de Kleber Mendonça
Filho.
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dissonâncias
porque os mesmos necromantes que evocam os mortos e os
moribundos
pra predizer um futuro de cartas marcadas, carcomidas
porque os mesmos plutocratas que conduzem a farsa
pra lucrar em cima de quem é absorvido pela intriga
(esta: o ventríloquo, com o punho enfiado no oco do boneco
antigo/antiquado, caiado com tinta fresca
cunha falas de efeito, vende nas revistas
serpentes como evolução dos dinossauros)
porque mesmo o punho do ventríloquo
cerrado como porta burra na cara
de quem é absorvido pela intriga
porque os mesmos que defendem com garras, dentes e cinismo
a imposição de um futuro obscurantista
invocam nesse ato outras vozes
(e a voz, sabemos, é secreção de corpo vivo)
antizumbis
(porque a morte, sabemos, uniformiza)
e antiusurpadores
inundamos o entorno da sala de espera
com esta recusa musical e outras
secreções de gente viva
com a diversidade de corpos que se expõem
insubmissos
Maiara Gouveia jamais terá o recato necessário pra brincar
de doce lar enquanto a covardia comer solta. Recusa que o
decorativo tome pra si o lugar do legítimo e defraude ainda mais
nosso poder de escolha. 218
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hileia, nosso humble abode
seus grassos frutos de pele fina
polpa de refugo
chinchulina colostral
quem se aburra? quem será ingerido primeiro?
estamos em jejum, perdão, diria a tripa de podreres
espumas e pipocos de gás no bucho inflamado,
stufffados, ingerências à parte.
mas o miasma não mente: tem algo de pungente
no reino das pizzas en regalia
e a bestafera tripartite sofre de comorbidades digestórias:
tricotilomania & refluxo
decorrentes carepa nas barbelas
e aliento de saburra.
mas no cardápio temos apenas
os frutos de pele fina e sebolhosos
servidos em bandejas importadas
da lenda dos fri, home dos bravo
sinto afirmar, mas recomidos estamos todos
e enterinos semo-nos, gravitástricos
no sumo dos viraláticos peristaltas.
Maíra Mendes Galvão gostava de viagem no tempo até que nos
levaram de volta a 64. Azedou.
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sonetos de michel
i
Fizeste-me um anão decorativo,
Oh avara búlgara, e eis que choldra riu-m’a
Submissa condição, queimou meu filme, ah,
Mas me vinguei, que saibas, sou altivo,
Manejo a língua bem, e no meu crivo
Não vai passar quem outrora partiu-m’a
Vaidade de poeta, Dona Dilma Tu vais chorar amargo, então aí vou
Cortar onda de mulher, pobre e preto
Ministro meu só macho adulto e branco
Deixo o Brasil aos trancos e barrancos
Na mão da pior corja, e um soneto
Eu faço de vingança, minha filha:
Tomanucu tu e teu bolsa-família!
ii
Achar-se-ia muita aleivosia
Da parte das mulheres do Brasil
Tomasse eu toco de mais uma tia Não pode o meu governo expor-se a ardil.
Bruna negou, Daniela, até Marília
Me esculacharam, puta que pariu,
Artista e o povo do bolsa-família
Vão ver com quantos paus faz-se um xibiu.
222
Vou tentar mais dois lances na roleta:
Regina, até Marilena Chauí,
Minha intenção é colocar aqui
Mandando na Cultura uma boceta
Pra acalmar ânimos. Se não der, sinto
Muito, valeu, coloco mais um pinto.
iii
Na tua nau embarquei. Um homem pode
Tudo na vida, a vitória é só querê-la
Sinceramente, e agradar deuses com vela,
Pipoca, enxofre, ebó, sangue de bode.
Assim meti o país numa esparrela:
Uns garotão bunito, criado a toddy,
Os boy da academia Health & Body,
Galinha preta e farofa amarela
Nem desconfiam que eu uso a mancheias.
Aos inimigos, que a polícia açoite
Neste país só otário vê cadeia
Trabalho do meidia à meia noite
Livro os parcêro e detono os mané
C’ ajuda do paizinho Baphomet.
223
iv
Eu sou poeta e tenho um nome angélico
Meu pacto não é propriamente com Deus
Mas nome bem parecido: Asmo-Deus
Eu, ademais, tenho apoio evangélico,
Pastores, crentes, todos fariseus.
Meu nome é o mesmo do Arcanjo Azul, bélico,
Que pisa no meu Mestre. Estes famélicos
Que ganham bolsa, farei de judeus
Num campo de concentração nazista.
Retomarei pra mim número treze
Exterminarei a nação petista
E a minha musa eu encherei de anéis.
Ela há de amar-me além de quinze meses
Tenho bem mais que onze contos de réis.
Manoel Herzog nasceu em 1964, com o golpe instalado. Não pensava de voltar a viver este horror depois dos cinquentinha, mas
enfim. Trabalhou em fábrica, estudou Direito, desencantou-se da
Justiça dos homens e virou escritor.
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Manoel Quitério é artista visual, de Recife. Expoente da nova
cena da arte urbana em Pernambuco, tem um trabalho que bate
de frente com ideologias da dominação, ganhando rápido destaque nas cenas independentes. Recentemente, realizou trabalhos
que ganharam as ruas de Istanbul, denunciando o regime ditatorial da Turquia, sob a perseguição de órgãos fiscais e sob o risco
das duras penas aplicadas aos artistas pelo governo local. Tem
também trabalhos em Israel, Bruxelas, Amsterdam, Paris e por
todo o continente Europeu.
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“Imagens do Golpe” – Nanquim sobre papel, 2016
Manu Maltez, São Paulo, 1977, é mais um artista na luta pela
volta da democracia no Brasil.
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fuuuuuuuuu
(Conto inédito )
O corpo virou uma flâmula. Porque já estava acabando o gás. O
fôlego das chamas.
Irreconhecível, à porta da Federação.
Chegou chamuscando da rua para dentro. E fuuuuuuuuu. Riscou-se. Pólvora em polvorosa. Parecia um carvão.
Era negro?
Nem sei se era homem. Veio vestindo um moletom. E a cara
disfarçada por debaixo da toca, na sombra.
Correu urrando.
E pelo urro, não dava para ver se era mulher?
Todo sexo e urro ficam iguaizinhos embaixo de um moletom.
E de uma toca. Foi muito rápido. Virou uma tocha em um segundo. E aqui está agora, Meu Cristo, quase um papel. Uma fogueirinha de osso.
Não se pode jogar água não.
Já chamaram os bombeiros? Já chamaram a polícia?
Já chamamos, já chamamos.
E os movimentos?
Terá sido um estudante?
Se for um estudante, coitado. Desgraçar o futuro assim, em
um palito. Só vi coisa parecida nos Estados Unidos.
O Brasil está virando os Estados Unidos.
Não seria menos dramático ter feito uma greve de fome?
Nunca vi um corpo assim, ao vivo, queimado.
Uma testemunha disse que essa pessoa saiu de um ônibus
vindo do Largo da Batata. Tá explicado. Aí a batata dela assou.
Por que, neste país, tudo acaba em piada?
Não é em pizza?
Tô pensando aqui se ele (ou ela) tivesse tocado esse inferno
dentro do ônibus. Não vivem queimando ônibus?
231
Coisa do Diabo.
Ninguém vê evangélico protestando.
Muito menos católico.
Quem protesta não acredita em Deus.
Mas alguém jura que ouviu o suicida (a suicida) gritar o nome
de Deus. Antes de desaparecer.
Fuuuuuuuuu.
Não reconhecemos extremistas. Não reconhecemos religiosos.
Nem fanáticos.
Agora é esperar as imagens de alguma câmera da Federação.
Temos a certeza, hoje já tem filmagem exclusiva vazando na Rede
Globo.
Na internet, não já tem?
Alguém sempre filma. Estamos filmando, aqui, só o que sobrou aceso. Meu Jesus. Do pó ao pó. E esse cheiro insuportável.
Acho que era uma mulher.
Como sabe?
Quem entende de cozinhar, brother? Mulher.
E todo mundo riu.
Eu acho que só homem, meu, tem essa coragem.
Era algum filhinho de papai. Que acha bonito ser super-herói.
Aposto que assistiu a essa cena no cinema.
Não reconhecemos filhinhos de papai. Muito menos se era um
branquinho filho da puta.
Mano.
Foi um mano.
Acostumado a queimar pneu. Acostumado a queimar favela.
A queimar fumo.
Drogado, não tenho dúvida.
E o corpo ocupando um chão inteiro. E gente e mais gente
na rua. E nada dos bombeiros. Ninguém está aí para nada, para
nada.
Já pensou se a moda pega?
Será que foi com isqueiro? Se foi, já derreteu. Fósforo é arriscado. Pode não pegar. E nessa avenida bate um vento de lascar.
Por isso ele (ou ela) já virou, ligeiro demais, essa bola de fuligem.
Era contra o quê?
A Petrobrás.
Mas como ser contra a Petrobrás usando gasolina?
E foi com gasolina?
Pelo jeito, gás.
Água raz, thinner, querosene.
E se a gente se juntasse para rezar? Pela alma do infeliz? Ou
da infeliz? Ah, mas alma é masculina, é feminina.
Alma é alma.
Ave-Maria, cheia de graça.
E se era um ateu, uma ateia? Todo artista é assim, maluco, maluca. Melhor não abusar. Cometeremos um sacrilégio.
Quanto tempo vai demorar?
O quê?
Esse maço de chumaço em frente à Federação.
Por que não pegamos nós uma pá?
E jogar essa coisa onde? No lixo? O que você faz com capim?
Com resto de floresta? Com cinza de cigarro?
Com comunista?
Só comunista faz uma merda dessas. E lugar de comunista é
mesmo no lixo. Para para refletir um pouco. E se fosse o seu filho
morto? A sua filha?
Ensinei sempre para o meu filho, desde pequeno, a não brincar com fogo. Mas não tem jeito. Eles sempre se queimam.
E tudo, dizem, em nome do Brasil. Estão lutando pelo Brasil.
Puta que pariu. Só se for Brasa, Brasil.
Fuuuuuuuuu.
E todo mundo riu.
233
Marcelino Freire, 49, é escritor. Autor, entre outros, de “Angu
de Sangue” (contos, Ateliê Editorial), “Contos Negreiros” (Editora
Record) e “Nossos Ossos” (romance, Editora Record). É o criador
e curador da Balada Literária, evento que acontece, anual e gratuitamente, desde 2006 em São Paulo. O conto acima foi escrito
especialmente para esta antologia. Para saber mais sobre o autor,
acesse: www.marcelinofreire.wordpress.com
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Sobre o feminino
É possível associar o feminino com a água
com a fluidez, sensibilidade, atravessamento, abertura da água
em contraponto com a rigidez, brutalidade, empedramento e
aridez do masculino
e se estamos vivendo no mundo uma crise da água
ela tem conexões profundas com uma crise de recepção do
feminino
Vejo como necessária a recuperação de um novo modo de
pensar o potencial humano, como uma potência da fragilidade
Algo que não está associado apenas ao feminino, mas ao humano
seria uma parvoíce, uma estupidez programada associar a
potência da fragilidade apenas ao feminino, a fragilidade é uma
força por onde o mundo pode passar, a fragilidade é como o
aparente ser do orvalho
esta potência da fragilidade está em oposição ao poder da
brutalidade, elogio da força bruta, Aética da brutalização que
para ser instaurada necessita dominar a natureza, retirar o
mundo e até destruí-lo
Quando os homens reconhecerem em si também a
potencialidade sensível da fragilidade, começaremos a
transformação de paradigmas da destruição em atos criadores
de um reconhecimento do mundo e não apenas da projeção de
dualismos e estratégias de dominação e submissão, teremos o
início de um mundo do dialógico, onde diferenças e alteridades
serão reconhecidas como modos de ser do próprio mundo,
da própria Terra atuando sinergicamente e em ressonâncias
dialógicas
O feminino que foi construído como projeto e projeção de
ideias de dominação e submissão ao modo de ser da Aética
da brutalidade deve dar lugar a uma construção das próprias
mulheres sem margem para estas projeções perversas que são
236
a base de um projeto político totalitário e secularizado que
ignora o mundo como ser e como ente, poderá ser implantada
no mundo uma ética do cuidar, da devoção, da serenidade ativa.
uma ética a partir do feminino.
O Pai também será mãe
a mãe poderá ser reconhecida
não apenas como um anjo do Paraíso,
mas como o caminho para o Paraíso,
a mulher poderá ser reconhecida
como uma materialidade do Sagrado no Mundo
porque desse modo o Mundo se torna ele mesmo Sagrado
Marcelo Ariel, Santos, 1968, poeta e dramaturgo. Autor dos livros O rei das vozes enterradas (Editora Córrego), O Livro das árvores dentro do Livro dos salmos dentro do Livro dos anjos sem nome
(Pharmakon), Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio
(Editora Patuá), entre outros.
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Memórias do Golpe
Confesso que vivi dois Golpes de Estado, o militar de 31 de março
de 1964 e agora, o midiático-jurídico-político, de 17 de abril de
2016.
A diferença é que em 1964 – há 50 anos – não se sabia absolutamente nada graças à grande imprensa totalmente vendida aos
militares e norte-americanos, daí os vinte anos de trevas absolutas quando então nos informávamos esparsamente, seja pelos
nanicos (os tabloides de esquerda e imprensa alternativa), seja
pelos amigos e parentes dos desaparecidos, torturados e mortos,
seja pela imprensa internacional.
Afinal, não havia internet, eis a razão das trevas terem durado
vinte amargos anos de mentiras, violência encoberta, repressão,
censura, canalhices, mortes, tortura, silenciamento, traições, arrocho humano e mesmo assim, já em 1984, repito, após 20 anos
de sacanagens, prestes a ocorrer a redemocratização, uma manifestação de 300 mil pessoas na Praça da Sé em 25 de janeiro, a
Globo reportou como “multidão que comemorava o aniversário
da cidade de São Paulo”.
O Brasil não precisava disto. Não merecia isto. O fato é que a
elite brasileira é reiteradamente, historicamente, secularmente,
irremediavelmente apátrida.
Razão pela qual agora, maio de 2016, quando se sabe de tudo,
nada escapa ao domínio público, novamente a mídia hegemônica (Globo, Band, Record, SBT, rádio e televisão, os grandes jornais como O Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo) desinforma e conspira contra a população! Aliás, as Organizações
Roberto Marinho e a Rede Globo estão repetindo e ampliando a
mesma atuação de 64, confirmando plenamente que a história
se escreve como tragédia e se repete como farsa. Eu sei porque
eu lembro.
E aí? Ocorrerá o alargamento do campo do possível (Sartre)?Ou o que poderemos fazer? Nós, os 30% da população que
escaparam à cooptação, que se mantém ilesos à desinformação
239
diária e doutrinação inversa ministrada dia e noite em todas as
tevês e rádio e jornais, no céu na terra em toda parte, uma vez
que, como já apontam Tariq Aliq e Noam Chomsky, o Brasil não
é mais uma democracia?
O Brasil não precisa disto. Não merece isto novamente. Mas
o fato é que a elite brasileira é reiteradamente, historicamente,
irremediavelmente apátrida.
Márcia Denser é escritora paulistana, 62 anos. Tem 12 livros solos publicados, como Diana Caçadora, Caim, Toda Prosa, DesEstórias, e participação em 48 antologias. Sua obra já foi traduzida
em 10 países e 9 línguas.
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noturno do golpe
vê, já é quase noite
ouve a festa dos corvos
o esfregar das mãos imensas
e o rumor afiado de rapinas
à espera da carniça.
vê, já faz noite
me bate o queixo
nesse frio de sombras
e o pulsar frenético
na antemarcha dos coturnos.
vê na alta noite o banquete
dos conspiradores entorpecidos
e o desespero do corpo
violentado da democracia
se debatendo no escuro.
ouve, os gritos vêm da sala
estão todos em transe na madrugada
a laje balança à faina saqueadora
tremem os lustres, o reboco
do teto nos cai sobre os berços.
mas teus filhos não dormem
ó, amada mãe-gentil,
no silêncio da desonra, saiba
estão vivos, sob o pó, no escuro
e um dia voltarão com o sol.
que nascerá da verdade.
242
Marcílio Godoi viu a Democracia brasileira ser reconquistada a
duras penas e não vai se calar agora diante de mais um golpe. É
pai de dois filhos, com os quais tenta compreender e evitar que a
história se repita como farsa.
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O voto fantasma
Sempre sonho com espíritos que aparecem para conversar, tomar café, meter medo, possuir pessoas que usam roupa preta. É
tudo parte do trabalho deles, das atividades que precisam executar diariamente para manter a sociedade ectoplásmica em funcionamento. Em geral são homens os fantasmas nos sonhos. Mas
sonhei, noutra noite, que fantasmas do sexo feminino apareciam
na escola estadual em que eu costumava ser mesário. Subiam as
escadas em grupo e em silêncio no dia da eleição. Dava para ver,
através dos corpos delas, os desenhos das crianças pendurados
nas paredes.
– Foram vocês os criadores dessa lei que diz que não podemos
votar porque estamos mortas. Essa lei não nos serve. Viemos
votar.
O mesário era um menino, um homem, um rapaz, e ele não
queria estar ali, e ele ainda não sabia em quem votar. Pediu o
documento-com-foto das mortas.
– Sim. Mas não nos peça para assinar nada porque não temos
como segurar a caneta.
Seria bom ter a opinião de alguém que conhece as coisas de
uma maneira que ele jamais poderia conhecer, então o mesário
perguntou em quem elas votariam.
– Votaremos em quem acredita que uma pessoa morta na verdade vale tanto quanto uma pessoa viva; em quem não teme
as pessoas mortas porque sabe que elas sempre ganham: elas
são muitas, elas morrem há centenas de anos, e se acumulam,
e ocupam espaço. Elas são infinitas, e fazem parte do mundo
das pessoas vivas, e no entanto até ontem só nos era dado
o direito de dormir sob as camas e nos armários, e precisá-
245
vamos esperar e esperar até a hora certa de dar o susto. Há
tanta coisa que nós, fantasmas, podemos fazer. Tanta coisa.
No sonho, elas não puderam segurar a caneta tão material com
seus dedos de éter, mas conseguiram apertar os botões das urnas.
...
Marco Dutra (36) é cineasta nascido e criado em São Paulo, acredita na força da pena e no fim das tempestades.
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Recomeço
(Trecho da peça Motel Rashomon)
Mesmo que amanhã
a mão invisível do tempo
sobre os nossos corpos exaustos
nos diga que sempre será
amanhã
apenas uma palavra
mesmo essa palavra
será sempre a possibilidade de um
recomeço
Alguém
nessa sucessão eterna
deverá sempre recomeçar
Sobre o nada
Sobre o silêncio
Alguém se importa se eu começar de novo?
Os corpos exaustos
em terrenos baldios
em cemitérios clandestinos
Ossos
à procura de
sentido para
a palavra
amanhã
Mas quem se importa?
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Marcos Gomes é dramaturgo, autor do livro Luz fria. Não escreve
pela família, nem por deus, nem pela propriedade.
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acusar o golpe
Fui criança na época do medo, quando as palavras já nasciam encolhidas e a semelhança entre elas era quase um ato reflexo. Comecei a escrever com a Abertura e não demorei muito a perceber
que se tratava de outro tipo de fechamento. Durante a Década Perdida, as palavras viviam em completo desacordo com as coisas e
manter-se acima da linha d’água já exigia grandes esforços. Estava
fora do país, vestido de preto, enquanto Collor caía. Depois, voltei
à universidade como professor. Eram tempos de ansiedade, pois
as palavras não coincidiam com aquilo que pareceriam dizer. O
século xxi, antes longínquo, fadado à consumação, abriu ao contrário muitos outros caminhos. Durante uma década, ouvi, falei,
senti as palavras se aproximarem das coisas, flertarem com elas,
ensinarem-lhe a confiança. Como se tivéssemos chegado a outro
padrão de linguagem. Confesso que nada do que se seguiu me
surpreendeu muito. Poetas e contrabandistas pragmáticos sabem
muito bem o quanto custa sustentar artifícios de paraíso, essas
ideias fora do lugar, onde quer que estejam, flutuações que não se
fixam e sem as quais não viveríamos. É verdade que a história da
gravidade é feita de golpes, se golpe significa o inesperado, aquilo
que resta de um lance, de um movimento ruim, como um corpo
que se abate, estatelado, de um duro baque. O golpe não acabou.
Ele está em curso. Mas já existe um cadáver do golpe, e esse cadáver são as palavras dos meus dessemelhantes, criaturas ávidas,
coradas como eu, mas antes pelo desejo de que as novas palavras
continuem a regrar os velhos equívocos. Meus dessemelhantes são
velhos e são jovens, são interessados e desinteressados, como eu. O
grotesco da nossa semelhança me choca e me entristece. Por isso
hoje, a propósito de golpe, eu teria publicado um poema, digamos
uma “Pietà aos dessemelhantes”. Queria expor os efeitos do golpe
para, como se diz, acusar o golpe, denunciá-lo em mim. Não haveria nisso perdão nem incriminação. Mas não tive forças de erguer
esse espelho. Ademais, hoje sabemos: os dessemelhantes não leem.
Dessemelhante é aquele que não consegue se ver?
251
bibliografia do golpe
Marcos Siscar é professor na Unicamp, onde publicou um livro
de ensaios chamado Poesia e crise. Em seus poemas, cair nunca
foi um problema. Por isso precisou escrever, recentemente, um
Manual de flutuação para amadores.
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Maio para junho, 2016
Cara amiga,
Escrevo-te do não lugar.
Entrei no avião, dois dias após ver, junto a alguns conhecidos,
um mundo e um sistema podre subir à presidência.
Homens defensores de uma visão de mundo que eu considerava velha, e morta.
Tanta inocência.
Julgava finalmente vencida e virada uma página velha e amarelada de algo que acreditava ser uma geração autoritária derrotada pelo mundo, pela luta, e sobretudo pelo bom senso do
passar do anos.
Por aquilo que enchemos o peito para chamar de história.
Aquilo que por si só não diz mais nada.
Eu escrevo do não lugar.
Uma vez mais, a geração única, velha e caquética vai vencendo a sua própria geração, e a nova, esperançosa, ainda por vir.
Estamos tan cerca, diria Celan.
E ainda sem lugar.
Os dias que antecederam esse lançamento da minha vida e
meu corpo ao espaço foram dias de destruição completa.
Como perdoar esses anos todos lidando com a política como
se fosse mais uma relação familiar?
Como deixamo-nos enganar que um “pai” ou uma “mãe” bons,
são melhores e não reprodutores do mesmo sistema paternalista,
patriarcal, masculino e branco de deus?
Quem olha por nós, senão nós?
Estivemos tão perto.
E, ainda, escrevo do não lugar.
Já não há para onde regressar, nem para onde partir.
Ficam as dores de um crescimento às custas de um golpe, autoritário, injusto e realista.
O real é da ordem da falta de construção de um espaço. Da
pobreza de interpretação.
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Paramos, então, diante do abismo e estendemos as mãos em
um gesto singelo.
Damos adeus a tudo que foi.
Adeus que, turvo no espelho, se torna aos poucos – oh, será? –
oh, será? – em “alô”.
Em uma nova forma de se dizer “olá”.
Nos reinventamos, mais fúnebres, mais agressivos, mais turvos, menos reais. E resistimos.
Resistimos de lugar nenhum para lugar algum.
Acenando, com um sorriso irônico, a todos aqueles que já não
existem porque não são nada além de cadeiras e títulos que já
não são traduzidos por palavra alguma.
Cadeira.
Título.
Título.
Cadeira.
Cadeira.
C a d i t e r a.
…
Ocupamos, então, suas palavras, suas origens.
Ocupamos suas famílias, suas netas, seus primos e titios.
Ocupamos a gramática e construímos uma coisa qualquer
que se define em coisa nenhuma.
Damos olá e acenamos do único lugar que agora existe.
O lugar nenhum, que agora é nosso, o não lugar.
Maria Clara Escobar tem 27 anos. Realizou filmes, como o longa
de documentário Os Dias Com Ele, escreveu roteiros e escreve textos curtos, a fim de tentar estabelecer diálogo com o mundo em
constante transformação.
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saliva
a minha voz
a minha vez
o meu cuspe
o meu
cu
Queria ser minhoca pra arejar esta terra de ódio.
Meu corpo político
estético
oferecendo
os seios às
setas
da polícia.
Minhas raivas
obstétricas expostas
aos gritos vazios.
E meus cus
dados
aos mundos
avessos
aos sofrimentos
dos mortos de fome,
que já nem ouvem
aquilo
que não alimenta.
[Hoje menstruei um vermelho tão vivo.
Fiquei orgulhosa do erótico liberto
que trago comigo
ainda que meus
olhos públicos
sejam inundados
de um amarelo
insonso pálido sepulcro.]
Maria Giulia Pinheiro está mulher há 25 anos. Nunca viveu fora
da democracia e não quer. Acredita em Deus e também que quem
mais fala em nome dEle menos ouve o que Ele diz.
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hoje
Não há tempo para floreios. A destruição da delicadeza está em
curso. Os ideais serão arruinados até o cerne arqueológico, mutilado e adaptado para que caiba no futuro livro escrito pelos vencedores. Não por nós. O nosso livro é efêmero. Amanhã, postos
os pés nas ruas, tudo será desconhecido.
Hoje um homem carregava uma linda brochura da bíblia no
metrô. O amigo dele domesticado pelo mesmo livro, segurava seu
ombro. Um riso amarelo. Um canto de meninos tupis saudando
a chegada do Salvador. Eu não ouvia nada com meus fones de
ouvido. Na minha mão um poema da Anna Akhmátova, escrito
na época em que ela se ajoelhava aos pés de Stalin, submetendo
sua escrita aos esforços do regime para livrar o filho da cadeia. O
regime não livrou. Não sei mais se o filho de Akhmatova resistiu
em São Petesburgo. O afago do Salvador serve somente aos impunes. A poesia não vai salvar porra nenhuma.
Dezesseis anos antes do golpe, fui à Biblioteca Nacional com
minha turma de literatura portuguesa da faculdade. Francisco
Weffort, ministro da cultura, também estava lá acompanhando o
novo presidente da Embratel, um norte-americano. O norte-americano fingia melhor interesse pelos antigos livros portugueses
do que Weffort com sua apática cara gorda de sono.
Na mesma época entrei pela primeira vez no Arquivo-Museu
de Literatura Brasileira. Havia lá a cadeira do funcionário indicado pessoalmente pelo José Sarney. Havia um cômodo improvisado para abrigar a cadeira do funcionário indicado pessoalmente pelo Sarney. Havia um computador na mesa em frente a
cadeira do funcionário indicado pessoalmente pelo Sarney. Não
havia mesmo era o funcionário. Vez ou outra, havia. Entrava,
branco, grisalho, pançudo, com um eterno semblante de estou
derrotado me olhem. Não se demorava muito. Desaparecia com
pastas debaixo do braço. Voltava alguns meses depois, igual.
Lembro ainda das baratas que acordavam mortas aos pés dos
pesados arquivos metálicos onde eu e os outros funcionários
260
guardávamos os papéis mais importantes da literatura brasileira.
A sala dos papéis ficava atrás de uma velha porta de madeira,
num subsolo sem janelas. Uma fresta lateral no chão, onde havia outra porta, trancafiada, servia de respiradouro bem como
de entrada das baratas. Colocávamos uma pano com inseticida
para evitar sua invasão em massa. Do outro lado dessa porta
trancafiada estava a cozinha onde comiam os funcionários terceirizados do prédio inteiro. Algumas vezes eu era o responsável
por retirar os cadáveres das baratas pela manhã. Com vassoura
em punho, tentava adivinhar, pelo cheiro, o prato do dia que era
preparado no cômodo ao lado.
Pouco tempo depois informaram-me que o novo ministro Gilberto Gil visitaria o Arquivo-Museu. Lá estava ele numa manhã,
de terno, com seu enorme penteado de dread locks, cercado de
assessores. Era o único negro no prédio, pensava eu, com exceção
do Seu Miguel, o segurança que controlava a entrada e a saída
dos visitantes.
Voltei ao Arquivo-Museu depois de alguns anos. O funcionário indicado pessoalmente pelo Sarney “havia se aposentado”,
me informaram. O arquivo metálico agora era outro e ocupava
uma sala duas vezes maior, climatizada, feito com pequenos corredores deslizantes. Para chegar até ele precisei passar por duas
pesadas portas corta-fogo e por nenhuma barata morta.
Francisco Weffort dizia que a cultura brasileira deveria ser
resplandecente aos olhos dos visitantes europeus. Weffort parecia um seguidor de Couto de Magalhães, autor de “O Selvagem”,
livro que explica as nossas raças primitivas aos homens interessados no Brasil entre o concerto das nações. Gilberto Gil era a
cultura em si com um violão em punho no grande salão da ONU,
interessado no desconcerto desse Brasil gordo, apático e branco.
Antes de saltar do metrô, volto os olhos novamente para a belíssima bíblia amarela na mão do homem domesticado. Ontem
uma mulher foi estuprada por mais de 30 homens e sei que quem
carrega uma bíblia dessas na mão afirma, sem pestanejar, que a
culpa foi inteiramente dela. Saio da estação em direção à escola
261
ocupada onde lerei em voz alta o poema de Ana Akhmátova para
os alunos e para as mulheres que lá estarão: “Eu estava bem no
meio de meu povo, lá onde o meu povo infelizmente estava”. A
destruição está em curso. Tudo vai demorar, mais uma vez.
Mariano Marovatto (Rio de Janeiro, 1982) é também www.marovatto.org
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Pagu sem Palanque
“A liberdade das almas, ai! com letras se elabora...”
Cecília Meireles
Eu, Mulher, tenho nojo
de apologia à tortura
de ratos e baratas na vagina
da cadeira do dragão
[para as princesas sem recato e sem castelo] de SIM pela família e pela destruição do grelo
de SIM pelos filhos e pela destruição do útero
de SIM por Deus e contra a fé na vida no futuro na existência.
Eu, indignada e injustiçada,
de dentes quebrados e passado aniquilado
por um verme [hoje] exaltado aplaudido aclamado
saio com o corpo e a alma usurpados
pelo estupro
pela perda dos direitos
[esses eu nunca conheci]
pela linha de frente
pela chacota à minha feminilidade
pelo descaso à minha humanidade
pelo circo à minha governabilidade
pelo destaque à minha fragilidade.
Só porque sou MULHER
TORTURADA
VILIPENDIADA
HUMILHADA
INJUSTIÇADA
VIOLENTADA
264
DESACREDITADA
ULTRAJADA
VITIMADA
pelo nosso Estado de não-direito não-acesso não-cidadão
em nossa História que explica a minha má formação
em nossa sociedade fraca submissa pequena
nada igualitária.
Mas eu luto desde jovem
por convicção
por paixão
Mesmo quando a dor era física
Mesmo quando eu achei que conseguiria.
E hoje, na minha madureza perpetrada
[de sonhos ceifados e torturados]
por pusilânimes ataques
daqueles que não souberam perder,
sei que estou do lado da História da Democracia da Luta.
Ao sair, deixarei minha marca.
Não começou o fim
A mulher que o mundo masculino nega
vai fazê-lo dormir sob sua sombra nada mãe e nunca gentil.
[Da voz de uma brasileira silenciada e golpeada pelo sim rumo
ao fim da democracia no país - mais uma vez - 18.04.2016]
Mei Oliveira é pesquisadora em Literatura e Cinema, ou flâneur
sem nenhuma propriedade. É professora há 15 anos, por acreditar no poder transformador da Educação e da Arte. Sendo partidária, há 36 anos, do livre pensar, abomina silêncios e recatos. À
Igualdade, ao Amor e à Democracia, ela diz sempre SIM.
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fernandes | paula fábrio | paulo ferraz
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guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
Fui apunhalada.
Um golpe certeiro perfurou minhas entranhas sagradas
Foi a farda, a fala mal dada, a mídia comprada, as maletas
recheadas
Foi o zombar da minha gente, as dores em doses homeopáticas
O retrocesso é fato! Quero mais Freire menos Frota
Quero ver as panelas batidas em varandas gourmets servirem
merenda nas escolas
Como será que um corpo suporta, tanta violência inescrupulosa?
Como é possível dormir com as vozes em minha cabeça de
tantas irmãs mortas?
Nossas almas pedem por socorro num silêncio que ninguém
nota...
ACORDA!!
Corrupção instaurada por uma corja
Fortunas que ninguém descobre de onde brotam, mas é
evidente onde faltam
Senhores em seus altares, disputando egos maiores
Bancada evangélica definindo o futuro de um estado laico?
Democracia ditada por senhores do mato?
Fui apunhalada.
Meu ventre sangra por todas Dandaras abortadas
Minha consciência implora por respostas não dadas
Hoje, a revolta que instaura minhas palavras antes calmas,
Vem pra minimizar a dor perante essa situação tão caótica!
E se com todas essas conversas grampeadas, fatos e provas
legítimas
Não se fizer entender essa manobra política
Voltaremos de vez à Idade das Pedras
Pra fazer valer com as próprias mãos a justiça.
267
Mel Duarte é produtora cultural e poeta. Movida pela arte, utiliza
suas palavras afiadas para lidar com o chicote vida todos os dias.
Está indignada ao ver seu país sendo governado pelos assessores
diretos do diabo que insistem em humilhar seus iguais. A hora é
agora, seguir em luta, guiada pela revolta, pois TEMER jamais!
268
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excertos duma peça suja Ato 1. dezessete de abril
capitão do mato
portando sessentaeoito carregado
espalha no púlpito da câmara
os nomes dos homens da terra
o santo nome, os da parentela
suja as mãos de sangue com a
consciência limpa
pr’encher os vãos da história
de hieróglifos ilegíveis
[os inscritos cravados nas tumbas
obscurantistas do barulho
de tambores ensandecidos
sua boca cheia de sin
não cala o marulho dos nós
detrás da mesa de madeira-de-lei
[O demo - seria?
O demo se ria na cara dos
cavaleirxs-contra-os-moinhos-de-vento
a demo
crash!
ia
Ato 2. a um dia do 13 de maio
Descendo a
rua asséptica
árvores. condomínios. pius em voo
270
[de novo, a voz dos pios [sic]
de povo, mal um piu Pessoas falavam –
network
Cartazes berravam – sale
Na portada do
[mall
O carro de publicidade no meio-fio: lifestyle –
gastronomia. luxo,
Quando fogos de artifício
rangiram a vitória do artíficie
a moça de vassoura em punho
não parou de limpar a calçada
da loja de doces finos
Ato 3. A descoberta do Brasil
[nenhuma escrita substituirá a luta
contudo – todo verso – impulso do ato
, viceversamente.Temer é transitório
pros valentes: preenche:
__________________________________
__________________________________
__________________________________
__________________________________
....]
271
Michele Santos nasceu de inverno na metrópole paulistana e
vive a buscar primaveras nos entremeios do cinza. Escritora, educadora nas redes públicas de ensino de São Paulo, coorganizadora do Coletivo Cultural Sobrenome Liberdade, faz do alumbramento com a palavra matéria para a lida e para a vida. Lançou
Toda via, no último verão. Acredita no que virá. 272
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Patópolis é aqui
nosso deus está lá
na porta do templo
amarelo e inchado de nosso orgulho
Patópolis é aqui
mergulho em apneia
entre as moedas
que escondemos avaramente
Patópolis é aqui
nossas BMW
nossas vacinas contra o mundo
as bundas brancas rebolantes de Pato Donald
o Trump
nosso ídolo, nosso totem quá quá quá
Patópolis é aqui
as crianças mortas sobre a mesa
nosso ódio
o antigo ódio colonial
venham Huguinho, Zezinho, Luizinho
vamos render graças ao velho tio
quá quá quá
274
Micheliny Verunschk é escritora entre a prosa e a poesia. Feminista em tempo integral, acredita na arte de guerrilha, na pedra
da palavra e que golpistas não passarão.
275
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eis que se aproxima
o maior conflito bélico
de todos os tempos
legiões romanas dominam
o colorado e a linha
do front candango se rompe
do alto da torre de tv digital
o inimigo coordena o ataque impiedoso
a queda de brasília é iminente
e mudará o curso da história
tropas nazistas se concentram
na ponte do bragueto
e no balão do aeroporto
dessa vez jan sobieski não virá
salvar a cidade sitiada
(viena que se dane)
galés otomanas ocupam o paranoá
e tomam o alvorada pela retaguarda
guerreiros celtas
explodem o noroeste,
incendeiam parte da asa norte
quem capturar o memorial jk
domina o ponto mais estratégico
da cidade, a tumba do fundador profanada
escondam seus crachás
omitam seus cargos
277
disfarcem a arrogância
arqueiros mongóis
e tanques sioux se posicionam
no parque da cidade
os ministérios carbonizados
a catedral em chamas
a rodoviária: escombros
bombardeios sobre o congresso nacional
o botim de guerra
cobiçado por todos
é o trono presidencial,
incrustado de carimbos
de ouro e clips de prata
é a volta da blitzkrieg asteca
é a volta dos kamikazes tupis
as poderosas muralhas que protegem
o lago sul começam a ruir,
atacadas por aríetes e catapultas
ceilandeses vingativos e desocupados
da periferia se aliam aos rebeldes
o exército de mercenários ingleses
contratado pelo senado
se debanda para o lado inimigo
os deputados distritais
são os primeiros a oferecer
aos invasores cargos de confiança
(desconfiados, todos recusam)
278
cada superquadra organiza
sua própria defesa:
barricadas nas comerciais,
blocos caídos –
a cidade modernista em ruínas,
ensanguentada
(ali é o eixão
ou a via estrutural?
pra que lado fica a asa sul?)
o encouraçado potemkin
direciona seus canhões
para a praça
dos três poderes
que lampião e seu bando
tenham piedade de ti
Nicolas Behr nasceu em Cuiabá, MT, em 1958. Está em Brasília
desde 1974. Poeta, é integrante da geração que tenta dissociar Brasília da ideia de poder, mostrando uma cidade viva, anárquica,
criativa. Acredita no amadurecimento político através da participação popular, como temos visto nos acontecimentos recentes.
279
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Como são bonitos o golpe de vista, o golpe de ar e fazer algo de
golpe. A palavra golpe se ajusta tão bem à instantaneidade, à surpresa e ao ineditismo do gesto, que até parece uma onomatopeia.
Ressoando nela, podemos até ouvir um “gulp”, a palavra antes de
ser entoada, como se nela só houvesse as consoantes “g”, “l” e “p”,
pronunciadas assim, como um susto. Ops, passou, foi um golpe.
Algo aqui soa como um lance, um transe, um galope.
Por outro lado, e de forma inexplicável como quase tudo que
ocorre na língua - esse domínio do mistério - a mesma palavra
soa feia quando usada nas expressões golpe do baú, golpe baixo
e golpe de estado. Nesse caso, ela, ao contrário, passa a soar não
mais como algo súbito, mas como um processo lento, premeditado e calculado para a sabotagem. Como se o golpe final fosse
o coroamento de uma trama urdida lentamente em detrimento
de alguém. Nesses casos, a palavra golpe perde a coincidência
sonora e soa mais como esquema, projeto e manipulação.
São mesmo os golpes que a língua nos dá e que a realidade,
imponderável, dá à língua. Nós, falantes, contemplamos, contestamos, aceitamos e, de vez, em quando, inventamos palavras
novas.
Mas, nesse caso, não há o que inventar.
Foi, só e pobremente, um golpe.
Noemi Jaffe é escritora, professora e crítica literária. Escreveu
Írisz: as orquídeas (Companhia das Letras), Livro dos começos (Cosac
Naify), entre outros.
281
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Odyr desenha e pinta, ocasionalmente forma frases. Mora num
país tropical onde a democracia quase aconteceu. Tem alguma
esperança que um dia, quem sabe.
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Em desacordo
i – Entrevista
– O voto importa para o golpe?
– Sim, pois sem voto, não haveria campanha e, sem campanha,
não teríamos financiadores. Trata-se de números, como em qualquer democracia representativa. Segue-se que somente pessoas
jurídicas têm direitos políticos e, seguindo tecnicamente a gestão
do descarte de sobras humanas, governam por meio de seus periódicos prepostos.
– É verdade que a democracia do país está tendo um caso com
o golpe?
– Acompanhe as notícias deste casal da tevê nas páginas de
política, ou nas de fofoca ou simplesmente nos anúncios dos patrocinadores, sempre a seção mais atualizada.
– Para o golpe, o verde vale?
– Defende a economia verde, isto é, usinas hidrelétricas em
áreas indígenas e a ressignificação de bacias hidrográficas por
meio de rejeitos de mineração. As paredes das usinas serão pintadas de verde, os rejeitos mudam de cor naturalmente com o
tempo, a mudança é o que vale.
– O golpe combate a corrupção?
– Claro, ele soprará sobre ela e com isso encherá arquivamentos, jantares, liminares e outros bonecos infláveis da política.
– O golpe valoriza a política?
– Sim, porque ele a transforma em governabilidade, que tem
um espaço duplo: paraísos fiscais e valas anônimas.
– Segundo o golpe, existe golpe?
– Não existe ar para a própria atmosfera, entende? As águas
nadam a seco.
– O golpe é de direita ou de esquerda?
– O Estado segue em frente, isso basta.
285
ii – Estrutura da federação
Aqui, onde existia
uma perna, passaram
dois tiros da Guarda
Nacional, não passou
a Ambulância Estadual,
ausentou-se a Maca
Municipal
que teria erguido o corpo
antes que agentes de segurança
pisassem sobre o membro
enfim cortado
para que a fazenda se erguesse
em terras ancestrais.
Nesta fossa, soava
o Discurso Presidencial
na vibração das bombas
Estaduais
sobre os corpos
sem a Licença Municipal
de carregarem
nos punhos
as palavras originárias.
Durante o cartaz
rasgado, nova Medida Municipal
de tempo explodindo
os Relógios Estaduais,
o Calendário
Nacional
é sempre da eleição passada,
durante o cartaz rasgado
e roubado
286
das mãos futuras.
No entanto,
Ancestral, Originária, ou seja,
Futura,
a federação
das bocas
a calar
os tiros.
iii – Escuta e delação
Oi Roliço Tudo bem Delícia Olhe sei que tem umas vagas aí para
o meu grupo Ah mas a organizadora é osso duro de roer O que
que a [inaudível] está querendo Ela quer critérios claros e transparentes e o seu grupo não se qualifica Posso qualificar oferecendo vaga na [inaudível] da faculdade tem muito seminário
Mas é muito pouco Eu sei que o pessoal do tribunal pode oferecer
muito mais ajuda de custo que eu mas os eventos da faculdade
são mais divertidos Você não entendeu o trampo Não é tão pouco
hoje seminário amanhã concurso depois de amanhã chefe de departamento é um investimento como tudo na vida Você não entendeu que ela não está interessada em nada disso ela não quer o
seu grupo não se encaixa nos critérios Critério é uma [inaudível]
a função social desta verba é ir para a gente não podemos deixar
o desvio nas mãos dos desonestos Ela acha que por ser uma antologia de poetas de até 30 anos você não se encaixa Eu tenho duas
vezes 30 meu grupo eu mereço o espaço em dobro vamos derrubá-la dizer que ela está desviando o dinheiro oficial Vamos logo
afastá-la ela não quis me incluir só porque estou organizando
também e tenho uma idade [inaudível] A gente pode ser criativo e
dizer que o governo não pode fazer propaganda de opção sexual
Boa ideia os progressistas nos ajudam a antologia vai calçar 36
Quanto mesmo estão pagando pela participação nesta [inaudí-
287
vel] [inaudível] Ah rejubilar-me-ei com a porcentagem sobre cada
um do meu grupo isto começa a me soar poesia
iv – Alarido
Impasse no passo impedido pelo Internacionalistas em prol do
governo que atacou o sistema internacional de direitos Rápido e
ríspido raio que O estupro pauta a política na aliança entre a bala
e a bíblia A bomba abrindo as bocas da Os sem-terra de mãos dadas
com as longas unhas do latifúndio Vento avante o vórtice Queimar
favelas o requisito para se esquentar com a cidade e suas verbas Sussurro insidioso dos ossos sob os Corrupção é tudo igual para liderar o governo o homicídio é o diferencial Patinhos pisando a praça
pagando o pato dos pactos aparelhados Aplaudiu o massacre de
jovens negros premiado com o palácio e negros jovens que lhe baterão
continência Impasse na pauta do raio A merenda furtada quem
diria alimentou as festas da justiça Sussurro no vórtice da bomba
A aliança entre o boi e o banco deputados que mugem executivos que
pastam política Avante o impedimento da praça E se o governo só
for isto mesmo a administração de quem cairá amanhã rindo loucamente dos corpos que lhe amortecerão a queda só for isto mesmo
a fratura dos discursos a osteoporose do público só for o consenso do
protesto com a lápide
– em desacordo todas as palavras são políticas –
Pádua Fernandes é autor, entre outros livros, de Cidadania da
bomba e Cálcio, ambos contrários às continuidades do autoritarismo no Brasil e, em especial, aos golpes repetidamente sofridos
pelos povos indígenas.
288
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Como dizia o Barão de Itararé, de onde menos se espera, daí é
que não sai nada.
Por essa razão, as ruas devem ser ouvidas: áudios verídicos,
vazados na mente acovardada e melancólica da escritora.
Cena 1
Externa – manhã, céu encoberto.
(quando: dia da direção coercitiva do Lula)
(onde: avenida Paulista, SP)
(áudio: trilha sonora de rojões, fogos de artifício, buzinas de
automóveis)
(plano de fundo: carros passam, aceleram; no canteiro da avenida, um homem gordo, vestido com roupa social, agita seu corpanzil, frenético, e sacode raivoso, para o alto, o mais alto que
pode, uma cartolina: Fora Lulla, Fora PT)
(diálogo/monólogo que se escuta ao pé da faixa de pedestres)
Senhora x: “Tudo isso porque o Lula morreu”
Senhora y: “Por essas e outras que vou votar no Eduardo
Cunha para a prefeitura”
Cena 2
Interna – noite
(quando: domingo pós-afastamento da presidenta [presidenta
com a, acesse sempre um dicionário])
(onde: shopping em SP)
(imagem: abre-se o elevador, piso três, vemos a loja de departamentos com as portas semiabertas).
(áudio: os vendedores, lá de dentro, dão seu grito de guerra,
de entusiasmo, o coro ditado pela estratégia de marketing; segundos antes de iniciarem mais um domingo da crise financiada
pela mídia).
290
(diálogo/monólogo que se escuta de olhos baixos, todos nós
acossados, no fundo da caixa do elevador).
Senhora z, após ouvir os gritos, enerva-se, gira o pescoço à
esquerda e à direita, sua impaciência não vê a loja, tampouco a
reunião dos vendedores. Com o rosto deformado pela careta, dirige-se a mim, justo a mim, e espuma: “O quê? Agora trouxeram
as manifestações para dentro do shopping? Esses vagabundos.
Que coisa mais sem vergonha. Era só o que faltava, invadirem
este nosso espaço! ”
Senhor k toma seu braço: “Por isso eu vou comprar a Veja, eles
falam de todas essas pegadinhas que estão fazendo com a gente. ”
Cena 3
Interna – noite
(quando: primeiro dia pós-colóquio mui decoroso entre Machado e Jucá).
(onde: praça de alimentação, shopping novamente).
(cinto fivelão, carteirão na mão, músculos trabalhados, sabe
muito, muito sobre tudo. Está bem certo disso. Bem certo. Aponta
o dedo para o rapazote que o escuta sem parar).
“... embolsou dois milhões com a lei ruanê, dois milhões! ” Catou a chave da Tucson sobre a mesa: “Por isso eu não vou ao show
da Preta Gil, só ouço Claudia Leite, no spotfai, meurmão”. Levantou, não era tão novo, já devia estar nos quarenta; arrematou: “O
Brasil precisa de pulso firme, de um paizão”.
Sem comentários. Não. Nunca leia a caixa de comentários.
Paula Fábrio é escritora, possivelmente vagabunda, insubmissa,
descontente. Em luta constante pela cultura e pela educação. Pergunta, a todo o momento, por que rasgaram seu título de eleitora.
291
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para não esquecer – nº 3
– contra os golpistas de ontem e de hoje
Com essa sacava o 38,
tinha sempre seis projéteis
ungidos em sacros óleos
pelo arcebispo; com a aquela
manejava o cassetete
como quem brinca de espada –
lembrança da criança antiga
que surrava os empregados,
o avô contara que o mesmo
dava aos pretos: um tantinho
de educação. São as mesmas
mãos frágeis que hoje só sabem
afetos, as mesmas mãos que
viris asfixiavam hoje alisam cabelos (as mesmas
mãos – basta que seus netinhos
escarafunchem nos vãos dos
dedos, debaixo das unhas,
ali descobrirão sangue
gravado que a senectude
não apaga). Não se assustem,
meninos, o vovô só lhes
dava um cascudo, um tantinho
de educação. Pronto, agora
todo mundo pra caminha.
Paulo Ferraz é poeta e por dez anos viveu numa ditadura militar
apoiada pela imprensa, pelos empresários, pelos banqueiros e
pela OAB... Até parece que nasci hoje.
293
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Contra seu ventre, nascemos...
(Poema em voz alta para ser lido nas vigílias
em defesa da Democracia)
i.
Armazém das Utopias. Cais do porto.
Descrevemos uma larga parábola
como se desenhássemos a cartografia
de um improvável regresso
ao que fomos um dia (e já não somos)
ao largar do porto de partida:
um chão de fábrica,
um remoto campo de futebol.
Aqui estamos num verão tardio
sobre esse chão castigado por séculos de suor.
Salgado pelos pés de negros e estivadores.
Os rostos marcados por tantas batalhas.
E essa luz de estrelas,
talvez extintas,
nos fere os olhos e o coração, mais uma vez.
Envolvido pela algaravia das vozes,
pelo calor dos corpos,
esperanças e enganos que me cercam,
teço com os dedos do espírito,
num relâmpago,
como na tela plana de um computador,
essa íntima geografia de tempo e silêncio
por onde miro as sólidas estruturas de ferro,
tijolo
e sonhos
que nos abrigam, por um momento,
da ferocidade dos inimigos.
Contemplo a fria lâmina dos ódios
que desatamos.
Temperada por séculos no fogo lento
dos banguês, das caldeiras
desse engenho tropical de mando
movido à surda força de espora e rebenque
e penso:
como podemos esperar um ato
de contenção ou respeito
da mão que nos desce o látego
sobre o lombo em carne viva?
E maneja a lâmina, de golpe,
contra a cabeça que se levanta?
A mesma mão guiada pela fúria
de quem dia após dia,
por vergonha,
desejou nos encarcerar no ventre?
E nos negar a luz e o ar que respiramos?
E nos calar a voz e interditar o gesto?
Essa ibérica senhora coberta de rendas,
e arrogância,
habitante do solar da Casa Grande
para quem nunca deveríamos ter nascido?
E saber que apesar dela nascemos...
Contra seu ventre, nascemos...
renascemos todos os dias,
296
como se fôramos uma vingança da vida,
com outra luz, que ilude o cerco da sombra,
e acende aqui uma nova face,
outra estrela recolhida
no estoque infinito das utopias,
renascemos...
ii.
Que a cidade possa nos ouvir
desde o Cais do Valongo.
Que o país possa nos ouvir
pela voz sobrevivente de João Cândido
um dia enterrado em cal virgem.
Renasce aqui o rumor das ruas
entre a canção e o grito
que se desata de dentro das veias
para alcançar os ouvidos da multidão
anestesiados pela Hidra de Lerna
ou do Jardim Botânico? Pergunto.
Será esse o lugar
onde viemos beber canções
pisadas pelos pés de negros,
guiados pela batida dos tamborins,
que se ouvem nos becos da Lapa,
nos morros da Providência e da Conceição
para retomar a marcha?
Aprendemos nos Pelourinhos
que não se palmilha
desertos tão vastos, sem recuos.
Sem erros na rota que traçamos
e o vento varreu do areal durante a noite.
297
Sem traições, desvios, vilanias.
Sem as perdas de muitos
que a tempestade apartou de nós.
Sei, desde tempos subterrâneos,
que não estão vendados os olhos da Justiça.
Que Justiça pode fazer a justiça de uma só face?
Que Justiça pode fazer a justiça de classe?
Mira com um olho só
a justiça dos meninos de granja.
Invocamos nossos santos e orixás,
nossos combatentes e sua memória
para redesenhar o percurso.
Repercute no peito o som do surdo.
Ecoa a cadência de um samba antigo,
sempre novo, para alimentar esse delírio
que nos assalta a medula:
fomos condenados à liberdade.
Seguiremos proscritos
por uma ordem sem remédio.
Alimentados pela voz rouca do peão
que não se dobra ao açoite.
Devo curvar-me até ao chão
para recolher os estilhaços da estrela,
a palavra e o sal
que sustentam nossas dúvidas
e nossas certezas:
não seremos expulsos do tempo
que nos coube viver.
Contemplo vigas, tijolos, palavras.
Os rostos. Os corações abertos.
As cores, os abraços. As lágrimas.
298
Os olhos das pessoas inundados
pelo sublime veneno da esperança.
Estamos de pé,
para retomar a marcha interrompida.
Agora é a vigília.
Agora é a rua, a praça, os becos, os morros, os cais, os corações.
O chão da fábrica, o assédio à cerca do latifúndio.
As escolas ocupadas pelos que nasceram depois de nós.
A guerrilha digital contra a acidez do ódio
que sonha dissolver a invencível alegria de nossa gente.
Acreditem, os sonhos do ódio, não vingam.
Rio, 27/02/2016
Brasília, 10/03/2016
Pedro Tierra nasceu no Tocantins em 1948. Quando publicou
seus primeiros textos quem se interessou não foram os críticos
literários, foi o delegado de polícia. O primeiro livro, Poemas do
Povo da Noite, foi escrito durante os cinco anos de prisão que
cumpriu nos períodos Médici/Geisel e traz como epígrafe: “Há
os que vivem lamentando a opressão, eu viverei denunciando-a”
(Babeuf). Ela dá sentido ao que escrevo.
299
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O terror
o terror
o terror do estado
o terror
o terror fardado
o terror
o terror invade a tua casa
o terror de terno e gravata exclamando bordão
o terror nas manchetes de jornal
o terror em muros grades estacas de edifícios
o terror habitando mansões
o terror assombrando a multidão
o terror
o terror promove chacinas genocídios
o terror trancafia o bem no cofre dos peitos
o terror justifica o terror
o terror lincha culpados e inocentes
o terror está armado de argumentos
o terror quer te convencer que é inocente
o terror é um homem de bem
o terror
o terror sangrando os dentes
o terror em comentários de portais
o terror misturado no arroz feijão
o terror pra nos manter calados
o terror reformatando as almas
o terror organizando as filas
o terror levando pras prisões
o terror
o terror estampado nas vitrines
o terror em 30 segundos comerciais
o terror sufocando o teu ar
o terror te vê do alto de arranha-céus
o terror faz sombra nos mendigos
301
o terror não gosta de crianças
o terror
o terror
o terror
o terror vai estar lhe transferindo
o terror cochila às sextas-feiras
o terror não dorme nunca
o terror não te deixa dormir
o terror vende os teus rivotris
o terror é alucinógeno
o terror come teu fígado
o terror ainda vai te matar
Pedro Tostes guerrilha com as palavras há 20 primaveras de luta.
Mais famoso por seus entreveros com a lei do que pela eficácia
da lira.
302
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pertencimento: leitura de mundo
Novas Perspectivas frente ao golpe no Brasil
O problema social no Brasil é um problema de leitura. Não apenas a leitura do livro, mas da notícia, da mensagem midiática,
dos acontecimentos, a leitura de mundo. A apreensão do narrado
se dá entre a história visível e a subjacente, a que se revela nos
interstícios da história. O que há por trás da notícia?
Quando, por exemplo, um taxista diz: “Também acho um absurdo esse abuso cometido pela polícia militar que mata indiscriminadamente os jovens universitários e é por isso que sou a
favor da intervenção militar no Brasil” podemos sugerir que esse
sujeito não possui leitura de mundo. Ele liga dois pensamentos
excludentes e, portanto, ilógicos. Isso não é um raciocínio dialético, é inabilidade crítica. Quando um grupo de pessoas se une
nas ruas para pedir a intervenção militar no Brasil, será que esse
mesmo grupo tem conhecimento das consequências nefastas
que tal exigência implica em suas próprias vidas?
A grande mídia orquestrou o golpe e assim, conseguiu afastar
do ministério mulheres, negros e gays, além de diminuir vários
programas sociais que alavancaram o surgimento de uma nova
geração periférica dentro das universidades. Deputados comprovadamente corruptos tiraram uma presidente do cargo sem
prova de crime de responsabilidade.
Acusar, denegrir e punir não deve vir antes da comprovação
da inocência. Se a inocência é negligenciada pela punição imediata, será que há uma leitura dos fatos correta ou apenas desejo
de punição e castigo? O problema social do Brasil é um problema
de leitura. E para que a mudança ocorra é necessário haver uma
real problematização sobre o que se vê e o que se lê. Nunca se viu
tanto, nunca se leu tanto. E nunca se compreendeu tão pouco. O
discurso TFP (Tradição, Família e Propriedade) que inunda hoje o
país, asfixiando qualquer singularidade, comprova uma cegueira
generalizada. A leitura de mundo pode ser o ato revolucionário
deste milênio se existir por trás a necessidade de aprofundar
304
quais são as reais causas que impedem a tolerância e o convívio
social com a pluralidade e a diferença.
Os Felicianos anseiam pela falta de pensamento próprio, pela
falta de imaginação, que na verdade é justamente a única forma
de desvendar a realidade que nos cerceia. Eles querem tirar de nós o espanto.
Não se arranca a alma com intervenções militares.
Com canhões.
Com discursos autoritários.
Lutaremos até o fim pelo direito à nossa identidade (com alteridade). Porque a noção de pertencimento nasce da cultura.
Priscila Gontijo é carioca, radicada em São Paulo. É dramaturga,
roteirista, licenciada em Letras Português/Francês pela PUC/SP
e artista-orientadora de teatro do Programa Vocacional da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de SP. Filha de jornalistas,
conviveu desde criança com militantes de movimentos sociais e
figuras como Henfil e Frei Betto, que a incentivaram a acreditar
no contato direto com os movimentos nos quais os pobres se organizam e lutam por seus direitos. É contra o golpe, a favor da
democracia e luta contra o machismo, a misoginia e pelo fim da
cultura do estupro. E a favor da volta de Dilma ao poder.
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não é nada demais
As pessoas só estão assustadas
não houve tempo e você sabe
as cenas se desenrolam sem um ensaio
sem sequer um roteiro
as pessoas pegam o que têm à mão
se você olha de longe pode perceber o medo
e o em si mesmo curiosamente animal das pessoas
Dirceu Villa – As pessoas só estão assustadas
não é nada demais
nós só estamos assustados
hoje
se fizer frio e se chover ao mesmo tempo e por causa disso
só por causa disso não pudermos sair de casa
nós só estamos assustados
quando chegamos tarde da noite cansados e acendemos
todas as luzes da casa nós só estamos assustados
ao pedir para o garçom que nos troque de mesa ou os talheres
por algo mais confortável só estamos assustados
com os olhos pregados na embalagem de um alimento matinal
que vem pronto nós olhamos assustados para os gatos à noite
havíamos imitado os gatos à noite
à noite quando olhamos bem assustados para os olhos de alguém
e repetimos aquelas frases que escolhemos para declarar
nosso amor que pode bem ser amor verdadeiro como os tais
girassóis de Van Gogh
para os quais nós também nós já olhamos assustados
nós só estamos assustados e falamos o tempo todo
de jogos de gato e rato e esperamos o tempo
de olharmos em volta como o gato, nós somos os ratos nós
só estamos assustados como quando começa o carnaval
e sabemos que se chove ou não
sempre nos sobra alguma coisa porque
307
todas as ruas são becos e
todos os becos são avenidas intermináveis
nós só estamos assustados mesmo quando você volta atrás e
decide
que agora sim vai me seguir embora não esteja clara a diferença
entre amor e adoração para que eu te siga também
e também assustado lhe digo que procuro
a um bairro industrial antigo quando passo pela praça
em frente de onde você mora e
penso que se me visse agora
ou não me reconhecia ou ficava muito surpresa
nós só estamos assustados lado a lado pensando tratar de outro
assunto nós estamos ficando assustados porque digo a você
quero vê-la mesmo assim nós só estamos
assustados querida nós dormimos assustados nos braços
um do outro e acordamos ainda assustados
nos braços um do outro quando é tarde da noite e
passamos o dia todo em claro estamos mesmo muito assustados
assustados quando olhamos para o calendário e nos parece ver
ali outro futuro que não este a que estamos condenados
ficamos mais assustados nosso futuro ainda
não estava no calendário quer dizer que ainda
não estamos com os dias contados nós só estamos vivendo
numa época em que chamam luz à escuridão e
embora minha língua esteja morta
suas formas me enchem a cabeça nós só estamos vivendo
num período cujo nome não sabemos e
embora seja o medo o que me move meu
coração está parando nós só estamos assustados
quando vendemos nosso carro muito barato quando compramos
outro carro mais caro nós só estamos assustados
quando vendemos nosso carro por uma bicicleta porque nossos
filhos terão de esperar tempos melhores para nascer
nós só estamos assustados mas não chegue tão não chegue perto
talvez não seja tempo ainda de se dizer que nós só estamos
assustados
Rafael Rocha Daud é poeta e psicanalista; teme o ridículo, teme o
cansaço, teme o precisar de esperanças, mas teme acima de tudo
o governo do medo, assim chamado o inevitável.
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quando você olhar pra essas pernas
saiba que são pernas de ciranda
pernas que marcham e que dançam
pernas que enfrentam homens armados
pernas que se entrelaçam
com outras pernas
pernas pernas pernas
pernas de luta e de festa
pernas de explorar o palco
pernas parecidas com as suas
pernas estendidas na rua
pernas doídas de correr atrás do ônibus
pernas que derrubam as suas
pernas pernas pernas
quando olhar pra essas pernas
saiba que elas são minhas
e não suas
Regina Azevedo é natalense nascida em 2000. Poeta, militante,
sente uma forte dor de barriga ao ver seu país entregue a ratos
de terno e gravata. Ela se recusa a desistir e um dos seus meios
de resistência é a poesia.
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uma manobra
política a portas
fechadas (grossas cortinas,
verniz da impostura),
no grande teatro,
um homem – tão homem
e velho e branco –
prepara mais um
discurso de posse.
sua fala precisa (gravata
alinhada) explana a si
mesma
e a seus pares
as medidas necessárias
para o grand finale.
ele quer e acredita
pôr tudo
nos trilhos, construir
uma ponte, pôr ordem
na casa: seus atores,
no palco, com seus
ritos legais, com seus
gestos certeiros
no xadrez do
mercado,
repetem o bordão não
me inveje, trabalhe.
mas um NÃO (movimento
com tantas mil
faces)
no meio da rua
interrompe seu pacto.
(contra a farsa, queima o fogo
das legiões – e somos muitos)
Renan Nuernberger (São Paulo, 1986) é poeta. Embora se entristeça com a política institucional e suas manobras, reencontra
alegria na força renovadora dos movimentos sociais que, de
diversas maneiras, enfrentam a rígida ordem vigente. No momento, está organizando um livro, Luto, cujo título quer ser lido
não como substantivo, mas como verbo.
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Teve Copa. E teve golpe.
No Brasil, em 2014, teve copa. Fui contra desde antes do 7x1.
Nunca gostei do futebol, um esporte que frequentou compulsoriamente minha infância, mais como pedágio da violência
simbólica de uma sociabilidade masculina forçada do que como
vontade sincera de correr atrás da bola. Mas não é só. Também
estava contra porque achava que a Copa encarnava o megaevento da exclusão e representava a velha exceção brasileira potencializada na grande escala, sem falar naquela empolgação
verde-amarela desbotada de quem berrava ofensas como “vagabunda” e “puta” para a presidenta no estádio. “Ei, Dilma, vai
tomar no cu” era o grito torcido que ecoava das bocas das pessoas brancas, repletas de dentes bem clareados e alinhados, enfim, daqueles nossos velhos conhecidos “cidadãos de bem” que
tinham dinheiro de sobra - ou ao menos suficiente - para pagar
um salário mínimo por um lugarzinho naquela abertura de cafonice estética ímpar.
Enquanto isso, no mesmo horário, eu estava na manifestação
do “Não vai ter Copa”, não tão longe do Itaquerão. Fazíamos um
protesto pacífico na margem da Avenida Radial Leste, perto do
Tatuapé, caminho por onde passavam os carros oficiais e de passeio rumo àquela grande festa. Enquanto uns tocavam vuvuzelas
e xingavam a presidenta lá, aqui nós ganhávamos bombas de gás,
balas de borracha, spray de pimenta, porrada de todos os lados.
A única saída foi o refúgio dentro da quadra do Sindicato dos
Metroviários, que nos abrigou enquanto cavalos, viaturas, tropas
de choque, helicópteros nos sitiavam do lado de fora. A polícia
é estadual, mas a ordem e a lei eram determinação federal. Por
isso, eu também estava revoltado com Dilma, desde antes do 7x1.
Mas por outras razões.
Ali, acuado diante da iminência de uma invasão violenta, o
espaço pelas “forças de segurança”, sem ter pra onde correr, em
um momento algo epifânico, enxerguei o que já era evidente: nós
perdemos.
316
Perdeu o time brasileiro de 7x1. Perdia Dilma que se reelegeu
ao final daquele ano com promessas às esquerdas e fazendo um
governo cada vez mais rendido às direitas até seu vice conspirar
e tomar seu lugar. Perderam o senso de alteridade e de respeito
aqueles que faziam panelaços com xingamentos machistas a
cada pronunciamento da presidenta na televisão. Perdeu-se a
dignidade com gente nas ruas pedindo volta de uma ditadura.
Perdemos nós, que fomos golpeados pelo autoritarismo deles e
por erros nossos.
No fim, teve Copa. E logo teve golpe. E, em meio ao golpe,
ainda vai ter Olimpíadas. Mas a sorte é que ainda não perdemos
a história e a oportunidade de estar do lado certo nessa disputa.
Renan Quinalha é um ativista dos direitos humanos que tem
certeza de que é um golpe contra nossas liberdades. E também
de que é preciso resistir com todas as boas armas: pedras, noite
e poemas.
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etimologias
golpe de sorte vai bem
golpe de ar às vezes resfria
golpe de mestre nem sempre ensina
ippon é o golpe preciso
mas quando golpe
vem de traição conchavo maracutaia
vira golpe baixo golpe sujo
golpe de Estado
que serve para sitiar
cidadão democracia esperança
golpe que também é trapaça
para burlar a lei
garantir privilégios
manter os poderes do usurpador
a gula do capital o ódio fascista
contra tudo o que pode ser
libertário luta libido
arruaça praça canção
pedra noite poema
esse golpe tramado
mais abaixo do subterrâneo
provoca náusea e
medo dos ditadores
de sua abominável sombra
onde flores medrosas
morrem
Reynaldo Damazio nasceu às vésperas do golpe militar de 1964,
numa família pequeno-burguesa; começou a escrever poemas
(ruins) e peças de teatro na adolescência; formou-se em sociologia e sempre trabalhou com livros e literatura, mais por teimosia
que competência. Ainda se considera de esquerda e costuma ver
o mundo sob uma perspectiva rebelde.
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do fundamentalismo de um lar
mariazinha cresceu
em uma casa bem família
com pai de família
na patente mais alta
bem cidadão de bem
firmemente orientada
a ser mulher extremamente
direita
docilmente
pela voz materna domesticada
seja vaso e escrava
mais nada
mais ou menos
quando deixava de ser menina
se percebeu
gostando de meninas
a mulher que nela se precipitava
divagou sobre as reações
do tal lá do patente alta
algumas gravadas no espelho
por vezes em segredo
negado
rosto de mãe
trincado pela mão de macho
no quarto sozinha
enquanto a corda terminava de estrangulá-la
seu último sopro aliviou
321
já nem mulher nem menina
passa agora
a mais nada
e desabitou a casa
Ricardo Escudeiro é poeta e vive em Santo André/SP. Cresceu e
trabalhou com metalúrgicos. Com alguns deles aprendeu a não
crer em discurso de patrão e procurar a transgressão.
322
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mathias | letícia novaes | lilian aquino
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luiz ruffato | luiza romão | maeve jinkings |
maiara gouveia | maíra mendes galvão | manoel
herzog | manoel quitério | manu maltez |
marcelino freire | marcelo ariel | márcia
denser | marcia tiburi | marcílio godoi |
marco dutra | marcos gomes | marcos siscar |
maria clara escobar | maria giulia pinheiro
| mariano marovatto | meire oliveira | mel
duarte | michele santos | micheliny verunschk
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fernandes | paula fábrio | paulo ferraz
| pedro tierra | pedro tostes | priscila
gontijo | rafael rocha daud | regina azevedo |
renan nuernberger | renan quinalha | reynaldo
damazio | ricardo escudeiro | ricardo lisias
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guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
história (às vezes oral) do tempo presente
Parei na calçada agora cedo para esperar o farol fechar. Dois garis conversavam perto de mim, aparentemente tranquilos. Ouvi
a frase de um deles:
– Se essa menina tivesse um macho que nem eu em casa, não
precisaria ser estuprada por trinta.
*
A Universidade de Oxford está organizando um evento acadêmico
de grandes proporções para discutir a situação política brasileira
e os caminhos para superarmos a dicotomia. (O título do evento
é “Transcendig the dichotomy”.) São 17 convidados. Entre eles, 2
mulheres. Todos brancos. Posso citar alguns nomes: Persio Arida,
Celso Amorim, Luis Roberto Barroso e o impagável Luis Felipe
Pondé. Não convidaram nem um artista, ninguém dos movimentos sociais e, repito, nem um negro. Quase todo mundo de direita.
*
Vi que os lucros dos bancos continuam crescendo. O Congresso
Nacional está estudando o perdão à dívida dos convênios médicos.
*
Estou na fila do caixa do Fran´s Café da Haddock Lobo. Duas meninas estão namorando em uma mesa à direita. Na minha frente,
um casal um pouco mais velho que eu conversa:
– Antes do PT, isso não acontecia.
– É culpa da Marta Suplicy. Se ela não tivesse no poder não
teriam coragem.
– E aqui em São Paulo temos que aguentar o marido dela de
prefeito.
– Só sabe fazer ciclovia.
324
*
O principal executivo do Bradesco, de sobrenome Trabuco, foi
indiciado ontem pela polícia Federal, acusado de corrupção em
um tribunal que julga questões tributárias.
*
Um menino com uma caixa de engraxate me pediu agora há
pouco na fila do supermercado para eu comprar três latinhas
de graxa para ele trabalhar. Eu coloquei as latinhas no meio das
minhas poucas compras e o menino saiu para me esperar lá fora.
Uma senhora então se virou e disse que eu não devia gastar dinheiro com esses vagabundos.
*
Jorge Coli publicou um artigo na Folha de S. Paulo afirmando que
o ambiente da performance contemporânea é frívolo.
*
Na esquina ali atrás, ao lado do banco, sempre fica um rapaz de
uns 16 anos vendendo chocolate. Todo mundo daqui o conhece.
Hoje, um homem subia a rua bem na minha frente, quando
o rapaz se voltou para ele e estendeu a caixa de chocolate
(Charge). Na hora o cara deu um pulo para trás, estendeu as
mãos e atravessou a rua correndo, quase foi atropelado. Ouvi
o que ele disse:
– Não me assalta!
O vendedor ambulante respondeu:
– Tio, o senhor só pode me chamar de ladrão depois que eu te
roubar, não antes.
Aconteceu há 20 minutos em uma esquina de Moema, em São
Paulo.
325
*
Tuíte de uma pessoa chamada Rodrigo Constantino:
*
Fiz uma palestra-performance ontem no Departamento de Filosofia da Unicamp. Fiquei em Barão Geraldo com a intenção de,
hoje, tomar um café com o Leonardo e depois voltar para São
Paulo no ônibus que sai do campus às 13 horas. Descobri agora
que por conta da paralisação só teremos o carro das 17 horas.
Estou almoçando um yakissoba no Ciclo Básico. Passaram duas
mulheres ao meu lado agora há pouco e uma disse para a outra
que a sua vontade é de cortar o pinto dele.
Ricardo Lísias publicou sete livros, tem quarenta anos, e sua mãe
achava que ele nunca iria assistir a um golpe de estado.
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herzog | manoel quitério | manu maltez |
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denser | marcia tiburi | marcílio godoi |
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duarte | michele santos | micheliny verunschk
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renan nuernberger | renan quinalha | reynaldo
damazio | ricardo escudeiro | ricardo lisias
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aeroplano | tatiana salem levy | thelma
guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
Vazem, demônios
Flecha que partiu
beijo que traiu
nude que mandou
panela que bateu
fofoca que fedeu
espelho que trincou
pasta de dente que saiu
presidente que mentiu
– porra nenhuma volta atrás
Vazem, demônios
das ruas aos palácios
Lavem, hormônios
cus, bucetas e caralhos
Queimem os patrimônios
derrubem os armários
fumem o Deuteronômio
– se tudo virou adversário
só a putaria total salva o Brasil
Ronaldo Bressane (São Paulo, 1970) é poeta, ficcionista, jornalista e quer eleições gerais já.
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Legalidade jurídica
Golpe é uma palavra muito forte. Eu não sou golpista. Eu não tinha
como saber que você estava falando sério quando disse não, eu
achei que você também queria, vai dizer que você não estava gostando nem um pouquinho? Você brava fica tão bonita, minha
querida presta atenção, eu não tinha como saber, você é uma vagabunda adora essas coisas como eu ia adivinhar que não queria?
Achei que estivesse se fazendo de difícil, resistindo um pouquinho,
feminista adora já falei que não foi golpe. Eu fiz tudo por você e não
precisa gritar, achei que você ia acabar gostando e foi tudo culpa
sua, se tivesse cedido logo não ia ter sangrado tanto, eu não tinha
como saber que você não queria. Não foi golpe, sua puta, também
não precisa falar assim, você provocou, ficou falando que ia resistir
até o final e eu achei que você queria, vai dizer que sua carne não é
minha? Eu não sou golpista, no fundo você gosta disso tudo que eu
sei sua puta, você adora dizer que não e ficar toda sofrida você devia
me agradecer por tudo que eu faço por você. Eu só estava brincando,
poxa, como eu ia saber que você não tem senso de humor? Eu peço
desculpas, mas só se você renunciar. Anda, querida. Não é golpe
se a gente se ama.
Sheyla Smanioto é escritora puta da vida e pronta pra luta. Reside na periferia de São Paulo, tem 26 anos e habita um corpo
assombrado por mil mulheres.
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Shiko é paraibano, faz quadrinhos, ilustrações, graffiti e cinema.
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Inteiro teor dELA
ELA foi despertada por grunhidos de ratos e pela angústia vivendo
dentro do seu estômago devido aos tempos de constante bruma
onde a direita tentou dia após dia imperar e atrasar os rumos do
Brasil. Enquanto os ratos insistiam em se debaterem e proliferarem abaixo de seus pés no porão da casa onde vive há pouco mais
de quatro anos. A certeza de não fugir à luta crescia, precisava
levantar, pegar a vassoura e varrê-los dali o quanto antes. Ao chegar na cozinha, ligou seu pequeno radinho de pilha
para tentar distrair a cabeça. Entre canções, o locutor anunciava
um golpe de estado em tom de vitória, distorcendo o fim da democracia e o estupro de uma Constituição como algo positivo.
Aquilo tudo era irritante por demais, afinal sentia dentro de si
o quanto rechaçava toda e qualquer manipulação da mídia em
desfavor de um governo democraticamente eleito. Tomou um gole de café e abriu o jornal, as manchetes eram
angustiantes. ELA pegou uma caneta pilot preta e começou a rasurar uma notícia, ocultando dela frases tão cheias de mentiras
onde se lia claramente uma direita manipuladora, interessada
apenas em destruir e mascarar tudo que havia sido construído
pelo governo nos últimos anos. Extraiu dali o que percebeu ser
um poema-protesto e o inteiro teor dos seus sentimentos tão golpeados nos últimos tempos. Seu despertador apitou, precisava
sair - era dia de ato no país. Foi então que se lembrou que antes
de ir para as ruas ainda havia ratos interinos para serem retirados do porão e varridos para fora da casa.
335
Stefanni Marion um dia encontrou dentro de sua caixa de correios uma pequenina bandeira vermelha. Sem remetente, sem
envelope, estava lá vibrante misturada às cartas e contas para
pagar. Sorriu, enfaixou-a no pulso feito um cordão umbilical e
levou-a para morar com ele. Hoje ela é sua alma.
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Sobre barcos bêbados e trens desgovernados
Perdemos muito nos últimos meses. A cada semana que passou
perdemos mais. A cada um dos últimos dias perdemos mais intensamente. E é bem provável que amanhã e depois seja ainda
mais veloz nossa derrota. Não é exagero, não é drama nem
charminho. Aliás, seria bem tranquilo poder ficar aqui vendo
a composição e as decisões do governo provisório-mas-definitivo e dando risada de quem apostou nas melhorias que viriam
com o golpe. Mas não dá. Nem tem lugar para “eu te disse”, para
escarnecer de quem dizia “fora corruptos” ou “tchau querida”.
O barco é e sempre foi um só: não dá para rir de quem achou
que seria legal vê-lo afundar, enquanto afundamos junto. Estamos assistindo ao desmanche dos frágeis pilares de um país
melhor: os melhores horizontes da Constituição estão sob ataque, o (pouco) que há de mais democrático nas instituições está
sob ataque, as ideias mais interessantes estão sob ataque. Não
sei dizer o quanto disso tudo é irreversível, caso o processo se
reverta ou, quem sabe, surjam outras forças políticas à esquerda,
porque a vida política às vezes é surpreendente. Mesmo os mais
atentos observadores da política brasileira estão em sobressalto,
surpresos com as voltas e reviravoltas dos últimos meses, principalmente pela constatação diária de que tudo aquilo que havia
para não deixar tudo aqui ser ainda pior é bem mais frágil do que
costumavam afirmar. Ninguém mais se arrisca a dizer “não vai
passar, porque a Constituição proíbe”, ninguém mais tem muita
convicção quando diz “o Judiciário vai barrar com base na lei”,
todos hesitam quando dizem “eu tenho direito”. Está tudo suspenso, estão todos surpresos. Perplexos. Você dorme imaginando
que o trem vai para um lado e acorda vendo a máquina sumir na
direção contrária. O desespero nos faz arriscar ou acreditar nas
previsões mais variadas, mas é só desespero. Fizemos de tudo
pela governabilidade e acabamos escorregando para fora de
qualquer normalidade – o Brasil de hoje é um país desamarrado.
Se as coisas por aqui nunca foram fáceis, se o país real nunca en-
338
tregou o “país do futuro” que esperamos, a hora agora me parece
ainda mais aterradora. Há tempos me dedico a defender que, por
mais que os grandes males do país se devam à parte que cumprimos no capitalismo, há instrumentos no direito que podem ao
menos ajudar a resistir na esfera local e preparar para lutas mais
amplas contra a lógica do capital. Ver agora tais instrumentos
escorrerem entre os dedos é uma forma bem dolorosa de perceber que a luta por um país melhor se tornou mais difícil ainda. É
desse retrocesso que estamos falando.
UM PAÍS A TEMER
Presidência Salvo-Conduto
Vice-Presidência Roleta-Russa
Ministério do Planejamento de Fuga
Ministério da Defesa Criminal
Ministério da Intransparência
Ministério da Desfazenda e Antiprevidência
Ministério da Deseducação
Ministério da Saúde para Quem Pagar
Ministério da Agricultura Gourmet
Miniministério da Cultura
Ministério do Trabalho Precário
Ministério das Submissões Exteriores
Tarso de Melo nasceu em 1976 e não sabia que, então, seu país
vivia sob um golpe, muito menos que, 40 anos e um pouquinho
de democracia depois, estaria na mesma situação.
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ergue mais um arranha céu
no coração da cidade
em meio às sinagogas
no lugar de um antigo batalhão
ergue mais um arranha céu
no coração da cidade
com a bênção da igreja
destruindo um antigo quarteirão
tira a criança no braço
bota essa escola abaixo
mete um prédio no alvo
desse megacondomínio
sampa judaico cristão
a meninada deu lição
de história
resistiu
ocupou
encantou
não adiantou
truculência
não adiantou
força bruta
não adiantou
a violência desse estado
velho e decadente
fernão dias vaza
fernão dias
bandeirantes desprestígio
fechou caminho
341
fogo na mata
faca nos índios
virou grife
virou marca
virou nome de estrada
virou nome de escola
que agora é ocupada
por meninas e meninos
que sabem o que querem
e cantam
fernão dias vaza
a escola fica
fernão dias vaza
a meninada fica fernão dias vaza
a poesia fica
Tatá Aeroplano lançou recentemente Step psicodélico, seu terceiro disco, onde canta com vozes diferentes e encarna as entidades que vivem dentro dele. Adora o som derretendo pelas paredes, melodias espaciais e o chão de terra batido e pulsante que
salta pra fora das caixas de som.
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Aqui de Lisboa, do meu (auto)exílio, eu queria escrever uma carta,
mas já não se escrevem cartas. E também não saberia para quem
escrevê-la. Para um amigo que reconhece o golpe e luta contra
ele? Para um amigo que reconhece o golpe mas vai ao supermercado como se nada fosse? Para um amigo que diz não saber se
é ou não é golpe? Para um amigo que diz que o impeachment
da Dilma não é um golpe, mas uma vitória da população que
foi pras ruas? Para o povo brasileiro? Se é que realmente existimos como povo... Pode um povo não ter memória? Pode um povo
ter esquecido a barbárie ocorrida 50 anos atrás? Ter esquecido
que faz muito pouco vivemos outro golpe, que os militares tomaram o poder, que a liberdade foi cerceada, que milhares de
pessoas foram perseguidas, silenciadas, presas, assassinadas?
Porque não temos memória, começamos sempre do zero. Dito
assim, até pode ser bonito, poético – imaginem se esquecêssemos
diariamente que o sol se põe? Mas também tenebroso. Só o esquecimento permite que um novo golpe político seja engendrado
como se não fosse um atentado à democracia. Só o esquecimento
pode fazer alguém acreditar que o PMDB quer limpar o Brasil da
corrupção. Nietzsche já dizia que para esquecer é preciso, antes,
lembrar. Lembremos nossos mortos, então. Lembremos nossas
bocas caladas. Nossos cálices de vinho tinto, de sangue. Lembremos o que era o Brasil militar. Lembremos o que é viver num
país sem democracia. E não deixemos que o retrocesso dê cabo
de nossos valores, de nossas conquistas. Não deixemos que se
louvem torturadores. Não deixemos que a política seja feita à
nossa mercê. Não deixemos as mulheres de fora em 2016. Nem
os negros, nem os homossexuais, nem os índios. Chega dessa hegemonia branca e machista. Lembremo-nos de quem somos e só
assim existiremos.
Quando eu era adolescente, ouvi várias vezes que a minha
geração era acomodada porque não tinha motivo para lutar. Não
havia um inimigo. Pois bem, o monstro não demorou a reaparecer. À luta, então.
344
Tatiana Salem Levy vive há três anos em Lisboa, onde nasceu
durante o exílio de seus pais. Do Brasil, chegam as mais terríveis
notícias. Não pode ir para a rua, mas acredita que as palavras
têm seu poder de transformação.
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Tempo de se envergonhar do filho
no tempo de se envergonhar do filho
anda-se curvado e de cabeça baixa
rabo entre as pernas
alma ulcerada
no tempo de se envergonhar do filho
não há como explicar à cria
a fome o estupro o desprezo a tirania
a bota no pescoço do desarmado
no tempo de se envergonhar do filho
tudo é causa de acanhamento
o ar é ácido a água é podre o céu imundo
a lei é surda a voz é muda a vida um perigo
no tempo de se envergonhar do filho
o passado é um peso
o presente opressor
o futuro temido
no tempo de se envergonhar do filho
há um planeta de primatas armados
metralhando a infância a graça a alegria
exilando beleza poesia e arte
pendurando a liberdade num pau de arara antigo
esse tempo de se envergonhar do filho
eu não quero não aceito não me cabe não me venham
eu engulo qualquer coisa
menos isso menos isso menos isso
São Paulo, maio de 2016.
347
Thelma Guedes, com 5 anos, viu seu país virar ditadura. Com 13,
viu professores sumirem. Com 16, viu a ditadura matar o povo
de fome e falta de ar. Lutou, protestou e, com 26, viu a ditadura
acabar. Com 44, viu um nordestino operário, como seu pai, tirar
o Brasil do mapa da fome. Com 57, luta contra o golpe que quer
fazer o tempo voltar.
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Osso
Era uma porta.
Ou: era uma porta a ser porta.
No centro de uma parede acinzentada, sem tinta, fez-se um
retângulo de quatro lados quase iguais.
Na parte de cima, na primeira linha horizontal, prendeu-se
um suporte de aço, desses que descem quando está terminado o
expediente. Mas não era um comércio, era uma casa, talvez um
país.
Foram feitos nos lados verticais do retângulo, para que a
porta pudesse desenrolar e deslizar, fechando o vão quadrangular, sulcos que seriam forrados por moldes de aço, moldes que
receberiam camada de graxa.
A borda da porta, presa de cada lado do interior dos moldes,
deslizaria por ali. A porta seria porta, cumpriria seus fins, confirmaria engenhos.
Usou-se marreta. Os moldes foram afixados com concreto
fresco.
O que temos agora é um vão quadrangular cujos lados verticais são borrados por uma mancha cinza, que é o concreto fresco
fixando os moldes e refazendo as quinas antes desfeitas a marretadas.
Foi quando passei em frente à porta que testaram a porta.
Não vi quem eram.
Ouvi a porta descendo: uma chapa mole de aço escorregando
para baixo, o retângulo subitamente aberto tornado uma invariável superfície metálica. Um molde envergou; o outro saltou.
Estourou cimento fresco, as quinas desfeitas, os tijolos abertos
sob o sol a tudo indiferente. Os aços entortaram e saltaram, a
porta dobrou e não fechou, desfaleceu como uma doente, envergou-se, como de joelhos, entre as estruturas de aço rasgando o
cimento fresco.
350
Thiago Mattos nasceu em Petrópolis. No dia seguinte ao golpe
jurídico-midiático-parlamentar, uma amiga de 70 anos lhe disse
aos prantos: nem eu nem vocês nunca teremos visto a democracia. Quer crer e ver que não é verdade.
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pereira | laerte | leonardo costa | leonardo
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| lineker | luana vignon | lubi prates |
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maiara gouveia | maíra mendes galvão | manoel
herzog | manoel quitério | manu maltez |
marcelino freire | marcelo ariel | márcia
denser | marcia tiburi | marcílio godoi |
marco dutra | marcos gomes | marcos siscar |
maria clara escobar | maria giulia pinheiro
| mariano marovatto | meire oliveira | mel
duarte | michele santos | micheliny verunschk
| nicolas behr | noemi jaffe | odyr | pádua
fernandes | paula fábrio | paulo ferraz
| pedro tierra | pedro tostes | priscila
gontijo | rafael rocha daud | regina azevedo |
renan nuernberger | renan quinalha | reynaldo
damazio | ricardo escudeiro | ricardo lisias
| ronaldo bressane | sheyla smanioto | shiko
| stefanni marion | tarso de melo | tatá
aeroplano | tatiana salem levy | thelma
guedes | thiago mattos | tony monti | tula
pilar | vanderley mendonça | verônica stigger
Eu tenho dúvidas sobre muitas coisas. Antigamente as pessoas
tinham dúvidas, eu acho. Não sei se é hora para poemas ou panfletos (Michel Temer também escreveu seus poemas). Não sei se é
hora para usar vermelho, para jargão, para provar uma tese. No
entanto, apesar das dúvidas, sem esquecer as dúvidas, porque
não é hora para vacilo, estarei na rua articulando minhas convicções provisórias e organizando o nojo e o ódio por esta máfia
despudorada cheia de dinheiro e de mandatos.
Tony Monti acha que tem muita gente querendo microfone e
palanque e pouca gente disposta a ser mais um na rua.
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Sou uma garota ousada
Meu cabelo é crespo, minha pele é negra
Meu esmalte é colorido, meu batom não tem cor
Não tenho boca de mulata
Minha pele é negra
Gosto de salto alto
Mas não uso meia fina,
Meu decote te incomoda?
É melhor do que andar nua
Mostrando minha pele negra...
Sou uma garota ousada!
tenho 29 anos mas, já vivi mais de 100
Considerando meus conhecimentos
Minha sabedoria
Incluindo a rebeldia
Não sou uma menina má, não!
Posso ser poesia
Uso um turbante, pego um violão,
Abro um sorriso, beijo um camarada
Durmo com quem quiser e sigo sem compromisso
Sou uma garota ousada!
Meu cabelo crespo, minha pele negra
Já esperei um príncipe, já vivi na favela, sou da periferia
Toco violão, escrevo poesia, tiro uma fotografia
Ando na madrugada!
Nos batuques de umbigada!
Tango, hip hop
Mostro meus conhecimentos
Canto com os camaradas!
Sou uma garota ousada!
Meu cabelo crespo, minha pele negra
Tenho que ser corajosa, persistente e abusada
Carolinas e Dandaras
Aqualtunes e Odaras
Para ser uma garota ousada...
Tula Pilar é poeta, performer, dançarina (dança negra, dança do
ventre). Mantém desde 2004, junto com seus três filhos e convidados, o COLETIVO RAIZARTE. Está indignada e descontente
com o ocorrido no país no dia 12 de maio de 2016. Sente muito
por Dilma Rousseff, acredita que é assustadora a traição sofrida
por ela. Mulheres (inclusive as negras) terão que se fortificar, ser
“ousadas” na luta por mudanças em nossa sociedade, em nosso
sistema político atualmente tão decadente.
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Miguel Reaça Jr.
Helio Bocudo
Sergio Morto
Michel Têmor
Gilmar Mentes
:
escritores fascistas
poetas conservadores
cineastas corruptos
filósofos reacionários
pintores xenófobos
psicanalistas mentirosos
professores dedos-duros
livreiros homofóbicos
atores racistas
designers sádicos
músicos sectários
atores pedófilos
jornalistas de direita
editores ignorantes
:
Suíça
Panamá
usa
Curitiba
:
Seleção Brasileira
Av. Paulista Fiesp
Copacabana
:
358
PSDB
Folha
Estadão
O (A) Globo
Isto É
Veja
:
tomem cuidado:
sangue também germina a terra.
:
Vanderley Mendonça é jornalista, designer, tradutor e editor dos
Selos Demônio Negro e Edith. Lecionou Editoração da ECA-USP.
Traduziu, entre outros livros, Poesia vista, antologia bilíngue do
poeta catalão Joan Brossa (Ateliê, 2005), Crimes exemplares, de Max
Aub (Amauta, 2003), Nunca aos domingos, de Francisco Hinojosa
(Amauta, 2005) e Greguerías, de Ramón Gómez de La Serna (Selo
Demônio Negro, 2010). É autor do livro Iluminuras (Patuá, 2013).
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o maquinista
Mateus chegou cedo, muito cedo. Não era dia ainda. Como de
costume, ele viera a pé, pelo meio dos trilhos, debaixo da escuridão da noite. Gostava de sentir o ar gelado da madrugada no
rosto. Acordava-o, dizia. Vinha uniformizado, com capacete e luvas. Precisou sair de casa às quatro da manhã para não se atrasar
para o encontro, marcado para as cinco. Lá já estava João, também vestindo uniforme e o imprescindível capacete. Em pé, sozinho no meio dos trilhos, cabeça baixa, mãos juntas na altura do
peito, rezava. Mateus estranhou, nunca o vira rezando. Achava
até que o amigo fosse ateu. Pensou em saudá-lo fazendo graça,
em falar que ele estava parecendo o Maquinista com aquele tipo
de carolice, mas desistiu. Não era o momento mais adequado
para isso. Mateus se aproximou devagar, pisando de leve sobre
as pedrinhas que atapetavam o chão. A dois passos do amigo, estacou. Não queria interromper João. Afinal, talvez fosse mesmo
uma boa ideia rezar. Se Mateus soubesse rezar, certamente se
juntaria ao outro. Mas ele não sabia e, por isso, esperou. João
estava tão concentrado que não percebeu a proximidade de Mateus. Parado feito uma estátua, apenas seus lábios se mexiam.
Porém, mesmo de perto, não era possível escutar o que dizia. E
se ele não estivesse rezando? E se ele estivesse apenas fingindo rezar?, pensou, preocupado, Mateus. Enquanto este, absorto, considerava se seria ou não um problema fingir rezar em vez de rezar
de fato, João encerrava sua suposta prece, deslocando um pouco
para trás sua perna direita e inclinando ligeiramente o tronco e o
joelho esquerdo, como se cumprimentasse uma alta autoridade.
Quando finalmente levantou o rosto, viu Mateus. Abriu um largo
sorriso e abraçou-o apertado. Sejamos fortes, camarada, sussurrou-lhe no ouvido esquerdo, quase num beijo. Sejamos fortes.
Mateus escondeu o rosto no ombro do amigo, como se quisesse
cheirar sua nuca, e estreitou-o ainda mais contra o próprio peito.
Sejamos fortes, repetiu uma vez mais João. Mateus desvencilhouse de João e perguntou se os outros já haviam aparecido. Não, eles
361
ainda não haviam aparecido, chegariam mais tarde. E o Maquinista? Está lá dentro, indicou João, está vendo? Ele está sempre
lá dentro, resmungou Mateus, acho que ele mora aí. João fez um
sinal para que Mateus o acompanhasse. Mateus depôs sua mão
esquerda sobre o braço direito de João, e os dois seguiram juntos.
Amanhecia. Eles saíram dos trilhos e contornaram o vagão em
que se encontrava o Maquinista. João e Mateus iam abaixados,
com os joelhos inclinados, tentando se deslocar da maneira mais
discreta e silenciosa possível. Quando passaram ao lado da janela
através da qual se via o Maquinista, não resistiram e espiaram
para dentro. O Maquinista, mesmo sendo um tipo franzino, com
o rosto chupado e os ossos saltados como os de um faquir, mal
cabia no espaço exíguo. De pé, ajeitara-se como pôde no comprimido vão entre uma parede e outra: recostara o quadril na
divisória às suas costas, esticara as pernas para a frente, apoiara
os braços no painel adiante, depusera a cabeça sobre os braços e
assim dormia. Roncava alto o suficiente para ser ouvido da rua,
onde estavam João e Mateus. Vai por mim, sussurrou Mateus no
ouvido de João, o Maquinista dorme aí. Em pé? Não sei se sempre em pé, mas que ele dorme aí, ele dorme. Gringo desgraçado,
grunhiu João. Já era dia, um dia nublado com pesadas nuvens
cinzas no céu. João e Mateus avistaram os outros companheiros,
todos os três com seus respectivos uniformes e capacetes. Tiago
foi o primeiro a vê-los também. Acenou de longe e correu para
abraçá-los. É hoje, camaradas, disse ele sorrindo, enquanto abarcava ao mesmo tempo João e Mateus. Os irmãos Pedro e André,
os mais jovens da turma, os abraçaram em seguida. Estes portavam, além dos uniformes e dos capacetes, rádios de comunicação. Cá estamos, companheiros, para o que der e vier, falou Pedro.
O Maquinista já está aí?, indagou André, ao que João respondeu
afirmativamente. Acho que ele mora aí, resmungou Mateus, sem
ser ouvido. Trouxeram as ferramentas? João abriu o casaco e
mostrou um martelo e um podão presos ao seu cinto de couro
com tiras de tecido vermelho. Mateus abaixou a mão direita e
deixou cair de dentro de sua luva um canivete suíço. E vocês?
362
André arregaçou a barra da calça e apontou para uma faca presa
a sua botina. Pedro ergueu a camisa, revelando a corda de sisal
que trazia amarrada ao peito. E Tiago tirou de um bolso uma
grossa fita adesiva e do outro, uma chave de fenda. João, então,
juntou as mãos na altura do peito em mais uma prece. Pedro e
André alongaram-se como se estivessem prestes a praticar algum
esporte, elevando os braços ora para o alto, ora para os lados.
Tiago, seguindo o exemplo dos dois, segurou o peito do pé direito
e ergueu a perna para trás, encostando-a ao glúteo, para forçar o
músculo da coxa. Ficou segurando o pé durante uns vinte segundos e repetiu o mesmo gesto com a perna esquerda. Mateus, sem
saber o que fazer, roía as unhas. Impaciente, caminhava de um
lado para o outro, parando apenas para conferir as horas, a intervalos muito curtos e regulares. Terminada a reza, João fez novamente sua estranha reverência. Recomposto, respirou fundo e
conclamou, batendo palmas: vamos lá, camaradas, não podemos
correr o risco de que os outros cheguem. Todos sorriram, ainda
que com certa tristeza. Vestiram seus óculos escuros, ajeitaram
os capacetes e se puseram em marcha. Apenas João não colocou
os óculos escuros.
Veronica Stigger é escritora, professora e crítica de arte. Autora,
entre outros, de Opisanie świata.​
363
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação [cip]
Golpe: antologia-manifesto: Ana Rüsche... [et al.].
São Paulo: Punks Pôneis, 2016.
366 p., 27 il.
Vários autores.
Sobre os autores.
1. Poesia. 2. Prosa. 3. Fotografia. 4. Arte visual. 5. Política.
i. Kinzo, Carla. ii. Aquino, Lilian. iii. Marion, Stefanni.
cdu 304 / r593
Copyright © Punks Pôneis, 2016.
Copyright © dos autores, 2016.
Editores e organizadores
Ana Rüsche, Carla Kinzo, Lilian Aquino e Stefanni Marion
Capa
Rodrigo Sommer
Logotipo Punks Pôneis
Katia Spagnol
Projeto gráfico e diagramação
Bloco Gráfico – Gabriela Castro, Gustavo Marchetti e Paulo André Chagas ePub Bruno Palma e Silva
Revisão
Ligia Ulian
Lilian Aquino
Meire Oliveira
Revisão do espanhol
Stefanni Marion
Fontes
Andada, Woodkit