Obama e o Iraque

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Obama e o Iraque
Obama e o Iraque
Escrito por Bruno Alves
Ter, 29 de Julho de 2008 09:41
Um artigo de Barack Obama (candidato Democrata à presidência americana) no New York
Times
foi
motivo de grande polémica nos EUA. Tudo porque o jornal recusou um artigo de John McCain
(o candidato Republicano) que procurava responder a Obama. Mas mais importante que a
opção editorial do jornal, foi o conteúdo do artigo de Obama, que no meio da confusão, quase
passou despercebido. O que é pena, pois ele mostra bem a razão pela qual uma eventual
vitória de Obama nas eleições de Novembro próximo seriam tudo menos uma boa notícia.
Obama afirma que, ao contrário de McCain, ele não defende o estabelecimento, por parte dos
EUA, de bases militares permanentes como as que ainda hoje existem na Coreia do Sul,
assegurando que a sua vontade é de que os EUA abandonem o Iraque num futuro próximo.
Obama vai ainda mais longe: seguindo a opinião de Nuri Kamal al-Maliki (Primeiro-Ministro
iraquiano), o candidato Democrata compromete-se a, caso venha a ser eleito, definir um
calendário para a retirada americana do país, esperando dessa forma limitar o “overstretch”
das tropas americanas e permitir que o esforço militar se “concentre” em locais como o
Afeganistão.
A posição de Obama é semelhante àquela que foi expressa há uns anos pelo Iraq Study
Group
,a
comissão à qual Bush pediu uma revisão da estratégia para o Iraque, e cujas recomendações
ignorou. E ignorou bem, pois longe de serem uma solução para o problema, elas tenderiam a
agravá-lo, tal como aquilo que Obama propõe. Pois se o candidato Democrata tem razão
quanto aos custos da permanência americana no Iraque, não há nada no seu artigo que mostre
que ele tem consciência dos custos de uma eventual retirada. Em primeiro lugar, a violência
não diminuiria. A guerra civil continuaria, e provavelmente, sem a presença militar americana,
agravar-se-ia, tornando-se num conflito aberto. Num conflito que, em última análise, se
arrastaria pela região. A maioria xiita teria certamente o apoio do Irão. Mesmo as por vezes
citadas inimizades entre o xiismo árabe (iraquiano) e o xiismo persa dos iranianos seriam
irrelevantes, à luz do interesse estratégico de tal apoio. Como escrevia há tempos, na revista
britânica
The Spectator
, o jornalista Fraser Nelson, tal proximidade faria do Irão uma superpotência xiita. Uma
superpotência regional, que seria uma ameaça para a sunita Arábia Saudita, que, como
afirmava um funcionário britânico citado por Nelson, não poderia ficar a assistir à criação de um
protectorado iraniano. Quer numa partilha do Iraque por três estados independentes (o cenário
comentado por Nelson), quer na manutenção de um único estado (mesmo que federal), o
confronto entre as três facções seria inevitável. O interesse na questão forçaria o Irão a
participar, e a participação iraniana arrastaria consigo a intervenção saudita. A questão curda,
especialmente no caso de o Curdistão se tornar um estado independente, arrastaria a Turquia,
causando, no mínimo, um conflito no seio da NATO (talvez com a saída da Turquia, criando um
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novo problema geoestratégico para os EUA e os países europeus). Tudo com Israel ali ao lado,
podendo ser a todo o momento arrastado para o conflito, o que acabaria por, forçosamente,
trazer consigo um regresso dos EUA ao Médio Oriente. Para fugirem a um suposto “novo
Vietnam”, os EUA deixariam no Médio Oriente uma espécie de “I Guerra”, em que o conflito
num país, e o interesse de cada uma das potências regionais nesse conflito, as arrastaria para
um confronto em larga escala.
O leitor dirá que exagero. Talvez. Mas a retirada do Iraque colocaria em perigo os soldados
americanos que estariam a retirar no situação mais perigosa que aquela que enfrentam agora,
e colocariam os cidadãos americanos (e os dos países europeus) em risco de sofrerem novos
atentados. Como explicou Paddy Ashdown, antigo líder dos Liberais-Democratas britânicos, e
um insuspeito crítico da intervenção americana, o anúncio de uma retirada imediata provocaria
um aumento da violência, direccionada contra as tropas, num momento em que estas estão
mais vulneráveis (segundo Ashdown que tem alguma experiência nestas questões, o momento
da retirada é, pela própria natureza da operação, o momento em que estas estão mais
vulneráveis a ataques, e em que estes podem causar mais baixas). Quanto aos cidadãos
americanos e dos países europeus, e a um maior risco de atentados terroristas, basta lembrar
as palavras de Bin Laden, que vê os infiéis como um “cavalo cansado” incapaz de lutar, que
tudo cede, mal vê um soldado a morrer. Retirar do Iraque por não se conseguir lidar, no
terreno, com a violência, e em casa, com as imagens que chegam do terreno, seria confirmar a
ideia de Bin Laden. O que só incentivaria os que o seguem a insistirem, a provocarem mais
medo, mais mortes, para empurrar o Ocidente cada vez mais para fora do barco. Por todas
estas razões, sair do Iraque, agora, acabaria por ser contraproducente.
O conteúdo do artigo é significativo ainda noutra medida: uma curta reflexão sobre o dito, e
sobre o “fenómeno Obama”, mostra como o candidato Democrata se condenou a si próprio ao
fracasso. Durante meses, as “previsões” acerca das eleições presidenciais americanas de
2008 eram as mesmas, viessem de onde viessem: nos Republicanos, a escolha do candidato
nomeado seria uma lotaria, mas nos Democratas, Hillary Clinton nem sequer precisaria de
fazer campanha. De repente, a coisa começou a correr mal, e Barack Obama tornou-se o
“moço fofo” de todos. Gente inteligente como Andrew Sullivan e Fareed Zakaria entusiasma-se
com a figura e a personalidade do “candidato da esperança”, como lhe chamava a The
Economist
.
E de facto, uma vitória de Obama em 2008 dava uma boa primeira página de jornal: um
presidente afro-americano, com família muçulmana, vende mais jornais que um branco
cinquentão, e, como diz o
meu colega no Insurgente, André Amaral
, seria o portador da melhor mensagem que a América poderia transmitir a um miúdo no
Paquistão: até alguém como ele pode chegar a Presidente. E depois, com Obama vem uma
mensagem de mudança, de uma outra geração com outras preocupações que não a discussão
do Vietnam até à eternidade. Duvido, no entanto, que todo este entusiasmo seja merecido.
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Porque se a vitória de Obama seria uma boa capa de revista, o que viesse a sair da sua
presidência talvez não o fosse, ou talvez não o fosse pelas melhores razões. E basta pensar o
que propõe Obama para o Iraque: a retirada imediata das tropas americanas. Depois de
prometer isto nas eleições, Obama tem dois caminhos: ou cumpre, ou finge que esquece a
promessa, que seria aliás cada vez menos repetida até Novembro, caso fosse o noemado
pelos Democratas. A cumprir a promessa, conseguiria obter apenas e só um resultado: uma
carnificina no Iraque. No entanto, alguns dirão, uma vez chegado à Casa Branca, o
inexperiente Obama tomaria consciência das escolhas complicadas que têm de ser feitas, e
perceberia que não poderia cumprir a promessa. Mas a ser assim, muito rapidamente Obama
queimaria a “esperança” na sua pessoa: ao ignorar uma promessa eleitoral tão relevante como
esta, Obama estaria a mostrar que, afinal, é apenas um “político” como “os outros”, preocupado
em ser eleito e capaz de, “como Hillary Clinton ou Mitt Romney”, dizer o que for preciso para o
conseguir. Ao esquecer essa promessa, Obama mostraria que em nada difere do establhismen
t
de
Washington que tanto diz desprezar. Se a cumprir, será o responsável por uma desgraça. Faça
o que fizer, a “esperança” que hoje se deposita nele será, uma vez eleito, sol de pouca dura.
Originalmente publicado no site: http://www.desesperadaesperanca.com/
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