Coordenada 8 Tattiana Teixeira

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Coordenada 8 Tattiana Teixeira
Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo
VI Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo
UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), novembro de 2008
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Promessas para o futuro: as características do infográfico no
ciberjornalismo a partir de um estudo exploratório1
Tattiana Teixeira2
Mayara Rinaldi3
Resumo: Este trabalho discute o infográfico no ciberjornalismo a partir de um estudo de caso múltiplo da
seção Infográficos do Portal UOL e do elmundo.es, analisados entre abril e junho de 2008. Foram
estudados 70 infográficos do UOL e 25 do elmundo.es. Entre as principais conclusões, destaca-se a
ausência, no caso do UOL ou o baixo uso – no elmundo.es - da multimidialidade na produção dos
infográficos estudados e um evidente descompasso entre aquilo que é preconizado em estudos sobre este
subgênero e a prática profissional cotidiana.
Palavras-chave: Jornalismo, infografia, cibermeios, teoria do jornalismo
1.Introdução:
Alguns autores (RIBAS, 2005; RAJAMANICKAM, 2005; FERNANDEZLADREDRA, 2004; SALAVERRÍA e CORES, 2005; SANCHO, 2003 e LIMA Jr.,
2004) costumam ser otimistas quando versam sobre a infografia no ciberjornalismo.
Falam, na maioria das vezes, em potencialidades deste formato (ou gênero) e ressaltam,
com maior ou menor ênfase, que os infográficos são uma das melhores formas para se
construir a narrativa multimídia nos cibermeios. Os argumentos perpassam a questão da
capacidade de reunir, a um só tempo, todas aquelas características inerentes ao meio.
Estas características ou potencialidades seriam, essencialmente, a multimidialidade,
interatividade, hipertextualidade, memória e personalização (ou customização).
(BARDOEL e DEUZE, 2000 e PALÁCIOS, 1999 e 2003). Uma das poucas autoras a
problematizar a forma como as infografias são utilizadas pelos meios digitais, em
contraposição com o como poderiam ser utilizadas, é Suzana Barbosa que afirma:
Alguns pesquisadores (Marcos, 2003; Sancho, 2003; Noci,
2002) apontam os infográficos como um novo gênero
jornalísticos no jornalismo digital. A infografia, afirmam,
irá se constituir um gênero desde que se apresente como
única informação disponível, com linguagem própria, seja
desenvolvida mediante unidades icônicas (estáticas ou
1
O presente trabalho foi realizado com o apoio do UOL (www.uol.com.br), através do Programa UOL
Bolsa Pesquisa, Processo Número 20080131140400. Trata-se de uma versão preliminar a ser aprimorada
no decorrer da própria pesquisa aqui empreendida e das discussões com os pares.
2
Jornalista. Doutora em Comunicação pela UFBA. Professora da graduação e do Mestrado em
Jornalismo da UFSC. Líder do NUPEJOC – Núcleo de Pesquisa em Linguagens do Jornalismo Científico.
Bolsista do UOL.
3
Estudante de jornalismo da UFSC. Membro do NUPEJOC e bolsista do Programa UOL Bolsa Pesquisa.
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e/ou sonoras, normalmente verbais, e que seja uma unidade
íntegra de informação. Nesse sentido, percebe-se que o
modo como os infográficos, além dos mapas e o material de
arquivo vêm sendo utilizados pode gerar, de fato, algumas
rupturas em relação ao seu emprego em modalidades
tradicionais do jornalismo. No entanto, sabe-se que, em
muitos casos, o potencial é às vezes maior do que
efetivamente se tem visto de implementação, apesar de já
existirem bons exemplos de uso. (2004:12)
Sua observação, apesar de ser de 2004 – há quatro anos, portanto – é ainda bem
atual e pode ser confirmada quando contrapomos os estudos acadêmicos com a
produção padronizada nos veículos jornalísticos mais tradicionais. Um exemplo pode
ser o infográfico sobre o Massacre na Universidade de Virgínia4 - produzido pelo
nytimes.com (versão online do NewYork Times) - e que, em 2008, obteve o prêmio
máximo concedido pelos jurados do Malofiej que o elegeram, por unanimidade, o
melhor trabalho infográfico do ano de 2007. O info é uma seqüência de 16 quadros que
recontam o episódio, construído em 3D e que mostra detalhes da tragédia. Os quadros
(veja alguns a seguir) têm poucas animações, não há recursos multimídia e nem links
que levem a outras informações complementares e, em termos de design, às vezes há
elementos que confundem.
4
O infográfico pode ser acessado clicando em
http://www.nytimes.com/2007/04/17/us/20070417_SHOOTING_GRAPHIC.html?_r=1&oref=slogin .
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Ainda assim, é inegável que (1) o infográfico é capaz de recontar a história; (2)
configura-se como um espaço de memória, na medida em que ainda hoje pode ser
acessado e permite que se saiba o que houve de maneira imediata; (3) pode ser
compreendido como um infográfico independente (TEIXEIRA, 2007 e RIBAS, 2005).
Mas também é constatado que ele usa muito pouco do que se esperaria em termos de
possibilidades de recursos, sobretudo quando o comparamos com as teorias acerca do
infográfico para a web. Não há vídeos, não há podcast, não há multimidialidade. Ela é
essencialmente linear e, em certa medida, contraria Ribas (2005:139), uma vez que a
pesquisadora acredita que “no ciberespaço, a infografia é potencialmente multimídia e
agrega as características do meio, apresentando uma estrutura multilinear que integra
diferentes formatos, constituindo uma unidade informativa”. Observe-se que este
exemplo do nytimes.com não é único, nem é uma exceção, apesar de haver um evidente
crescimento de outras vertentes de produção da infografia, que já exploram elementos
como as bases de dados e a atualização contínua.
Partindo de perspectivas teóricas como aquelas elencadas até aqui e de uma
observação da prática profissional, este trabalho pretende analisar como o infográfico
vem sendo utilizado e tentar responder o que, efetivamente, deve caracterizar um
infográfico no ciberjornalismo. Buscar-se-á propor, tomando como base estudos
anteriores (TEIXEIRA, 2008a e RIBAS, 2005), uma classificação preliminar dos
estágios da webinfografia na contemporaneidade, a partir de um estudo de caso múltiplo
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dos portais elmundo.es e UOL5. Analisamos os infográficos publicados entre abril e
junho de 2008 - 70 pelo UOL e 25 do elmundo.es – buscando identificar (1) as suas
características; (2) a sua origem e (3) a sua classificação/tipologia a partir de algumas
variáveis previamente estabelecidas. A escolha destes dois portais deve-se a fatores
relativos à sua relevância em seus países. O UOL foi criado em 1996 e é, hoje, o
principal portal de mídia online do Brasil, tanto em conteúdo como em número de
assinantes e acessos diários. A empresa se auto-intitula “a Companhia [que] possui o
mais extenso conteúdo em língua portuguesa do mundo e o seu portal está organizado
em 42 estações temáticas e mais de 1.000 diferentes canais de notícias, informação,
entretenimento e serviços somando mais de 7 milhões de páginas” 6. Vale destacar que,
neste trabalho, foi analisada apenas a seção do Portal denominada Infográficos. Já o
elmundo.es foi escolhido por ser o mais premiado pelo Malofiej – em 2007, o veículo
conquistou 8 medalhas, sendo 7 de bronze – com uma produção diversificada que
compreende várias editorias/assuntos e pela sua importância não apenas na Espanha,
mas nos países que falam castelhano. Em texto publicado em 08 de junho de 2008, a
equipe comemorou a liderança do veículo:
“Un crecimiento constante. Así puede calificarse la
evolución de la web del diario EL MUNDO en 2008. El
nuevo récord de elmundo.es supone sumar más de un
millón de lectores respecto a enero pasado (10.800.605) y
casi dos millones si se compara con la cifra de hace justo un
año. La cifra consolida a elmundo.es, con firmeza, como
líder absoluto de la información en castellano en todo el
mundo, ya que ningún otro medio en esta lengua ha
conseguido cifras tan altas de lectores. Ha comenzado 2008
mostrando unos registros envidiables, encadenando durante
cinco meses una subida constante de lectores, y rozando ya
los 12 millones de usuarios únicos”7
Neste levantamento inicial, quantificamos tudo que os portais chamaram de
infográfico e não levamos em consideração – no caso específico do UOL - as seções do
5
Yin (2005:33) defende que “o estudo de caso, como estratégia de pesquisa, compreende um método que
abrange tudo – tratando da lógica de planejamento, das técnicas de coleta de dados e das abordagens
específicas à análise dos mesmos”. No que tange, especificamente ao estudo de caso múltiplo, o autor
defende-o , argumentando que os resultados tendem a ser mais consistentes.
6
Disponível em:
http://www.mzweb.com.br/uol/web/conteudo_pt.asp?idioma=0&tipo=12479&submenu=1&conta=28&i
mg=12473 . Acessado em: 22 de novembro de 2007.
7
Disponível em: http://www.elmundo.es/elmundo/2008/06/06/comunicacion/1212785444.html .
Acessado em 25 de julho de 2008.
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Portal que não reproduzem diretamente conteúdo de outros veículos (exceto agências de
notícias) como as revistas de editoras como Abril e Símbolo, por exemplo.
Para a nossa classificação posterior – que será desenvolvida nos tópicos a seguir
– compreendemos que o infográfico jornalístico “é uma unidade informativa, realizada
com elementos icônicos e tipográficos, que permite ou facilita a compreensão dos
acontecimentos, ações ou coisas da atualidade ou alguns de seus aspectos mais
significativos, e acompanha ou substitui o texto informativo”8 (VALERO SANCHO,
2001:21). Como já defendemos em trabalhos anteriores (TEIXEIRA, 2007 e 2008b), em
um infográfico, imagem e texto têm relação indissociável e um depende intrinsecamente
do outro para que aquilo que se pretende “dizer” seja compreendido de maneira plena
pelo público. Direto, um bom infográfico jornalístico, independentemente do suporte,
privilegia aspectos da informação jornalística, em especial a singularidade, e precisa ser
autônomo, mesmo quando acompanha outro subgênero tradicional, a exemplo da
notícia ou da reportagem. Além disto, vale ressaltar que o infográfico jornalístico pode
ser independente de qualquer uma destas modalidades, fato que acontece com maior
freqüência naqueles publicados na web, sobretudo quando passam a fazer parte de seção
específica (denominadas multimídia, gráficos ou infográficos) e ficam totalmente
desvinculados das matérias que lhes deram origem.
O infográfico jornalístico encerra, tradicionalmente, uma narrativa e, para
atingir tal objetivo, pode usar uma série de recursos gráfico-textuais, alguns deles,
inclusive, oriundos da linguagem dos quadrinhos, como setas e balões, por exemplo.
Isto é possível porque se recorre a um repertório sócio-cultural de imagens que
permeiam o nosso imaginário. Do mesmo modo, os infográficos podem usar uma série
de elementos imagéticos como fotos, ilustrações, ícones, mapas9, desde que
direcionados para o seu objetivo maior, qual seja, construir uma narrativa jornalística
sustentada no binômio imagem + texto. Também deve ser capaz de evidenciar detalhes
muitas vezes difíceis ou quase impossíveis de serem explicados através de uma
narrativa jornalística textual convencional voltada para um público-leigo. Portanto, é
preciso compreender que uma tabela ou um mapa, isoladamente, ainda que bem
8
Tradução livre realizada pela autora, a partir do original em castelhano.
Valero Sancho (2001:109) chama estes elementos de infogramas. De acordo com o autor, esta expressão
é usada para definir “unidades elementales de información gráfica: sierven para hacer referencia, en la
infografia compleja, a las diferentes informaciones autónomas pero elementales que juntas la componen”.
9
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trabalhados do ponto de vista gráfico não são por si só um infográfico. Esta
diferenciação é importante porque ainda é comum, chamar de infográficos (ou entender
como tal) aqueles recursos utilizados pelos editores de arte para dar mais dinamismo às
páginas, quer seja na web, quer seja nos veículos impressos.
Também é importante frisar que compreendemos os infográficos10 sobre os
quais falaremos aqui como um subgênero (ou modalidade) do gênero informativo,
porque partimos do pressuposto, já defendido por autores como Lorenzo Gomis (1991),
que o jornalismo pode ser dividido em dois gêneros essenciais - o informativo e o
opinativo. Esta premissa é importante porque é necessário reforçar que o infográfico
pode e costuma ser usado também em outros campos, mas com propósitos e estruturas
muitas vezes distintas daquelas que necessitamos em produtos jornalísticos11. Deste
modo, para situar a posição na qual os infográficos que pesquisamos se encontram,
poderíamos utilizar a representação a seguir, já explicitada em outros trabalhos
anteriores:
10
Alguns autores, a exemplo de Valero Sancho (2001), De Pablos (1999) e Ribeiro (2008) costumam
adotar uma diferenciação semântica entre os termos infografia e infográfico. Como explica Susana
Ribeiro (2008:17), “a palavra infografia chegou até nós através do inglês. José Manuel de Pablos Coello
(...) afirma tratar-se de um neologismo; uma palavra importada do termo norte-americano infographics
(que resulta da contração dos termos information graphics) e que em castelhano deu origem aos termos
infográfico ou infografia, embora o autor prefira o emprego do segundo termo, identificando infográfico
como “o adjectivo usado para fazer referência à infografia””. Nós, neste trabalho, usaremos os dois
termos como sinônimos, uma vez que é assim que se encontra em dicionário de referência, como o
Houais, por exemplo.
11
Vale ressaltar que esta opção conceitual esta longe de ser um consenso. De Pablos (1999) defende o uso
do termo infoperiodismo. O autor explica que “a base do infojornalismo é a infografia, porém não para
por aí, pois implica em uma maneira de trabalhar que potencializa este renascido gênero visual impresso,
com a ajuda de jornalistas providos de uma cultural visual suficiente para saber em cada momento o que
mais conveniente, infograficamente” (1999:p.43). Já Gonzalo Peltzer (1991) defende que o infográfico é
uma das manifestações (grupos) do que ele chama de Jornalismo iconográfico. Por fim, Hidalgo (2002)
classifica os infográficos como uma modalidade do que chama de “gêneros periodísticos
complementários”. Ao definir o que compreende por gênero jornalístico complementar, Hidalgo explica
(2002:46) que “o jornalismo visual tem buscado novos formatos para aproximar a imprensa do leitor e
torná-la mais atrativa. Para isto, tem recorrido à fragmentação dos textos e, desta forma, oferece-os em
unidades distintas e autônomas, ainda que dependentes desde um ponto de vista temático.”(2002:46) – as
citações foram traduzidas livremente para português a partir dos originais em castelhano.
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Discurso
Jornalístico
Gênero
Opinativo
Gênero
Informativo
Subgêneros (ou
modalidades):
Notícia
Nota
Reportagem
Entrevista
Perfil
Infográfico
etc...
Figura 1 - In: TEIXEIRA, 2008b
Outro aspecto importante a ressaltar antes de passarmos para os dados obtidos na
pesquisa de campo, é que entre os autores, não há consenso quanto a como se referir à
infografia produzida especificamente para a Internet, como já discutimos antes
(TEIXEIRA, 2007 e 2008a). Este problema, aliás, já era apontado por Ribas (2004). Por
isto, neste trabalho adotaremos como padrão o termo infografia multimídia para nos
referirmos àquelas que efetivamente utilizam, além da imagem e do texto escrito,
recursos de áudio e/ou vídeo para informar. Acreditamos, portanto, que as infografias
animadas são aquelas que apresentam algum movimento das suas imagens, desde
mosquitos voando sobre as telas até outros menos prosaicos como mapas que se abrem
em pop ups, por exemplo, a partir de cliques específicos; ou cores que se intercalam em
gráficos de barra ou afins; ou, por fim, imagens em 3D que giram na tela
proporcionando a visão panorâmica de algo e de seu funcionamento.
Nas próximas páginas deste trabalho, discutiremos os resultados deste nosso
levantamento preliminar, feito a partir destes pontos-de-partida.
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2. A infografia nos cibermeios – os casos UOL e elmundo.es
Em sua dissertação de Mestrado, Beatriz Ribas (2005:141) propõe o modelo
abaixo para a classificação da infografia nos cibermeios. A autora explica que
chegando ao Modelo Octaédrico, que engloba a produção
atual, observa-se a infografia que integra os formatos na
narrativa. A infografia multimídia integrada incorpora um
ideal de utilização dos diversos formatos na narração do
fato jornalístico e assinala o momento em que se pode
considerar que uma nova retórica emerge. O espaço retórico
multilinear, multimidiático e interativo que oferece opções
ao usuário e integra o factual e o contextual, podendo ser de
atualidade ou de memória. (2005:143)
Tabela-resumo – Tipos de infografia na Web
GÊNEROS JORNALÍSTICOS
INFOGRAFIA
MODELOS DE COMPOSIÇÃO
MODELOS NARRATIVOS
%
1. TRANSPOSIÇÃO DO IMPRESSO
(IMAGEM ESTÁTICA)
TETRAÉDRICO AO OCTAÉDRICO
35%
2. INFOGRAFIA ANIMADA
SEQUENCIAL
HEXAÉDRICO AO OCTAÉDRICO
48%
3. INFOGRAFIA MULTIMÍDIA
INTEGRADA
HEXAÉDRICO AO OCTAÉDRICO
17%
Tabela 1 - In: RIBAS, 2005, pp. 141
Por seu turno, Mielniczuk (2003), “visando facilitar a compreensão do processo
pelo qual passa o webjornalismo” e seguindo os passos de Pavlik (2001) e Silva Jr.
(2002), divide a trajetória dos produtos jornalísticos desenvolvidos para a web em três
fases:
“produtos de primeira geração ou fase da transposição;
produtos de segunda geração ou fase de metáfora; e
produtos de terceira geração ou fase da exploração das
características do suporte web” (pp.48)
Integrando estas duas perspectivas, poderíamos dizer que as infografias de
primeira geração são as transpositivas, ou seja, ainda são concebidas e publicadas a
partir da mesma lógica daquelas criadas para os impressos, sem qualquer recurso que
lembre
aqueles
considerados
essenciais
para
caracterizar
a
linguagem
do
webjornalismo; a de segunda, metafóricas, isto é, metáforas das infografias produzidas
para o impresso, usando como diferencial, essencialmente, a animação para levar o
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leitor a seguir uma seqüência de quadros narrativos ou a descobrir novas informações
“escondidas” sobre a ilustração, provocando – em maior ou menor grau – a
interatividade com o seu público-alvo; e, por fim, as de terceira geração que seriam,
portanto, as multimídia – compreendendo o termo aqui em sentido amplo - e as mais
adequadas - ao menos na perspectiva de alguns autores - ao ambiente digital.
Esta classificação nos permitiu analisar os infográficos do UOL e do
elmundo.es, mostrando-nos alguns dados interessantes como o fato de termos
detectados que 59% dos produtos apresentados pelo UOL como tais, não são
infográficos. No caso do elmundo.es o índice chegou a 48%. Isto porque, nestes casos,
(1) a relação entre imagem e texto não os torna inseparáveis; ou (2) porque não há
narrativa explícita ou, ainda, (3) porque o mesmo recurso é, na verdade, um gráfico, um
mapa ou um diagrama. Um exemplo é aquele sobre as eleições na Rússia, produzido
pela AFP12, publicado pelo UOL e que reproduzimos parcialmente a seguir:
Por outro lado, entre as que consideramos como infografias jornalísticas,
percebemos, no UOL, que 62% utilizam mapa e 38 % utilizam algum tipo de imagem
animada, números bem diferentes daqueles observados no elmundo.es. Já os vídeos,
ainda no caso do portal brasileiro, não aparecem em nenhum dos infográficos analisados
no período o que explica porque ainda estamos muito distantes do uso das chamadas
infografias multimídia e mais ainda daquelas que utilizam – de modo interativo – as
bases de dados e que seriam, portanto, de quarta geração. Abaixo, um pequeno quadro
12
Disponível em http://noticias.uol.com.br/ultnot/infografico/afp/2008/05/06/ult4535u190.jhtm .
Acessado em 29 de julho de 2008.
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dos recursos usados que detectamos (em %), em cada um dos veículos analisados e que
nos apontam para diferenças cruciais que, de algum modo, explicam porque a empresa
espanhola se consagra como uma espécie de referência quando se fala em infografia
para o cibermeios.
Linha do
Mapa Animação 3D Foto Tempo
UOL
62
38 1,4
7
elmundo.es
31
54 31
8
Vídeo Gráfico
17
0
7
0
8
15
A nossa análise possibilitou observar também que há uma predominância, no
UOL, de produtos – e aqui nos referimos ao total da amostra, ou seja, 70 objetos –
oriundos de agências de notícias. O índice chega a 79% , podendo ser ainda maior uma
vez que, conseguimos detectar como produção própria apenas 17% dos infográficos, já
que 7% não têm assinatura. No caso do elmundo.es – a amostra foi de 25 objetos conseguimos detectar 36% de infográficos de produção própria e 64% não têm
assinatura. No entanto, é preciso frisar que, apesar de ainda não termos entrevistado os
profissionais deste veículo, nossas pesquisas apontam para a tendência de aumentarmos
em até 100% os índices de infos produzidos pela própria equipe do elmundo.es . Por seu
turno, assinados como de agências, não detectamos nenhum objeto.
Também analisamos os infográficos a partir de seus conteúdos, dividindo-os em
enciclopédicos ou jornalísticos. Os enciclopédicos são centrados em explicações de
caráter mais universal como, por exemplo, detalhes do funcionamento do corpo
humano; como se formam as nuvens; o que são bactérias; o que é ciranda financeira; o
que são partidos políticos; quais são os controles e comandos da cabine de um avião,
entre outros. Costumam ser, portanto, bastante generalistas. Já os jornalísticos, não.
Eles se atêm a aspectos mais próximos da singularidade. São bastante comuns em casos
como acidentes – reproduzem o que aconteceu a partir de depoimentos; quando se
pretende explicar como ocorre um procedimento cirúrgico novo; após uma eleição,
quando mostram a composição das assembléias a partir de panoramas estaduais e
partidários e assim sucessivamente (TEIXEIRA, 2008b). Ao observamos a
predominância de um ou de outro, podemos inferir se a produção de infográficos é
planejada, se há uma equipe efetivamente preparada para lidar com a agilidade e
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imprevisibilidade inerentes ao exercício do jornalismo diário e se, obviamente, os
profissionais – e aqui nos referimos não apenas aos infografistas, mas a editores e
repórteres. Os dados obtidos podem ser analisados a partir dos gráficos que seguem:
Conteúdo - UOL
Conteúdo elmundo.es
12 %
83%
Jornalístico
Enciclopédico
32%
Jornalístico
68%
Enciclopédico
É interessante observar que o conteúdo jornalístico predomina, em ambos os veículos,
mas no UOL os índices são melhores. Este dado, isoladamente, poderia dar uma
impressão equivocada de uma equipe mais preparada no portal brasileiro, idéia que se
desfaz quando o comparamos com os altos índices de infos fornecidos por terceiros,
como vimos anteriormente.
3. Conclusão
Começamos esta pesquisa em março de 2008. Em três meses de trabalho,
conseguimos chegar a alguns dados preliminares que nos ajudam a entender o panorama
da infografia utilizada no maior portal de notícias do Brasil, contrapondo-o com um dos
mais importantes da Espanha, país considerado referência na produção de infográficos.
Estes dados revelaram que os infográficos multimídia, destacados por muitos
autores como aqueles capazes de encerrar as potencialidades narrativas dos cibermeios,
ainda estão distantes do uso freqüente tão almejado por alguns estudiosos. Defendemos
a hipótese de que isto se dá pela ausência de preparo específico dos profissionais que se
deparam cotidianamente com um subgênero relativamente novo no ciberjornalismo, ao
mesmo tempo em que vêem crescer as possibilidades narrativas em um ritmo muito
superior àquele registrado em outras épocas. Enquanto os portais ainda utilizam pouco –
quando utilizam – recursos multimídia na produção de seus infográficos, já vemos
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surgir outros formatos, capazes de usar bases de dados e com possibilidades de
customização infinitamente superiores àquelas disponibilizados pelo Gapminder World,
por exemplo.
Observamos também que, tal qual já tínhamos apontado em estudos sobre a
revista Superinteressante, a quantidade de infográficos não quer dizer, necessariamente,
compreensão e adequação de seu uso. No caso do UOL isto fica bem claro, ainda mais
quando se observa que a empresa privilegia a compra de infográficos de agências,
muitos deles apenas registros burocráticos de dados técnicos que utilizem recursos
animados que têm pouco ou nenhum valor informativo real. Por seu turno, o elmundo.es
usa a infografia com mais parcimônia, mas, também, com mais discernimento.
A análise até aqui nos coloca, além de algumas conclusões mais pontuais, muitas
questões que pedem respostas urgentes, entre elas, (1) o que é essencial em uma
infografia produzida para o cibermeio ?; (2) quando elas devem ser usadas ? ; (3) o que
significa a interatividade na infografia: a navegação hipertextual seria suficiente para
caracterizá-la ? Pretendemos, com a continuidade de nossas pesquisas, responder a estas
indagações conceituais. Por ora, parece-nos evidente que existe um efetivo gap entre a
prática nas redações – mais tímida e comedida - e a produção científica sobre a
infografia no ciberjornalismo – que prevê um futuro promissor, em meio a um conjunto
de possibilidades narrativas complementares. Este descompasso aponta que alguma
coisa está fora da ordem.
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