evolução dos sintomas de pinta preta durante o período de

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evolução dos sintomas de pinta preta durante o período de
EVOLUÇÃO DOS SINTOMAS DE PINTA PRETA DURANTE O PERÍODO DE
MATURAÇÃO DE FRUTOS DA LARANJEIRA ‘VALÊNCIA’ SOB CULTIVO
AGROFLORESTAL
2,3
1
1
3
Mateus Pereira Gonzatto , Alisson Pacheco Kovaleski , Bruno Casamali , Flávia Comiran ,
3
4
Bruna Maria Machado Heckler , Willian Heintze¹, Renar João Bender , Sergio Francisco
4,5
Schwarz
1
2
Aluno do curso de Agronomia FA/UFRGS, Bolsista Iniciação Científica; Eng. Agrônomo, Estação
3
Experimental Agrônomica/UFRGS, BR 290, km 146, Mestrando do PPG em Fitotecnia/UFRGS;
4
Eng. Agr., Dr., Professor do Departamento de Horticultura e Silvicultura, PPG em Fitotecnia/UFRGS,
5
Autor para correspondência: [email protected]
1. RESUMO
Os sistemas agroflorestais podem beneficiar as plantas cítricas devido ao sombreamento moderado.
A pinta preta dos citros é uma doença que afeta a produção e qualidade de frutas cítricas. Objetivouse, neste trabalho, avaliar o progresso da doença durante a maturação de frutos de laranjeira
‘Valência’ sob sistema agroflorestal (SAF) em relação àqueles a pleno sol (PS). O experimento foi
conduzido no município de Tupandi-RS, com plantas de laranjeira ‘Valência’, enxertadas sobre
Poncirus trifolita, manejadas em sistema orgânico. Utilizou-se o delineamento experimental
completamente casualizado, com dois tratamentos, quatro repetições e quatro plantas por unidade
experimental. Avaliou-se incidência e severidade dos sintomas de pinta preta em 40 frutos por
unidade experimental. Os valores de incidência e severidade dos sintomas foram menores durante
toda a maturação dos frutos em SAF, sendo que a incidência foi reduzida em 17% e a severidade em
45% no momento da colheita.
Palavras-chaves: Citrus sinensis (L.) Osb., sombreamento, Guignardia citricarpa Kiely, sistema
agroflorestal.
2. INTRODUÇÃO
Devido aos benefícios fisiológicos do sombreamento moderado (Cohen et al., 1997; Jifon e
Syvertsen, 2001, 2003), a produção de plantas cítricas em sistemas agroflorestais (SAFs) pode ser
uma alternativa interessante para a produção de citros em sistema orgânico. O incremento de
biodiversidade pode, através da alteração das condições microclimáticas, modificar a interação das
plantas com microorganismos patogênicos, modificando a expressão dos sintomas e dos danos
conseqüentes.
A pinta preta dos citros (“Black spot”), também conhecida como mancha preta, é uma das principais
doenças que afetam a produção de citros, podendo ocasionar quedas pré-colheita superiores a 80%
dos frutos além de grande impacto na redução da qualidade comercial dos mesmos (Aguilar-Vildoso
et al., 2002). Esta doença é causada por Guignardia citricarpa Kiely (Phyllosticta citricarpa (McAlp)
van der Aa.) que é enquadrada como praga quarentenária A2 (BRASIL, 1999). Percebe-se uma maior
ocorrência de sintomas na face dos frutos exposta à radiação solar direta.
Sendo assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar o progresso da doença durante a maturação dos
frutos de laranjeiras ‘Valência’ cultivadas sob sistema agroflorestal em relação às cultivadas em pleno
sol (PS).
3. METODOLOGIA
O experimento foi conduzido no município de Tupandi, no Vale do Rio Caí, região tradicional da
citricultura do RS. Foram utilizadas plantas de laranjeira ‘Valência’ (Citrus sinensis (L.) Osb.),
enxertadas sobre Poncirus trifoliata (L.) Raf., cultivadas em sistema agroflorestal (SAF) e em pleno
sol (PS). No SAF, as laranjeiras encontravam-se em sub-bosque, sombreadas por árvores nativas,
principalmente angico-vermelho (Parapiptadenia rígida (Benth.) Brenan). Esse dossel superior
atenuou a radiação fotossinteticamente ativa incidente no topo das plantas cítricas de 15 a 30%.
Ambos os tratamentos encontram-se em cultivo orgânico, sem aplicação de nenhuma calda desde
2003 e sem adubações desde 1996.
Avaliaram-se os frutos cítricos quanto à incidência (% de frutos com sintomas) e à severidade
(intensidade dos sintomas) na safra de 2008. A avaliação da incidência foi realizada em cinco épocas,
de 11 de junho a 8 de outubro, procedendo-se a contagem de 40 frutos por unidade experimental, no
terço médio da copa. A severidade foi avaliada em quatro épocas, de 11 de julho a 8 de outubro,
juntamente com a avaliação da incidência segundo escala descritiva, pelas notas que variaram de 0 a
5, onde: 0 = ausência de sintomas; 1 = ocorrência de até duas manchas; 2 = ocorrência de 2 a 4
manchas; 3 = ocorrência de até 4 a 8 manchas; 4 = ocorrência de 8 a 16 manchas; 5 = ocorrência de
número de machas superiores a 16. Posteriormente os dados foram relacionados em função do
tempo, em dias após a plena queda de pétalas (DAPQP), que ocorreu em 7 de setembro de 2007.
Utilizou-se o delineamento completamente casualizado, constando de dois tratamentos (SAF e PS) e
quatro repetições, com quatro plantas por unidade experimental. Os dados foram submetidos à
análise de regressão e análise de variância não-paramétrica (teste de Kruskal-Wallis), dentro de cada
data de avaliação.
4. RESULTADOS E REFLEXÃO
Tanto a incidência como a severidade de sintomas de pinta preta em frutos, em praticamente todas
as datas avaliadas, foram afetadas pelos tratamentos (Figuras 1 e 2). A incidência seguiu um
comportamento logístico (Figura 1), enquanto a severidade teve um comportamento linear crescente
(Figura 2).
O cultivo sob SAF obteve menores valores de incidência e severidade durante toda a maturação de
frutos. Na colheita dos frutos (08/10/2008), a incidência média variou entre 91,2% a pleno sol e 75,4%
no SAF, e a nota média de severidade variou 3,5 a 1,9, para PS e SAF, respectivamente. Apesar dos
valores absolutos serem bastante altos, a redução propiciada pelo cultivo em SAF foi significativa,
sendo de 17% na incidência e 45 % na severidade, na última data de avaliação.
O efeito do SAF sobre a redução dos sintomas da doença em frutos se deve, muito provavelmente, à
redução da radiação solar incidente diretamente sobre os frutos e à atenuação da temperatura,
devido ao sombreamento dos angicos sobre a copa da planta cítrica. Outro fator seria o processo de
maturação mais tardio que ocorre nos frutos de laranjeira ‘Valencia’ sob SAF, conforme descrito
anteriormente por Gonzatto et al. (2008). Esses fatores unidos tendem a desfavorecer a expressão
dos sintomas, reduzindo por conseqüência a queda pré–colheita de frutos.
Ressalta-se que, para um incremento na qualidade dos frutos colhidos, deve-se aperfeiçoar a
estratégia de controle atualmente empregada, através de tecnologias compatíveis com a filosofia de
baixo impacto ambiental do sistema e sem aumentar consideravelmente a demanda por mão-deobra.
5. CONCLUSÕES
O Sistema Agroflorestal é capaz de reduzir a incidência e severidade de sintomas de pinta-preta em
frutos de laranjeiras ‘Valência’, principalmente devido às alterações micrometeorológicas e do
processo de maturação dos frutos.
6. RELAÇÃO DO TRABALHO COM A SUSTENTABILIDADE
O conhecimento do efeito do sistema de cultivo agroflorestal sobre a ocorrência de sintomas de pintapreta em frutos de plantas cítricas auxilia a validar este sistema de produção altamente sustentável
como tecnologia em nível científico.
7. AGRADECIMENTOS
Ao PPG Fitotecnia, ao CNPq e a PROPESQ/UFRGS pelo auxílio financeiro e suporte estrutural. À
Cooperativa Ecocitrus e, em especial, ao Sr. Inácio Rohr e família.
8. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Aguilar-Vildoso, C. I.; Ribeiro, J. G. B.; Feichtenberger, E.; Góes, A.; Spósito, M. B. Manual Técnico
de procedimentos da mancha preta dos citros. Brasília: MAPA: DAS: DDIV, 2002.
Brasil. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa DAS 38, de 14 de
outubro de 1999. Estabelece a lista de pragas quarentenárias A1, A2 e as não quarentenárias
regulamentadas. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 26 out. 1999.
Disponível
em:
<http://www.institutohorus.org.br/download/
marcos_legais/Instrucao_Normativa_SDA_n_38_de_14_de_Outubro_de_1999.htm>. Acesso em: 14
de abril de 2009.
Cohen, S.; Moreshet, S.; Le Guiollou, L.; Simon, J-C.; Cohen, M. Response of citrus tree to modified
radiation regime in semi-arid conditions. Journal of Experimental Botany, v.48, n. 306, p. 35-44, 1997.
Gonzatto, M. P. ; Schwarz, S. F. ; Kovaleski, A. P. ; Heckler, B. M. M. ; Comiran, F. ; Bender, R.J. .
Comportamento da maturação de frutos de laranjeira Valência cultivada sob sistema agroflorestal. In:
XX Congresso Brasileiro de Fruticultura, 2008, Vitória, ES. Anais do XX Congresso Brasileiro de
Fruticultura. Vitoria, ES : DCM/Incaper, 2008
Jifon, J. L.; Syvertsen, J.P. Effects of moderate shade on citrus leaf gas exchange, fruit yield, and
quality. Proceedings of the Florida State Horticultural Society., v.114, p. 177-181, 2001.
Jifon, J. L.; Syvertsen, J.P. Moderate shade can increase net gas exchange and reduce
photoinhibition in citrus leaves. Tree Physiology, v.23, p. 119-127, 2003.
Figura 1. Evolução da incidência de sintomas de pinta-preta (Guignardia citricarpa) em frutos de laranjeira ‘Valência’ cultivada
sob sistema agroflorestal (SAF) e a pleno sol (PS), durante o período de maturação dos mesmos, na safra 2008. Tupandi, RS.
(DAPQP, dias após a plena queda de pétalas (07/09/2007); ns, não significativo; *, P<0,05).
Figura 2. Evolução da severidade de sintomas de pinta-preta (Guignardia citricarpa) em frutos de laranjeira ‘Valência’ cultivada
sob sistema agroflorestal (SAF) e a pleno sol (PS), durante o período de maturação dos mesmos, na safra 2008. Tupandi, RS.
(DAPQP, dias após a plena queda de pétalas (07/09/2007); **, P<0,01).

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