Adm. Idalberto Chiavenato

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Adm. Idalberto Chiavenato
ENTREVISTA
POR_MARA ANDRICH
Visão
ESTRATÉGICA
PARA O PROFESSOR ADMINISTRADOR IDALBERTO CHIAVENATO, REFERÊNCIA
NA ÁREA DE ADMINISTRAÇÃO NO BRASIL, AS EMPRESAS DEVEM PRIORIZAR AS
PESSOAS E O ADMINISTRADOR DEVE SER UM GRANDE ESTRATEGISTA
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As empresas mais
bem-sucedidas põem
as pessoas em primeiro
lugar – e antes mesmo
dos clientes –, pois elas,
quando engajadas,
irão encantar e reter
os clientes”
cipalmente em RH, o professor também
Além de tecer críticas ao governo
tem formação em Filosofia e Pedagogia,
atual, Chiavenato acredita que quem
outras duas áreas do conhecimento
governa deve ser um Administrador e
que lhe proporcionaram vivência e ati-
estrategista, e não apenas um político.
tude para desenvolver seus trabalhos
Para os Administradores que estão
bem-sucedidos na Administração.
iniciando a carreira, o professor aler-
O professor acredita que o ensino da
ta: é preciso um misto de percepção
Administração no Brasil deve ser rein-
crítica que envolva visão sistêmica –
ventado, tornando o aluno participante,
ver o todo e não apenas uma de suas
ativo e proativo, e não apenas um es-
partes; visão periférica – sair da caixa
É
pectador. “O importante é que o novo
e entrever o que está fora dela ao seu
assim que o professor Idalberto
Administrador seja preparado com
redor; e visão antecipatória – entrever
Chiavenato, referência na área
ferramental
adequado
as decorrências ou consequências fu-
da Administração no Brasil, de-
para constituir um agente de mudança
turas das suas decisões atuais. “Tudo
fine o sucesso de uma corporação. Além
organizacional a partir de uma visão
isso ao mesmo tempo, como se tivesse
de ter ampla experiência na área, prin-
crítica e sistêmica”, alerta.
três visões simultâneas.”
RBA | REVISTA BRASILEIRA DE ADMINISTRAÇÃO
cognoscitivo
Divulgaçã
Div
ação
o
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Entrevista
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ADMINISTRAÇÃO (RBA): Um dos
grandes temas tratados hoje é
como as organizações bem-sucedidas se mantêm bem, o que fazem em meio a crises etc. Agora,
por exemplo, vemos grandes empresas (como as montadoras de
veículos) demitindo muita gente
por conta de vários problemas. O
que o senhor considera primordial para que as empresas se mantenham bem? Quais os principais
pecados dos empresários, hoje?
IDALBERTO CHIAVENATO (IC):
Em primeiro lugar, meus cumprimen-
lidade – precisa caber em um esque-
vemos tanta gente insatisfeita
ma de integração e alinhamento para
tos a todos os leitores da Revista RBA.
com o trabalho? O que as empre-
É sempre um imenso prazer estar em
alcançar determinados objetivos co-
sas, por um lado, podem fazer
contato. O fato é que estamos viven-
muns. Contudo, as pessoas precisam
para segurar mais funcionários
do uma era de intensas mudanças,
receber algo em troca, como retorno de
bons e satisfeitos e, de outro lado,
que envolvem transformações, tanto
seus investimentos pessoais ou coleti-
como o funcionário também deve-
positivas como negativas, em um flu-
vos na atividade organizacional. Esse
ria agir pra estar nessa situação?
é o segredo para não somente reter
IC: RH trata de gente, de suas com-
talentos e capital humano, mas, prin-
petências e realizações. Na verdade,
cipalmente, para encantar e engajar
organizações e empresas são enti-
pessoas – o parceiro mais importante
dades fictícias que ocupam certo es-
do negócio, aquele que define o suces-
paço e tempo. Elas são constituídas
so ou fracasso do empreendimento.
de conjuntos integrados de pessoas
Tanto que as empresas mais bem-su-
que utilizam recursos para trabalhar.
cedidas põem as pessoas em primeiro
Podem até mesmo ter um endereço
lugar – e antes mesmo dos clientes –,
físico ou virtual, mas o endereço pode
pois elas, quando engajadas, irão en-
mudar e elas continuam exatamente
cantar e reter os clientes. É bom lem-
as mesmas. Elas não são prédios ou
brar que a qualidade externa nunca é
instalações. São conjuntos integrados
maior do que a qualidade interna. E a
de pessoas que formam organizações
qualidade interna está na mescla oti-
e empresas. Elas são entidades so-
mizada de uma cultura corporativa
RBA: O senhor tem vários traba-
ciais. E toda essa diversidade humana
incorporadora; na arquitetura interna,
lhos na área de RH. Em sua opi-
– afinal, as pessoas se caracterizam
que serve de plataforma para conectar
nião, quais os principais proble-
pelas suas diferenças individuais, que
as pessoas; e no estilo de gestão huma-
mas enfrentados hoje nessa área
lhes dão personalidade e individua-
na que os líderes e gestores adotam.
xo dinâmico e interminável. Claro,
muitas dessas mudanças são ótimas
para a saúde organizacional, enquanto
outras são até perigosas, como o caso
das crises que estamos vivendo há
meses no nosso país. Jogo de cintura
é pouco quando tantas interferências
externas devidas à má gestão da coisa
pública colocam pedras pela frente das
empresas. Quase sempre, os pecados
não são dos empresários, que precisam partir para planos contingenciais,
mas de quem deveria cuidar melhor do
entorno geral.
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nas grandes empresas? Por que
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Esse é o arcabouço que proporciona o
organizacional a partir de uma visão
feedback adequado e torna os colabora-
crítica e sistêmica.
dores engajados e satisfeitos.
RBA:
Como
doutor
RBA: O senhor também tem graem
duação em Filosofia e Pedagogia.
Administração e também com for-
Por que decidiu buscar essas duas
mação em Pedagogia, como o se-
áreas também? O que lhe fascina
nhor vê o ensino de Administração
na Filosofia e na Pedagogia? Como
hoje? E a profissão? Vejo que se
elas auxiliam na boa atuação
trata de uma área bastante abran-
como Administrador?
gente, que abre um leque muito grande para os profissionais.
Quais seriam as tendências, tanto
no ensino quanto na profissão do
Administrador hoje?
IC: A Filosofia me deu uma visão am-
Diferente das
demais, a Administração
requer e exige que o
profissional desenvolva
tanto competências
técnicas como
comportamentais.”
pla e dinâmica da vida e do mundo,
enquanto a Pedagogia ajudou-me
com alguma facilidade de comunicação e didática. Minha passagem pela
em constante ascensão, monitoramento precário, falta de controles e
de métricas – afinal, tudo aquilo que
IC: Não quero entrar no mérito da
Filosofia e Pedagogia em minha pri-
questão, mas é claro que a formação de
meira universidade me ensinou mui-
novos Administradores requer novas
tas coisas na vida e agora estou apro-
posturas e práticas pela frente. Afinal,
veitando tudo isso na minha maneira
Administrar. Um total descaso com
o mundo mudou e está mudando a
de explicitar abordagens, conceitos,
o contribuinte que sente que o paga-
todo vapor e não podemos mais prepa-
práticas e mudanças com uma didáti-
mento de impostos altíssimos não lhe
rar nossos futuros talentos com meto-
ca simples em meus livros e uma von-
proporciona o menor retorno. E sente
dologias e conceitos antiquados, que,
tade maluca de escrever.
que toda a sua contribuição desapare-
aliás, nem sempre foram razoáveis
no passado. Acontece que o mundo
da Administração se tornou extremamente complexo, mutável e diversificado. Precisamos reinventar o currículo, o conteúdo, as ferramentas de
apoio à aprendizagem e proporcionar
uma nova e criativa plataforma de ensino que torne o aluno um participante
ativo e proativo, e não simplesmente
RBA: Como brasileiro e referência
na área de Administração hoje,
como o senhor avalia a situação
política do nosso país? Estamos
no caminho certo? Em sua opinião de Administrador, o que
deveria ser feito em termos de
Administração pública para melhorar a Administração do país?
sempre combatemos e o que se pode
lamentar profundamente. Isso não é
ce no meio do caminho, como se evaporasse pelos ralos da corrupção e da
gestão totalmente ineficiente. Em resumo, a nossa Administração pública
vai muito mal. Tudo o que acreditamos e pregamos é ignorado. Não temos
Administradores, mas pessoas que
cuidam da Administração pública sem
saber exatamente o que fazem, por que
fazem ou como fazem. Precisamos de
um espectador passivo e inerte. O foco
IC: É uma pena que em decorrência
deve estar no aprender e incorporar
de decisões erradas e eivadas de ide-
conhecimento e competências e não
ologias ultrapassadas e malsucedidas
apenas no transmitir e ensinar temas
chegamos à situação atual em nosso
e conceitos. O importante é que o novo
País. Total des-Administração: pro-
Administrador seja preparado com
jetos paupérrimos, superficiais e mal
RBA: Para quem pretende atuar na
ferramental cognoscitivo adequado
planejados, execução amadora e to-
área de Administração no Brasil,
para constituir um agente de mudança
talmente ineficiente, perdas e custos
que conselhos o senhor daria?
Administradores e de estrategistas, e
não de curiosos, amadores ou políticos. O lugar de políticos é na política, e
não na Administração.
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Entrevista
IC: Há dez anos escrevi o livro Cartas a
operações, excelência, concorrência,
repleta de problemas, burocracia rígi-
um Jovem Administrador, no qual me
competitividade, sustentabilidade e
da e trabalhosa, total falta de apoio às
preocupei em dar alguns conselhos e
um sem-número de outros desafios.
empresas. E de lambuja trabalha com
uma visão ampla e geral da área a es-
Isso me lembra da figura daquele ar-
gente – aliás, com equipes de pessoas,
tudantes de Administração. Ela é uma
tista de circo que precisava equilibrar
aspecto que constitui a essência do
profissão diferente das demais, pois
vários pratos, girando-os simulta-
seu trabalho e que representa a parte
envolve competências que as outras
neamente sobre palitos. Além dessa
positiva de seu trabalho.
profissões não requerem tanto para
miríade de circunstâncias que giram
o sucesso do profissional. Diferente
ao seu redor, o Administrador preci-
das demais, a Administração requer
sa atender e satisfazer uma enorme
e exige que o profissional desenvolva
variedade de stakeholders, cada qual
tanto competências técnicas como
com suas diferentes expectativas e
comportamentais. E que lide com uma
exigências. Além disso, enfrenta a
amplitude de variáveis muito mais
concorrência de amplitude planetá-
amplas e complexas: como mercado,
ria. E as pedras no meio do caminho
organizações, negócios, público, so-
que a gestão pública lhe oferece em
ciedade, ecologia, produtos, serviços,
termos de complexidade tributária,
metas e objetivos, estratégias, táticas,
infraestrutura basal insuficiente e
Mas isso tudo não deve meter medo
em ninguém. Pelo contrário, isso tudo
impõe a quem deseja atuar na área de
Administração o desenvolvimento de
uma visão estratégica. E o que é isso? A
meu ver, um misto de percepção crítica que envolva visão sistêmica – ver o
todo e não apenas uma de suas partes;
visão periférica – sair da caixa e entrever o que está fora dela ao seu redor;
visão antecipatória – entrever as decorrências ou consequências futuras
IDALBERTO CHIAVENATO
das suas decisões atuais. E tudo isso
ao mesmo tempo, como se tivesse três
Registrado no Conselho Regional de Administração de São Paulo
(CRA-SP) sob o número 1142
visões simultâneas. Além disso, essa
visão estratégica impõe um quarto
foco no insight ou intuição – uma per-
Presidente do Instituto Chiavenato, consultor, professor e conferencista
das principais Universidades de Administração do Brasil, Espanha
e América Latina, possui dois títulos Honoris Causa no exterior por
sua contribuição à área de Recursos Humanos e é reconhecido e
prestigiado pela excelência de seus trabalhos em Administração e em
Recursos Humanos
cepção a respeito de para onde as coisas estão indo. Você pode até pensar
que é muito, mas até um excelente jogador de futebol consegue reunir todo
esse conjunto de percepções: em um
rápido relance de olhar ele sabe o posicionamento dos colegas e adversários
Autor de mais de 30 publicações em língua portuguesa, autor de 17
livros em espanhol, sendo o escritor brasileiro com o maior número de
no campo de futebol (visão sistêmica),
publicações na língua espanhola.
seus colegas e adversários (visão pe-
ouve os gritos e pedidos da plateia aos
riférica), percebe para onde colegas e
adversários estão correndo (visão an-
É doutor e mestre em Administração pela City University of Los
Angeles-CA (EUA) e especialista em Administração de Empresas pela
FGV-EAESP. Desta última, também foi professor convidado. Além disso,
é graduado em Filosofia e Pedagogia, com especialização em Psicologia
Educacional pela USP e em Direito pela Universidade Mackenzie. Hoje,
entre outras atividades, atua como conselheiro do CRA/SP
tecipatória) e imagina onde a bola vai
estar (insight e intuição). E é lá que ele
vai estar para marcar o gol que definirá
a partida. Difícil? Acho isso maravilhoso! É só saber juntar essas visões e
o estrategista estará pronto para o que
der e vier. E boa fortuna para todos.
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