Artigo - Edio 18 - Os Contratos de Franquia

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Artigo - Edio 18 - Os Contratos de Franquia
OS CONTRATOS DE FRANQUIA E A VULNERABILIDADE
DOS FRANQUEADOS
Antônio Cláudio de Figueiredo Demeterco*
Hoje em dia é muito fácil, para quem quiser, tendo algum capital, aderir a um
sistema de franquia, pois as ofertas são múltiplas e os apelos publicitários
bastante convincentes, com perspectivas de ampla rentabilidade, negócio
seguro e marca já consagrada, mas nem sempre as expectativas do
franqueado são efetivamente correspondidas. E, quando isso acontece, o
franqueado lembra então ter recebido uma circular de oferta de franquia - COF
e assinado, sem grande atenção, na maioria das vezes, um contrato de
franquia.
O negócio jurídico do “franchising”, disciplinado pela Lei 8.955/94, contempla
uma diversidade de direitos e obrigações, envolvendo, quase sempre,
licenciamento de uso de marcas, exploração de invenções e/ou modelos de
utilidade, padronização de procedimentos na distribuição e comercialização de
produtos e/ou serviços, adoção de modelos arquitetônicos, orientação
administrativa e suporte operacional. Com relação aos aspectos financeiros,
além da taxa inicial de adesão, o franqueado geralmente desembolsa mês-amês os royalties e contribui para as iniciativas publicitárias.
A contratação é tipicamente de adesão, sendo que o franqueador arroga-se,
muitas vezes, ante a ausência de debate, na qualidade de um “legislador
privado”, fazendo prevalecer seus interesses sobre os franqueados. O artigo 54
do Código de Defesa do Consumidor conceitua os contratos de adesão como
aqueles cujas cláusulas são estabelecidas unilateralmente por uma das partes
sem que a outra possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo. E
essa ausência de negociabilidade e, por conseguinte, de interferência
substancial no conteúdo contratual, confere ao franqueado inquestionável
vulnerabilidade, independentemente de sua qualidade de empresário, seu porte
econômico e/ou aptidões técnicas. É justamente por isso que, mesmo em se
tratando de um contrato interempresarial, faz-se recomendável submetê-lo aos
ditames de ordem pública e interesse social do Código de Proteção e Defesa
do Consumidor, que é um marco legislativo referencial para a disciplina da
matéria contratual como um todo, com exceção apenas para contratações de
caráter trabalhista.
Portanto, não é pelo simples fato de ter sido assinado que o conteúdo
contratual vincula as partes em sua integralidade, até porque, geralmente,
trata-se o franqueado, pelas próprias características do sistema de franquia, de
um “empresário de primeira viagem”. Incorre em abusividade e ilegalidade, por
exemplo, a prática não incomum de transferir para o franqueado as
conseqüências financeiras negativas em caso de rescisão contratual
antecipada com fundamento em inadimplência culposa por parte do
franqueador. E a de impor restrições ao exercício de atividade empresarial
similar (não idêntica) após o término contratual sem bases claras e objetivas de
caráter territorial e temporal. Exemplo não menos expressivo é a imposição de
foro de eleição ou compromisso arbitral que dificulte ao fraqueado o exercício
de seus direitos.
Enfim, a desigualdade entre partes contratantes não pode passar
desapercebida juridicamente. E o primado histórico da força vinculatória dos
contratos implode ante a fragilização que a sociedade de massa atual e a
agilidade de seus negócios impõem ao não menos importante princípio da
liberdade contratual, corolário da autonomia de vontade. Assim, diante de
condições abusivas e desproporcionais, que importem em enriquecimento
ilícito por parte do franqueador, o franqueado poderá pleitear em juízo a revisão
do contrato de franquia ao qual aderiu. E, se for o caso, a sua resilição
unilateral, pleiteando ainda perdas e danos. A posição de hegemonia do
franqueador fica sendo apenas fática, não jurídica, e os contratos de franquia,
desta forma, efetivamente atenderão ao bem comum e aos fins sociais a que
se destinam.
*
Antônio Cláudio de Figueiredo Demeterco é advogado, Mestre em “Direito
Econômico e Social”, Pós-graduado em “Direito Processual Civil”, e professor
de Direito Empresarial da Universidade Tuiuti do Paraná.

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