abraham ramiro bentes - Portal Amazonia Judaica

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Rebi Abraham Hamú Z"L: O legado de Nosso Chacham (Parte II)
Por Yehuda Benguigui
“... nós, judeus originários da maravilhosa Castilla
espanhola, que ocupávamos desde os idos do Segundo
Templo..., uma tradição enraizada na memória de
nosso povo, conta que nossos longínquos ancestrais
vindos do Oriente, fundaram a cidade de Cádiz, em
lembrança de Kadesh-Barnéa, ...posteriormente
habitando o Império Fortunato do Marrocos...”
Abraham S. Hamu (a)
Era impressionante a erudição do Reverendo Abraham Hamu z’l. Suas drashót - palestras e seus
escritos, sempre trazendo “chidushim”- aspectos inéditos de reflexão histórica e ensinamentos,
sempre manifestando autêntico orgulho por sua origem dos exilados de Castilla e da ancestral terra
do Marrocos, onde forjou sua formação Rabínica dentro dos valores morais e espirituais do
judaísmo sefaradí.
A família Hamu chegou em Belém em 1966. Inicialmente, vieram D. Estrella Gabbay Hamu e seus
filhos Menassé Hamú e Ruth Hamu. O Rabino, veio somente alguns meses depois, em 1967. A
família permaneceu em Belém até Dezembro de 1968, quando o Rabino concluiu sua primeira
shelichut - missão, em Belém. Na verdade, seu afastamento dessa kehilah - comunidade, foi
transitório. Poucos anos depois ele regressaria e nunca mais se afastaria, passando a dedicar-se
inteiramente à esta comunidade. Vejamos nas palavras de D. Estrella, as reminiscências desses
primeiros tempos da chegada em Belém (b): “...quando chegamos ao Brasil, vim com meus filhos
Menassé e Ruth. Ambos, imediatamente se integraram à comunidade.
Menassé, deu aulas à vários jovens, ensinando Mishná - parte do Talmud, Mussár - ética judaica e
Halachót - leis e costumes. Nessa época, ele assessorou aos líderes comunitários na construção do
que seria o segundo Mikve construído em Belém, nas dependências da Sinagoga Shaar Hashamaim,
(consta que o primeiro Mikve foi construído pelo Sr. Elias Leão Israel z’l em sua propriedade, na
Tv. Padre Prudêncio, nos anos 30 - que posteriormente entrou em desuso - c,d). Juntamente com o
Prof. Leon Bengió, estabeleceu uma Sinagoga - Escola, que chamaram de Beit Hayeladim - Casa da
Infância, que funcionou mais de um ano, no salão aos fundos da Esnoga Eshel Abraham. Foi
interessante, que vários jovens que por ali passaram, vieram a se tornar hazanim - oficiantes e até
Rabinos... (e).
Ruth, logo foi contratada como professora de hebraico, em Curso mantido pela Sinagoga Shaar
Hashamaim, nas salas anexas ao salão da sinagoga, sob a liderança e direção do Dr. Isaac Elias
Israel. Ela também era uma entusiasta das atividades da juventude, que nessa época se congregava
em volta do Grêmio Azul e Branco e que era liderado pelo Prof. Leon Bengió. Ruth teve o
privilégio de participar como Madrichá da primeira Machané Gan Israel realizada em Belém em
Janeiro de 1968, no que foi uma atividade precursora da fundação do Grupo Kadima (f).
Meu marido, o Rabino Alav Hashalom - que sua alma repouse em paz, veio depois, pois, pelas
circunstâncias, tínhamos que sair do Marrocos, “sem alarde”, para facilitar nosso translado, e assim
foi feito...
Logo que cheguei com meus filhos, quem me acolheu, com grande carinho e incomparável
dedicação, foram meus queridos cunhados Messod e Alice Benzecry z’l. Me recordo que eles
tinham o cuidado de providenciar para nós carne Kasher, muito difícil naquela época em Belém, e
que era preparada em potes de vidro, na forma tradicional marroquina de “alhalé”- carne frita para
conservar. Posteriormente, estivemos com nosso outro cunhado, Charles Shalom Hamu z’l, quem
também nos hospedou alguns meses, até que alugamos uma casinha lá na Rua Veiga Cabral,
próximo da São Pedro, e ficamos vizinhos de teus queridos pais Moyses e Esther Benguigui z’l, e
também recordo com carinho teus irmãos e irmãs, dos quais ficamos amigos...
Jacob e Helena Benzecry e Samuel e Merita Benzecry, meus sobrinhos, nos levavam todo domingo
muito cedo ao sítio, praias ribeirinhas e balneários e voltávamos já ao entardecer, cansados, mas
eufóricos... sem esquecer o engenheiro Judah Eliezer Levy z’l e seu distinto irmão Samuca z’l. Eles
nos levavam ao Lago Azul, onde passávamos horas de muito lazer. Tudo isto, me ajudava a
suportar a separação e a mudança tão brusca de vida, o clima, a língua, os costumes, hábitos
alimentares, sem falar na família, amigos, etc...
Isaac Israel e familia, até hoje amigos de todas as horas, Jayme Bentes z’l, Isaac Barcessat, Ramiro
Bentes, Oro Serruya, todos apoiaram meu marido em seus empreendimentos em diferentes
momentos e fases de sua vida em Belém...
Mas, certamente não me recordei e nem mencionei a todos, pelo que me desculpo, pois na verdade,
Belém, é uma família e todos, todos nos rodearam de cálida amizade...” (b).
O Rabino Hamu z’l, nessa primeira shelichút em Belém, ademais de assumir a condição de líder
espiritual, dedicou-se a implantação da carne kasher na comunidade. Foi uma tarefa que contou com
inúmeros aliados, mas é importante ressaltar-se o papel da liderança comunitária representada pelos
dirigentes do Centro Israelita do Pará. O Sr. Jayme B. Belicha z’l, apoiou decisivamente, facilitando
a instalação do açougue Kasher em local de sua propriedade e que pôs a disposição da comunidade
durante muitos anos.
Imediatamente, os membros da kehilah e em particular os frequentadores da Shaar Hashamaim,
podiam deleitar-se com os ensinamentos do Rebi Hamú. Suas drashót- palestras com um profundo
conteúdo, cheias de analogias e citações talmúdicas e de midrashim.
Seus escritos, também se constituiram em peças de extraordinária profundidade, onde os valores
morais, espirituais e históricos da rica tradição sefaradita-marroquina, sempre foram uma constante.
Estamos neste momento tentando recuperar suas drashót e artigos publicados de diferentes formas
ao longo dos anos, que se constituirão em um futuro trabalho, com vistas a preservar às futuras
gerações, o legado deixado pelo Rebi Hamu z’l.
Em Dezembro de 1968, a família decidiu radicar-se em São Paulo e o Rabino os acompanhou. Foi
contratado pela Congregação Sefaradí Mekór Chaim. Ademais das tarefas de líder espiritual,
estabeleceu um açougue na mesma Mekor Chaim e atuava como shochet, na equipe responsável
pelo abate de carne para Israel. Nessas atividades, trabalhou cerca de dois anos, quando foi
contratado pela comunidade judaica de Belo Horizonte, onde também permaneceu por cerca de dois
anos nas funções de Rabino e líder espiritual, constituindo-se em um apoio decisivo na
consolidação dessa comunidade, em um momento crucial de seu desenvolvimento. É interessante,
que mesmo com suas responsabilidades comunitárias no ishuv mineiro, nunca deixou de atender
aos pedidos de seus irmãos descendentes marroquinos da comunidade judaica do Pará. Sempre que
chamado para celebrar casamentos, oficiar cerimônias de Bar Mitzvah ou apoiar nos Yamim
Noraim, ele sempre respondia presente, pois naquela época, a comunidade não dispunha de rabino...
Nesse período, teve o zechut - merecimento, de ver casar seu filho Menassé com Ruth Weill, na
França, em 20 de outubro de 1970 e posteriormente, sua filha Ruth Hamu, casou-se com José
Shalém z’l, que era natural de Alepo, Síria, casou-se na Sinagoga Mekór Chaim, em São Paulo, em
26 de setembro de 1971, com a cerimônia sendo organizada e o casamento celebrado inclusive com
a leitura da Ketubah, pelo próprio Rabino Hamu, que com indisfarçável orgulho e satisfação,
conduziu a noiva até a Chupá e em seguida, assumiu as funções de oficiante.
Com a partida do Rabino Yossef Ohana, que esteve como líder espiritual da comunidade por cerca
de dois anos e meio nos anos 1973 a 1975, a Diretoria do Centro Israelita do Pará, na época
presidida pelo Dr. Jayme Bentes z’l, volta a contatar o Rebí Hamu, propondo ao mesmo que venha
uma vez mais atuar como Rabino e líder espiritual da comunidade. O Rebí Hamu imediatamente
atende ao chamado, mas desta vez deixando sua família radicada em São Paulo, a esta altura D.
Estrella já acompanhando sua filha Ruth, que começava a dar-lhe suas netas...
Veio cheio de garra, sendo um batalhador incansável de temas como kashrút, o respeito nos
cerimôniais, atos litúrgicos e laicos. Lembro-me com carinho que em minha formatura no Curso de
Medicina pela Universidade Federal do Pará, em Dezembro de 1975, quando alguns judeus nos
graduamos (ademais do subscrito, Samuel David Nahon e Paulo Roffé), convidamos o Rabino
Hamu para participar da “benção dos anéis” no Teatro da Paz. Ele foi e sua participação foi
memorável, dando uma demonstração extraordinária de erudição, conhecimento e incrível
sensibilidade, brindando os colandos com exemplos baseados na Torah e no Talmud enquanto a
ética e princípios da boa prática médica.
Vários dos escritos do Rebí Hamu, eram exatamente acerca dos ensinamentos das halachót regulamentações, segundo os minhaguim- costumes dos judeus oriundos do Marrocos.
Uma das pérolas de seus escritos, foi o intitulado “Lag Baómer e Shabuót na Terra Ancestral”(g),
do qual registramos algumas passagens:
“... quando a sefirah - contagem do Ómer, que vai do segundo dia de Pessach até a véspera de
Shabuót - o judeu marroquino tem sua atenção à comemoração de Lag Baómer - o 33 da Contagem
do Ómer, que corresponde ao dia da Hilulah - Recordação de Rebi Shimon Bar Yochay, Zichronó
Tzadik Librachá- Justo de Abençoada Memória.
No império fortunato do Marrocos, as celebrações são feitas no Kivrei Hatzadikim - nas sepulturas
dos Justos e Santos. Mais de cem mil dos cerca de trezentos mil judeus que viviam no Marrocos, na
época de minha infância, iam zorear - visitar, rezar nos lugares santos.
... as autoridades locais também faziam questão de prestigiar a Hilulah, acendendo velas e fazendo
contritos suas orações. Outro costume que segue até os dias de hoje, era o de jogar as caixas de vela
ainda fechadas, formando uma labareda que atingia metros de altura, enquanto os Rabinos mais
distinguidos dirigiam o culto, proferindo berachot e “mishaberach”- bençãos aos presentes e às
autoridades presentes...
... da mesma forma que a mulher judia deve satisfazer a contagem de sete dias de purificação, após
o fim de seu ciclo, o Povo de Israel deve preparar-se, a partir do amanhecer da Festa dos Ázimos,
observando o mesmo prazo, mas na base da sintonia do plano Divino que é sétuplo, o que dá 7x7 =
49, o 7 simbolizando o Divino no plano fenomenal, e o quadrado 7x7, o Divino no plano imaterial.
Assim, em cada semana da “Sefirah” (escala da manifestação), o fiel deve realizar a “ascensão”no
sentido de baixo para cima, começando por “Malchut”, e atingindo no 49º, o Dia de “Hessed”. Do
“Hessed”, o sétimo degrau da sétima “Sefirah”, pode alcançar no 5o. Dia, de “Matan Torah” o 50º,
que corresponde ao Arcanjo da Sapiencia e da Santidade...” (g).
Referências Bibliograficas
a) Hamú, Abraham S. – “Ben Hamessarim na Terra Ancestral: Lembranças da Infância”, em:
“Hamerkaz- Orgão Informativo do Centro Israelita do Pará”, Ano II, Número 8, Fevereiro
de 1988/Shevat 5748, Belém, Pará.
b)- Hamú, Estrella Gabbay- “Entrevista e exame de acêrvo de documentos
alusivos à familia Hamú”, Agôsto de 2003, São Paulo, Brasil.
c)- Benguigui, Yehuda – “Eliahu Yehuda Yisrael- Tzadik Gamúr”, em: “Jornal
Amazônia Judaica”,Ano II, número 19, Belém, Pará, Novembro 2003.
d)- Israel, Isaac Elias – “Entrevista, depoimentos e exame de acervo histórico
familiar”, Belém, Pará, Março 2003.
e)- Serruya, Abraham & Benguigui, Yehuda – “Apêlo aos Jovens – Sinagoga Beit
Hayeladim”, em Jornal Azul e Branco, Ano I, Número 1, Abril 1966, Belém Pará.
f)- Benguigui, Yehuda – “Machané Kislanov- A História da Primeira Machané
Gan Israel, precursora do Grupo Kadima”, Ano I, Número 5, Agôsto 2002,
Belém, Pará.
g)- Hamú, Abraham S.- “Lag Baómer e Shabuót na Terra Ancestral”, Em:
Hamerkaz, Orgão informativo do Centro Israelita do Pará, Ano I, Número 5,
Junho/Julho 1986, Sivan/Tamuz 5746, Belém, Pará.