Leia o artigo na íntegra

Сomentários

Transcrição

Leia o artigo na íntegra
DEPENDÊNCIA DE COCAÍNA E CRACK E TRANSTORNOS
PSIQUIÁTRICOS: ANSIEDADE E DEPRESSÃO.
Angélica Vieira Santos
Camila Arêas Araújo e Silva de Melo
SAO PAULO
2015
Monografia
Unidade
apresentada
de
Pesquisa
à
em
Álcool e Drogas – UNIAD, da
Universidade Federal de São
Paulo
–
UNIFESP,
como
requisito parcial para obtenção
do título de especialista em
Dependência
orientação
Doutora
Madruga.
São Paulo
2015
Química
da
Clarice
sob
Professora
Sandi
Resumo
Introdução: A identificação de comorbidades psiquiátricas em dependentes
químicos é importante tanto para o prognóstico quanto para o planejamento e
desenvolvimento de intervenções e tratamentos adequados.
Objetivo: Este estudo objetivou verificar o perfil sociodemográfico de pacientes
em tratamento, o histórico de consumo de SPA e se havia ou não indicação
para as comorbidades psiquiátricas ansiedade e depressão.
Método: Foram entrevistados 40 participantes do sexo masculino, com idade
média de 32 anos, a prevalência maior de escolaridade era de Ensino Médio
Incompleto, solteiros e sem renda. O início de consumo de drogas teve a idade
média de 14 anos, todos os participantes estavam em ambiente protegido e
abstinentes de SPA.
Resultados: Os resultados nos mostraram uma prevalência de 65% para
ansiedade e de 30% para depressão.
Conclusão: Nesse estudo verificamos que a prevalência de indicação pra
ansiedade e depressão em dependentes químicos existe, com resultados de
65% para ansiedade e 30% para depressão, é interessante ressaltar que ainda
há controvérsias na literatura quanto à prevalência de comorbidades
psiquiátricas em dependentes químicos.
Palavras-chaves: drogas, comorbidades psiquiátricas, população masculina.
Abstract
Introduction: The identification of psychiatric comorbidities in chemical
dependents is important both for prognosis for planning development
interventions and appropriate treatments.
Objective: This study aimed to verify the sociodemographic profile of patients in
treatment, the history of consumption of SPA and whether there was an
indication for psychiatric comorbidities selected:anxiety and depression.
Method: We interviewed 40 participants were male, with a mean age of 32
years, the higher prevalence of schooling was Incomplete secondary education,
unmarried and without income. The initiation of drug use had a mean age of 14
years, all the participants were in a protected environment and abstinent of
SPA.
Results: The results showed prevalence 65% for anxiety and 30% for
depression.
Conclusion: In this study verify that the prevalence of indication for anxiety and
depression in chemical dependents exist, with results of 65% for anxiety and
30% for depression, it is interesting to point out that there is still controversy in
the literature regarding the prevalence of psychiatric comorbidities in chemical
dependents.
Keys words: drugs, psychiatric comorbidities, male population.
1 INTRODUÇÃO
Segundo Kalivas (2005) a dependência química é uma doença crônica e
recidivantes em que o uso continuado de substâncias psicoativas provoca
mudanças na estrutura e no funcionamento do cérebro. O início do consumo da
substância pode se dar por diversos motivos, que provavelmente persistirão
após a instalação da dependência. (Edwards, Marshall & Cook, 1999). Dentre
essas substâncias, cabe ressaltar a dependência do álcool, da cocaína e crack,
ambas com crescimento significativo na população brasileira.
O consumo dessas substâncias ocasiona problemas à saúde pública, e está
associado a significativos problemas econômicos e sociais, trazendo uma série
de complicações médicas e psiquiátricas e aumentando os índices de
morbidade e mortalidade (Cunha & Novaes, 2008; Galduróz & cols., 2008). No
abuso e dependência de drogas, a ocorrência de comorbidades psiquiátricas é
frequente, dificultando assim o tratamento da dependência química. A
ocorrência
de
um
transtorno
adicional
pode
alterar
os
sintomas,
comprometendo o diagnóstico, tratamento e diagnóstico de ambos (Alves,
Kessler & Ratto, 2005).
A ocorrência de comorbidades psiquiátricas devido ao uso de substância tem
sido amplamente reconhecida na clínica psiquiátrica, indivíduos dependentes
químicos possuem mais chances de desenvolver um transtorno psiquiátrico,
quando comparados a indivíduos que não utilizam drogas, sendo a
identificação deste outro transtorno relevante tanto para o prognóstico quanto
para o tratamento adequado do paciente (Cordeiro & Diehl, 2011; Ribeiro,
2012). De acordo com Flynn & Brown (2008) a presença de outro transtorno
psiquiátrico em dependentes químicos influencia na procura de tratamento,
aumentando esse índice em 70 a 80%, dessa forma alterando a expressão, o
curso e o prognóstico da dependência química, necessitando de uma
abordagem diferenciada para o tratamento ser realmente efetivo. Dentre as
comorbidades psiquiátricas mais comuns encontradas entre os dependentes
químicos destacam-se os transtornos depressivos e ansiosos (Duailibi et al.,
2008; Filho, Turchi, Laranjeira, & Castelo, 2005; Schefferet al., 2010; Strain,
2002) Dados do Epidemiologic Catchment Area (ECA) Study(Regier & cols.,
1990) apontaram que cerca de metade dos indivíduos dependentes de álcool e
outras substâncias possuíam um diagnóstico psiquiátrico adicional, sendo 26%
Transtornos do Humor, 28% Transtorno de Ansiedade e 18% Transtornos de
Personalidade Antissocial, dentre outras psicopatologias.
Segundo Ribeiro et al. (2005) é fundamental que o tratamento das
comorbidades tenha um planejamento estruturado longitudinalmente, e que
tenha a participação não só do paciente, mas também de seus familiares. O
Department of Health (2002) propõe um modelo de atenção multidisciplinar
dividido em quatro etapas: engajamento, motivação para a mudança,
tratamento ativo e prevenção da recaída com treinamento em habilidades
sociais. É importante inicialmente buscar o engajamento de todos para o
tratamento através de abordagens não-confrontativas e empáticas.
A identificação de comorbidades psiquiátricas em dependentes químicos é
importante tanto para o prognóstico quanto para o planejamento e
desenvolvimento de intervenções e tratamentos adequados. Desta forma, o
objetivo deste estudo foi verificar a frequência de comorbidades psiquiátricas
em dependentes químicos em abstinência, em ambiente protegido. Todos os
participantes do estudo eram usuários de cocaína, podendo também ser
usuários de outras drogas como cocaína na forma de crack, maconha, álcool e
etc. Verificou-se que a maioria (11%) dos participantes do estudo relatou buscar
tratamento para o uso de álcool, cocaína e crack, seguido de 8% que disseram
buscar tratamento para cocaína e álcool, 6% para o uso somente de crack e a
minoria (2%) para o uso somente de álcool.
2 OBJETIVOS
Verificar o perfil sociodemográfico dos pacientes em tratamento para
Dependência Química em internação em comunidade terapêutica.
Verificar o histórico de consumo de SPA dos pacientes em tratamento.
Investigar a prevalência de indicação dos transtornos de Ansiedade e
Depressão entre usuários de cocaína e crack, em tratamento de reabilitação,
em abstinência e em ambiente protegido.
3 MÉTODO
3.1 Desenho do Estudo
Este estudo é de caráter transversal com análise descritiva e quantitativa dos
dados.
3.2 Amostra
Utilizou-se uma amostra de conveniência, constituída por 40 sujeitos do sexo
masculino, alfabetizados, com idade entre 19 a 45 anos. Os participantes todos
dependentes químicos conforme os critérios do DSM-V (2014) estavam em
regime de internação numa comunidade terapêutica para desintoxicação e
reabilitação da dependência química, localizada na cidade de Atibaia no estado
de São Paulo. Utilizou-se como critério de exclusão de pacientes com menos
de um mês de abstinência.
3.3 Instrumento
Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HADS)
A escala é composta de 14 itens, sendo que 7 relacionados à presença de
sintomas depressivos e 7 à presença de sintomas ansiosos. Para cada item, o
participante do estudo deve escolher uma dentre quatro opções.
Estes variam de 0 à 3 pontos, demonstrando a evolução do grau de
intensidade dos sintomas, a soma dos valores obtidos em cada item, resulta
em um escore total, que varia entre 0 e 21 pontos. De acordo com cada escore
total apresentado, há a indicação de um determinado diagnóstico: entre zero e
07 pontos indica a ausência de sintomas ansiosos ou depressivos; entre 08 e
10 pontos indica ansiedade ou depressão leve; entre 11 e 14 pontos, indica
ansiedade ou depressão moderada; entre 15 e 21 pontos, indica ansiedade ou
depressão grave.
O questionário abordou questões relativas à: Gênero; Idade; Grau de
Escolaridade; Estado Civil; Renda; Trabalho atual; Moradia; Características
familiares; Problemas com a justiça; Procura de ajuda para tratamento de quais
substâncias; Uso de maconha; Idade de início de uso de substâncias.
3.4 Procedimentos
A coleta de dados ocorreu na Comunidade Terapêutica Sadala. Os usuários
que aceitaram participar da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido. As entrevistas foram realizadas entre os dias 05 e 11 de
maio de 2015, das 11h às 17h30. Os 40 participantes foram entrevistados em
uma sala de atendimento psicológico cedida pelo serviço para que o
entrevistador pudesse realizar a aplicação dos questionários, as entrevistas
duraram cerca de 20 minutos. Os participantes ficavam na sala apenas com o
entrevistador que estava realizando o estudo.
3.5 Aspectos Éticos
A autorização da instituição foi obtida através de carta de apresentação e
anuência. Os participantes foram esclarecidos quanto à voluntariedade da
pesquisa, o anonimato pessoal e dos dados coletados bem como o direito de
não aceitar participar ou de retirar sua permissão a qualquer momento sem
nenhum prejuízo para ele, através do TCLE (em anexo) e assinatura de
autorização. O TCLE foi lido pelo entrevistador com todos os participantes do
estudo. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da UNIFESP e também
na Plataforma Brasil com registro CAAE Número: 43093415.1.0000.5505.
3.6 Análise de Dados
Foram realizadas análises descritivas de frequências de respostas para cada
pergunta do questionário. Os dados foram tabulados no programa Excel onde
foi realizada a elaboração de tabelas, quadros e gráficos para apresentação
dos resultados.
4 RESULTADOS
4.1 Perfil Sociodemográfico:
De acordo com a tabela 1 percebemos que a prevalência acumulada dos
participantes tem idade até 35 anos, com idade média de 32 anos na amostra.
Como se observa no gráfico 1, no que refere-se ao grau de instrução a
prevalência acumulada tem até o ensino médio completo com 52%, sendo que
27,5% apresentou o Ensino Médio Incompleto, seguido por 25% que possuíam
o Ensino médio Completo e apenas 5% com o Ensino Técnico ou Superior
completo. Em relação ao estado civil, no gráfico 2, a prevalência da amostra
(65%) era solteira e 25% eram casados ou moravam junto. Quanto à renda,
podemos ver no gráfico 3, que a prevalência (60%) não apresentava nenhuma
renda, seguido por 30% que dispõe de 1 a 2 salários mínimos mensalmente,
sendo que, de acordo com o gráfico 4, 55% referiu estar trabalhando
atualmente. No que se refere à moradia, podemos observar no gráfico 5, que a
prevalência (18%) referiu estar morando atualmente em uma instituição de
tratamento, seguido imediatamente por 15% que referiram morar em casa com
a família. Como podemos ver no gráfico 6, a maioria (83%) referiu que a família
está de alguma forma participando do seu tratamento.
Em relação ao histórico com a justiça, conforme o gráfico 7, a prevalência da
amostra (52%) referiu não ter tido nenhum problema com a justiça, como por
exemplo, ser preso.
Quando questionado a respeito da quantidade de pessoas que o participante
do estudo pode contar em uma situação de emergência, a média foi de 12,2%,
o desvio padrão de 21,88%, sendo que o mínimo foi de 1 pessoa e a máximo
foi de 100 pessoas.
Tabela 1: Distribuição dos participantes quanto à média de idade.
Questão 2 - Idade Média
De / Até
Quantidade
Porcentagem
15-20
4
10
21-25
6
15
26-30
8
20
31-35
9
22,5
36-40
5
12,5
41-45
8
20
Gráfico 1: Distribuição dos participantes quanto ao grau de instrução.
%
Gráfico 2: Distribuição dos participantes quanto ao estado civil.
Gráfico 3: Distribuição dos participantes quanto a renda.
%
Gráfico 4: Distribuição dos participantes quanto a atividade econômica.
Gráfico 5: Distribuição dos participantes quanto a situação de moradia.
%
Gráfico 6: Distribuição dos participantes quanto a participação da família no
tratamento.
Gráfico 7: Distribuição dos participantes quanto a histórico com a justiça.
4.2 Consumo de Substâncias Psicoativas:
Em relação ao consumo de substâncias, todos os participantes eram usuários
de cocaína, podendo também ser usuários de outras drogas como cocaína na
forma de crack, maconha, álcool e etc. De acordo com o gráfico 8, 11% referiu
buscar tratamento para o uso de álcool, cocaína e crack, seguido de 8% que
disseram buscar tratamento para cocaína e álcool, 6% para o uso somente de
crack e a minoria (2%) para o uso somente de álcool. E ainda, como mostra o
gráfico 9, 18% referiram usar maconha regularmente e considerar também um
problema, mas 12% usam regularmente sem pensar em procurar ajuda.
De acordo com a tabela 2, a idade média de experimentação de bebida
alcoólica entre os participantes é de 14 anos, de maconha é de 15,5 anos, de
cocaína é de 17 anos e de crack 22 anos, sendo que 2 participantes nunca
usaram bebida alcoólica, 4 nunca ingeriram maconha e 14 nunca fizeram uso
de crack, mas todos já usaram cocaína.
Gráfico 8: Distribuição dos participantes com relação a procura de ajuda para o
consumo de substância.
Gráfico 9: Distribuição dos participantes com relação ao uso de Maconha
regularmente.
Tabela 2: Distribuição dos participantes quanto à idade que experimentou
bebida alcoólica, maconha, cocaína e crack.
Idade que experimentou pela primeira vez
Nunca usou
Menor
Maior
Média
Bebida Alcóolica
2
05
27
14
Maconha
4
10
27
15,5
Cocaína
0
11
28
17
Crack
14
12
42
22
4.3 Avaliação de Ansiedade e Depressão:
Por fim, em relação à prevalência de comorbidades psiquiátricas na
dependência química, conforme podemos observar no gráfico 10, 40% tem
indicação de ansiedade moderada, enquanto 10% apresenta indicação de
depressão moderada, e ainda 2,5% apresentam indicação tanto para
depressão quanto para ansiedade graves, sendo que 70% não têm indicação
de depressão e 35% não apresentam ansiedade.
Gráfico 10: Distribuição dos participantes com relação à indicação de
Ansiedade e Depressão segundo a escala HADS.
Gráfico 11: Distribuição dos participantes com relação à indicação de
Depressão segundo a escala HADS.
Gráfico 12: Distribuição dos participantes com relação à indicação de
Ansiedade segundo a escala HADS.
5 DISCUSSÃO
O presente estudo buscou mostrar o perfil dos pacientes de dependência
química em tratamento, e se há ou não a prevalência de indicação de
ansiedade e depressão na amostra que foi estudada. A amostra estudada era
de 40 participantes, do sexo masculino em regime de internação em uma
comunidade terapêutica. Foi observado que o perfil sociodemográfico dos
participantes era predominantemente homens com idade média de 32 anos,
com grau de escolaridade baixo estudando apenas até o Ensino Médio
Incompleto, alguns trabalhos mostram que a baixa escolaridade é um fator de
risco para uso de droga, devido ao uso precoce da substância a evasão escolar
é muito frequente entre os dependentes químicos. (Pechansky, Szobot &
Scivoletto, 2004; Schenker & Minayo, 2005). Segundo (Minayo, 2005) a família
está implicada no desenvolvimento saudável, ou não, de seus membros, já que
ela é entendida como sendo o elo que os une às diversas esferas da
sociedade. A linguagem familiar imprime a sintaxe, a semântica e a pragmática
do como se relacionar, interagir e se comportar no seio da cultura. Os estudos
apontam para a complexa influência da família, da escola e do grupo de
amigos no caso da manifestação do uso abusivo de drogas, principalmente na
adolescência.
Concordando com uma vasta gama de trabalhos prévios as prevalências de
indicação para ansiedade e depressão encontrada nessa amostra foi
consideravelmente mais alta que as prevalências populacionais. Verifica-se a
existência de episódios depressivos, por exemplo, associados ao abuso de
substâncias (Bukstein, Brent & Kaminet, 2009; Dilsaver, 2007).
5.1 Perfil Sociodemográfico
A partir dos dados coletados verificou-se uma alta prevalência dos dependentes
químicos com baixa escolaridade. Sendo que a prevalência (27,5%)
apresentou o Ensino médio Incompleto. A baixa escolaridade observada entre
os dependentes químicos é percebida na literatura como um problema grave,
que pode ser decorrente do próprio uso da droga. O início do consumo ocorre
muitas vezes precocemente, contribuindo para a evasão escolar. (Pechansky,
Szobot & Scivoletto, 2004; Schenker & Minayo, 2005). Jovens usuários de
substâncias acabam abandonando o ambiente escolar, não somente para fazer
o uso da droga, mas também motivados pelo baixo rendimento e pela
dificuldade
de
aprendizado,
consequências
dos
prejuízos
cognitivos
desencadeados pelo uso frequente da droga (Pechansky & Cols., 2004;
Tavares, Beria & Lima, 2004). No entanto, mesmo no âmbito educacional
existem fatores específicos que predispõem os jovens ao uso de drogas cada
vez mais precoce, como por exemplo: a falta de motivação para os estudos, o
absenteísmo e o mau desempenho escolar, a insuficiência no aproveitamento e
a falta de compromisso com o sentido da educação; a intensa vontade de ser
independente combinada com o pouco interesse de investir na realização
pessoal a busca de novidade a qualquer preço e a baixa oposição a situações
perigosas; a rebeldia constante associada à dependência a recompensas
(Swadi, 2005), no entanto contrapondo tal informação, alguns autores se
referem à escola como fator de proteção para o não uso de SPA, a escola é um
poderoso agente de socialização da criança e do adolescente, ressaltando
certa mística e identidade do tipo de educandário com o comportamento
daqueles que o frequentam (Klein et al 2004). Por juntar em seu interior a
comunidade de pares e por ter fortes instrumentos de promoção da autoestima
e do autodesenvolvimento em suas mãos, o ambiente escolar pode ser um
fator fundamental na potencialização de resiliência dos adolescentes. (Klein et
al 2004).
Foi observado também que a maioria (83%) conta com o apoio da família
durante o tratamento, a literatura ressalta a importância da família nos diversos
estágios, priorizando a adolescência como o momento mais fértil para o uso
indevido de drogas (M. Schenker, 2009). A família aparece como coautora tanto
no surgimento do abuso de drogas quanto como instituição protetora para a
saúde de seus membros.
Verificou-se também que 65% dos dependentes químicos da amostra são
solteiras, confirmando dados da literatura que apontam a dificuldade que essa
população tem para manter relacionamentos, já que muitas vezes acabam por
reduzir as atividades com a família em favor do uso da substância (Figlie et al
2004). Outro aspecto importante é o alto índice de violência familiar entre a
população usuária de drogas, o que pode ser também desencadeante de
separações (Bonifaz & Nakano, 2004; Rabello & Caldas Júnior, 2007).
Em relação à condição financeira, percebeu-se que a prevalência (40%) não
tinha nenhuma renda ou uma renda baixa de até 2 salários mínimos (30%).
É interessante ressaltarmos que quando questionado a respeito da quantidade
de pessoas que o participante do estudo poderia contar em uma situação de
emergência, a média foi de 12,2%, o desvio padrão de 21,88%, este valor
apresentado se dá em função de dois participantes terem colocado que
poderiam contar com 100 pessoas.
5.2 Histórico de consumo de SPA
O que também foi observado é que a maioria dos dependentes químicos
também faz uso de maconha, e considera isso um problema (70%), conforme a
literatura a prevalência do uso da maconha é superada apenas pela do álcool e
a do tabaco, sendo a droga ilícita mais consumida no mundo, no Brasil em
apenas uma década, a prevalência do uso da maconha entre estudantes
triplicou. A maconha é a droga com maior frequência de uso ao longo da vida,
seguida de longe pelos solventes e a cocaína. (Revista Brasileira de Psiquiatria
2008).
A partir dos dados coletados foi visto que a maior prevalência dos entrevistados
(11%) procura ajuda predominantemente para álcool, cocaína e crack,
mostrando assim uso associado de múltiplas substâncias, de acordo com
alguns autores o álcool é a principal substância combinada no poliuso, sendo
considerada a droga de preferência ou secundária ao uso de outras SPA.
(Azevedo & Oliveira 2012), outros autores afirmam que a interação frequente
de cocaína e álcool chega a ser de 3 a 5 vezes mais nocivo do que as
substâncias isolada ou alternadamente consumidas (Azevedo, 2012). A idade
média dos participantes do estudo que fizeram uso de cocaína era de 17 anos,
dos que usaram crack a idade média de uso era de 22 anos, segundo Dualibi
(2005) O padrão de consumo dos usuários de cocaína e crack em tratamento
parece ser mais pesado em relação aos usuários fora de tratamento. A busca
por tratamento parece ser mais precoce entre os usuários de crack em
comparação aos de cocaína intranasal, ainda segundo Dualibi (2005), dentre
os dependentes de substâncias psicoativas que buscam tratamento, o usuário
de cocaína e crack é o que possui os maiores índices de abandono. Evidências
apontam como fatores preditivos de abandono, a existência de problemas
legais, baixo nível de habilidades sociais, perda dos pais na infância,
diagnóstico de transtorno mental na família e transtorno por dependência de
álcool associado. O usuário de crack parece estar mais propenso ao abandono
de tratamento do que o usuário de cocaína intranasal, os usuários de crack e
cocaína necessitam de abordagens mais intensivas e prolongadas que outros
dependentes de SPA.
5.3 Comorbidades
A presença de comorbidades psiquiátricas é comum entre usuários de
cocaína/crack e agrava o prognóstico de ambas as doenças, o diagnóstico
diferencial das comorbidades se faz sempre necessário. (Laranjeira, 2005).
O estudo da dependência de álcool e outras substâncias, bem como a
manifestação de transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso
de drogas vêm sendo pesquisado há muito tempo (Ross, Glaser & Germanson,
1988). Verifica-se a existência de episódios depressivos, por exemplo,
associados ao abuso de substâncias. Babu e cols. (2009) observaram que
usuários de cocaína/crack podem ter prejuízo no sistema dopaminérgico,
podendo resultar em transtorno de humor em indivíduos com dependência
severa dessa SPA.
Na última década, a coocorrência de transtornos mentais e de transtornos de
humor devido ao uso de substâncias psicoativas é vastamente conhecida na
clínica psiquiátrica (Zaleski & cols., 2006). No estudo de Delbello e Strkowski
(2003), a prevalência de Depressão Maior entre dependentes químicos variou
de 30 a 50%, contrapondo tal informação da literatura nesse estudo realizado
verifica-se que a prevalência mais alta mostrou que 70% da amostra escolhida
não possui indicação para depressão, e 35% da amostra escolhida não possui
indicação para ansiedade. Da mesma forma, em outros estudos tem sido
constatado que os transtornos mais comuns são os Transtornos de Humor
como: a Depressão (Milling, Faulkner & Craig, 1994; Regier & cols., 1990),
tanto uni como bipolar (Hätönen, Forsblom, Kieseppä, Lönnqvist & Partonen,
2008; Ribeiro, Laranjeira & Cividanesi, 2005) e Transtornos de Ansiedade
(Messina, Wish, Hoffman & Nemes, 2001; Watkins, Lewellen & Barret, 2001).
A associação de dois transtornos sugere que uma das patologias possa ter
uma relação causal em relação à outa ou, então, que existiriam fatores de
vulnerabilidade
comuns
às
duas
patologias.
Independentemente
dos
transtornos associados serem anteriores ou posteriores à instalação da
dependência, a detecção precoce desses quadros psicopatológicos contribui
para maior eficácia no tratamento (Silveira & Jorge, 1999). Entretanto conforme
apontado por Carlini e cols. (2007), verifica-se na literatura que a grande
maioria da população de dependentes químicos não tem acesso ao tratamento
adequado.
De acordo com Alpert (2004) estar divorciado, ser solteiro, ter disfunção no
ambiente familiar e doenças psiquiátricas parentais pode ser considerado como
fatores de risco tanto para a dependência de cocaína quanto para o surgimento
da Depressão Maior. No Brasil, estudos sobre comorbidades psiquiátricas em
dependentes de álcool, cocaína/crack e do uso abusivo dessas drogas são
escassos. Ao iniciar o tratamento dessa população pode haver dificuldade na
diferenciação
entre
transtornos
previamente
existentes
e
transtornos
secundários à dependência química devido aos sintomas depressivos,
ansiosos e mania, prevalentes no período de abstinência da droga (Alves &
cols. 2004).
5.4 Limitações do estudo
Considerando que esse estudo teve uma amostra pequena de apenas 40
participantes, os resultados colhidos foram comparados com estudos maiores
já realizados, foram escolhidos apenas participantes do sexo masculino e de
apenas 1 instituição de tratamento. Foi selecionado também apenas 2 tipos de
drogas cocaína e crack, e também apenas as comorbidades psiquiátricas
ansiedade e depressão.
5 CONCLUSÃO
Este estudo buscou verificar se há indicação para ansiedade e depressão em
dependentes de cocaína e crack, considerando que esse estudo teve uma
amostra pequena de apenas 40 participantes, os resultados colhidos foram
comparados com estudos maiores já realizados, foram escolhidos apenas
participantes do sexo masculino e de apenas 1 instituição de tratamento. Foi
selecionado também apenas 2 tipos de drogas cocaína e crack, e também
apenas as comorbidades psiquiátricas ansiedade e depressão.
É interessante ressaltar que ainda há controvérsias na literatura quanto à
prevalência de transtornos psiquiátricos em dependentes químicos. No estudo
de Soares (2003), por exemplo, com indivíduos que apresentavam transtornos
mentais grave com tentativas e ideações suicidas, apenas 7,3% apresentavam
abuso ou dependência de SPA.
A identificação de comorbidades psiquiátricas em dependentes químicos é
importante tanto para o prognóstico quanto para o planejamento e
desenvolvimento de intervenções e tratamentos adequados. Desta forma, o
objetivo deste estudo foi verificar a frequência de comorbidades psiquiátricas
em dependentes químicos em abstinência, em ambiente protegido. Todos os
participantes do estudo eram usuários de cocaína, podendo também ser
usuários de outras drogas como cocaína na forma de crack, maconha, álcool e
etc. Verificou-se que uma alta prevalência dos participantes do estudo relatou
buscar tratamento para o uso do trio: álcool, cocaína e crack, uma quantidade
menor de dependentes de cocaína e álcool referiu buscar tratamento para
estas substâncias, uma prevalência menor ainda de busca para o uso somente
de crack enquanto que para o uso de álcool, há uma baixa procura por
tratamento.
Nossos dados confirmam a literatura que nos mostra que pessoas
dependentes de cocaína e crack, têm a prevalência de Depressão Maior e
Ansiedade de 30 a 50% (Delbello e Strkowski, 2003), a amostra escolhida
apresentou indicação para Ansiedade (65%) e Depressão (30%), considerando
também os índices de depressão e ansiedade no restante da população, que é
maior que da amostra escolhida.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esta
pesquisa
constatou
uma
importante
psiquiátricos nos dependentes químicos
principalmente
de
ansiedade.
Não
prevalência
de
transtornos
que participaram do estudo,
foram
constatadas
diferenças
estatisticamente significativas de estudos anteriores.
Em relação à condição financeira, este estudo constatou que a prevalência não
tinha nenhuma renda ou uma renda baixa de até 2 salários mínimos, isso pode
se dar ao fato do dependente químico apresentar uma grande dificuldade de
assumir responsabilidades assim como de se manter seguindo normas e
regras o que muitas vezes o impede de se manter empregado.
O uso nocivo de SPA foi por muito tempo tratado por meio de ações punitivas
ao invés de preventivas e terapêuticas, sendo a dependência química
considerada como “falha moral” ou “falta de força de vontade”. Entretanto, nas
últimas duas décadas, com o progressivo desenvolvimento dos estudos
científicos, a dependência química passou a ser compreendida como um sério
problema
de
saúde,
que
afeta
o
cérebro
e
consequentemente,
o
comportamento. (Scheffer et al, 2010).
É relevante o conhecimento de alterações emocionais para um melhor
planejamento de programas preventivos e tratamentos, buscando metodologias
mais eficazes para dependentes de drogas. Frequentemente os dependentes
químicos apresentam muita resistência para iniciar e permanecer em
tratamento. Identificando as alterações emocionais, os pacientes poderão
receber um tratamento mais adequado e por vezes até mais eficaz.
Reforçamos a importância de realizações de mais pesquisas focadas nas
comorbidades
que
se
apresentam
simultaneamente
nos
indivíduos
dependentes químicos, haja vista que o tratamento precisa desse diagnóstico
diferencial para que seja realmente mais efetivo.
REFERÊNCIAS
Alpert, J. E., Maddocks, A., Rosenbaum, J. F., & Fava, M. (2004). Childhood
psychopathology retrospectively assessed among adults with early onset major
depression. Journal of Affective Disorders, 31, 165-171.
Alves Hnp, Ribeiro M, Castro Ds. Cocaína e crack. In Diehl A, Cordeiro DC,
Laranjeira R. Dependência química. Porto Alegre: Artmed; 2010. Pg. 170-179.
AMB. Abuso e dependência de cocaína. Projeto diretrizes. São Paulo: AMB,
2012.
American Psychiatric Association (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais – DSM V (5ª ed.) (Maria Inês Corrêa Nascimento et al
Trad.) Porto Alegre: Artmed.
Babu, D. K, Díaz, A., Samikkannu, T., Rao, K. V., Saived, Z. M., Rodrigues, J.
W., & Nair, M. P.(2009).Upregulation of serotonin transporter by alcohol in
human dendritic cells: Possible implication in neuroimmune deregulation.
Alcoholism: Clinical and Experimental Research, 33,1731-1738
Bonifaz, R. G. V., & Nakano, A. M. S. (2004). A violência intrafamiliar, o uso da
droga no casal, desde a perspectiva da mulher maltratada. Revista LatinoAmericana de Enfermagem, vol. 12, pp. 433-438.
Carlini, E. A., Galduróz, J. C. F., Noto, A. R., Fonseca, A. M., Carlini, C. M., &
Oliveira, L. G. (2007). II levantamento domiciliar sobre o uso de drogas
psicotrópicas no Brasil: estudo envolvendo as 108 maiores cidades do País –
2005. Brasília: Secretaria Nacional Antidrogas.
Cordeiro, D. C., & Diehl, A. (2011). Comorbidades psiquiátricas. In A. Diehl,
D. C. Cordeiro, R. R. Laranjeira (Orgs.),Dependência Química: prevenção,
tratamento e políticas públicas (pp. 106-118). Porto Alegre: Artmed.
Cunha, P. J., & Novaes, M. A. (2004). Avaliação neurocognitiva no abuso e
dependência do álcool: implicações para o tratamento. Revista Brasileira de
Psiquiatria, 26, 23-27.
Delbello, M. P., & Strkowski, S. M. (2003). Understanding the problem of cooccuring mood and substance use disorders. Em J. J. Westermeyer, R. D.
Weiss & D. M. Ziedonis (Orgs.), Integrated treatment for mood and substance
use disorders(pp. 17-41). Baltimore: John Hopkins University.
Department Of Health – UK. Mental Health Policy Implementation Guide – Dual
Diagnosis Good Practice Guide. Department of Health, London, 2002.
Duailibi, L. B., Ribeiro, M., & Laranjeira, R. (2008). Profile of cocaine and crack
users in Brazil. Cadernos de Saúde Pública, 24.
Edwards, G., Marshall, J., & Cook, C. (1999). O tratamento do alcoolismo. Porto
Alegre: Artmed.
Figlie, N., Fontes, A., Moraes, E., & Payá, R. (2004). Filhos de dependentes
químicos com fatores de risco bio-psicossociais: necessitam de um olhar
especial? Revista de Psiquiatria Clínica, vol. 31, pp. 53-62.
Flynn PM, Brown BS. Co-occurring disorders in substance abuse treatment:
issues and prospects. J Subst Abuse Treat. 2008; 34(1):36-47.
Hätönen, T., Forsblom,S., Kieseppä, T., Lönnqvist, J., & Partonen, T.
(2008).Circadian phenotype in patients with the co-morbid alcohol use and
bipolar disorders.Alcohol and Alcoholism, 43, 564-568
Messina, N., Wish, E., Hoffman, J., & Nemes, S. (2001). Diagnosing antisocial
personality disorder among substance abusers: The SCID versus the MCMIII
(Structured Clinical Interview for the DSM-III-R, Millon Clinical Multiaxial
Inventory, 2 nd edition). American Journal of Drug and Alcohol Abuse, 27, 699618.
Milling, R. N., Faulkner, L. R., & Craig, J. M. (1994). Problems in the recognition
and treatment of patients with dual diagnoses. Journal of Substance Abuse
Treatement, 11, 267-271.
Pechansky, F., Szobot, C. M., & Scivoletto, S. (2004). Uso de álcool entre
adolescentes:
conceitos,
características
epidemiológicas
e
fatores
etiopatogênicos. Revista Brasileira de Psiquiatria, vol. 26, pp. 14-17.
Rabello, P. M., & Caldas Júnior, A. F. (2007). Violência contra a mulher, coesão
familiar e drogas. Revista de Saúde Pública, vol. 41, pp. 970-978.
Ratto, L., & Cordeiro, D.C. (2004). Principais comorbidades psiquiátricas na
dependência química. Em: S. Bordin, N. B. Figlie & R. Laranjeira (Orgs.),
Aconselhamento em dependência química (pp.167-186). São Paulo: Roca.
Ribeiro M, Laranjeira R, & Cividanes G. (2005) Transtorno bipolar do humor e
uso indevido de substâncias psicoativas. Revista de Psiquiatria Clínica, vol. 32,
pp. 78-88.
Ribeiro C., Kolling N. (2009). Psychiatric comorbidity on cocaine / crackdependent and alcoholics.
Scheffer M., Pasa G. G., Almeida R. M. M. (2010). Dependência de álcool,
cocaína e crack e transtornos psiquiátricos. Psicologia Teoria e Pesquisa, vol.
26, pp. 533-541.
Schenker, M., & Minayo, M. C. S. (2005). Fatores de risco e de proteção para o
uso de drogas na adolescência. Ciência e Saúde Coletiva, vol. 10, pp. 707-717.
Silveira, A. D. X., & Jorge, M. R. (1999). Co-morbidade psiquiátrica em
dependentes de substâncias psicoativas: resultados preliminares. Revista
Brasileira de Psiquiatria, vol. 21, pp. 145-151.
Soares, F. N. (2003). Prevalência de tentativas e ideação suicida em pessoas
com transtornos mentais graves na cidade de São Paulo. Dissertação de
Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo.
Tavares, B. F., Béria, J. U., & Lima, M. S. (2204). Fatores associados ao uso de
drogas entre adolescentes escolares. Revista de Saúde Pública, vol. 38, pp.
787-796.
Zaleski, M., Laranjeira, R. R., Marques, A. C. P. R., Ratto, L., Romano, M.,
Alves, H. N. P., Soares, M. B. M., Abelardino, V., Kessler, F., Brasiliano, S.,
Nicastri, S., Hochgraf, P. B., Gigliotti, A. P., & Lemos, T. (2006). Diretrizes da
Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD) para o
diagnóstico e tratamento de comorbidades psiquiátricas e dependência de
álcool e outras substâncias. Revista Brasileira de Psiquiatria, 28, 142-148.

Documentos relacionados

I Tratamento da Síndrome de Dependência de

I Tratamento da Síndrome de Dependência de O uso de substâncias que estimula o SNC tem aumentado gradativamente, e com isso um envolvimento de profissionais em medidas multidisciplinares psicológicas para o tratamento desta síndrome de depe...

Leia mais